Origens da colônia: João Arums

HISTÓRIA DE UM PIONEIRO

No ano de 1889 foram publicadas no diário letão Baltijas Vestnesis [Mensageiro do Báltico] as primeiras referências sobre o Brasil, terra anteriormente totalmente desconhecida aos letos.

Alguma coisa havia sido relatada antes disso por marinheiros que transportavam em veleiros, ao porto de Santos, o conhecido e apreciado ‘’Pinho de Riga’’. Suas lembranças do Brasil não eram nada favoráveis, dadas as condições de trabalho no porto: durante o ano todo um calor insuportável, as montanhas ao fundo impedindo os ventos, dias a fio suando por todos os poros, carregando montanhas de madeira para fora do veleiro. Naquele tempo ainda ameaçava a febre amarela, que não havia sido combatida. As poças de água estavam em toda a parte; nas proximidades plantações de bananeiras estendiam-se por toda parte, espalhando sua cor verde pela redondeza. Era essa a imagem que os marinheiros transmitiam. Os navios da Letônia que descarregaram o ‘’Pinho de Riga’’ no porto do Rio Grande [do Sul], onde o clima era mais ameno, tiveram deste porto imagem bem mais favorável.

As impressões dos marinheiros sobre o Brasil não tiveram muita repercussão, tendo permanecido entre suas estreitas relações familiares. Não encontramos registros de que algum leto tivesse estado ou residido no Brasil, ou escrito alguma coisa sobre esta terra, anterior ao testemunho do pastor J. Balod e de Pedro Zalit. As primeiras referências, como já dissemos, ocorreram no Baltijas Vestnesis, de hábil autoria dos dois citados personagens, que lançavam aos lavradores a idéia de fundarem colônias agrícolas em condições melhores do que as estabelecidas em Novogorod, Simbriska, Ufa e na Sibéria – todas na Rússia. As agruras desses agricultores J. Balodis conhecia, tendo sido pastor luterano durante muito tempo na longínqua Sibéria.J. Balod e de Pedro Zalit lançaram a idéia de colônias agrícolas em condições melhores do que as estabelecidas na Rússia.

Naquela época havia entre os letos um grande sonho pelo que chamavam de ‘’meu cantinho, meu pedacinho de terra’’, não importava onde fosse. Os autores, ambos de cultura esmerada, um teólogo, outro filósofo, ainda em sua juventude e por natureza idealistas e otimistas, divulgavam suas amplas esperanças de conduzir seus patrícios às ‘’terras quentes’’. Eram parâmetros ideais as grandes colônias alemãs em Joinvile e Blumenau: suas escolas, comércio e liberdade políticas na província de Santa Catarina, de clima ameno e terras férteis.

Balod e Zalit contataram as melhores condições de imigração junto às autoridades de imigração e a empresa de colonização Grão Pará com sede na capital, Rio de Janeiro. A Grão Pará franqueou aos colonos europeus uma enorme área de terras com mata ainda intocada na comarca de Tubarão, que se estende de não distante do oceano Atlântico até a cordilheira da Serra do Mar. O acordo oferecia terras baratas, pagamento em longo prazo, passagens gratuitas desde Lisboa até a nova morada e sustento durante o primeiro ano, a ser pago com a produção das lavouras.

Os primeiros a aceitarem essas propostas foram operários da indústria cimenteira de Riga. Eram em sua maioria trabalhadores rurais que haviam deixado a agricultura por falta de condições de subsistência. Procurando trabalho, muitos haviam se juntado às indústrias de madeira e de cimento.

A terra das palmeiras
Nas industria de cimento o trabalho o trabalho era insalubre e o ambiente poluído: só poeira e fumaça. O combustível utilizado produzia mau cheiro, e a fumaça expelida pélas chaminés, levada pelo vento, poluía toda a redondeza, prejudicando continuamente a saúde da população. Os homens lembravam sua mocidade no interior, ao ar livre, e desejavam voltar a suas origens: tornarem-se outra vez agricultores, viver em suas propriedades e em suas casas. Em sua terra natal isso não era mais possível.

Entre esses operários interessados na imigração estava também o nosso irmão batista João Arums, pessoa sincera, de postura e linguagem elegantes e educadas, otimista ao extremo, líder respeitado entre seus companheiros. Podemos concluir que tenha sido graças à sua liderança junto aos operários da fábrica de cimento que durante o período de inverno um grupo organizou-se para, na primavera de 1890, quando o degelo do rio Daugava permitisse, embarcar para a cidade de Lübeck (na Alemanha) e depois Lisboa, e de lá para o Brasil.

Havia também interessados entre os batistas de Riga, que não puderam acompanhar este primeiro grupo. Porém na primavera seguinte também eles deixaram as costas de Riga rumo ao Brasil.

Enquanto esse outro grupo se preparava para o longo curso começaram a circular notícias desagradáveis. Os jovens colonos [recém-chegados ao Brasil] estavam inquietos, sentiam-se desapontados. As mulheres, nascidas na cidade, choravam pelo futuro de seus filhos. Parte dos colonos, com mais recursos, foram para os Estados Unidos, que ultimamente conquistou a fama de país de mais futuro.

Nosso Arums, no entanto, tem outras perspectivas. Ele estima a ‘’terra das palmeiras’’ com sua imensidão territorial, suas leis liberais, o romantismo da mata virgem. Comunica-se por carta com seus irmãos de fé em Riga, dizendo que não aceitem os lamentos dos descontentes: esses não confiam em Deus, não têm paciência nas agruras da vida, não possuem clara visão do futuro, sentem falta dos prazeres mundanos e da tranqüilidade da vida material. Arums assevera que as condições oferecidas pela colônia são aceitáveis e o governo correto.Ao final de sua viagem desembarcaram na estação ferroviária de Orleans. Dentro das possibilidades é possível viver e prosperar, e os parâmetros para esta avaliação são as já estabelecidas colônias alemãs. As rotas de comunicação entre as novas colônias e os pequenos portos à margem do Atlântico, bem como a ferrovia de bitola estreita (construída com a intenção de explorar as minas de carvão mineral), asseguram a possibilidade de se manter a comunicação via postal e a troca de mercadorias.

As margens do Rio Novo
Os imigrantes do grupo de batistas de Riga estavam com firmes esperanças de que no próximo ano estariam a caminho do Brasil, [o que de fato aconteceu]. Ao final de sua viagem desembarcaram na estação ferroviária de Orleans, onde foram encaminhados ao barracão coletivo da empresa de colonização.

Os recém chegados eram os “cimenteiros”, e foram recepcionados pelas duas famílias remanescentes, os Arums e os Indrikson, essa a última de estonianos (mais tarde, após algum desentendimento com a empresa colonizadora, os acima citados pioneiros mudaram-se para outra colônia).

Sem demora os batistas mudaram-se para as áreas destinadas dentro da mata virgem, às margens do pequeno riacho que os agrimensores haviam denominado de Rio Novo, distante oito quilômetros da sede do município e da estação ferroviária. Ali se estabeleceram, uns próximos aos outros. Começaram as derrubadas e fizeram suas culturas: plantaram milho, arroz, feijão e raízes comestíveis como mandioca e batata doce.

