Depoimento de J. A. Zanerip | A vida na igreja

Sexta Parte

Apesar das grandes distâncias que a maioria do povo da colônia morava, e das péssimas condições das estradas, a frequência era ótima nas escolas dominicais e nos cultos.

A escola começava todos domingos às nove horas da manhã. Em seguida era celebrado o culto, como acontece até agora.

Mas vejam só, o término da escola e do culto era por volta das 12 horas, e depois vinha a longa caminhada para casa — alguns até oito quilômetros de distância, conforme o morador.

Logo no final da tarde, lá pelas 17h30, nova caminhada para o culto da noite — lembrando ainda que isso enfrentando lama e a escuridão da noite e ainda às vezes garoas, frio, chuvinhas finas, chuvas grossas e até temporais. Porém, calçados ou descalços, o povo seguia para a igreja.

Por causa das estradas lamacentas, os irmãos faziam o contrário do que Deus tinha determinado a Abraão: “Tire os sapatos porque a terra onde estás é santa”. Nós vínhamos descalços, trazendo os sapatos na mão; chegando no riacho Rio Novo, após a devida lavagem dos pés, calçavam-se os sapatos para se cobrir os restantes 500 metros até o templo da igreja.

Havia ocasiões em que a lama era tanta que nem esse pequeno trecho era possível percorrer sem perder os sapatos, então a alternativa era lavar os pés numa nascente dentro do jardim da igreja. Assim, andando-se descalços pela grama e pela calçada, adentrava-se a parte social do templo, onde eram calçados os sapatos — para daí adentrar o Santuário decentemente trajado na presença do Senhor. Devo lembrar que a intenção desse procedimento de modo nenhum era a economia, mas a total impossibilidade de se usar sapatos nos caminhos já descritos.

Nas quartas-feiras sempre havia culto de oração, que se iniciava às 19 horas, e depois ainda havia o ensaio do coro — por isso a gente nunca chegava em casa antes das 23 horas.

Apesar da distância, da chuva e da escuridão os irmãos da igreja iam aos trabalhos e nós íamos também — eu, como era adolescente, fazia questão de ir. Às vezes me pergunto se essa situação fosse hoje, e se fosse preciso enfrentar essas mesmas condições, qual seria a minha atitude. Acho que enfrentaria. E por que não? A gente ia cantando e sorrindo das dificuldades sem se preocupar com nada.

Qual era a atração que levava o povo a ouvir a leitura da Bíblia por irmãos que hoje seriam chamados de leigos?

[continua…]

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Depoimento de J. A. Zanerip | Meu primeiro par de sapatos

Quinta Parte

Uma pequena história do meu primeiro par de sapatos. Como já tinha contado antes, por absoluta falta de dinheiro quase todas as crianças iam à Escola Dominical descalças. Costumavam ir descalças até mesmo aquelas que pelas condições financeiras poderiam ir calçadas, pois por longos períodos não havia as mínimas condições de usar sapatos, por causa da muita lama em períodos de chuva, o que era agravado pela grande quantidade de carros de bois.

Meu primeiro calçado foi um par de tênis, mas este durava muito pouco naquela época devido às grandes distâncias e às grandes caminhadas.

Um dia resolvi plantar um talhão de feijão só para mim, por entre um milharal qual estava quase maduro. Fiquei muito feliz quando, ao fazer a colheita, rendeu mais de quatro sacos de feijão limpo. Além disso, como no ano anterior quase não tinham aparecido compradores, pouca gente tinha plantado neste período. Daí o preço foi uma fábula: 25 mil réis a saca de 60 quilos, e na venda apurei limpo 75$00 réis.

Olha, creio que em toda colônia ninguém era mais rico que eu. Já pensaram, um menino com 75$00 mil réis no bolso? Um sonho!

Nestes dias apareceu alguém vendendo uma bicicleta por 75$00 mil réis, mas naquela altura eu já tinha gasto 5$00 réis. Ofereci 65$00 mil réis, mas o dono da bicicleta se mostrou irredutível: menos de 75$00 nem um tostão. Por fim ofereci o que tinha, 70 mil réis. Aí o dono da bicicleta abaixou o preço para 72$00 mil réis — e por causa de 2 mil réis deixei de comprar minha sonhada bicicleta.

