Convocação geral | Artur Leimann a Reynaldo Purim

[Cartão Postal]

Rodeio [do Assúcar], 29 de agosto de 17

Querido Reinhold,

Primeiramente muitas lembranças. Agora, quanto a nós, gente jovem, não estamos com perspectivas muito otimistas. É porque, de uma hora para outra, poderemos ser chamados para prestar o Serviço Militar obrigatório. Dentro de poucas semanas haverá uma convocação geral. Ontem à noite eu e o Arnolds Klavin fomos ouvir a Leitura do Manifesto. Por não ser prioridade, honestamente gostaria de ficar fora. Se você ainda não escreveu para o Deter [Nota: A. B. Deter era um missionário batista norte-americano, radicado em Curitiba, que atendia os estados de Paraná e Santa Catarina] não escreva, pois agora está tudo sob controle e em ordem. Sem mais espaço. Com calorosas saudações, seu A. Leimann

O problema do dinheiro | Lizete Purim a Reynaldo Purim

[sem data, mas 1917]

Querido filho,

Você diz para que não nos preocupemos com o problema de dinheiro, mas das preocupações não consigo me livrar. Sempre nos meus pensamentos me demoro em você, e assim preocupações é que não me faltam — e principalmente pelo dinheiro a ser pago para a escola. Nos meus pensamentos fico calculando quanto temos, quanto mais vamos conseguir e se será suficiente. Este ano conseguimos pagar a escola, mas como será no próximo ano? Será que vamos conseguir pagar uma escola tão cara?

Quando começarão os dias livres de junho? E onde pensas passar esses dias? Eu queria muito que você viesse para casa.

Na semana passada fui à cidade. Agora está tudo muito caro, principalmente as roupas: um metro de “riscado”, que custava $700, agora custa 1$400. Estive com o Diretor [da Companhia Colonizadora Grão Pará], porque queria pagar adiantado o resto que a gente deve para eles. O velhinho não aceitou o dinheiro, porque quer tornar a medir e fazer os cálculos.

Perto de Orleans houve uma grande geada, [que atingiu] todas bananeiras e o feijão. Este ano está havendo uma grande seca; não há neblina, e é por isso a geada por lá, que não é comum. Aqui onde moramos não houve geadas e tudo ainda está verde, só que o pasto está pelado pela seca e o gado nada tem para comer. Toda alimentação tem que ser trazida da roça para casa.

De feijão preto colhemos 14 sacos; o preço, o comércio só está pagando entre 7 e 8$000 o saco. Se o preço vai melhorar a gente não sabe, mas assim ainda não vendemos.

Você sabe se o “Dr. B” [NOTA: Provavelmente o Dr. Vilis (Guilherme) Butler] está sendo esperado por aí? Aqui ele pediu demissão do cargo de pastor e dirigente dos cultos da noite da Igreja do Rio Novo, por motivo do baixo salário e da igreja muito devagar. Os cultos serão dirigidos por eles mesmos e o Seeberg prontificou-se a uma vez por mês apresentar (ler) os sermões do Dr. Spurgeon, para com isso revivificar a igreja. Agora eles estão como nunca.

Desejo para você as mais ricas bênçãos de Deus e a sua misericórdia nas tuas lutas. Com afetuosas lembranças,

Mamma

Neste bloco coloco 5 envelopes e duas fotografias; num envelope tem um papelzinho verde e no outro 10$000 em dinheiro.

Neve! | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 28 de agosto de 1917

Querido Reini,

A tua carta escrita no dia 7 de agosto recebi dia 22. Muito obrigada. A anterior não demorou tanto; eu em resposta escrevi uma longa carta e fiquei esperando uma boa alma que passasse e levasse a mesma ao correio. Então, de passagem, chegou o Arnolds Klavin trazendo a tua última. Então, como já tinha escrito tudo sobre aqui, hoje vou escrever menos, pois as notícias aqui estão devagar.

