Memórias de um menino da roça| Por Reynaldo Purim

MEMÓRIAS DE UM MENINO DA ROÇA
E
DE SUA VIDA INTELECTUAL

(NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS DE REYNALDO PURIM)

(Já no Seminário Teológico Batista de Louysville Kentuky o aluno é convidado a fazer uma auto apresentação o que ele fez na terceira pessoa do singular.)

Tradução por J. R. Purin

Se Reynaldo Purim tivesse que empreender a tarefa de escrever uma autobiografia, ele teria que contar a história de sua vida a partir de suas aspirações intelectuais, que na história de sua mente houvesse alguma importante que valesse a pena para ser escrita. Mas ele faria assim pela razão de serem as aspirações de sua mente o centro e a força motora das atividades de sua vida.
Os pais de Reynaldo Purim vieram da Letônia para o Brasil há muitos anos atrás. A Letônia naquele tempo estava sob o controle da Rússia; agora é um país independente. Naquele tempo muitos letos imigraram, foram para o sul do Brasil e se instalaram em várias regiões do Estado de Santa Catarina. Os pais de Reynaldo Purim e muitos outros letos foram morar num lugar chamado Rio Novo. Eram florestas virgens sem nenhuma civilização. A mais próxima estação da estrada de ferro distava cerca de 12 milhas (12 km) de onde moravam, onde não havia nenhuma cidade nem vila. Os imigrantes compraram sítios e começaram a nova vida com muitas dificuldades. Eles foram os iniciadores de uma próspera colônia leta que tinha sido florescente até o presente. Os letos conservavam a sua língua e costumes na medida do possível sob as condições de um novo meio ambiente. Eles fundaram uma igreja e uma escola conforme os seus próprios ideais que tinham trazido da Letônia. Suas vidas estavam baseadas em mais elevados padrões que aqueles que havia em outras partes dos Estados do Brasil.
Reynaldo Purim nasceu nesta colônia leta, chamada Rio Novo, em 1897. Seus pais não tinham vida fácil e rica, mas conduziam-na em boas condições. O menino não sabia o que significava sofrer a necessidade de coisas materiais. Junto com seu pai e sua mãe trabalhava no pesado como os outros trabalhadores faziam e eles educavam seus filhos com o trabalho e como honrar o trabalho. Reinaldo muito cedo aprendeu a fazer os trabalhos como todos os meninos da comunidade faziam.

Reynaldo Purim herdou alguma inclinação intelectual do seu pai e de sua mãe. Entre seus parentes havia alguns indivíduos que tinham manifestado tendências e características intelectuais que Reynaldo Purim encontrou nele mesmo. Ele podia dizer que suas aspirações mentais eram herdadas por extensão. Seu pai não tinha muita escolaridade. Ele era um homem que pensava profunda e cuidadosamente antes de tomar alguma decisão. Era muito vagaroso em chegar às conclusões mais acuradas. A mãe de Reynaldo Purim tinha uma grande clareza e acurada compreensão das coisas como são e não como elas parecem ser. Sua mente era mais indutiva que dedutiva; ela geralmente pesquisava conclusões gerais baseadas sobre fatos por ela observados. A herança característica de Reynaldo Purim constitui uma complexa combinação de muitas características, encontradas em seus ancestrais, os quais manifestavam-se distintamente em certas circunstâncias.

Quando Reinaldo Purim estava com nove (9) anos de idade, sua mãe o matriculou na escola da comunidade e então ele começou sua vida escolar. Naquele tempo ele já estava apto para ler, escrever e fazer algumas operações aritméticas. Os colonos letos se preocupavam em ensinar estas coisas para seus filhos antes de serem mandados para a escola.

A escola onde Reynaldo Purim começou sua aprendizagem fora de casa, era dirigida por um professor autodidata e sem uma formação sistemática. Ele não conhecia nada acerca de princípios modernos de pedagogia. Ele tinha aprendido as coisas sem método e assim ele ensinava a seus alunos. Purim começou sua vida escolar aprendendo os princípios da gramática leta, aritmética, alemão e português. O método para o estudo da língua, se assim podemos chamar, era a memorização de vocabulário e fazer traduções do alemão e português para o leto e vice-versa. Na escola não havia método de ensino, mas havia um forte espírito de competição entre os alunos. Cada um queria avançar mais que os outros para alcançar a melhor nota e, em razão deste fato, havia um bom progresso. Muitas vezes Purim pedia para sua mãe em casa testá-lo na tarefa para o dia seguinte, assim ele poderia ter certeza de que realmente o sabia. Purim naquele tempo tinha muito boa memória e por esta razão podia memorizar vocabulários alemães ou portugueses sem dificuldades. Ele avançou no estudo do alemão mais do que o português, porque em casa o português era muito pouco conhecido e ninguém podia ajudá-lo na preparação das tarefas. Na solução de problemas de aritmética, Purim trabalhava lentamente e com concentração. Ele resolveu conhecer mais pelo treinamento que pelo uso de regras de memória sem muito raciocínio. O professor não tinha idéia acerca deste processo de aprendizado dos deveres de casa, e por esta razão ele manifestava insatisfação quando Purim não podia finalizar os problemas de aritmética tão rapidamente quanto os outros meninos. Purim encontrou estas dificuldades, mas não sabia a razão disto.

Purim estudou debaixo da direção deste professor cerca de três anos. Depois o professor mudou-se para outra colônia de letos no mesmo Estado e a escola foi fechada. Após alguns meses haviam chamado outro professor para assumir a direção da escola. Purim prosseguiu seus estudos durante um ano sob a direção de um novo professor. Este era um autodidata como o primeiro, mas tinha melhor experiência no ensino. Sua vantagem sobre o primeiro era o seu dom natural para escrever poesia e prosa. Além de ensinar, ele escrevia poemas e artigos para alguns jornais e revistas letãs publicadas na Letônia e nos Estados Unidos. Na escola ele dava muita atenção à escrita e composições. Purim encontrou muita atração nas tarefas de temas assim como descrições de coisas ou eventos sociais. Infelizmente Purim não pode estudar com este segundo professor mais do que um ano. Seu pai tinha que mandar outros filhos para a escola e Reinaldo tinha que deixar a escola uma vez que seus irmãos deveriam ir.