Em compensação, um dia fui à cidade e comprei um par de sapatos, meus primeiros e lindos sapatos.

Aqueles sapatos rangiam muito; quando andava faziam “nhique nhoque, nhique nhoque”. Eram tão bonitos que eu nem queria usar para não sujar. Do dinheiro que sobrou gastei mais um pouco e o resto dei para a mamãe.

Foi um sucesso não esperado.

* * *

[continua…]

Depoimento de J. A. Zanerip | Na Rússia também tem Araranguá

(Neste mais uma versão da ” Guerra da Palmatória” em Orleans.)

Quarta Parte

Agora com quatorze aninhos de vida, achei que não teria futuro na vida grudado no cabo da enxada de sol a sol, portanto resolvi procurar aprender a profissão de marceneiro. Assim um dia fui a Orleans à procura do excelente marceneiro Guilherme Feldmann, mas ele me disse que não era possível, pois já tinha três meninos enchendo o saco dele todos os dias.

Na volta de Orleans passei na oficina de ferreiro do Sr. Artur Paegle e perguntei se ele poderia me ensinar a malhar o ferro. Respondeu que ia pensar. Passado algum tempo, voltou perguntando se ainda queria aprender a profissão. Respondi que sim. Então ele me propôs dar a pensão, cama e mesa — banho não precisaria pois água tinha bastante no rio. Só que teria trabalhar dois anos sem salário, isto é, de graça — ou melhor, em troca dos ensinos dos segredos da profissão, como era praxe naqueles tempos. Claro que aceitei.

Apesar de não ser tão perto, todo sábado eu ia para casa.

Um dia, nessa viagem para casa, parti um pouco mais tarde do que costumava fazer. O sol já havia descido e começava a escurecer quando cheguei a um lugar onde o Eduardo Karklin tinha plantado milho. Na beira da estrada ele tinha deixado de derrubar uma árvore enorme. Quando eu já ia passando por baixo dela vi uma macacada em seus galhos, e já corria aquela história dos bichos.

Eu sempre levava uma garrucha escondida na cintura; vendo aquela macacada nos galhos, tirei a garrucha e quis atirar, mas lembrei que macaco tem o rosto parecido com o da gente. Guardei a garrucha e só bati palmas.

Ai meu Deus! Meus cabelos ficaram de pé. Aquela bicharada caía como se fossem novelos de algodão, até na estrada dura e quase em cima de mim (por azar dias antes eu tinha lido histórias sobre bichos na África). Fiquei duro, pois nem da garrucha não me lembrei.

Quando me recuperei do susto não vi mais bicho nenhum. Só ai é que voltei a lembrar da arma, e para meu consolo tirei da cintura e dei um tiro em direção do mato.

Na verdade não eram macacos e sim quatis. Dizem que os quatis quando se assustam pulam dos galhos para escapulir. Correm de pé, isto é, nas patas traseiras.

Mal eu tinha começado o meu aprendizado minha mamãe vendeu o sítio e foi para São Paulo. Fiquei só eu para continuar aprendendo a profissão.

Vencido o primeiro ano, um belo dia informei ao meu patrão:

— Quero ir para São Paulo. O senhor vai me deixar ir?

Ele resmungou em alemão mas não disse nada. Uns dias mais tarde ele me chamou junto a sua escrivaninha e disse:

— Você não vai para São Paulo, de hoje em diante vai ganhar dois mil réis por dia — o que naquela época era uma ótima proposta.

Aguentei mais três meses, mas um dia eu disse:

— Quero ir embora para São Paulo sim. Isto é, se o senhor me dispensar.

Ele não respondeu, mas após alguns dias me chamou e disse:

— Já que queres ir, então vá.

Me deu uma camisa de presente e uns cinquenta mil réis e me dispensou. Já no dia seguinte fui a Laguna comprar a passagem para ir de navio para Santos, porque naqueles tempos era o único meio de se ir para São Paulo.