Aqui vamos todos bem, com saúde. Agora estamos trabalhando nas roças. Aquele capoeirão perto da ponte que vai para o “Kazbuck” terminamos de derrubar [Nota: Para nós o Kazbuck era a parte mais alta do morro do nosso terreno em relação ao oeste, onde sempre plantávamos as bananeiras e onde dificilmente a geada alcançava. A Bukovina eram os terrenos do lado do Rio Laranjeiras para a face poente. Kasbuck ou Kazbeck é uma corruptela de Karlsberg, uma cidade e também um pico da cadeia de montanhas chamadas Karpatos. Este lugar ficava na Bukuvina, que até o final da Primeira Guerra Mundial era uma província do Império Austro-Húngaro. A parte sul da Bukuvina foi incorporada ao norte da Romênia e a parte norte foi juntada ao Sul da Ucrânia. Era povoada por alemães, que até hoje são chamados de bukuvinos. A Bukovina tanto lá, como aqui, ficava atrás do Kazbuk], e também junto a divisa com o “Auggi” [Nota: Augusto Felberg, vizinho que morava para trás da nossa casa (norte) noutro lado do morro, próximo a um grande banhado] derrubamos até o caminho. Só não derrubamos mais porque lá é muito difícil de controlar o fogo e também ervas daninhas lá não vão faltar. Para fazer a plantação de mandioca roçamos a parte abaixo de onde tínhamos a mandioca no ano passado.

Hoje papai, Doca e o puise [Nota: Puise quer dizer rapaz e se refere ao Artur Purim – meu pai; Otto Roberto Purim] estão terminando a derrubada da coivara e eu e a Lúcia estamos capinando na beira da estrada. Hoje está um sol muito quente e um ar muito abafado e extremamente enfumaçado.

Agora vou contar como foi o tempo na semana passada. Na segunda-feira teve uma geada não muito forte, mas perto do meio dia começou a esquentar e ao anoitecer começou a ficar nublado. Na terça-feira amanheceu nublado, roncando forte trovoada e parecia que ia dar muita chuva. Mas a chuva foi muito pouca; mal chegou a molhar a terra e a tarde limpou outra vez e manteve-se até bastante quente.

Mas na quarta-feira amanheceu soprando um vento muito frio e do lado da serra vinham grandes nuvens negras. Lá pelas 7 da manhã começou a cair alguma coisa estranha! Neve! No começo devagar e cada vez mais Tudo ficou branco, inclusive os telhados. Às 09h30 parou e começou a limpar de novo, com sol e tudo. Na serra deu uma nevasca imensa — disseram que os serranos nos mandaram uma amostra da neve como lembrança. Esta maravilha foi primeira vez que eu vi de perto. Continuou ventando o dia inteiro, só parando ao anoitecer. Na manhã de quinta-feira deu uma geada tão grande que não tinha dado igual este ano, e na sexta-feira deu uma ainda maior. O frio matou tudo, nossas bananeiras e a cana-de-açúcar. Aqui em casa as laranjeiras e os pessegueiros se salvaram, mas lá nos Karklin foi tudo: as folhas e flores, tudo chão, os galhos inteiramente nus. Os pastos estão com a grama totalmente morta pela geada; o capim está inteiramente seco e o gado não tem nada para comer. Para qualquer parte que a gente olhe está tudo cinza e seco. Foi realmente um grande frio. Já no sábado, domingo e segunda o tempo tem estado quente e sopra um vento seco.

Como você pode ver, tivemos numa semana todos os tipos de clima e de temperatura… Agora está seco e quente, como se fosse verão, e [as coivaras] estão queimando muito bem. Se não for feito um bom aceiro, ninguém sabe onde este fogo vai parar. Muitos aqui na colônia tem sido prejudicados com grandes queimadas [fora de controle].

Agora não vou mais escrever mais nada. Do Rio Novo não sei nada. Estão dizendo que os jovens vão ser convocados para o exército. Você sabe algo sobre este assunto? Dizem que em Orleans foi instituído um Tiro de Guerra. Hoje mesmo a noite o Roberto, o Arnoldo e o Arthur foram para o Rio Novo, pois o Butler teria uma relação dos convocados e seria apresentada na Igreja. Vamos ver o que acontece.

