Para onde foram os Letos de Rio Novo ? | Opinião da “Bacia das Almas” por Paulo Brabo

Horizonte perdido • na Bacia das Almas

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Horizonte perdido
Posted: 14 Nov 2015 12:28 AM PST
SONDRA. Ah, como eu queria que o mundo inteiro viesse para este vale!
CONWAY. Se acontecesse ele não permaneceria um jardim tranquilo por muito tempo.
Os protagonistas de Horizonte Perdido (1937), de Frank Capra, falando sobre Shangri-Lá

Uma pessoa singular nos pode revolucionar a vida, mas essa em geral é uma transação que leva tempo. Uma comunidade singular – o encontro com uma cultura e com uma solução de convívio diferentes das que conhecemos – tem potencial para nos derrubar e desarmar imediatamente.
É por isso que a literatura e a experiência recorrem com tanta frequência à metáfora do deslocamento como iluminação, e que o traçado do nosso crescimento interior pode muitas vezes ser desenhado a partir dos nossos relatos de viagem. Em parte saímos de onde estamos porque decidimos finalmente crescer, em parte crescemos porque finalmente saímos de onde estamos.
Grandes viajantes como Joseph Conrad, Jorge Luis Borges e Richard Francis Burton encontraram no trato com diversas culturas as ferramentas de empatia e de lucidez que se refletem em sua produção literária. Os profetas de Israel só foram aprender a compaixão no exílio, longe de casa, e no exílio intuíram que se Deus era para ser realmente grande não podia ser tribal como eles vinham acreditando: um Deus grande tinha de ser universal, e universalmente preocupado com a justiça social.
Viajar coloca em grande risco a rigidez da alma. Não é de admirar que, num mundo em que a experiência de deslocar-se poderia ser muito mais frequente e factível do que jamais foi, continuemos a inventar artifícios técnicos e legais que dificultem a experiência para todos. Não é de admirar que recebam permissão para deslocar-se com maior frequência pelo mundo somente aqueles que foram treinados para não se deixar iluminar pela experiência: militares e capitalistas.
Nada destelha a alma de modo mais radical, nada recalibra mais irreversivelmente o nosso giroscópio interior, do que sermos submetidos a um lugar em que a matéria-prima mais familiar e mais barata de todas, o ingrediente do ser humano, gerou como produto final uma cultura e uma comunidade diferentes daquelas a que estamos habituados.
Encontrar gente que vive de modo diferente tem o potencial de nos revelar, pela dádiva da perspectiva, o que até aquele momento permanecia oculto sobre o nosso mundo e sobre nós mesmos. A perspectiva cultural pode revelar a gente calejada o quanto o ser humano é maleável, e em alguns casos nos dará de volta o sonho de sermos maleáveis nós mesmos.
Quando caminhamos, o horizonte perdido pode em alguns casos ser recuperado.
Urubici: uma vida legítima
Ao longo da vida creio ter tido quatro grandes epifanias antropológicas, encontros equalizadores com sociedades em que o ingrediente familiar do homem encontrou modo de fabricar uma vida fora do comum – uma vida além e acima do que eu tomava não só por usual, mas do que tomava por possível.
A primeira dessas experiências aconteceu quando eu tinha oito ou nove anos, e meu pai levou-nos para passar as férias em Urubici, na serra catarinense. Aparentemente eu, minha mãe e minhas duas irmãs deixamos claro o nosso desagrado diante da ideia de desperdiçar o tesouro das férias num lugar que àquela altura não nos dizia nada, ainda mais que nos cabia a tarefa maçante de visitar (e, como acabou acontecendo, ficar na casa de) gente que só o meu pai conhecia.
Naqueles dias eu ainda era capaz de me enganar, porque ficou provado que eu estava muito errado tentando me manter longe de Urubici e dos amigos do meu pai. Ao longo das décadas fiz na verdade o que pude para corrigir com frequência essa distância.
Santa Catarina é por si só uma província singular, e não só por ter sido (mais do que qualquer outro estado do Brasil) esculpida por levas mais ou menos recentes de imigrantes europeus. Santa Catarina teve sua paisagem rural inteiramente desenhada por pequenas propriedades em vez de grandes – condição que muda a face de tudo mais do que a mão estrangeira dos colonizadores, e é pelo que sei única no Brasil. E essa cultura particular veio emoldurada por uma beleza natural intensa, variada e peculiaríssima.
Essas particularidades vinham todas acentuadas em Urubici, uma cidadezinha definida por uma reta impossivelmente longa ladeada por casas de sítio que subiam muito satisfeitas em direção a morros relvados crivados de macieiras. Essa rua comprida nascia no centro oficial da cidade, ao sul, e encontrava perpendicularmente no norte, quilômetros de sítios depois, a linha do rio Canoas, patrocinador do vale mais bonito e mais fértil que meus olhos já tiveram ocasião de beijar. Essa configuração geral era interrompida aqui e ali por outros vales cavados por rios de menor porte, sendo que o efeito era de tirar o fôlego: vales e esquinas de vales, rios e encontros de rios, matas de araucária e matas subtropicais, pastos reluzentes, várzeas férteis cintilando hortas verdíssimas, molduras de montanhas e molduras de cascatas, promontórios de verde e curvas de água crepitante, pontes pênseis longas e estreitas que vacilavam entre os pés da gente e correntes cristalinas, cercas de madeira que abraçavam pomares e jardins, pés-de-serra meio revelados pelo sol e meio ocultos pela névoa – e, tanto na cidade quanto nos sítios, casas de madeira infundidas da beleza, da legitimidade e da personalidade que os sonhos e os contos de fadas reservam para palácios.
Essa paisagem assombrosa, a meio caminho entre o vale alpino e a vereda tropical, era bela de um modo cru, penetrante e imediato que eu jamais havia experimentado e jamais voltei a encontrar.
Porém a beleza natural do lugar não foi o que me desnorteou em Urubici. Havia as pessoas, meu caro, as pessoas e seus modos de vida, e sobre eles seria necessário escrever volumes.
Chegando a Urubici ficamos no Hotel Andermann, onde dormimos sobre assoalhos de madeira e debaixo de acolchoados de pena enormes, brancos e pesadíssimos, mas no dia seguinte fomos arrebatados dali para a casa de amigos que se tornariam imediatamente e ao longo dos anos família, a nossa família em Urubici: Seu P., Dona C. e seus filhos.
Como resumir os nossos dias nessa casinha atracada entre macieiras? Meu amigo, a abundância de hobbit que experimentamos ali. Os pães, os bolos, os biscoitos, o toucinho do céu, as compotas, as tortas de maçã, o mel e a nata, o suco de ameixa vermelha. As refeições, a conversa, as risadas, o piquenique no alto do morro, a paisagem do Avencal, as maçãs do pomar – maçãs que eram tão abundantes que com elas vi alimentarem-se os porcos. Eu, Paulo Brabo, nesta vida e neste universo, derrubei aos porcos mais de uma baciada daquelas maçãs pequenas e ácidas, aquelas que me agradam mais do que todas as outras e que só voltei a encontrar no vale do Serchio décadas depois, porque simplesmente superabundavam e a Dona C. não permitiria que se estragassem e me deu essa incumbência, e os porcos davam testemunho de apreciá-las tanto quanto eu.
Aquela primeira casa do Seu P. e da Dona C. ficava do lado do pasto da casa do Mano, em cujo paiol a moçada vinha jogar pingue-pongue depois do culto de domingo à noite, depois de atravessar a pé o pasto escuro debaixo de um céu imaculado de estrelas. A meio caminho entre a porteira e a casa do Mano o caminho passava entre duas araucárias enormes, colunas de um templo romano em ruínas ou em construção. Atrás da casa uma muralha de mata e por trás dela uma curva resplandecente do Canoas, precisamente onde pesquei o meu primeiro (e único) lambari.
Com exceção do Seu P., que trabalhava numa oficina de motores na cidade, todos os amigos do meu pai que fomos conhecendo viviam na roça e da roça. Havia o caro Z., sua esposa Dona I. e seus três filhos, custódios da curva mais bela do mais belo dos rios que me atravessam a vida. Na varanda atrás da casa do Z. aguardava uma maravilha da graça e da engenharia: um tanque que se elevava do chão até a altura dos quadris e vivia cheio da água mais pura, sendo alimentado sem pausa – dia e noite aquela embaraçosa dádiva – pela água que descia do morro vizinho por um aqueduto suspenso feito de meias taquaras. Em 2009, quando fui a Urubici pela última vez, o tanque ainda estava lá, e o mesmo Z. lavou naquela água alguns pêssegos antes de estendê-los na minha direção.
Havia o Seu G. e a Dona M., que moravam mais longe da cidade e num lugar mais elevado. Três porteiras depois da estrada principal um retângulo de cerca se elevava da relva, a cerca abraçava um jardim e o jardim abraçava a casa de madeira de G. e M.
Naquela casa comi o melhor almoço da minha vida (temos até uma foto em algum lugar, preciso lembrar de rastreá-la), nós cinco e a família de G. e M. dispostos ao longo de uma mesa inteiramente tomada de ofertas culinárias, as paredes ao nosso redor repletas de prateleiras, as prateleiras repletas de compotas.
Atrás da casa o morro continuava a subir gentilmente e lá do alto, quando a elevação finalmente dava lugar à descida da roça, descortinava-se a mais cinematográfica vista do vale: as oscilações gentis dos contrafortes do morro no lado oposto, e lá embaixo o rio e a guarnição larga e plana de sua várzea fértil, inteiramente pontuada de plantações e pequenas propriedades.
Aquele foi o meu primeiro contato com gente da roça, e minha impressão não poderia ter sido mais vívida e duradoura. Eu não saberia articular isso desse modo naquele tempo e quase não consigo fazê-lo agora, mas naquelas pessoas havia de um lado uma dureza e de outro uma doçura e uma gentileza que eu jamais imaginaria serem capazes de viver juntas em meros mortais. Se me tivessem dito esses são os seres humanos originais, aqueles que você conheceu até agora são cópias funcionais, eu não encontraria como contra-argumentar.
Todas as pessoas que conhecemos em Urubici (essas que mencionei e tantas outras; outros cafés em casas de fazenda e outros jantares na cidade) tinham algumas coisas em comum. Primeiro, eram todos descendentes de imigrantes da Letônia. Muitos deles, como meu pai, tinham subido a serra em busca do clima mais ameno de Urubici (910 metros de altitude e cercada por morros muito mais altos) para escapar do calor da Colônia Leta do Rio Novo, no município de Orleans (130 metros de altitude e tremendamente quente).
Eram ainda todos amigos entre si, tendo a relação intermediada pela religião batista e pela etnia. E, ainda mais extraordinário, eram todos amigos do meu pai, que com dezoito anos de idade tinha se mudado de Rio Novo para Urubici, onde foi aprendiz de mecânico por algum tempo antes de tentar (e de conseguir) a vida em Curitiba. Ver tanta gente singular tratando meu pai como amigo interpretei como um claro e inesperado brasão nobiliárquico. E eu que até aquele momento acreditava que ele era um cara comum: meu pai fazia secretamente parte da nobreza e só fui descobrir entre seus amigos em Urubici.
Da perspectiva dos anos não encontro nada que condenar na minha admiração pelos modos de vida que encontrei no vale do Canoas e seus protagonistas. Ao contrário: eram pessoas vivendo uma solução de convívio extraordinária num lugar extraordinário – e, claro, achavam que tudo aquilo era muito comum.
Não creio ter entendido isso de modo completo naqueles dias, mas os nossos amigos de Urubici me transmitiram uma impressão de selvagem independência. Eram gentis e generosos, mas ao mesmo tempo implacáveis. Seu aperto de mão informava que não podiam ser domados.
Em retrospecto, é muito compreensível que se sentissem independentes. Tanto na cidade quanto no sítio, os urubicienses àquela altura dependiam pouco do mundo exterior. Um ou outro tinha televisão (creio que, naquela primeira viagem, nenhum) e telefone. Em suas casas o que vinha de fora eram coisas como utensílios, ferramentas, lâmpadas, livros, remédios, algumas roupas e em casos extremos uma geladeira. Todo o resto era provido por eles mesmos ou por produtores locais.
O pão que se comia era o que se fazia em casa, e o mesmo valia para doces, geleias, compotas, sucos, biscoitos, tortas e bolos, manteiga e nata. O mel, o leite, a carne e os ovos eram produzidos para consumo doméstico ou traficados entre vizinhos. A mesma regra – consumo local da produção local – valia para verduras, frutas e hortaliças. O pessoal do sítio trabalhava duro na roça não para ter o que comer, mas para com a venda da produção ganhar o dinheiro que comprasse o que não se podia produzir localmente. Viviam no século vinte com a integridade de colonos de um filme de faroeste.
Não tenho como condenar o Brabo de nove anos de idade por concluir que caminhava entre semideuses. Aquele modo de vida vinha imbuído de uma legitimidade vital que não vi replicada no sertão do nordeste, na Itália ou na Austrália, embora tenham esses lugares cada um a seu modo contribuído para arruinar o meu cinismo essencial.
Às vezes suspeito que meu pai levou-nos a Urubici naquela ocasião para que pudéssemos admirar devidamente a façanha que foi ele ter conseguido sair daquele lugar: algo tipo vejam de onde eu saí e olhem onde eu cheguei. Meu pai, a própria imagem do self-made man, é muito capaz de ter pensado nisso.
Se era essa a sua intenção, no que me diz respeito o tiro saiu pela culatra do modo mais formidável, e ao longo dos anos meu pai foi entendendo isso. Incompreensível para mim, desde o primeiro instante, era alguém ter escolhido deixar aquele modo de vida para trás. Eu o queria adiante de mim.
Foto: Ramperto
Este relato foi postado na Forja Universal em 28 de maio de 2014

