…porque não temos sementes de flores para plantar. | De Arthur Purim para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo, 11 de agosto de 21

Querido irmãozinho!

Eu a tua carta já faz tempo que recebi, mas não respondi logo e ficou, mas, agora vou escrever sim.

Eu estou passando bem. O tempo hoje está nublado e está começando a chover. Na calha corre tão pouca água, que para encher um balde, leva uma eternidade.

Hoje eu passei o dia podando as videiras e teria feito muito mais se as abelhas tivessem permitido. Ontem eu plantei um pessegueiro e hoje outro. Chove muito pouco, mas os pessegueiros já estão em flor. Este mês o tempo está quente como deve ser na primavera. As abelhas vão para o trabalho a toda, o que se escuta é um ronco só. As laranjeiras estão com as flores em botão e em poucos dias vai ser aquela florada.

Hoje, também limpamos o jardim e adubamos os canteiros. Estamos frustrados porque não temos sementes de flores para plantar. Você poderia mandar sementes de flores. Você poderia colher os botões maduros em toda parte que você veja flores lindas e depois mandar as sementes.

Na semana passada o Auggis começou a fazer açúcar durante dois dias. A dele não foi pouco porquê devido a seca a cana não tinha crescido bem. Ele moeu 46 feixes e rendeu ou pouco mais de um tacho. Esta semana os italianos alugaram o engenho e já ferveram 9 tachos e ainda tem muita cana por moer. Na semana que vem nós vamos cortar a nossa cana e vamos fazer a nossa festa do açúcar. Você bem que poderia vir nós ajudar.

Bem por hoje chega. Escreva bastante. Com amáveis lembranças de todos. Arthurs.[ O mocinho estava com 16 anos já]

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A água da calha não corre mais | De Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 28-7-1921

Querido irmãozinho!

Primeiramente envio muitas lembranças. Recebi a tua carta escrita em 23-6-21. Muito obrigada.

Nós estamos passando bem. O tempo está bom e quente.

Na segunda e terça passada, choveu muito pouco, o suficiente para molhar as estradas. A água na calha [ Fonte que trazia água da nascente] não corre mais.

O milho terminamos de colher e transportar no dia 19 de julho. Tínhamos começado no dia 13 de junho no dia da festa do Santo Antônio que é dia santo para eles, no Barracão [Barracão é um vale paralelo com o Rio Novo no lado leste]. Teríamos terminado antes se não fora tão frio e chuvoso naqueles dias. Despejamos 206 cargas no paiol principal e como ele estava super cheio tivemos que por mais 35 cargas naquele paiol pequeno e por este tempo todas espigas pequenas que este ano não foram muitas foram dadas direto para o gado. Você bem pode avaliar o duro trabalho de apanhar o milho, de juntar e trazer nas costas até a trilha e dos cavalos trazerem para casa. A grande vantagem deste ano que naqueles dias que nós trazíamos, não havia lama nos caminhos, como fora nos outros anos.

O feijão agora está com bom preço. É provável porque vocês acham que agora começaram a gostar de comer o feijão daqui. Nós também levamos as nossas para vender. O pessoal da vizinhança vendeu por 10$000 a saca e nós quando chegou a 16$000 resolvemos vender duas sacas pensando que não fosse subir mais, mas nesta mesma semana foi para 20$000 então levamos mais 5 e ½ sacas. Agora você mesmo pode calcular quanto deu no total.
Quando começaram a pagar 20$ então o pessoal levava o feijão durante o dia e noite e mesmo durante as grandes geadas, mas agora o barulho cessou e é provável que tenham levado tudo.

Desta vez não vou escrever muito porque você não tem tempo para ler cartas longas.
Mas quero anunciar que logo vai começar a festa da colheita da cana para fazer açúcar. Então não se demore lendo cartas e deixe tudo por lá e caia na estrada.
Logo o nosso meeiro, o Augis [Augusto Feldsberg], vai começar a fazer açúcar em nossa fábrica. A nossa cana ainda não foi cortada. É possível que comecemos dentro de algumas semanas, pois não temos a pressa dos outros pois a nossa cana está num lugar alto e nada sofreu com a geada como as dos outros. Então você terá tempo de chegar até aqui para tomar garapa, lamber o melado e comer o açúcar.

