Depoimento de J. A. Zanerip | Lua de mel

Segunda parte

Agora, após a tempestade, cada um procurou o seu ninho. Os alemães instalaram as suas vendas no outro lado do rio Mãe Luzia, por sentirem-se mais protegidos dos ataques dos bugres, como eram chamados os índios.

Os Zanerip, sendo pescadores e construtores de suas próprias embarcações na Letônia, no mar Báltico, e muito acostumados a lidar com madeira, construíram uma ótima lancha para atravessar o rio e ser usada pelas pessoas que iam fazer compras nas vendas dos alemães do outro lado do rio. Mais tarde construíram uma balsa para permitir a passagem de carroças de quatro rodas puxadas por cavalos, carregadas de mantimentos, muito usadas pelos alemães, e tudo de uma só vez.

Assim a vida corria monótona; menos mal, pois recebiam e faziam muitas visitas aos letos que ficaram morando em Mãe Luzia. Como esses eram todos batistas, meus pais quiseram ingressar também na igreja batista. Mas havia um problema: eles só eram casados na igreja luterana, o que naquelas épocas era válido na Europa, mas não diante das leis nacionais do Brasil.

A igreja batista achou que as leis brasileiras deviam ser respeitadas e que era necessário regularizar a situação. Desse modo foi realizado um casamento um tanto curioso, os Zanerip fazendo sua “lua de mel” já com sete pimpolhos, faltando somente a caçulinha.

Depois de tudo posto em ordem, faleceu o nosso pai, desnorteando a nossa vida.

Agora os filhos mais velhos, cansados do isolamento dos outros, do nosso povo, resolveram vender tudo e procurar um terreno mais próximo ao Rio Novo. Acharam um terreno bastante montanhoso, mas com uma várzea muito fértil, junto às barrancas do Rio Laranjeiras.

Depois foi a vez da vinda da mudança, que veio de carro de boi. Levou dois dias e uma noite para fazer o percurso de Araranguá até o Rio Laranjeiras. As terras compradas pela minha mãe, Eva Grimberg Zanerip, foram adquiridas em prestações [anuais] de R$200.00 [duzentos mil reis], e já eram de segunda mão.

Aqui terminam as histórias contadas pelos meus familiares e não vividas por mim. Agora a nova vida em Rio Laranjeiras.

* * *

[continua…]

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Depoimento de J. A. Zanerip | Um ataque iminente de índios bugres

Primeira parte

Em primeiro lugar quero aqui contar os fatos ocorridos antes da minha existência, narrados pela minha mamãe. Não posso contar nada que tivesse sido contado por papai, porque ele faleceu quando eu só tinha pouco mais de três aninhos de vida, e do papai quase não lembro nada.

Contou-me Eva Grimberg Zanerip, minha mamãe, que logo depois do desembarque no porto de Laguna, estado de Santa Catarina, um grupo de letos e alemães fizeram uma festa de confraternização. Cortaram duas varas compridas e improvisaram duas bandeiras, da Latvia [Letônia] e da Alemanha, e como os alemães e meus pais eram bons luteranos, encheram a cara de schnabs [cachaça]. No dia seguinte pegaram o trem para Orleans. Por incrível que pareça a foto tirada na ocasião ficou comigo até a festa do Centenário na Colônia Varpa em 1992, quando entreguei ao pastor Osvaldo Ronis, para ser juntada a outros documentos históricos.

Na verdade a chegada dos primeiros letos [ao Brasil, em Santa Catarina] não se deu em 1892, como é narrado incorretamente no livro Uma Epopéia de Fé, escrito pelo pastor Ronis, mas sim em 1890.

Chegando em Orleans seguiram por uma trilha que ziguezagueava dentro da mata até o acampamento já preparado por colonizadores em Rio Novo.

Meus pais e outros letos permaneceram algum tempo por lá, mas não gostaram por ser bastante montanhoso. Alguns letos foram para Mãe Luzia. Os Zanerip, acompanhando alguns alemães, foram mais longe, onde as terras eram mais semelhantes às da Latvia [Letônia]: um lugarejo chamado Araranguá (mais tarde minha terra natal).

Ao chegar ao acampamento, tiveram a triste notícia de um ataque iminente de [índios] bugres, como eram chamados. Sabendo que o ataque seria inevitável, prontamente escolheram um alemão chamado Guilherme Hans para organizar a defesa.

Esse alemão era o mais abastado da região; sabedor que vinha para uma terra ainda coberta de matas virgens, onde havia muita caça, tinha trazido muitas espingardas e muita munição — um verdadeiro arsenal de guerra. Ele determinou que se carregassem as espingardas até a boca com chumbinho mostarda [fino] para não matar ninguém. A uma distância de 100 metros nem atravessa a pele, mas dá uma tremenda chamuscada. O chumbo grosso seria usado em último caso, pois não se queria a morte de ninguém.

Na véspera do ataque a noite passou calma, mas ao amanhecer os índios atacaram com uma tremenda gritaria, e foram recebidos com uma tremenda salva de tiros.

Pobre da bicharada, não puderam sequer se aproximar do acampamento. O chumbinho fino fez uma cortina, e foi suficiente para que os bugres fugissem apavorados, mas foram perseguidos até os costões da serra, e lá se esconderam entre os paredões de rochas.

Na fuga abandonaram uma criancinha, uma menina, que foi adotada e criada por um casal que não tinha filhos, o senhor João Akeldamis e senhora. Mais tarde eu a conheci, era uma linda menina moça.

* * *

[continua…]

Igual à de um colono qualquer | Fritz Jankowski a Reynaldo Purim

Rio Branco, 27 de julho de 1920

Querido amigo Reinold:

Recebi de você duas cartas, uma já há tempo, logo que cheguei de Rio Novo, e uma uns cinco dias atrás. Muito grato por tudo: notícias, conselhos e inquirições. Nesta carta quero no mais possível transmitir minhas emoções de coração aberto.

Você pergunta qual o motivo da minha tristeza e depressão. Agora quero te asseverar que nenhum mortal exceto você tem ouvido de mim tantas lamentações e tão grande falta de esperança.

O principal motivo que deixou o meu coração tão desesperançado e sombrio que deixou rastros negros na carta que naquele momento dramático te escrevi — você, sendo meu amigo; sendo que nossos pensamentos e opiniões sempre coincidiam como com nenhuma outra pessoa, você em quem eu via os hábitos e sentimentos muito mais completos, maduros e fortalecidos do que os meus, — é que eu tinha a sensação de ter cometido um erro irreparável em ter abandonado a escola [o Seminário].

Por quê? Por causa de insignificantes e infundados motivos. Falando mais claramente, por enganos traiçoeiros [glhenvilibas]! As palavras escritas em Jó 5:2 eram para a minha alma, amarradas como uma pedra que me arrastava para as profundezas insondáveis e aniquilava minha vontade de viver nesta triste condição.

A isso se juntaram desagradáveis situações na vida de minha família, que ameaçavam roubar as minhas últimas oportunidades de seguir o caminho que tinha escolhido, isto é, o de continuar os meus estudos.

O que aconteceu foi que minha irmã se enamorou secretamente de um jovem alemão, Albert Richter, um sabatista. Quando isso veio ao conhecimento público aquela notícia levantou-nos outros grandes descontentamentos e contrariedades.