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História de Emílio Andermann 5ª Parte

História de Emílio Anderman 5ª Parte –

M E M Ó R I A S
De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

“Leiam também neste mesmo Blog o artigo escrito por Julio Andermann que está em “Crônicas Históricas com o titulo de” Meu pai Carlos Anderman”

EM 7 DE FEVEREIRO DE 1920

O Pedro Skoolmeisters perdeu o juízo, e este fato deixou sobre mim uma forte impressão. Desapareceu simplesmente de casa sem dizer aonde iria. Então indagamos dos italianos da redondeza que deram o rumo para onde ele teria ido.
Preparamos um grupo de cavaleiros e levamos mais um cavalo para trazê-lo de volta e saímos em busca do fugitivo. Alguém o havia visto perambulando pela estrada sem chapéu. Outro falou que a pouca distância ele estava caminhando em círculo em torno de uma árvore.
Encontramo-lo sujo, rasgado, barbudo. Interpelamo-no, mas ele não nos encarou. Então convidamo-lo para seguir viagem em nossa companhia e ele aceitou. Foi assim que trouxemo-lo de volta para casa e eu fiquei pensando a que situação um estado de alma pode conduzir uma pessoa.

MAIS REUNIÕES E PROFETAS

Depois que a comitiva que tinha ido a Ijuí e a Linha Telegráfica voltou da sua missão; aquelas reuniões assumiram um desenvolvimento ainda maior. Eles dançaram e pularam como tanta intensidade que o ruído era ouvido até pelos vizinhos distante; certa ocasião urravam e berravam que aquela casa mais parecia um hospício.
A profetisa Ida comandava: “rodopiam mais rápido, mais rápido”. Isto atraiu um grande número de curiosos que aumentavam de número a cada noite. Era um espetáculo.

SINTO-ME NA OBRIGAÇÃO de descrever melhor e com mais detalhes o seu comportamento na reunião de 3a. feira do dia 17 à uma hora da madrugada. Quem fala é Ida:
“Simbrasa tora branda, luraisa brode sambranda. O João raisa. Sombrosa ridata golgota. Zelma tu em breve iras para a margem do rio Sombranda lê brauzasse sembodaria salasisa. Porta lau Cristo lê sombra. Terezia, uai, uai etc. a terror vira e tu não resistirás – desate o nó para liberdade. Pátria vigara i lezia doloiana: abrandando: cristado Cristos golgató. Ridado ainda. Para vos ainda deixarão uma e outra coisa¹: aba: Em Golgotá terminará a fila. Quem quer ir para o golgota? Nas ilhas desertas ficarão nus, morrerão de fome. A noiva de Cristo sofrera, terá de enfrentar até a morte. Rodolfo pluntieti:: Zelma tropa :: Krastia leja tropa. Goltan perseguirá a Zelma. Goltan dirá: “Zelma onde está a tua Kristo”. Haverá lágrimas :: Komedan :: Lidle cairá, chegara o diabo para enganar. Lidy pensa: “será que isto acontecerá”? (ta lidy t – beikts). E depois comanda mais entusiasmo!
¹ eu copiei tudo de acordo com a sua pronúncia temeroso de torcer a verdade.
Agora Aleks sonpá falará: Agora é ele quem fala: (eu apenas vou descrever os sons, as sílabas) Breve teremos sala, aparecerá o trio cristal. Siosa trino sama samadá, doida si brindola rikasta parada bra dalusi :: tária :: Este raisi prepara-te rápido. Saítes naks sambatei, tos citus dividei Kristus salasis. Ijuí Schosard, Korkans, galikis, Martins, honrams, mintoms, gimans, shirilaharts, ricarta (pensar em Ricardo Inkis) mova, osesoda. Na França serão crucificados, no Brasil mandarão para a Ilha. Te mandarão. Tubara sikarta traks. Rudolfs traks! Wel ainda não são todos; eles não são filhos de Deus. Morrerão, morrerão tolota tirak. Kristils, schursons, schorks. Baltak, vairak. Trim terá que ir. Rodolfo ainda mais. Ida zau, zau zau subrundú, tu 2 não.
Agora o Rodolfo tem de vira para o centro, comanda Ida. Agora fala Rodolfo (mas muito depressa) “Mais depressa no nosso meio Cristo vem! Kiri siri tovo to, kiri vara vai. Quem está amarrado aos bens terrenos? E quem não está! Quem sofreu pelo amor de Cristo? Não será a noiva de Cristo que sofrerá? Mais depressa, não temos tempo, mais clareza. :: Zigis manta::Rasies! Todos, todos na guerra de Cristo; quem sofrerá? Apenas os limpos. Aonde estão? Para onde mandará? Eles, eles booank vem como lobos. Os lobos vem em pele de cordeiro – atenção ! Comprai enquanto há tempo! Mas onde? Onde há fila? Eles mesmo se purificam. Ë necessário louvar mais”!

QUARTA FEIRA, A 1 HORA, DIA 18

A Ida da ordem para entrarem em fila e depois ela mesma fala: “Simbrasu lau raisa! Kristu selasombre! Lasa nongada in bara Kri. Selembra. Mana sida se bara krastos. Bara, bara Karstak. Lisa Kri sembra. (Então a Ida canta tomada do Espírito, bate palmas, arrasta os outros companheiros na onda no seguinte canto, dentro de um grande tumulto)”.
A Ida canta: “Aleluia zerasa, aleluia Barasá”. Para marcar cada compasso ela bate com o pé com força no assoalho e conduz todo este escândalo no ritmo de uma marcha. Com as mãos ela agita o ar, com a cabeça um pouco para trás enquanto curvando a espinha no mesmo sentido. Cantando ela muda os acordes em várias tonalidades e muitas vezes nem canta, ela ronca cada batida de compasso: há! Há! Há! Etc.
Passado um momento ela clama dentro do compasso: mais rápido! Rápido! rápido; quem não se apressar mais tarde chorará – é preciso que fiquem tontos. E desta vez eles corriam em círculo como um redemoinho de vento e a Ida era a animadora… e eu fiquei com muita raiva desta profetiza e resolvi, mais tarde falar com ela e exigir uma prestação de contas da sua conduta.
Os outros também cantavam. A minha mãe clamava: “Honra a Jesus, Gloria a Jesus; o Alexandre louva: “baisará al bairará, al selará.

A IDA ME AMALDIÇOA

Eu estava trabalhando quando a Ida de mim se aproximou, deu um sorriso triste e pergunta-me: “Como aconteceu isto que você deixou de entrar na roda”? “Tenho muitos motivos”, eu respondi; “será que por causa disto serei barrado no céu”?
Ida respondeu: “Você vai ver que esta atitude te afastará de Deus e nunca mais você terá paz na sua vida. Você pensa que vai encontrar paz e tranquilidade na Escola, mas lá você não a encontrará. Nunca mais você terá sossego em qualquer parte, nunca deixará de sentir remorso por causa da sua conduta”.
Então na minha imaginação eu via aquela mulher obrigando os meus familiares a participar daquele ritual louco e o sangue me subiu na cabeça e ainda hoje me lembro de que ela terminou esta entrevista exclamando: “Você bem sabe qual será o seu fim”!
Então com toda a calma eu encerrei esta entrevista dizendo:
“IDA, AGORA EU SINTO A PAZ”!

QUINTA FEIRA, DIA 19 A TARDE

Hoje à noite tudo aconteceu mais louco ainda. Outra vez dançaram aquele balé selvagem. A Ida gritava mais rápido, mais rápido; correndo ela mesma como se fosse um raio em torno do círculo. Quando terminou a dança então ela falava entrecortadamente por falta de ar profecias sem qualquer sentido: “Amanhã três vezes. O Filho perdoa, mas o Pai castiga. O Pai castiga, mas o Filho perdoa. Se estais envergonhados perante os homens então o Pai se afasta de vós. Não há mais tempo. O que foi feito, foi feito. Eu ser fraco – não serve de desculpas e este deve ir para o centro para orarmos por ele, durante três dias. Apertai a roda (o círculo) cada vez mais por que em breve seremos proibidos de orar, louvar. Mais depressa va, va, va, mais depressa. Haverá muitas lágrimas. Seremos perseguidos e parecerá que Deus nos abandonou e então Deus virá. Purificai-vos e louvai todos os dias. A esposa de Cristo está no círculo”. Aba, vai, vai, vai vai – e toda a congregação grita e geme em conjunto as mesmas sílabas.
Depois Ida (falando em voz natural) convidou todos a entrarem no meio do círculo para confessar os pecados antigos e manifestou um pensamento de que aqueles irmãos da Linha Telegráfica eram muito mais devotados.
Dito isto ela não deixou mais ninguém ir para as suas casas e durante vários dias ficaram confessando aqueles pecados.

LOUCURA

A noite chegou muita gente. Vieram italianos, alemães, letões. Também compareceu um médico. A varanda ficou lotada de povo. Eles pisaram os canteiros de flores, quebraram os vasos de flores e transformaram o jardim em chão pisado. Os garotos quebraram as venezianas para melhor observar o espetáculo. Mas inesperadamente a multidão foi tomada de pavor e precipitou-se para deixar o local. Abrimos os portões da varanda, mas esta abertura era insuficiente para dar vazão a tanta gente. Tentamos acalmá-los, mas não foi possível e isto nos deixou preocupados. Alguns estranhos portavam varas, outros deram tiros, gritavam. Mas os espiritualistas naquela fila em círculo avançaram dançando e pulando avançaram em cima daqueles expectadores surpresos que fugiam apavorados gritando: “possessos do demônio, possessos do demônio”. Alguns ameaçaram: “Vamos entrar a bala”.
Eu estava estarrecido de medo. Isto tudo me pareceu uma cena terrível. A Ida tinha a mão machucada sangrando, que ela somente enrolou depois do culto.
Dispersa a multidão eles voltavam sorrateiramente e jogavam abóboras dentro da sala. Esta noite também trouxe más consequências para mim. No dia seguinte o meu avô ralhou comigo e proibiu-me a colocar os pés na sua casa. Ele pensou que o João Klava, com o meu conhecimento organizou este bando. Eu chorava desesperadamente e procurava justificar-me. (esta parte vou continuar depois).
Numa outra noite os alemães se reuniram e apedrejaram o telhado da casa quebrando telhas.
A fala do Alexandre: Em agosto Rodolfo vai ler. Três ligações – limpas, limpas. Breve haverá ligações. Tirak – mandará 3 para as ilhas, três por três de cada vez. Te prepara, te prepara, seras mandado, seras mandado! Breve estará em casa (ele não consegue mais se expressar, ele sopra pelas ventas como se fosse um touro) há, há, há etc : : mais depressa : : prepara-te rápido, vai imediatamente (toda congregação uiva como lobos).
A fala agora será de Rodolfo, mas a Ida intervem: “Não você mesmo ainda falará, mas o Alexandre perdeu o fôlego”.