Nos cultos o coral entoava hinos em quatro vozes. Isto foi em 1891.

Logo no primeiro ano fundaram também uma igreja batista com cultos regulares. Na falta de pastor, designaram entre seus membros homens dignos e responsáveis para a administração da igreja. Nos cultos o coral entoava hinos em quatro vozes. Isto foi no ano de 1891.

Cada acampamento, sua história
A estes seguiram-se novos grupos de imigrantes das igrejas batistas de Riga, de Além rio Daugava, da Foz do Daugava e também de Liepaja e de outros lugares; mais tarde ainda da colônia leta de Novogorod, na Rússia.

Nesse ritmo de expansão, começaram a faltar terras férteis a serem cultivadas na colônia do Rio Novo. Inconformados, os colonos começaram a buscar outras áreas para moradia e cultivo.

João Zarin, um dos pioneiros no Brasil e que foi designado como agrimensor, liderou um grupo até as margens do rio Mãe Luzia. Os oriundos de Liepaja mudaram-se para o Rio Grande do Sul e fixaram-se na grande colônia de Ijuí, próximos às colônias alemãs.

Cada acampamento, sua história. Um grupo de Novogorod dirigia-se para Rio Novo, mas diante de notícias a bordo de que em Blumenau havia terras e infra-estrutura em boas condições, desembarcaram no porto de Itajaí e por via fluvial dirigiram-se para Blumenau.

Jacu-Açú
Em Blumenau sentem-se à vontade com a forma de vida dos alemães. Buscam terras onde desbravar e morar, e encontram terras devolutas a 40 quilômetros de distância, numa colônia de poloneses, entre as montanhas de Guaraniassú. Com suas oito famílias ocupam toda a área de uma baixada onde há um córrego; os que chegaram mais tarde tiveram que se contentar com outras áreas mais distantes e montanhosas.

Anos mais tarde foram chegando mais parentes e conhecidos da região de Novogorod. Estes se fixaram nas margens da estrada, onde haviam terras devolutas, embora improdutivas, por isso não ocupadas. Eram os chamados ‘’beiradeiros’’.

Chegam mais imigrantes. Onde colocá-los? Um comerciante do local, polonês inteligente, amigo dos letos, conta que em uma de suas caçadas, além do rio Patanga, encontrara numa região ainda desabitada uma várzea com um riacho. Observou que, com as frutas silvestres e as árvores, devia ser uma área de terras produtivas.

Organizam uma pequena expedição ao local conduzida pelo amável polonês, senhor Eduardo, de sobrenome polonês impronunciável. O lugar é agradável; os proprietários determinam as medições, e verifica-se que está situado nas fronteiras de três municípios: Blumenau, Joinvile e Parati. O agrimensor imagina que o riacho pertença ao município de Blumenau.

São distribuídas aos novos colonos as áreas na localidade que ainda não tem qualquer denominação. O agrimensor abate a tiro, para seu almoço, uma ave que na língua tupi-guarani chama-se Jacú-Acú – e naquele momente entende que encontrara um nome o para a localidade: Jacuassú!

Aumentaram os pretendentes às terras. Nas proximidades encontraram outro riacho, este já com nome, Ponta Comprida, reduzido a simplesmente Comprida. Verificou-se mais tarde que a área colonizada pertencia ao município de Joinvile. Correram boatos de que as áreas ocupadas a mais de dez anos, onde moram sem qualquer pagamento, é de proprietário desconhecido, de procedência realmente obscura. Não demorou a ser esclarecido: a propriedade é dos descendentes do famoso Barão do Rio Branco. Após o esclarecimento a área passou a chamar-se Rio Branco.

Um pouco do céu azul
Notícias sobre Guarani e Jaguassú alcançam Rio Novo e Mãe Luzia. Surgem famílias em uma e outra parte que se mudam e chegam para morar aqui. O primeiro a transferir-se e chegar é o nosso amigo Arums. Ele prefere a mata romântica, inóspita e desconhecida, caminhos por abrir e mudança de condições de vida. Prefere novos empreendimentos, os primeiros passos do desbravamento da natureza ainda virgem. Arums ama o Brasil e nutre por ele verdadeiro entusiasmo; lamenta não ter chegado aqui nos seus anos de juventude.

A família de Arums é pequena, três pessoas: a esposa e um filho adotivo, adotado ainda em Riga. Vivem alguns anos na colônia de Guarani. Quando falece sua esposa, fiel companheira de vida e de fé e exemplar dona de casa, Arums liquida seus bens e visita a nova colônia [leta] de Nova Odessa [no estado de São Paulo].

Volta a sua terra junto a seu filho Adolfo, que adquire uma gleba de terras em Bananal, nas proximidades de Rio Branco. Nos cultos da igreja a atmosfera espiritual é das melhores.

Com boa vontade e prazer Arums participa com o filho nos trabalhos de derrubada de árvores, abrindo novos espaços para agricultura. Não há dúvida de que a derrubada produz experiências: são árvores milenares, que sendo cortadas começam a lentamente a declinar e com grande estrondo vão ao chão, quebrando seus próprios galhos e as arvores menores. O chão estremece aos pés e na mata verde, sempre na penumbra, onde o sol não penetra, um facho de luz ilumina e aparece um pouco do céu azul…

Inesperadamente, ao cair uma destas árvores, nosso Arums foi vítima fatal. Ele amava a mata e a mata o levou. Sem enfermidades, sem sofrimentos e sem a fraqueza da velhice chegou à sua verdadeira morada, onde as arvores da vida estão sempre verdes, florescem e produzem seus frutos ‘’no meio do paraíso de Deus’’.

Um silencioso companheiro
Nós o vemos sorridente no seu retrato, tirado em sua residência – como ele andava pela vida.

Em sua memória acrescentamos algumas citações da recordação de amigos. Num discurso entitulado Letos no Brasil, impresso no Kristiga Drauga [O Amigo Cristão] de janeiro de 1948, J. Inkis referiu-se a Arums com estas linhas:

Neste grupo de imigrantes de Riga encontrava-se um silencioso companheiro, um batista com sua pequena família. Era o irmão Arums, que mais tarde passei a conhecer melhor. Vivendo numa colônia após outra, transmitia seu entusiasmo pelo Brasil, pela liberdade aqui reinante em comparação à Rússia, pela fertilidade das terras e o clima ameno, onde recuperou sua saúde.

Nas ocasiões festivas ele usava da palavra e com seu sincero semblante e sua amável figura e palavra entusiasmava a igreja dos pioneiros. No meio da mata virgem ele clamava alegremente “onde outrora os macacos em seus galhos cantavam, agora os crentes cantam louvores a Deus!’’

Numa carta o evangelista F. J. Janoskis escreve sobre ele, entre outras coisas:

João Arums foi um verdadeiro cristão, de coração ardente, sempre disposto a colaborar em qualquer atividade. A ele cabia perfeitamente a expressão bíblica a Barnabé, “filho da alegria”. Sua alma continha uma alegria inesgotável que transbordava, derramando seu entusiasmo a todos os que com ele se comunicavam.

