Turma de Reynaldo Purim no Rio de Janeiro, 1918

Turma de Reynaldo Purim no Seminário Teológico Batista do Rio de Janeiro, em 1918.

Enviado como lembrança de Natal para a família em Rio Novo (Janis, Lisete, Olga, Lucia e Artur), com data de 25 de dezembro de 1918.

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Pelas ruas catando cadáveres | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 18 de dezembro de 1918

Querido Reinold!!

Recebi no dia 14 de dezembro a tua carta escrita no dia 28 de novembro; muito obrigado por ela. Fazia já bastante tempo que não tínhamos notícias suas, e por isso não sabíamos onde tinhas ficado nas férias. A carta de 18 de novembro foi extraviada, bem como a de 7 de outubro. Naquelas pode ser que tinhas informado onde estavas durante as férias, mas elas não chegaram. Ainda bem que agora já sabemos.

Eu não escrevi nenhuma carta, só mandei um cartão postal no dia 13 de novembro. O cartão postal que você mandou no dia 5 de novembro também recebemos. As cartas provavelmente se perdem, pois diversos navios não foram autorizados a entrar no porto de Laguna por causa de muitos passageiros com a “doença” [gripe espanhola]. Então, não admira que tantas cartas ficaram extraviadas.

Nós estamos todos com saúde. Ninguém de nós pegou essa doença. Aqui no Rio Novo alguns pegaram a gripe e em Orleans alguns já morreram, mas entre os nossos ninguém. Alguns tem tanto medo não saem da sua propriedade para não pegar a doença, mas eu vou freqüentemente a Orleans e não peguei nada.

Semanas atrás os Grikis estavam doentes, mas nada sério. O velho Sommers está muito doente, mas não com a gripe. Então a Luzija mandou papai fazer o caixão. Papai ficou lá nos Grikis o dia inteiro e a gente ficou preocupada pela possibilidade de ele ter pego a doença, mas nada. Bem que haveria de novo.

O Jurgis Karklim voltou para casa na semana passada, mas a grande máquina não foi vista correndo pelo Rio Novo; também luz elétrica não foi vista por aqui.

Ele contou que em Porto Alegre morre gente como moscas e que viaturas andam pelas ruas catando cadáveres — mais de mil por dia, o que impossibilita enterrar todos. Em São Paulo e no Rio também é igual; ele se salvou porque carregava um vidro de creolina junto ao nariz por todo tempo. Mas ele é muito papudo, muito prosa.

Bem, desta vez não tem nada de novo. Agora você poderá escrever bastante porque está de férias. Quanto a nós, não sei quando vamos chegar aos nossos “dias livres”.

Bem, onde você, mora e o que fazes? Quem te faz comida? O Inkis está lá? Este ano ele não foi para Nova Odessa? Em Nova Odessa este ano vai haver uma grandiosa festa de Natal com a inauguração do novo templo da igreja e a nossa igreja também foi convidada para as festas.

E o Jurka, não te escreve? Dizem que ele arrendou uma parte do terreno do Leeknim para plantar algodão. Dizem que o pessoal de Nova Odessa está muito feliz com a guerra porque o algodão está caro, mas eles que não se alegrem demais, pois com o fim vai baixar de novo. Então será como disse o Ernesto Sleengmann: quando baixar e não houver mercado, onde eles vão enfiar todo este algodão? Só se for para tecerem cordas para se enforcarem…

Negociantes de Orleans estão avisando que com os acordos definitivos do fim da guerra, tudo vai ficar mais barato. E os alemães realmente perderam a esta guerra. O que vai fazer o Grünfeldt. que dizem emprestou 100$000 Réis para a Alemanha ganhar a gerra? Pode esperar…

Você pergunta se estamos lendo os jornais. Eu e a Mamãe estamos lendo sim. Você deve renovar a assinatura para o ano que vem e pode mandar direto para o Rio Novo; se continuar assim, você redespachando, então poderia escrever recados pelas beiradas.

Você continua se correspondendo com o Ludi? Você sabe o que o grande “alemão” está fazendo agora?

Bem, agora chega. Vou aguardar uma longa carta. A censura devia parar de abrir as cartas pois a guerra já acabou.

Desejamos uma alegre Festa do Nascimento de Cristo e um Feliz Ano Novo.

Com sinceras saudações,

Olga [Purim]

Entramos com as foices | Lúcia Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto
[Observação em português no original]

Rio Novo, 18 dez. 1918

Querido irmão!!

Eu te mando muitas lembranças. Hoje também vou escrever. Eu estou passando bem. Hoje o tempo está magnífico e não está nem um pouco quente. Semana passada estava muito quente e também vinham chuvas.

Hoje terminamos de plantar milho e ao todo plantamos 17 quartas, uma quarta mais que no ano passado. O milho plantado no cedo já está capinado e está crescendo melhor que no ano passado, pois não está tão seco. A coivara nós queimamos no dia 14 de novembro e queimou muito bem; o fogo não passou para fora [para o mato] em nenhum lugar, pois vento não tinha e as samambaias mortas pelas geadas não estavam muito secas — por isso não foi necessário engolir muita fumaça.

Na coivara foram plantadas 5 ½ quartas de milho. Este ano a fase de plantações foi muito boa. Na Bukuvina a “voadeira” [NOTA: Vegetação rasteira que cresce no inverno em roças recém-colhidas.] nunca tinha crescido tão alta. Então entramos com as foices e roçamos e conseguimos queimar muito bem. Ficou completamente limpo e deu para quatro quartas de planta; se tivesse que capinar teria demorado muito mais.

Este ano nas plantações não tivemos nenhum brasileiro trabalhando para nós. Fizemos tudo sozinhos. Eles não trabalham por menos de 1$500 réis por dia e não se pode se esperar muito deles.

Bem, agora por hoje chega de escrever. Escreva bastante pois você terá os dias livres [nas férias]. Que morro Tijucas é esse que você subiu? A carta que você escreveu sobre isso não chegou e portanto não ficamos sabendo de nada.

Com amáveis lembranças,

Luzija [Lúcia Purim]

Os primeiros pepinos | Artur Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 18 dez, 1918

Querido irmãozinho,

A tua carta eu li. Muito obrigado. Estou indo bem, estou com saúde. Nós sempre esperávamos que você viesse para casa, mas agora não há o que esperar. Se você tivesse vindo poderias ajudar a levar o [porco] Ralschaku, que agora é grande gordo e pesado. Vamos ver quantas arrobas vai dar. Nós ainda temos 5 porcos na engorda para levar para vender este ano. Melancias ainda não estão maduras, mas nós hoje, — melhor, esta noite — comemos os primeiros pepinos. Bem, por hoje chega, amanhã vamos à cidade e por isso hoje à noite não poderei escrever muito.

Desejo um Feliz Natal para você. Aqui na Escola Dominical não vamos ter festa este ano. Quem dirige é o Leiman. O Arnolds foi para a serra [NOTA: Planalto serrano, provavelmente Urubici]. Então não viajaste para São Paulo. Nos Klavin tem aqueles filhotes de gafanhotos que comem todas as plantas das roças.

Com muitas lembranças,

Arturs [Otto Roberto Purim, aqui com cerca de 13 anos de idade]