Agora que dá a ordem é a Ida e comanda: Fale Rodolfo. Ele então vai para o centro da roda e diz: “Tara tira na tora, lai taba vorsti. Vora para toro, kur santa bosa si. Labo barata vorta sara marta munu tikai bara. Lora tabovo toro, tikai tirak, 2, 2; te, te, 2, 2 varava siki karamara. Te, te, rinda. Te guli, guli :: Buri:: eles tem os bens terrenos :: Mandará:: – mandará outra vez – agora Ida fala tu mesma, diga que é isto Ida. Te, te, 2, 2, Rodolfo Ida, falem, falem”.
A Ida então uiva enquanto os outros oram para que fique tudo esclarecido.
Agora quem fala é Ida; os outros oram para que tudo fosse revelado com clareza. A Ida continua: “Com três ligaduras amarrados; :: neste ano:: lasas. Três liames amarrados. Ricar Glavolá Rio rá. É necessário que sejais prontos, mas ainda não estão.
Apronta te Lidy! Em volta há falsidade, bruxaria; aqui em volta não há ninguém. :: Prepara-te para não ficar no canto :: Irão para as ilhas. Zelma (Mely) vá para a margem :: calorosa::, não deixe ninguém entrar. Orai muito mais, se não, então quando houver perseguição fugirão. Fiel até a morte, este novo corpo será de Cristo. O demônio agredirá, torturará e tentará.
Zelma vai embora mais depressa. As duas lágrimas de Lídia (então ela geme ai, ai, ai). Os dois da Lídia permanecerão – em lágrimas vos não vira. A Ida então pula de quatro batendo as palmas no chão gritando: bro, bro, bro etc. Todos do grupo estão atentos. Ida continua: Elza, mais perto da Cruz de Cristo, por que lá todos pertencem ao Ricardo. Quem não quiser ouvir, este ficará nas trevas! Em todas as coisas obediência. Se tiverdes alguma coisa a revelar então falai com toda a fé aconteça o que acontecer. Para a margem, mais rápido embora chorando. Lutai, louvai! Louvai! Louvai! (agora todos estão dançando em círculos na roda) e ela anima mais rápido mais rápido, etc”.

A VISITA DE JEKABSON – NO DIA 15

Desde o momento que o observei, no mesmo momento imaginei que através da sua oração me advirá algum benefício. E foi o que aconteceu de verdade.
Na minha escura noite triste e cheia de dúvidas amanheceu uma brilhante alvorada ensolarada.
Ele me convidou para eu ir junto com ele para a Nova Odessa em São Paulo; lá eu poderia ir a escola para estudar. Sem qualquer demora aceitei o convite e declinei aquele convite de João Klava para ir a Paranaguá. Tenho a impressão de que ele não gostou muito; mas eu louvava a Deus por que ele ouviu as minhas preces e abriu este caminho para mim, uma oportunidade sobre a qual não havia nem sonhado.

OS PROFETAS VIAJARAM OUTRA VEZ PARA IJUI

E outra vez eu os conduzi para Campinas de carro. Era um tempo chuvoso e a estrada estava cheia de lama. Observei que Rodolfo e a Ida sempre ficavam juntos. Conversei com Alexandre sobre alguns assuntos triviais.

MÊS DE MARÇO

Mal os profetas haviam viajado todos aqueles excessos desapareceram e as reuniões se realizavam em ordem. Os meus pais me presentearam com 300$000 (trezentos mil reis) de um dinheiro que receberam pela venda de uma terra para o Burigo para me ajudar nas despesas da viagem. Vendi também a parelha de mulas para o Ernesto de Rio Novo por 200$000. Depois ainda combinei limpar todo o pasto e ganhei mais 80$000.

MAIS UMA VEZ EM RIO NOVO

A tia Lina falou comigo que desejava viajar para Orleans onde consultaria um médico; se eu não poderia levá-la com três filhos, que assim nós também poderíamos assistir as festividades da Igreja Leta em Rio Novo. Eu concordei.
Outra vez gozei momentos de satisfação perambulando pelas montanhas daquele local.
O Filipe também nos acompanhou; ele havia me ajudado limpar o pasto e agora estava conduzindo as mulas que eu havia vendido.

POUCO ANTES DA MINHA VIAGEM

Meu pai tinha abandonado montes de velhos jornais e revistas e eu estava vendo se aproveitava alguma coisa.
Pela porta entrou Elza. Observei que estava se passando alguma coisa errada com ela. Então, chorando, ela me contou que abandonou aquele círculo por que não permitiram que ela orasse pelos pais dela. Eu a apazigüei, disse para ela firmar neste propósito e para ela não dar ouvidos ao que diziam os espiritualistas; para ela depositar toda a confiança em Deus e tudo sairá bem e que Ele não abandona aquele que humildemente pede a sua proteção.
Ela se tranqüilizou e foi convidada para ir morar na casa dos Books.
Já estava arrumando a minha mala de viagem com muita tristeza de ter que me separar da família.
O meu avô me quis demover desta viagem ele me aconselhou que eu viveria muito melhor cultivando as terras do meu pai, por que aqui, longe da civilização eu estaria muito mais seguro quando chegassem aqueles dias tenebrosos.
Com os 80$000 comprei fazenda e a minha tia Lídia e minha mãe costuraram o meu enxoval.
Embora isto estivesse rigorosamente proibido pelos espiritualistas a minha irmã Lídia também veio me ver as escondidas. Ela estava muito triste e cheia de dúvidas sobre aquela seita. Ela mostrou o desejo de me acompanhar.
Os meus amigos prepararam uma despedida onde a minha irmã Lídia também estava presente. Foi uma despedida triste. Amanhã Alberto nos conduzirá para a estação.

7 DE MAIO, SEXTA FEIRA AS 9 HORAS

Despedi-me dos familiares. O meu avô e a minha avó disseram que certamente não os encontraria mais com vida, e nos seus olhos brilhavam lágrimas.
O meu pai havia se ausentado (talvez propositadamente) a minha mãe chorava convulsivamente e no seu rosto pálido eu notei sentimento de dor pela separação do filho. A minha irmã Lídia estava alquebrada, ela não sabia o que fazer nesta conjuntura, e dando-me a mão em despedida disse que lamentava não poder acompanhar-me. Teófilo, Claudia e o pequeno Julio me acompanharam até a nossa casa antiga. Meu coração estava quebrantado, mas eu dominava cada lágrima para não influir na tristeza dos outros; para vencer tudo sem derramar uma lágrima, resolvido a comportar-me com tranquilidade e sossego.
De longe ainda observava Mãe Luzia ao atravessar as montanhas de Urussanga. Da minha vista ela desapareceu, mas o meu coração sempre lá estará onde moram os meus pais.
A minha viagem para Nova Odessa eu descrevi outro caderno. (próximo)

NOVA ODESSA 18 DE MAIO DE 1920

As primeiras impressões assim as descrevi:
Nova Odessa é um lugar bastante aprazível, ligeiramente ondulada em colinas e planícies que se poderia até afirmar que ela é plana. Quase não existem florestas, também não existem capoeiras, por este motivo pode-se observar o horizonte ao longe. O ar é puro, mas o que impressiona mais é a fertilidade do solo, embora numa observação superficial, tudo parece seco; dando impressão de que aqui nada cresce – mas cresce, e muito bem.

EM 23 DE MAIO

Fui admitido na União de Mocidade da Igreja Batista e no dia seguinte comecei a frequentar a Escola. Não pude participar de nenhuma classe por causa da minha idade, então estudei como ouvinte. Não conhecia as regras gramaticais. A língua inglesa parecia muito difícil; mas apesar destas dificuldades brevemente já estava no meio do curso e agora já estou na última classe. Fiz muito progresso.

Terminei de escrever este caderno em 2 de novembro de 1921. Com muito cuidado eu escolhi trechos do meu diário. Meu desejo é de que cada experiência vivida não caia no esquecimento por que “A VIDA É UMA ESCOLA”. Dos acontecimentos passados é formada a vida futura e vivendo alcançaremos o nosso desenvolvimento.

FIM DO PRIMEIRO CADERNO

História de Emílio Anderman 4ª Parte –

M E M Ó R I A S

De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

LEIA TAMBÉM EM “CRONICAS HISTÓRICAS” NESTE MESMO BLOG O ARTIGO “MEU PAI CARLOS ANDERMANN”

O TEOFILO COMO MENSAGEIRO

Isto aconteceu no dia 29 de junho, num domingo de manhã. Nós tivemos um culto muito demorado. Ainda estávamos orando a última prece quando o meu irmão Teófilo levantou-se e começou a olhar firme em volta. Até parecia que ele tivesse recebido notícias novas, edificantes. Ele sorria e ao terminar ele nos explicou que recebeu a incumbência de visitar a Igreja Batista para transmitir um recado. Todos ficaram admirados, os crentes se entreolharam e a minha mãe permitiu que ele fosse.
Rapidamente apanhou o chapéu e foi em frente, fechando a porta atrás de si. Depois Jacob Klava me contou o que havia acontecido: “Eu havia terminado o culto quando entrou o Teófilo que se sentou”. Terminado o último hino o nosso visitante se colocou em pé e indo lentamente para o lado da mesa disse:
“Hoje eu tenho de dirigir-lhes a palavra”.
Respondi: “fale”. Ele se aproximou da mesa apanhou a Bíblia eu folheava a procura de um texto. Finalmente se ateve no Apocalipse de S. João, leu alguns versículos e começou a exortar nós para que deixássemos os pecados. Eu respondi que isto nós já havíamos realizado. Depois ele falou sobre a próxima vinda de Cristo e nos lembrou de para que alvejássemos as nossas vestes e nos preparássemos para este acontecimento que seria em breve e que nós não teríamos acesso ao céu se não nos humilharmos perante Deus. Terminada a fala ele foi embora”.

MÊS DE AGOSTO

Todos os Letões, com exceção dos Pentecostais continuamos as nossas horas “de música e canto”. Também neste mês J. F. Frischenbruder nos começou a ministrar aulas noturnas pelas quais pagávamos 2$000 (dois mil reis) por mês.
O Silvestre trocou uma colônia de 25 hectares, por dois e meio da nossa terra, próximos a sua venda. Ampliei a cerca, aumentei a extensão do pasto, e abri uma grande vala para drenagem através da nossa colônia. Em 21 de agosto o meu pai tirou os meus irmãos da escola. Este passo me magoou sobremaneira.
A família de João Sudmalis mudou-se para morar em Mãe Luzia em 7 de agosto. Nós todos os patrícios fomos recebê-los na estação de Criciúma.

MÊS DE SETEMBRO

Os meus tios Karklis por parte da minha mãe, conforme notícias estão se desentendendo. Consta que a minha tia ficou tão nervosa que muitas vezes sofre de câimbras. Recebemos uma carta dele na qual diz que seria muito bom, se por uns tempos, ela pudesse viver em Mãe Luzia, por que a sua saúde estava abalada. Ela viria em companhia de Ernesto; mas em troca mandássemos a Lídia ou Mely para substituí-la na cozinha. Ficamos de acordo.
O tio Rodolfo resolveu viajar para a Linha Telegráfica, para visitar os pentecostalistas e assim conseguir alguma santidade; por que, depois que Strauss foi embora, nossa situação voltou a ser anterior. Como companheira de viagem ele escolheu a minha tia Lídia, que aceitou o convite com alegria.
Juntos tomamos o trem em Palmeiras; Rodolfo e Lídia com destino para Blumenau: eu e Melly para Rio Novo, onde ela ficou de cozinheira e eu Ernesto voltamos para Mãe Luzia.