Enquanto Purim estava frequentando a escola, ele não estava consciente do seu interesse intelectual, porque sempre estava engajado nas tarefas da escola. Mas quando ele deixou a escola, começou a sentir necessidade de mais estudos. Ele tentou tomar lições pessoais à noite, duas ou três vezes por semana, mas este plano ele não pode levar por muito tempo.

Quando Purim estava com aproximadamente treze anos de idade, começou a ler livros de diversos assuntos. Os lares dos letos em geral são suficientemente supridos com bons livros e jornais e assim era também o lar de Purim. Ele tinha à disposição muitos livros nas línguas leta, alemã e alguns poucos em português. Purim gastava em leitura o máximo tempo que podia. Ele lia durante o período de recesso, à noite e no inverno levantava-se cedo para ler. Seu pai dizia às vezes que Reynaldo tinha gasto muita querosene com a lâmpada, porém ele não dizia isto seriamente, porque entendia que era a aspiração mental de seu filho.

Por aquele tempo Reynaldo Purim foi recebido como membro na União de Mocidade da igreja local. Esta organização possuía dois ou três mil livros que os membros podiam ler gratuitamente. Isto foi uma oportunidade para o rapaz obter novo material para ler. Naquele tempo Purim não tinha especial interesse em definido assunto; ele lia qualquer livro que podia obter. Biografias o impressionavam mais que outras leituras. Num período de cerca de um ano ele tinha lido livros de geografia e descrição sociais da Letônia, Palestina, Egito, Rússia, Suíça, Noruega e outros países. Ele estava um pouco familiarizado com as experiências dos imigrantes que foram da Europa para a América do Norte e encontraram uma nova vida no novo mundo. Purim leu com um especial interesse as biografias de Pieter Maritz e Dolf, dois heróis bôeres na guerra contra o Sulus e a Transilvânia e a república de Orange, na África do Sul. As biografias de James Garfield, Presidente dos Estados Unidos, e de Benjamim Franklin, o inventor de para-raios, inspirando coragem em Purim para realizar em sua vida algum grande ideal apesar de ser um simples sitiante. Além dos livros da Letônia, Purim lia algumas poesias de Goethe, Schiller e Heine. A influência germânica sobre o sitiante leto de Rio Novo era forte e construtiva. Os letos tiveram sempre boas relações com os colonos alemães que viviam perto de Rio Novo. Alguns letos assinavam jornais da Alemanha ou de cidades brasileiras como Porto Alegre e São Paulo. Além de literatura, os letos encomendavam da Alemanha instrumentos de música e outros artigos por causa de sua boa qualidade e baixos preços. Purim era constantemente influenciado pelo pensamento germânico. Ele tinha também grande simpatia pela posição de pregadores ingleses como Maclaren, Talmage e Spurgeon, cujos sermões e outros escritos tinham sido traduzidos para a língua leta. Purim não conhecia muito acerca dos Estados Unidos enquanto era menino. A única fonte de informação que ele tinha acerca dos Estados Unidos era de alguns jornais publicados em Chicago e Nova York, mas eles traziam especialmente notícias de movimentos religiosos entre os letos que viviam nos Estados Unidos e não davam uma idéia da vida nos Estados Unidos como um todo. O mais efetivo fator que desenvolveu a imaginação de Purim quando era um menino da roça, foi a leitura de um livro de astronomia. Era escrito num estilo descritivo e para a mente de pessoa comum. A idéia de infinito, o qual Purim não pode alcançar, o impressionou mais que alguma outra leitura. Até revelou-se a ele que tinha aplicada sua imaginação somente nas limitadas coisas e nunca tinha tido idéias que eram grandes demais para sua mente. Daquele tempo em diante, Purim passou a ter um interesse especial por coisas que apelam para a mais alta imaginação e pensamento, assim como as causas primárias e os últimos fins ou propósitos das coisas. Enquanto Purim era um rapaz vivendo na roça, ele era afetado por muitas influências intelectuais complexas e de muitos pontos de vista. Ele não tinha específico interesse; ele lia todos os assuntos com mais ou menos igual interesse.

Quando Purim alcançou a idade de aproximadamente quinze (15) anos, aconteceu a mudança na sua vida intelectual. Ele perdeu interesse por leitura de livros sem propósito definido. Ele começou a pensar a respeito do que devia ser ou que fazer durante a vida. O problema de sua carreira era prioritária. Sua mente estava aberta e procurando algo definitivo invés de algo indefinido. O irmão de sua mãe, que era um jornalista por conta própria e diretor de um jornal diário em alemão na cidade de São Paulo, queria que Purim se tornasse um jornalista como ele. A princípio o rapaz sentiu alguma atração para aquela carreira. Ele começou a escrever descrições de eventos sociais, de costumes etc. e o enviou para Riga, Letônia, para publicação. Ele teve grande alegria quando viu algum de seus escritos publicados no jornal da Letônia “Avots” (que quer dizer ‘fonte’), e ele pensou em ser mesmo um jornalista. Mas depois de algumas reflexões, Purim não gostou muito da vida de jornalista como a de seu tio. Ele não gostou das muitas discussões e assuntos polêmicos acerca da política nacional e internacional na qual seu tio estava engajado. Em 1914, quando a Grande Guerra começou, os jornais alemães eram publicados com muita dificuldade e debaixo de severo controle do governo. Todas estas coisas levaram Purim a desistir da idéia de se tornar um jornalista.

Naquele tempo a Igreja Batista de Rio Novo chamou um novo pastor, um homem procedente do Colégio e Seminário Batista do Rio de Janeiro. Ele sugeriu que Purim deveria ir para a escola de onde ele tinha vindo. O jovem ficou muito interessado neste novo plano. O pastor falou com o pai de Purim acerca deste assunto. Ele apresentou algumas objeções por razões financeiras e que o filho não tinha idade suficiente para cuidar de si mesmo em um novo meio ambiente. Mas finalmente ele disse que cada idéia poderia ser colocada em prática algum tempo mais tarde. Esperando pela possibilidade de ir à escola, Purim estava com cerca de 17 anos de idade. Sua memória não era tão boa como tinha aos 12 anos. Ele fez todos os esforços possíveis para adquirir mais conhecimento do português. Ele estudou cerca de um ano e adquiriu um bom conhecimento de leitura daquela língua.