Depois de uma longa série de argumentações e conselhos ela cedeu e deixou este rapaz — porém não convencida de que estivesse fazendo algo de errado ou de mau, e sim para obedecer a vontade do pai e dos demais parentes.

Mas não muito tempo depois algo ocorreu através de uma jovem luterana muito alegre e comunicativa que passou a frequentar os nossos cultos: uma cantora de primeira classe e colaboradora da União dos Jovens da Igreja, mas pelos meus pensamentos toda essa atividade era como toucinho na ratoeira para pegar os ratos.

Minha irmã ficou enamorada do irmão desta moça, Karlos Ignowski, e contra este novo relacionamento não há contrariedades.

Esses acontecimentos para nós são amargos, mas sem nenhuma saída, pois daqui há poucas semanas minha irmã Emília com o mencionado jovem vão se comprometer através do enlace matrimonial.

No cartão estavam anotadas as alternativas nas quais durante a viagem mais uma vez recapitulei, e que são as seguintes:

Se nós aqui quisermos restabelecer a nossa vida, eu e meu pai, tenho que assumir e não há meio de fugir da direção das atividades, pois o pai não quer mais, impedido também pela doença.

A outra alternativa seria vender. Poderia vender e voltar para a escola, mas de onde veria o sustento? E onde ficaria o meu pai? Tentamos arrendar a nossa propriedade, mas não apareceu nenhum interessado.

Então meu pai disse:

— Agora meu filho, tu tens que se preocupar pela nossa casa e pela nossa vida diária. Faça tudo como melhor te aprouver, pois destas preocupações quero ficar livre e sob sua responsabilidade viver os meus dias até a velhice. Espero que este fardo não seja pesado demais por minha causa.

Considerando como santa a responsabilidade em atender o desejo do meu velho pai, ainda assim procurei alguma alternativa para conseguir resolver este problema. No fundo mesmo, queria ficar livre desta responsabilidade e dessas preocupações.

Também reconheço que Deus providencia nossa vida em todas as circunstâncias e tudo isso quero aceitar com gratidão, como vindas diretamente de Suas Santas Mãos.

Sob o outro aspecto da vida diária, com alegria posso dizer que eu estou indo muito bem. Minha atividade diária é igual à de um colono qualquer: derrubo matas e capoeiras, arranco tocos para facilitar o preparo da terra, planto árvores frutíferas, negocio o meu arroz etc.

Na igreja ocupo o cargo de Superintendente da Escola Dominical e Secretário Geral da igreja. Damos graças a Deus por nos ter maravilhosamente guiado e pelo período de paz que reina em nossa igreja, pois no passado houve um período um tanto difícil.

Também hoje a harmonia não está completa, pois uma parte da igreja tem por lema trabalhar por missões e a outra tem por lema descansar. Mas na maioria com tranqüilidade concordam, esforçando-se para arrastar todos juntos ao cumprimento do desígnio de uma igreja cristã, que é proclamar Cristo através de missões.

A Escola Dominical vai até de certo modo muito bem, mas o que preocupa é a falta de um obreiro qualificado para cuidar dos alunos que receberam os ensinos e correm o risco de se perder. A Convenção das Igrejas Batistas do Paraná e Sta. Catarina estão convidando para o próximo ano o irmão Carlos Leimann, e estão oferecendo para escolher como centro de atividades os seguintes lugares: Laguna, Itajay e Joinville. Nós estamos torcendo que ele escolha Joinville, pois para nossa igreja seria muito bom.

Sobre a Convenção, uma vista geral e completa pode ser acompanhada lendo “O Baptista”.

Gostaria de saber: que mudanças houve no Colégio e no Seminário? Você ainda trabalha na igreja de Pilares? Como vai a nova Escola Dominical que começaste no ano passado?

Peço que me desculpe pela curiosidade e pela tão longa carta.

Com muitas lembranças, seu amigo

Fritz Jankowski

Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, última parte

continuação da segunda parte

Com preocupação também pelo bem-estar geral da comunidade, em relação à vida diária, foi organizada uma associação de moradores sob a orientação do pastor Inkis. Na realidade foram organizadas duas: o líder eleito para a associação do Rio Novo foi o J. Ochs, e para a do Rio Carlota o K. Seebergs. Como líder e dirigente das reuniões foi nomeado o F. Karps, e para secretário J. Frischembruder. Tudo foi feito com conhecimento e aquiescência do senhor Delegado de Policia de Orleans, Sr. Galdino Guedes.

A administração da associação de moradores tinha poderes para dirimir dúvidas e acertar pequenas desavenças entre os vizinhos — principalmente o que se relacionasse a cercas, porteiras, prejuízos causados pelo gado dos vizinhos em roças de outros, etc., — tendo inclusive autoridade para multar o culpado em Mlrs 5$000 (cinco mil réis), o que em moeda atual seria mais ou menos 20$000 réis. Precisamos anotar que essa multa nunca foi cobrada de ninguém.

A organização da associação de moradores aliviou o trabalho da igreja, pois toda e qualquer dúvida, queixa ou reclamação passou a ser tratada pelos responsáveis pela associação — pessoas vividas e com espírito cristão, que a partir desta postura tratavam todo e qualquer assunto. Nessas reuniões eram também discutidas novas idéias e o planejamento para melhorias na colônia.

A primeira e maior preocupação da comunidade era no sentido de se conseguir uma escola para a nova geração. Dirigiram-se então com uma petição à Empresa Colonizadora Grão-Pará, diretamente ao diretor Sr. Stawiarski, a fim conseguir um pedaço de terras para a comunidade — onde pudesse ser edificados a escola, o templo para a igreja e também o cemitério, — e terminaram conseguindo o terreno.

Em seguida a comunidade elegeu um comitê para a organização da escola, sendo Fritz Karps o dirigente e Juris Frischembruder secretário e tesoureiro. Os demais membros foram o compatriota e agrimensor J. Sarins, J. Ochs, M. Leepkalns, K. Matchs e K. Seebergs. Entusiasmados, os componentes da comunidade juntaram 411$000 réis para a viagem do futuro professor, que deveria vir da Letônia — mas que acabou demorando para vir.

Tendo em vista que a colônia de Rio Novo não tinha como crescer muito mais com a vinda de mais emigrantes da Letônia, já que todas as glebas das vizinhanças estavam tomadas, levando os letos que desejavam imigrar a procurar outras colônias (apesar de que nos vales vizinhos da colônia de Rio Novo ainda houvesse terras não desbravadas cobertas de matas virgens), o pastor Inkis organizou e também participou de expedições para busca e avaliação de novas áreas onde os letos pudessem ser assentados. Atravessaram o Rio Laranjeiras e o Rio Oratório, sobre cujas áreas não houve consenso quanto à viabilidade de aproveitamento. Na outra expedição, realizada nos fundos do Rio Carlota, nas proximidades da colônia italiana, foi encontrado um bom local, onde várias famílias letas se instalaram para morar, mantendo contato com Rio Novo.

Desenvolvendo o trabalho missionário, [o pastor Inkis] nos ensinava ainda hinos em língua alemã. Foram feitos vários cultos evangelísticos nesta língua, tanto em Rio Novo quanto em Orleans, resultando em conversões e filiação à igreja.