MÊS DE OUTUBRO

Outra vez chegaram nuvens de gafanhotos que destruíram os nossos pastos e ficaram pulando em procura de um lugar para desova.
Eu e o primo Ernesto trabalhávamos com todo vigor limpando a terra na nossa nova Colônia. Neste mês também faleceu o filho do meu tio João Andermann que apenas teve alguns meses de vida.
O funeral foi dirigido pelo meu avô Ans, numa reunião muito solene; o meu pai e a minha mãe também falaram.
Uma tempestade destelhou a nossa casa.
O meu tio Rodolfo e a Lídia já retornaram de Linha Telegráfica e junto vieram 6 espiritualistas; a Ida, Zelma, o velho Strauss, o Alexandre com sua esposa e um irmão deles. Eles chegaram muito tarde de noite, pois haviam caminhado a pé de estação até em casa; voltaram enlameados, mas felizes por que finalmente chegaram a casa. Os Pentecostalistas já haviam terminado a reunião e este encontro também me deu alegria. A tia Lídia e o Rodolfo contaram coisas boas sobre esta viagem. O Rodolfo recebera o batismo do Espírito Santo e o dom de falar línguas. Também a tia Lídia acompanhou a dança, bateu palmas e também foi contemplada com o dom das línguas, mas em grau menor.

AS REUNIÕES

Agora não se trabalhava mais. Os cultos eram realizados diariamente com as tais manifestações que trouxeram os espiritualistas da Linha Telegráfica. Os nossos Pentecostalistas agora começaram com toda a seriedade, suplicar a Deus e clamar dele o dom destas manifestações extrovertidas.
A primeira reunião aconteceu no dia 15, sábado das 9 as 12. Eu anotei o seguinte: Não tive nenhuma intenção de encontrá-los. Deixei o culto depois das orações. “A profetiza então comandou: “em fila, em fila” então todos formaram um círculo, de cócoras batiam palmas de toda maneira cantavam louvores com ‘tra-la-la-la” em compasso. Passou me um frio pela espinha; por que o que eu presenciava pareceu uma desgraça. As preces, as orações foram sinceras, as línguas faladas eram espetaculares; mas aquela dança, aqueles pulos de louvar eram uma verdadeira loucura.

DIA 16 DE JULHO À TARDE

O culto foi iniciado cantando hinos, mas escolhidos principalmente aqueles que falam do amor de Jesus. Então tiveram início as preces, eles oravam a toda voz; principalmente as mulheres gritando histericamente. Em uma certa ocasião eu lhes disse que Jesus prometeu estar no meio daqueles dois ou três que se reunissem em seu nome; então não era necessário eles gritarem tanto; por que Jesus também ouve as orações silenciosas desde que feitas de “todo o coração”; ao que responderam: “sim, de todo o coração” e eu retruquei: “mas não de toda garganta”.
A Ida entrou para o centro do círculo para confessar os seus pecados; “durante a viagem algum marinheiro havia caçoado dela e ela lhe desejara o mal; em Florianópolis visitaram a Catedral – esta fora uma tentação visual; que ela era bastante forte para carregar a própria maleta, mas dera para o Rodolfo fazê. Depois penitente ela rastejou de membro em membro, osculando as mulheres e cumprimentava apertando e sacudindo a mão de todos; dizendo para cada um alguma palavra de animação ou conforto, como por exemplo: “permaneça sob a Cruz de Cristo” “louve com voz alta e em língua estranha”. Para alguns ela balbuciava sons estranhos, que respondiam da mesma maneira; então de novo a todos saudava: “siberai, samarai, Jeus simeri”. Continuando falar a língua estranha, ela mesmo traduzia o seguinte: “O diabo perseguirá o povo de Deus, zombará dele enganando-vos em nome de Jesus; isto tudo fará a poderosa força enganadora do diabo. Apenas os filhos de Deus serão os escolhidos; separados daqueles que são orgulhosos e não confessam os seus pecados. Muitos enganadores vão se fingir de anjos, mas Cristo vai vencê-los. Cada dia serão mais enganadores a ponto de serem difíceis de se distinguir. O anti-Cristo está para chegar e aqueles que não tiverem o Espírito de Deus não escaparão do castigo. Não tendo consciência do pecado eles não se confessarão e eles gemerão: “há, há, há” etc. Todos então pensarão que eles tem o Espírito de Deus, mas na realidade, enganados estarão se entregando ao diabo. Aqueles que não forem arrebatados sofrerão três vezes mais; serão desmembrados, fervidos em água e não terão para aonde fugir. Então vamos clamar para o Senhor enquanto temos fôlego – hoje! Hoje! Separai-vos do mundo.
A ordem divina é: “separai-vos do mundo! Não falais com ninguém que seja do lado contrário e não pensa como nós; nem mesmo com aquele que contestou com apenas uma palavra”. (Toda a assembleia clama “guado” e chora) “Louvai a Cristo” é a ordem de Ida e agora todos ficam de pé e dançam num bailado louco.
O culto depois do meio dia transcorreu sossegado por que chegou muita gente estranha para ver, mas que não pode entrar.
O culto da noite foi muito bem assistido por que vieram os Adventistas e os Batistas para ver este estranho procedimento. O velho Stekert pediu permissão para entrar. Então consideraram que muitos dos visitantes ainda não tiveram oportunidade de se definirem e o meu avô permitiu a sua entrada.
Todos entraram e sentaram nos bancos colocados ao longo das paredes. No meio da sala estava uma mesinha redonda sobre o qual ardia o lume de uma lâmpada de querosene, iluminando vagamente a sala ampla. Em torno da mesa se postaram os correligionários, abriram o hinário e cantaram. Muitos visitantes cantaram juntos, mas a maioria não participou por que a luz fraca não deixava ver o verso. Quando acabamos de cantar o primeiro entoaram ainda o segundo no que todos acompanharam com devoção; mas no fim do terceiro hino deu a louca na Ida. Ela gritava: “vai, vai, vai” e numa voz desnaturada urrava; gesticulava com as mãos pelo ar e com os pés, distribuindo coices e pontapés, agrediu os visitantes. Todos ficaram estarrecidos, todos foram tolhidos pela dúvida, medo e pavor. Ela estava possessa o seu rosto ficou roxo; ninguém havia esperado por um desfecho desta brutalidade. Foram tolhidos de surpresa e ficaram inertes; até os espiritualistas estavam surpresos. E neste estado de ânimo a Ida começou a gritar: “fora, fora, fora, etc”.
Então todos se levantaram ao mesmo tempo e correram na direção da porta atropelando-se, enquanto a Ida ainda amedrontava os retardatários gesticulando, agressivamente.
A Lídia Tereza, João Karklis, eu fugimos para um quarto; enquanto os outros lutavam para fugir pela estreita porta por que a Ida tentava pegar os intrusos pela garganta. No quarto, tremendo de medo e chorávamos de despeito e de vergonha. A Ida várias vezes quis derrubar a porta, mas nós a seguramos. Esta noite foi a mais tenebrosa que já passei na minha vida até hoje. Cumpre ainda explicar que a palavra “louvar” – queria dizer que os crentes em pé deviam pular sobre o assoalho, bater palmas com o barulho mais intenso possível.

A MINHA VIDA COTIDIANA

Esta foi a primeira e desesperada dor que eu senti na minha vida. A minha tia e o Ernesto voltaram para Rio Novo por que não queriam aderir ao movimento. A Mely que lá estava de cozinheira, regressou a convite da tia Lídia e aderiu ao movimento com toda a força do seu coração. Tudo isto me causava muita mágoa e descontentamento quando percebi que todos os meus aderiram a este movimento avassalador. Isto me deixava muito triste quando eu percebia que eles lutavam com todas as sua forças para alcançar um estado de graça imaginário.
Os ovos de gafanhotos já estavam abrindo depois de chocadas e os filhotes saltitavam pelas nossas lavouras e plantações que eu havia cultivado com tanta dificuldade. Durante a noite eu acendia fogueiras cuja luz os atraia e as chamas queimavam; como também cerquei as lavouras de velas para impedir o seu progresso. Tudo isto eu fazia sozinho por que toda a minha família passava o dia em reuniões de oração e de louvor, cuja alegria era demonstrada num bailado exótico e bárbaro batendo os pés no chão e batendo palmas. Mas fiz este sacrifício com toda a paciência.
Eu vivia aborrecido e magoado, sem qualquer esperança no futuro desejava ter morrido já há muito tempo.
A única atividade espiritual que ainda me interessava era a nossa “hora musical” e outras reuniões realizadas com frequentadores selecionados. Nós tivemos várias reuniões, deste tipo, com a finalidade de angariar recursos para os Letões necessitados destroçados pela guerra e conseguimos coletar 600$000 (seiscentos mil reis).

O MÊS DE DEZEMBRO

Os Pentecostalistas continuaram a ter as suas reuniões na mesma rotina. A tia Paulina, minha irmã Mely Zelma, Elza e o Teófilo receberam os dons das línguas e os restantes, que ainda não tinham recebido o batismo do Espírito, lutavam com todas as forças para consegui-lo. Estas reuniões se tornaram uma verdadeira loucura. Nelas todos gritavam, urravam e clamavam em vozes desesperadas.
Não consigo esquecer-se de um culto noturno no qual a minha mãe chegou a desmaiar de exaustão. Continuavam as reuniões naquela ampla sala da casa do meu avô. Entre aqueles que lutavam com todas as forças para conseguir aquele batismo também estava a minha mãe. Quando entravam em estado de transe e então começavam a dançar, eles empurravam a minha mãe para o centro do círculo e a Ida repetia com insistência: “tenha fé, não perca a coragem”. Quando a minha mãe ficou totalmente tonta, então se aproximava a Zelma Straus, segurava as mãos de minha mãe e ai ficou rodopiando; no entanto mamãe não resistiu por muito tempo, começou a cambalear e a outra não teve forças para ampará-la. Então ambas caíram no chão, mas ainda no solo ela rolava e tremia.
Nesta ocasião eu não participei e observei o espetáculo pela janela e eu senti ódio contra a atuação destes profetas miseráveis. Fiquei tomado de ira e senti um grande desejo de vingança. Minha vontade era pular a janela e dar um a surra na Ida, mas o João Klava me dissuadiu.

FUI CONVENCIDO

Muitas vezes eu discutia com eles sobre um ou outro assunto que percebi em desacordo com a verdade bíblica. Mas eles se defendiam e me deram para ler uns caderninhos onde, com todo o cuidado, foram selecionados estes versículos:
Mateus 11:25; I Coríntios 1:28; Ev. São João 15:18; Isaías 66:2
Sobre humildade
Ezequiel 43:3; Josué 5:14; Daniel 10:9 e 8:18; Apocalipse 1:17
Sobre clamor
Hebreus 5:7; Gênesis 41:55; Êxodo 2:23 e 22:23; Ezequiel 58:9
I Samuel 15:11; II Samuel 22:7; Mateus 21;9; Habacuque 1:2
Salmos 39:13 – 40:2 e 145:19
Espírito Santo
Atos 2:16-21; I Corintios 2:13; Salmos 50:8; Evangelho João 4:14; Lucas 12:12; Joel 2:23
Sobre a o oração
Atos 3:8 e 5:41; Isaias 35:6 e 32:4; Lucas 6:23; I Pedro 4:13
Juízo Final
Romanos 2:5; Mateus 14:12; Evangelho 15:18
A sabedoria do arrependimento
Provérbios 1:7,29,20; 2:6; 3:35; 28:26; Jeremias 9:23.
Mas não era apenas pela leitura destes versículos que eu fiquei convencido. Cheguei a um relacionamento melhor com o Alexandre Silmanis, cuja natureza tranqüila eu admirava. Com empenho e perseverança eu consegui aniquilar parte dos pequenos gafanhotos e continuei trabalhando animado o campo. Nos momentos de lazer, entre uma reunião de oração e outra, o Alexandre e mais outras vieram me ajudar. Então em mutirão nós capinávamos as ervas daninhas e falávamos sobre assuntos espirituais. Esta troca de ideias me pareceu tão aprazível e tão querida. Cheguei a conclusão que ainda me faltava muita espiritualidade plena e observando a minha vida “morna” me sentia envergonhado.

