Igual à de um colono qualquer | Fritz Jankowski a Reynaldo Purim

Rio Branco, 27 de julho de 1920

Querido amigo Reinold:

Recebi de você duas cartas, uma já há tempo, logo que cheguei de Rio Novo, e uma uns cinco dias atrás. Muito grato por tudo: notícias, conselhos e inquirições. Nesta carta quero no mais possível transmitir minhas emoções de coração aberto.

Você pergunta qual o motivo da minha tristeza e depressão. Agora quero te asseverar que nenhum mortal exceto você tem ouvido de mim tantas lamentações e tão grande falta de esperança.

O principal motivo que deixou o meu coração tão desesperançado e sombrio que deixou rastros negros na carta que naquele momento dramático te escrevi — você, sendo meu amigo; sendo que nossos pensamentos e opiniões sempre coincidiam como com nenhuma outra pessoa, você em quem eu via os hábitos e sentimentos muito mais completos, maduros e fortalecidos do que os meus, — é que eu tinha a sensação de ter cometido um erro irreparável em ter abandonado a escola [o Seminário].

Por quê? Por causa de insignificantes e infundados motivos. Falando mais claramente, por enganos traiçoeiros [glhenvilibas]! As palavras escritas em Jó 5:2 eram para a minha alma, amarradas como uma pedra que me arrastava para as profundezas insondáveis e aniquilava minha vontade de viver nesta triste condição.

A isso se juntaram desagradáveis situações na vida de minha família, que ameaçavam roubar as minhas últimas oportunidades de seguir o caminho que tinha escolhido, isto é, o de continuar os meus estudos.

O que aconteceu foi que minha irmã se enamorou secretamente de um jovem alemão, Albert Richter, um sabatista. Quando isso veio ao conhecimento público aquela notícia levantou-nos outros grandes descontentamentos e contrariedades.

Depois de uma longa série de argumentações e conselhos ela cedeu e deixou este rapaz — porém não convencida de que estivesse fazendo algo de errado ou de mau, e sim para obedecer a vontade do pai e dos demais parentes.

Mas não muito tempo depois algo ocorreu através de uma jovem luterana muito alegre e comunicativa que passou a frequentar os nossos cultos: uma cantora de primeira classe e colaboradora da União dos Jovens da Igreja, mas pelos meus pensamentos toda essa atividade era como toucinho na ratoeira para pegar os ratos.

Minha irmã ficou enamorada do irmão desta moça, Karlos Ignowski, e contra este novo relacionamento não há contrariedades.

Esses acontecimentos para nós são amargos, mas sem nenhuma saída, pois daqui há poucas semanas minha irmã Emília com o mencionado jovem vão se comprometer através do enlace matrimonial.

No cartão estavam anotadas as alternativas nas quais durante a viagem mais uma vez recapitulei, e que são as seguintes:

Se nós aqui quisermos restabelecer a nossa vida, eu e meu pai, tenho que assumir e não há meio de fugir da direção das atividades, pois o pai não quer mais, impedido também pela doença.

A outra alternativa seria vender. Poderia vender e voltar para a escola, mas de onde veria o sustento? E onde ficaria o meu pai? Tentamos arrendar a nossa propriedade, mas não apareceu nenhum interessado.

Então meu pai disse:

— Agora meu filho, tu tens que se preocupar pela nossa casa e pela nossa vida diária. Faça tudo como melhor te aprouver, pois destas preocupações quero ficar livre e sob sua responsabilidade viver os meus dias até a velhice. Espero que este fardo não seja pesado demais por minha causa.

Considerando como santa a responsabilidade em atender o desejo do meu velho pai, ainda assim procurei alguma alternativa para conseguir resolver este problema. No fundo mesmo, queria ficar livre desta responsabilidade e dessas preocupações.

Também reconheço que Deus providencia nossa vida em todas as circunstâncias e tudo isso quero aceitar com gratidão, como vindas diretamente de Suas Santas Mãos.

Sob o outro aspecto da vida diária, com alegria posso dizer que eu estou indo muito bem. Minha atividade diária é igual à de um colono qualquer: derrubo matas e capoeiras, arranco tocos para facilitar o preparo da terra, planto árvores frutíferas, negocio o meu arroz etc.

Na igreja ocupo o cargo de Superintendente da Escola Dominical e Secretário Geral da igreja. Damos graças a Deus por nos ter maravilhosamente guiado e pelo período de paz que reina em nossa igreja, pois no passado houve um período um tanto difícil.

Também hoje a harmonia não está completa, pois uma parte da igreja tem por lema trabalhar por missões e a outra tem por lema descansar. Mas na maioria com tranqüilidade concordam, esforçando-se para arrastar todos juntos ao cumprimento do desígnio de uma igreja cristã, que é proclamar Cristo através de missões.

A Escola Dominical vai até de certo modo muito bem, mas o que preocupa é a falta de um obreiro qualificado para cuidar dos alunos que receberam os ensinos e correm o risco de se perder. A Convenção das Igrejas Batistas do Paraná e Sta. Catarina estão convidando para o próximo ano o irmão Carlos Leimann, e estão oferecendo para escolher como centro de atividades os seguintes lugares: Laguna, Itajay e Joinville. Nós estamos torcendo que ele escolha Joinville, pois para nossa igreja seria muito bom.

Sobre a Convenção, uma vista geral e completa pode ser acompanhada lendo “O Baptista”.

Gostaria de saber: que mudanças houve no Colégio e no Seminário? Você ainda trabalha na igreja de Pilares? Como vai a nova Escola Dominical que começaste no ano passado?

