, com toda certeza e convicção, … | De Roberto Klavin para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 6 – II – 1921

Caro amigo!

A tua carta do dia 19/12/20 recebi já, há algumas semanas atrás, mas desta vez, mais por preguiça deixei de responder.

No tocante ao assunto escola, eu posso afirmar de minha parte, com toda certeza e convicção, pois não é uma coisa qualquer e estou absolutamente convicto, quanto a minha pessoa que não tenho forças e não estou apto para assumir tão imensas responsabilidades. Entendo que para aceitar um tão grande desafio são necessárias energias, dons e uma vontade férrea, para chegar a um bom termo. Tenho pensado durante anos e estou convencido que não tenho conhecimentos básicos suficientes para enfrentar um tão grande desafio.

O meu irmão Augusto viajou dia 8 de janeiro, a passeio à São Paulo e Nova Odessa. Quando ele já tinha viajado, ficamos sabendo que ele tinha sido “sorteado” para servir o Exercito e se passar no exame médico, poderá servir lá mesmo em São Paulo.

Quanto o trabalho missionário em Rio Larangeiras no ano passado sofreu um grande abalo, quase dissolvendo. Durante o Natal e Ano Novo não teve nenhum trabalho especial por lá. Agora devagar está voltando ao normal. Todos de lá te mandam muitas lembranças.

Finalizando, envio muitas lembranças do teu amigo.
Roberto Klavin

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Meus pais não podem me ajudar como fazem os seus | Roberto Klavin a Reynaldo Purim

Invernada, 27 – 7 – 1920

Querido amigo!

Agradeço pela carta cuja escrevestes no dia 23-06-1920, a qual recebi dias atrás.

Foram embora do Rio Novo o irmão Butler e sua esposa para Curytiba. Eles viajaram na semana passada, dia 22. Na noite do último domingo houve as despedidas. Ele, ao se despedir, entre outras coisas disse que voltará para cá somente caso tenha problemas com a voz; se a voz se adaptar ao novo clima ele para cá não mais voltaria.

Quanto a mim e a minha possibilidade de ir estudar, eu muito tenho pensado e planejado, mas o que no fim vai dar isso tudo só Deus sabe. Para o primeiro ano eu teria dinheiro para passar o ano tranquilamente e sem preocupações maiores, mas para o segundo ano não teria condições, uma vez que meus pais não podem me ajudar como fazem os seus. Eles estão bastante sem forças e principalmente a minha mãe, que está sempre doente e muito fraca, em condições tais que às vezes não consegue cumprir com as obrigações da administração do lar — e aí outras pessoas tem que ajudá-la. Ainda com irmãos e irmãs menores, que terão que cumprir a escola básica, não se é possível esperar nenhuma ajuda substancial.

E como eu já tinha mencionado: não tenho certeza de que devo dar este passo. Sem que esteja seguro que poderia atravessar este período, com estas condições extremamente críticas, esta é uma questão da qual não posso fugir.

No mesmo tempo estou convicto que se eu ir estudar é a vontade de Deus ele fará acontecer conforme a sua santa vontade. Fico no aguardo dos acontecimentos.

Outra alternativa seria a proposta pelo Butlers, que quer que eu vá para Curytiba trabalhar e estudar à noite e depois do básico ir adiante.

Este mês está muito chuvoso e o tempo muito ruim. As estradas também estão muito ruins e eu tive que me cuidar muito para não me resfriar, porque estou com dor em um dente. Muitas noites não tenho dormido direito e passado sem sono, por causa desta dor que é muito desagradável.

Já há diversos domingos que não tenho ido a Rio Larangeiras e hoje deu uma chuva forte com trovoadas e granizo. Agora também estou vários dias em casa, mas logo terei que ir para o trabalho.

Terminando, receba mui afetuosas lembranças dos meus e também minhas.

Teu amigo,

Roberto Klavin

Guilherme Butler e Marta Anderman Butler



Professor Vilis [Guilherme] Butler e sua esposa Marta Anderman Butler

Guilherme Butler, como passou a ser chamado no Brasil, foi um dos imigrantes que chegou ao Rio Novo no início do século XX. Mais tarde foi estudar nos Estados Unidos.