Conta-me onde vais passar os feriados (dias livres). Ou virás para casa?

Chega. Envio sinceras lembranças de todos nós. Tudo de bom para você e fico aguardando uma longa carta sua.

Olga [Purim]

(Nas laterais)~Junto desta carta mando 100$000 e noutra vou mandar mais. Neste envelope segue um papelzinho verde. Semana que vem pode ser que eu mande um pacotinho — saiba esperar…

[Notas de V. A. Purim]

A maior geada | Theodors Klavin a Reynaldo Purim

Barro Vermelho [Bairro de Orleans?], 26 de agosto de 1917

Querido amigo Reinhold,

A tua carta recebi em 17 de agosto. Desta vez não tenho muito o que escrever. Afinal de contas, o que um simples jovem do interior saberia escrever?

Bem, vou começar sobre aqueles dois, pois tenho mais informações. Ela teria dito: “Esse pobre rapaz não entendeu nada do que combinamos”. Ele teria concordado que realmente era burro e não tinha realmente entendido.

Você pergunta sobre aquelas divergências. Continua quase a mesma coisa que no teu tempo aqui. Os motivos são pequenos como pulgas, mas tem gente que faz parecerem maiores que cavalos.

No dia 22 de julho houve uma discussão entre o Match e o Stekert perto do toco de pindavuna [Nota: Duguetia lanceolata, madeira de lei também chamada de pindaíba, pindabuna, pindauva e outros] que durou quase uma hora e meia, e eu estava presente. No domingo seguinte o A. Leimann apaziguou os dois, mas eles disseram que tinham algo mais para dizer; porém até agora nada de novo.

Agora o tempo está muito seco e muito frio. No dia 22 de agosto pela manhã tivemos oportunidade de ver neve, que caiu por mais de meia hora. É pena que derreteu logo. Mas no dia seguinte deu a maior geada da minha vida. O termômetro marcou 5 graus abaixo de zero.

Como vão os estudos? Onde pensa passar as férias? Virás para casa ou não?

Com sinceras saudações,

Teu amigo Theodors [Klavin]

Como você sobreviveria? | Lizete Purim a Reynaldo Purim

[sem data, mas 1917]

Querido filho,

As tuas cartas recebemos e muito obrigado por isso. Pedimos encarecidamente que não te preocupes conosco, pois vamos conseguir continuar vivendo. Agora você se preocupa conosco e nós nos preocupamos com você. Estava pensando: se a guerra trouxesse alguma consequência mais próxima, e se assim não pudéssemos mandar dinheiro para você, como você sobreviveria? E se não conseguíssemos trocar cartas? — seria realmente muito triste. Mas por que se preocupar tanto se Deus nos protege muito melhor do que nós mesmos poderíamos fazer? Devemos confiar em Deus e tudo sairá bem.

O Oscar [Karp], toda vez que encontra Papai, pergunta por que você não escreve para ele. Diz que você teria prometido escrever a ele. Quer saber como você vai e em que classe estás. Pergunta se você não tem mandado nenhum papelzinho amarelo ou verde e diz que as dificuldades e os obstáculos são tantos que estudar ele não poderia nem pensar. A mãe dele não solta dinheiro, dizendo que não tem; por isso, querendo ou não, ele vai ter que ficar em casa. E mais ainda porque tem que medir a terra, cavar o poço e se preparar para o casamento: já diz tudo.

Bem por hoje chega. Estou desacostumada a escrever e não tenho muita facilidade. Muitas e muitas lembranças,

Mama

Um barulho imenso e uma nuvem de poeira | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 19 de agosto

Querido Reini,

A tua carta escrita em 1º de agosto recebi ontem. Obrigado. Você escreve que dias atrás nos mandou outras cartas, mas essas ainda não chegaram. Pode ser que ainda cheguem, ou então foram extraviadas. Ainda não tenho resposta de uma carta que mandei há mais de três semanas.