Ele compreendia muito bem os jovens e as crianças. A cada um distribuía seus conselhos e experiências. Conhecia todas as crianças da redondeza, carregava-as no colo, afagava seus cabelos e falava meigamente de Jesus.

Na sua vida cristã cavou profundos fundamentos. Nenhum vento de doutrina poderia abalar suas convicções: era, para os demais, um anteparo seguro. Reconhecia que o objetivo e dever de todo cristão é anunciar o evangelho. Constantemente estimulava os jovens a estudar o vernáculo para poderem anunciar com eficiência a bela mensagem do evangelho aos outros cidadãos, ainda no obscurantismo. Este seu grande desejo ele chegou a ver começando a ser implantado…

Um homem como ele, de qualidades apreciáveis, foi, perceba, o primeiro batista leto a desbravar as matas do Brasil – e isso embora não tenham faltado seguidores batizados com mesmo espírito de amor. “Bem-aventurado o homem cuja força esta em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados. Aquele que leva preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo seus molhos… Esses vão de força em força.”

* * * *

Autor: Um de seus seguidores (anônimo)

Extraído do BRAZILIJAS LATVIESU KALENDARS (Calendário Leto do Brasil), Ano 1952
Tradução: V. E. Purim
Revisão: V. A. Purim e Paulo Brabo

Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, última parte

continuação da segunda parte

Com preocupação também pelo bem-estar geral da comunidade, em relação à vida diária, foi organizada uma associação de moradores sob a orientação do pastor Inkis. Na realidade foram organizadas duas: o líder eleito para a associação do Rio Novo foi o J. Ochs, e para a do Rio Carlota o K. Seebergs. Como líder e dirigente das reuniões foi nomeado o F. Karps, e para secretário J. Frischembruder. Tudo foi feito com conhecimento e aquiescência do senhor Delegado de Policia de Orleans, Sr. Galdino Guedes.

A administração da associação de moradores tinha poderes para dirimir dúvidas e acertar pequenas desavenças entre os vizinhos — principalmente o que se relacionasse a cercas, porteiras, prejuízos causados pelo gado dos vizinhos em roças de outros, etc., — tendo inclusive autoridade para multar o culpado em Mlrs 5$000 (cinco mil réis), o que em moeda atual seria mais ou menos 20$000 réis. Precisamos anotar que essa multa nunca foi cobrada de ninguém.

A organização da associação de moradores aliviou o trabalho da igreja, pois toda e qualquer dúvida, queixa ou reclamação passou a ser tratada pelos responsáveis pela associação — pessoas vividas e com espírito cristão, que a partir desta postura tratavam todo e qualquer assunto. Nessas reuniões eram também discutidas novas idéias e o planejamento para melhorias na colônia.

A primeira e maior preocupação da comunidade era no sentido de se conseguir uma escola para a nova geração. Dirigiram-se então com uma petição à Empresa Colonizadora Grão-Pará, diretamente ao diretor Sr. Stawiarski, a fim conseguir um pedaço de terras para a comunidade — onde pudesse ser edificados a escola, o templo para a igreja e também o cemitério, — e terminaram conseguindo o terreno.

Em seguida a comunidade elegeu um comitê para a organização da escola, sendo Fritz Karps o dirigente e Juris Frischembruder secretário e tesoureiro. Os demais membros foram o compatriota e agrimensor J. Sarins, J. Ochs, M. Leepkalns, K. Matchs e K. Seebergs. Entusiasmados, os componentes da comunidade juntaram 411$000 réis para a viagem do futuro professor, que deveria vir da Letônia — mas que acabou demorando para vir.

Tendo em vista que a colônia de Rio Novo não tinha como crescer muito mais com a vinda de mais emigrantes da Letônia, já que todas as glebas das vizinhanças estavam tomadas, levando os letos que desejavam imigrar a procurar outras colônias (apesar de que nos vales vizinhos da colônia de Rio Novo ainda houvesse terras não desbravadas cobertas de matas virgens), o pastor Inkis organizou e também participou de expedições para busca e avaliação de novas áreas onde os letos pudessem ser assentados. Atravessaram o Rio Laranjeiras e o Rio Oratório, sobre cujas áreas não houve consenso quanto à viabilidade de aproveitamento. Na outra expedição, realizada nos fundos do Rio Carlota, nas proximidades da colônia italiana, foi encontrado um bom local, onde várias famílias letas se instalaram para morar, mantendo contato com Rio Novo.

Desenvolvendo o trabalho missionário, [o pastor Inkis] nos ensinava ainda hinos em língua alemã. Foram feitos vários cultos evangelísticos nesta língua, tanto em Rio Novo quanto em Orleans, resultando em conversões e filiação à igreja.

Foi também feita uma viagem festiva para a Colônia Leta de Mãe Luzia, que havia sido fundada na maioria por rionovenses. Desta viagem participaram mais ou menos vinte irmãos e irmãs dos coros, todos a cavalo, pois naquela época não havia outros recursos. A viagem durou dois dias e a noite foi passada ao relento, sob a luz das estrelas. Só noutro dia alcançou-se o objetivo da viagem, e também lá o trabalho missionário entre os alemães alcançou sucesso.

Quando a igreja de Rio Novo já se havia revigorado espiritualmente e o pequeno grupo que anteriormente se afastara já havia voltado, tendo sido recebido amorosamente pela igreja, pareceu ter chegado a hora de eleger biblicamente os seus servidores. Aos eleitos para o cargo de diáconos o pastor apresentou uma santa exortação:

— Agora vocês — disse ele — terão de se aproximar mais vezes da porta dos céus, em oração não só por vocês mesmos, mas pela igreja e pelas missões.

E com a imposição das mãos e com oração, num ambiente de reverência marcante, encaminhou-nos para o trabalho da igreja — o que me lembro como fosse agora.

Os sete servidores eleitos e ordenados pela igreja foram os irmãos Fritz Karps, Wilis Slengmanis, Jahnis Klawins, Evalds Feldbergs, Karlis Sebergs, Juris Frischembruders e Karlis Macths.

Os trabalhos da Igreja se desenvolviam muito bem, pois cada domingo que passava a igreja se revigorava e havia sinceros cultos de louvor e adoração. No aniversário de fundação da igreja (20/03) havia festas que duravam vários dias, seguidos com ricos e variados programas. Cantavam diversos coros, de senhoras, de visitantes; chegou-se a ter seis coros participantes.

A igreja, como reconhecimento e gratidão a seus obreiros, presenteou a todos eles com o desejado livro “A terra onde Jesus andara”. O pastos Inkis disse:

— Hoje não comemoramos o Natal, mas mesmo assim vamos distribuir presentes.

Os que receberam as lembranças foram o moderador da Igreja, irmão Fritz Karps; o dirigente do coro do Rio Novo, irmão Juris Frischembruder, que havia recentemente aposentado sua batuta; Karlis Matchs, que também tinha trabalhado como dirigente do coro do Rio Carlota (este era o mais idoso e por isso ganhou um Novo Testamento impresso em letras de tamanho grande); também foram lembrados os novos dirigentes dos coros, Wilis Leeknins e Gustavs Grikis, como estímulo para um diligente trabalho. A organização desta distribuição de lembranças com o intuito de reconhecimento foi organizada sigilosamente e desenrolou-se maravilhosamente, causando uma impressão inesquecível.

