A cidade do pão | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 7 de junho de 1920

Querido Reinold!

Já são passadas várias semanas que não temos recebido cartas suas. A última foi aquela escrita no dia 6 de maio, que chegou aqui dia 22 de maio, e logo mandei a resposta àquela no dia 25 de maio. Agora ao todo você está devendo respostas a três cartas.

Bem, hoje devo imaginar uma maneira e tentar descrever com mais detalhes os grandes acontecimentos do Rio Novo. Nas minhas últimas duas cartas tenho contado alguma coisa, mas isso deve ser uma insignificância para a sua imensa curiosidade.

Bem, agora que todos os mensageiros que vieram a Convenção já devem estar tranquilamente em suas casas, pois já fazem três semanas desde este grande movimento — que até mais parecia um esforço de guerra, considerando-se as múltiplas providências que tiveram que ser tomadas, — «Está tudo nítido na minha memória.»mas não se preocupe: está tudo nítido na minha memória como se fosse hoje que tivesse tudo acontecido.

Preciso começar bem do princípio, para ver até onde consigo chegar agora. Que os mensageiros da convenção não chegaram na data prevista, isso você já sabe; chegaram só no dia 17 de maio. Havia um esquema organizado, que quando chegava algum dos convidados esperados na estação da Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina era imediatamente levado à casa dos Stekert para um lauto lanche; em seguida era determinado um guia para acompanhar o recém-cavaleiro para a viagem ao Rio Novo.

O S. L. Watson estava pesaroso porque não iria se sair bem lá em Rio Novo: ele achava que não haveria ninguém tão alto quanto ele e que teria de ir montado numa “girafa” — mas quando viu o Conrado e o João Frischembruder, disse que não era ele só que estava nas alturas, quase alcançando as nuvens. O Butlers afirmou que no Rio Novo ele iria ver pessoas ainda mais altas. Na realidade nenhum dos nossos era tão alto quanto ele, pois ele podia olhar todos por cima.

[NOTA: Stephen Lawton Watson (1880-1966) era missionário norte-americano da Junta de Richmond. Foi diretor Geral da Casa Publicadora Batista e Secretário-Tesoureiro da Junta Patrimonial do Sul do Brasil]

Lá na saída [de Orleans para Rio Novo], quando o Butlers já tinha designado e dividido os grupos, e ao começar a viagem, o Butler disse que quem quisesse uma viagem de verdade, mais longa, poderia optar por se hospedar nos Leiman ou nos Klavin, que moravam bem mais longe, e neste momento os jovens senhores alemães de Curitiba a uma só voz se candidataram para essas vagas, pois queriam ter este prazer. Porém eles logo perceberam que não era tão agradável andar a cavalo para pessoas como eles, que não estavam habituados. E levantou-se ainda o problema de ter de ir e depois voltar em tempo para a igreja, onde iriam começar as conferências.

O Roberto [Klavin], diante deste contratempo, e vendo que já eram três horas da tarde, deixou os hóspedes dos Leiman na casa dos Osch e os dele na nossa casa. Os demais tinham ficado longe para trás desses heroicos cavaleiros. O Roberto sim, foi a cavalo até em casa na Invernada para trocar de roupa, pois não tinha vindo com traje apropriado. Pela manhã, quando ele saiu de casa, estava nublado e parecia que iria chover de novo o dia inteiro, como tinha acontecido na véspera, em que deu um grande temporal. Mas nesse dia não demorou para que as nuvens se dispersassem, e lá pelo meio-dia já estava um sol muito bonito.

Assim continuou com tempo bom todo o período dos trabalhos, apesar de alguns dias ameaçar a ficar nublado — mas em seguida limpava tudo outra vez.

O Watson foi o hóspede de honra do Oscar Karp, pois [o Oscar] tinha sido aluno dele. Os Karp estavam propensos a não hospedar ninguém, mas quando souberam que o Watson viria candidataram-se imediatamente, pois se o Watson chegasse em alguma outra casa e perguntasse por que o Oscar não havia voltado para a escola, poderia ouvir algumas explicações que talvez não ficassem bem. Pelo sim ou pelo não, «Alguns letos pensam que são os mais inteligentes do mundo.»acharam melhor que o Watson ficasse na casa deles, assim poderiam dourar a versão sob o prisma que mais convinha, e ainda acompanhá-la de todas as explicações necessárias.

Andar a cavalo não era o forte do Watson, pois na volta dos trabalhos da noite ele veio a pé; quando passou por frente de nossa casa ele teria perguntado “como se chamava esse lugar”, pois “não eram nem prassas nem avenidas” [NOTA: em português no original].