Aqui estamos passando bem. O tempo está bom e ainda bastante frio, e hoje pela manhã houve geada. Algumas semanas atrás estava enfumaçado e tão quente como fosse verão, então começou a roncar trovoada e deu uma grande chuva. Essa chuva passou (fazia já uns dois meses que não tinha havido trovoadas), mas sábado passado à noite começou novamente a chover — e choveu praticamente dois dias e duas noites sem parar. Domingo passado quase ninguém foi à igreja, por causa da chuva muito forte e porque soprava um vento frio, mas na segunda-feira estava um céu azul e o vento tinha levado todas as nuvens embora.

Fizemos açúcar e deu dois tachos. Não foi muito. Este ano a “festa” do açúcar não foi essas coisas como nos outros anos. As canas novas foram apanhadas pelas geadas e ficaram para crescer mais um ano. Este ano não tivemos de fazer mutirão; a cana e a lenha trouxemos com o [boi] Bosi, e as moendas também foram movidas por ele.

Agora deixe-me contar uns fatos que aconteceram durante a “assucrada”. O Bosi estava acostumado com o carretão de duas rodas com o qual trazíamos toras do mato e da coi-
vara, e com ele trouxemos grandes toras. Mas cana não dá para trazer desse modo, e como nos não temos carro de boi colocamos o Bosi na carroça da [égua] Marsa e fomos lá no morro perto da peroba grande [da encruzilhada do Rio Carlota para o lado do Grüntal]. Carregamos a carroça de cana, mas ele não estava acostumado e apesar de eu ir na frente, saiu em disparada morro abaixo [Nota de VAP: Quando um animal disparava sem razão aparente dizia-se “deu a botuca” ou “pegou a botuca”, referindo-se à mosca botuca, que dava picadas muito dolorosas nos bois e cavalos, fazendo com que ficassem totalmente descontrolados.]. O Bosi me derrubou e ainda uma roda passou por cima do meu pé esquerdo e do tornozelo do direito, mas sem muita gravidade.

Quando me levantei e me recompus o Bosi já estava parado lá em baixo perto da cerca e da porteira. A carga estava virada, mas nada havia quebrado. Levantamos a carroça e a carga, mas quando chegou na estrada grande o bicho começou a correr novamente. Começou um barulho imenso e uma nuvem de poeira. como fosse um trem, e só conseguimos pegá-lo quando ele parou na porteira sem nada — a canga, os canzís, as rodas quebradas: tudo espalhado pela estrada.

Mas não deixamos o Bosi desse jeito. Colocamos no carretão e fomos buscar mais toras no mato, e lá ele foi muito bem. No outro dia fomos buscar cana na roça, de novo com a carroça, mais dessa vez colocamos freio nela. Como ele tinha de fazer força para puxar, aí ele veio bem e não pôde mais inventar nenhuma corrida — e nunca mais a voltou fazer aquelas corridas malucas.

Na moenda ele também foi muito bem; num dia ele moeu uma fornada e no outro outra. Colocávamos pouca cana na moenda pra não ficar pesado para ele.

Naquele dia em que você estava escrevendo a carta nós estávamos tomando garapa; pena que o dia estava frio e a garapa nem pareceu tão gostosa.

(falta a parte final)

Sobre aqueles perigos | Ludvig Rose a Reynaldo Purim

São Paulo, 18 de agosto de 1917

Querido Reinhold,

Desculpe por ter feito você esperar alguns dias pela resposta a sua carta. Esta semana tive que trabalhar à noite, e sobrando um tempo é com muita alegria que escrevo cartas particulares.

Aquela roupa de que você precisa só poderei mandar daqui uns dez dias. Terei que mandar lavar primeiro.

Quanto o meu trabalho na imprensa vai como sempre foi. Sobre aqueles perigos ninguém mais fala mais nada; tudo anda nos trilhos.

Se escreverdes para tua mãe, informe a ela de minha parte que recebi a carta da Olga com a fotografia de meu pai e que muito brevemente vou escrever, mas como tenho muito trabalho com o jornal, as respostas das cartas ficam para depois, para…

Amanhã…

Onde pensas passar as tuas férias, junto aos teus pais ou comigo?

Com muitas lembranças do teu tio

Ludwig Rose