Peço que me desculpe pela curiosidade e pela tão longa carta.

Com muitas lembranças, seu amigo

Fritz Jankowski

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Viagem a Tubarão | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto
[observação em português no original]

Rio Novo, 24 de outubro de 1918

Querido Reinold,

Recebi a tua carta, escrita no dia 3 de outubro em brasileiro em nome de E. Leimann, no dia 18 de outubro. Agradeço. Eu devia responder mais rápido, mas o tempo chuvoso e as estradas lamacentas não permitiram. Devido a isso a matança dos porcos gordos [também] não foi possível; como poderíamos transportar os mesmos para vender? Por isso não respondi, já que ninguém iria levá-la ao correio.

As tuas cartas também estão demorando. Recebemos os jornais e uma pequena cartinha e mais o Bolletin cor de rosa. A carta do Watson também foi recebida. E quanto à convocação e os regulamentos militares, não gostamos nada, principalmente quando [soubemos que] você poderá ser chamado. Aqui sobre estas coisas pouco se fala.

Quanto ao nosso bem-estar, graças a Deus estamos muito bem. Serviço é que temos bastante: temos que capinar e plantar, e quando a gente termina num lado, o mato já está nascendo do outro.

Agora faz um mês que está quente, chuvoso e úmido que até parece janeiro ou fevereiro. São chuvas de trovoadas, mas temos medo que venha algum período de seca. Milho já plantamos cinco quartas, perto da roça da ponte; na roça atrás do mato plantamos arroz, mandioca, aipim grande, batata inglesa e amendoim.

Quanto às coivaras, ninguém consegue “fumegar”, pois estão ficando verdes e bonitas outra vez e quase não se distingue o que é uma coivara de mato por aí. Este ano tivemos visitas da Argentina [gafanhotos]; aqui em nosso terreno poucos tem aparecido, mas lá nos Klavin e nos Leimann passaram imensas nuvens. Por sorte não desceram, foram pousar bem longe na terra dos italianos, onde estão pondo ovos.

Aproveitando, enquanto me lembro, o Arthur Leimann manda muitas lembranças para você e para os seus colegas.

Agora vou escrever alguma coisa de novo: nossa viagem a Tubarão.

Tu tens viajado de trem muitas vezes, agora eu, desta vez foi a primeira — mas “quem toma gosto por viagens voltará a viajar”. Aqui o governo ofereceu passagem para as pessoas que quisessem votar para intendente; teriam que ir a Tubarão preparar uns papéis [de qualificação eleitoral], pois naquela primeira eleição não deu nada e por isso estavam procurando novos eleitores — dando passagem gratuita, refeições, pagamento do hotel, e tudo faziam para que fossem até lá. Mas havia uma condição: só podia votar quem tinha propriedade. Então Papai foi e aproveitei para ir junto, mas não comece a pensar que fui para votar também.

Nós pensávamos de aproveitar a viagem para lá comprar alguma coisa mais barato, mas não encontramos nada mais barato que em Orleans. Para não dizer que nada era mais barato, tinha o café, que em Orleans era 2$000 o quilo e lá era 1$500.

Nossa viagem foi no dia 26 de setembro. Fomos a pé na véspera até Orleans; eu pernoitei na casa dos Stekert e Papai foi para a casa do João Feldmann. Naquela viagem éramos seis letos: os Leimanns, o Arnoldo Klavin e o Willis Elbert. Pela manhã o tempo estava magnífico, mas mais tarde começou a ficar nublado e a soprar um vento frio e terminou ficando um dia até bem escuro.

Em Tubarão nada de bonito cheguei a ver, e sim estava cheia daqueles árabes velhacos. Comprar em Orleans é muito mais tranqüilo, pois os donos das vendas são todos conhecidos e são muito mais confiáveis.

À noite estávamos de volta e a Luzija foi me buscar com a “Marsa”. Papai não voltou naquele dia; a noite estava por demais escura e depois ainda começou a chuviscar. Voltamos todos montados de Orleans: eu a Luzija, os Klavin e os Leimann. Chegamos bem em casa, apesar da negra escuridão, que podia até furar os olhos. Ainda não sabemos quem será o novo intendente.

No dia 15 faleceu o velho Wilmans e no dia 16 foi feito o funeral. Ele toda vida morou em Mãe Luzia, mas quando doente, sem mais poder se cuidar e nada mais poder fazer, voltou a morar com a mulher em Rio Novo.

Na noite de 16 de outubro teve a festa de aniversário da União de Mocidade da Igreja de Rio Novo. Como foi a festa eu não sei, as estradas estavam lamacentas, tanto que quando as pessoas passavam fazia barulho. Foi servido café com mistura e isso custou $300 por pessoa.

No dia 9 de outubro foi a festa do Jubileu de 25 anos da Igreja Batista de Mãe Luzia e para tanto foi convidada a nossa igreja e também a do Rio Novo. Da nossa igreja foram o Robert Klavin e do Rio Novo uns quatro. Como foi o Jubileu não sei ao certo, mas é possível que o Roberto te escreva contando.

Na quarta feira passada, dia 24 de outubro, foi o casamento do Jahnis Frischembruder com a Laura Seeberg. O casamento foi memorável, como bem merece uma filha única. Mas a Laura “não tinha alimentado o cachorro nem o gato”: o tempo já estava chuvoso, mas nem no dia anterior nem no dia depois choveu tanto como naquele dia. Deste a alta manhã roncava trovoada, relampejava e caía água.

