…aqui a vida flui monótona e quase nada maior acontece… | De Olga Purim para Reynaldo Purim 1923

Rodeio do Assucar 31/1/23 [ Assim era escrito na época]
Querido Reini. Saudações!

Então esta noite vou ter que começar a escrever, pois a tua carta escrita no dia 26-12-22 já recebi semanas atrás com todos aqueles cartões de Boas Festas. Muito obrigada porquê, esta carta, foi mais longa que as demais talvez porque nestes dias de férias você está mais folgado. Naquele mesmo dia que recebi a sua mandei também uma longa carta contando todas novidades daqui por isso tive que dar um tempo para começar a resposta.

Lá mais coisas acontecem e aqui a vida flui monótona e quase nada maior acontece e as coisas vão como sempre.

Este ano chove muito, mas o sol também brilha muito; os rios estão transbordando e troveja como antigamente.

Trabalho, nós temos muito porquê as ervas daninhas crescem como nunca e ainda bem que o milho também está crescendo bonito e para nossa sorte aqui não tem havido grandes tempestades com ventanias para derrubar o milho, mas em outras partes da colônia sim.

Semana passada os Grunski mudaram-se e foram morar junto com o Willis Grunski na casa que eles compraram do Grünfelldt. Eles estão ajeitando para fazer uma grande marcenaria.[ Galdeneka darbnizu – Literalmente local para fabricar mesas.]
O Emílio [ ? ]vendeu a colônia [Chamavam de colônia a gleba de terra de um colono que poderia variar de tamanho e de formato. A forma básica era a chamada “Frente” começar no fundo do vale para facilitar o acesso à água. Muito inteligente também a idéia da Cia. Colonizadora fazer esta frente em perpendicular ao o fundo do vale e não obrigatoriamente no rio, pois facilitava de certo modo as cercas que eram retas e com as curvas o rio entrava e saia diversas vezes na mesma propriedade. A do meu pai deveria ter uns 80 hectares (200 braças de frente X 700 braças de fundo) e se a frente ficava no fundo do vale onde também seguia o caminho principal é claro que o fundo ficava na parte mais alta que era o Kazbuck. A do tio Reynaldo a qual os fundos se encontravam ia fazer a “Frente” no Rio Larangeiras que era o outro vale mais para o lado do poente. Resumindo os “Fundos” se encontravam adiante do “Kazbuck”.] para um italiano que pagou 8:500$000 a vista.

O Limors está novamente por ai, mora em Orleans com a filha.

Antes das Festas do Natal chegou de São Paulo a Olga Grunski com a filhinha para ficar passeando uns dois meses e agora que passaram poucas semanas já foi embora. Diz que faz tempo que não mora mais junto com o seu Vanag, que nada faz, não trabalha e ela não consegue ganhar o suficiente para cobrir o que ele consegue gastar. Agora ela trabalha em um hospital como mensalista e a administração permite que ela more junto com a criança lá mesmo e o salário é 150$000 por mês. –

O Grünfeldt agora aluga algum casebre e mora com a mulher, mas não tem aparecido por aqui ou a vida de colono talvez seja muito simples e humilhante para ele.

O Konrads Frischimbruder com sua companheira na semana passada foram embora novamente para São Paulo procurar uma vida mais leve e menos trabalhosa.

Ele o Condis, não pode trabalhar nada no pesado, pois quando ele ainda estava em São Paulo ele teve apendicite e foi operado que teria custado 800$000 e que nada adiantou, pois não pode levantar nada e nem trabalhar. Mas a esposa não gostou daqui. Aqui ele ficando na casa dos pais pelo menos teria comida a vontade e lá o que ele vai fazer? Tolo sim, o que ele é.

Você escreve bastante sobre este movimento de renovação espiritual e eu também escrevi bastante sobre isso. No dia que recebi a tua carta, eu também recebi um cartão postal do Jehkabs. Um outro cartão já tinha recebido de São Paulo. Então diz que mandou uma carta, mas nada chegou e agora ele diz que mandou outra. No cartão ele escreve que quer saber notícias nossas e convida o Pappa e a Mamma para acertar os compromissos de trabalho e ir passar uns dias com eles talvez uma semana para poder conversar bastante. E sobre estas conversações ele já escrevia da Latvia, mas nunca mencionou nada sobre visões e profecias. Quem poderia imaginar que ele estivesse tão junto dentro do partido do Inkis, pois agora todos estão juntos ou perto do Inkis como abelhas perto da rainha. Lá na colônia deles [ Palma em Varpa, Município de Tupã S.P.] agora é como na Rússia Bolschevique a pessoa vai morar lá por bem ou por mal e a censura da correspondência é rígida qualquer coisa que seja contrária não sai.

O Pappa passou o Domingo passado escrevendo uma longa carta para ele descrevendo como nós estamos passando e informando que aquela viagem de visita lá não poderá ser feita por falta de tempo e também de dinheiro e esta história de passar dois dias não vai funcionar pelas grandes distâncias que ele ainda não conhece. Também diz que nós estávamos esperando eles todos aqui. Por outra parte foi bom que eles não vieram, pois agora não seria nenhuma alegria em recebê-los sabendo que eles são daquele “movimento”. O que eles viriam fazer pois aqui não temos mais tantas matas, nem temos um Inkis e ainda temos que morar neste mundo de pecados e assim nada poderia ser pior.

Agora seria outra coisa se eles admitissem que estas coisas estão na mão do verdadeiro Deus e não cabe a nenhum de nós, cabe saber dos tempos do fim com profecias e visões etc. Segundo temos outras informações, eles não pretendem fazer nada definitivo, pois estão esperando para logo o fim do mundo.

