A cama do capitão | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 15 de abril de 1920

Querido Reinold!

Primeiramente envio muitas amáveis lembranças e um grande obrigado pelas cartas que chegaram esta semana. Uma escrita em 19-3-20 recebemos na segunda-feira dia 12 de abril, e a outra escrita na Grande Sexta-feira [Sexta-feira Santa] recebemos ontem à noite, pois o Edis [Eduardo] Karp as trouxe de Orleans. Aquela primeira demorou bastante para chegar e é provável que tenha ficado muito tempo em Orleans, pois fazia bastante tempo que ninguém ia para a cidade e a Aninha é muito caprichosa: não entrega a correspondência para qualquer um. A outra já veio bem depressa.

Cartas até agora não faltaram nenhuma, mas os cantores [hinários] ainda não chegaram, pode ser que logo venham. Os livros e a carta do Butler já chegaram e ele vai escrever uma carta para você esta semana. A carta do Rubim [Robert Klavin] também já chegou. O Wileans conta que conhece a sua letra pelo subscrito mas não vai abrir porque o Roberto não voltou de Mãe Luzia. Das nossas, falta a resposta de uma que mandei no dia 26 de março e no envelope da qual também coloquei uma carta que veio do Artur Leimann onde ele autoriza S.S.S. a fazer o que desejar e quer que mande um cantor [hinário] que é muito bom, pois parece que ele quer cantar em brasileiro. Se precisar do S.S.S. você pode mandar; se não, ninguém vai conseguir pegar.

Você sempre pede que escreva bastante e desta vez tentarei escrever mais e pode ser que vai dar.

Então a tua viagem de volta [do Rio Novo para o Rio de Janeiro] foi maravilhosa. Bem, se tu soubesses que “maravilhas” aquela “dama” tem escrito para o pessoal daqui! [NOTA: Trata-se de Selma Klavin, que estava fazendo sua primeira viagem ao Rio de Janeiro] Todo o pessoal do Rio Novo está zombando dela, e o Blukis e o Emils se alegrando.

Nós tínhamos recebido o cartão postal teu de Itajay; na quarta-feira à noite, em cima da mesa de correspondências [na igreja], estava o cartão da Selma para o Paulinho, mandado de Florianópolis. Conta ela que fez boa viagem e também que visitou em Florianópolis os parentes do Diretor [Staviarski]. Conta que vocês passaram a noite também lá em Florianópolis e que, estando o navio super lotado, ela iria dormir na cabine do comandante.

Nessa quarta-feira o Paulinho não tinha ido à igreja, então esse cartão passou nas mãos do Emils e do Peter, e de mais pessoas que iam procurar correspondências. O Peters contou que tinha lido cartas para a Inze, em que a ousada e maluca da Selma teria escrito que, devido ao navio estar lotado, o comandante teria cedido o camarote dele por falta de espaço, e que ela iria dormir na cama do capitão. Ela ainda se gabava que depois o Victor [Staviarski?] iria, veja, levá-la para passear. Seria bom que ela deixasse todo esse papo no navio! A Inze ainda contou que ela não ficou enjoada e que foi pelo capitão autorizada a ficar no deck superior; que quando foi visitar vocês, vocês nem das cabines não tinham saído de tão enjoados que estavam. Conta que ela vai muito bem nos estudos e que já está no sexto ano e tem aulas com duas professoras!

Agora a Inze e o Blukis estão brigando na justiça, e tem gente que conta que eles não podem vender o gado e outras coisas porque parece que estão empenhados; como vai terminar eu não sei.

Sobre a festa da Páscoa, nada importante tenho que escrever. Antes da Páscoa passaram-se duas semanas de tempo bom e seco. Na Grande Sexta-feira [Sexta-feria Santa] estava quente demais, com um sol abrasador, mas na manhã do Domingo de Páscoa começou a chover — assim toda a festa foi molhada e lamacenta. O Butler e a Marta, mais o Gustavo Grikis e outros foram passar as festas em Mãe Luzia.

No dia 6 de abril o Paps [papai] foi fazer o caixão da senhora Wilmanis que tinha morrido naquela manhã. Ela há muito tempo estava bem doente e ficou de cama mais de 4 meses; nas últimas 3 semanas dormia como que estivesse morta e era um sacrifício fazê-la tomar uma colherada d’água. No dia seguinte foi o enterro.