Assim chegou a mudança na vida da igreja, a qual Purim sentiu mais que algum outro. O pastor foi chamado para outro Estado e Purim ficou sozinho sem alguma ajuda para os seus estudos. Ele nunca tinha tido muitos amigos porque suas aspirações eram diferentes daquelas dos outros rapazes. Assim é que ele relembra que tinha somente dois amigos entre os jovens da comunidade com os quais ele podia manter amizade, porque eles tinham mais ou menos os mesmos interesses intelectuais. Os outros não eram inimigos nem amigos, porém especialmente como estrangeiros porque seus interesses eram por coisas que não apelavam muito para ele. Todavia Purim sentia a separação do pastor mais que qualquer outro na comunidade, porque ele era o único amigo interessado na sua melhor formação.

Depois de um tempo de considerações, Purim decidiu assumir por si mesmo que devia realizar seu ideal de obter melhor formação. Ele tinha já decidido sua carreira na vida: sua vida deveria ser gasta no trabalho pastoral. Ele queria mais preparo para um definido propósito. Ele apelou para sua mãe e pai por permissão e meios para que pudesse ir ao Colégio e Seminário Batista do Rio de Janeiro. Os pais de Purim viam que seu filho tinha um definido propósito em sua vida, por isso deram-lhe permissão para ir à escola e prometeram sustentá-lo financeiramente. Purim ficou muito feliz quando alcançou esta vitória. Não foi muito fácil tomar esta resolução porque significava separação de seu lar por um longo tempo, porém ele não hesitou em ir em frente para a realização de seu propósito. Em 20 de fevereiro de 1917, Purim deixou seu lar e a vida na roça e foi para o Colégio e Seminário do Rio de Janeiro.
R. Purim – 9 de dezembro de 1927.

…mas receber alguma carta não tenho tido este prazer. De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

Rio Novo 30 de maio de 1926

Querido maninho.

Embora de você nada tenha recebido, apesar de sempre estar aguardando todos os dias e assim passam-se as semanas, mas receber alguma carta não tenho tido este prazer. Não sei o que tenha acontecido por que não escreve mais. Pode ser que esteja doente, pois em uma das cartas você menciona que está muito cansado e que seria possível vir o descanso na noite eterna, ou antes, e isso me deixou muito preocupada. Pois agora por qualquer coisa fico super nervosa e abalada. Fico pensando porque ele não escreve sobre a nova fase de sua vida. Pode ser que nesta fase esteja passando necessidades e ainda devido ao excesso de trabalho ou será que existe algum outro motivo. Antigamente você escrevia longas cartas e agora quando escreve são cartas curtas. Ou nada tens mais para contar. Para nós você pode contar tudo. Por que ficar tão reservado se nós somos da mesma família irmãos e irmãs.

Nós aqui vamos levando a vida de sempre, serviço à gente tem demais e nunca conseguimos fazer tudo. Como pessoas somos poucas e trabalhos demais e assim sempre estamos sobrecarregados de serviço e temos que trabalhar demais. A Olga nada pode ajudar, não está de cama, mas melhor não fica.

As Festas passaram já há bastante tempo, o tempo estava bom, se bem que pela manhã começou a chover um pouquinho, mas depois melhorou e saiu um belo sol. O programa foi longo e variado, mais hinos e músicas. Foram esperados visitantes de outras localidades, mas não veio ninguém.
O convite foi feito através da publicação “Zelhmalla Seedos” [“Flores a Beira do Caminho”], mas não tenho certeza se foi publicado, mas sei que o dinheiro da assinatura e também o correspondente ao valor do anúncio foram entregues pelo João Zeeberg para a Selma [Klavin] para que a mesma entregasse a pessoa responsável lá no Rio de Janeiro. Ficou bem claro que o dinheiro era também para o convite, mas agora surgem dúvidas se mesmo a Selma entregou e porque ninguém recebeu este ano este jornal e quem sabe tenha terminado a sua vida de publicação. Se isto aconteceu é deveras lamentável, pois a Kate contou que no Seminário este ano são 24 os alunos letos. São tantos mesmo?

Então agora acho que já escrevi bastante e é bastante tarde. Hoje à noite estivemos na Igreja e teve aquele programa da Noite de apresentações diversas da Mocidade. Foi muito interessante o programa com hinos, mensagens, poesias etc. foi muito agradável para ouvir e meditar. Venha você também ouvir e ver como o trabalho é harmonioso quando todos componentes escalados colaboram e apresentam um trabalho muito bonito.

Hoje na Igreja foi apresentado o novo casal de noivos: A Natalia Felberg com o Eduardo Karklim.

Muitas lembranças de todos de casa e vou ficar aqui esperando uma longa carta tua.

Lucija

PS – Gostaria de saber se as cartas minhas enviadas em 16 de abril e 7 de maio tu já recebestes.

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN – 5ª PARTE

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS POR JOÃO REINALDO PURIN – 5ª PARTE
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REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin

5ª. Parte
Em Curitiba
Voltando um pouco no tempo, preciso colocar que no mês de janeiro de 1954, por ocasião de uma Assembléia da Convenção Batista Catarinense em Urubici, uma vez que há tempos, me considerava vocacionado para o Ministério da Palavra, atendi ao apelo. Depois de tornar pública a minha decisão, procurei o missionário Adriano Blanckenchip que se prontificou a conseguir bolsa de Estudos em Curitiba, na então Escola Batista de Treinamento, hoje Faculdade Teológica Batista do Paraná. Ali permaneci como aluno interno 4 anos. Pelas manhãs aulas bíblicas e trabalhava na horta, rachava lenha para a cozinha. À noite fazia o Ginásio.
Logo que cheguei escrevi carta ao Titio, comunicando que estava em Curitiba estudando para o Ministério Pastoral. Creio que no ano seguinte ele veio a Curitiba. Gostou demais da cidade. Ficou surpreso ao ver como o curitibano se trajava bem. Ficou por alguns dias na pensão da irmã Maria Túlio, na Rua Duque de Caxias onde meus irmãos, Valfredo e Viganth Arvido moravam.
Quando ele chegou, eu estava fazendo trabalho como pré-seminarista pelas Igrejas do Norte do Paraná. Quando nos encontramos, ele olhou para mim de alto a baixo e acho que ficou decepcionado com a minha altura e disse em leto: “tu ês mass noo augum” = tu és pequeno de (crescimento) altura.
Tive a oportunidade de levá-lo para visitar a Escola onde estudava e também para uma visita ao diretor, o missionário Lester Bell.
Neste ínterim, o Valfredo, falando com o irmão Mizael Cardona de Aguiar aventaram a possibilidade de se adquirir uma propriedade. O tio ficou também entusiasmado com a idéia e ao voltar para o Rio, limpou as suas reservas nos bancos e foi adquirida a propriedade da Rua Jacob Bertinato, que se tornou o centro dos Purins até agora.