O Andreys não veio e nem sabemos se ele virá depois. Eles te mandam muitas lembranças. Voltando a nova colônia você escreve que poderia conhecer melhor se fosse até lá. Mas você sabe se você vai conseguir entrar e se entrar você poderá sair. Você nem sabe que largura tem o Portal do Reino. E se alguém te perguntar se você veio para ficar então entregue todo dinheiro para senão não poderás entrar. Que vivam todos felizes por lá.

Em Nova Odessa já tem bastante gente que já saiu de lá. Aqui o pessoal de Rio Novo fala que lá deve haver um mau espírito, senão por que as pessoas correm tanto para lá.[ Não dá para saber se ela estava se referindo a nova Colônia ou a Nova Odessa]

No Domingo passado o Zeeberg leu aquelas notícias missionárias contando como vai o trabalho na Latvia e na Alemanha e que este movimento pentecostal já é bastante antigo por lá.

O Roberto Klavim tinha traduzido para o leto aquele artigo do “O Jornal Batista” escrito pelo Alschekbirse que se referia ao artigo escrito pelo Freyvalds sobre este mesmo assunto. Pode ser que você já tenha lido, mas nós aqui não recebemos jornais novos.

Bem por hoje chega. Você deve saber sobre estes assuntos mais do que nós aqui. Escreva bastante. Nós estamos todos bem aqui e parece que você também está por lá. Lembranças de todos. Olga.

Escrito na lateral: Pelo que parece você não fez por merecer esta carta porquê, toda vez que eu começava a escrever, vinha um sono tão forte. Tinha que ir dormir e assim precisei de diversas noites para terminar de escrever. Amanhã eu vou despachar. Se não chover 8-2-23.

Carta de Ernesto Grüntal para Ludwig Rose | Sobre o futuro de Reynaldo Purim – 1912

OPINIÕES
DIFERENTES
Carta de Ernesto Grüntall de Rio Novo para Ludvig Rose em São Paulo

Cópia cedida por Dª Waldtraut Rose
Tradução e comentários por Viganth Arvido Purim

O Reinis ou Reynaldo Purim era um mocinho inteligente e este vizinho chamado Ernesto Grüntal que era amigo do jornalista e Redator do Jornal alemão de São Paulo o Deucher Zeitung, o Ludwig Rose e nesta carta mostra claramente que estava torcendo que o Reinaldo deixasse do envolvimento que ele tinha com a Igreja Batista de Rio Novo e fosse trabalhar com o tio dele o Ludwig.
Vamos a Carta:

Rio Carlota 12-1-1912
[Rio Carlota era uma localidade contígua ao vale do Rio Novo]
Bom Amigo!
A tua carta recebi no dia 24 de Dezembro. Não parecia nada de bom e eu enfiei a mesma no bolso, pois pensava que seria mais uma daquelas de Porto Alegre de onde aqueles senhores novamente com duras palavras estariam cobrando o precioso pão que eu comi nos 2 ½ anos que fiquei lá. “Schtimungs” [esta palavra presumo que seja algum xingamento em alemão]•. Eu fiquei totalmente tomado de preocupação devido a estas coisas que poderiam acontecer.

Tendo chegado em casa e ainda com espírito desanimado, com a visão perturbada e muito apreensiva e assim colocando a carta em cima da mesa deixei-a para lê-la somente no dia seguinte. Mesmo não tendo aberto percebi que a carta era sua. O mundo pareceu totalmente sobre outro prisma, outra luz.
Pensei logo que agora teria que escrever em leto, mas pra você não seria prejuízo nenhum porque esta língua flui pra você como água. Eu pelo contrário quando tenho que escrever em alemão não posso prescindir de um dicionário.

Antes de continuar a escrever permita-me apresentar calorosos agradecimentos por ter me suprido todos estes anos com jornais, quais gostaria de continuar recebendo e assim tendo a oportunidade de avaliar o seu contínuo progresso mesmo sendo um leigo no assunto.
Posso mencionar a opinião do “clerical [Ele o Ernesto era ateu desprezava qualquer pastor] ” J. Inkis [Pastor batista que viajava e visitava as Igrejas] que reconhece que da sua mão a pena fluem idéias muito facilmente e você está em uma área quando a tua pena passando em papéis eles vão facilmente se transformando em dinheiro [o dinheiro vem dançando] .

Para perturbar ainda mais apressadamente perguntei se ele não iria aliciar esta pena tão fértil para ajudar causa dele. O homem começou a torcer dizendo que a obra dele era baseada em fatos irremovíveis como edificada em rocha sólida. Para permitir a ele mudança do rumo do vento e não me atacar com um punho fechado eu ofereci alguns exemplares do “F. Wochbelt” [deve ser alguma publicação em alemão] •. Lá entre outras coisas pode encontrar um Sermão sobre o Natal.

Noutra vez que nós nos encontramos ele reclamava da incredulidade e o distanciamento de Deus, do povo. Empertigado como um galo e com crista vermelha começou a fazer um sermão andando pela sala de um lado para outro e batendo com os punhos na mesa. Se ele tem sete cristas e faz toda essa encenação, tenho certeza que você tem pouco interesse, senão eu teria muito que contar, como estes pobres de espírito e curta perspectiva [estava se referindo ao seus conterrâneos letos da Igreja não ateus como ele]•, pessoas mesmo de pouca instrução que ficam correndo atrás dele.