Na escola não é maior número de alunos. Depois da conferência que você fez, quando disse que quem não conseguir instrução suficiente terá que usar de outras pessoas como bengalas e seria facilmente passado para trás em cálculos e negócios, então todo mundo está arranjando uma bengala. Inclusive o Seeberg estava incomodado, porque achava que ninguém poderia proibi-lo de fazer o que quisesse com o dinheiro dele, e que ninguém tinha nada com isso; inclusive se ele quisesse vender o seu Jankus [Jahnis] por 50$000, sua mercadoria seria barata como foi a L…[ Laura], que ele negociou e ainda agregou mais dinheiro. Assim sai o pessoal da escola e o Butler alerta que nada pode fazer pois os alunos tem que passar.

Na última sessão de negócios da igreja o Seeberg e seus aliados excluíram o Grünfeldt e assim mesmo ele tentou mostrar a sua justiça, mas foi inútil. Agora ele vai se queixar ao Deter da administração do [pastor] Butler. Por que o Deter pagou a tua escola? Se alguém aqui soubesse desta intenção dele, teria tentado inventar alguma coisa contra você.

Mês que vem haverá aqui a Convenção, e aí deverão vir para cá muitas personalidades importantes. Agora o Butler está ensinando cantar em brasileiro toda quarta-feira à noite.

Bem desta vez chega. Breve deverão chegar mais cartas suas, então escrevo outra vez. Aqui em casa esses estudantes são preguiçosos demais para escrever cartas. O Puisse [Otto/Artur Purim] irá amanhã para a tafona e a Lusija até a cidade, então temos que ir dormir porque temos que levantar cedo. Então, pelos manuscritos deles desta vez não espere.

Tudo está como de velho, esta semana estamos cortando e batendo arroz. Se não tivesse havido algumas semanas de seca o arroz estaria mais bem granado. Tempestades não mais houve, mas o milho da coivara nova está muito derrubado. Na coivara junto da mata não houve muito prejuízo, também porque é uma parte em que plantamos mais raízes [mandioca, batata-doce, etc]. Na Bukovina não houve vento nenhum.

Lembranças de todos de casa. Fico aguardando longa carta sua.

Olga

[Escrito nas laterais a lápis:]
Os cantores [hinários] chegaram hoje e em ordem.

O profeta Pedro Silman e a profetiza filha do Strauss | Robert Klavin a Reynaldo Purim

29 de fevereiro de 1920, Mãe Luzia

Querido amigo!

A tua carta do dia 15-2 recebi esta semana; como não foi possível responder para o Rio Novo, vou enviar esta para o Rio de Janeiro.

Na semana retrasada estive em Campinas [Araranguá] com o Professor e outros de Mãe Luzia, e também alguns do Rio Novo, como um Leepkaln e dois dos Maisin. Aqui de Mãe Luzia saímos no sábado antes do meio dia, e a noite estávamos em Campinas. Nosso trajeto era margeando o Rio Mãe Luzia no sentido da foz, isto é descendo o rio. As várzeas das margens são de uma terra excepcionalmente boa, e a vegetação e as plantações demonstram sobejamente. As barrancas do rio quase sempre são altas e as várzeas são úmidas, como um banhado. O arroz é muito bonito, está plantado inundado, mas poderiam ser feitas valetas e trabalhado no seco, e assim poderia se plantar de tudo.

Aqui de modo geral é tudo plano e em muito poucos lugares se encontram pequenas elevações ou alguns morrinhos. Morros grandes realmente não existem. Mesmo a vilazinha de Campinas se encontra num lugar muito lindo e também muito plano. O mar está há menos de duas horas de viagem, mas lá para baixo o rio fica mais largo e fundo e para atravessar: são necessárias balsas para passar, pois de outra maneira não seria possível. Em muitos lugares consegui ver as marcas e vestígios de até onde o rio na cheia tinha inundado. O rio atingira parte das culturas com tanta intensidade que chegara a cobrir completamente as plantas nas partes mais baixas, mas a vantagem é que sendo as águas muito tranquilas não fizera nenhum estrago ou prejuízo, e em baixando as águas tudo volta ao normal.