O seguinte acontecimento eu deveria ser contado antes do período de nossa ida à escola, mas por um lapso e esquecimento deixei de contar o que faço agora:

Certo dia correu a notícia de que os gaúchos tinham se revoltado e iam descer a serra. O delegado, sabendo que os gaúchos vinham, mandou uns soldadinhos esperá-los na boca da serra, mas os gaúchos quando souberam se dispersaram.

Não demorou muito veio outra notícia: os gaúchos já tinham descido a serra e vinham trazendo junto todos homens adultos, cavalos, vacas, porcos e mantimentos para alimentar a tropa. Nos tínhamos um cavalo e uma vaca e bastante porquinhos. Os porcos nós soltamos do chiqueiro, o cavalo e a vaca levamos para a mata virgem, onde os amarramos e onde também viemos a pernoitar. Deste pernoite nasceu uma frase no meu “Poema do Centenário”:

Pousar nesta densa mata, a noite era escura e sombria
Só vaga-lumes como estrelas errantes se viam
Grilos, rãs e sapos por todo lado gemiam
Parecia uma novela de terror que exibiam

Como o meu irmão Carlos já era adulto teve que ir junto com a tropa de revolucionários. Ele pegou a sua espingardinha pica-pau e foi.

Pernoitaram numa várzea, e ao amanhecer o dia resolveram marchar sobre Orleans, mas logo foram barrados por meia dúzia de soldadinhos do delegado. Um deles disparou um tiro pro ar e os valentes revolucionários se dispersaram como se fossem ratos.

Foi um salve-se quem puder. Só alguns trouxas, pensando que não tinham nada com a revolução, foram presos e levados para Orleans. Entre eles estavam o Jacob Karklis e o Vitorio Maisin, sendo que cada um levou vinte e quatro palmatórias em cada mão. Voltaram todo machucados, a revolução acabou sem graça e só os inocentes e os covardes apanharam.

Agora, voltando a falar da minha despedida do Rio Novo: ao chegar na agência do porto em Laguna, falei ao chefe do porto:

— Quero uma passagem para Santos — mas como eu ainda falava mal o português, ele me perguntou qual era a minha nacionalidade. Respondi que era leto.

— Leto — disse ele. — Mas como que aqui no documento diz que seus pais são da Rússia?

Respondi que os russos tinham invadido a Latvia/Letônia.

— Certo, mas onde você nasceu?

— Em Araranguá — respondi eu.

Surpreso, perguntou-me:

— Ué, na Rússia também tem Araranguá?

Então respondi que não era na Rússia e sim logo adiante de Criciúma. Pobre de mim. O homem virou uma fera. Berrou ele que esse negócio de russo, alemão e italiano, que isto tinha que acabar.

— Você fica sabendo quem manda no Brasil é brasileiro, viu? Você nunca mais me diga que é isso aí que você falou, entendeu?

— Sim, senhor! Sim, senhor!

Passada a fúria ele preencheu a passagem e me deu com um sorriso amarelo. Como o navio ia demorar cinco dias para chegar, voltei para a casa do meu cunhado e irmã Alvina.

Na véspera da minha partida tive uma agradável surpresa: veio uma turminha da gentil mocidade dizer adeus. Cada um com seu bolinho e seu docinho, e minha irmã deu café com leite. Comeram, beberam, cantaram e por fim desejaram boa viagem e breve regresso.

Entre esta turminha havia uma donzelita com a qual eu tinha brincado desde criança. Parecia um amorsinho infantil, mas agora já tinha mudado muito, eu com dezesseis anos e ela com treze.

Ao se despedir ela perguntou:

— Volta logo?

Aí eu respondi:

— Quem sabe — e convidei: — Vamos juntos?

Ela respondeu com os olhos rasos de lágrimas:

— Agora não, mas se você quiser um dia irei sim!

Sabe, diante desta situação fiquei com uma vontade de não ir mais para São Paulo.