Foi também feita uma viagem festiva para a Colônia Leta de Mãe Luzia, que havia sido fundada na maioria por rionovenses. Desta viagem participaram mais ou menos vinte irmãos e irmãs dos coros, todos a cavalo, pois naquela época não havia outros recursos. A viagem durou dois dias e a noite foi passada ao relento, sob a luz das estrelas. Só noutro dia alcançou-se o objetivo da viagem, e também lá o trabalho missionário entre os alemães alcançou sucesso.

Quando a igreja de Rio Novo já se havia revigorado espiritualmente e o pequeno grupo que anteriormente se afastara já havia voltado, tendo sido recebido amorosamente pela igreja, pareceu ter chegado a hora de eleger biblicamente os seus servidores. Aos eleitos para o cargo de diáconos o pastor apresentou uma santa exortação:

— Agora vocês — disse ele — terão de se aproximar mais vezes da porta dos céus, em oração não só por vocês mesmos, mas pela igreja e pelas missões.

E com a imposição das mãos e com oração, num ambiente de reverência marcante, encaminhou-nos para o trabalho da igreja — o que me lembro como fosse agora.

Os sete servidores eleitos e ordenados pela igreja foram os irmãos Fritz Karps, Wilis Slengmanis, Jahnis Klawins, Evalds Feldbergs, Karlis Sebergs, Juris Frischembruders e Karlis Macths.

Os trabalhos da Igreja se desenvolviam muito bem, pois cada domingo que passava a igreja se revigorava e havia sinceros cultos de louvor e adoração. No aniversário de fundação da igreja (20/03) havia festas que duravam vários dias, seguidos com ricos e variados programas. Cantavam diversos coros, de senhoras, de visitantes; chegou-se a ter seis coros participantes.

A igreja, como reconhecimento e gratidão a seus obreiros, presenteou a todos eles com o desejado livro “A terra onde Jesus andara”. O pastos Inkis disse:

— Hoje não comemoramos o Natal, mas mesmo assim vamos distribuir presentes.

Os que receberam as lembranças foram o moderador da Igreja, irmão Fritz Karps; o dirigente do coro do Rio Novo, irmão Juris Frischembruder, que havia recentemente aposentado sua batuta; Karlis Matchs, que também tinha trabalhado como dirigente do coro do Rio Carlota (este era o mais idoso e por isso ganhou um Novo Testamento impresso em letras de tamanho grande); também foram lembrados os novos dirigentes dos coros, Wilis Leeknins e Gustavs Grikis, como estímulo para um diligente trabalho. A organização desta distribuição de lembranças com o intuito de reconhecimento foi organizada sigilosamente e desenrolou-se maravilhosamente, causando uma impressão inesquecível.

Na nossa memória estão guardadas muitas outras maravilhosas recordações, mas quando estamos a escrever devemos guardar limites.

Chegava o mês de abril de 1898; na Europa era início da primavera e aqui outono, época das colheitas. Faz agora quase um ano que o evangelista de Riga trabalha em nosso meio, e os nossos corações curtem os frutos de reconhecimento.

Em segredo absoluto a igreja organizou a festa dos balanços [?] no 14 de abril, que ainda estava em vigor segundo o antigo calendário da velha pátria (quarta-feira da semana santa). Ao redor da residência, junto à casa da família Grauzis onde [o pastor Inkis] se hospedava, foram se chegando na escuridão noturna, em passos silenciosos, grande parte dos habitantes da colônia.

Uma profunda paz noturna cobre toda paisagem. De repente luzes são acesas e um potente coral masculino irrompe com o hino: “Jeová, Jeová”, vibrando frente à porta da casa e ecoando pelo vale afora. Ao mesmo tempo mãos ágeis prendem e penduram arranjos florais e palmas nas portas e ao redor da residência do homenageado. Após este cântico ainda canta um coro misto. Então sai da sala aquele que foi acordado. Cumprimentos. Os cantores e os dirigentes da igreja entram na sala, enquanto os outros participantes silenciosamente se retiram para as suas casa para continuar o repouso. Na sala persiste um silêncio e uma expectativa, como que um estivesse esperando pelo outro ou que viria depois. O pastor Inkis tenta quebrar o silêncio contando um fato que acontecera em um culto “quaker” no qual reinava um silêncio como o daquele momento. Chegados e assentados aguardavam que surgisse uma palavra, mas ninguém parecia inspirado. Longo e interminável silêncio.

Então uma menina levanta-se, e na sua voz infantil teria dito:

— Pois eu acho que nós todos devíamos mais e mais amar o Senhor Jesus.

Foi como se tivessem sido abertas as comportas. Para muitos surgiram motivos para testemunhar do amor de Jesus, e também começou a desenrolar-se o nosso novelo com conversas e hinos. É aniversário, então também há presentes. F. Karps entrega ao obreiro, como presente, uma quantia em dinheiro. Após examinar ele diz:

— Realmente é um presente pesado.

Em seguida recebeu presentes de outras pessoas, depois mais hinos e palavras amáveis. Entre outras coisas, diz o pastor Inkis:

— Pois quando fui dormir ontem (era madrugada), estava sem sono e notei como os cães da colônia latiam mais do que em outras ocasiões. Agora entendo porque. Completei os 26 anos de idade e estou entrando para os 27, e o ano que tenho passado em Rio Novo posso contar entre os mais felizes da minha vida.

Já estava clareando o dia quando nos retiramos, os corações cheios de alegria.

Um belo dia o Sr. Staviarski, diretor da Empresa Colonizadora, enquanto atravessava a colônia de Rio Novo, parou em casa de colonos letos para descansar e tomar um café. Foi ali surpreendido por um grupo de crianças da colônia, orientadas pelo pastor Inkis, que o saudaram com um pequeno hino, “De todo nosso coração, nós saudamos tão caro hóspede, nossos olhos brilham, nossa alegria é real”, e em seguida “Ajuda-nos a cuidar dos pequenos.” Em seguida uma menina lhe entregou um livro de encadernação dourada — “A Terra em que Jesus andara”, em língua alemã, que ele conhecia perfeitamente. Seguiu-se a petição das crianças: que o senhor diretor tomasse as providências para doação de uma gleba de terra no meio da Colônia para que fosse possível ser construída uma escola para elas…

Durante este período houve diversos batismos, que foram festas de muita alegria tanto aqui na terra como no céu. O período de trabalho do pastor Inkis foi um santo tempo, pleno de alegria e crescimento espiritual. Não faltaram momentos de alegria e de descontração, mas também os de firmeza e determinação. Sempre ao lado da verdade e da justiça, ajudava os doentes com conselhos médicos e medicamentos, e sempre compartilhava com os sentimentos tantos os alegres como os de tristeza. Provocava um clima de boa vontade geral; por exemplo, a família Ochs veio ao encontro da necessidade da igreja hospedando o pastor por 6 meses e, em seguida, mais outros 6 meses foram passados na casa dos Grauzis nas mesmas condições.