Comecei a pesquisar as Escrituras e a minha oração a Deus soava: “Senhor, quero estar mais perto de ti”. É verdade que nas convicções destes irmãos encontrei muitos desvios; mas, os considerei em nível superior dos membros da Igreja Batista.
Também me entristecia aquela posição demonstrada pelos meus companheiros contra esta gente desorientada e a minha mente estava tão cheia de dúvidas e tristezas que, numa tarde, depois do culto eu me ajoelhei e extravasei toda a minha dor. Aquelas eram as labaredas da purificação que inundaram o meu coração. Era remorso, dor e arrependimento por causa dos meus pecados e também eram uma nova perspectiva do novo rumo no caminho da fé. Então me agarrei com mais força em Jesus Cristo. Mas ao mesmo tempo eu me encontrava no meio destes fanáticos e agora fui obrigada cumprir todas aquelas cerimônias. Esperando que tudo se acomodasse no futuro assisti tudo com paciência, mas vendo alguns erros, não consegui me manter calado. Eu apontei uma e outra profecia que não tinha se realizado e esta ousadia não agradou aquela gente, no entanto eu aderi ao grupo, mesmo contrariado, por falta de outra opção, embora sentisse algum remorso no coração.

AINDA REFERENTE AO MÊS DE OUTUBRO

Encontrei algumas anotações que agora transcrevo.
Uma semana antes do regresso do tio Rodolfo e aqueles espiritualistas que o acompanharam, através da intuição espiritual eles foram mandados para alguns locais. O primeiro foi uma visita ao tio Sigismundo em Tubarão. No encontro com ele o Alexandre, entre muitos outros sons incompreensíveis balbuciados, em leto, disse o seguinte: (creio que foi a tradução daquela língua estranha):
“Que na França o anticristo está perseguindo os cristãos. No Brasil ele mandaria os
crentes para as ilhas desertas do oceano onde os fritara na frigideira de Sodoma e Gomorra,
mas destes fiéis apenas três serão arrebatados (salvos)”.
Depois houve a manifestação da Ida, da qual contarei apenas a tradução em Letão:
“Zarau A O; Zarau A O; Zarau está a postos para aproximar de Cristo. Zarau está condizendo em fila de três em três. Lançai vós todos nas águas cristalinas do batismo de imersão três vezes repetido; para aliviados, com o coração purificado correrem em direção de Cristo. Três mostrarão amor; três terão as vestes alvejadas pelo Sangue do Cordeiro. O tempo está se esgotando pregai a verdade para aqueles que têm sede, mas ignorai aqueles que esperam na beira do caminho; por que para aqueles que são orgulhosos não há salvação” “Ainda existem aqueles que sentem tristeza, mas o fim está próximo. Cristo vai abrir aqueles Livros, Cristo lerá o livro, Cristo chamará pelo nome. O Zarau virá receber aqueles que Cristo mandar. Quem virá buscar é o Zarau por que Cristo permanecerá nas nuvens. Entra no círculo, apressa-te para entrar no círculo que já está se afastando”.
Fala de Rodolfo para o irmão Ziguismundo: (uma mistura de sons de língua estranha entremeada palavras letas que ora traduzo).
“Sera soltar outro. Vai hoje; vai hoje Tubaron. Será to, to, sera. Fala Ziguis. Prepara-te Ziguis; ziguis digo casa, depressa, depressa. A Marta (outra irmã morando em Curitiba) virá. Volte a cavalo, depressa, rápido :: livros :: ache, ache livros fora”. No mesmo dia eles retornaram.

Então desta fala de Rodolfo, Sigismundo chegou a conclusão que o tio Rodolfo estava convidando ele pra voltar a Mãe Luzia e a outra irmã Marta também aderiria ao movimento. No entanto eles nada conseguiram por que o tio Ziguismundo estava com o seu juízo perfeito.
Mas estas falas impressionaram o meu pai erradamente e ele começou a queimar os livros da sua vasta biblioteca pastoral. Consegui salva uma parte encaixotando e levando para a casa João Arajs e também o harmônio foi salvo das chamas.

ESTE CULTO DEMORADO

Este reunião se prolongou por muito tempo e eu tenho interesse de descrevê-la para que fique guardada alguma coisa para o futuro e os leitores prevenidos não passem por uma experiência igual a esta.
Todos começaram a apelar a Deus em oração, sem qualquer ordem, urrando, gemendo, gritando e ganindo. A Ida como desvairada grita com toda a força da sua garganta e em tom de exigência apela: “Venha Jesus, venha nos ajudar”. Após alguns momentos a Ida iniciou a sua fala em voz grave e gutural em línguas estranhas; depois clama: ”Alexandre você tem de vir para o centro”. Então todos os demais começam a orar por ele até que ele também inicia a sua fala estranha. No meio deste conjunto de sílabas incompreensíveis apenas anoto as que consigo assemelhar: “Leia já, leia logo. Orosanga. De Tubarão chame o irmão depressa”.
Novamente a Ida está falando algo em voz baixa e logo depois exclama irada: “Os crentes estão sem entusiasmo, não, não, não, isto não pode ser assim, isto não dará resultado, assim não vamos alcançar o objetivo”.
Então todos os crentes clamam a Deus pelo avivamento. A Ida ora: “Senhor fala, fale para nós de modo que possamos entender as suas ordens”.
Ida chama o Rodolfo para o centro, todos os presentes apertam o círculo para bem próximo onde ele está para colocar a mão direita sobre os seus ombros e o braço esquerdo levantado para o céu; todos clamando com toda a força: “Jesus, abençoe-nos e oriente os nossos passos”.
Rodolfo começa a balbuciar enquanto lhe tremia o corpo todo a ponto de inspirar medo:
“Amanhã Sig. Tubarão, viaje depressa Rud., depressa. (enquanto Ida dizia – fale com clareza – mande Rudi. Vem tristezas, rápido, rápido; Rodolfo, Marta, Marta, depressa rápido depressa rápido; o tempo se esgota; Burrigo, Seeberg; chame a Marta) agora falará o Alexandre: “Há gemidos em Tubarão, Rudi, depressa, depressa, mandará Rudi trabalhar para juntar, juntar aqueles que ainda faltam. Orossanga. Ir converter para Cristo batizando, porque Kris, virá breve, não há mais tempo.

O Ziguis de longe esta observando com tristeza indeciso, espera ajuda. Haverá muita tristeza, muita dificuldade. Pastoreie o rebanho de Cristo. Tudo está sendo entregue ao poder do diabo; não está bem. A cruz de Cristo”.
Então agora eles também deveriam ir para Urussanga e assim aconteceu. Vários deles chegaram lá, mas não sabiam qual seria a casa indicada e para ter esclarecimento oraram, recebendo logo a intuição onde seria. Entraram, leram a mensagem, falaram alguma coisa, mas voltaram sem qualquer resultado.
Mais uma vez e agora o meu pai foi mandado para falar com Siguismundo, mas ele não atendeu ao convite para regressar e o que causava espécie é de que aquelas mensagens truncadas não se cumpriam; insistentemente eram mandados outra vez para insistir em arrancar aqueles últimos, que diziam ter, alguma esperança de salvação.

EU VOLTEI A REFLETIR

Causava-me muita mágoa o fato de que os meus irmãos não percebiam este engodo, continuando na sua teimosia como se estivessem imobilizados.
Tinha lutado tanto para conseguir me converter, mas logo que os profetas foram embora eu comecei a falar da minha convicção declarando abertamente que a dança ou bailado e o ato de enxotar os interessados, a profetização e as suas inquisições previstas eram totalmente errôneas.
Muitas vezes eu discuti com a minha mãe e isto me deixava muito magoado. Ainda tive uma experiência com A que me moveu a não frequentar mais aqueles cultos. Por isto a minha irmã Mely Zelma por mim verteu lágrimas.
O João Klava que por causa desta minha adesão aos Pentecostalistas e que muito se preocupava, agora, diante da minha atitude, ficou feliz. O pastor Diter havia conseguido a sua matrícula em uma Escola de Paranaguá e ele me convidou para que eu fosse junto com ele, mas fiquei em dúvida se sem os recursos financeiros necessários nós conseguiríamos o nosso intento. Sobre este assunto eu orei muito a Deus.


ANO DE 1920

Foi designado um novo campo de trabalho para os profetas, os outros correligionários viajaram em grupo para a Linha Telegráfica, mas o Alexandre, Rodolfo e Ida foram mandados continuar o trabalho em Ijuí, RS.
Eu guardei apenas uma fala deste período:
“Alexandre Raisi Brasil. Cristo está mandando insistindo. Cristo ainda mandará, vai depressa perigo de morte. O perigo está chegando e alcançará a todos. A Ida lerá”.
Obedecendo a estas falas que se repetiam eles se sentiram enviados para esta viagem e eu os levei de carro de boi até Campinas . Minha irmã Mely Zelma também nos acompanhou, por que, ao retornar, queríamos adquirir e trazer para casa farinha de mandioca. Chegamos ao destino, deixamos lá o carro e os bois, pernoitamos e no dia seguinte prosseguimos. O tempo estava limpo e nos sentíamos felizes.
A estrada ficou muito arenosa e assim apenas ao meio dia chegamos ao local ao qual eles se sentiam convidados. Estávamos muito cansados, e tínhamos ainda outra preocupação, não tínhamos a certeza do que iríamos fazer exatamente. O Rodolfo sabia ler no idioma português, mas nenhum deles estava preparado para falar; eles aceitaram como obrigação o fato de ter que esperar uma inspiração e continuavam a andar a pé cada vez mais longe.
Também não podiam cantar, por que entre aqueles profetas, apenas o Rodolfo tinha a voz afinada. Em casa nós fizemos conjecturas de como é que eles iriam chegar em Ijuí.

Tinha lutado tanto para conseguir me converter, mas logo que os profetas foram embora eu comecei a falar da minha convicção declarando abertamente que a dança ou bailado e o ato de enxotar os interessados, a profetização e as suas inquisições previstas eram totalmente errôneas.
Muitas vezes eu discuti com a minha mãe e isto me deixava muito magoado. Ainda tive uma experiência com A que me moveu a não frequentar mais aqueles cultos. Por isto a minha irmã Mely Zelma por mim verteu lágrimas.
O João Klava que por causa desta minha adesão aos Pentecostalistas e que muito se preocupava, agora, diante da minha atitude, ficou feliz. O pastor Diter havia conseguido a sua matrícula em uma Escola de Paranaguá e ele me convidou para que eu fosse junto com ele, mas fiquei em dúvida se sem os recursos financeiros necessários nós conseguiríamos o nosso intento. Sobre este assunto eu orei muito a Deus.

A MINHA VIDA

Nós passamos a frequentar tardes Letas a fim de juntar algum dinheiro para presentear os necessitados daquele país. Os alemães já foram embora, mas no seu lugar ficaram os comunistas.
Os gafanhotos também devoraram tudo do pasto e da lavoura, e sobre a atividade agrícola não depositava mais nenhuma esperança e eu estava cansado de insistir. Uma vez que o Germano Skoolmeister contratou com a Prefeitura a construção da estrada que ia passar atrás da casa do meu avô, me engajei com ele para trabalhar naquela obra. Comia na casa dos meus pais. O trabalho era muito pesado. Cavar com a pá e depois jogar aquela terra longe não era tarefa fácil principalmente para mim um jovem. De cansaço doíam os ossos e até parecia que não poderia suportar, mas criei coragem e insisti. Trabalhava-se 9 horas por dia, iniciando-se a jornada bem cedo de manhã. Eu ganhava 4$000 (quatro mil reis) por dia, trabalhei um mês inteiro e recebi o total de 105$000.
A minha família mudou-se para a casa dos meus avós. Enquanto os profetas estavam ausentes, o seu lugar de liderança foi ocupado pelo irmão Teófilo e Mely Zelma. Através daquele linguajar foi ordenado que deveriam viver em comum sob o mesmo teto. Meu avô aceitou esta manifestação com desconfiança, mas obediente consentiu. Eu mesmo ajudei transportar os utensílios e a mobília para a nova habitação e fiquei morando sozinho na casa antiga em companhia de um relógio de parede que batia as horas. Vivia e trabalhava solitário, mas ia fazer as minhas refeições junto da família. Andava triste e sem objetivo, mas havia uma vantagem, não precisava mais acordar com aquela barulheira de bailado infernal da louvação. Este episódio também nunca esquecerei.