Eu no Seminário
No ano de 1961 ingressei no Seminário do sul. Lá chegando, os colegas, maldosos, brincando, começaram a fazer hora comigo, pois sabiam que eu era sobrinho dele, diziam: “como é que pode…, agora aparece aqui um filho do Dr. Purim?” Tudo não passou de uma brincadeira. Ele sempre gostava de me receber em seu gabinete. Nas primeiras vezes já foi me dizendo que a Igreja de Bangu já tinha um seminarista e que não teria como ter dois. Mas por Deus, o Pr. Benilton Carlos Bezerra, da Igreja Batista em Laranjeiras já havia pedido um seminarista ao reitor, Dr. Oliver, que logo me deu carta de recomendação e para lá fui, onde passei meus quatro anos de seminário. Nos últimos meses, antes de minha formatura, o Tio me convidou para pregar em Bangu. Foi uma experiência muito boa. No final do culto alguém interpelou o pastor: “Mas, Dr. Purim, o senhor com um sobrinho no Seminário e ninguém aqui ficou sabendo?” Ele deu aquela risada característica. Ele já tinha me dito, no começo do meu curso que tinha por norma não apresentar parentes em parte alguma. Isto já era coisa antiga. Nunca procurou ajudar seus irmãos, especialmente as irmãs que tanto pediram que isto acontecesse. Mas era uma das normas dele e ninguém poderia convencê-lo de outra forma.

Uma de suas esquisitices notada pela família foi o fato de não participar de meu casamento, pois naquela mesma hora estaria acontecendo o aniversário da Sociedade Feminina de sua igreja. Horas antes do casamento, passou na casa dos meus sogros, justificou-se e preferiu a sua igreja. E lá se foi. Todos “compreenderam” e perdoaram.
Conceituadíssimo
Em que pese estas esquisitices ele era conceituadíssimo por todos que o conheciam e que ouviam falar dele.
Na igreja era muito querido. Todos o tinham na mais alta consideração, apreço e respeito. Solteirão que era, entretanto, freqüentemente casais iam tomar conselhos com ele, acatavam suas orientações e acertavam-se em seus relacionamentos.
Seus estudos bíblicos e sermões eram apreciadíssimos. Todos recebiam a palavra dele como vinda de Deus e faziam questão de não perder uma palavra ou o raciocínio dele que levava o auditório a ponto de perder o fôlego. Apenas, quando terminava, o povo se mexia, como que dizendo: que coisa maravilhosa! Sempre tinha algo novo que extraía da Bíblia que é realmente inesgotável. Ele mesmo dizia com certo orgulho que não repetia sermões. De fato, isto pode ser verificado pelos sermonários que deixou.
Para o púlpito levava a Bíblia e o seu sermonário. Era um livro grosso e pautado. Para cada mensagem usava uma página. Escrito em letras bem pequenas, porém, legíveis. Começava com o título, data, hora e local em que iria pregar: Bangu, Universidade Rural (Seropédica), Padre Miguel, 2ª de Magalhães Bastos, Vila Realengo (essas eram filhas da Igreja de Bangu), Ricardo de Albuquerque que era pastoreada pelo Pr. Arnaldo Gertner e em outros lugares, como Orleans, Rio Novo, Cajuru. Temos sermões desde os anos 1918 até 1969.
Estes sermonários estão sendo disponibilizados aos interessados, sob o título: Idéias Bíblicas para seus Sermões.
Assim era também no Seminário. Ninguém queria perder suas aulas. Lá ele era o catedrático. Ministrou as seguintes matérias: Filosofia, Filosofia da Religião Cristã, Religiões Comparadas, Apologética Cristã, Teologia Sistemática, Teologia do Novo Testamento, Teologia do Antigo Testamento, Epistemologia, Metafísica, Metodologia Teológica, Lógica, Hebraico, e anteriormente, Grego e História da Igreja.
Suas provas eram corrigidas com muito cuidado, pois qualquer palavra mal colocada prejudicava a resposta e a nota.

Sempre alguém o procurava para tirar suas dúvidas. Lembro-me de um grupo de alunos do Colégio Batista que o procurou dizendo que alguém iria fazer uma semente, um grão de feijão. Ao que ele foi logo dizendo. “Mas, fazer um feijão é uma coisa, vamos ver se este feijão vai nascer! Colocar vida em um feijão é outra coisa”.

O Conferencista
Era freqüentemente convidado para institutos nas igrejas. Nem sempre podia ir, mas temos registros e escritos de suas palestras em retiros de pastores no Estado do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e outros. Em todos esses encontros deixava sempre as melhores impressões.