Depois ter passado um ano em Rio Novo o pastor Inkis tomou o rumo do Rio Grande do Sul, a fim de visitar a colônia leta de Ijuí. No dia da despedida houve uma grande festa na casa dos Ochs, um verdadeiro banquete. O desenvolvimento espiritual, cultural e mesmo financeiro da colônia estava em seus e nossos futuros planos. Em vão ainda tentamos alcançar, mas foi inútil. Não haverá mais…

Depois que o pastor Inkis voltou a Riga nos visitaram em Rio Novo os irmãos missionários americanos do Rio de Janeiro, W.B. Bagby e o Dr. Donan, ambos pioneiros do trabalho batista naquela cidade [Nota de J. Inkis: De minha parte devo informar que as notícias sobre os batistas letos de Rio Novo e sua localização foram cedidos por mim a esses missionários americanos. Quando da minha volta para a Europa fiquei retido uma semana no Rio de Janeiro, capital da República. Ali consegui encontrar uma igreja batista, que em 1899 era ainda a única em toda cidade, e onde também encontrei o missionário que desta pequena igreja era o fundador e pastor. Como vimos, este não planejado atraso proporcionou um encontro que foi fundamental para despertar no missionário o desejo conhecer a igreja do Rio Novo].

O missionário Bagby pregava e cantava sinceramente e poderosamente. Donan falava mais devagar mas, como de profissão era médico, ajudava os doentes e necessitados. Ambos gostaram muito da colônia e adjacências e disseram que o pastor Inkis deveria voltar a este lugar e trabalhar no evangelismo [Nota de J. Inkis: Esta palavra amiga dos missionários se cumpre como profecia 20 anos depois em outra localidade e em outras circunstâncias. Não foi muita vantagem para a igreja de Rio Novo, a não ser o desenvolvimento da literatura evangélica em língua leta, agora mais abundante e de fácil aquisição por ser produzida aqui mesmo no país (Varpa, SP)].

Como inesperado hóspede numa manhã de domingo visitou a igreja de Rio Novo o pastor luterano e nos apresentou em língua alemã um sermão sobre o homem rico e o pobre Lázaro.

F I M

Juris Frischembruders

Texto de Juris Frischembruders com prefácio de Janis Inkis. Publicado na Revista “Kristigs Draugs” (O Amigo Cristão) números 09, 10 e 11 nos meses de setembro, outubro e novembro de 1940.

Leia também:
1. Breve História da Igreja Batista Leta do Rio Novo, primeira parte
2. Breve História da Igreja Batista Leta do Rio Novo, segunda parte

A cidade do pão | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 7 de junho de 1920

Querido Reinold!

Já são passadas várias semanas que não temos recebido cartas suas. A última foi aquela escrita no dia 6 de maio, que chegou aqui dia 22 de maio, e logo mandei a resposta àquela no dia 25 de maio. Agora ao todo você está devendo respostas a três cartas.

Bem, hoje devo imaginar uma maneira e tentar descrever com mais detalhes os grandes acontecimentos do Rio Novo. Nas minhas últimas duas cartas tenho contado alguma coisa, mas isso deve ser uma insignificância para a sua imensa curiosidade.

Bem, agora que todos os mensageiros que vieram a Convenção já devem estar tranquilamente em suas casas, pois já fazem três semanas desde este grande movimento — que até mais parecia um esforço de guerra, considerando-se as múltiplas providências que tiveram que ser tomadas, — «Está tudo nítido na minha memória.»mas não se preocupe: está tudo nítido na minha memória como se fosse hoje que tivesse tudo acontecido.

Preciso começar bem do princípio, para ver até onde consigo chegar agora. Que os mensageiros da convenção não chegaram na data prevista, isso você já sabe; chegaram só no dia 17 de maio. Havia um esquema organizado, que quando chegava algum dos convidados esperados na estação da Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina era imediatamente levado à casa dos Stekert para um lauto lanche; em seguida era determinado um guia para acompanhar o recém-cavaleiro para a viagem ao Rio Novo.

O S. L. Watson estava pesaroso porque não iria se sair bem lá em Rio Novo: ele achava que não haveria ninguém tão alto quanto ele e que teria de ir montado numa “girafa” — mas quando viu o Conrado e o João Frischembruder, disse que não era ele só que estava nas alturas, quase alcançando as nuvens. O Butlers afirmou que no Rio Novo ele iria ver pessoas ainda mais altas. Na realidade nenhum dos nossos era tão alto quanto ele, pois ele podia olhar todos por cima.

[NOTA: Stephen Lawton Watson (1880-1966) era missionário norte-americano da Junta de Richmond. Foi diretor Geral da Casa Publicadora Batista e Secretário-Tesoureiro da Junta Patrimonial do Sul do Brasil]

Lá na saída [de Orleans para Rio Novo], quando o Butlers já tinha designado e dividido os grupos, e ao começar a viagem, o Butler disse que quem quisesse uma viagem de verdade, mais longa, poderia optar por se hospedar nos Leiman ou nos Klavin, que moravam bem mais longe, e neste momento os jovens senhores alemães de Curitiba a uma só voz se candidataram para essas vagas, pois queriam ter este prazer. Porém eles logo perceberam que não era tão agradável andar a cavalo para pessoas como eles, que não estavam habituados. E levantou-se ainda o problema de ter de ir e depois voltar em tempo para a igreja, onde iriam começar as conferências.

O Roberto [Klavin], diante deste contratempo, e vendo que já eram três horas da tarde, deixou os hóspedes dos Leiman na casa dos Osch e os dele na nossa casa. Os demais tinham ficado longe para trás desses heroicos cavaleiros. O Roberto sim, foi a cavalo até em casa na Invernada para trocar de roupa, pois não tinha vindo com traje apropriado. Pela manhã, quando ele saiu de casa, estava nublado e parecia que iria chover de novo o dia inteiro, como tinha acontecido na véspera, em que deu um grande temporal. Mas nesse dia não demorou para que as nuvens se dispersassem, e lá pelo meio-dia já estava um sol muito bonito.

Assim continuou com tempo bom todo o período dos trabalhos, apesar de alguns dias ameaçar a ficar nublado — mas em seguida limpava tudo outra vez.

O Watson foi o hóspede de honra do Oscar Karp, pois [o Oscar] tinha sido aluno dele. Os Karp estavam propensos a não hospedar ninguém, mas quando souberam que o Watson viria candidataram-se imediatamente, pois se o Watson chegasse em alguma outra casa e perguntasse por que o Oscar não havia voltado para a escola, poderia ouvir algumas explicações que talvez não ficassem bem. Pelo sim ou pelo não, «Alguns letos pensam que são os mais inteligentes do mundo.»acharam melhor que o Watson ficasse na casa deles, assim poderiam dourar a versão sob o prisma que mais convinha, e ainda acompanhá-la de todas as explicações necessárias.

Andar a cavalo não era o forte do Watson, pois na volta dos trabalhos da noite ele veio a pé; quando passou por frente de nossa casa ele teria perguntado “como se chamava esse lugar”, pois “não eram nem prassas nem avenidas” [NOTA: em português no original].

Na primeira noite o templo estava repleto de gente. O primeiro hino a ser entoado foi o 96 do Cantor Cristão. O Onofre nesta primeira noite não estava presente, portanto a parte devocional foi dirigida pelo pastor Manuel Verginio de Souza, que é um eloquente orador e nem por isso orgulhoso; pelo contrário, é muito humilde.

