…soldados para as entradas da cidade com ordens para proteger a cidade, mas não atirar primeiro| De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Assucar 2 de março de 1923

Querido Reini! Saudações!

A tua carta escrita no dia 7 de fevereiro eu recebi hoje a noite, os demais de casa já a tinham recebido ante ontem [Pelo motivo de haver dois domicílios] e eu hoje mesmo vou começar a resposta.

Você reclama que não recebe cartas de casa e estas demoram, mas eu escrevi duas longas cartas que você recebeu e se elas tivessem sido extraviadas ai então haverá um grande prejuízo.

Você diz que as últimas notícias são referentes ao mês de novembro. Pois naquela ocasião, todos nós escrevemos convidando para você vir passar as férias em casa e assim ficamos esperando terminar as aulas e você vir para embora.

Quando as aulas terminassem você não, estaria mais lá, então prá que escrever para lá. Continuamos esperando quem sabe, ele tenha ou queira passar as Festas lá. Na véspera de Natal a Luzija foi até Orleans pronta para trazê-lo como grande e importante cidadão, mas nada, então você ainda esperava que em pleno Natal estivéssemos escrevendo cartas, quando tínhamos certeza que você estaria aqui.

Nesta época chovia muito e devido ao muito trabalho, quando chegava a noite, vinha um sono tão profundo que não era possível agüentar. Então no dia 19 de janeiro mandei uma longa carta e quando levamos ao correio naquele mesmo dia recebemos aquela sua carta escrita no dia 26 de dezembro e respondendo a esta no dia 9 de fevereiro mandei outra longa carta e ainda naquele mesmo dia a Luzija mandou um cartão postal a não ser que estas cartas não tenham saído de Orleans.
Os cartões que você diz ter mandado aqui não apareceram. Por ai você pode ver que não faz tanto tempo que nós não escrevemos, mas sim outras coisas estão erradas como o Correio.

Agora sim há alguma coisa de novo para escrever apesar de nós aqui estarmos em tempo de guerra por aqui e não sei se vai passar pela censura.

Aqui há semanas atrás, houve guerra e ameaças de luta e ainda não sei o que mais vai acontecer. O povo não está satisfeito nem em paz com o Governo por causa dos altos impostos e então se organizaram partidos dos italianos, poloneses, brasileiros, todos de todos os lados se dirigiram a Orleans à noite e fizeram uma grande reunião na frente da casa do Intendente onde falaram e reclamaram.

Isto foi num Sábado e como até Segunda feira nada tinha mudado foi programada uma invasão sobre a cidade de Orleans [Guerra da Palmatória] para Terça feira e ai os letos também foram. Mas como em tudo, haviam traidores e chegado antes e contado que os colonos marchariam sobre a cidade a policia mandou pelotões de soldados para as entradas da cidade com ordens expressas de proteger a cidade, mas de não atirar primeiro. A grande maioria fugiu e outros entraram em luta corporal com os soldados e foram presos. Tudo o que aconteceu eu não sei claramente, mas nas próximas cartas eu prometo esclarecer mais e ainda vamos ver como isto vai terminar.

O tempo, esta bastante chuvoso, mas não tanto como antigamente. Tempestades e tormentas com vento também vêm ocorrendo com freqüência, mas para nós não causaram nenhum prejuízo e daqui para a frente a gente não sabe, pois ainda tem muito milho ainda pendoando. [As ventanias derrubavam quebrando as hastes do milho causando prejuízos às lavouras.] Melancias este ano não deram, para não dizer que não deu nada deu uma só. Pepinos também deram menos que os outros anos.

Agora mesmo recebemos uma carta do Andreys [tio] da Letônia. No ano passado quando recebemos outras cartas dele eu e o Pappa escrevemos longas cartas e o Jekabs ainda estava lá, mas, quando ele recebeu o Jekabs e a família já tinham viajado para o Brasil. Ele em seguida tornou a escrever para o Jehkabs que já estava chegando no Brasil avisando que não fosse para o deserto, pois nós o estávamos esperando e qual eram os planos e o que nós fazíamos aqui.. O Andreys não veio porque não tinha dinheiro e também porque estava doente e por uma parte foi bom porque ele não concorda com infelizes espiritualistas que estão fugindo para o deserto. Ele tinha recomendado ao irmão Jehkab que não ficasse em São Paulo e sim viesse para cá, mas parece que ele não quis assim. A carta já ficou muito longa e eu não tenho mais tempo para escrever tudo. Outra vez eu escrevo mais. Lembranças de todos e também da Olga.
Escrito na lateral: Não admire que as cartas não cheguem, pois agora o agente do correio é um leto que pode censurar tudo. –

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Pelas ruas catando cadáveres | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 18 de dezembro de 1918

Querido Reinold!!