Na nossa memória estão guardadas muitas outras maravilhosas recordações, mas quando estamos a escrever devemos guardar limites.

Chegava o mês de abril de 1898; na Europa era início da primavera e aqui outono, época das colheitas. Faz agora quase um ano que o evangelista de Riga trabalha em nosso meio, e os nossos corações curtem os frutos de reconhecimento.

Em segredo absoluto a igreja organizou a festa dos balanços [?] no 14 de abril, que ainda estava em vigor segundo o antigo calendário da velha pátria (quarta-feira da semana santa). Ao redor da residência, junto à casa da família Grauzis onde [o pastor Inkis] se hospedava, foram se chegando na escuridão noturna, em passos silenciosos, grande parte dos habitantes da colônia.

Uma profunda paz noturna cobre toda paisagem. De repente luzes são acesas e um potente coral masculino irrompe com o hino: “Jeová, Jeová”, vibrando frente à porta da casa e ecoando pelo vale afora. Ao mesmo tempo mãos ágeis prendem e penduram arranjos florais e palmas nas portas e ao redor da residência do homenageado. Após este cântico ainda canta um coro misto. Então sai da sala aquele que foi acordado. Cumprimentos. Os cantores e os dirigentes da igreja entram na sala, enquanto os outros participantes silenciosamente se retiram para as suas casa para continuar o repouso. Na sala persiste um silêncio e uma expectativa, como que um estivesse esperando pelo outro ou que viria depois. O pastor Inkis tenta quebrar o silêncio contando um fato que acontecera em um culto “quaker” no qual reinava um silêncio como o daquele momento. Chegados e assentados aguardavam que surgisse uma palavra, mas ninguém parecia inspirado. Longo e interminável silêncio.

Então uma menina levanta-se, e na sua voz infantil teria dito:

— Pois eu acho que nós todos devíamos mais e mais amar o Senhor Jesus.

Foi como se tivessem sido abertas as comportas. Para muitos surgiram motivos para testemunhar do amor de Jesus, e também começou a desenrolar-se o nosso novelo com conversas e hinos. É aniversário, então também há presentes. F. Karps entrega ao obreiro, como presente, uma quantia em dinheiro. Após examinar ele diz:

— Realmente é um presente pesado.

Em seguida recebeu presentes de outras pessoas, depois mais hinos e palavras amáveis. Entre outras coisas, diz o pastor Inkis:

— Pois quando fui dormir ontem (era madrugada), estava sem sono e notei como os cães da colônia latiam mais do que em outras ocasiões. Agora entendo porque. Completei os 26 anos de idade e estou entrando para os 27, e o ano que tenho passado em Rio Novo posso contar entre os mais felizes da minha vida.

Já estava clareando o dia quando nos retiramos, os corações cheios de alegria.

Um belo dia o Sr. Staviarski, diretor da Empresa Colonizadora, enquanto atravessava a colônia de Rio Novo, parou em casa de colonos letos para descansar e tomar um café. Foi ali surpreendido por um grupo de crianças da colônia, orientadas pelo pastor Inkis, que o saudaram com um pequeno hino, “De todo nosso coração, nós saudamos tão caro hóspede, nossos olhos brilham, nossa alegria é real”, e em seguida “Ajuda-nos a cuidar dos pequenos.” Em seguida uma menina lhe entregou um livro de encadernação dourada — “A Terra em que Jesus andara”, em língua alemã, que ele conhecia perfeitamente. Seguiu-se a petição das crianças: que o senhor diretor tomasse as providências para doação de uma gleba de terra no meio da Colônia para que fosse possível ser construída uma escola para elas…

Durante este período houve diversos batismos, que foram festas de muita alegria tanto aqui na terra como no céu. O período de trabalho do pastor Inkis foi um santo tempo, pleno de alegria e crescimento espiritual. Não faltaram momentos de alegria e de descontração, mas também os de firmeza e determinação. Sempre ao lado da verdade e da justiça, ajudava os doentes com conselhos médicos e medicamentos, e sempre compartilhava com os sentimentos tantos os alegres como os de tristeza. Provocava um clima de boa vontade geral; por exemplo, a família Ochs veio ao encontro da necessidade da igreja hospedando o pastor por 6 meses e, em seguida, mais outros 6 meses foram passados na casa dos Grauzis nas mesmas condições.

Depois ter passado um ano em Rio Novo o pastor Inkis tomou o rumo do Rio Grande do Sul, a fim de visitar a colônia leta de Ijuí. No dia da despedida houve uma grande festa na casa dos Ochs, um verdadeiro banquete. O desenvolvimento espiritual, cultural e mesmo financeiro da colônia estava em seus e nossos futuros planos. Em vão ainda tentamos alcançar, mas foi inútil. Não haverá mais…

Depois que o pastor Inkis voltou a Riga nos visitaram em Rio Novo os irmãos missionários americanos do Rio de Janeiro, W.B. Bagby e o Dr. Donan, ambos pioneiros do trabalho batista naquela cidade [Nota de J. Inkis: De minha parte devo informar que as notícias sobre os batistas letos de Rio Novo e sua localização foram cedidos por mim a esses missionários americanos. Quando da minha volta para a Europa fiquei retido uma semana no Rio de Janeiro, capital da República. Ali consegui encontrar uma igreja batista, que em 1899 era ainda a única em toda cidade, e onde também encontrei o missionário que desta pequena igreja era o fundador e pastor. Como vimos, este não planejado atraso proporcionou um encontro que foi fundamental para despertar no missionário o desejo conhecer a igreja do Rio Novo].

O missionário Bagby pregava e cantava sinceramente e poderosamente. Donan falava mais devagar mas, como de profissão era médico, ajudava os doentes e necessitados. Ambos gostaram muito da colônia e adjacências e disseram que o pastor Inkis deveria voltar a este lugar e trabalhar no evangelismo [Nota de J. Inkis: Esta palavra amiga dos missionários se cumpre como profecia 20 anos depois em outra localidade e em outras circunstâncias. Não foi muita vantagem para a igreja de Rio Novo, a não ser o desenvolvimento da literatura evangélica em língua leta, agora mais abundante e de fácil aquisição por ser produzida aqui mesmo no país (Varpa, SP)].

Como inesperado hóspede numa manhã de domingo visitou a igreja de Rio Novo o pastor luterano e nos apresentou em língua alemã um sermão sobre o homem rico e o pobre Lázaro.

F I M

Juris Frischembruders

Texto de Juris Frischembruders com prefácio de Janis Inkis. Publicado na Revista “Kristigs Draugs” (O Amigo Cristão) números 09, 10 e 11 nos meses de setembro, outubro e novembro de 1940.