É melhor eu continuar a minha carta.
É verdade que faz tempo que não temos trocado uma palavra. A verdade é que da minha parte o prejuízo foi maior e toda culpa da tua parte. Mas como eu leria “K.D.R.Vernümft “ [algum autor alemão] e tentasse entender. Quanto eu consigo me lembrar você foi o primeiro redator com quem em minha vida eu me correspondi. Estas pessoas pessoalmente não tenho oportunidade de conhecê-las e como tenho informações através de literatura que eles, os redatores estão atulhados de trabalho e estes homens não tem folga nenhuma. Também o índice de mortalidade destes é muito alto. Pois forçam muito o raciocínio elaborando, contestando se preocupando e assim prejudicando a saúde.
Por isso neste período eu não fiquei sabendo nada de você, como você estava passando e também os teus.
Contei ao teu pai [Jekabs Rose] de como trabalhas em jornais e tudo o mais que você faz lá. Ele não reclamou de nada e cofiando sua barba disse: “Estas coisas agora já são sabidas” Agora eu ainda transmiti a mensagem que você pediu para passar pra ele. Ele mora agora na propriedade dos Kunz [Família Alemã Sabatista que morava no Rio Larangeiras] , ganhando 60 mil réis por ano. Ele sente-se melhor para o trabalho, depois da doença, se bem que o reumatismo não o tenha deixado completamente e em tempos chuvosos ele ainda sente dores nos joelhos.
O plano dele é viajar para Timbó [Cidade do vale do Itajaí Assu acima de Blumenau] a de fim de consultar o Dr. Berkhotz para que ele o cure. E como ele espera viver até os cabelos ficarem grisalhos ele quer encontrar lá algum dentista que faça uma dentadura nova. Ele gostaria de ficar lá para viver. Se o médico o quiser poderá cuidar da terra dele. Isso tudo ele me contou. Manda muitas lembranças e saudações para você. Somente aos sábados ele se torna inacessível, pois se falar com alguém não pode partilhar dos cultos sabatistas.
Quanto ao Reinis [Reynaldo Purim] não tenho a menor dúvida que se ele cair sob a sua direção ele crescerá e se desenvolverá um grande homem. Moço esguio e crescido, mas ainda não chegou a tua altura, mas pode passar de você. A vida social dele é da casa até a Igreja Batista, em outros lugares você não vai vê-lo. Enquanto ele promete vir aqui em casa e demora, eu já fui e levei os “F.Wochblt”. Como sendo membro da Igreja Batista (encharcado pelo J.I [João Inkis] ) [Batizado por imersão, sistema praticado pelos Batistas] ele é constantemente alertado para não ter relações de amizade com os infiéis [um patrulhamento para que os jovens não vejam e não ouçam além do permitido] . Assim mesmo ele disse que foi inquirido, mas como são sabidas associações de outras correntes de opinião aqui não existem. Ele ficou muito admirado que a dª Anna Elbert tenha contado sobre você. Ele falou confiado na minha palavra que ela mesma teria escrito pra você. Quanto eu sei a única carta ou cartão foi por ele enviado ao Pastor Frey , redator do “Awots “ descrevendo alguma festividade da Igreja aqui. O Sr. Purim reconheceu que o filho Reinis é por você como que tivesse uma idéia fixa. Mas ainda não poderá deixar o Reinis ir embora, pois o irmão ainda não o substitui, ainda é pequeno (Artur) para tomar o seu lugar. Ai estará o prejuízo de uma enxada a menos na coivara.
Sobre livros que ele gosta, ele prefere os culturais e científicos. História e contos ele não gosta muito, diz que tem pouco o que aprender com lutas e dificuldades que ela apresentam. O Professor dele o Hans Elbert só tem coisas boas a dizer sobre ele. Sempre foi o aluno mais esforçado e diligente e com muito boa cabeça.
Quando compartilhei a tua carta na casa de tua irmã [Ludwig Rose era tio de Reynaldo Purim, A mãe de Reynaldo era Lisete Rose Purim irmã de Ludwig] os olhos dele brilhavam. Porem tinha que fazer o que a carta recomendava. Faltava confiança. Será que trabalhar em jornais seria o melhor emprego? Então porque você mesmo não escreve direto pra eles? Outro dia eu desci até a casa deles e perguntei como iria ficar, pois eu precisava te responder. Então recomendaram muitas lembranças, mas a viagem somente será ou seria possível quando a cegonha passear com carruagem de ferro [Uma expressão que na Letônia era usada quando indicando impossibilidade total do projeto ou evento] . Bem você vai saber mais quando te corresponderes com eles aqui.
Pelos sinais que você indica é que você se lembra de nós todos quando você vai muito bem, e isso não é de todo mal, pois se você estivesse passando mal nos estaríamos protegidos das más notícias…
Nos anexos de sua carta, preciso reconhecer e dizer, você mexeu com um assunto muito sensível. Eu não tenho nada com o que me gloriar. Reconheço que minhas lutas são com as minhas dívidas. A vida não vai como a gente queria que fosse. O quanto a gente planta a gente colhe. Durante o ano a gente gasta, mas nada em especial, mas no final não sobra nada. Termina curto e estreito. Se não fossem as dívidas seria bem mais fácil sobreviver. Iria tudo bem melhor.
Existem momentos que fico desanimado, mas eu tenho todo animo que um niilista [Niilismo, filosofia anarquista que não aceita nenhuma norma, princípio ou autoridade] pode ter. Quando estou sem esta depressão ai tudo bem. Dívidas maiores ainda tenho com o Diretor [Diretor da Cia Colonizadora] onde devo 300 mil réis. O contrato diz que eu tenho que pagar 100 mil réis todo ano. Além desta eu tenho uma dívida com o Sr. Purim onde falta pagar 130 mil réis. Eu tomei emprestado em 1907 para o pagamento com juros de 6% ao ano. E como ele é sócio da Cooperativa e lá eles pagam juros maiores ele este ano pediu o dinheiro. Dívidas em vendas [Vendas ou casas de comércio que vendem pela caderneta] eu não tenho. Se você pudesse me fazer um empréstimo de uns 300 mil réis, seria muito bom pra mim. E em minha vidinha daria um grande passo à frente.
Com uma calorosa saudação em pleno verão.
Fica o teu Ernesto

(Escrito na lateral da 2ª página:)
Muito agradecido pelo envio do livro “Viagens de Darwin”

No Próximo Capítulo: Anexo 1 – Algumas informações sobre Ernesto Grüntal

Onde isso vai levar e o que você vai fazer com isso? | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 26 de maio de 1921

Querido Reini! Saudações!