Após todos terem ido embora, já no silêncio da noite, me ajoelhei e pedi ao Senhor que me desse uma boa viagem e que me concedesse a graça de viver todos os dias no temor do seu Santo Nome. Lembrei daquela donzelita que ficou chorando.

Se ela for a minha eleita faça-me voltar para buscá-la. E se minha eleita conforme a sua vontade estiver em São Paulo, então que seja a primeira que eu por lá encontrar. Não importa que seja feinha ou bonitinha, de gente abastada ou pobrezinha. Só peço duas coisas: primeiro que tenha o verdadeiro temor pelo seu Santo Nome. e segundo que realmente goste de mim — sendo assim, terei absoluta certeza de uma vida muito feliz.

Agora, já no dia seguinte bem cedo, fui a Orleans a fim pegar o trem para ir a cidade de Laguna, onde era o porto — lá onde ao comprar a passagem do navio tinha levado aquela tremenda bronca já contada nas páginas anteriores.

À noite, já a bordo do navio, começou a viagem que durou duas noites e dois dias, para chegar as nove horas da noite na cidade de Limeira, em São Paulo.

Pernoitei, e no dia seguinte saí à procura de um posto de gasolina onde o Guilherme Slengmann, que era proprietário de um caminhão, talvez fosse conhecido. Ele era amigo meu.

Tive sucesso logo no primeiro posto onde indaguei, ele era conhecido por ser freguês. Então perguntei se o homem do posto sabia onde ficava a [fazenda] Boa Vista e ele realmente sabia. Orientou-me a apanhar o trem das nove horas e voltar até a primeira estação, de onde ainda distava mais quatro quilômetros. De lá seria mais fácil conseguir as informações que faltavam para conseguir a localização do meu destino final.

Após seguir essas instruções, foi fácil chegar próximo à tal fazenda. Neste instante saìa de um terreiro um comprador de frangos e quando perguntei se ele conhecia muita gente por aqui, ele respondeu que sim. Então perguntei se ele conhecia o tal Guilherme Slengmann. Ele respondeu que não.

— De todas pessoas que eu conheço nenhuma se chama Guilherme.

Aí contei que eu tinha um irmão o Carlos que trabalhava com o Guilherme e esse Carlos era muito conhecido e muito prosa.

Aí o frangueiro perguntou se ele era gordo. Respondi que era só um pouco corpulento. Aí ele perguntou se era russo. Respondi que sim e expliquei que assim os letos eram chamados. Então ele disse:

— Sim, deve ser o seu irmão, monta aqui na carroça, pois eu vou te levar até bem perto.

Em certo momento ele parou e mandou seguir até uma cerca e depois virar à esquerda; era lá que morava um russo que deveria ser a pessoa que eu estava procurando.

Chegando à dita casa bati palmas e os cachorros começaram a latir. Logo alguém abriu uma janela e apareceu uma linda donzelita. Logo surgiu o pai dela, ao qual pedi a informação. Quando ele chamou a mocinha “Melania natz schurp” [Melania, vem cá] logo percebi que eram letos.

Perguntei em leto se sabiam onde morava o Carlos Zanerip. Aí ele perguntou de onde eu tinha vindo. Respondi que tinha vindo do Rio Novo, Santa Catarina. Então ele disse:

— Entra e descansa, e conta como vai a nossa gente por lá. Lá mora um irmão meu que é pai do Artur Purim (cujo nome eu tenho esquecido).

Entrei e a donzelita fez um saboroso lanche. Foi neste momento, quando ela trazia, lembrei do meu pedido ao Senhor. Pois eu não tinha visto ninguém, nem mesmo o pai dela, no momento que ela surgiu na janela.

E quando voltei à fazenda fiquei estupefato. Lá de onde eu havia abordado o frangueiro, a menos de duzentos metros, vivia meu irmão Carlos. Alguns metros adiante morava o Guilherme Slengmann, e logo no outro lado do córrego vivia o Guilherme Och. Mais adiante morava o Guilherme Ivercen, todos bem conhecidos do frangueiro — que tinha esquecido de todos para levar-me a conhecer primeiro a linda senhorita Melania Purim.