Leia também:
1. Breve História da Igreja Batista Leta do Rio Novo, primeira parte
2. Breve História da Igreja Batista Leta do Rio Novo, segunda parte

Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, conclusão

continuação da parte 6

7

Bendito seja o Senhor! Segunda-feira. Ao alvorecer do dia estamos despertos e com saúde. Preparamo-nos para a caminhada. Degustamos o café da manhã. Dirigimos nossas preces a Deus e com sinceros “adeus” nos apressamos pelo mesmo caminho de volta. Na noite do dia seguinte estávamos no meio dos nossos parentes.

Verifiquei que a Igreja Batista Leta trabalha com eficiência. Aos domingos pela manhã a mocidade, com os demais, inclusive as crianças, estão alegremente no culto. Cantam, aprendem, oram a Deus e, terminado o seu horário, ficam com toda a igreja para juntos ouvir do evangelho.

Alguns irmãos desenvolvem trabalho missionário junto ao povo brasileiro. Promovem cultos na cidade de Orleans e cantam em português. Aqui podemos dizer, como o Senhor disse: “Conheço as tuas obras, e o teu trabalho… sofreste e tens paciência e trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste.” Pelo estatuto interno da Igreja que julgue o Senhor, que observa, o reconhecimento a quem de direito.

Preparamo-nos para ir a Mãe Luzia. Lá serão celebradas as festividades de inauguração, dia 6 de setembro. A Igreja de Rio Novo recebeu um convite para comparecer e participar com mensageiros, octetos e solistas. O convite finaliza: venham como puderem.

Nestas condições tive vontade de visitar Mãe Luzia. A igreja me concedeu poderes de mensageiro, outros irão conforme suas condições. O octeto estava em condições de viajar para o evento.

Os meios de transportes eram diversificados: [alguns iam] com caminhões, a cavalo, outros de trem. Foi-me recomendado que fosse de trem: se chovesse poderia ficar no caminho. Acompanhei então o irmão Zeeberg, que viajou com sua esposa. Estes também foram amáveis companheiros, que tudo conheciam e sabiam mostrar e contar.

Viajamos até a cidade de Tubarão, onde desembarcamos e aguardamos seis horas enquanto chegava à outra composição, que nos levará ate Mãe Luzia. Agora nos sobra tempo para visitar o irmão Osch, ver a cidade e seus arredores. A cidade é bonita, plana e com terra fértil, junto à barranca do rio, com ruas calçadas e rico comércio.

Estamos novamente na estação ferroviária. A composição chega: encontramos o pastor Stroberg, vindo de Rio Branco, junto com uma jovem. É uma professora, convidada pela Igreja de Rio Novo para lecionar para as crianças [NOTA: Emília Zickmann].

Neste encontro nos alegramos uns pelos outros. Viajamos conversando até a cidade de Criciúma. Ao desembarcar encontramos os irmãos de Mãe Luzia que vieram ao nosso encontro. Eles levaram as nossas malas e nos conduziram até um caminhão: tínhamos pela frente mais 12 quilômetros de estrada de terra.

Chovia, estrada lisa, o caminhão derrapava de um lado para outro como que embriagado. Receio que haja algum acidente. O caminhão estaciona.

Graças a Deus chegamos. Desembarcamos alegremente. Os irmãos acomodam nossas malas e nos convidam a acompanhá-los. Andamos uns cem passos e chegamos à residência dos Andermann.

O casal de proprietários veio nos receber e cumprimentou a mim e ao Stroberg, depois indicou-nos um quarto com 2 camas. Lugar de repouso ja temos. É tarde da noite e a dona da casa põe a mesa do jantar. Servimo-nos e em seguida fizemos um culto noturno, colocando aos pés do Salvador a nossa gratidão pela sua misericórdia.

Novo dia chegou, o alvorecer penetra pelas janelas, o sono nos abandonou. Levanto e dou graças ao Pai Celeste pelo cuidado. Apresso-me a observar os arredores, ontem à noite a escuridão reinava e não podia se ver nada.

Sim, um céu límpido! Ontem à noite o céu estava coberto de densas nuvens negras e chorava lágrimas de bênção sobre a terra seca; agora trocou de roupagem e o sol, com seus raios luminosos, alegra a natureza. Observando a bela planície, o rio, os córregos, fiquei alegre e em silêncio louvei a Deus: Oh, Senhor, quão maravilhosas são tuas obras e tuas bênçãos! A terra cultivada durante trinta anos sem qualquer adubação e as colheitas, como sempre, fartas.

Tomamos café e fomos com Stroberg visitar o novo templo e depois a casa dos Klava, presidente da Igreja local. Encontramo-nos, cumprimentamos e passamos a falar sobre as festividades.

Mas uma circunstância infeliz: ambos, Stroberg e eu, fomos assaltados por uma febre inesperada. Ele começou a tremer como uma vara verde e não sobrou alternativa senão ir para a cama. Eu além da febre tinha vômitos, e não sabíamos a causa desta enfermidade súbita. Também eu fui obrigado a procurar a cama e buscar cobertores, todos insuficientes [NOTA: Possivelmente tratava-se de malária].

Pensei: e agora, que acontecerá? Quando deveríamos nos alegrar com as festividades, estamos a gemer! Imploro a Deus e digo a Ele da nossa situação. “Oh, Senhor, não estás satisfeito que nos alegremos com estes irmãos? Estenda a tua mão salvadora e nos toque, teus servos; que retorne a saúde, para que possamos ser portadores de alegria e testemunhas das tuas palavras de vida!”

Nosso anfitrião preparou uma sauna; conduziu primeiro meu companheiro e tratou-o da melhor maneira. Em seguida foi a minha vez. Fiquei pior ainda: perdi totalmente as forças, não podia sentar nem ficar de pé. Pensei: é o meu último dia.

Meu anfitrião me recomendou um banho quente e, no final, uma ducha fria. Veio uma pequena melhora. Voltei para a cama. Dormi a tarde toda e senti-me recuperado. Ouvi o convite à merenda, comi um pouco e as energias e a saúde estavam se renovando.

Na manhã seguinte estava recuperado, e meu companheiro também se recuperou totalmente. Louvamos e agradecemos ao Senhor.

Pela manhã dirigimo-nos ao culto. O companheiro diz que não tem condições de conduzir as festividades, a febre não permite. Sentou-se a parte e não participou do culto.

O irmão Klava deu início à festividade com o cântico do hino “Bendiga ao Senhor, o Rei da Glória”, leu o salmo 84, sobre “Quão amáveis são os teus tabernáculos”, e orou a Deus. Depois houve a apresentação de inúmeros corais e saudações dos visitantes e outras apresentações.

Uma saudação especial veio do pastor Abrão de Oliveira, homem de cor, que falou em português. O autor destas linhas falou sobre Colossenses 3.1-4.

O evento festivo teve inicio no domingo, continuou na segunda-feira e terminou na terça-feira. Nos dois últimos dias Stroberg conduziu as festividades; o Senhor lhe devolveu as forças e a saúde. Na segunda-feira falou sobre o amor, conduzindo seus ouvintes aos belos caminhos do amor.

Na terça-feira pela manhã despedimo-nos dos irmãos de Mãe Luzia com o hino “Até que nos encontremos na margem do Rio de Cristal”.