EM FEVEREIRO DE 1921

Mais uma vez os profetas retornaram. Não sei como eles conseguiram chegar em Ijuí (R.G. Sul), mas sobre a sua atuação naquela Colônia Leta não recebi nenhuma informação. Depois desta visita eles pegaram o navio em Porto Alegre e desceram no porto de Itajaí e voltaram a Linha Telegráfica. Em Rio Branco, um lugarejo que se situava próximo, eles primeiro visitaram o Graudim e o seu grupinho formado de Letos e Alemães que professavam a mesma crença de Pentecostes, mas verificaram que este grupo havia se separado do outro da Linha Telegráfica. Então houve cisma.
Com muita tristeza o tio Rodolfo contou:
“O diabo com tanta eficiência imita o Espírito Santo de Deus, que se torna difícil distinguir o certo do errado. Eles também falam línguas estranhas, dançam em louvor a Deus ainda mais forte de que nós; no entanto, foi nos revelado claramente que eles estão possuídos pela força do mal. Vejam quanta escuridão está cobrindo a terra. Torna-se quase impossível distinguir qual é o verdadeiro Espírito Santo”.
O Rodolfo agora está possuído por aquela força. Fora eleito o principal profeta e chefe. Teria falado com Deus rosto a rosto. Fora-lhe anunciado que ele seria uma das testemunhas na Nova Jerusalém e estava tão convencido disto que solicitou um plebiscito dos fieis com a pergunta: “Tu acreditas que eu sou um daqueles testemunhas, que eu serei torturado e morto, e depois arrebatado para os céus? E como uma prova de que as suas palavras eram verdadeiras ele mandou que a chuva parasse (e que realmente isto aconteceu conforme testemunho deles)”.
Mas agora depois de ter regressado a Mãe Luzia ele estava pálido e adoentado e mal podia assistir as reuniões.

História de Emilio Andermann – 3ª Parte

História de Emílio Andermann – Sua Juventude

3ª PARTE
M E M Ó R I A S
De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

Leia também neste mesmo Blog “ O meu pai Carlos Andermann”

DO MEU DIÁRIO EM 19.11.1918

Antes daquela festa de jubileu a que me referi, congregávamos em ‘horas musicais”, mas depois daquela festa passaram semanas e a respeito desta diversão não se falava mais.
Agora eu tentarei levantar outra vez este movimento, embora esteja tão jovem que isto torna o resultado imprevisível.
Para reunir os ouvintes eu escrevi uns convites em tirinhas de papel para serem distribuídos aos patrícios:
“NO SÁBADO, ÀS 7,1/2 DA NOITE
TEREMOS UMA “HORA MUSICAL” NA
CASA DE ANS ANDERMAN. TODOS
ESTÃO CONVIDADOS.” VAMOS CANTAR
DO LIVRO: JOIAS MUSICAIS.
Além desta iniciativa ainda tenho muito trabalho pela frente por que quero iniciar um movimento para criar uma Escola. Se o professor Busman quisesse assumir o cargo durante um ano, isto traria um beneficio geral, principalmente para nós os adolescentes. Quanto eu gostaria de ter sido mais instruído, conhecer ciências, ter uma base gramatical para expressar melhor os meus sentimentos. O meu ideal é fazer alguma coisa para trazer mais vida no relacionamento da nossa colônia.

O ANO DE 1919

Neste ano ingressei com novas forças e mais entusiasmo. Encontrei na minha vida mais determinação, mais coragem. Comecei a observar tudo sob uma nova ótica e tudo me parecia mais acessível que no passado. Também enfrentei muitas tempestades. Sobre mim rolaram pesados acontecimentos, mas todos estes acontecimentos desenvolveram nhás forças e criaram em mim a coragem para erguer-me firme sobre os meus próprios pés.
Para a festa de passagem do ano chegaram visitas do Rio Novo. Nós esperamos a entrada deste ano conversando, cantando, tocando e aquelas visitas muito enfeitaram a nossa reunião. Eram cerca de 7 pessoas e entre eles estavam J. K. Frischenbruders, a Zelma e Alexandre Klavim.

EM 1 DE JULHO DE 1919

Encontrei o Pedro Skolmeister. Eu tinha muita admiração por ele e tive o privilégio de tê-lo como companheiro. Ele era um pensador e dizia:
“RACIOCINANDO O HOMEM PODE ENCONTRAR MARAVILHOSAS IDÉIAS DE PROFUNDIDADE E ELEVAÇÃO”.
PENSANDO ELE PODE ENCONTRAR FATOS EM QUE FUNDAMENTAR AS CONCLUSÕES.
“CADA ASSUNTO TEM O SEU INÍCIO, MAS AO ENCONTRÁ-LO O JUÍZO PODE DESENVOLVER IDÉIAS MARAVILHOSAS.”

EM 15 DE JANEIRO DE 1919

Os membros da Colônia combinaram viajar, de carro de boi para Araranguá para frequentar a praia do mar. Isto já havia acontecido anos seguidos quando os patrícios iam para tomar banho. Neste verão várias famílias combinaram viajar junto. Nosso carro era puxado pelos bois Amori e Ledi. Foi uma viagem penosa por causa da estrada mal conservada, mas ao chegarmos à beira do mar foi muito agradável.
Armávamos barracas e ficávamos acampados vários dias. O ar marinho, os banhos na água salgada deixam impressões duradouras sobre o corpo e o espírito. O apetite aumentava e o estado de saúde melhorava.
Era agradável passear e correr pela beira d’água, subir as alvas dunas e depois deslizar até em baixo, catar e comer araçá e outras frutas. Formávamos um grupo de 28 pessoas na maioria jovens e saudáveis então durante a maior parte do tempo demos rédeas a nossa animação. Alguns adolescentes correram para ver um navio que havia encalhado, para assistir o trabalho de devolvê-lo ao mar.
Encontramos uma velha canoa que consertamos cuidadosamente no dia seguinte, e então tentávamos navegar. Tentamos ganhar o mar aberto, mas a canoa quase se encheu de água. A esta dificuldade ainda deve se acrescentar que não tínhamos remos, apenas estacas para movimentar a embarcação. No mar aberto balançando sobre as ondas alguns companheiros ficaram enjoados.
No dia seguinte repetimos a proeza, mas desta vez uma correnteza tentava nos afastar da costa o que tornou a volta muito penosa.

EM 19 DE FEVEREIRO DE 1919

Até que a sementinha da escola germinou. Alguém assumiu a ideia e todos os vizinhos se reuniram para estabelecer as bases. A principio pensou-se em construir prédio para este fim, mas depois a ideia foi afastada por que os interessados eram em número pequeno.
O Jakob Klava então se prontificou a ceder a sala para as aulas e a família Zeeberg prometeu acolher o professor. Então fizemos uma relação de contribuições mensais para pagar o salário do professor: Kauling daria 10 mil reis; Burigo 5; Silvestre 5; Bernardo Keste 8; Akeldamis 6; Sudmalis 2; Klava 15 e nós 15 perfazendo o total de 70$000 (setenta mil reis) por mês.

EM 1 DE MARÇO DE 1919

A minha mãe começou levar no carro de boi produtos da nossa lavoura para vender aos trabalhadores das Minas de Carvão em Criciúma. Ela também comprava alimentos para nos abastecer. Muitas vezes eu a acompanhei nestas viagens.
Naquela época eu acreditava piamente nos sonhos, anotava o seu conteúdo e depois estudava. Por um milagre, as minhas interpretações aconteceram. Quando eu via um sonho, este me servia de aviso e premunição assim os eventos me pegavam preparado.
Eu mantinha uma forte relação de estima com os meus amigos. O Alberto Buks[ Books], entre eles, era o melhor. O João Klava também era um companheiro inseparável. Eles vinham me visitar e eu retribuía a gentileza. Quando reunidos tocávamos música; ou então discutíamos algum assunto importante. Um dos nossos assuntos preferidos era falar sobre a Letônia. Lamentávamos os seus sofrimentos e na hora da angústia, seríamos capazes até sacrificar as nossas vidas em benefício daquele povo. As nossas reuniões deixaram na minha mente recordações indeléveis.

A SEGUNDA VIAGEM DE MEU PAI PARA LINHA TELEGRÁFICA
EM 12 DE MARÇO DE 1919

Naquele momento já estavam terminados os essenciais trabalhos na lavoura; o milho já estava bem crescido a ponto das ervas daninhas não conseguirem mais superá-lo; feijão, arroz e outras semeaduras também já estavam crescendo. Faltava ainda plantar o Capim Serrano, cuja característica é crescer e manter-se viçoso mesmo em baixo de geada.
As outras atividades como limpar o pasto eu podia fazer sozinho e assim, realmente, este período do ano era o mais favorável para ele se ausentar.
Já fazia várias semanas que Graudin lhe mandara uma carta solicitando a sua presença urgente. Então nos parecia que todas as dúvidas se esclareceriam e com alegria despedimo-nos dele. Eu e a irmã Mely Zelma fomos fazer uma rápida visita a Rio Novo. No dia 20 de março lá houve uma festa da Igreja Batista local e então encontramos todos com saúde e disposição. Os filhos do Karklis trabalhavam ativamente na construção de um moinho. Quando regressamos em nossa companhia veio o Carlos Ignausky, Alida Klavim e também um irmão do Karklis. Esta foi uma viagem aprazível e agradável.

EM 4 DE ABRIL DE 1919

Nós, lá em Mãe Luzia, estávamos nos preparando para a Páscoa. O João Klava, que entre nós os jovens era o mais diligente, coletou 14 mil reis para cobrir as despesas da festa. Para esta festa veio de Rio Novo, Carlos e Filipe Karklis e este último ficou comigo para me ajudar.
Juntos colhemos feijão, serramos mourões de cerca e limpamos o pasto de ervas daninhas. Foi nesta época que eu comecei a escrever as primeiras cartas.

EM 5 DE MAIO DE 1919

Iniciamos a colheita do arroz. Neste outono o trabalho corre agradável e proveitoso. Compramos 3 vidros de mel.
A nossa vida espiritual corria monótona. Para frequentar as reuniões Batistas a nossa família não comparecia. O tio Rodolfo com todo o coração se apegou ao hábito de amealhar riqueza; única ocasião de convívio agradável era a “hora da música” por que então todos participávamos independentemente do credo. Estávamos nos aperfeiçoando em tocar em conjunto, mas Rodolfo que era o nosso dirigente perdeu o interesse pela música.
No dia 12 chegaram em visita o Ditter [A.B Deter era um missionário Americano sediado em Curitiba para tomar conta dos campos do Paraná e Sta.Catarina] e o Butler com a tia Marta. O Ditter trabalha há 7 anos como Missionário e agora ele deseja evangelizar o Paraná e a Santa Catarina. O seu sermão é poderoso e cordial, e pleno de suas experiências missionárias. Nós viajamos para Campinas e lá tivemos um culto. No dia 18, um domingo, nós tivemos uma reunião para reorganizar a Congregação Batista.
Elegemos o tio Rodolfo como líder que declinou do convite e assim continuou o Jacob Klava – me elegeram como secretário. O Stekert e o João Klava foram eleitos tesoureiros, para diáconos foram eleitos o tio Rodolfo e um outro filho do Klava.
Realizamos um culto de Evangelização em Nova Veneza, quando foi batizado o Eduardo Klava. O William Butler prometeu dar assistência pastoral, e assim como eles vieram também foram embora no dia 19.