Hoje eu estava com receio, pois já faz duas semanas que recebi a tua carta escrita no dia 29-4-21. Nunca eu deixei uma carta, tanto tempo sem resposta..

O motivo é que para a cidade raras as vezes que a gente vai. Então a gente ia deixando para frente e também os novos escrevinhadores estavam aguardando coisas novas acontecerem, para então escrever, mas como você sabe aqui as novidades são poucas. Bem desta vez vou escrever tudo o que for possível. Isso mesmo.

Você possivelmente não vai achar muita coisa e tempo você não tem muito e sempre deve ter alguma carta pendente para responder. Quando pode achar muito tedioso, mas responda somente o que for importante.. No dia 29-4-21 eu mandei uma carta. Agora já são duas vezes que coincidiu que no dia que você estava escrevendo lá, e eu estava escrevendo cá.

Nós graças a Deus estamos passando bem e faço votos que tu também estejas.

O tempo está muito seco. Outono assim faz tempo, não tem havido como deste ano. A chuva tem sido mínima e há semanas que o tempo permanece limpo a semana inteira, Na outra semana sim, uma noite até que choveu bastante, mas pela manhã estava tudo enxuto, pois um desagradável vento frio soprava intensamente. Este trouxe as primeiras geadas. Noutro dia, lá perto da Igreja já estava com a grama um pouco branca, mas foi por pouco tempo, pois agora já está quente outra vez.

Noutros anos por esta época as geadas, já tinha deixado tudo acinzentado, mas este ano por aqui ainda está tudo verde. No ano passado as folhas verdes da mandioca tinham caído todas e esse ano continuam como estivessem continuando a crescer.

E também as roças de milho este ano estão mais bonitas. Noutros anos quando as chuvas e tempestades derrubavam o milho, muitas espigas apodreciam.

Desta vez foi muito diferente e principalmente daqueles perto da ponte e também mesmo a coivara junto do mato, o milho está um amarelo dourado, firme de pé, pois muito poucas as hastes que estão caídas. Também na coivara da Bukuvina o milho está muito bonito com espigas muito grandes e muito bem maduras devido ao tempo quente e seco. Somente nas duas grotas, na roça junto a mata, mais para o lado de casa, o vento derrubou um pouco, mas ai, já estamos terminando de colher.

Daqui uns dias vamos começar a transportar e jogar dentro do paiol que você conhece bem.

Estamos ainda com muito serviço porque o feijão não está todo arrancado e ainda muito por “bater”. Você escreve que arrancar feijão e quebrar o milho é um serviço leve, mas não está rendendo nada, porque estão muito entrelaçadas com as hastes do milho e ai não é nada fácil. Tudo isto agravado pelo acentuado declive do terreno que você bem conhece, onde estão paus das queimadas anteriores e pedras descem rolando e batem nas canelas da gente.

E você nas ruas planas e limpas do Rio de Janeiro. Claro que lá é muito melhor.

Eu sempre pensei que no Rio de Janeiro as roupas e tecidos seriam mais baratos. Aqui as mercadorias estão muito baratas. Somente a farinha de trigo está a 1$500 o quilo, mas essa a gente não está comprando. Sem ela a gente sobrevive e deixa que custe até 2$000 o kilo.

O açúcar está valendo 7$500 a arroba. A farinha de mandioca a 5$000 a saca. A carne de gado estava a 1$600 o kilo em Orleans. Agora está a 1$200. O toucinho até bem a há pouco tempo estavam pagando a 13$000 a arroba com ossos e tudo. O feijão está a 8$500 a saca.

O arroz que este ano deu de maneira sensacional estão pagando a 6$000 a saca e nas vendas já limpo é vendido a 4$000 a arroba. Nós não temos muito, porque não plantamos muito este ano, mas a qualidade dos grãos está muito bonita.

Os vizinhos que plantaram 2 quartas colheram de 25 a 30 sacas da variedade de casca amarela. Nós este ano não conseguimos esta semente. Outros conseguiram com os poloneses, lá para os lados da Linha Antunes Braga. Esta variedade é muito mais produtiva. No ano que vem vamos deixar de plantar as de cascas brancas e mudar para as de casca amarela, pois além de ser mais produtivo é menos exigente quanto à qualidade do solo.

As roupas aqui são caras, mas não tanto quanto lá que te pediram por um terno de brim 100$000. Aqui na Venda do Pinho, eu vi um brim bonito amarelo como aquele que uma vez você já teve somente mais encorpado do que aquele por 4$000 o metro.. Se você quer um terno completo com colete então 7 metros seriam suficientes que dariam 28$000 e mais botões, linha, forros e tecidos para os bolsos 30$000 então ainda sobraria 70$000 para o alfaiate. Eu e a Mamma estivemos conversando sobre a possibilidade de comprar aqui um tecido bom e mandaríamos já com as calças prontas e o tecido para você mandar fazer o fraque e o colete. Gostaria de saber, quanto isto custaria e é possível que saísse mais barato e assim você poderia guardar o seu rico dinheirinho para as outras coisas, porque as roupas geralmente com o uso diário duram muito pouco.

Tecidos de lã boa, não sei quanto, as mais caras de 18$ a 20$ o metro e aquelas de 10$- 12$ a gente vê que não são grandes coisas. Gostaria que você calculasse direito e me escrevesse, pois quando eu for à cidade, posso avaliar a melhor solução para a sua roupa.

Agora a senhora Leimann no mês de abril mandou duas vezes, alguns pares de meias feitas em casa, para o menino lá na Argentina. Lá elas custam de 5 a 8 pesos. O menino sente muito frio, lá em Buenos Aires. Ele ainda te escreve? Não se pode esperar muito de uma pessoa, que diz que vai muito bem. Frio ele passa porque a cidade dele está mais perto do pólo sul. Este ano ele vai terminar o curso e vai sair de lá pronto “Doutor”.