Todos os moradores da localidade foram convidados, menos nós. De Orleans foi convidada a banda de música, bem como outras pessoas importantes que não vieram ou não puderam vir. A solenidade na igreja foi às 12 horas, e depois todo cortejo subiu o morro em direção a casa dos Seeberg. Lá houve a maior comilança e beberança da paróquia, e não sei quantos centos foram gastos na festa do casamento, pois tudo devia brilhar e reluzir. Além disso, em toda a colônia nenhuma moça teve um enxoval tão completo e tão grande como o dela — teriam sido gastos milhares de réis.

Tempos atrás o Victor Karklin esteve interessado em se candidatar a “genro”, mas não se apressou o suficiente e o outro passou ele para trás. E por isso também não foi à festa. Os Karklin teriam dito que se soubessem de tanta riqueza no dote, teriam se apressado mais; também eles só procuram as riquezas e estas não são muitas.

A segunda festa do casamento foi no domingo na casa nova, defronte aos Frischembruder, recém-construída no outro lado rio, onde era a antiga colônia dos Match. Esta casa foi construída de tijolos e seria a melhor de toda colônia, especial para o Jahnis.

Há pouco tempo houve noivado da Ana Burmeister com o Alfredo Leepkaln. Quem não gostou foi a senhora Wilman, pois parece que queria o moço para a seu genro e viu a sua filha ser preterida. A “distinta” pôs a boca no trombone e depois chegou a conclusão que não perdeu tanto, pois esse moço Leepkaln não é muito afeito ao trabalho.

Pode ser que em breve o Arnold Karklin e o Augusto Felberg viajem para São Paulo. O Jurka tem escrito que lá em Nova Odessa que qualquer um ganha 2$000 por dia e assim eles também iriam para Leijputriju [NOTA: Pronuncia-se “Leiputriu” e é um lugar fabuloso e imaginário onde mana o leite e o mel, equivalente a Shangrilá ou El Dorado]. O Matiss, que também está lá, escreve que lá tudo é caro. O que adianta ser tudo tão caro, se nada se tem para vender?

Bem hoje chega, outra vez escrevo mais. Muitas lembranças de todos. Fico aguardando longa carta sua.

Olga

PS [Escrito à lápis]. Junto estou enviando 100$000. Recebemos a carta escrita em 7 de outubro e também os jornais. Se puderes venha para casa, mas se tem lugar onde ficar decida você mesmo o que quer. Orleans, 01 de novembro de 1918.

Adeus cartas longas | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 27-12-17

Querido Reini,

Recebemos a tua carta, escrita em 5 de dezembro, no dia 23 de dezembro. Obrigado. Foi uma longa espera e nem sabíamos onde você estava. Tu escreves que mandou uma carta ainda do Rio, mas esta ainda não chegou. Os desenhos recebemos junto com dois rolos de jornais. Os pacotes de desenhos tinham sido abertos pela censura, mas os rolos de jornais não, portanto você pode escrever nos espaços vagos dos jornais que eles não abrem. Dia 22 de dezembro te mandei um cartão escrito em leto, vamos ver se chega. A mulher do correio falou que as cartas escritas em leto não serão mais abertas, mas esta tinha sinais que tinha sido aberta. A censura pelos correios não é uma coisa boa, mas muito mais difícil se as cartas tiverem que ser escritas em brasileiro — se for assim, adeus cartas longas, porque nesta língua a gente não tem facilidade.

Agora tenho tanta coisa para escrever que não sei se vou conseguir fazer pela ordem… Nós estamos passando bem, estamos todos com saúde, e nenhuma calamidade aconteceu depois daquela tempestade de fogo que varreu toda região. Pela minha carta anterior você deve ter percebido que condições precárias nós passamos.

Oh. Foi a situação mais crítica de toda nossa história. Neste ano o 15 de novembro, maior Feriado Nacional, deverá ser gravado com letras de ouro. Quantas famílias perderam tudo! Só abaixo da serra mais de vinte casas de brasileiros ficaram um monte de cinzas. Propriedades inteiras ficaram irreconhecíveis: cercas, árvores, pastagens e plantações viraram uma mancha negra. Até para os Klavin, faltou muito pouco para perderem a casa e as demais dependências. Foi quase sorte: juntaram muita gente e durante o dia inteiro usaram escadas para molhar os telhados, paredes e cercas, isso no meio de uma nuvem de fogo e fumaça.

Este ano foi um ano cheio de tragédias. No começo de ano as enchentes, depois as grandes geadas, a neve, os gafanhotos, um mês e meio de seca imensa e depois, para completar, o fogo.

Você pode imaginar como tudo ficou ressequido depois de tanto tempo que não chovia: os pastos estavam tão secos que o gado nada tinha para comer. Começamos a trazer folhas do mato [grandiuva] até dezembro, mas já estava faltando e tínhamos de ir longe nos matos e capoeiras em busca do pouco verde que restava para os animais. Também dávamos espigas de milho (as pequenas), mas já estavam acabando. Ainda bem que dia 1° de dezembro começou a chover, e choveu sem parar por dois dias e meio: agora está tudo verde.

Este ano as plantas não cresceram o que seria esperado. O milho plantado no cedo, se não continuar a chover, não vai dar nada. Em muitos lugares o milho não tem um metro de altura e já está soltando o pendão. O milho terminamos de plantar no dia 15 de dezembro, e no total plantamos 16 ½ quartas. Nunca tínhamos plantado tanto quanto este ano. A batata inglesa [kartupeles] cresceu um pouco, mas depois secou tudo. Só aqueles plantados no tarde estão verdes.