A CARTA DE PAPAI

A carta de meu pai do dia 20-V-19 chegou cheia de notícias dos acontecimentos espirituais da Linha Telegráfica. Ele também falou de danças, bater palmas, e as manifestações espirituais de falar línguas estranhas.
Isto me deixou uma impressão péssima, mas não quero lutar contra uma coisa que eu não conheço.
Eu tinha todo o meu tempo tomado pela colheita e o transporte do milho para o celeiro.
Os meus dois companheiros de trabalho Amori e Ledis foram inutilizados por causa da negligência e maus tratos de Pietro Ronzani e por isto estou trabalhando com os cavalos de Burigo. Eu não poderia ficar sem tração animal e por isto comprei uma mula de um Serrano por 200$000 (duzentos mil reis) e outro em Rio Novo do Filipe que eu fui lá buscar.

RIO NOVO, 29 DE MAIO DE 1919.

Em Rio Novo havia uma festa sazonal de tradição Leta, então fui para lá com a intenção de participar; onde, com grande surpresa, encontrei o meu pai em companhia de R. Strauss, que recentemente haviam retornado de Blumenau. Lá o meu pai permaneceu 77 dias; ou 11 semanas; ou então 2 meses e 12 dias. A minha permanência em Rio Novo foi muito feliz e agradável; com a minha irmã Mely perambulamos outra vez por aqueles montes aprazíveis, conversando como meu pai, no ar livre, respirando aquele puro ar de montanha. Em contraste também sentíamos tristeza por que o velho Stekert [Sobre este episodio existem algumas lendas que ainda não foram esclarecidas] fora assassinado dentro da sua casa.
Todos nós depois voltamos para Mãe Luzia, inclusive a Mely, que temporariamente hospedada em casa de parentes frequenta uma escola, por que o meu pai não achou prudente deixá-la longe de casa.

Como as montarias não chegavam para todos, então, alternadamente também andávamos a pé. O Strauss parecia tão tagarela como se fosse um garoto; ele falava sobre Jesus, a sua vida humilde, etc.
Nós chegamos em casa às 3 horas da madrugada, tínhamos viajado 13 horas e por isto estávamos muito cansados; mas ao encontrar os familiares a alegria venceu a fadiga.
Na manhã seguinte todos foram assistir os funerais da velha Seeberg. Eu fiquei em casa por que desejava tocar o harmônio na casa dos meus avós. No momento que sentei, chegou perto de mim a minha avó Ana e disse:
“Deus na sua misericórdia também mandou
para nós um profeta que através do Espírito
nos falou sobre aquela sua “hora de música”
e “hora do canto”e disse que isto atrasava
o batismo do Espírito Santo e que por isto,
a partir deste dia, este divertimento estava proibido.”
Nada respondi por que assim fui educado; mas então percebi que entre “os nossos” e os remanescentes dos Batistas tradicionais todos os laços haviam sido rompidos. E não deu outra coisa, os Pentecostalistas frequentavam o seu culto de domingo à tarde; mas interromperam qualquer contato com os Batistas; parece que se sentiam mais santificados sob a liderança do Rodolfo Strauss, aquele que veio com meu pai de Rio Novo, de quem nunca se ouviu falar coisa boa, e sim de que era um homem ruim.

RODOLFO STRAUSS

Ele era de estatura mediana, um rosto magro e pálido, os lábios intumescidos, olhos castanhos, falava num tom de voz áspero e os seus argumentos eram inflexíveis. Saíra de casa muito jovem, sua profissão era de ferreiro, e havia morado 3 anos em São Paulo.
Como seu ajudante, junto com ele, nós forjávamos utensílios de uso domésticos, ele me contou muita coisa de sua vida passada; que havia sido repulsiva e escura.
Papai o encarregou da função de dirigir os cultos; e ele literalmente despejava opiniões contundentes que desagradava os ouvintes e deixava uma péssima impressão. Mas apesar da sua ignorante falação agressiva e contundente angariou muitos ouvintes do mesmo grau intelectual do dele; mas assim mesmo queixavam-se de que ele os simplesmente apedrejava.
Vou transcrever uma fala sua que transcrevi em 15. VI.19:
“Os nossos atuais pregadores estão longe daquela humildade e do verdadeiro amor que Jesus possuía. Nos Seminários e Colégios eles aprendem a sabedoria do mundo; convencidos de que amealharam a sabedoria e o amor Divino.
Eles não sabem que a verdadeira sabedoria somente se pode conseguir humilhando-se na presença de Deus, com muitas lamentações e lágrimas. Veja o exemplo de Jesus, como ele andava sobre a terra usando apenas uma túnica, era paciente e misericordioso.
Ele nem sabia onde apoiar a sua cabeça. O seu único objetivo foi cumprir o mandamento do seu Pai e Ele dizia:
“aprendei de mim…”
Pergunto se os nossos pastores estão seguindo este exemplo de Jesus? Eles são instruídos, tem nível de vida elevado, são orgulhosos; usam trajes senhoriais, calçados lustrosos, óculos de ouro em cima do nariz e não pregam por qualquer ninharia em dinheiro.
Eles são ricos, abastados, nada lhes faz falta, moram em mansões e passam o tempo catando alguém para batizar.

Escrevem e se promovem através de jornais, dizendo:
“eu batizei tantos… e tantos…”
e como se isto não bastasse, não batizam mais em rios como antigamente e sim em banheiras de luxo, fazendo do batismo um espetáculo teatral, com todo o conforto.
Quando distribuem a ceia do Senhor, não podem mais tomar o vinho de um só cálice por que podem transmitir doenças; mas cada membro deve usar o seu copinho individual; igual aos alcoólatras quando tomam os seus tragos.
Depois de tomarem o vinho, enxugam cuidadosamente os seus lábios com um lencinho de seda.
Eu não quero falar demais (apoiados do público) apenas estou dizendo o eu me foi dado transmitir-lhes para que espiritualmente não deixais este recinto nus e sem vestimenta perante Deus, etc, etc.”
Este exemplo traz no seu conteúdo a dúvida, a falta de tino, o despreparo ministerial e o estado de espírito do autor do sermão. Entende-se que ele foi um homem, que apenas no início deste movimento aprendeu a soletrar e a sua leitura era arrastada, repetindo as palavras e cheia de erros. Mas apesar disto ele se sentia como um grande servo de Deus aquinhoado de dons espirituais muito especiais. Assim como o Apóstolo Paulo, certa vez empreendera uma viagem de pregação para São Paulo; mas lá as suas palavras ásperas foram retribuídas na medida.
Colossenses 2:19 – “Por que dentro de nós habita a plenitude da vida”.
Agora desejo descrever um culto vespertino que ficou calcado profundamente na minha memória; por que nele adquiri uma enorme impressão negativa e eu aprendi, de um modo especial, entender este procedimento exagerado.
Em 21 de junho de 1921 anoitecia. As estrelas brilhavam na abóbada celeste, uma brisa vespertina soprava e balançava os ramos dos arbustos que na penumbra pareciam fantasmas.
Chegou aquela gente do meu avô para o culto. Eles escolheram a cozinha de chão batido que no centro tinha um fogão de lenha aceso soltando labaredas e estalidos, iluminando, como se fossem fantasmas as pessoas reunidas, entre os quais, eu me encontrava.

Em volta do fogareiro postado em círculo oravam, um depois do outro. Em cada oração eu percebi uma enorme dedicação e humildade. A reunião se desenrolava cordialmente; mas de repente ouvi o Rodolfo Straus, aos berros guturais e numa voz embargada e chorosa ganir: “pelos menos um de nós deveria receber o Espírito”. Alguns dos adeptos aderiram a esta gritaria, gemendo e implorando, fazendo coro.
Eu me levantei incrédulo sem saber se ria ou chorava, enquanto o Rodolfo continuava …. aba….. aba…… aba…. etc. De chofre vira-se para o meu irmãozinho Teófilo e disse: “Foi me revelado que hoje tu serás batizado – aproxima-te de mim”. O Teófilo obediente prostrou-se ao seu lado com o rosto no chão e começou a orar com todo o seu fôlego e até a onde a garganta permitia e o Rodolfo animava: “clama com mais força, implora com fé – JESUS BATIZE-ME – com toda confiança e convicção. Foi assim que R. Straus animava o menino, insistindo cada vez mais:“Grite com mais força, não se deixe distrair com outro pensamento” e o pequeno Teófilo berrava como um possesso continuava repetindo o mesmo refrão. O meu irmãozinho berrou durante quase uma hora até ficar rouco. Aproximava-se a hora de terminar a reunião e o Teófilo não conseguiu alcançar a graça, embora tenha perdido a sua voz durante várias semanas. Isto foi para mim como um pesadelo impressionante e doloroso, que me perseguiu durante toda a minha vida e que procuro esquecer dizendo a mim mesmo: “Isto na realidade não aconteceu – deve ter sido um sonho”.

O MEU PAI

Mas nesta altura dos acontecimentos o que estaria pensando meu pai? Eu creio que ao voltar da Linha Telegráfica ele já estava habituado com este espetáculo e foi arrastado por este redemoinho. Ao retornar, ele disse o seguinte:
“Quando eu cheguei em casa do Graudim em Rio Branco
fui saudado e recebido na fala das línguas estranhas.”
“O irmão Graudim me avisou, que talvez, a minha fé fosse destruída quando eu assistir aquelas reuniões. Mas quando cheguei na Linha Telegráfica e aqueles irmãos realizaram a sua reunião, eu compreendi quanto eu estava atrasado em relação a eles. No meu coração despertou dor e vergonha por causa disto. Então eu genuflexo, com o meu rosto colado ao chão, humildemente junto com os outros, clamava pela santificação. Que eu também, lá, recebera aquele batismo, mas o dom de falar línguas ou ver visões não apareceram; apenas se sentiu mais forte na sua fé e com a mente iluminada, e mais disposto fisicamente”.
Era este o seu testemunho fruto de uma experiência pessoal, que seria apenas o início para uma progressão rumo à plenitude; mas, na realidade, ele estava recuando da direção do objetivo da fé.

IMPRESSÕES SOBRE RICARDO STRAUS

Em Mãe Luzia ele não conseguiu deixar uma impressão duradoura ele não conseguiu entusiasmar os nossos para uma participação mais envolvente, como também não deixou nenhuma impressão positiva. Apenas Rodolfo Andermann despertou e lamentou o tempo perdido. Nas reuniões ele dava testemunho sobre a santificação e até esqueceu antigas desavenças com os vizinhos por causa do açude e a construção do moinho.
O moinho foi construído nas terras de papai, um e outro foram mais convencidos a observar melhor os rumos da própria vida; no entanto, nada de extraordinário aconteceu apesar de tanta insistência e orações. Por causa disto Rodolfo Straus, obedecendo a uma intuição espiritual retornou para a Linha Telegráfica em 27 de junho de 1917, por tanto ele nos visitou de 30 de maio até 27 de junho = 57 dias, 8 semanas (1 mês e 27 dias).
Então tudo voltou a rotina anterior. Os cultos continuaram a ser realizados no mesmo ritmo; apenas papai, algumas vezes se excedia no seu louvor, mas isto não deixou em nós nenhuma impressão danosa.

CONTINUA

…Por que quem sabe seja a última que estarei mandando para o Rio de Janeiro…| de Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

Rodeio do Assucar 10-8-26
Querido maninho!

Saudações! Mesmo que não tenha recebido nenhuma carta sua, mas aproveitando a ocasião que o Arthur está escrevendo então vou aproveitar e escrever alguma coisa por que quem sabe esta carta seja a última que estarei mandando para o Rio de Janeiro e esta carta deverá ir muito rápido, pois o Willis Klavim vai amanhã viajar de mudança para Nova Odessa então ele vai levar a carta até Orleans ou quem sabe muito mais longe. Ele vai mudar daqui por que aqui é muito bom, mas é muito monótono onde tudo não é tão bom [Quando acontecia à retirada de alguma família da comunidade por mudança para outra localidade, havia bastante tristeza e uma sensação de abandono e também uma certeza que estas pessoas estavam fazendo uma opção errada e estavam prestes a passar as maiores dificuldades da vida] O Roberts agora está em casa há mais de meio ano. Ele tinha passado uns 6 meses trabalhando fora. Ele te escreve?