Você saiu daqui antes e parece que vais demorar a conseguir este título de “Doutor”. Não sei, se vale a pena estudar tanto. O outro cuidou de estudar caligrafia e todas manhãs fazer café para os professores.

Você fica quebrando a cabeça e a língua com a Língua Grega e fica fazendo experiências com microscópios. Onde isso vai levar e o que você vai fazer com isso?

Bem, por hoje chega senão vai ser muita coisa para você ler e eu também preciso ir dormir, pois estou com muito sono.

Pode ser que logo receba alguma carta e ai tenho que escrever outra vez. Logo a Luzija vai imprimir o seu manuscrito. Então eu mandarei na semana que vem porque neste envelope não cabe mais.

Vai também junto uma carta do Arthur.

Com muitas e amáveis lembranças – Olga.

P. S – Junto eu estou mandando duas amostras de tecido, mas parecem que não são muito bons. O branco custa 3$500 e o cinza custa 4$000. Logo vão chegar novos tecidos e eu vou especular mais.

Agora ele está estudando a língua brasileira. | De Artur Purim para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 24 de maio de 1921

Querido irmão!! Saudações.

Eu recebi a tua carta em 13-5-21. Muito obrigado. Nesta minha resposta eu tenho muito o que escrever, mas não sei o que escrever primeiro e o que deixar por último.

No domingo passado à noite teve aquela reunião da mocidade, onde são feitas aquelas apresentações [Uma das funções da União de Jovens era para treinar e desinibir, ou melhor, facilitar o aprendizado para falar em público] que foi bastante longa, pois demorou mais de duas horas. Houve uma série de apresentações variadas, algumas interessantes outras nem tanto. Alguns jovens escrevem o que vão apresentar, mas eu nunca escrevi. Outros extraem trechos de velhos jornais ou de livros. O Karkle [Karlis] escreveu: Acho que os rapazes do Rio Novo não são muito inteligentes. [É uma longa estória, onde a moral é: Mais fácil, dizer e dar palpites do que mesmo fazer as coisas] O Ludis ficaria pasmo diante disso, pois só escreve bem quem sabe e treina muito..

O Augusto foi servir o Exercito e lá não tem nada o que fazer. Agora ele está estudando a língua brasileira pelo menos para ler e escrever. A maioria não sabe nem ler nem escrever.

Alimentação, dizem que lá quartel é muito boa, eles dão comida de 5 a 6 vezes por dia e nos feriados ainda muito mais.

Agora começou uma fase que eu fico com as unhas coçando de vontade de atirar e tem muitos bichos que estão comendo a cana de açúcar.

Mas estes graxains não dá para esperar para caçá-los, então, eu armo a espingarda e deixo engatilhada na trilha do bicho ao anoitecer. Quando ele vem e enrosca nos fios e os puxa fortemente, já sabe é um estampido só. O último era um cachorro do mato que o tiro atravessou a garganta que lavou tudo de sangue e assim mesmo ele ainda correu um pedacinho antes de cair morto. Quando eu trouxe para casa a Leda, não queria parar de morder. Tiramos a pele e foi muito fácil esfolar e penduramos o couro cinza para secar.
Noutro dia armei a espingarda outra vez, mas os bichos se tornaram espertos e pulam por cima dos fios que até deixam pêlos enroscados. Noutra vez eles conseguiram fazer arma disparar, mas o tiro deve ter passado por baixo da barriga. Agora a nossa espingarda teve um problema e assim tivemos levar para o ferreiro, para consertar, mas amanhã já vamos buscar.

Semanas atrás a Mamma trouxe dos Leimann aquela espingarda velha, estava enferrujada e nós limpamos e agora atira que o estampido reboa por ai.

No sábado passado, eu ia com a Marsa para a Bukuvina para buscar baraço de batatas para o gado eu levei a espingarda junto. Na volta quando estava atravessando a mata, atirei e matei um bicho que se chama “Cuatí” e tem uma bonita pele. Levei para casa e começamos a tirar o couro e ai vimos que não era fácil, pois ele tem uma camada grossa de toucinho.

Lá na Bukuvina tem muitos veados e comem o baraço da batata doce. Noutro dia eu madruguei e fui caçar os veados, mas os bichos são muito ariscos e ao menor ruído devem ter ido embora..

Já voltando através do mato noutro lado da grota vi um outro bando de “Coatís” bem no alto das árvores. Atirei a primeira vez, mas não acertei. Atirei a segunda vez e acertei dois grãos de chumbo na garganta do bicho, mas não deu mínimo sinal de cair.

Eu, apressadamente, [as espingardas eram as pica-pau carregadas pela boca] carreguei para o terceiro tiro e este acertei no peito e o bicho despencou como fosse uma pedra lá do alto. Comecei a procurar por toda parte, mas o mesmo tinha sumido, mas depois de muita procura achei num buraco profundo. Levei para casa, tiramos a pele e como sempre fazemos cozinhamos a carcaça junto para comida dos porcos.

Agora eu tenho três belas peles, uma cinza e duas amarelas. Na semana que vem eu vou armar a espingarda para matar os veados.
Bem agora chega.
Escreva bastante.
Lembranças de todos. Arthurs. [O Arturs ou Otto Roberto nesta altura estava com 15 anos de idade].

Capinar é uma vida de ouro | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 22 de julho de 1920

Querido Reinold!

Primeiramente mui amáveis lembranças de todos de casa. A tua carta escrita no 22-6-20 recebi no dia 20 de julho — se bem que o navio veio para Laguna logo depois da carta ser despachada, assim mesmo ela demorou demais. Fazia tempo que estávamos esperando aquela carta que recebemos dia 23 de junho e para a qual mandei resposta no dia 4 de julho. Recebemos um pacote, mas neles não havia nada escrito.