Na primeira noite o templo estava repleto de gente. O primeiro hino a ser entoado foi o 96 do Cantor Cristão. O Onofre nesta primeira noite não estava presente, portanto a parte devocional foi dirigida pelo pastor Manuel Verginio de Souza, que é um eloquente orador e nem por isso orgulhoso; pelo contrário, é muito humilde.

Nesta primeira noite foi eleita a diretoria: o Presidente foi o Butler e o Secretário o Manoel. Na mensagem de boas vindas o Butlers falou que o Rio Novo era como Belém da Judéia, “a cidade do pão”, e que aqui o pão também é muito abundante. No final o Deter recomendou que nem por isso deveriam tentar comer tudo. Ele já tinha estado outras vezes aqui e sempre fora muito bem tratado, e assim gostaria que acontecesse quando viesse em outra ocasião.

Os trabalhos da noite não foram longos, pois todos visitantes estavam exaustos da viagem e sonolentos, e para muita gente chegar em casa à meia-noite não estaria perto.

Foi quando o Leiman levou os seus hóspedes até o Rodeio do Assucar e o Roberto os dele até a Invernada. Foi uma longa viagem a cavalo, mas só tiveram de fazê-la uma vez, pois para lá não mais voltaram. Na segunda noite eles dormiram na casa dos Osch e passaram a tarde na casa do Butler, e nas noites seguintes nas casas dos Frischembruder e dos Slengman.

Sobrava muito tempo para passear pelas casas, pois os trabalhos na parte da manhã começavam as dez horas e terminavam à uma da tarde, e a noite novamente na igreja. Aqui não deram certo as três reuniões por dia, como estava previsto no programa, devido às consideráveis distâncias.

No segundo dia, dia 18, quem abriu o programa foi o Edmundo Assenheimer de Curitiba, contando que os pais dele eram de Criciúma e tinham mais tarde morado em Tubarão. Tinham conhecido o Fritz Leiman, que pregava e dirigia cultos em Laguna. Logo em seguida falou o Watson, sobre a Grande Campanha e sobre o texto que aparece sempre no Jornal [Batista] (aliás ultimamente o Jornal quase só fala nessa Campanha).

Bem, os rionovenses ouviram em alto e bom som que a nenhum crente será permitido ficar cochilando enquanto tudo mundo trabalha. [O Watson] de fato tem uma voz tão forte que partia os ouvidos das pessoas; ninguém conseguia falar tão alto que nem ele.

Sobre a Grande Campanha também falou o Fritz Jankowski, e disse que a Convenção das igrejas de Santa Catarina e Paraná estava desafiada a, com esforço vitorioso, conseguir os 45 mil, sendo nove mil por ano. Disse ainda que seria desejável que fosse na média 11 mil por ano, o que daria para cada membro 22$ por ano (e o que são 2$000 por mês?) — assim haveria dinheiro para os obreiros em Laguna, Desterro e ainda em outros lugares mais.

O pastor Manuel disse que deve ser adotado o “dízimo”, que foi aceito como regra nesta convenção, mas vamos ver se aqui no Rio Novo isso vai funcionar. Como disse o Butler, uma pequena corrente, como que de água, não queria que houvesse a convenção aqui, dizendo “o que querem essas pessoas importantes de fora, só querem é dinheiro para viver e se vestir bem” — mas agora esses têm a oportunidade de saber que essas pessoas que diziam ser orgulhosas e prepotentes são obreiros honestos e ativos que não medem sacrifícios em prol da Causa. Por isso ninguém deve falar sobre o que não tem certeza; ele sabe como cada um aqui vive e se veste, e quando se fala em Missões são muito poucos que contribuem.

Nesta corrente não são muitos: os Seeberg, os Karklim, os Bruver, o Guilherme Balod e os Match foram os abertamente contra a realização da convenção aqui. Chegaram a dizer que quisesse as conferências aqui no Rio Novo que se preocupasse com hospedagem e alimentação. Ainda bem que muitos dos que não tinham hóspedes fixos com muita boa vontade procuravam convidar os visitantes para as suas respectivas casas para servir refeições. Mesmo se tivesse vindo outro tanto mais gente não teria faltado alimento para ninguém. Isto apesar do bloqueio dos acima mencionados.

Alguns letos pensam que são os mais inteligentes do mundo, e por isso não querem ouvir nada, demonstrando por este comportamento que são na verdade uns grandes bobos.