Perto de Orleans apareceram novamente gafanhotos, também em Rio Laranjeiras, Rio Belo e Braço do Norte. Perto de Orleans tive oportunidade de ver uma nuvem deles, as beiras das estradas tão cheias que chegavam a chiar; ainda bem que não estão em toda a parte. Onde eles estão eles comem tudo e começam pôr ovos. O governo determinou que as pessoas não atingidas fossem trabalhar dois dias, pelos menos, matando os filhotes [NOTA: Abriam-se valetas e espantavam-se os filhotes para dentro, cobrindo-os em seguida com terra]; nas roças tudo fácil, mas nos matos e nas capoeiras nada havia o que fazer. Se os que sobrarem subirem o Rio Novo, vão comer tudo. Esperamos que sigam para o leste, para onde foram os adultos. Para baixo de Orleans falam que tem muito mais, que na estrada de ferro não se consegue enxergar os trilhos. Os filhotes são pouco maiores que moscas, com um risco cinza nas costas; ainda não tem asas
mas são muito espertos para pular.

Semana passada comecei escrever esta carta, mas como durante as festas ninguém foi a Orleans, perdi a pressa de terminar esta. Hoje, dia 30 de dezembro, o Roberto [Klavin] trouxe a sua carta escrita em 10 de dezembro. Muito obrigado. Estou muito feliz porque você está passando bem. Você pergunta se aquelas cartas enviadas do Rio chegaram: não, a última escrita do Rio foi aquela datada 16-11-17.

Como foi o seu exame? Você não recebeu o último boletim da tua escola? Se você mandou, deve ter-se extraviado. Quanto aos desenhos, são os últimos? Eles são lindos e servirão de moldes para as minhas costuras. Você levou a sua caixa de coisas junto? Desta vez vou fazer muitas perguntas e aguardar longas cartas. Você está em férias e tem tempo bastante para escrever.

Bem, preciso escrever sobre as festas de Natal. Este é o primeiro Natal que passamos sem você…… Bem, mas tudo correu muito bem, passamos alegres e fazia muitos dias que o tempo não estava tão lindo. Não está quente demais e havia um luar muito lindo. Naquele domingo antes das festas estava chovendo e estávamos temerosos, pois poderia atrapalhar as programações, mas a chuva logo parou.

No Rio Laranjeiras estava programada a festa com pinheirinho e tudo para o dia 24, mas este dia amanheceu brusco e parecia que logo iria chover; felizmente, lá pela hora do almoço começou soprar um vento seco que dispersou todas nuvens, então alegres pudemos nos aprontar para a viagem.

Saímos às 4 da tarde e chegamos lá antes de escurecer. A estrada estava inteiramente seca mesmo dentro da mata virgem, lá onde na vez passada, na Páscoa, havia aquele lamaçal horrível. Por coincidência, éramos novamente treze pessoas: Arthurs, Arnolds, Juris, Augusts, Ernest Slengman, Ema, Lonija, Isolina, Milda, Schenia, Lusija e eu. O Roberto estava lá desde domingo. O pinheirinho era igual do ano passado e no mesmo lugar. Não tinha tanta gente como no ano passado e o programa não foi tão longo.

A festa foi dirigida pelo Roberto, que é da Escola Dominical daquela Congregação. A escola tem 24 alunos matriculados e as entradas do ano, com o saldo do ano passado, perfazem mais ou menos 30$000; as despesas, 18$000, ficando um saldo de 20$000 para o próximo ano.

Este ano não foram feitos bolos [kukas] porque está tudo muito caro. Foram comprados em Orleans, nas padarias, onde saiu mais barato, bem como os bombons [bombongas] para as crianças. Os presentes foram muitos.

Agora vou contar quais os hinos foram cantados e daí você pode cantar e fazer de conta que participou da festa. Pela E.D. de Rio Laranjeiras, foram cantados dois hinos, os de número 210 e 438 do Cantor Cristão. Todos juntos cantamos 4 hinos: os de números 18, 217, 225 e 242. Dois hinos foram cantados pelos vicitantes que vieram para cima, os de números 248 e 446. Então ainda cantou um trio masculino — Roberts, Arnolds e Arthurs, — o hino 444: “Sejais Corajosos Povo de Deus”. As poesias eu não teria como transcrever. Todo o povo participou com grande reverência.

Depois do término tomamos café e saímos de volta para casa. O cansaço apareceu na subida daquele grande morro, mas de modo geral saiu tudo bem, pois não estava nem quente nem frio. Chegamos em casa a uma e meia da madrugada. Só música não houve; não porque não tivessem sido levados os instrumentos, mas porque não foram levadas cordas de reserva e deu azar de terem arrebentado algumas — e deu no que deu…

Nos Leiman [sede da Igreja de Rodeio do Assucar] o pinheirinho foi aceso dia 26 Dez. Lá houve um programa mais longo do que no ano passado.

A festa foi dirigida pelo Arthurs [Leimans]. Poesias houve vinte e uma: dez em leto e onze em brasileiro. As em brasileiro foram declamadas por Arnolds 1, Juris 1, Augusts 1, Vilis Slengmann 1, Isolina 1, Emma 2, Milda 1, Luzija 1 e eu 1. Não posso te transcrever pois não sei onde foram encontradas. Os professores entregaram, mandaram decorar e pronto. As poesias em leto foram apresentadas pelos mesmos.