Nesta primeira noite foi eleita a diretoria: o Presidente foi o Butler e o Secretário o Manoel. Na mensagem de boas vindas o Butlers falou que o Rio Novo era como Belém da Judéia, “a cidade do pão”, e que aqui o pão também é muito abundante. No final o Deter recomendou que nem por isso deveriam tentar comer tudo. Ele já tinha estado outras vezes aqui e sempre fora muito bem tratado, e assim gostaria que acontecesse quando viesse em outra ocasião.

Os trabalhos da noite não foram longos, pois todos visitantes estavam exaustos da viagem e sonolentos, e para muita gente chegar em casa à meia-noite não estaria perto.

Foi quando o Leiman levou os seus hóspedes até o Rodeio do Assucar e o Roberto os dele até a Invernada. Foi uma longa viagem a cavalo, mas só tiveram de fazê-la uma vez, pois para lá não mais voltaram. Na segunda noite eles dormiram na casa dos Osch e passaram a tarde na casa do Butler, e nas noites seguintes nas casas dos Frischembruder e dos Slengman.

Sobrava muito tempo para passear pelas casas, pois os trabalhos na parte da manhã começavam as dez horas e terminavam à uma da tarde, e a noite novamente na igreja. Aqui não deram certo as três reuniões por dia, como estava previsto no programa, devido às consideráveis distâncias.

No segundo dia, dia 18, quem abriu o programa foi o Edmundo Assenheimer de Curitiba, contando que os pais dele eram de Criciúma e tinham mais tarde morado em Tubarão. Tinham conhecido o Fritz Leiman, que pregava e dirigia cultos em Laguna. Logo em seguida falou o Watson, sobre a Grande Campanha e sobre o texto que aparece sempre no Jornal [Batista] (aliás ultimamente o Jornal quase só fala nessa Campanha).

Bem, os rionovenses ouviram em alto e bom som que a nenhum crente será permitido ficar cochilando enquanto tudo mundo trabalha. [O Watson] de fato tem uma voz tão forte que partia os ouvidos das pessoas; ninguém conseguia falar tão alto que nem ele.

Sobre a Grande Campanha também falou o Fritz Jankowski, e disse que a Convenção das igrejas de Santa Catarina e Paraná estava desafiada a, com esforço vitorioso, conseguir os 45 mil, sendo nove mil por ano. Disse ainda que seria desejável que fosse na média 11 mil por ano, o que daria para cada membro 22$ por ano (e o que são 2$000 por mês?) — assim haveria dinheiro para os obreiros em Laguna, Desterro e ainda em outros lugares mais.

O pastor Manuel disse que deve ser adotado o “dízimo”, que foi aceito como regra nesta convenção, mas vamos ver se aqui no Rio Novo isso vai funcionar. Como disse o Butler, uma pequena corrente, como que de água, não queria que houvesse a convenção aqui, dizendo “o que querem essas pessoas importantes de fora, só querem é dinheiro para viver e se vestir bem” — mas agora esses têm a oportunidade de saber que essas pessoas que diziam ser orgulhosas e prepotentes são obreiros honestos e ativos que não medem sacrifícios em prol da Causa. Por isso ninguém deve falar sobre o que não tem certeza; ele sabe como cada um aqui vive e se veste, e quando se fala em Missões são muito poucos que contribuem.

Nesta corrente não são muitos: os Seeberg, os Karklim, os Bruver, o Guilherme Balod e os Match foram os abertamente contra a realização da convenção aqui. Chegaram a dizer que quisesse as conferências aqui no Rio Novo que se preocupasse com hospedagem e alimentação. Ainda bem que muitos dos que não tinham hóspedes fixos com muita boa vontade procuravam convidar os visitantes para as suas respectivas casas para servir refeições. Mesmo se tivesse vindo outro tanto mais gente não teria faltado alimento para ninguém. Isto apesar do bloqueio dos acima mencionados.

Alguns letos pensam que são os mais inteligentes do mundo, e por isso não querem ouvir nada, demonstrando por este comportamento que são na verdade uns grandes bobos.

A reunião da noite foi iniciada pelo Fritz Jankowski; em seguida o Watson discorreu sobre a importância da Escola Dominical, dizendo que os professores devem se preparar bem para poder ensinar os outros.

Não passou uma reunião onde ele deixasse de falar. Mesmo onde no programa estava determinado para o Butler falar era o Watson que falava. Naquela noite o Abraão de Oliveira apresentou o sermão que preparara durante o ano inteiro.

No dia 19 pela manhã foi dada a abertura dos trabalhos com um culto devocional dirigido pelo Klava e em seguida o Frischembruder e o Leimanis conseguiram convencer o plenário da necessidade da participação também das igrejas brasileiras na campanha em prol dos Refugiados da Guerra da Região do Báltico; será determinada uma data para uma oferta especial neste sentido.

Em seguida falou o Onofre sobre a premente necessidade de obreiros brasileiros em Sta. Catarina. Disse que pelas características do povo é muito mais eficiente o trabalho de um pastor ou pregador brasileiro do que um de origem estrangeira. Falou também que a igreja de Rio Novo estava deixando o pastor Butler ir embora devido ao baixo salário que ele vinha percebendo. Que queria, quando viesse um obreiro para Laguna ou Tubarão, que a igreja de Rio Novo desse apoio com a música e cantos.

Naquela noite quem deu início aos trabalhos foi o Roberto [Klavin]. A esposa do Deter tocava harmônio e os visitantes de Curitiba cantaram. Ela é uma excelente musicista e grande cantora.

Na quarta-feira quem deu início aos trabalhos foi o pastor João Henke de Curitiba. Também nesse dia o Watson falou que as igrejas devem se preocupar com os seus templos, e que agora no Rio de Janeiro existe um banco que paga juros para as igrejas que tem algum dinheiro sobrando e depois empresta às igrejas que precisam de dinheiro para construir, para que possam o mais breve possível sair do aluguel — pois esse, por mais que se pague, [a propriedade] nunca passa a ser da igreja, e é melhor um pequeno cantinho que é seu do que um grande palácio que pertence a outrem. É claro que essas pessoas têm uma visão mais ampla do que certos “sábios” daqui do Rio Novo.

Nesta noite também teve a ceia do Senhor. A esposa do Dr. Deter falou sobre o trabalho da Sociedade de Senhoras das igrejas, e o que elas podem fazer para arranjar dinheiro para as missões. E novamente falou o Watson, agora sobre o Seminário.

Na sexta-feira só houve trabalho pela manhã, pois foi a última da convenção. A esposa do Deter tocou novamente o harmônio e o Abraão cantou um solo o N. 41 do Cantor. Ele é um excepcional cantor com uma potente voz e também é um grande músico; ele disse que não imaginava que os letos soubessem cantar em brasileiro. Ainda bem que o Butler ensinou uma grande quantidade de hinos novos em brasileiro, então por aí você vê que agora neste ponto está muito melhor que antigamente. A esposa do Dr. Deter também cantou um solo. O coro da Igreja de Rio Novo também cantou os seus longos hinos. e os músicos com suas cordas e sopro tocavam todo dia.

Os outros detalhes pela ordem eu não conseguiria escrever e nem valeria a pena, pois você vai ficar sabendo de um jeito ou outro. O último hino que todos cantaram juntos foi o 75 do Cantor.