Bem desta vez chega. Agradeço você ter mandado as cordas do violino e os jornais. Agora eu tenho cordas suficiente para o violino, mas quando faltar eu escrevo para você comprar.

O Arthurs hoje não vai escrever porque não atirou em nada e nada de importante não tem o que escrever.

Pois tenho que terminar mesmo, pois tenho que ir dormir, pois os outros todos estão dormindo.

Ainda muitas lembranças de todos. Luzija.

…toda natureza estava lúgubre chorando…. | de Olga Purim para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 28 de julho de 1921

Querido Reini! Saudações!

Eu desta vez não teria direito de escrever. A tua carta logo que recebi em seguida já respondi. Naquela vez os outros não escreveram, então como a Luzija esta noite está escrevendo então você não vai levar a mal, pois eu já estou escrevendo, mesmo que você não as possa ler no momento pode deixar para quando os dias forem mais longos. Desta vez não tenho notícias alegres e sim bem tristes.

– Nestes dias passados, aconteceu um desastre que há tempo não tinha acontecido…. Agora a nossa mais querida amiga Marija Sommer,[os pais desta moça tinham falecido e os parentes moravam distante] já não caminha pelas estradas do Rio Novo e está onde não há preocupações nem dor e seu corpo repousa no cemitério, no alto da colina.
Era uma fria manhã de domingo, dia 17 de julho. Ambos, os velhos Leiman, devido a este frio, resolveram ficar em casa. Mas a Marija montada no Prinze veio para o culto na Igreja. A senhora Leimann não imaginava que aquela foi à última vez que abriu a porteira, para esta pessoa tão querida que nos últimos dois anos morava com eles e eles a consideravam como fosse própria filha e que não voltaria mais para casa.
Nós neste domingo a convidamos para almoçar aqui em casa e que passasse a tarde conosco, mas ela muito responsável só queria ir para casa. Logo após a casa dos Karklim o cavalo se assustou e desembestou numa corrida maluca [a distância que o cavalo correu devia ser um pouco mais de um quilometro]. Quem viu foi o Limors, depois os Salit que estavam também voltando da Igreja e logo que atravessou a ponte do Rio Carlota já perto da casa dos Karp, ela parece que não conseguiu mais se segurar e caiu. Correram os vizinhos como os Match e os Salit que vinham da Igreja por perto, mas a jovem parecia desmaiada e depois de muitos esforços ela voltou a respirar. Então levaram para a casa dos Karp que era bem próxima. Logo que soubemos desta trágica notícia, a Mamma (Lisete Rose Purim minha avó) foi voando até para ver o que poderia ser feito. Aquele acontecimento agitou a tranqüilidade dominical da comunidade. A Maria não retornou os sentidos. Nos Karps, ela ficou até quarta feira, mas porque na casa dos Karp tinha pouca gente para cuidar a Mamma ficou lá duas noites direto [distante 3 quilômetros]. Os Leimann e os Grikis queriam levá-la cada um para a sua casa, mas ficou decidido trouxeram para a casa dos Grikis. Ficou todo este tempo respirando, mas sem comer ou falar nada. Ela resistiu desacordada 8 dias e assim no dia 25 ela morreu e no dia seguinte foi o enterro. Neste dia do enterro estava um dia nublado, cinza e soturno como eu não me lembro ter visto igual….. Parecia que toda natureza estava lúgubre chorando por ela… Agora o casal Leiman, ambos velhinhos sós, outra vez. Agora uma de nós duas vai ter que ir morar com eles. Quem será ainda não foi decidido. — Tempos atrás também morreu a senhora Elbert.

Hoje não vou escrever mais nada, porque logo que receber sua carta, eu terei que escrever outra vez e sobre os assuntos diversos a Luzija está escrevendo.

Quanto a nós graças a Deus estamos todos bem e esperamos que também estejas também.
Com sinceras lembranças. Olga.

[Este acidente foi causado pela corrida desenfreada do cavalo e agravado pelo uso da sela de banda usada pelas senhoras e moças que somente o pé esquerdo apoiava-se no estribo.].