Fico muito aborrecida que as minhas cartas não tenham chegado. Então parece que são duas as minhas cartas que estão perdidas: aquela que escrevi pela ocasião da Festa de Pentecostes [em leto “Festa do verão”] com muitas notícias sobre a Convenção e as conferências e muitas outras coisas, e mais a carta da Luzija.

Nós estamos passando bem. O tempo está muito instável: uma hora está bom e logo em seguida pode estar chovendo. Duas semanas atrás deu uma geada bastante grande até aqui em casa. A roça da mandioca perto da ponte a geada matou, mas em outros lugares permanecem verdes. Noutra manhã já choveu. Semana passada estava realmente tudo encharcado e ainda por cima muito frio.

As estradas tinham sido consertadas pela comunidade, mas logo em seguida, com esta aguaceira toda, começaram a chamar nossa linda estrada de Kuilhu kalna/o morro dos porcos, diante de tanta lama que tinha aqui na nossa frente.

Agora esta semana já enxugou bastante. O milho ainda não está todo colhido. Logo vamos começar a fazer o açúcar. A geada não afetou a cana mas os bichos [graxains, cachorros do mato e outros] estão estragando muito e por isso vamos cortar.

Sobre o Rio Novo não tenho nada alegre para contar-te. Domingo passado foi o último domingo em que o Butler dirigiu os trabalhos. À noite foi a despedida oficial, e apesar da chuva e de estar tudo molhado, a igreja estava literalmente tomada de gente.

O Butler deu bons conselhos e orientações sobre como proceder e apresentou vários planos como alternativas que são plenamente viáveis; é só ter vontade de executá-los. Disse ainda que tem aprendido não olhar nem se influenciar por pessoas negativas que acham que nada vai dar certo e que tudo que é apresentado é ruim. Ainda bem que são poucas estas pessoas e que é para olhar para frente e trabalhar.

Também bem disse que em Rio Novo existem pessoas que se preocupam mais com o crescimento e bem estar de seus cavalos, com seus porcos do que com os seus filhos. O que eles vão ser quando crescerem? Pessoas irresponsáveis que serão a desgraça para a comunidade.

O Butler disse que voltaria [para o Rio Novo] no momento em que não pudesse mais falar. O médico que o está tratando tem dito que capinar ervas daninhas numa colônia como Rio Novo é uma vida de ouro. O Butler vai verificar como a saúde dele vai se comportar em Kuritiba, e se por acaso piorar dentro de um ano é possível que esteja de volta.

Para cuidar do velho ele deixou a Anlise, porque a Kate não vem mais. O milho deixou colhido, as cercas em ordem e o gado ficou todo.

Na quarta-feira, dia 21 de junho, o Butler foi a Orleans e na quinta-feira embarcou para Imbituba, onde se o navio demorar vai realizar diversos cultos. Quando os mensageiros da convenção ficaram retidos lá depois de partirem daqui, todas as noites realizaram cultos.

Os trabalhos da igreja aqui serão dirigidos pelo comitê. As sessões regulares serão dirigidas pelo W. Slengmann. Domingos à noite, pelos jovens. Os grandes e bons planos feitos por ocasião da Convenção foram esquecidos pelos que eram contra, mas não por todos.

Domingo que vem vai haver sessão de negócios e vamos ver o que será resolvido o assunto da Grande Campanha. O Comitê é inteiramente favorável ao pagamento das cotas de contribuição combinadas, mas não sei se vai agradar a todos.

Sobre a Convenção já escrevi bastante e agora já não tenho o que escrever. Tive a oportunidade de ver estas pessoas realmente importantes que se mostraram tão simples quanto nós. Tínhamos a imagem de pessoas orgulhosas e inacessíveis, mas estávamos errados.

O Watson gosta de contar experiências e fatos. Falando sobre os doze espias de Israel que foram avaliar a terra de Canaã, disse que foram interrompidos no momento que atravessavam o Rio Novo lá na barra. O Butler mandou eles lavarem os pés, pois estavam entrando em Terra Santa.

Na Convenção todos falavam em brasileiro. O Butler traduzia o que era mais importante. Pode ser que tenhas lido “O Baptista”, lá está impresso tudo que foi resolvido aqui. O Antonio Cordeiro não veio.

Por hoje chega. Aguardo longas cartas tuas sobre o que você fez nas férias. O que você conversou com Karlos?

Os jornais falavam de grandes eventos programados para estas férias. Gostaria que você escrevesse se deu tudo como estava previsto. O Arthurs não levou em conta a pressa em responder àquelas muitas perguntas e questões que você passou para ele.

Fico aguardando uma longa carta sua.

Olga

Enfrentou a noite enluarada | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 30 de junho de 1920

Querido Reini!

Primeiramente receba muitas lembranças de todos de casa. Recebi a tua carta escrita no dia 3 de junho no dia 23 de junho. Obrigada! Já há tempo esperávamos cartas suas, fazia mais de um mês que não tínhamos recebido noticias.

Você ainda não recebeu a carta que mandei no dia 30 de abril? No mesmo envelope seguiram as cartas dos estudantes [Lúcia e Artur], e isso realmente é um grande prejuízo. Mandei no dia 25 de maio a resposta à tua escrita em 6 de maio, e ainda em 18 de junho uma longa carta com muitas notícias dos últimos acontecimentos daqui.

Agora as cartas tem ido e vindo muito devagar, talvez seja porque está chovendo pouco e deve ter pouca água no mar, talvez esteja vazio. Hoje está chovendo um pouco; se vai aumentar o nível eu não sei, porque chuva de verdade faz tempo que não tem havido. Às vezes chuvisca um pouquinho só para fazer lama, mas aumentar o nível dos rios, isso não acontece faz tempo. Quem também reclama da falta de água é o tafoneiro, que não tem água para moer o milho por falta de água.