Rumamos a caminho da cidade de Tubarão. Passaremos a noite nessa cidade: a composição ferroviária que nos levará a Orleans passa pela manhã. Sobrou-nos bastante tempo para visitar o irmão Osch e nos ocuparmos com assuntos do Pai do Céu.

Chegamos a Orleans. Meu irmão nos mandou cavalos de montaria, muito úteis.

Na Igreja de Rio Novo estão programadas preleções sobre assuntos doutrinários. Domingo, 13 de setembro, houve culto. Segunda-feira, estudos sobre a Igreja, ministrados pelo Pastor Stroberg. Primeiro, no que consiste a igreja? Em que bases se sustenta? Quem é seu mantenedor? Quais as condições exigidas para ser membro? Quais atribuições dos membros da igreja? Quais atividades os membros devem exercer dentro e fora dela? Finalmente, qual o resultado quando uma igreja permanece no caminho prescrito nos evangelhos? Conclusão: guarde o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. Cada membro podia dar sua resposta às interrogações, que foram amplamente debatidas.

No dia seguinte houve a conclusão do curso, ocasião em que foram feitos esclarecimentos sobre temas controversos que haviam se estabelecido entre os membros da Igreja.

Com calorosos abraços e cumprimentos nós nos despedimos.
Stroberg voltou para Curitiba, ao seu local de trabalho e a seus familiares. Meu caminho me conduz a São Paulo e a meus familiares em Areias.

Bendito seja nosso querido Pai através de Jesus Cristo! Grande número de rostos de irmãos e amigos ficarão na minha memória.

FIM

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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil
Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 5

continuação da parte 4

5

Estando exausto, adormeci logo. Durante a noite acordei e pensei, onde estou? Lembrei. Vieram-me à mente as necessidades do dia seguinte. Como poderei ser útil ao meu Senhor Jesus Cristo? De joelhos, implorei bênçãos e ajuda. Belo e santo momento aos Seus pés; sinto profunda paz em meu coração, como se uma amável voz estivesse dizendo: “Meu Filho, eu estarei contigo, durma em paz”.

Voltei a repousar até o alvorecer. Ouço o anfitrião na cozinha auxiliando a esposa; ambos conversam em surdina. Levanto-me e agradecendo a Deus cumprimentei os anfitriões.

Observei os arredores, que clima agradável! Próximo à sala de visitas vejo um pomar, onde vicejam macieiras, pereiras, ameixeiras, cerejeiras, pessegueiros, parreiras. Não há laranjeiras; para as laranjeiras é demasiado frio. Ao lado do pomar, um belo riacho, com boa queda d’água, que pode ser aproveitada para movimentar engenhos agrícolas.

No dia seguinte me mostraram onde reside o velho irmão Bruver. Fui visitá-lo. Chegando ao portão, bati palmas. Os velhinhos não ouvira: com a idade, os ouvidos ficaram acometidos de surdez. O irmão ainda ouve um pouco, vem ao meu encontro. Com voz forte, digo:

— Saúdo o irmão em nome de Jesus Cristo; a Paz de Deus esteja com vocês!

Responde:

— Obrigado!

Convida-me a entrar. A irmã idosa está na cozinha. Cheguei perto dela e falei em alta voz, no ouvido:

— Deus ajude, irmã! A paz de Jesus Cristo esteja contigo! Sou missionário, venho de Rio Novo; a Igreja saúda vocês e deseja a misericórdia de Deus!

Vejo lágrimas em seus olhos, sentimentos arrebatados pelas saudações dos irmãos distantes. Segura minhas mãos e diz:

— Obrigado, irmãozinho, obrigado! Alegro-me por estar ainda na memória dos irmãos. — e acrescenta: – Estou velha e os ouvidos ficaram surdos!

Respondo:

— Vim visitar e alegrá-los no nome do Senhor Jesus, e com vocês adorar a Deus e vos anunciar que o Reino de Deus está próximo. A volta de Jesus não tardará!

Seu rosto resplandece, o espírito renovado despertou do sono da solidão. Ela diz:

— Ninguém nos visitou, durante longos anos vivemos na solidão e sem participar da Ceia do Senhor.

Convidei os velhinhos para sentar junto a mim, tirei do bolso o Novo Testamento e em alta voz li um trecho significativo, depois ajoelhados adoramos a Deus. Ficamos renovados, com novas energias. Enquanto eu e o idoso irmão trocávamos idéias, a irmã preparava o almoço.

Servidos, saímos para o depósito. Perguntei ao irmão:

— Como vai? Não tem necessidades? Ainda tem forças para trabalhar? E como estão de saúde?

Ele me conduziu para o armazém e mostrou:

— Veja irmão, lá estão dois enormes sacos de trigo em grão, aqui temos um estoque de carne e tenho um porco de 10 arrobas para abate, e mais outros alimentos. Agradeço a Deus que não nos permite sentir falta de nada e não permite a fome rondar a minha casa. Aqui vamos bem, este terreno o governo deu considerando e reconhecendo minha invalidez.

Andamos ao redor da propriedade, mais de meio alqueire de terra. Terra de primeira qualidade. Podemos ver tudo o que é produzido é produzido em um jardim.

— Minha dificuldade é a fraqueza — o idoso irmão comenta. — Não consigo trabalhar, arar e plantar; tenho que pagar e o quintal deveria ser capinado, porém não tenho mais forças.

Relata também outro problema:

— Queria trazer madeira para a casa: contratei um ajudante com uma carreta e cavalo. Em uma encosta estavam algumas toras de pinheiro, e tentamos colocá-las sobre a carreta. Estava eu no lado de baixo, tínhamos colocado sobre o eixo, algo se mexeu e a tora com a carreta rolaram em cima de mim. Não consegui impedir o desastre: me derrubou, rolou sobre mim, desmaiei. Expeli sangue pelos ouvidos, boca e nariz. Ele me levou para casa, me tratou. No dia seguinte voltei do desmaio. Depois desse acidente estou quase inválido. Não temos filhos nem parentes. Agradeço a Deus pelo que temos.

Pensei: como poderia ajudá-lo? Dinheiro não tenho para dar, tempo também não; talvez alguns dias de trabalho.

Volto ao meu Salvador: “Mostre, Senhor, como poderei ajudá-los.” Sinto um apelo ao meu coração que diz: “Vá recuperar o quintal dos teus irmãos velhinhos.”

Fiquei com eles até o dia seguinte e pela manhã, com a ferramenta adequada, comecei o trabalho. Até o meio dia o trabalho estava tudo pronto. Eu mesmo me senti feliz juntamente com o casal de velhinhos.

Ficamos amigos de fato. Mantivemos cultos domésticos, nas manhãs, ao meio dia e a noite; fiquei umas duas noites com os queridos velhinhos.

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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil
Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 4

continuação da parte 3

4

Fui convidado a visitar as montanhas da serra, onde residem duas famílias de letos crentes e outros patrícios. Pensei, que fazer? Eles são filhos de Deus e tenho necessidade de visitá-los.