Apesar de tanta evidência, nossos caminhos não se cruzaram. Só atrapalhou minha vida por longos anos. Talvez tenha sido porque não cheguei a contar isto a ela, por muito respeito que a ela eu dedicava. Não contei por receio de ser mal interpretado ou incompreendido.

Isto foi em 1931, e só contei a ela num Congresso Leto em Nova Odessa em 1978 apenas — só para arrancar um sorriso de dois velhinhos que esperavam a longa noite chegar.

Porque o Senhor já disse: “Os meus caminhos não são os vossos caminhos, os meus pensamentos não os vossos pensamentos” e também a minha escolha era outra. Deus também diz que bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, e Deus de um lar também.

* * *

[continua…]

Depoimento de J. A. Zanerip | Manas atminas no Rio Novas laiku dzivi

Terceira Parte

MEMÓRIAS DE MINHA VIDA EM RIO NOVO

Agora na nova vida em Rio Laranjeiras. Gostei muito da troca do Rio Mãe Luzia pelo Rio Laranjeiras. O rio Mãe Luzia era um rio largo e profundo. O rio Laranjeiras era raso e suas águas cristalinas e bem aquecidas, porque corria longos trechos entre pedras bem lavadas por grandes enchentes.

Agora há poucos anos viajei de Tubarão a Lauro Müller para subir aquela serra (Rio do Rastro). Ao passar por Orleans subimos até o lugar onde vivi na minha adolescência, isto é, nas margens do Rio Laranjeiras. Fiquei pasmado vendo o meu bem lembrado rio Laranjeiras, sempre cheio de muita água, agora virado num pequeno córrego! Isto talvez porque naqueles tempos chovia mais e as raízes da mata virgem retinham o escoamento rápido, conservando assim o rio sempre com bastante água.

No meu tempo esse rio era um paraíso da criançada. Era muito piscoso. Passei muitos dias pescando e me divertindo com os colegas. Será que este mundinho está secando mesmo?

A minha infância não foi nada fácil, pois já desde pequeno ia junto com a mamãe ajudar a limpar as roças; quando chegou o tempo de ir a escola as condições não permitiam ir. Minhas irmãs, sendo meninas, iam à escola, e à noite eu tinha que aprender — isto é, estudar as lições que as irmãs tinham aprendido na escola.

Mais tarde, quando fui à escola, meu primeiro professor foi o Sr. Treimanis, mas com a saída deste professor houve um longo período sem aulas.

As idas para a escola às vezes eram terríveis, principalmente no inverno. A estrada ficava branca de geada e a gente não tinha dinheiro para comprar sapatos, assim tinha que enfrentar a estrada com o pé no chão mesmo. Haviam ocasiões em que nem sapatos poderiam ser utilizados, com a grossa camada de lama que era formada pelas rodas dos carros de boi — principalmente quando chovia muito, — agravada pela passagem das tropas de burros e mulas que levavam mantimentos para os habitantes da serra. Essa conjunção de fatores tornava as precárias estradas intransitáveis.

Quem realmente poderia gostar dessa lamaceira eram os porcos que eram trazidos em manadas daquelas imensas distâncias, isto é mais de cinquenta quilômetros — de além das montanhas da serra, onde se situavam os grandes pinheirais e onde eram criados, tendo depois ainda a descida dos contrafortes da serra quase a pique. Hoje pode parecer inacreditável. Mas nós, que vimos com os próprios olhos, esperamos que aceitem essas coisas que hoje parecem totalmente improváveis ou impossíveis.

Tempos depois, agora já com uma irmã casada, um dia resolvemos fazer um mutirão para cortar cana de açúcar. Um futuro cunhado meu foi também. Voltando para casa o tempo fechou e começou a garoar, e a escuridão se tornou completa.

O Ernesto Karklis estava de namoro com a minha irmã Alvina, que tinha vindo a cavalo, mas para acompanhar o seu broto ele deu o cavalo para eu ir montado. Quando eu ia indo passando onde havia uma trilha por uma capoeira que naqueles dias tinha sido roçada e derrubada, e pela qual o cavalo estava acostumado a passar, o animal entrou derrubada adentro. Porém, como estava escuro demais e sem nenhum ponto de referência, fiquei sem saber como voltar. Resolvi esperar.