Geadas tem havido algumas fortes, lá para baixo perto de Orleans, que atingiram bananeiras, canas de açúcar e mesmo as capoeiras. Mas aqui em casa a geada não matou nada: só duas manhãs amanheceram com alguma geada nas baixadas. A semana passada e esta também está bastante quente, como se fosse verão. Vamos ver quanto tempo isto vai continuar.

Agora estamos colhendo milho e despejando no paiol.

Hoje é o último dia de aula para os estudantes. No mês que vem parece que não vai haver aula, pois ainda não se sabe quem vai ser o novo professor. O Butler no mês que vem vai para Curityba e agora está tomando todas as providências para a sua saída e a viagem. Está mandando arrumar todas as cercas porque quando chegar a Kate, que vai morar na casa dele, naturalmente não vai cuidar disso.

Este cuidado é para que o gado dele não fuja e vá estragar as plantações dos vizinhos. Os animais ele não pretende vender ainda, porque depois de um ano ele pretende voltar.

Agora a igreja de Rio Novo vai ficar novamente sem pastor. Quem virá para o lugar dele? Domingo atrasado o Onofre esteve em Rio Novo e apresentou uma proposta ao comitê de sucessão pastoral: que escrevessem para o missionário Deter dizendo que, uma vez que o Butler está indo para Curitiba, ele mandasse o pastor Manoel Verginio para morar em Laguna e dar atendimento a todas igrejas da região. O Comitê inicialmente aprovou de pronto essa ideia, mas para infelicidade de alguns. Aqueles da corrente contrária já começaram reclamar, pois a igreja naturalmente terá que colaborar com o seu sustento e outras despesas. Essa corrente começou a fazer barulho, mesmo sem ter chovido nada.

Durante a convenção alguns já tinham ouvido reclamações pelos cantos e beiras de estrada, mas agora esses começaram a gritar e reclamar, dizendo que quem concordou com os acordos e as novas normas que os cumpram. Dizem que o Butler quando traduzia [as conferências e deliberações] para a língua leta teria omitido partes, mas a realidade é que aqui tem gente que só entende o que interessa e aquilo com que concordam.

Quem maior barulho faz e mais reclama é o velho Karklin, que disse que se tudo não for traduzido para o leto ele e outras pessoas de idade não entenderam nada. Esse sabichão, que lê todos jornais do país e conhece de cor e salteado todas as leis, para nós foi longe demais.

Na sessão regular do domingo passado houve uma tentativa de homologação das resoluções havidas durante a convenção. Tinha chegado “O Baptista” de Curitiba com as atas e novos estatutos decididos nesta última convenção, e o comitê queria aproveitar ainda a estada do Butler para normatizar todos estes assuntos.

O primeiro assunto foi a “Grande Campanha”, cujo alvo é 22$500 por ano, que acharam demais. O Karklin concordou com o dízimo, pois quem ganha mais, mais terá que dar. Ele disse que os outros dão o dízimo, mas a igreja manda para qualquer Sociedade Missionária que ninguém conhece e nem dá satisfação. Ele estava bastante descontrolado. Disse que ele alguns anos dá mais que o dízimo, que é 10%; ele teria dado 14% e até 15%, e insistiu que sabia calcular muito bem.

O Butler reconduziu a ordem e explicou que o dinheiro não vai faltar desde que não se gaste com supérfluos e assemelhados. Se os rionovenses fizerem tudo o que é preciso, não haverá problema nem de falta de dinheiro. O [jornal] Baptista deverá vir de graça, mas é solicitada uma coleta para ajudar na sua divulgação, e se a coleta for muito pequena será enviada uma oferta do caixa da igreja.

Será também feita uma coleta para a Sociedade Missionária da Letônia e depois enviada para o Deter, que providenciará seu envio para o seu destino. Isto irritou ainda mais o Karklin, pois assim ele não foi reconhecido como grande defensor da pátria de nascimento. Ele não tem razão, porque daquelas coletas anteriores ninguém viu comprovante de que o dinheiro tenha chegado lá. Também aquela campanha para os refugiados de guerra, ninguém sabe onde o dinheiro ficou. O Karklin, em vez de mandar direto para a Letônia, mandou para França e eles de lá mandariam para a Letônia. Mas o caso é que, se realmente mandaram, foi para o governo da Letônia, assim os refugiados não viram a cor do dinheiro.

O Lamberts do “Drauga Balsis” [“A voz do amigo”, jornal da denominação batista na Letônia] recomendava que todas doações para os necessitados fossem mandadas para as igrejas de lá, ou endereços pessoais de gente conhecida, senão o governo de lá fica com tudo.

Mas não foi desta vez que chegaram a acertar tudo, e parte ficou para outra vez.

Algumas damas que cantam no coro faz quase um mês que não puderam se apresentar no “palco”, pois estão com os tímpanos partidos; o Watsons tinha falado tão alto que parecia que estivesse falando para uma platéia de surdos, e também na orquestra os rapazes tinham tocado muito alto. Parece que elas não sabem dos inúmeros elogios que os componentes da orquestra receberam dos pastores por terem apresentado músicas maravilhosas de hinos usados na América do Norte e na Inglaterra.

Bem, quem ainda não estava com os tímpanos partidos deve ter ficado na noite do domingo passado quando, por ocasião daquele trabalho especial dos jovens, a orquestra tocou o hino 400 do Cantor: “Igreja, alerta”. Eles ouviram este hino pela primeira vez apresentado pelos mensageiros da Convenção e em seguida o Butler ensinou a cantar, e agora os rapazes da orquestra já tocaram com a maior vibração. Se o Deter estivesse aqui e tivesse ouvido, teria ficado muito satisfeito que o pessoal gostou da música que eles cantaram.