Recebi no dia 14 de dezembro a tua carta escrita no dia 28 de novembro; muito obrigado por ela. Fazia já bastante tempo que não tínhamos notícias suas, e por isso não sabíamos onde tinhas ficado nas férias. A carta de 18 de novembro foi extraviada, bem como a de 7 de outubro. Naquelas pode ser que tinhas informado onde estavas durante as férias, mas elas não chegaram. Ainda bem que agora já sabemos.

Eu não escrevi nenhuma carta, só mandei um cartão postal no dia 13 de novembro. O cartão postal que você mandou no dia 5 de novembro também recebemos. As cartas provavelmente se perdem, pois diversos navios não foram autorizados a entrar no porto de Laguna por causa de muitos passageiros com a “doença” [gripe espanhola]. Então, não admira que tantas cartas ficaram extraviadas.

Nós estamos todos com saúde. Ninguém de nós pegou essa doença. Aqui no Rio Novo alguns pegaram a gripe e em Orleans alguns já morreram, mas entre os nossos ninguém. Alguns tem tanto medo não saem da sua propriedade para não pegar a doença, mas eu vou freqüentemente a Orleans e não peguei nada.

Semanas atrás os Grikis estavam doentes, mas nada sério. O velho Sommers está muito doente, mas não com a gripe. Então a Luzija mandou papai fazer o caixão. Papai ficou lá nos Grikis o dia inteiro e a gente ficou preocupada pela possibilidade de ele ter pego a doença, mas nada. Bem que haveria de novo.

O Jurgis Karklim voltou para casa na semana passada, mas a grande máquina não foi vista correndo pelo Rio Novo; também luz elétrica não foi vista por aqui.

Ele contou que em Porto Alegre morre gente como moscas e que viaturas andam pelas ruas catando cadáveres — mais de mil por dia, o que impossibilita enterrar todos. Em São Paulo e no Rio também é igual; ele se salvou porque carregava um vidro de creolina junto ao nariz por todo tempo. Mas ele é muito papudo, muito prosa.

Bem, desta vez não tem nada de novo. Agora você poderá escrever bastante porque está de férias. Quanto a nós, não sei quando vamos chegar aos nossos “dias livres”.

Bem, onde você, mora e o que fazes? Quem te faz comida? O Inkis está lá? Este ano ele não foi para Nova Odessa? Em Nova Odessa este ano vai haver uma grandiosa festa de Natal com a inauguração do novo templo da igreja e a nossa igreja também foi convidada para as festas.

E o Jurka, não te escreve? Dizem que ele arrendou uma parte do terreno do Leeknim para plantar algodão. Dizem que o pessoal de Nova Odessa está muito feliz com a guerra porque o algodão está caro, mas eles que não se alegrem demais, pois com o fim vai baixar de novo. Então será como disse o Ernesto Sleengmann: quando baixar e não houver mercado, onde eles vão enfiar todo este algodão? Só se for para tecerem cordas para se enforcarem…

Negociantes de Orleans estão avisando que com os acordos definitivos do fim da guerra, tudo vai ficar mais barato. E os alemães realmente perderam a esta guerra. O que vai fazer o Grünfeldt. que dizem emprestou 100$000 Réis para a Alemanha ganhar a gerra? Pode esperar…

Você pergunta se estamos lendo os jornais. Eu e a Mamãe estamos lendo sim. Você deve renovar a assinatura para o ano que vem e pode mandar direto para o Rio Novo; se continuar assim, você redespachando, então poderia escrever recados pelas beiradas.

Você continua se correspondendo com o Ludi? Você sabe o que o grande “alemão” está fazendo agora?

Bem, agora chega. Vou aguardar uma longa carta. A censura devia parar de abrir as cartas pois a guerra já acabou.

Desejamos uma alegre Festa do Nascimento de Cristo e um Feliz Ano Novo.

Com sinceras saudações,

Olga [Purim]

Geada em novembro | Lizete Rose Purim a Reynaldo Purim

11 de novembro
[NOTA: Não se pôde determinar ao certo o ano desta carta. Pela proximidade do casamento do Oskar Karp parece ser 1918, mas pelas notícias da guerra parece 1917]

Querido filho!

Muitas e sinceras lembranças de nós todos. A tua carta escrita em 23 de outubro recebemos ontem, e a carta escrita em 19 de outubro recebemos hoje pela manhã, pois já há tempo estávamos esperando. Como você não virá para casa, mais uma vez, já nos estamos acostumando com essa ideia. Possivelmente seja melhor que seja assim, que fique longe… Eu pessoalmente de boa vontade gostaria que você viesse, pois teríamos assunto para conversar uma semana sem parar. Mas não devemos desesperar pois, se for a vontade de Deus, um dia ainda vamos nos encontrar.