Dois dias de viagem a pé. Sou idoso, não estou seguro em encetar tal objetivo. Já passaram 67 anos, as pernas sentem fraqueza. Não sou o mesmo que, quando na Letônia, aos trinta anos, em plena força, em viagem de evangelização, podia andar de Jaunjelgava até Latgale, mais de 200 quilômetros.

Mas que bobagem pensar só em si! O que uma pessoa é se não uma flor, uma sombra, que desaparece. Está escrito: “Ele aos cansados dá forças, aos fatigados reanima”. Por isso coloquei-me de joelhos aos pés do Senhor, a quem todos os caminhos das missões pertencem. Falei com o meu pai, expondo as necessidades e rogando forças para todos os membros do corpo. Então me raiou o amor e a fé, que suplanta e vê sobre todas as montanhas de dificuldades e coisas humanamente impossíveis.

Uma voz no meu coração me dizia: “Levanta, filho, e vai, pois serei contigo.” Respondi: “Bendito és, meu querido Guia e Mestre, pela promessa. O que Tu dizes se realizará.”

Jacob Karkle me acompanhou como intérprete e condutor. Saímos segunda-feira, 11 de agosto de 1931. Andamos o dia inteiro, quando chegamos ao sopé de uma alta cadeia de montanhas.

No início, aos meus olhos, as montanhas pareciam estar a poucas horas – mas nada disso! Quanto mais andávamos, mais as montanhas fugiam de nós; porém a vitória ficou do nosso lado.

Encontramos um colono brasileiro. Conversamos. Ele perguntou para onde estávamos indo, respondemos que vamos até a cidade de Urubici, nas montanhas. Ele afirmou:

— Esta noite não podem prosseguir, venham comigo, fiquem aqui, amanhã poderão ir adiante.

Fomos com ele. No meu coração pensei: “Oh, Jesus, como Tu protege os teus!”

Entramos na residência do nosso benfeitor. Ele convidou que deixássemos as nossas coisas no seu melhor quarto, conduziu-nos até a cozinha, colocou bancos junto ao fogo, sentamos e nos aquecemo: era uma noite fria.

O proprietário teve a idéia de sugerir que cantássemos algum de nossos hinos. Lamentavelmente, não tínhamos nenhum hinário em português, então cantamos em leto.

Após a ceia fomos ao repouso. O proprietário nos mostrou um quarto com uma cama grande, onde os dois viajantes cansados puderam dormir confortavelmente.

Pela manhã, ao alvorecer levantamos, mas a dona da casa já estava com o café pronto. Refeitos, continuamos a jornada.

Agora era subir a grande montanha, que está a 2000 metros acima do nível do mar. Subimos durante uma hora e não estamos nem na metade. A montanha continua as nos desafiar. Subimos mais durante outra hora e ainda sobra montanha a vencer.

Duas horas e meia de subida e finalmente estamos no topo. O clima no topo da montanha é agradável; mais adiante encontramos um pequeno riacho com água cristalina e gelada. Sentamos e almoçamos: na subida a montanha a fome havia despertado.

Após o almoço e continuamos a andar. Agora na descida, mas a frente mais uma montanha. Subimos novamente. Minhas pernas começam a protestar pelas subidas e passagens pelos riachos. Daqui para frente continuamos com pés descalços, os calçados perdemos nas águas e na lama.

Meu companheiro, jovem, continua com as mesmas energias, obrigando-se a me esperar. Durante as subidas ele carrega minhas coisas sem dificuldade enquanto não consigo acompanhá-lo.

Neste alto da serra vejo enormes planícies e matas inteiramente cobertos de pinheiros, como também encostas e desfiladeiros. Para onde fossemos olhar eram somente pinheirais.

Não podemos demorar por aqui, temos longo caminho pela frente e o relógio marca 12 horas. Metade do dia já passou, sempre subindo. Agora lentamente, descendo.

O ar é límpido e leve, agradável. Os riachos correndo entre pedras que brotam da fonte aqui mesmo no sopé da montanha. Agora o caminho faz voltas junto à margem da montanha e temos que cruzar a pé os riachos. Por muitas vezes, mais de dez.

Finalmente as travessias terminaram e meu companheiro avisou que daqui para frente apenas alguns pequenos riachos estarão pelo caminho, e que são afluentes de um rio maior [NOTA: Não nos é possível afirmar qual dos caminhos da serra eles tenham usado. Pessoalmente só conheço o caminho da Serra do Grã-Pará ou Serra da Forcadinha, ou ainda a Serra do Morro do Engenheiro. O itinerário não bate em alguns itens. Pode ser que seja o caminho da Serra do Imaruí, mas ainda falta averiguar. Se for a primeira hipótese o rio maior em frente seria o Canoas.].

A planície se apresenta cada vez maior. As montanhas, mais distantes umas das outras, deixam que a linda planície mostre sua terra preta e fértil, a produzir riqueza útil. Vemos algumas colônias onde foram derrubados belos pinheiros e, em seu lugar foi semeado trigo. Sim, aqui é um mundo diferente: outro ar, outras árvores e outras safras.

Tínhamos passado por muitas residências e o sol descambava para o poente, e ainda não tínhamos nos alimentado.

Chamei meu companheiro e disse que minhas pernas não estavam obedecendo sem novo reforço alimentar. Ele compreendeu imediatamente. Estávamos outra vez junto ao curso da água que cruzamos tantas vezes, mas se tivesse que atravessá-lo novamente não haveria condições: estava largo, profundo e a correnteza forte.

Sentamos junto a corrente, servimo-nos de alimento e tomamos água diretamente da correnteza. Vinham a nossa frente algumas pessoas, e perguntamos se estava longe o nosso objetivo; responderam que mais 4 horas de caminhada.

Quase desmaiei, preocupado com minha canseira. Comecei em meu coração implorar a Deus por novas forças para a fadiga não me vencer. O companheiro me fez lembrar que nesta noite não haverá luar e que na trilha com lama (choveu durante a noite) será impossível caminhar com a escuridão. Suspirando por ajuda divina, segui meu companheiro. Horas antes tínhamos passado em frente a uma igreja, agora vejo outra [NOTA: Aqui eles já parecem estar descendo as margem do Canoas. Primeiro São Pedro, onde deveria haver uma igrejinha, e depois outra em Santa Teresa.]. Caminhando lembrei que este povo, que aqui vive, não é de selvagens; eles pensam em Deus. Seria necessário que alguém mostrasse a eles com certeza o caminho da salvação, para que eles se tornem em filhos de Deus e nossos irmãos.

O sol se escondia, nós nos apressamos, às vezes até as carreiras. No caminho escorregadio, caí umas três vezes, felizmente não sujei as roupas de lama. Agradeci a Deus pela proteção. Como eu pareceria sujo de lama?

Um bêbado?

Como alguém me receberia desse jeito em residência estranha?

O sol se pôs, despedindo-se com os últimos raios pelos cumes das montanhas. Despediu-se também de nós ainda a caminho. Refleti com que precisão, sem qualquer atraso, são cumpridas as leis estabelecidas pelo Criador. Está escurecendo e ainda não estamos no fim da viagem.