Foi um dos primeiros professores da Escola anexa à Igreja Batista Leta de Rio Novo. Chegou a escrever uma cartilha (impressa na Rotermund na cidade de Rio Grande, RS) usada para pelos letos para aprenderem a língua portuguesa.

Meu pai aprendeu as primeiras letras tendo ele como professor.

Para uma biografia mais completa: Biografia de Guilherme Butler

VAP

Match Maja | Casa dos Match



Casa que na época era da família Match. Foi vendida para o Eduardo Karp, pois ficava na frente da dele. Mais tarde a sala dessa casa foi transformada em sala de aula para Escola Municipal. As carteiras eram aquelas que tinham sido da escola junto da igreja batista do Rio Novo. Foi nesta escola que eu, aos seis anos de idade, falando mal o Português, senti pela primeira vez o mundo hostil desabar em cima de mim. Não podia chegar com as unhas sujas e outras coisas mais. A professora era a — melhor não dizer.

V. A. Purim

Como viúvo | Artur Purim a Reynaldo Purim

1 de junho de 1919

Querido irmão,

A tua carta faz tempo que li. Muito obrigado. Estou esperando resposta de mais uma carta. Faz bastante tempo que mandei.

O tempo está quente e seco. O frio este ano ainda não chegou. Ainda está tudo verde. É muito melhor que está quente e seco, pois assim a gente pode correr sem os tamancos.

Eu estou indo na escola do Rio Novo e o meu professor é o Jahnis [Frischembruder] de Riga. Ele para os meninos é bom demais. Não põe ninguém de joelhos nem no canto, nem segura depois da hora. A matéria principal é a Aritmética. Eu já sei dividir com dois números. Ele vai tomar conta da escola por mais um mês e depois o Butlers assume. Então vamos ver como vai ficar. Acho que não vai ser nada excepcional.

Nós terminamos de arrancar o feijão. E mais um dia de trabalho estarão todas batidas [debulhadas]. Este ano não vai dar muito feijão. Agora estamos fazendo novo galinheiro e eu com o Bosi puxo toda madeira. Também puxo inhame para cozinhar para os porcos. Todo feijão foi trazido com ele e nós batemos em casa. No domingo passado o Roberto [Klavin] veio passear aqui em casa e aí eu levei mostrar todas as roças.

Agora estou como viúvo pois não tenho nenhum amigo [da minha idade].

Este domingo fiquei em casa de manhã para fazer a janta [almoço], e depois de ter descascado os aipins, quando estava cortando com um facão com muita vontade, terminei acertando profundamente a mão esquerda e quase cortando fora o dedo. À noite tive que ir à igreja.

[NOTA de V. A. Purim: A refeição do meio-dia era chamada de “janta”. As refeições diárias normalmente eram as seguintes: [1] Mata-bicho, ao acordar, que era café preto com açúcar; [2] almoço, lá pelas oito da manhã, que era café com leite, pão de milho, doces de frutas, mel, ovos fritos ou cosidos, nata, requeijão e outras coisas, e ainda às vezes polenta com mistura; ao meio-dia [3] a janta com pratos salgados e às vezes com sopas doces de frutas da época; de tarde [4] a merenda, que podia ser café com pão e outras misturas ou panquecas; à noite [5] a ceia, que seria como o café da manhã, mas em vez de café era servido chá-mate ou outros.]

Hoje o Arnolds [Klavin] veio nos visitar.

Bem, por hoje chega, o dedo está doendo, então chega de escrever. Com saudações,

Arturs

432$000 réis para os refugiados de guerra na Letônia | Olga Purim a Reynaldo Purim

[trecho de carta, provavelmente setembro de 1918]

[…] o Butlers queria estar de volta em casa no começo de agosto, mas ainda não conseguiu navio para voltar de Desterro [Florianópolis], onde teve que ficar esperando uma semana em um hotel, pagando 6$000 réis por dia; depois conseguiu um preço mais especial de 4$000 réis pela diária, e por aí você pode ver a despesa — se tiver que parar aí.

Daqueles 150$000 que a igreja pagou, ninguém passou. As aulas começaram no começo de setembro e foi só um dia, pois no outro o professor Butler já viajou para Tubarão. A partir do ano que vem a escola vai ser paga pelo governo, tendo o Butler como professor, pois ele em Desterro prestou exame de suficiência, onde aprendeu mais em brasileiro. Mas, vamos ver se tudo isso vai mesmo acontecer, pois prometer é fácil.