Os rionovenses [NOTA: Membros da igreja batista de Rio Novo] te esperam por aqui; porquê, eu não sei. Principalmente os Bruder Matchs e outros. Sempre que encontram algum de nós, querem saber quando é que você vem para casa.

O Inkis não vem mais. Acharam muito petulante, pois ele estava pedindo muito dinheiro para a viagem. Pediu 500$000, pois viria de primeira classe e junto com a esposa. Escreveram para que ele viesse com o dinheiro dele e fizesse o trabalho, e aí iriam ver quanto cada um poderia dar…

Se você tivesse planejado vir, poderia assistir às bodas do Oskar [Karp] que estão previstas para dia 13 de dezembro. A senhora Karp chora aos prantos, mesmo lá na igreja, por causa do filho pouco inteligente. Mas o que fazer; o casamento já deveria ter sido realizado mas a senhora Bruder esteve muito doente, para morte mesmo; ainda não está boa, mas está bem melhor, parece que é um pouco manhosa. Tudo isso foi agravado porquê o velho brigou com o Pinho e este imediatamente mandou as contas atrasadas, para que pague toda dívida, que passa de 600$000 — isso só no Pinho, fora as dívidas em outras vendas, e isso leva a velha ficar bem descontrolada.

Estamos enviando 200$000 em dinheiro e esse ano não espere mais; ano que vem eu não sei como será. As preocupações com dinheiro sempre me atormentam, como fosse uma ideia fixa. Bem, não se preocupe demais, sempre quando tivermos dinheiro vamos mandar, mas se esse for suficiente, isso gostaria de saber.

Aqui se fala que o Brasil declarou guerra com a Alemanha. Dizem que estão perseguindo os alemães que moram nas grandes cidades, mas se isso é verdade eu não sei. Não acredito, pois sei que junto de vocês também têm alemães e você até agora não escreveu nada.

A senhora [Eva] Leiman está aconselhando que se por acaso a coisa venha a piorar você deve ir ao encontro do Karlis [Carlos Leiman] — diz que ele sempre te espera. Ele tem te escrito sobre isso?

Estamos passando bem e todos com saúde. Somente as plantações não querem crescer, por causa da seca e completa falta de chuvas. O tempo está ainda bastante frio. A última chuva foi no dia 16 de outubro, e ainda ontem deu geada nas baixadas. O vento seco e frio sopra o dia inteiro, e se por acaso ainda cheguem os gafanhotos, aí será a fome.

Agora chega. Com muitas e sinceras lembranças,

Mamma [Lizete Rose Purim]

432$000 réis para os refugiados de guerra na Letônia | Olga Purim a Reynaldo Purim

[trecho de carta, provavelmente setembro de 1918]

[…] o Butlers queria estar de volta em casa no começo de agosto, mas ainda não conseguiu navio para voltar de Desterro [Florianópolis], onde teve que ficar esperando uma semana em um hotel, pagando 6$000 réis por dia; depois conseguiu um preço mais especial de 4$000 réis pela diária, e por aí você pode ver a despesa — se tiver que parar aí.

Daqueles 150$000 que a igreja pagou, ninguém passou. As aulas começaram no começo de setembro e foi só um dia, pois no outro o professor Butler já viajou para Tubarão. A partir do ano que vem a escola vai ser paga pelo governo, tendo o Butler como professor, pois ele em Desterro prestou exame de suficiência, onde aprendeu mais em brasileiro. Mas, vamos ver se tudo isso vai mesmo acontecer, pois prometer é fácil.

Na noite do domingo passado houve a “Festa da Colheita” [Festa de Ação de Graças] e também a Festa da Escola Dominical, quando foi levantada uma coleta que será mandada para o Rio [de Janeiro] para a Associação da Escolas Dominicais, como está escrito no Jornal. A importância quanto rendeu eu não sei.

Você recebe “O Baptista” [Jornal informativo da Convenção das Igrejas Batistas do Paraná/Santa Catarina]? No último número saiu uma matéria referente ao Rio Novo. Eu encomendei esse jornal, mas ainda não recebi.

Quanto à Rússia, aquilo lá está terrível. Antes do Butler viajar foi enviada a importância de 432$000 réis para os refugiados de guerra na Letônia e outros países do Báltico. Da Escola Dominical do Rodeio do Assucar, mais 32$000 réis. Na despedida do João [Frischembruder] de Riga foi conseguida mais a quantia de 87$000 réis e ainda outras ofertas de outras sociedades, cujas quantias eu não sei. Mas o que poderá fazer este dinheiro? São tantos que precisam e tudo está tão caro!