O caminho está cada vez melhor e seco, não há perigo de quedas, caminhamos depressa e com segurança. Meu companheiro diz:

— Estou vendo uma residência conhecida — e aponta: — Veja, do lado direito, a luz na janela, esta é uma residência de letos. É a colônia do [Adolfo] Maisin, proprietário da terra. O próximo é um brasileiro, e depois é a propriedade do meu irmão Carlos Karkle com duas casas: uma na beira do caminho, à esquerda, e outra, mais velha, à direita, a uns cem passos do caminho. Pode ser que esteja residindo na morada nova.

Chegando mais perto vemos uma lareira num barraco. Batemos palmas. Veio ao encontro um brasileiro. Perguntamos:

— O proprietário mora aqui ou na casa velha?

Ele aponta para a casa velha. Voltamos pelo mesmo caminho para o lado oposto. A escuridão era total. Apalpamos o portão e começamos a bater palmas.

Fomos recebidos pelo irmão do meu companheiro, o Carlos Karkle. Chegando bem próximo e reconhecendo seu irmão exclamou:

— É, Jacó? Que bons ventos te trazem?

E, cumprimentando, conduziu-nos para adentrar a residência.

Meu companheiro me apresentou aos seus parentes, informando que sou irmão do João Purens, o qual é amplamente conhecido. Abrigando as malas e bengalas, sentamos.

A dona da casa é de origem alemã. Desde os cumprimentos na chegada podemos deduzir a língua alemã, embora fale muito bem a língua leta. Senhora amável e hospitaleira.

Indagavam sobre a viagem: foi difícil andar a noite tão longo trecho do caminho? Respondo que para um idoso como eu não foi tão fácil, as pernas estão exaustas.

Ela disse:

— É preciso fazer uma imersão demorada em salmoura quente — e em seguida, providenciou a salmoura.

Fiz a imersão e ajudou bastante, mas nas solas dos pés havia bolhas produzidas pela estrada pedregosa. Refleti como seria no meu querido Mestre, que andou pelas montanhas e vales buscando as ovelhas perdidas de Israel?

A dona da casa havia preparado o jantar e nos convidou a mesa. Agradecemos ao Pai do Céu e servimo-nos de saborosas ervilhas, cultivadas aqui na propriedade. Plantou apenas dois litros e colheu duas sacas, isto é, cem vezes mais.

Nosso anfitrião comentou que foi o primeiro leto a chegar à cidade de Urubici. As plantações são planas e devidamente cultivadas. Conversamos sobre alguns assuntos, e em seguida fizemos um culto noturno. Li no Novo Testamento um capítulo apropriado da Palavra de Deus e dobramos os joelhos em gratidão e adoração.

No inicio imaginei que Carlos, irmão de Jacó, fosse membro da igreja batista. Mais tarde entendi que não. Era, no entanto, querido amigo e benfeitor dos batistas, e sua esposa sabatista, ambos queridos amigos e amantes da Palavra de Deus. Que o Senhor os abençoe e os mantenha na sua misericórdia. Terminamos e repousamos até a manhã.

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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil
Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

Meu alvo era ajudar as pessoas | Carlos Leiman a Reynaldo Purim

Cachoeiro do Itapemirim, 12-9-17

Querido Reinhold!

Saudações! Recebi tua enorme carta. Obrigado. Não sei o que devo lhe escrever, pois de grandioso nada há por aqui, e porque sobre o meu trabalho já sabes tudo.

A escola começa as 7 da manhã e vai até as 9 da noite, com todas aquelas matérias. Também na área de evangelismo toda responsabilidade recai sobre os meus ombros. Os recursos financeiros são muito escassos e o trabalho muito extenso. Com este ritmo tenho sentido estar perdendo a qualidade da saúde, e nessas condições não é nada alegre escrever sobre isso.

O Onofre me escreve perguntando se eu estou pronto para voltar a trabalhar em Laguna. Respondi que sim, mas no momento voltar atrás não seria possível, porque estou comprometido com o trabalho aqui. A escola cresce cada vez mais e tenho que lutar muito mesmo aqui.

Quanto ao trabalho aqui na igreja, não tem se desenvolvido muito. Surgiu aqui um “Stekert” [Nota de V. A. Purim: Nunca soube de alguém da família Stekert que tivesse ido para Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Mais parece um exemplo de voluntários que, por falta de persistência ou determinação, terminam não conseguindo atingir os seu objetivos.] que queria fazer qualquer coisa, mas caiu através do fundo e ficou como nada tivesse sido feito. Nas igrejas ao redor, aí sim, o trabalho é feito, com novas conversões — e ali está a minha maior alegria, mas a dificuldade é estar com eles, por falta de tempo e também de dinheiro.

São muitas as dificuldades, e quando a pessoa para de lutar e começa a enumerar todas essas tristezas e se envolve nelas, aí chegam a falta de entusiasmo, a preguiça e a indiferença. E quem é o culpado por tudo isso? Eu mesmo. Mesmo nesta escola não vejo grandes esperanças, se quando eu sair não vierem outras pessoas com o mesmo propósito e a mesma determinação. Por isso quanto maiores forem as lutas e as dificuldades, no seu tempo virão as vitórias equivalentes.

Esta falta de energia, esse comportamento morno, é facilmente explicável. Quando estava ainda lá em casa no interior eu achava que tudo seria mais fácil. Meu alvo era ajudar as pessoas, e que lugar seria melhor do que uma escola, para se ajudar mais pessoas ao mesmo tempo?

Mas não importam as dificuldades; a seu tempo, aqui na escola tem gente com muito mais capacidades do que eu, e isso digo com toda convicção. Em certas áreas sou um mero aprendiz, e nestes campos onde estou carente eu me apego com todo ardor.

Sempre comparo as minhas dificuldades com o trabalho de um ferreiro, pois quando quer um aço mais duro e tenaz ele aquece a peça que elaborou até o rubro e em seguida mergulha rapidamente na água fria; quanto mais fria a água, mais duro e tenaz será este aço. [Nota de VAP: Como já trabalhei nessa profissão, não concordo inteiramente com o seu processo de têmpera, mas como comparação o exemplo continua válido.]

Aprender é umas das necessidades inatas do ser humano, tanto que poderíamos chamar de necessidades sagradas. É como a necessidade de comer. [Nota de VAP: Esse anseio por estudos e conhecimentos marcou profundamente também toda a minha juventude e se mantém até hoje, talvez devido ao longo período em que ficamos distantes das facilidades das fontes de informações. Opinião pessoal nossa.] Mas comer e não mastigar é morte na certa. Por isso, para fugir destes obstáculos, é preciso procurar algo para fazer — então vais sarar, então vais queimar/encontrar o equilíbrio. Essa falta de objetividade e de determinação tenho encontrado em muitas pessoas, mas quanto a mim acho que sou tão ativo que chego a incomodar os outros. O caminho do centro será um caminho muito abençoado.

Neste momento devo terminar solicitando uma longa carta sua. Que o nosso Deus, o Pai, te abençoe e te auxilie.

Seu
Carlos Leiman