O Escritor
Em que pese ter deixado poucos livros, houve um período de janeiro de 1936 a dezembro de 1942, em que foi o redator da Revista da Mocidade Batista Brasileira. Essas lições eram estudadas pelos jovens nas então Uniões de Mocidade que funcionavam aos domingos à tarde, antes dos cultos. Através destas lições procurava orientar a juventude batista brasileira em aspectos bíblicos, doutrinários, missionários, morais e culturais. Este material também estará à disposição com o título geral: “Eu vos escrevi, jovens…”.
Os livros, nos quais deixou o seu pensamento registrado, são os seguintes:
As matérias disponíveis, por enquanto são:
* APOLOGÉTICA CRISTÃ, 73p;
* CRISTIANISMO E CULTURA CONTEMPORÂNEA, 63p.
* ELEMENTOS DE METAFÍSICA COM VISTAS À TEOLOGIA CRISTÃ, 70 p.
* FILOSOFIA DA RELIGIÃO CRISTÃ, 104 p.;
* HISTÓRIA DA FILOSOFIA, 100 p.
* INTRODUÇÃO À FILOSOFIA, 42 p.
* LÓGICA, APLICADA AO PENSAMENTO TEOLÓGICO, 68 p.
* METODOLOGIA TEOLÓGICA CRISTÃ, 42 p;
* TEOLOGIA BÍBLICA DO NOVO TESTAMENTO, 100 p.
Outro material que não foi produzido para uso em aula:
* A ESSÊNCIA DA OBRA DE CRISTO – Sua Tese de Ph. D, Com o título original “Um Introdução à Morte e Ressurreição de Cristo.”
* A EXULTAÇÃO DE CRISTO NO ESPÍRITO SANTO, 8p;
* A IGREJA DE CRISTO E SUA MISSÃO EVANGELIZADORA, 24 p;
* A IGREJA DE CRISTO, 52 p;
* A PREEMINÊNCIA DO INDIVÍDUO SOBRE AS CLASSES ORGANIZADAS, 10 p.
* ALGUNS PRINCÍPIOS EXCLUSIVAMENTE BATISTAS, 16 p.;
* AUTORIDADE NA RELIGIÃO CRISTÃ, 67 p.;
* DEMOCRACIA CRISTÃ (entrevista), 8 p.;
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. II, 98 p.
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. I, 98 p.
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. III, 99 p.
* JESUS CRISTO NO PANORAMA DA HISTÓRIA, 59p.
* JESUS CRISTO, O RECONCILIADOR, 76 p;
* O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO, 8 p.;
* O ENSINO DE JESUS SOBRE O ESPÍRITO SANTO, 10p.;
* O PODER DO ALTO, 20 p;
* ORIENTAÇÃO PARA OS NOVOS CRENTES, 24 p.;
* PREDESTINAÇÃO E APOSTASIA ou A PERSEVERANÇA DOS SALVOS, 70 p.;
* PRINCÍPIOS BATISTAS (tese para os pastores do Estado do Rio), 38 p.
Como já foi colocado acima, o Dr. Reynaldo Purim tinha uma cultura e um conhecimento geral de todas ou quase todas as áreas do saber humano.
Entretanto, para não incorrer em algum erro que alguém, algum dia pudesse incriminá-lo, ele era muito cioso aos expor suas idéias e pensamento. Esta, talvez, tenha sido uma das razões de ter produzido pouco. Antes de chegar à conclusão que o texto estava bom, ele corrigia e datilografava várias vezes (naquele tempo nem se falava em computador). Também ele perguntava, quem é que vai ler? Com isso dizia que, se ele expusesse o seu pensamento em sua profundidade, poucos iriam se interessar e ler.
O material que estou expondo, é o que encontrei em seus guardados em forma de apostilas e rascunhos datilografados. Como o que importa é o conteúdo estou colocando à disposição em forma de apostilas, sem muitas alterações.
Se o leitor estiver interessado, é só fazer o pedido.
Vem aí a 6ª Parte. Seus últimos anos – Morando no Seminário. Aguarde.

O PASTOR KARLIS ANDERMANIS – IGREJA BATISTA DE RIO NOVO -1905 –

O PASTOR KARLOS ANDERMAN

1ª PARTE

DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN UM DOS SEUS FILHOS
Autor: Julio Andermann
Datilografado por Laurisa Maria Corrêa
Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman

O meu pai Carlos Andermann e minha mãe Emilia Kanzberg Andermann, junto com um casal de filhos, em 1905, emigraram da Letônia para o Brasil, com destino a uma Colônia que se estabeleceu em Rio Novo, nos arredores de Orleans e Lauro Muller em Santa Catarina. Sua missão era pastorear a Igreja Batista e de professor da escola primária.

Antes disto, o meu pai ainda solteiro, fora mandado pela Sociedade Missionária Batista Leta para Palestina a fim de cercar, naqueles lugares santos, os peregrinos russos em território neutro e pregar o Evangelho para eles que lá iam buscar graças e pagar penitencias, por que no Império Russo, ao qual pertenciam os paises Bálticos, não se permitia proselitismo religioso fora do recinto das igrejas.
Então o meu pai criou um estilo pessoal de abordar aqueles turistas individualmente ou em pequenos grupos, cativar o seu interesse e transmitir a mensagem da salvação. Esta maneira missionária de evangelizar depois ele empregou durante toda a vida.

Era um homem culto. Podia se comunicar em inglês, alemão, russo e por fim no idioma português. Sabia grego e lia fluentemente em hebraico, que havia aprendido o seminário para interpretar melhor as escrituras.
Naquele tempo os Batistas estavam começando a evangelização na Letônia, como também no Brasil, apoiados pelos recursos das Sociedades Missionárias americanas.

Letônia era eminentemente Luterana e aquela denominação tradicionalista nos seus cultos usava mais ou menos os mesmos ritos da igreja Católica. Cantavam os velhos corais de Bach; a maioria dos seus membros visitava a Igreja quando eram batizados, quando casavam, batizavam os filhos e por fim, no próprio funeral.
A preferência pela religião Luterana foi à conseqüência da colonização da Letônia pelos Junkers alemães que a ocuparam depois da Reforma e independentemente de qualquer opção pessoal do povo que passaram a dominar, mandaram batizar todos e depois os pastores doutrinavam insistindo naquelas idéias que facilitavam a servidão – a vinculação do homem a terra e obediência aos seus senhores. Não foram convertidos e por isto continuavam na vida mundana com todos aqueles excessos de vícios e maus costumes, que transmitiam as novas gerações.

Então vieram os Batistas com aquela teoria da Salvação, entoavam aqueles hinos brilhantes do Ira D. Sankey magistralmente traduzidos para o idioma Leto e aquela gente que cantando nasce, cantando cresce e cantando leva à vida – foi sensibilizada e não há outro meio mais eficaz de chegar-se à alma humana do que através dos cânticos harmoniosos, rítmicos e bem entoados.

Mas o entusiasmo dos evangelizadores Batistas tinha ainda outro motivo de insistir nesta conversão, por que a religião Ortodoxa, a oficial da Rússia naquele tempo tinha uma conotação de obscurantismo, do qual a maior expressão foi o monge Rasputin, infiltrado na família imperial. Então os crentes acompanhavam o seguinte raciocínio:
“Se nos grandes países tais como Inglaterra e América do Norte, onde”.
predominavam os Evangélicos com a sua moral havia prosperidade
e abundância, então também o mujique, através da luz do evangelho,
poderia fazer surgir na Rússia aquele progresso espiritual e “material”.