Outra coisa terrível é que o Herman [Germano] Balod ficou louco. Faz bastante tempo que ele já estava doente — não de cama, mas sim, andando por aí e dizendo bobagens. Como ninguém mandava nos empregados eles ficavam vadiando, e dívidas há bastante. Eles estavam se aprontando para mudar para ir de mudança para Porto Alegre, inclusive venderam o gado, mas daí ele começou a ficar pior e assim mesmo o pessoal lá ficou esperando que ele melhorasse. Na semana passada ele ficou completamente alucinado, querendo matar todo mundo e quebrar a casa inteira, e a família teve que chamar os soldados para levar para a cadeia, para que se acalmasse. Assim mesmo são necessárias três a quatro pessoas para dominar o homem o tempo todo. Vamos ver como vai ficar.

Bem, hoje chega. Noutra vez escrevo mais. Lembranças de todos e que te sempre vá bem.

– Olga.

Adeus cartas longas | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 27-12-17

Querido Reini,

Recebemos a tua carta, escrita em 5 de dezembro, no dia 23 de dezembro. Obrigado. Foi uma longa espera e nem sabíamos onde você estava. Tu escreves que mandou uma carta ainda do Rio, mas esta ainda não chegou. Os desenhos recebemos junto com dois rolos de jornais. Os pacotes de desenhos tinham sido abertos pela censura, mas os rolos de jornais não, portanto você pode escrever nos espaços vagos dos jornais que eles não abrem. Dia 22 de dezembro te mandei um cartão escrito em leto, vamos ver se chega. A mulher do correio falou que as cartas escritas em leto não serão mais abertas, mas esta tinha sinais que tinha sido aberta. A censura pelos correios não é uma coisa boa, mas muito mais difícil se as cartas tiverem que ser escritas em brasileiro — se for assim, adeus cartas longas, porque nesta língua a gente não tem facilidade.

Agora tenho tanta coisa para escrever que não sei se vou conseguir fazer pela ordem… Nós estamos passando bem, estamos todos com saúde, e nenhuma calamidade aconteceu depois daquela tempestade de fogo que varreu toda região. Pela minha carta anterior você deve ter percebido que condições precárias nós passamos.

Oh. Foi a situação mais crítica de toda nossa história. Neste ano o 15 de novembro, maior Feriado Nacional, deverá ser gravado com letras de ouro. Quantas famílias perderam tudo! Só abaixo da serra mais de vinte casas de brasileiros ficaram um monte de cinzas. Propriedades inteiras ficaram irreconhecíveis: cercas, árvores, pastagens e plantações viraram uma mancha negra. Até para os Klavin, faltou muito pouco para perderem a casa e as demais dependências. Foi quase sorte: juntaram muita gente e durante o dia inteiro usaram escadas para molhar os telhados, paredes e cercas, isso no meio de uma nuvem de fogo e fumaça.

Este ano foi um ano cheio de tragédias. No começo de ano as enchentes, depois as grandes geadas, a neve, os gafanhotos, um mês e meio de seca imensa e depois, para completar, o fogo.

Você pode imaginar como tudo ficou ressequido depois de tanto tempo que não chovia: os pastos estavam tão secos que o gado nada tinha para comer. Começamos a trazer folhas do mato [grandiuva] até dezembro, mas já estava faltando e tínhamos de ir longe nos matos e capoeiras em busca do pouco verde que restava para os animais. Também dávamos espigas de milho (as pequenas), mas já estavam acabando. Ainda bem que dia 1° de dezembro começou a chover, e choveu sem parar por dois dias e meio: agora está tudo verde.

Este ano as plantas não cresceram o que seria esperado. O milho plantado no cedo, se não continuar a chover, não vai dar nada. Em muitos lugares o milho não tem um metro de altura e já está soltando o pendão. O milho terminamos de plantar no dia 15 de dezembro, e no total plantamos 16 ½ quartas. Nunca tínhamos plantado tanto quanto este ano. A batata inglesa [kartupeles] cresceu um pouco, mas depois secou tudo. Só aqueles plantados no tarde estão verdes.