Hinos foram cantados doze: sete em leto e cinco em brasileiro. A Escola Dominical cantou os hinos do Hinário Bernu Kokle números 125, 127, 137, 109, e 134. E ainda cantaram em trio Emma, Lonija e Milda o de número 78, enquanto o Arthurs acompanhava com a guitarra. O Ernesto, Emma e Lonija Slengman cantaram o hino 7 do Musu Dsiesma Gramata, seção Ceribas Auseklis. Pela Escola Dominical os alunos cantaram em brasileiro os números 76, 161 e 247. O Arthurs fez solo do hino 220 do Cantor Cristão acompanhando da guitarra e também do violino do Roberts. Ainda a Milda e Isolina cantaram o número 73 do Cantor Cristão. Agora você sabe quais hinos foram cantados. Foram apresentadas duas músicas instrumentais do hinário inglês. O programa ficou um tanto longo.

Nunca tinha havido tanta gente: brasileiros, italianos mas muito mais rionovenses [NOTA: Membros da igreja batista rival, de Rio Novo], a juventude quase toda. Até os velhos Karklim também estavam. Para abrir mais espaço, o Matiss ajeitou lugares atrás das janelas. Assim pudemos bem recepcionar os “inesquecíveis” visitantes rionovenses. Barulho ou qualquer movimento não foi permitido pelo encarregado da ordem, o Juris Klavin, que ficou no lado de fora. Ficaram tão comportadinhos que lembraramvque não estavam em sua Igreja do Rio Novo.

Neste dia tive a oportunidade de ver as beldades do Rio Novo, antigamente não apareciam como agora vão… Pelas estradas sempre estão aos pares, e junto de cada rapaz vai uma mocinha. Ninguém sabe como vai terminar essa grande loucura…

No dia 25 de Dez. os rionovenses comemoraram o seu Natal. No pinheirinho havia somente treze velinhas, e estas eram curtas e acabaram logo. A Escola Dominical é tão grande que quase não se pode enxergar… Mas para o próximo ano o professor Butler vai tomar as rédeas e fazer todos os pequenos e grandes participar da E.D. — se não os novos ficam mal acostumados e ficam por aí.

Nas cartas passadas escrevi que o Oscar ia se casar, mas até hoje não saiu nada. As promessas eram muitas mas até agora nada, e porque também não sei. No domingo passado na casa de “T” houve o noivado de Laura e João. Agora “T” e ”S” são tão parentes que é de se admirar. Antes “T” e “S” não podiam nem se ver, agora se beijam.

Logo parece que vamos ter o casamento do Vilis Paegle com a Erna Auras. Agora saiu uma lei na Justiça que no ano que vem só poderão casar os que tiverem se inscrito este ano, e o motivo é a convocação para servir o Exercito. Por isso os meninos estão correndo para casar. E ainda há um papo de que se por acaso for casado e convocado, passará a receber um soldo muito maior que o solteiro. Não sei se estas novas da justiça tem alguma lógica ou se são só para se ganhar dinheiro com mais casamentos.

Sobre os feitos heróicos dos rionovenses eu teria muito o que escrever, mas deixa prá lá. Não vale a pena escrever.

Agora, o ano no fim, vou descrever o nosso balanço com as entradas e saídas. Neste ano vendemos 70 arrobas de toucinho que renderam 709$590. Banha, 69 quilos por 69$00. Das abelhas mel e cera, 98$000. Manteiga, 21 quilos e 37$500. Ovos, 189 dúzias e 66$300. Feijão, 11 sacos, deram 110$000. Total de entradas, 1:101$890; saídas, 374$320. Saldo: 726$970.

Este ano as entradas foram maiores e as saídas menores do que no ano passado. Agora está tudo mais caro, o feijão já está a 17$000 a saca, o toucinho 13-14$000 a arroba, e o que a gente compra é três vezes mais caro do que antes.

Dias atrás em Orleans saiu uma conversa de que teria chegado um telegrama informando que a guerra tinha terminado e que a Alemanha derrotada havia pedido a paz, pelo que houvera grandes festas em Orleans.

Bem, chega. Vou esperar uma longa carta sua. Tu podes escrever em leto e colocar no rolo com jornais, e assim vão chegar sem ninguém abrir. Aquelas fotografias dos seminaristas você chegou a nos mandar?

Com sinceras lembranças para vocês todos,

Olga

Para os soldados | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 21 de outubro de 1917

Querido Reini,

Envio muitas lembranças. Faz muito tempo que não recebemos cartas suas, a última foi aquela registrada que vai fazer quase um mês. Os jornais temos recebido regularmente e neles as anotações que mencionam as cartas enviadas, mas essas não recebemos. Fico pensando se os curiosos rionovenses não acharam um meio de se apoderar das tuas cartas; quem sabe eles saibam mais de você que nós mesmos.

Você poderia mandar as cartas em nome da senhora Leiman; assim os rionovenses talvez achem que nada de importante venha para uma senhora idosa. Também a caligrafia do endereço tens que mudar. O nome do remetente põe o nome dalgum colega teu. Não sei se no mundo inteiro tem gente tão curiosa quanto aqui…

Hoje tenho muita coisa para escrever, isto é, novidades às dúzias. Nós estamos todos com saúde, apesar de estar grassando uma epidemia de sarampo; só não pegaram aqueles que já tinham tido numa outra vez.

Já faz uns oito dias que o tempo está bom, mas tem chovido com certa freqüência. No dia 12 de outubro queimamos a coivara perto da ponte. Naquele dia estava muito seco. Apesar da derrubada estar muito rebrotada e verde, a queimada foi perfeita, os matos que tinham aparecido desapareceram em cinzas. O fogo não pulou para o mato em nenhum lugar, pois o aceiro foi muito bem feito e no começo não tinha vento; depois surgiu um terrível redemoinho de fogo, mas graças a Deus ficou só no susto.