De Campinas saímos em viagem para a casa do Augusto Sanerip há 1 ½ horas de viagem, onde chegamos bem tarde. O Augusto tinha organizado uma festa de aniversário para ele próprio. Eu não fui atrás da festa e sim para conhecer aquelas redondezas, mas a pressão dos colegas para ficar na festa foi muito grande. Quando lá chegamos já tinham chegado os amigos dele e outros conhecidos, na maioria alemães, e naquela noite em dormir ninguém conseguiu pensar, com o som das músicas e cantorias que correram solto a noite inteira sem dó nem piedade. Todos os outros participaram da festa e eu não podia sair, mas fiquei conversando com outras pessoas e logo amanheceu e daí partimos para a casa do Joeff Herr. Ele é um batista, alemão e conhecido meu, que antes morava em Mãe Luzia.

Lá conseguimos dormir por mais ou menos duas horas. Logo depois do meio-dia saímos de volta para a casa do Augusto Sanerip, e lá pelas 4 horas da tarde saímos de volta para Mãe Luzia. Neste trajeto vim junto com dois dos filhos do Klava.

Logo o sono começou a apertar tanto que resolvemos dar uma cochilada na beira da estrada, mas os mosquitos e pernilongos não nos deixaram em paz. Resolvemos tirar os “palos” [capas de montaria para proteção da chuva e frio] para nos protegermos desses invasores incômodos, mas aí o calor se tornou nsuportável. Então resolvi com a mesma capa fazer uma espécie de barraca para proteger os braços e a cabeça, deixando um buraco para entrar ar, mas os bichos entravam por aí e picavam sem trégua. Por aí você pode deduzir que o tal cochilo não deu em nada.

Montamos e continuamos em frente chegando a Mãe Luzia quando a meia-noite já estava de longe passada.

No sábado passado houve aqui em Mãe Luzia e região uma chuva torrencial que gerou uma enchente tal que os moradores daqui não lembram de outra igual por aí. Os riozinhos que escoam para o Mãe Luzia se tornaram grandes rios. O Mãe Luzia, com uma largura descomunal, serpeava vagarosamente, fazendo o seu caminho em curvas suaves em direção do mar.

Os domingos aqui em Mãe Luzia são realmente muito quietos. Os cultos são realizados somente aos domingos pela manhã, e à noite não há nada mesmo. O clima também não tem se apresentado muito favorável. Agora parece que sentiram que alguma deve ser feita, então ontem à noite houve ensaio de hinos dirigido pelo Seeberg e na noite do domingo que vem também haverá.

O Rudolfo Andermann voltou com o seu partido [de pentecostais] e trouxe junto o profeta Pedro Silman e a profetiza filha do Strauss. Ela está voltando de Ijuy RS. Agora estão planejando outra viagem missionária: vão a Ijuy e depois ainda dali querem ir até o Paraná.

Eles continuam pulando nos cultos segundo e seguindo os seus costumes. Muitas pessoas vão para observar. Eles não querem que eu vá e mantém as portas trancadas; só deixam entrar quem eles querem.

Uma das noites pessoas forçaram a entrada do local da reunião e jogaram pimenta moída lá dentro. Dizem que foram letos que fizeram esta brincadeira. Eu não apoio nem entro para uma turma que faz estas coisas, mas ambém não tenho interesse de ver este espetáculo: o que eu vi naquela viagem na Linha Telegráfica foi suficiente. Mas têm pessoas que vão todas as noites.

Quanto a possibilidade de eu ir estudar, vamos ver como as coisas vão se desenrolar. Tudo isso está nas mãos de Deus. Eu sempre tenho pensado sobre isso, mas não consegui chegar a uma conclusão definitiva. Também sei que não seria fácil e tenho avaliado, se começar, das minhas possibilidades de ir até o fim. O grande e maior problema seria a subsistência, pois se tiver que trabalhar e enfrentar todas as matérias com a pouca base, seria muito temerário. Outro problema meu seria a saúde, pois ela não é estas coisas e já algumas vezes estive em situações bastante críticas. Agora não tenho estudado nada, mas quando voltar para o Rio Novo devo voltar a estudar, pois daqui em diante as noites vão ficando cada vez mais compridas.

Aqui quanto ao trabalho ainda não terminamos. Possivelmente lá pelo dia 20 estaremos terminando.

No que se refere a livros para os meus estudos, espero que você me mande, pois tenho certeza que você sabe o que eu mais necessito e aqueles que são realmente importantes. Depois me mande a conta para que eu possa pagar.

Neste momento, graças a Deus, estou bem e com saúde.

Muitas e sinceras lembranças de seu amigo,

Roberts Klavin