Perto de Orleans apareceram novamente gafanhotos, também em Rio Laranjeiras, Rio Belo e Braço do Norte. Perto de Orleans tive oportunidade de ver uma nuvem deles, as beiras das estradas tão cheias que chegavam a chiar; ainda bem que não estão em toda a parte. Onde eles estão eles comem tudo e começam pôr ovos. O governo determinou que as pessoas não atingidas fossem trabalhar dois dias, pelos menos, matando os filhotes [NOTA: Abriam-se valetas e espantavam-se os filhotes para dentro, cobrindo-os em seguida com terra]; nas roças tudo fácil, mas nos matos e nas capoeiras nada havia o que fazer. Se os que sobrarem subirem o Rio Novo, vão comer tudo. Esperamos que sigam para o leste, para onde foram os adultos. Para baixo de Orleans falam que tem muito mais, que na estrada de ferro não se consegue enxergar os trilhos. Os filhotes são pouco maiores que moscas, com um risco cinza nas costas; ainda não tem asas
mas são muito espertos para pular.

Semana passada comecei escrever esta carta, mas como durante as festas ninguém foi a Orleans, perdi a pressa de terminar esta. Hoje, dia 30 de dezembro, o Roberto [Klavin] trouxe a sua carta escrita em 10 de dezembro. Muito obrigado. Estou muito feliz porque você está passando bem. Você pergunta se aquelas cartas enviadas do Rio chegaram: não, a última escrita do Rio foi aquela datada 16-11-17.

Como foi o seu exame? Você não recebeu o último boletim da tua escola? Se você mandou, deve ter-se extraviado. Quanto aos desenhos, são os últimos? Eles são lindos e servirão de moldes para as minhas costuras. Você levou a sua caixa de coisas junto? Desta vez vou fazer muitas perguntas e aguardar longas cartas. Você está em férias e tem tempo bastante para escrever.

Bem, preciso escrever sobre as festas de Natal. Este é o primeiro Natal que passamos sem você…… Bem, mas tudo correu muito bem, passamos alegres e fazia muitos dias que o tempo não estava tão lindo. Não está quente demais e havia um luar muito lindo. Naquele domingo antes das festas estava chovendo e estávamos temerosos, pois poderia atrapalhar as programações, mas a chuva logo parou.

No Rio Laranjeiras estava programada a festa com pinheirinho e tudo para o dia 24, mas este dia amanheceu brusco e parecia que logo iria chover; felizmente, lá pela hora do almoço começou soprar um vento seco que dispersou todas nuvens, então alegres pudemos nos aprontar para a viagem.

Saímos às 4 da tarde e chegamos lá antes de escurecer. A estrada estava inteiramente seca mesmo dentro da mata virgem, lá onde na vez passada, na Páscoa, havia aquele lamaçal horrível. Por coincidência, éramos novamente treze pessoas: Arthurs, Arnolds, Juris, Augusts, Ernest Slengman, Ema, Lonija, Isolina, Milda, Schenia, Lusija e eu. O Roberto estava lá desde domingo. O pinheirinho era igual do ano passado e no mesmo lugar. Não tinha tanta gente como no ano passado e o programa não foi tão longo.

A festa foi dirigida pelo Roberto, que é da Escola Dominical daquela Congregação. A escola tem 24 alunos matriculados e as entradas do ano, com o saldo do ano passado, perfazem mais ou menos 30$000; as despesas, 18$000, ficando um saldo de 20$000 para o próximo ano.

Este ano não foram feitos bolos [kukas] porque está tudo muito caro. Foram comprados em Orleans, nas padarias, onde saiu mais barato, bem como os bombons [bombongas] para as crianças. Os presentes foram muitos.

Agora vou contar quais os hinos foram cantados e daí você pode cantar e fazer de conta que participou da festa. Pela E.D. de Rio Laranjeiras, foram cantados dois hinos, os de número 210 e 438 do Cantor Cristão. Todos juntos cantamos 4 hinos: os de números 18, 217, 225 e 242. Dois hinos foram cantados pelos vicitantes que vieram para cima, os de números 248 e 446. Então ainda cantou um trio masculino — Roberts, Arnolds e Arthurs, — o hino 444: “Sejais Corajosos Povo de Deus”. As poesias eu não teria como transcrever. Todo o povo participou com grande reverência.

Depois do término tomamos café e saímos de volta para casa. O cansaço apareceu na subida daquele grande morro, mas de modo geral saiu tudo bem, pois não estava nem quente nem frio. Chegamos em casa a uma e meia da madrugada. Só música não houve; não porque não tivessem sido levados os instrumentos, mas porque não foram levadas cordas de reserva e deu azar de terem arrebentado algumas — e deu no que deu…

Nos Leiman [sede da Igreja de Rodeio do Assucar] o pinheirinho foi aceso dia 26 Dez. Lá houve um programa mais longo do que no ano passado.