Na semana passada já plantamos 2 ½ quartas de milho. No total já plantamos oito quartas e alguns litros de semente de milho. Na Bukovina não plantamos nenhum grão, pois a grande coivara não foi queimada. Podíamos ter queimado naquela ocasião, mas não queríamos queimar; no domingo ninguém queria ficar cuidando, pois ali é um lugar muito perigoso para queimadas e o vento sempre é forte na direção das samambaias do terreno da Manin. Naquele dia o Enoz [Nota de V. A. Purim: Ernesto Grüntal, “Enoz”, nosso vizinho, era solteirão, ateu e grande admirador de Hitler; durante a Segunda Guerrra Mundial assinava vários “Zeitung” e sempre nos trazia um suplemento infantil ilustrado que se chamava “Kunterbunt”.] queimou a sua coivara, que faz divisa com a nossa propriedade, e fomos convidados para ajudar. Lá também tinha muita samambaia seca e o fogo chegou a pular, mas graças à rapidez e a determinação do pessoal foi isolada a área e apagado o fogo sem maiores problemas. Se não fosse apagado rápido, o fogo teria ido até não sei onde.

O Augis também queimou a coivara de capoeirão perto do nosso Kasbuck, bem no alto do morro. Mas ele não nos chamou para ajudar, e assim nós não fomos. O fogo passou para a capoeira dele e também no nosso mato queimou um chão de ½ quarta de planta. Eles conseguiram apagar sozinhos. Naquele dia houve tantas queimadas e a fumaça foi tanta que lá pelas quatro da tarde já estava tão escuro devido a poluição que o templo da igreja do Rio Novo não se podia ver daqui de casa. Mas logo começou roncar uma forte trovoada e de noite estava chovendo. Este ano você não teve oportunidade de ajudar nas queimadas nem de engolir fumaça.

Agora estamos levando feijão para vender: tratei 10$000 o saco. Até bem há pouco tempo eles pagavam só 6$000 a 7$000 a saca, agora o povo saiu correndo para vender. Só naquele dia em que fui vender, da manhã até as 10 horas o Pinho tinha comprado 500 sacas de feijão. Agora os italianos fazem caravanas de carros de bois trazendo feijão para a cidade. Agora é proibido entrar na cidade de carro de boi com os eixos chiando; se alguém insistir a multa é de 5$000, e se for reincidente a multa é de 25$000. Então os carros vão chiando de deixar qualquer pessoa doida, mas antes de entrar na cidade os carreteiros entram embaixo dos carros e passam sabão no eixo e entram bonito na cidade.

[Na Igreja do] Rio Novo tem novidade. Se você recebeu o cartão postal que enviei semanas atrás, já estará sabendo que o noivado do “moleirão” do Karp foi anunciado do púlpito no domingo primeiro de outubro. Pois é isso aí. A “L” naquele dia sentiu tonturas na igreja; possivelmente a Senhora Karp a ignorou totalmente, fazendo de conta que nunca a tinha visto.

Naquele mesmo dia teve festa de noivado na casa de “F”, mas “O” não apareceu por lá. Então a festa de casamento também poderá passar sem vinho. E por isso a velhinha e “L” ficaram doentes de preocupação. O casamento, quanto eu soube, vai ser breve.

O Arvido [Karp] faz tempo foi embora, não sei para onde.

No dia 16 de outubro houve a festa de aniversário da União de Mocidade [da Igreja de Rio Novo]: o Jubileu de 20 anos da fundação. Festa tão bonita nunca houvera tal. No dia anterior o tempo estava razoavelmente bom, mas na manhã do dia da festa começou a chover forte e assim continuou o dia inteiro, sem parar nem um pouco.

Eles tinham organizado para ser uma festa grandiosa; só para os bolos e roscas compraram 1 ½ arroba de farinha de trigo. Durante o dia seria a Festa do Jubileu e a noite seria a parte social, mas diante do tempo ruim não deu nada certo. Daqui de cima desceram umas vinte pessoas e em cada canto do templo tinha cinco ou seis visitantes. A festa começou as 10 horas da manhã e lá pelas 5 da tarde as pessoas vinham voltando. Tinham comido todas as iguarias e bebido todo o café e assim — jubileu terminado…

Parece que o Kirils Karkle acertou casamento com a Pauline Andermann em Mãe Luzia1.

E parece que mesmo assim nem todos os jovens do Rio Novo conseguirão se casar. A grande maioria pensa em apressar o casamento tentando não ter que servir o Exército. Agora na porta do Fórum (Casa da Justiça) estão afixados os nomes dos convocados para o sorteio; os que não tiverem sorte terão de enfrentar o rigoroso treinamento. Quando fui a Orleans fiquei olhando demoradamente está lista, que é bastante grande, tem mais de 500 nomes. De nomes conhecidos eu vi os seguintes: Hari e Fredis Stekert, Arthur e Willis Paegle, Oswaldo Auras, Karlis e Jahnis Karkle, Rudis e Jahnis Maisin, Jepis e Antons Netemberg, Oskar Karp e também o Roberto Klavin. Mas o teu nome não está.

Para os soldados a vida é mais ou menos — ou melhor, mais para menos. Pelo que sei, não vale a pena perder esse tempo todo. O velho Leiman esteve em Orleans para falar com o General e ele disse que não se preocupasse, pois tem gente que se inscreve como voluntários e quase não sobra comida para tanta gente. O Leiman diz que pediu para ele não por o nome do Arthur [Leiman] pois é o único que está em casa — e, quando examinei a lista, realmente o nome dele não estava lá. O velho Karklin também pediu para dispensar os filhos dele e também não estão na lista.