Na noite do domingo passado houve a “Festa da Colheita” [Festa de Ação de Graças] e também a Festa da Escola Dominical, quando foi levantada uma coleta que será mandada para o Rio [de Janeiro] para a Associação da Escolas Dominicais, como está escrito no Jornal. A importância quanto rendeu eu não sei.

Você recebe “O Baptista” [Jornal informativo da Convenção das Igrejas Batistas do Paraná/Santa Catarina]? No último número saiu uma matéria referente ao Rio Novo. Eu encomendei esse jornal, mas ainda não recebi.

Quanto à Rússia, aquilo lá está terrível. Antes do Butler viajar foi enviada a importância de 432$000 réis para os refugiados de guerra na Letônia e outros países do Báltico. Da Escola Dominical do Rodeio do Assucar, mais 32$000 réis. Na despedida do João [Frischembruder] de Riga foi conseguida mais a quantia de 87$000 réis e ainda outras ofertas de outras sociedades, cujas quantias eu não sei. Mas o que poderá fazer este dinheiro? São tantos que precisam e tudo está tão caro!

Outra coisa terrível é que o Herman [Germano] Balod ficou louco. Faz bastante tempo que ele já estava doente — não de cama, mas sim, andando por aí e dizendo bobagens. Como ninguém mandava nos empregados eles ficavam vadiando, e dívidas há bastante. Eles estavam se aprontando para mudar para ir de mudança para Porto Alegre, inclusive venderam o gado, mas daí ele começou a ficar pior e assim mesmo o pessoal lá ficou esperando que ele melhorasse. Na semana passada ele ficou completamente alucinado, querendo matar todo mundo e quebrar a casa inteira, e a família teve que chamar os soldados para levar para a cadeia, para que se acalmasse. Assim mesmo são necessárias três a quatro pessoas para dominar o homem o tempo todo. Vamos ver como vai ficar.

Bem, hoje chega. Noutra vez escrevo mais. Lembranças de todos e que te sempre vá bem.

– Olga.

Serra Marruin | Roberto Klavin a Reynaldo Purim

[carta em português, apresentada na grafia original]

4 de Abril de 1918
Orleans
Sta. Catharina

Caro amigo Reynaldo,

Pode ser que pensaras que eu não escrevo mais mas assim não é pois eu sempre esperei alguma resposta de ti mas passava muito tempo e não reçebi nada mas finalmente recebi os Calendarios: muito agradeso.

Agora estou bem! Estou continuando o meu trabalho nas Larajeiras em estes últimos meses tem chuvido muito de mas tem passado algumas domingos no casa por causa das enchentes; agora já a Margarida tem adiantado bem con a leitura, quando ela só ove uma vez quando alguém lê então ella já depois pode bem com poças diferenças.

De Arthur [Leiman] já tens noticias que depois de 21 dias esta com o seu Frederico, sentimos muito a falta delle; a nossa Egreja ultimamente tem expulsado sertas pessoas: a Carlotha Besi porque não anda como e dever de crente e também a Augusta da Silva e ultimamente o A. P. por causa do casamento e o que vai dar no futuro ninguém sabe mas sempre vai diminuindo alem disso confio em Deus e elle fará todo bem com elle quero.

Na paschoa os meus irmãos Arnaldo e Augusto e W. Slengmann nosso vizinho e Augusto Felberg e Otto Slengmann e Osvaldo Hauras e Oscar e Carlos Paegle foram visitar a família de Guedes Ribeiro e ontem meus irmãos voltaram elle ian por Serra Nova [NOTA: Serra Nova era também o nome da Serra do Rio do Rastro/Serra do Oratório. Foi aberta no primeiro governo de Vidal José de Oliveira Ramos nos anos de 1902 a 1906.] e voltaram por Serra Marruin [NOTA: A Serra do Imaruim foi aberta em 1769 pelo Capitão Guarda-Mor Antônio Corrêa Pinto, fundador oficial da cidade de Lages.].

Para diante quero escrever mais. Muitas lembranças de seu amigo

Roberto Klavin