A festa foi dirigida pelo Arthurs [Leimans]. Poesias houve vinte e uma: dez em leto e onze em brasileiro. As em brasileiro foram declamadas por Arnolds 1, Juris 1, Augusts 1, Vilis Slengmann 1, Isolina 1, Emma 2, Milda 1, Luzija 1 e eu 1. Não posso te transcrever pois não sei onde foram encontradas. Os professores entregaram, mandaram decorar e pronto. As poesias em leto foram apresentadas pelos mesmos.

Hinos foram cantados doze: sete em leto e cinco em brasileiro. A Escola Dominical cantou os hinos do Hinário Bernu Kokle números 125, 127, 137, 109, e 134. E ainda cantaram em trio Emma, Lonija e Milda o de número 78, enquanto o Arthurs acompanhava com a guitarra. O Ernesto, Emma e Lonija Slengman cantaram o hino 7 do Musu Dsiesma Gramata, seção Ceribas Auseklis. Pela Escola Dominical os alunos cantaram em brasileiro os números 76, 161 e 247. O Arthurs fez solo do hino 220 do Cantor Cristão acompanhando da guitarra e também do violino do Roberts. Ainda a Milda e Isolina cantaram o número 73 do Cantor Cristão. Agora você sabe quais hinos foram cantados. Foram apresentadas duas músicas instrumentais do hinário inglês. O programa ficou um tanto longo.

Nunca tinha havido tanta gente: brasileiros, italianos mas muito mais rionovenses [NOTA: Membros da igreja batista rival, de Rio Novo], a juventude quase toda. Até os velhos Karklim também estavam. Para abrir mais espaço, o Matiss ajeitou lugares atrás das janelas. Assim pudemos bem recepcionar os “inesquecíveis” visitantes rionovenses. Barulho ou qualquer movimento não foi permitido pelo encarregado da ordem, o Juris Klavin, que ficou no lado de fora. Ficaram tão comportadinhos que lembraramvque não estavam em sua Igreja do Rio Novo.

Neste dia tive a oportunidade de ver as beldades do Rio Novo, antigamente não apareciam como agora vão… Pelas estradas sempre estão aos pares, e junto de cada rapaz vai uma mocinha. Ninguém sabe como vai terminar essa grande loucura…

No dia 25 de Dez. os rionovenses comemoraram o seu Natal. No pinheirinho havia somente treze velinhas, e estas eram curtas e acabaram logo. A Escola Dominical é tão grande que quase não se pode enxergar… Mas para o próximo ano o professor Butler vai tomar as rédeas e fazer todos os pequenos e grandes participar da E.D. — se não os novos ficam mal acostumados e ficam por aí.

Nas cartas passadas escrevi que o Oscar ia se casar, mas até hoje não saiu nada. As promessas eram muitas mas até agora nada, e porque também não sei. No domingo passado na casa de “T” houve o noivado de Laura e João. Agora “T” e ”S” são tão parentes que é de se admirar. Antes “T” e “S” não podiam nem se ver, agora se beijam.

Logo parece que vamos ter o casamento do Vilis Paegle com a Erna Auras. Agora saiu uma lei na Justiça que no ano que vem só poderão casar os que tiverem se inscrito este ano, e o motivo é a convocação para servir o Exercito. Por isso os meninos estão correndo para casar. E ainda há um papo de que se por acaso for casado e convocado, passará a receber um soldo muito maior que o solteiro. Não sei se estas novas da justiça tem alguma lógica ou se são só para se ganhar dinheiro com mais casamentos.

Sobre os feitos heróicos dos rionovenses eu teria muito o que escrever, mas deixa prá lá. Não vale a pena escrever.

Agora, o ano no fim, vou descrever o nosso balanço com as entradas e saídas. Neste ano vendemos 70 arrobas de toucinho que renderam 709$590. Banha, 69 quilos por 69$00. Das abelhas mel e cera, 98$000. Manteiga, 21 quilos e 37$500. Ovos, 189 dúzias e 66$300. Feijão, 11 sacos, deram 110$000. Total de entradas, 1:101$890; saídas, 374$320. Saldo: 726$970.

Este ano as entradas foram maiores e as saídas menores do que no ano passado. Agora está tudo mais caro, o feijão já está a 17$000 a saca, o toucinho 13-14$000 a arroba, e o que a gente compra é três vezes mais caro do que antes.

Dias atrás em Orleans saiu uma conversa de que teria chegado um telegrama informando que a guerra tinha terminado e que a Alemanha derrotada havia pedido a paz, pelo que houvera grandes festas em Orleans.

Bem, chega. Vou esperar uma longa carta sua. Tu podes escrever em leto e colocar no rolo com jornais, e assim vão chegar sem ninguém abrir. Aquelas fotografias dos seminaristas você chegou a nos mandar?