O Arthur [Leiman] escreveu ao irmão dele, Wilis, perguntado como era a convocação na província [do Rio Grande do Sul], onde ele está, e ele respondeu que era mais ou menos igual. Eles aos sorteados fornecem pão e passagem até o quartel designado. Disse ainda que se [em Orleans] estiverem insistindo ou procurando para levá-lo para o Exército, que venham até a província onde ele está, que assim ninguém vai mais amolar. Outros já querem ir, pois lá ganhariam de soldo R70$00 por mês — mas nisso eu não acredito.

Agora chega. Não sei se você vai ter paciência para ler uma carta tão extensa. E eu ia esquecendo de contar que na propriedade dos Klavim está infestada de gafanhotos: uma quantidade imensa, chegando, devido ao peso, a quebrar os galhos das árvores. Aqui passaram revoadas esparsas. Se não fosse assim e viessem mais seria muito triste.

Sinceras lembranças de nos todos aqui.

Olga.

* * *

1. Mãe Luzia era uma localidade próxima a Criciúma (e um rio com o mesmo nome) onde também havia uma colônia leta. O autor de Chorografia de Santa Catarina (Tipografia Livraria Moderna. Paschoal Simone. Florianópolis, 1905, pg 129), Tte. Vieira da Rosa, explica que “segundo dizem” o nome do lugar originou-se de um casal de negros africanos escravos, que, fugido de Laguna, foi morar no morro que levaria esse nome, situado na margem esquerda desse rio. O casal era das poucas pessoas que moravam na região e a mulher se chamava Luzia.

Foi a quarta Colônia leta no Brasil e surgiu em 1893. Fica a uns 80 quilômetros da primeira, que foi a do Rio Novo, e foi formada por colonos desta anterior e por outros que vieram de outras colônias letas do interior da Rússia. O motivo era o mesmo, terras e clima melhores. Na maioria eram batistas, mas também algumas famílias de luteranos. No começo eram 12 famílias; depois de 1895 chegaram muitas outras famílias da Letônia.

Verdadeiro lamaçal | Olga Purim a Reynaldo Purim

[Cartão Postal]

Orleans 4-10-17

Querido Reini,

Estou em Orleans e recebi dois rolos de jornais; lá nas anotações você escreve que enviou uma carta, mas essa ainda não chegou. Uma carta registrada recebemos já há algum tempo e a resposta mandei na semana passada, porque antes não deu: o tempo estava muito chuvoso e as estradas um verdadeiro lamaçal. Quando receber a carta escrevo as novas – O noivado do Oscar Karp foi anunciado domingo passado … do púlpito … e a L desmaiou de emoção. Hoje tratei a venda do feijão, a 10$000 o saco. Noutra vez escrevo mais. Muitas lembranças. Nós estamos passando bem.

Olga

Os olhos dos rapazes estão muito brancos | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 24 de junho [de 1917]

Querido Reini,

Primeiramente te mando muitas lembranças. Na sexta-feira passada, 22 de junho, recebemos a tua carta, escrita para a mamãe no dia 6 de junho, e um jornal, que tinha dentro uma cartinha para mim. Aqueles dois jornais eu recebi na outra semana. Não sei porque você não recebe as nossas cartas, pois faz um mês que mandei um envelope cheio de papéis, inclusive um papelzinho verde.

Nós aqui estamos passando bem, todos com saúde. Nenhum de nós está doente, com exceção de alguma tosse ou de algum resfriado, mas isso é normal porque estamos no inverno.

O tempo está límpido, seco e frio. Não consigo me lembrar de um inverno com tantos dias secos como este ano. Você se lembra do ano passado e do retrasado? O tempo era molhado, as estradas um verdadeiro lamaçal, e quando a noite era limpa de manhã chovia… Este ano está muito diferente. O tempo sempre é limpo e bom e todas manhãs tem geadas um tanto diferentes: lá na Igreja e nos Butler está branco e aqui em nossa casa não tem nada, pois não geou ainda e está tudo verde. Passa mais de uma semana com tempo bom e nas mudanças de lua fica nublado, mas não chove. Ontem foi a noite de São João, apareceram grandes nuvens e pensei que à noite fosse chover, mas hoje de manhã não tem mais nuvem nenhuma. Não sei se foram para o espaço ou entraram para dentro da terra.

As estradas estão secas e a gente pode ir a Orleans sem lama nenhuma. Até a nossa estrada através da mata virgem, até a Bukovina, está seca.

Estamos colhendo milho e jogando no paiol: já colocamos umas 50 cargas, Poderíamos ter trazido mais, mas a Marsa ficou doente e a Zebra manca, e não tinham como trazer. Agora estão todas com saúde. Ao filhote da Marsa demos o nome de “Saturnina” e levamos para desmamar na casa do Grüntal, que agora mora com a Manin. Ele vendeu a colônia para um italiano vizinho do Leeknim por 5.000$00. Estamos mais uma vez de vizinho novo.

O feijão não batemos ainda, mas está todo arrancado. Limpos temos mais ou menos onze sacos, e quanto ainda vai dar [no total] não sei. O crescimento foi muito prejudicado pela falta de chuva, e também plantamos muito no tarde. O feijão agora está cotado a 10$000 por saco; semanas atrás valia até 14$000. Mas nos ainda não vendemos, porque os donos das vendas acham que ainda vai subir.