Durante a sua estadia na Palestina o meu pai tinha estudado Teologia num Seminário Teológico Luterano alemão situado numa Missão na Palestina, por que ainda não havia este curso na Letônia.

Era músico, poeta, escritor. Escreveu um livro sobre a Palestina intitulado “Terra de onde emana Leite e Mel” do qual não sobrou nenhum exemplar.

Escolhido pelas características da sua personalidade para aquele trabalho permaneceu na Palestina por 4 anos, de onde mandou também reportagens para a imprensa e teve de deixar aquele posto por que contraiu uma febre maligna, razão pela qual retornou para a terra natal.

Minha mãe Emilia Kanzberg Andermann era filha de madeireiro, homem grande, forte, querido das mulheres, dado a bebida e a dança do sabre e outras extravagâncias.
Ela possuía uma bela voz que me fez lembrar a da Janete MC Donald. Apaixonou-se por aqueles lindos cânticos, converteu-se ao evangelho, foi batizada, mas, por que contrariou a opinião doutrinária Luterana de seu pai, foi expulsa de casa e deserdada. Mudou-se para Riga, foi acolhida pela Comunidade Batista, trabalhou e fez um curso noturno de Administração do Lar – com noções de medicina, primeiros socorros e parto. Sabia identificar pelos sintomas, as doenças endêmicas tais como: crupe, sarampo, coqueluche. Gerou 6 filhos, sendo 3 homens e 3 mulheres, que todos cresceram e alcançaram a velhice, com exceção do Teófilo, que faleceu nos Estados Unidos.

Os meus pais casaram na Letônia onde tiveram dois filhos, os outros quatro nasceram no Brasil. Enquanto ainda na Letônia o meu pai cooperava com a Junta Batista como missionário itinerante a minha mãe o acompanhava implantando escolas dominicais.
Quando ele contraiu pneumonia provocada pelos rigores do clima nórdico, para facilitar a sua convalescença num clima tropical, a Junta Missionária Batista o mandou, junto com a família para o local que já foi mencionado.

Vale dizer que na mesma época, somente um pouco antes também veio para o Brasil como Missionário o Pastor Klavin designado para Ijuí no Rio Grande do Sul, o pai do eminente professor e médico Dr. Alexandre Klavin, diácono recentemente falecido, da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, que era nosso parente afastado.

Muito bem! Então a família do meu pai cruzou o Oceano numa viagem de vapor até Laguna, de lá pegou o trem da Estrada de Ferro D. Teresa Cristina até Orleans e depois num carro de bois foram levados para o novo lar em Rio Novo.
Vizinha, distando cerca de 12 horas a cavalo, havia uma outra colônia Leta de Mãe Luzia onde também havia uma dezena de famílias, que às vezes se visitavam. As terras destas colônias eram pouco férteis e ficavam longe da civilização.
A aventura desta imigração consistia em duas motivações:
1ª a espiritual: ٠formar um grupo de Batistas coeso onde uns eram vizinhos dos outros sem a interferência de doutrinas estranhas para abalar a fé;
٠evangelizar os habitantes da terra para convertê-los a doutrina Batista com mesma finalidade que tiveram na Rússia, evangelizar as mentes no intuito do progresso material.
2ª a material: ٠posse e ocupação de uma gleba de terra em seu nome que pudesse ser transmitida por herança aos filhos, aspiração impossível na Rússia.
O meu pai veio com a dupla missão: – ser o professor da escola primária para alfabetizar os filhos dos imigrantes; ser o Pastor da comunidade Batista. A minha mãe cooperaria na organização da escola dominical e ajudaria na prestação de primeiros socorros em virtude dos seus conhecimentos de medicina; fazendo partos, na ausência de uma outra alternativa melhor.
A Igreja Batista Leta do Rio Novo estava edificada na encosta de uma elevação [Ao pé da encosta e não na encosta] onde em cima havia o cemitério da comunidade.
Descendo do Templo uns 20 metros adiante para uma ravina havia uma fonte de água cristalina que jorra até hoje [Eram bem menos de 20 metros, talvez uns dez metros. Era chamado de “Avotin” isto é a pequena fonte. No meu tempo tinha sido feito um muro de pedras onde tinha sido introduzido um tubo de ferro de aproximadamente 1. ½” por onde a água escorria de uma altura de 50 centimetros. Também eram de pedras o leito e as calçadas de ambos os lados onde a água caia. A parte superior era fechada com uma grande pedra chata. Aos domingos era trazido um copo para uso comunitário e que se destinava a mitigar a sede dos seus membros] e também para lavarem os pés, calçarem as meias e os sapatos que traziam pendurados no pescoço enquanto vinham descalços pela estrada enlameada que destruía o calçado [Era sim pela economia, mas também pela dificuldade de andar no pântano, a pronúncia era sem o acento. Pois se alguém arriscasse a enfrentar lamaçais de palmo ou mais o calçado ficaria preso no fundo. Naquela época não existiam as botas “Sete Léguas”.]. Faziam isto para assistir ao culto dominical descentemente trajados e com os pés calçados. Terminado o culto e depois o ensaio do coro que duravam até as 14 horas, descalçavam os sapatos, davam nó de laçada nos seus cadarços, penduravam-nos novamente no pescoço e voltavam para as suas casas.
Era uma medida de economia que acabava saindo caro por que a anquilostomose, verme que penetrava pela planta dos pés e depois se localizava no intestino, trazia uma doença que se chamava “amarelão” deixando as vítimas exangues e até matava; isto antes do Monteiro Lobato ter escrito o “Jeca Tatu” e Rockfeller destinar uma verba para a erradicação desta moléstia no Brasil.

O meu pai como Professor deve ter sido muito eficaz. Lembro-me que um ex-aluno me contou que havia aprendido com ele a calcular na cabeça a grande tabuada que se destinava à multiplicação de fatores de dois dígitos.