Você imagina uma festa desse tamanho no Rio Novo? Não. No Rio Novo com tanta gente nunca houve. E com tantos pastores de uma só vez e ainda um negro que fez um dos mais importantes sermões!

Ano que vem a Convenção será em Curitiba a começar do dia 8 de maio, e o orador oficial será o Butler, que agora tem quase um ano para se aprontar. O Butler fica somente este mês como professor e pastor, porque ele em breve embarca para Curitiba para ficar no lugar do Deter, que vai embarcar em setembro para América. Vamos ver quem será que vai ser o novo professor, porque agora a escola é do governo. Sem ninguém ela não vai ficar. A terra o Butler não vai vender porque a Kate vem morar aqui e vai cuidar do velho; tudo vai ficar como está até o ano que vem, quando ele vai embora mesmo.

Bem, devo terminar porque você não vai ter tempo para ler esta carta, e a tua curiosidade estará sobrecarregada de tanta novidade. Se quiser mais escreva mencionando o que queres saber que eu tento responder, pois não sei mais o que possa te interessar.

Quero que você escreva bastante. Que sempre esteja passando bem. Com uma sincera saudação,

Olga

O profeta Pedro Silman e a profetiza filha do Strauss | Robert Klavin a Reynaldo Purim

29 de fevereiro de 1920, Mãe Luzia

Querido amigo!

A tua carta do dia 15-2 recebi esta semana; como não foi possível responder para o Rio Novo, vou enviar esta para o Rio de Janeiro.

Na semana retrasada estive em Campinas [Araranguá] com o Professor e outros de Mãe Luzia, e também alguns do Rio Novo, como um Leepkaln e dois dos Maisin. Aqui de Mãe Luzia saímos no sábado antes do meio dia, e a noite estávamos em Campinas. Nosso trajeto era margeando o Rio Mãe Luzia no sentido da foz, isto é descendo o rio. As várzeas das margens são de uma terra excepcionalmente boa, e a vegetação e as plantações demonstram sobejamente. As barrancas do rio quase sempre são altas e as várzeas são úmidas, como um banhado. O arroz é muito bonito, está plantado inundado, mas poderiam ser feitas valetas e trabalhado no seco, e assim poderia se plantar de tudo.

Aqui de modo geral é tudo plano e em muito poucos lugares se encontram pequenas elevações ou alguns morrinhos. Morros grandes realmente não existem. Mesmo a vilazinha de Campinas se encontra num lugar muito lindo e também muito plano. O mar está há menos de duas horas de viagem, mas lá para baixo o rio fica mais largo e fundo e para atravessar: são necessárias balsas para passar, pois de outra maneira não seria possível. Em muitos lugares consegui ver as marcas e vestígios de até onde o rio na cheia tinha inundado. O rio atingira parte das culturas com tanta intensidade que chegara a cobrir completamente as plantas nas partes mais baixas, mas a vantagem é que sendo as águas muito tranquilas não fizera nenhum estrago ou prejuízo, e em baixando as águas tudo volta ao normal.

De Campinas saímos em viagem para a casa do Augusto Sanerip há 1 ½ horas de viagem, onde chegamos bem tarde. O Augusto tinha organizado uma festa de aniversário para ele próprio. Eu não fui atrás da festa e sim para conhecer aquelas redondezas, mas a pressão dos colegas para ficar na festa foi muito grande. Quando lá chegamos já tinham chegado os amigos dele e outros conhecidos, na maioria alemães, e naquela noite em dormir ninguém conseguiu pensar, com o som das músicas e cantorias que correram solto a noite inteira sem dó nem piedade. Todos os outros participaram da festa e eu não podia sair, mas fiquei conversando com outras pessoas e logo amanheceu e daí partimos para a casa do Joeff Herr. Ele é um batista, alemão e conhecido meu, que antes morava em Mãe Luzia.

Lá conseguimos dormir por mais ou menos duas horas. Logo depois do meio-dia saímos de volta para a casa do Augusto Sanerip, e lá pelas 4 horas da tarde saímos de volta para Mãe Luzia. Neste trajeto vim junto com dois dos filhos do Klava.

Logo o sono começou a apertar tanto que resolvemos dar uma cochilada na beira da estrada, mas os mosquitos e pernilongos não nos deixaram em paz. Resolvemos tirar os “palos” [capas de montaria para proteção da chuva e frio] para nos protegermos desses invasores incômodos, mas aí o calor se tornou nsuportável. Então resolvi com a mesma capa fazer uma espécie de barraca para proteger os braços e a cabeça, deixando um buraco para entrar ar, mas os bichos entravam por aí e picavam sem trégua. Por aí você pode deduzir que o tal cochilo não deu em nada.

Montamos e continuamos em frente chegando a Mãe Luzia quando a meia-noite já estava de longe passada.

No sábado passado houve aqui em Mãe Luzia e região uma chuva torrencial que gerou uma enchente tal que os moradores daqui não lembram de outra igual por aí. Os riozinhos que escoam para o Mãe Luzia se tornaram grandes rios. O Mãe Luzia, com uma largura descomunal, serpeava vagarosamente, fazendo o seu caminho em curvas suaves em direção do mar.

Os domingos aqui em Mãe Luzia são realmente muito quietos. Os cultos são realizados somente aos domingos pela manhã, e à noite não há nada mesmo. O clima também não tem se apresentado muito favorável. Agora parece que sentiram que alguma deve ser feita, então ontem à noite houve ensaio de hinos dirigido pelo Seeberg e na noite do domingo que vem também haverá.

O Rudolfo Andermann voltou com o seu partido [de pentecostais] e trouxe junto o profeta Pedro Silman e a profetiza filha do Strauss. Ela está voltando de Ijuy RS. Agora estão planejando outra viagem missionária: vão a Ijuy e depois ainda dali querem ir até o Paraná.

Eles continuam pulando nos cultos segundo e seguindo os seus costumes. Muitas pessoas vão para observar. Eles não querem que eu vá e mantém as portas trancadas; só deixam entrar quem eles querem.

Uma das noites pessoas forçaram a entrada do local da reunião e jogaram pimenta moída lá dentro. Dizem que foram letos que fizeram esta brincadeira. Eu não apoio nem entro para uma turma que faz estas coisas, mas ambém não tenho interesse de ver este espetáculo: o que eu vi naquela viagem na Linha Telegráfica foi suficiente. Mas têm pessoas que vão todas as noites.

Quanto a possibilidade de eu ir estudar, vamos ver como as coisas vão se desenrolar. Tudo isso está nas mãos de Deus. Eu sempre tenho pensado sobre isso, mas não consegui chegar a uma conclusão definitiva. Também sei que não seria fácil e tenho avaliado, se começar, das minhas possibilidades de ir até o fim. O grande e maior problema seria a subsistência, pois se tiver que trabalhar e enfrentar todas as matérias com a pouca base, seria muito temerário. Outro problema meu seria a saúde, pois ela não é estas coisas e já algumas vezes estive em situações bastante críticas. Agora não tenho estudado nada, mas quando voltar para o Rio Novo devo voltar a estudar, pois daqui em diante as noites vão ficando cada vez mais compridas.

Aqui quanto ao trabalho ainda não terminamos. Possivelmente lá pelo dia 20 estaremos terminando.