Quando ouvi vozes da turma conversando dei umas chicotadas no cavalo e voltei ao caminho. Apesar de não estar tão perto assim, a turma começou a gritar apavorada. Ao chegar a uma encruzilhada onde o Ernesto costumava se separar, fiquei esperando por eles. Quando a turma chegou, contaram que um bicho muito grande os tinha atacado, lá próximo ao toco da “maria mole” [NOTA: ombu, Phitolacca dioica, árvore chamada de “maria mole” por causa do tronco esponjoso e macio], e que tinham levado um tremendo susto. Logo imaginei quem deveria ter sido o bicho enorme: não poderia ser outro senão eu com o bandido do cavalo. Não contei nada com medo de apanhar, pois realmente não queria ter assustado ninguém.

Só bastante tempo depois, quando peguei uma vez carona no carro de boi do colega Adolfo Burmeister, e ao passar no famoso lugar dos bichos, no toco da “maria mole” com os seus lindos brotos, contei ao Adolfo que não acreditava nessa história de bichos e contei o que acontecera comigo e com aquele cavalo naquela noite.

O Adolfo começou a rir, não querendo acreditar e achando que era minha invenção, mas consegui convencê-lo de que era a pura verdade. Ai o Adolfo fez me prometer que não contaria nada a ninguém (e prometi) e contou-me outro fato sobre esse mesmo local.

Disse ele que uma vez tinha se atrasado na roça e já no crepúsculo da noite viu o Jacob Karklis vindo pelo caminho. Rapidamente ele, o Adolfo, saiu do caminho e entrou no meio da touceira de brotos do toco da “maria mole”. Quando o Jacob ia passando ele deu um ronco e saiu pulando abraçado aos brotos.

Pobre do Jacob! Jogou uma pedra que trazia na mão e correu como um doido, chegando em casa completamente exausto e contando que tinha acabado de escapar de um bicho terrível. Como conseqüência do susto adoeceu por um bom tempo.

Começou a circular o boato de que outras pessoas também tinham visto o bicho. Até um dia uma turma de italianos decidiu ajudar o pessoal na grande caçada ao lendário bicho. É claro que não acharam nada. Mas como esses caçadores podiam imaginar que esses bichos andam de carro de boi? Tudo mentira, fruto da fraqueza e do medo.

* * *

[continua…]

Depoimento de J. A. Zanerip | Lua de mel

Segunda parte

Agora, após a tempestade, cada um procurou o seu ninho. Os alemães instalaram as suas vendas no outro lado do rio Mãe Luzia, por sentirem-se mais protegidos dos ataques dos bugres, como eram chamados os índios.

Os Zanerip, sendo pescadores e construtores de suas próprias embarcações na Letônia, no mar Báltico, e muito acostumados a lidar com madeira, construíram uma ótima lancha para atravessar o rio e ser usada pelas pessoas que iam fazer compras nas vendas dos alemães do outro lado do rio. Mais tarde construíram uma balsa para permitir a passagem de carroças de quatro rodas puxadas por cavalos, carregadas de mantimentos, muito usadas pelos alemães, e tudo de uma só vez.

Assim a vida corria monótona; menos mal, pois recebiam e faziam muitas visitas aos letos que ficaram morando em Mãe Luzia. Como esses eram todos batistas, meus pais quiseram ingressar também na igreja batista. Mas havia um problema: eles só eram casados na igreja luterana, o que naquelas épocas era válido na Europa, mas não diante das leis nacionais do Brasil.

A igreja batista achou que as leis brasileiras deviam ser respeitadas e que era necessário regularizar a situação. Desse modo foi realizado um casamento um tanto curioso, os Zanerip fazendo sua “lua de mel” já com sete pimpolhos, faltando somente a caçulinha.

Depois de tudo posto em ordem, faleceu o nosso pai, desnorteando a nossa vida.