Não tenho nenhuma notícia sobre o pastoreio do meu pai exercida naquela Igreja por mais de cinco anos. Creio que com o passar do tempo ele foi esmagado pela frivolidade daquela congregação e não era para menos, pois todas as horas do dia eram poucas para cultivar aquelas terras magras que se esgotaram com as primeiras colheitas. Com a chuva o solo ficava lamacento por que por baixo havia uma camada de carvão de pedra, conforme foi descoberto mais tarde e então era necessário duplicar o esforço para arrancar dela os meios de subsistência para uma existência digna, posto que aquele solo era impróprio para ser arado e assim tudo era plantando a custa de ferramentas manuseadas pelo braço humano.
Desta época na minha memória ficou guardado um sonho que o meu pai contou várias vezes. Neste sonho ele viu um homem pálido pregando no púlpito daquela Congregação Da Igreja Batista de Rio Novo, mas todos aqueles membros cujos nomes ele mencionou, mas que o tempo apagou da minha memória, estavam distraídos conversando entre si não lhe dando a mínima atenção.
Então o homem pálido que pregava naquele sonho lhe dissera: “Este mundo se acaba e a eternidade se aproxima e esta gente não quer ouvir falar de Jesus Cristo e tu Carlos, vai e diga isto para eles”.

Foi naquela época que começou a expandir-se pelo mundo a doutrina de Pentecostes, vindo até o meu pai da Alemanha e dos Estados Unidos e ele se deixou se empolgar por aquela doutrina que vinha divulgada em revistas artisticamente ilustradas em cores e impressas em papel da melhor qualidade. Em tese eles insistiam que na Trindade Divina o maior peso devia ser dado ao Batismo pelo Espírito Santo; Pentecostalismo do qual o meu pai passou a ser maior divulgador pela tradução daqueles textos.
Destacou-se principalmente a doutrinação de uma tal de Emmy Mc Pherson, uma senhora muito bonita nos retratos, que muito especialmente empolgou o meu pai. Ela era uma grande líder da seita nos Estados Unidos onde possuía um gigantesco templo. Anos depois li nos jornais a noticia de que ela havia sumido. Surgiu a hipótese de seqüestro para extorsão de um resgate por que a seita tinha muito dinheiro, mas em noticiário posterior ficou esclarecido que na realidade ela fora encontrada num Balneário em companhia de um playboy, viciada no uso da morfina.

Certamente o meu pai contou aquele sonho na Congregação e foi mal interpretado, insistiu, não foi atendido desligou-se da Congregação Batista e mudou-se com a família para a Colônia Leta do Rio Mãe Luzia, não mais como Pastor Batista e Professor, mas como inflamado divulgador do Pentecostalismo [É uma pena que os historiadores que escreveram a história da igreja Assembléia de Deus não mencionem este fato].
Continua…

Agradeço a Gramática Inglesa que você me mandou.| De Luzija Purim para Reinaldo Purim – 1925 –

(Outra carta sem indicação do ano)
Rio Novo 19 de junho

Querido irmãozinho! Saudações!

Eu recebi a tua carta escrita em 16 de maio já há bastante tempo e por ela muito obrigada. Eu já poderia ter escrito a resposta antes, mas agora não mais estamos indo toda semana para Orleans, porquê a manteiga não é bastante para vender e dai a gente também não vai ao correio toda semana, você não vai tomar por mal eu ter feito esperar então agora vem à compensação porquê terei mais notícias para relatar e provavelmente a Olga também escreva e assim você terá bastantes coisas para ler.

Agradeço pela Gramática Inglesa que você me mandou. Recebi no dia que eu mandei a carta escrita no dia 23. Você já a recebeu? Você me pergunta como eu estou indo com os estudos. Eu realmente para estas coisas não tenho tido oportunidade de chegar perto, pois durante o dia inteiro trabalho na roça e a noite ou eu fio a lã ou teço meias. Este ano as meias estão bem valorizadas, pois os negociantes em Orleans estão pagando 4$000 o par e outros lugares estão ainda mais caras.

Recebemos os medicamentos que você enviou através do Vitor [Vitor Stawiarsky] e por elas muito obrigado. Este portador não tivemos chance de encontrá-lo, pois ele foi embora muito rápido. Quando fomos procurar, ele já tinha ido embora. Estes remédios ainda não foram utilizados e por isso pedimos que por agora não mande mais porque a Olga está agora se tratando com remédios indicados pelo Stawiarsky [Etienne Stawiarsky ] e por não poder misturar tudo pedimos que não fique gastando o seu dinheiro com remédios e para as suas próprias despesas poderá ficar sem dinheiro nenhum.
O tempo agora está chuvoso e toda semana ficou nublado e esta noite está chovendo forte. Agora os atafoneiros que moem o milho para fazer fubá não podem reclamar de falta d’água para movimentar as atafonas e também a nossa calha [Uma calha escavada com enxó goiva em troncos de palmito Jussara, sustentado por forquilhas, trazia água de uma nascente para próximo da casa] começou a correr maior quantidade, pois até a pouco mal pingava. Geadas tem havido em algumas manhãs, mas aqui elas não queimaram nada.

A festa do piquenique [Não pudemos inferir a que feriado se refere este piquenique] caiu em um dia chuvoso, tinha pouca gente. A tia Maisin antes da Festa esteve em Mãe Luzia e na volta trouxe consigo o Arthur Abolin sobre o qual já escrevi algo na outra carta. Ele ainda está por aqui. Ele tem a fisionomia semelhante ao Alex Klavin, muito parecido mesmo. Agora ele está hospedado na casa do Willis Slengmamm . Ele tem dirigido diversos cultos na igreja, muitas pessoas estão muito interessadas e acham que ele não deve ir embora antes da volta do Stroberg e outras pessoas já acham que não vale a pena ficar ouvindo. As suas prédicas são longas e se o relógio não bater as 12 horas, ele não saberia a hora de terminar. Os sermões não tem um título ou texto base. Um é igual ao outro. A chamada é sempre a mesma é que nós os escolhidos temos que orar mais em busca da plenitude do Espírito Santo, nós temos que estar vigilantes etc. Somente não prega o arrependimento ou conversão dos pecadores, as mensagens são sempre as mesmas: que o tempo da misericórdia está chegando ao fim e que os escolhidos devem se aprontar para a chegada de Cristo. Você escreve que soube que os pentecostais estão fazendo propaganda, eu pelo menos sobre línguas estranhas não tenho ouvido, pois é possível que eles têm estas manifestações em suas próprias casas porquê na igreja eu nunca vi.