No que se refere a livros para os meus estudos, espero que você me mande, pois tenho certeza que você sabe o que eu mais necessito e aqueles que são realmente importantes. Depois me mande a conta para que eu possa pagar.

Neste momento, graças a Deus, estou bem e com saúde.

Muitas e sinceras lembranças de seu amigo,

Roberts Klavin

Um belo futuro | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 27 de maio de 1919

Querido Reinold,

Primeiramente receba muitas lembranças. Na segunda feira passada, dia 19 de maio, recebemos a tua carta escrita no dia 7-5-19 e também os jornais enviados a 4-5-19. Muito obrigada. As cartas anteriores, bem como os jornais, já foram recebidos. Ainda não pude escrever as repostas, mas mandei um Cartão Postal no dia 29 de abril, outro no dia 17 de maio e uma carta em 4-5-19.

Nós estamos passando bem. Agora estamos com saúde, mas no domingo passado o Paps estava doente.

Bem, desta vez tenho muitos assuntos para escrever. É possível que você já saiba que o Deter esteve no Rio Novo, pois escrevi algumas linhas no cartão postal, então agora vou tentar descrever mais ou menos pela ordem dos acontecimentos. Já deveria ter escrito, mas o tempo passou tão depressa; os dias são tão curtos, à noite há outras coisas para fazer e ainda com o querosene faltando, a gente tem que apagar as lâmpadas logo e ir dormir. Os domingos também passaram rápido e por isso não deu para escrever.

O missionário Deter chegou em Orleans no dia 6 de maio com o trem da noite. Pude vê-lo naquela mesma noite, pois ele pernoitou na mesma casa onde estou hospedada, da família Stekert. Mas ele não está como daquela vez, que precisava andar de muletas. Nem bengala ele usa mais. Está mais gordo e um pouco grisalho. Naquela noite o pessoal foi dormir depois da meia noite, pois aproveitou para ouvir contar os mais variados acontecimentos das viagens e da vida dele. Ele também, na base da brincadeira, falou que logo na primeira noite teve a grande chance de conhecer o mundialmente famoso “Sr. Grünfeld”. Na outra vez em que o Deter esteve aqui o Grünfeldt estava em Desterro e assim o Deter não teve a grande oportunidade de conhecê-lo.

A primeira coisa que ele [Grünfeldt] fez foi se queixar e falar mal do pastor Butler, com o qual ele agora não se dá bem, como acontece com todos os outros pastores. Ele chegou à conclusão de que no Brasil não haveria um pastor de seu agrado; disse que quem sabe no mundo inteiro não houvesse um pastor que o agradasse. O Grünfeldt disse ainda que o Rio Novo é semelhante ao reino de Judá: quando o rei era fiel a Deus o povo prosperava, e assim também acontece com os pastores de hoje…

O Deter só escutava, e quando o Grünfeldt foi embora ele disse que sendo pastor e conhecendo grande parte do mundo não chegou a conhecer todos pastores do mundo, mas o Grünfeldt, que mora e sempre morou no Rio Novo, conhece. Disse ainda que não precisou de cinco minutos para perceber e reconhecer que ele [Grünfeldt] é um dos tantos que existem pelas igrejas procurando culpados e defeitos nos outros; para ele nada presta, e assim não vai chegar a lugar nenhum e somente atrapalhar os outros.

E ainda não contei da parte política: quando o Grünfeldt começou a falar mal do Brasil e disse que se o Deter fosse brasileiro teria vergonha, o Deter disse com firmeza e tranqüilidade que seria melhor, se ele realmente gosta tanto da sua “Faterland”, que ele se mudasse para lá. Mas ele continuou dizendo que não tinha governo nenhum e que o idioma alemão deveria ser obrigatório em todas as escolas do Brasil e que os alemães são de longe mais cultos. O Grünfeldt é como o Janzis Arais, que diz que se conseguisse as rédeas do governo levaria o mundo direto para a lua. Mas para sua infelicidade eles não conseguem tomar o leme do mundo…

No outro dia o Butlers e o Roberts trouxeram um cavalo e levaram o Deter para o Rio Novo. Na outra vez ele precisou usar o selim próprio para mulheres, mas desta vez usou uma sela normal e seguia na frente deixando os outros para trás. Naquela mesma terça-feira teve culto na igreja do Rio Novo. Também na quarta e na quinta. Eu não fui nenhum destes dias, pois estávamos em Orleans e costurávamos até a meia-noite. O tempo estava quente e seco todas estas três semanas. No sábado eu cheguei em casa tarde, e com exceção do Puisse [Artur Purim] os demais tinham ido a um culto lá no Rodeio do Assucar na casa dos Leiman. Foi um grande culto, pois tinham vindo muitos brasileiros e muitos do Rio Novo. Desta vez o missionário Deter ficou na casa dos Frischembruder e daí eles também foram juntos ate lá. Neste culto os cânticos em brasileiro se desenvolveram muito melhor do que no Rio Novo, graças ao trabalho de ensino de música no tempo do Arthur Leiman.

No domingo pela manhã fomos todos à igreja do Rio Novo, pois não houve culto lá nos Leimann. Depois do culto houve uma assembleia dos comitês de ambas as igrejas, quando os nossos líderes fizeram uma explanação das condições em que ocorreu a cisão. O Deter então fez uma explanação das razões e vantagens que uma reunificação traria, principalmente nas áreas de evangelismo. Como a igreja de Rio Novo é a maior das províncias do Paraná e Sta. Catarina, ela deve ser a líder na área da Associação, e conseguir maior número de obreiros nas áreas de missões — obreiros que poderiam ser estrategicamente colocados em Laguna ou em Tubarão e assim dar assistência a toda região. Agora sai um trem de Tubarão para Campinas [hoje Araranguá].

Então eles ficaram deliberando, e não era permitido discutir assuntos do passado nem desrespeitar as regras parlamentares, mas no caminho para casa alguns não agüentaram e começaram a descarregar a tensão lá acumulada. Então, com a orientação do Dr. Deter, foi decidida a realização de uma sessão extraordinária da igreja de Rio Novo, cuja pauta seria unicamente a determinação do envio de um convite para que os irmãos que fazem parte da outra igreja [em Rodeio do Assucar] aceitem a proposta de reunificação, uma vez que não há nenhuma objeção doutrinária ou de qualquer outra natureza, a não ser falta de boa vontade de ambas partes; que voltem como irmãos e irmãs, que não se procurem causas e motivos do passado, os quais não trariam nada de positivo.

Na outra semana um mensageiro da igreja de Rio Novo compareceu na nossa igreja com a carta convidando a mesma para a reunificação. Ultimamente a nossa igreja estava um tanto fraca. Os jovens todos saíram e não havia ninguém que pudesse a ensinar a cantar. A Escola Dominical era dirigida pela Emma pois a Milda não mostrou boa vontade. O Roberts vai para Larangeiras atender o trabalho lá. O Arnaldo está nas Serras. Então, naturalmente, virá a unificação!