Agora os moradores de Nova Odessa estão passando as maiores dificuldades, pois nada cresceu bem este ano e tudo está muito caro. Até o Willis Osch que era um bem de vida aqui está passando dificuldades lá. Todo dinheiro que levou daqui gastou. Também já tem alguns mil de dívidas e as doenças são contínuas. A esposa e os filhos sempre estão doentes e quando não tem outra doença, os olhos, doem. Quando ele foi embora ele afirmou que não poderia haver lugar pior que aqui. Mas veja que não é assim. O Slengmann vai melhor por que ele levou muito dinheiro daqui, mas a casa que ele mora é pior que um chiqueiro de porcos aqui no Rio Novo. O Alfredo Leepkaln também está passando grandes dificuldades lá. Ele deixou de escrever para os parentes aqui. Se pudesse, voltaria, mas não pode. Logo que eles mudaram para lá a Anna escreveu que quem não quisesse permanecer como macaco no Rio Novo fosse para lá. Isto acontece que vai embora com todo este orgulho e espera conseguir não sei o que e ainda gasta todo dinheiro que levou. Ficariam felizes de poder voltar e serem incluídos na classe de macacos. Os nossos parentes [Os Purens] também escreveram, mas sobre a sua vida particular nada informaram. Somente disseram que a colheita foi frustrada e que esperam ter colhido o suficiente para obter o pão de cada dia. Mas onde fica o caro arrendamento da terra? Eu escrevi que alguma das moças, viagem para cá e fique algum tempo para termos nova companhia, mas até agora não tenho resposta.
No próximo domingo será comemorada a Festa da Colheita [Festa de Ação de Graças] poderás vir, haverá tudo que há de bom, Só que o tradicional café desta vez não vai haver.

Quando viajares quem vai ser o pastor da Igreja de Pilares?

Quanto tempo vais ficar fora? Quando voltares de lá deverás vir para casa e se aquele negócio do terreno der certo então vais poder morar na casa dos Leimann e engordar porcos e ordenhar as vacas. Eu não gosto de morar aqui. [No Rodeio do Assucar] O Arthur este sim gosta daqui porquê aqui é muito mais fácil de trabalhar a terra. Eu não gosto daqui porque é muito longe da Igreja e é muito difícil principalmente à noite. Também ir a cavalo todas às vezes eu não gosto por que para mim é difícil montar. Aqui é um lugar muito ermo, nada não pode ser visto. Gosto muito mais do Rio Novo.

Não pense que eu seja contra a negociação. Este terreno não é para mim então podem fazer como quiser e eu nada tenho contra.
Hoje chega de escrever.

Muitas e amáveis lembranças de todos de casa e também minhas. Lúcia.

…eu sei que estou gastando querosene e este está muito caro… De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1924 –

Rio Novo 27 de agosto

Querido irmão! Saudações!!
Hoje à noite eu fui a Igreja onde recebi a tua carta escrita no dia 14 de agosto e por ela muito obrigada. Eu faz tempo que estava aguardando e agora que eu recebi tantas novas notícias, por isso também vou começar a responder e pode ser que amanhã à noite eu termine, pois estou com muita coisa na cabeça para te escrever, apesar de que agora é tarde e eu não esteja atrapalhando ninguém eu sei que estou gastando querosene e este é muito caro e por isso não posso fazer tudo o que quero.

Nós graças ao bom Deus estamos passando bem. Somente está muito frio e seco. Na semana passada estava um pouco mais quente e ficou nublado, pensei que era a chuva que estivesse chegando, mas caíram algumas gotas esparsas e agora está novamente tudo seco e todas as manhãs amanhece branco de geada, apesar de estarmos no final de agosto ainda não esquentou nada. Agora na roça já começamos a plantar milho e já plantamos mais de uma quarta [de alqueire] de semente, também já plantamos mandioca e tudo está capinado, a terra limpa pronta para se plantada só aguardando a chuva. O açúcar também já fizemos e este ano deu muito pouco porque as canas este ano não cresceram e ainda estas mesmas os bichos comeram demais. [Cachorros do mato e graxains é que comiam a cana de açúcar]

Você pergunta como as coisas vão de um modo geral. A revolução ainda não chegou ainda aqui e quem sabe nem seja necessária a revolução chegar aqui porque no dia 29 de agosto às 8 horas da noite foi morto com um tiro o homem da Justiça, [Delegado da Polícia] Jonvili Nunes, [Jovelino ou Juvenil Nunes.] O famoso delegado era irmão do Evaristo. [Intendente ou prefeito nomeado pelo Interventor ou governador do Estado] Este homem que morreu era uma pessoa terrível, quando encontrava uma pessoa que não era do seu gosto, ele colocava na cadeia e fazia com eles o que queria, Uma vez na casa dele foi colocada uma bomba, não muito tempo atrás na Brusque, lá perto da atafona do Rudolfo Maisim [Na parte mais baixa do Morro da Coxia Seca (Coxilia Seca) A atafona do Maisin era movida por uma roda d’água, aproveitando o desnível de uma queda d’água do Rio Molha. A estrada da Brusque passava por dentro d’água, na parte cima da cascata e a água corria por cima de lajes de pedra. Eu quando era pequeno tinha medo que o carro de bois, pudesse despencar abismo abaixo.] Ele foi emboscado e levou um tiro, mas daquele ele sarou. A mulher dele até na última manhã tinha dito que seria mais prudente eles irem embora daí. Ele teria respondido dizendo quem vai poder fazer alguma coisa para mim. E a noite na frente da venda do Luiz Verane Cascaes, bem na porta, no meio de muitas pessoas foi atingido por um tiro e ninguém sabe quem foi quem atirou. [Existem diversos autores da história de Orleans que mencionam as prováveis pessoas que teriam praticado o crime.]

Então agora diversas pessoas daqui do Rio Novo foram embora para São Paulo. No Domingo dia 17, foi à noite da despedida, mas na realidade eles saíram no dia 21 deixando o Rio Novo e as pessoas ainda dizem não saber se eles conseguirão chegar lá porque até agora não tem chegado notícia nenhuma de lá. Outras pessoas diziam que a revolução tinha terminado e o caminho estava livre. Outras recomendavam a eles para não saírem nestas condições. Até o Cascaes não queria liberar o Salvo Conduto. Quando eles chegaram em Laguna todo mundo ficou admirado que como esta gente vai viajar para São Paulo, num período tão convulsionado. A viagem deles está mais complicada porque eles estão levando toda a mudança junto. São mobílias, louças, roupas enfim tudo que era móvel foi levado junto. Dizem que gastaram 4 dúzias de tábuas para fazer as embalagens, isso porque segundo eles, existe a promessa do Governo de São Paulo reembolsar todas despesas das passagens e das bagagens. Vamos ver se isso realmente vai acontecer. Existem pessoas que dizem que Nova Odessa está cheia dos ex-acampados de Varpa e segundo o “Der Compass”, os revolucionários já chegaram em Campinas e daí já estão perto de lá. Não sei como está o povo de Nova Odessa porque nem os nossos parentes de lá não tem escrito.

Você quer saber como foi a nossa Festa das Crianças, o tempo aquele dia estava chuvoso e frio. Gente não tinha muito devido às condições do tempo. A Festa começou logo depois da Escola Dominical e foram apresentadas poesias, hinos e tudo transcorreram muito bem, só faltou o sermão, O Stroberg falou novamente sobre os tijolos, mas isto nada me comoveu e nem lembro direito o que ele falou.
A Festa da Colheita [Ação de Graças] o tempo estava bom, somente muito frio mesmo, pela manhã tinha dado uma grande geada. O programa estava rico e variado com hinos, poesias, o coro da Igreja cantou e houve diversos quartetos. E sermões e prédicas eu não consegui contar quantas pessoas falaram. Só sei que o grande Karkles falou duas vezes, pode ser que ele tenha falado porque ele é grande e assim é mais que os outros. Depois o café com leite e o famoso pão doce e quando terminou já eram 11 horas.

A Escola Dominical está indo, muito bem. Quem dirige é o Stroberg. A direção dele é melhor que a do Zeeberg. Eu também vou as sextas feiras na Reunião da preparação dos professores e lá tem muito que aprender. Aqueles professores que sabem melhor o brasileiro traduzem as lições das Revistas e depois estudam os melhores meios de apresentar a lição às crianças e o que deverá ser apresentado aos maiores. Finamente o Stroberg faz um resumo apresentando as suas idéias e sobre isso eu teria muito o que escrever, mas deixa isto para outra vez.

O Victor Staviarski ainda continua na Escola? Ele ainda mora lá? Na semana passada encontrei a mãe dele e ela perguntou se você não tinha escrito alguma coisa sobre ele o Victor, porquê eles nenhuma notícia tem recebido dele e não sabem se ele concluiu o curso ou não e se ele está no Rio ou já viajou.

Quando o Victor fez a festa do noivado, você foi convidado para participar desta honra? Dizem que ele está noivo com a filha mais velha do Soren [Francisco Fulgencio Sorem – Por longos anos Pastor da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro e mais – Na realidade este moço casou com uma jovem do Sudoeste do Paraná.].

A Kate que fica contando isso por aqui e se é verdade não sei e ainda nem tudo que a Kate conta tem procedência

Você nos tem mandado o “Kristiga Balss”. [“A Voz do Cristão”] Não precisa mais mandar porquê quando por ocasião quando fiz uma encomenda de livros lá de Riga, eu encomendei esta também e as revistas tem chegado regularmente.
Agradeço pelo papel azul ele vai nos servir muito. [papel carbono] Podes mandar mais algum.
A União de Mocidade resolveu em sessão que este ano também vai comemorar o seu aniversário no dia 16 de Outubro, então com bastante tempo de antecedência estou convidando para prestigiar a nossa Festa.

Bem agora chega de escrever, os demais aqui de casa não querem escrever, eles ficaram com muita preguiça, que não é possível dizer para ela escrever e a Olga ainda não respondeu a tua carta.

Se eu tiver tempo eu logo vou escrever novamente.
Bem hoje chega. Ainda muito amáveis lembranças de todos os de casa e também minhas. Lucy.
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Depoimento de J. A. Zanerip | Lua de mel

Segunda parte

Agora, após a tempestade, cada um procurou o seu ninho. Os alemães instalaram as suas vendas no outro lado do rio Mãe Luzia, por sentirem-se mais protegidos dos ataques dos bugres, como eram chamados os índios.

Os Zanerip, sendo pescadores e construtores de suas próprias embarcações na Letônia, no mar Báltico, e muito acostumados a lidar com madeira, construíram uma ótima lancha para atravessar o rio e ser usada pelas pessoas que iam fazer compras nas vendas dos alemães do outro lado do rio. Mais tarde construíram uma balsa para permitir a passagem de carroças de quatro rodas puxadas por cavalos, carregadas de mantimentos, muito usadas pelos alemães, e tudo de uma só vez.

Assim a vida corria monótona; menos mal, pois recebiam e faziam muitas visitas aos letos que ficaram morando em Mãe Luzia. Como esses eram todos batistas, meus pais quiseram ingressar também na igreja batista. Mas havia um problema: eles só eram casados na igreja luterana, o que naquelas épocas era válido na Europa, mas não diante das leis nacionais do Brasil.

A igreja batista achou que as leis brasileiras deviam ser respeitadas e que era necessário regularizar a situação. Desse modo foi realizado um casamento um tanto curioso, os Zanerip fazendo sua “lua de mel” já com sete pimpolhos, faltando somente a caçulinha.

Depois de tudo posto em ordem, faleceu o nosso pai, desnorteando a nossa vida.

Agora os filhos mais velhos, cansados do isolamento dos outros, do nosso povo, resolveram vender tudo e procurar um terreno mais próximo ao Rio Novo. Acharam um terreno bastante montanhoso, mas com uma várzea muito fértil, junto às barrancas do Rio Laranjeiras.

Depois foi a vez da vinda da mudança, que veio de carro de boi. Levou dois dias e uma noite para fazer o percurso de Araranguá até o Rio Laranjeiras. As terras compradas pela minha mãe, Eva Grimberg Zanerip, foram adquiridas em prestações [anuais] de R$200.00 [duzentos mil reis], e já eram de segunda mão.

Aqui terminam as histórias contadas pelos meus familiares e não vividas por mim. Agora a nova vida em Rio Laranjeiras.

* * *

[continua…]