Na 1a. Festa do Verão [Ascensão do Senhor cai no verão no hemisfério norte] dia estava muito chuvoso, mas na 2a. da Festa [Oitavas da Ascensão do Senhor] o tempo estava esplêndido e ouve um longo programa quase toda constituída de hinos e músicas. O dirigente foi o Abolin. O programa começou às 10,30 horas e terminou às 3 horas da tarde. Gente tinha bastante e também tinha vindo bastantes brasileiros de Orleans, mas para estes não foi lido nenhum texto nem cantado nenhum hino, como eles chegaram assim eles foram, viu como é, em outros lugares aqui ninguém vai pregar, e aqui eles vieram, mas nem assim, mesmo as pessoas que poderiam fazer algo nada fizeram e ninguém quer nada com nada.

Na semana passada recebemos uma carta do Andrejs, ele escreve que mandou uns papéis e desenhos para sua construção. Você os recebeu? O Jahnites agora está em Riga trabalhando com um sapateiro e aguardando oportunidade para entrar num Seminário. Eles próprios dinheiro não tem, mas esperam alguma vaga livre ou bolsa de estudos com o Freij [Líder Batista da Letônia] ou com o Fetler [Outro líder batista da Letônia], mas como nós aqui acompanhamos tudo o que acontece lá pelo “Kristiga Draugs” [O Amigo do Cristão – Publicação religiosa da Letônia] percebemos que o Fetler não tem escola nenhuma. Ele anda viajando e coletando dinheiro e planejando abertura de um Seminário ou uma Escola Superior. Os nossos parentes sempre tiveram o Fetler em alta conta e ainda hoje acreditam piamente no que ele diz.

Os remédios para “mal da terra” [Ancilostomíase] ainda não recebemos, mas é possível que estejam no correio em Orleans.

Bem por hoje chega de escrever e é possível que você não tenha tempo de ler e se esta carta chegar enquanto você tiver ido a “Chautaqua” [Acampamento Anual Batista] então ai mesmo que você vai demorar mesmo a ler esta carta devido ao seu muito trabalho.

O genro do Farmacêutico é o Jorge Moures e ele próprio quer te escrever.

As tuas lembranças foram entregues a todos. A senhora Klavim está quase totalmente recuperada. Escreva bastante para mim dizendo como estás passando.

Muitas lembranças de todos de casa e eu disse no começo que os demais iriam escrever também, mas todos ficaram com preguiça e nenhum quer mais escrever.

Assim fico aguardando longa carta de resposta.
Luzija

…acho que para o Rio Novo ainda não nasceu um Pastor… | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim – 1923 –

Rodeio do Assucar 12 de Setembro de 1923

Querido Reinhold

Saudações!

Estou vagando pelo vales do município de Orleans.

Exatamente como “hóspede e desconhecido”. Entre os crentes existe paz.  Ou aparência de paz. Tudo corre na mesma rotina de sempre. Sábios, orgulhosos e convencidos – duros fariseus.

Ontem eu dirigi um estudo sobre Evangelismo.  Mencionei o Seminário, o velho Karklim levantou e fez um longo enunciado contra o Seminário e os Seminaristas fechando a sua fala dizendo que o Seminário erra ensinando demais os seus alunos e nenhum deles aceita trabalhar no interior e todos ficam nas grandes cidades. Que a Igreja de Rio Novo está cansada de sustentar o Seminário e os seminaristas por 32 anos e não recebeu do Seminário um pregador para a Igreja de Rio Novo. – Eu respondi que a Igreja devia escrever para o Seminário reclamando. – Depois pensei para cá comigo mesmo; acho que para o Rio Novo ainda não nasceu um pastor para esta Igreja.

A mocidade está trabalhando diligentemente – Penso que até Novembro já possa ter mudado para Laguna.

Você não virá nas férias descansar em casa?

Daqui eu irei para Mãe Luzia e daí para Rio Branco, Porto União e então para casa.

O teu pessoal está se queixando que você não tem respondido as cartas no mesmo ritmo que eles escrevem.

O agente dos Correios é o Alfredo Balod, considerado por todos como ladrão que todas cartas escritas em leto ele abra para ler.

Com sinceras saudações

Teu

Carlos Leiman

[Escrito na lateral]

Laguna  – 18/8/23 [está errada a data] Não foi possível deixar no correio em Orleans porquê lá o agente é o Alfreds Balod filho do Germano que segundo as informações ele abre todas cartas escritas em leto  e rouba os selos das cartas, por isso trouxe a esta carta até aqui. Em Rio Novo tudo bem. Espero em Novembro mudar para cá. Todos querem inclusive eu. – Carlos – Escreva-me a Paranaguá.

 

[Nota do Tradutor: Estas acusações precisavam ser comprovadas, para não incorrer que a acusação toda seja intriga da oposição.]

 

 

A minha inteligência se torna escassa para administrar esta situação, | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim 1923

Paranaguá 15 de março de 1923

Caro Purim

Saudações

Não tenho te escrito mais, também para aos outros não tenho escrito escudando-me na absoluta falta de tempo, na preguiça no ócio e na indolência e também no cansaço total que não me deixa escrever cartas… , pois eu já tenho escrito tantas cartas… Até quando vou ter que escrever mais cartas???.

O tempo aqui está muito quente e chuvoso. Trabalho eu tenho de mãos cheias. 8 Igrejas e uma escola para dirigir e a semana tem só 7 dias. A minha inteligência se torna escassa para administrar esta situação, então como vou tomar conta do demais?

Como você sabe, a minha mudança para Santa Catharina não deu certo. As Igrejas daqui não deixaram sair mesmo. Santa Catharina sem mim. Algumas acho que não me queriam. Faz muito tempo que não recebo nada de lá.

Você já encontrou o Alípio Xavier? [Alípio Xavier Assumpção – Foi pastor, jornalista e escritor no Paraná – A minha sogra Iza Xavier Corrêa era irmã dele. Por parte de minha esposa Edith Xavier Purim, ele era também meu tio.]
Ele conhece a minha vida e a minha luta.

O S. Sprogis e o J.J.Junior ainda estão no Seminário? E o J.Klava? Neste ano há muitos novos seminaristas? Dizem que São Paulo está se enchendo de letos.

Você sabe se seus tios também vieram? Nós aqui ainda estamos vivos graças a Deus.

Almejamos um ano de vitórias em seus estudos e aguardamos notícias destas bandas.
Seu
Carlos Leiman