Há uma pequena parte da igreja que nada contra a corrente e diz que não vai quebrar a língua aos pedaços para cantar em brasileiro. Algumas dessas pessoas em outros tempos já tinham cantado em brasileiro, mas agora a roda girou para trás.

O Roberto [Klavin] conseguiu por sorte terminar o trabalho e voltar para casa para as conferências, e colaborou intensamente para o sucesso dos trabalhos. Agora ele está construindo uma fábrica de farinha de mandioca no Rio Larangeiras e o Arnoldo Karklim estava trabalhando para ele como ajudante, mas logo no início trabalhou com tanto entusiasmo que fez um corte no pé e com isso parece que bastou.

Por que o [Fritz] Jankowiski não voltou para o seminário este ano? Aqui, apesar de inquirido, ele não deu uma resposta clara. Já na primeira noite o Leimans quis saber por que e qual a razão pela qual ele não voltou a estudar este ano. Ele respondeu que este ano as circunstâncias não tinham sido favoráveis, mas que no próximo se as coisas mudarem ele irá de novo.

O que ele tem escrito para você sobre o Rio Novo, dizendo que encontrou tudo bem diferente do que imaginava, e que as pessoas que ele conhecia por nome e informações também não eram bem assim. O Karlis Ignausku, que tinha estado em Rio Novo, tinha contado que os Karklis eram pessoas muito enérgicas, mas ele não pôde observar essa
energia, embora o velho seja realmente um tipo enérgico.

Você poderia transcrever as impressões de viagem dele sobre o Rio Novo e o que ele viu de bom ou diferente. Esta semana o Arthur recebeu uma longa carta dele escrita no dia 5 de junho. Ele tinha conseguido chegar em casa no dia 4 de junho. Tinha saído daqui de Orleans no dia 26 e no dia 30 pegaram o “Max” de Laguna até Desterro [Florianópolis] e na segunda-feira a noite pegaram o “Anna” até Itajay. De lá o Looks foi a pé, beirando o mar até em casa.

Mas ele [Fritz Jankowiski] ainda queria conhecer Blumenau e então pegou um naviozinho até lá. De lá ele iria pegar uma carroça para ir até em casa, mas não deu certo encontrar as ditas carroças, então enfrentou a noite enluarada com a mala e bagagem nas costas, como se fosse um mascate, e depois de doze horas de marcha chegou a Rio Branco.

Parou primeiro na casa dos pais e da irmã, que encontrou quieta e vazia. Já na casa dele encontrou cheia de gente. Tinha chegado o Waltauris de seu Castelo da Felicidade que é Porto União. Aqui ele já tinha falado da possibilidade de quando ele voltasse este estivesse lá pela casa dele. O pai dele não estava em casa porque ficou doente no dia 31 de maio e viajou de trem para Rio Negro para se tratar com médico.

Os outros que saíram da Convenção ficaram retidos cinco dias em Imbituba esperando navio.

Bem, hoje chega. Vou esperar uma longa carta sua. Como se passaram os seus dias livres? Foi algum outro leto para a “Chautauqua”? Os, jornais, vais continuar nos mandar? Nós só recebemos um pacote e faz muito tempo. Este ano eles voltarão de mandar de cortesia o “Drauga Balss”?

Muitas lembranças de todos nós aqui.

Olga

A luz da lamparina tão fraca | Roberto Klavin a Reynaldo Purim

12 de junho de 1920, Invernada

Querido amigo!

A tua carta escrita no Rio de Janeiro recebi quando voltei para casa de Mãe Luzia no fim de abril. Fiquei só dois dias em casa, pois fui trabalhar em outro serviço no Rio Larangeiras. Lá pensei que tivesse oportunidade de responder para você, mas com tanto serviço e tantas complicações e a luz da lamparina tão fraca não é nada de prático — não é possível fazer, e o que pode resultar disso é prejudicar a visão.

Ah! Como gostaria de estar em casa para estudar com boa luz as lições da Escola Dominical, ler os jornais e aprontar-me para a Convenção e as Conferências que estavam chegando bem perto.

O período que passei em Mãe Luzia foi mais de três meses, e aproveitei para conhecer o povo leto de lá e seus costumes. Porém nada importante existe por lá. Os “homens espirituais” [pentecostais] continuam a sua atividade por lá e sempre indo em frente.. Eu não fui ver nenhuma vez.

Descobri também que os rapazes letos, malandros, têm feito muita molecagem [com os pentecostais], por exemplo: aberto furos no forro da casa onde eles se reúnem, trancado as portas por fora e aberto as portas quase arrancando das dobradiças. Numa oportunidade em que os “fiéis” estavam em grande êxtase e pulando descontroladamente, esses meninos entraram jogando pimenta moída no pilão, acertando em diversas pessoas e na esposa do Karlos Amdermann. Jogaram direto na boca, e aí pode imaginar o que aconteceu…

Em outra ocasião os brasileiros e italianos começaram a apedrejar a casa do Anderman, quebrando muitas telhas. Se os letos não tivessem dado o mau exemplo esses outros provavelmente não teriam tido também este mau comportamento.

O Emilio Andermann, no começo de maio, viajou para Nova Odessa para morar com o André Leeknin, e logo depois da Convenção o João Klava foi para lá também.

Os participantes da Convenção do Paraná ficaram aqui muito pouco tempo, pois chegaram na segunda-feira e no sábado foram embora. Os de Rio Branco ficaram mais uma semana e também foram embora.

As Conferências se desenrolaram muito bem. Para nós no Rio Novo está começando um tempo muito triste, pois o nosso pastor vai deixar daqui um mês o Rio Novo e vai embora para Curityba. Como vai ser depois que ele for embora somente o futuro poderá mostrar.

Desta vez só tenho notícias tristes e nenhuma alegre. Terminando, receba muitas lembranças de seu amigo

Roberto Klavin