Com sinceras lembranças para vocês todos,

Olga

Fortalezas de puro aço | Reynaldo Purim a Lisete e Jahnis

Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1917

Queridos pais em Rio Novo,

Neste momento recebi as suas cartas e junto o dinheiro. De coração agradeço. Eu pensava que fosse difícil e quem sabe se este dinheiro chegaria antes do fim do mês, mas chegou.

Alegro-me que vocês estejam passando relativamente bem; como ainda não sei se aquela praga de gafanhotos destruiu todas lavouras, espero que Deus os proteja desses perigos e males.

Agora vou escrever algo sobre mim. Nos exames passei suficientemente bem; a nota mais baixa foi 85 e a mais alta 100. Este mês não terei o Boletim Mensal, mas amanhã irei receber o Diploma da Conclusão do Primeiro Ano. No Diploma estarão todas matérias e a média total de todo ano. Muitos não conseguiram passar.

Agora o assunto sobre as minhas férias. Sobre isso já escrevi alguma coisa.

Vocês sabem que do Ludi [Ludvig Rose] antes a gente nada recebia; não recebíamos nenhuma notícia. Isso certamente acontecia porque ele escrevia em leto; como todas cartas são censuradas pelo governo, eles não conseguindo ler não permitiam que seguissem. Mas tempos depois recebi dele um cartão postal escrito em brasileiro onde ele escrevia que posso ir a São Paulo [nas férias]. Respondi também em brasileiro, e também com cartão postal, e é assim que nós nos comunicamos nestes dias.

Então, vou mesmo para São Paulo. Vocês podem pensar que possa me dar mal, mas isso certamente não vai acontecer, pois está tudo muito quieto. Por favor não se preocupem comigo: confiem em Deus e assim estaremos protegidos. Espero sair de viagem na segunda-feira de manhã.

Fui à Polícia Central pedir um passe para viajar e mostrei o atestado da justiça que trouxe de lá; ali me informaram que eu não preciso de passe nenhum, porque não sou alemão e sou nascido no Brasil. Os alemães sim, se quiserem viajar para qualquer lugar precisam ir à “justiça” tirar um “salvo conduto”. Esse pode ser conseguido com a pessoa apresentando uma série de provas de quem é, onde mora, de onde veio e para onde quer ir. Eles tendo este documento ninguém perturba mais.

Antes de ser convidado pelo Ludi passei um tempo procurando trabalho para o período de férias, mas nessa época é muito difícil. Se não tivesse outro lugar para ir, iria trabalhar como colportor. Salomão [NOTA: Salomão Ginsburg era um judeu convertido, pastor e grande líder, naquela época diretor da “Casa Publicadora Batista”, hoje JUERP.] me ofereceu esse trabalho. Não seria um trabalho fácil e agradável, principalmente nestes tempos de guerra, sendo ainda que não havia um salário definido e compensador. Tudo dependeria das vendas.

Mas este plano eu pus de lado, pois as pessoas poderiam pensar que eu fosse um espião alemão, etc. Sobre este assunto não vou escrever mais pois acho que ficou bem claro.

Aquela minha caixa não vou levar junto, pois isso poderia me custar muito caro. Vou levar comigo algumas roupas, alguns livros e o violino — o resto vou ajuntar tudo, fechar dentro da caixa e deixar aqui mesmo. Todo mundo faz assim e viaja só com uma maleta.

Agora o tempo apresenta-se muito quente, principalmente na cidade nos “poços de pedra” e “valetas de pedra” onde circulam pessoas, automóveis etc.

Sobre a situação geral não sei o que escrever. Só sei que na Europa a situação está dia a dia pior. O exército russo não mais guerreia contra os alemães, mas entre si pelo controle do governo. A situação final na Rússia ainda não está delineada. A Polônia russa agora é um país livre. A Finlândia (Somija) está sacudindo e empurrando embora o governo russo. O que mais vai acontecer só Deus sabe.

Os franceses e ingleses inventaram umas fortalezas de puro aço que avançam (rodam) contra o inimigo equipadas com canhões e metralhadoras que as balas de outros canhões nenhum dano conseguem fazer, e assim causam imensa destruição na frente inimiga.

Bem, por hoje chega. Sobre as coisas menores não vou escrever agora, nas férias penso escrever longas cartas para vocês. Quando chegar a S.P. vou escrever outra vez dando o meu endereço de lá.

O Inkis com sua esposa foram para nova Odessa. Não posso imaginar porque todos me esperam no Rio Novo.

Como vocês estão passando, agora? – E os gafanhotos ainda estão por lá? – Como vão todos de um modo geral? – E a igreja? – E as pessoas da igreja de Orleans vivem em paz?