O toucinho com carne estão pagando a 10$000, e sem carne 11$000 a arroba. Os preços estão bons, mas o que a gente precisa comprar está muito caro. A farinha de trigo fina está a 40$000 a saca, e o açúcar em Orleans não é possível encontrar. Só no Pinho tem, mas é tão escuro que não dá para diferenciar do sabão preto e custa $700 o quilo. Valham-nos os céus!

Se tivéssemos mel para vender compradores é que não iriam faltar. Vendemos duas latas para o Zarin, duas para os Grikis e uma para o Vilis Balod por 9$500 a lata – e ainda temos muito, que comemos às colheradas. Açúcar não vai dar muito este ano,
pois a cana cresceu muito pouco este ano, devido ao tempo frio e seco.

Bem, agora vou dormir, pois já são 11h30 da noite. Amanhã eu continuo.

* * *

Bem, quanto ao [pessoal da igreja do] Rio Novo, a coisa é diferente. Você sabe como eles são intransigentes. Sem uma demanda eles não podem passar: quando terminam um caso, já tem dez esperando. Os cultos normais não levam mais de uma hora, mas quando têm a sessão de negócios, que começam logo depois do culto da manhã, mais ou menos as 11h30, eles vão até as 3 ou 4 da tarde. Em cada sessão os líderes reclamam “Pouco dinheiro em caixa, ninguém quer contribuir”. Você lembra que ano passado eles falavam grosso, dizendo que iam pagar 50$000 por mês para o pastor Butler? Agora tem gente que conta que ele não recebeu mais de 20$000, e este ano estão pagando só 12$000 por mês. Grande salário para o Doutor! Com esse dinheiro não dá para comprar nem a pimenta.

O Butler para o Rio de Janeiro não vai mais, porque o Inkis está na vaga que ele queria, e outra mais baixa ele não quer. O Butler agora está plantando um grande jardim na casa dele, com tudo cercado.

Na festa da Ascensão do Senhor na casa do Frischembruder houve a festa de noivado do Osvaldo e da Mille, que foram confirmados do púlpito. O casamento deverá ser na primavera, porque agora está tudo muito caro e dinheiro não há. Querem fazer festa, porque não querem ficar atrás do “Nepis” [Netemberg?].

Ontem voltando [da reunião da igreja de Rodeio do Assucar na casa] do Leiman tivemos a oportunidade de assistir uma cena inusitada: na estrada, na altura da casa dos Karklin, vinham ao nosso encontro, muito agarradinhos, a Lida e o Oskar [Karp], mas logo que nos viram se separaram. Como são crianças crescidas! O Oskar, depois disso, parecia que tinha levado uma surra. A senhora Karp diz que ele não gosta da Lida, mas ela é muito persistente e ele também não sabe dizer não, assim aceita que tudo venha para o bem.

Na nossa igreja nada de novo tem acontecido. Está tudo velho. Alguns domingos atrás o Arnolds, o Arthurs [Leiman] e os filhos do Match foram visitar o Onofre: saíram de madrugada e voltaram a noite.

No domingo passado consegui as fotografias dos músicos, que foi tirada no Natal passado, e também uma fotografia grande. Você sabe quem é o fotógrafo, que leva meio ano para aprontar as fotografias. São razoavelmente lindas, mas os olhos dos rapazes estão muito brancos.

Eu vou te mandar na próxima carta, provavelmente na próxima semana. Não posso mandar agora porque não tenho envelope grande em casa. Estes envelopes brancos são por demais pequenos. Mas porque o Jornal Batista chega em teu nome também? Estamos recebendo dois exemplares! Deve haver alguma coisa errada por aí.

Agora chega. Quando receber tua carta, volto a te escrever. Ainda muitas lembranças do Papai, da Mamãe, da Luzija e do Arthur.

Viva feliz e saudável!

Olga [Purim]



«Dictado em portuguez» | Arnold Klavin a Reynaldo Purim

Rio Novo 29 de maio de 1917

Querido amigo,

Faz poucos dias que recebemos sua carta e ficamos satisfeitos por você não ter tido que esperar muito a minha resposta.

Aqui tivemos grandes geadas um tanto inesperadas, pois vieram cedo. Já no dia 11 de maio os pastos e matos amanheceram brancos, matando muito feijão. Ontem teve geada forte novamente.

Na última vez em que o Arthurs [Leimann] foi visitar o Onofre eu queria ter mandado um peru do mato1, mas naquele dia fui caçar e só matei um bugio – e acho que ele não apreciaria. No dia 7 de maio eu e o Roberto fomos ao Morro da Palha caçar porcos do mato (poucos dias antes lá tinham sido mortos três porcos). Andamos algumas horas mato a dentro, até que escutamos sons de buzinas ao longe e nosso guia explicou tratar-se de bugres. Soltamos os cachorros e aí caiu uma grande chuva. Os cachorros correram uma caça, que devia ser uma anta, pois logo em seguida encontramos os seus rastros, mas devido a mais chuvas tivemos de voltar.

O Artur Paegle casou-se no dia 27 com a filha do Hilbert. O Osvaldo Auras noivou com aquela que todo mundo já sabe.

Nas sextas-feiras temos dictado em portuguez [em português no original] e o Arthurs Leimann é o nosso professor. E como cada um vai você mesmo pode imaginar. Estive no Rio Laranjeiras para ver como está o pessoal lá.

O engenho já levantamos e colocamos o telhado. Agora estamos batendo feijão e arando a terra.

Com muitas lembração [em português no original],

A. Klavin2

* * *

1. Peru do mato. Jacutinga?
2. Arnold Klavin. A família Klavim morava entre o Rodeio do Assucar e a Invernada, hoje município de Grão-Pará.