Agora os filhos mais velhos, cansados do isolamento dos outros, do nosso povo, resolveram vender tudo e procurar um terreno mais próximo ao Rio Novo. Acharam um terreno bastante montanhoso, mas com uma várzea muito fértil, junto às barrancas do Rio Laranjeiras.

Depois foi a vez da vinda da mudança, que veio de carro de boi. Levou dois dias e uma noite para fazer o percurso de Araranguá até o Rio Laranjeiras. As terras compradas pela minha mãe, Eva Grimberg Zanerip, foram adquiridas em prestações [anuais] de R$200.00 [duzentos mil reis], e já eram de segunda mão.

Aqui terminam as histórias contadas pelos meus familiares e não vividas por mim. Agora a nova vida em Rio Laranjeiras.

* * *

[continua…]

Depoimento de J. A. Zanerip | Um ataque iminente de índios bugres

Primeira parte

Em primeiro lugar quero aqui contar os fatos ocorridos antes da minha existência, narrados pela minha mamãe. Não posso contar nada que tivesse sido contado por papai, porque ele faleceu quando eu só tinha pouco mais de três aninhos de vida, e do papai quase não lembro nada.

Contou-me Eva Grimberg Zanerip, minha mamãe, que logo depois do desembarque no porto de Laguna, estado de Santa Catarina, um grupo de letos e alemães fizeram uma festa de confraternização. Cortaram duas varas compridas e improvisaram duas bandeiras, da Latvia [Letônia] e da Alemanha, e como os alemães e meus pais eram bons luteranos, encheram a cara de schnabs [cachaça]. No dia seguinte pegaram o trem para Orleans. Por incrível que pareça a foto tirada na ocasião ficou comigo até a festa do Centenário na Colônia Varpa em 1992, quando entreguei ao pastor Osvaldo Ronis, para ser juntada a outros documentos históricos.

Na verdade a chegada dos primeiros letos [ao Brasil, em Santa Catarina] não se deu em 1892, como é narrado incorretamente no livro Uma Epopéia de Fé, escrito pelo pastor Ronis, mas sim em 1890.

Chegando em Orleans seguiram por uma trilha que ziguezagueava dentro da mata até o acampamento já preparado por colonizadores em Rio Novo.

Meus pais e outros letos permaneceram algum tempo por lá, mas não gostaram por ser bastante montanhoso. Alguns letos foram para Mãe Luzia. Os Zanerip, acompanhando alguns alemães, foram mais longe, onde as terras eram mais semelhantes às da Latvia [Letônia]: um lugarejo chamado Araranguá (mais tarde minha terra natal).

Ao chegar ao acampamento, tiveram a triste notícia de um ataque iminente de [índios] bugres, como eram chamados. Sabendo que o ataque seria inevitável, prontamente escolheram um alemão chamado Guilherme Hans para organizar a defesa.

Esse alemão era o mais abastado da região; sabedor que vinha para uma terra ainda coberta de matas virgens, onde havia muita caça, tinha trazido muitas espingardas e muita munição — um verdadeiro arsenal de guerra. Ele determinou que se carregassem as espingardas até a boca com chumbinho mostarda [fino] para não matar ninguém. A uma distância de 100 metros nem atravessa a pele, mas dá uma tremenda chamuscada. O chumbo grosso seria usado em último caso, pois não se queria a morte de ninguém.

Na véspera do ataque a noite passou calma, mas ao amanhecer os índios atacaram com uma tremenda gritaria, e foram recebidos com uma tremenda salva de tiros.

Pobre da bicharada, não puderam sequer se aproximar do acampamento. O chumbinho fino fez uma cortina, e foi suficiente para que os bugres fugissem apavorados, mas foram perseguidos até os costões da serra, e lá se esconderam entre os paredões de rochas.

Na fuga abandonaram uma criancinha, uma menina, que foi adotada e criada por um casal que não tinha filhos, o senhor João Akeldamis e senhora. Mais tarde eu a conheci, era uma linda menina moça.

* * *

[continua…]