No dia 12 de maio o Deter e o Butler com a sua Marta foram a cavalo para Mãe Luzia. Lá houve cultos solenes muito concorridos e festas de batismos. Também estiveram em Campinas [hoje Araranguá] onde realizaram culto no Forum, e na volta fizeram mais um culto em Nova Veneza. A igreja de Mãe Luzia fez uma coleta para ajudar nas despesas de viagem do Pastor Deter, que rendeu 97$000. Lá ele ficou uma semana.

No sábado à noite, dia 17 de maio, quando eu voltava de Orleans em direção do Rio Novo, encontrei o W. Slengmann, que começou contando que o velho Stekert havia sido encontrado morto em sua casa. Em Orleans ninguém sabia de nada disso. Na terça-feira ele havia estado em Orleans e tinha falado que como no próximo domingo não estariam os pastores no Rio Novo ele viria a cavalo passar o fim de semana em Orleans. Os demais da família estavam todos em Orleans [NOTA: A família Stekert tinha dois domicílios: um na cidade, próximo à Estação da Estrada de Ferro, outro no Rio Carlota. Foi nessa segunda casa que o senhor Stekert foi encontrado morto].

Então, logo que souberam, naquela mesma noite, subiram todos perplexos e assustados para o Rio Novo. Dali em diante o pranto parecia não ter fim — e logo quem, pois a senhora Stekert se altera por qualquer coisa, imagine em um caso como esse.

Não se pode saber claramente o que ocorreu. Mas aconteceu nesse mesmo dia que eu vim de Orleans. Alguns pensam que algum brasileiro pôde tê-lo matado. Domingo, 18 de maio, foi o enterro. Não havia nenhum pastor na localidade. Na sessão da igreja do domingo anterior o Stekert tinha se desentendido com o Grünfeldt, e nesse domingo era levado para o túmulo. Eu tive que ficar duas semanas em casa, pois diante desses acontecimentos os familiares e outros alunos se dispersaram e não houve aulas de costura. Mas semana vão recomeçar as aulas.

O Deter voltou de Mãe Luzia no dia 20 de maio e nestes dias houve cultos todas as noites. No dia 23 de maio houve um casamento, e naquela tarde chegou a cavalo o Onofre Regis, e ali mesmo combinaram ir, ele e o Deter, até os Klavin. No sábado 24 de maio o Roberto Klavin, o Ernesto Slegman e o Deter foram fazer um trabalho evangelístico em Rio Larangeiras, pois lá o pessoal tinha sido avisado que o culto seria no sábado, já que no domingo ninguém iria para lá. Realmente houve um bom trabalho e tinha bastante gente, apesar de que o pastor sabatista realizava um culto acima da casa do Caciano, enquanto o pastor católico lá mais em baixo realizava missas. Assim mesmo as pessoas vieram para o trabalho batista que foi realizado no meio.

Naquela mesma noite teve culto lá nos Leiman e em seguida uma sessão deliberativa. Também estava o Butler e o Onofre Regis e todos homens importantes da igrejas. Entre outros assuntos houve muita deliberação sobre o destino dos bens da igreja e a reunificação da tesouraria com seus “baús cheios de dinheiro”.

O Butler serviu na sessão como intérprete, pois a pessoa que sempre faz isso é o Roberto, mas desta vez ele estava dirigindo a assembleia e ficaria muito demorado falar ambas as línguas sozinho. Ainda o Butler anotava em sua caderneta de bolso tudo, inclusive as importâncias existentes no caixa da Igreja e nas diversas organizações como Escola Dominical, União de Mocidade, etc.

O pessoal de Rio Novo andava com listas para angariar contribuições para a viagem do Missionário Deter, pois a coleta não tinha rendido o suficiente e no caixa deles dinheiro não tem. Por isso tanta insistência nessas listas. Mas na nossa Igreja tínhamos dinheiro suficiente: só no caixa da igreja tinha mais de 200$000; na nossa Escola Dominical 133$000, e desta soma foram designados 100$000 para as despesas de viagem do Deter. Ele não queria aceitar tanto, pois disse que as despesas não eram tão grandes.

Então o Butler também se manifestou, dizendo que a arrecadação da igreja de Rio Novo vai chegar a uma quantia perto de 100$000 réis. Na minha opinião é muito pouco para uma igreja com tanta gente. Nós somos bem menos pessoas e nem coletas tivemos que fazer. O pessoal da igreja de Mãe Luzia era ainda menos numeroso e deu mais do que todos. Na Sociedade Missionária tínhamos 48$00 e mandamos esta importância para a Associação de Missões Estaduais de Santa Catharina e Paraná. O destino dos saldos em caixa ainda não foi determinado, mas é bem provável que não vá para o Rio Novo.

A casa dos Leiman continua como congregação da Igreja de Rio Novo e da mesma forma a Escola Dominical em Rio Larangeiras (que era até agora dirigida só pelo Roberto, mas daqui para frente será designado um companheiro para ajudá-lo). O Deter pediu que de modo nenhum o trabalho deve ser abandonado.

No domingo passado a Maria da Silva e a Margrida estiveram na igreja e depois vieram almoçar em nossa casa. Elas solicitaram que quando nós escrevêssemos mandassem lembrança delas para você. Elas dizem que pedem ao Roberto para que quando escreva mande lembranças [em português no original], mas não sabem se o Roberto realmente escreve. Também disse que se você estivesse aqui os rapazes saberiam cantar muito melhor, porque o Roberto é bom mas não sabe ensinar música como você. Elas não têm esperança de que você volte, e acham que se um dia vier para casa talvez nem vá ao Rio Larangeiras, porque uma pessoa importante que mora em cidade grande não iria se lembrar da gente humilde de lá; certamente depois disso tudo terás te tornado muito orgulhoso.

Agora a igreja decidiu mandar dois mensageiros à Convenção em Paranaguá, que vai acontecer no dia 9 de julho. O Pastor Deter queria que fossem no mínimo dois, então foram designados o Roberto [Klavin] e o Butler. As despesas do Roberto a nossa igreja ainda vai cuidar, então o Roberto vai ter a honra de nós representar naquele evento. O Deter explicou que só deveriam ir pessoas que sabem falar o brasileiro, e o Roberto se enquadra neste quesito. Para o Roberto o Deter queria pagar todas as despesas. De Mãe Luzia irá o Klava.

O Deter foi embora no dia 26 dizendo que gostou muito daqui e prometeu em breve voltar. Agora ele foi para Blumenau, e só depois vai para a casa dele em Curitiba. Ele prometeu que quando for ao Rio vai te procurar (para levar alguma coisa para ti não; não mandamos nada pois ele vai demorar para viajar para lá). Na volta para Paranaguá deverão viajar o missionário Langston e outros.

Bem, por hoje chega, senão não caberá no envelope. Se você quiser saber mais alguma coisa pergunte, então eu escreverei noutra vez…

Com muitas lembranças,

Olga

[Escrito nas laterais:]
Junto a esta carta estou enviando um pacote contendo 3 camisas, 3 gravatas, uma ceroula, 1 par de meias e as cartas Luzija e Arthur. – Um feliz dia de Pentecostes. E ainda algo sobre o Deter: como a igreja de Rio Novo vai mandar mensageiros para a Convenção em Paranaguá, e vai se filiar então como sendo a maior igreja da Convenção, a Assembléia do ano que vem, se Deus quiser, é bem provável que seja aqui no Rio Novo. Esperamos por um belo futuro.