A reunião da noite foi iniciada pelo Fritz Jankowski; em seguida o Watson discorreu sobre a importância da Escola Dominical, dizendo que os professores devem se preparar bem para poder ensinar os outros.

Não passou uma reunião onde ele deixasse de falar. Mesmo onde no programa estava determinado para o Butler falar era o Watson que falava. Naquela noite o Abraão de Oliveira apresentou o sermão que preparara durante o ano inteiro.

No dia 19 pela manhã foi dada a abertura dos trabalhos com um culto devocional dirigido pelo Klava e em seguida o Frischembruder e o Leimanis conseguiram convencer o plenário da necessidade da participação também das igrejas brasileiras na campanha em prol dos Refugiados da Guerra da Região do Báltico; será determinada uma data para uma oferta especial neste sentido.

Em seguida falou o Onofre sobre a premente necessidade de obreiros brasileiros em Sta. Catarina. Disse que pelas características do povo é muito mais eficiente o trabalho de um pastor ou pregador brasileiro do que um de origem estrangeira. Falou também que a igreja de Rio Novo estava deixando o pastor Butler ir embora devido ao baixo salário que ele vinha percebendo. Que queria, quando viesse um obreiro para Laguna ou Tubarão, que a igreja de Rio Novo desse apoio com a música e cantos.

Naquela noite quem deu início aos trabalhos foi o Roberto [Klavin]. A esposa do Deter tocava harmônio e os visitantes de Curitiba cantaram. Ela é uma excelente musicista e grande cantora.

Na quarta-feira quem deu início aos trabalhos foi o pastor João Henke de Curitiba. Também nesse dia o Watson falou que as igrejas devem se preocupar com os seus templos, e que agora no Rio de Janeiro existe um banco que paga juros para as igrejas que tem algum dinheiro sobrando e depois empresta às igrejas que precisam de dinheiro para construir, para que possam o mais breve possível sair do aluguel — pois esse, por mais que se pague, [a propriedade] nunca passa a ser da igreja, e é melhor um pequeno cantinho que é seu do que um grande palácio que pertence a outrem. É claro que essas pessoas têm uma visão mais ampla do que certos “sábios” daqui do Rio Novo.

Nesta noite também teve a ceia do Senhor. A esposa do Dr. Deter falou sobre o trabalho da Sociedade de Senhoras das igrejas, e o que elas podem fazer para arranjar dinheiro para as missões. E novamente falou o Watson, agora sobre o Seminário.

Na sexta-feira só houve trabalho pela manhã, pois foi a última da convenção. A esposa do Deter tocou novamente o harmônio e o Abraão cantou um solo o N. 41 do Cantor. Ele é um excepcional cantor com uma potente voz e também é um grande músico; ele disse que não imaginava que os letos soubessem cantar em brasileiro. Ainda bem que o Butler ensinou uma grande quantidade de hinos novos em brasileiro, então por aí você vê que agora neste ponto está muito melhor que antigamente. A esposa do Dr. Deter também cantou um solo. O coro da Igreja de Rio Novo também cantou os seus longos hinos. e os músicos com suas cordas e sopro tocavam todo dia.

Os outros detalhes pela ordem eu não conseguiria escrever e nem valeria a pena, pois você vai ficar sabendo de um jeito ou outro. O último hino que todos cantaram juntos foi o 75 do Cantor.

Você imagina uma festa desse tamanho no Rio Novo? Não. No Rio Novo com tanta gente nunca houve. E com tantos pastores de uma só vez e ainda um negro que fez um dos mais importantes sermões!

Ano que vem a Convenção será em Curitiba a começar do dia 8 de maio, e o orador oficial será o Butler, que agora tem quase um ano para se aprontar. O Butler fica somente este mês como professor e pastor, porque ele em breve embarca para Curitiba para ficar no lugar do Deter, que vai embarcar em setembro para América. Vamos ver quem será que vai ser o novo professor, porque agora a escola é do governo. Sem ninguém ela não vai ficar. A terra o Butler não vai vender porque a Kate vem morar aqui e vai cuidar do velho; tudo vai ficar como está até o ano que vem, quando ele vai embora mesmo.

Bem, devo terminar porque você não vai ter tempo para ler esta carta, e a tua curiosidade estará sobrecarregada de tanta novidade. Se quiser mais escreva mencionando o que queres saber que eu tento responder, pois não sei mais o que possa te interessar.

Quero que você escreva bastante. Que sempre esteja passando bem. Com uma sincera saudação,

Olga

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