Na outra vez vou contar sobre as igrejas daqui. Aqui eles não são tão rixentos quanto os letos.

Envio muitas e sinceras saudações. Vivam felizes e que Deus vos proteja.

Reinholds

O Brasil está em guerra | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 15-11-1917

Querido Reini,

A tua carta escrita em 29 de outubro recebi ontem à noite. Obrigado! Você pergunta se recebemos todas as cartas, as últimas, sim. Uma no sábado passado, outra no domingo, e logo providenciamos as respostas: longas cartas e ainda 200$000 em dinheiro que despachamos logo na segunda-feira.

Apressamos as respostas para que chegassem ainda antes do fim do mês; esta estou escrevendo esta hoje de noite para mandar para ver se mando ainda amanhã.

Você escreve que o Brasil está em guerra. Nós só ficamos sabendo no dia 12 de outubro. Em Orleans o povo não fala outra coisa; contam coisas medonhas sobre a guerra, como em São Paulo todos estabelecimentos pertencentes aos alemães estão sendo sistematicamente destruídos. Se isso é verdade, como é que nas férias tu queres ir para lá? Junto com o Ludis [Ludvig Rose] acho não ser nada seguro. Nós nos preocupamos por você. Aqui acho que estamos relativamente seguros, pois achamos que na colônia não vai chegar nenhuma dessas desgraças.

Os donos das vendas sobem os preços das mercadorias todos os dias. Na outra vez, quando houve aqueles rumores de guerra, eles não queriam comprar toucinho, mas agora pedem encarecidamente que tragam toucinho; estão pagando 11$000 a arroba ainda com ossos, e enquanto o milho eles estão pagando 5$000 a saca, mas como será daqui para frente eu não sei.

Nos estamos bem, todos com saúde. Mas hoje foi um dia horrível, pois deu uma tempestade como não lembro ter visto um igual. Não tem chovido há mais de mês; tudo que foi plantado está secando, e hoje esta tempestade. Os dias anteriores eram realmente de tempo bom e também não tinha vento nenhum, mas hoje de manhã começou a soprar um forte vento do lado da serra; não aquele quente, mas bastante frio.

De manhã não era muito forte, mas quando chegou perto do meio-dia empurrava com tanta força que a gente não podia ficar de pé. Como a terra estava muito seca, formaram-se nuvens de poeira tão forte que nada na frente podia-se ver.

Hoje de manhã fomos à “Bukovina” e a serra estava limpa, mas os serranos que ontem e anteontem tinham queimado os campos deixaram aqui e ali porções de áreas queimando; com o vento, grande parte dos costões da serra estavam ardendo. Com mais vento, formou-se um verdadeiro mar de fogo descendo para o nosso lado. Aqui na roça também tínhamos um toco de madeira queimando e faltou pouco para que as faíscas levadas pelo vento chegassem nas samambaias secas da vizinha (Maninha?); com muito custo apagamos completamente esse foco.

Não sei como se saiu o Bekeris, pois ao redor de sua casa queimava mato, capoeiras e até o capim rasteiro; é verdadeiramente um milagre que a casa dele tenha escapado. Também do outro lado, perto da casa da Sesinanda, também vinha um grande fogo; à tarde, quando saímos para vir para casa, aquela área estava envolta em roldões de fumaça e fogo.

Também no Rio Novo há queimadas em diversos lugares. Por onde quer que a gente olhe são paisagens aterrorizantes; ainda a essa hora da noite clarões do fogo descontrolado estão por toda parte, espalhados pelo forte vento, e a gente não sabe como terminará esta tragédia.

Quando atravessamos a mata virgem na volta da Bukovina admiramos a grossa camada de folhas e galhos secos que cobriam o caminho e toda floresta, e calculamos com que facilidade, se chegasse uma faísca de fogo, aquilo tudo se transformaria numa verdadeira fogueira. Quando chegamos perto de casa, quase não a reconhecemos: laranjeiras derrubadas, e quando não a árvore, grande parte das frutas debulhadas. Pessegueiros caídos, galhos quebrados por toda parte, telhados das colméias arrancados.

Bem, agora chega. Esta vai ser a última carta que escrevo para o Rio. Até agora ainda não sabemos para onde tu vais nas férias, nem o teu endereço, por isso não espere cartas nossas. O Leiman falou que você talvez fosse para casa de Karlis. Agora faça o que achar melhor; nenhum conselho podemos te dar.

E ano que vem, vais continuar na escola? Não se preocupe muito conosco, o importante que te vá bem.

Com muitas sinceras lembranças de nós todos,

Olga