Piquenique da Igreja de Rio Novo na Propriedade de Quintílio Zapelinni na década de 1940

Um Piquenique da Igreja Batista de Rio Novo na propriedade de Quintílio Zappelinne em Brusque do sul na década de 1940.



Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, última parte

continuação da segunda parte

Com preocupação também pelo bem-estar geral da comunidade, em relação à vida diária, foi organizada uma associação de moradores sob a orientação do pastor Inkis. Na realidade foram organizadas duas: o líder eleito para a associação do Rio Novo foi o J. Ochs, e para a do Rio Carlota o K. Seebergs. Como líder e dirigente das reuniões foi nomeado o F. Karps, e para secretário J. Frischembruder. Tudo foi feito com conhecimento e aquiescência do senhor Delegado de Policia de Orleans, Sr. Galdino Guedes.

A administração da associação de moradores tinha poderes para dirimir dúvidas e acertar pequenas desavenças entre os vizinhos — principalmente o que se relacionasse a cercas, porteiras, prejuízos causados pelo gado dos vizinhos em roças de outros, etc., — tendo inclusive autoridade para multar o culpado em Mlrs 5$000 (cinco mil réis), o que em moeda atual seria mais ou menos 20$000 réis. Precisamos anotar que essa multa nunca foi cobrada de ninguém.

A organização da associação de moradores aliviou o trabalho da igreja, pois toda e qualquer dúvida, queixa ou reclamação passou a ser tratada pelos responsáveis pela associação — pessoas vividas e com espírito cristão, que a partir desta postura tratavam todo e qualquer assunto. Nessas reuniões eram também discutidas novas idéias e o planejamento para melhorias na colônia.

A primeira e maior preocupação da comunidade era no sentido de se conseguir uma escola para a nova geração. Dirigiram-se então com uma petição à Empresa Colonizadora Grão-Pará, diretamente ao diretor Sr. Stawiarski, a fim conseguir um pedaço de terras para a comunidade — onde pudesse ser edificados a escola, o templo para a igreja e também o cemitério, — e terminaram conseguindo o terreno.

Em seguida a comunidade elegeu um comitê para a organização da escola, sendo Fritz Karps o dirigente e Juris Frischembruder secretário e tesoureiro. Os demais membros foram o compatriota e agrimensor J. Sarins, J. Ochs, M. Leepkalns, K. Matchs e K. Seebergs. Entusiasmados, os componentes da comunidade juntaram 411$000 réis para a viagem do futuro professor, que deveria vir da Letônia — mas que acabou demorando para vir.

Tendo em vista que a colônia de Rio Novo não tinha como crescer muito mais com a vinda de mais emigrantes da Letônia, já que todas as glebas das vizinhanças estavam tomadas, levando os letos que desejavam imigrar a procurar outras colônias (apesar de que nos vales vizinhos da colônia de Rio Novo ainda houvesse terras não desbravadas cobertas de matas virgens), o pastor Inkis organizou e também participou de expedições para busca e avaliação de novas áreas onde os letos pudessem ser assentados. Atravessaram o Rio Laranjeiras e o Rio Oratório, sobre cujas áreas não houve consenso quanto à viabilidade de aproveitamento. Na outra expedição, realizada nos fundos do Rio Carlota, nas proximidades da colônia italiana, foi encontrado um bom local, onde várias famílias letas se instalaram para morar, mantendo contato com Rio Novo.

Desenvolvendo o trabalho missionário, [o pastor Inkis] nos ensinava ainda hinos em língua alemã. Foram feitos vários cultos evangelísticos nesta língua, tanto em Rio Novo quanto em Orleans, resultando em conversões e filiação à igreja.

Foi também feita uma viagem festiva para a Colônia Leta de Mãe Luzia, que havia sido fundada na maioria por rionovenses. Desta viagem participaram mais ou menos vinte irmãos e irmãs dos coros, todos a cavalo, pois naquela época não havia outros recursos. A viagem durou dois dias e a noite foi passada ao relento, sob a luz das estrelas. Só noutro dia alcançou-se o objetivo da viagem, e também lá o trabalho missionário entre os alemães alcançou sucesso.

Quando a igreja de Rio Novo já se havia revigorado espiritualmente e o pequeno grupo que anteriormente se afastara já havia voltado, tendo sido recebido amorosamente pela igreja, pareceu ter chegado a hora de eleger biblicamente os seus servidores. Aos eleitos para o cargo de diáconos o pastor apresentou uma santa exortação:

— Agora vocês — disse ele — terão de se aproximar mais vezes da porta dos céus, em oração não só por vocês mesmos, mas pela igreja e pelas missões.

E com a imposição das mãos e com oração, num ambiente de reverência marcante, encaminhou-nos para o trabalho da igreja — o que me lembro como fosse agora.

Os sete servidores eleitos e ordenados pela igreja foram os irmãos Fritz Karps, Wilis Slengmanis, Jahnis Klawins, Evalds Feldbergs, Karlis Sebergs, Juris Frischembruders e Karlis Macths.

Os trabalhos da Igreja se desenvolviam muito bem, pois cada domingo que passava a igreja se revigorava e havia sinceros cultos de louvor e adoração. No aniversário de fundação da igreja (20/03) havia festas que duravam vários dias, seguidos com ricos e variados programas. Cantavam diversos coros, de senhoras, de visitantes; chegou-se a ter seis coros participantes.

A igreja, como reconhecimento e gratidão a seus obreiros, presenteou a todos eles com o desejado livro “A terra onde Jesus andara”. O pastos Inkis disse:

— Hoje não comemoramos o Natal, mas mesmo assim vamos distribuir presentes.

Os que receberam as lembranças foram o moderador da Igreja, irmão Fritz Karps; o dirigente do coro do Rio Novo, irmão Juris Frischembruder, que havia recentemente aposentado sua batuta; Karlis Matchs, que também tinha trabalhado como dirigente do coro do Rio Carlota (este era o mais idoso e por isso ganhou um Novo Testamento impresso em letras de tamanho grande); também foram lembrados os novos dirigentes dos coros, Wilis Leeknins e Gustavs Grikis, como estímulo para um diligente trabalho. A organização desta distribuição de lembranças com o intuito de reconhecimento foi organizada sigilosamente e desenrolou-se maravilhosamente, causando uma impressão inesquecível.

Na nossa memória estão guardadas muitas outras maravilhosas recordações, mas quando estamos a escrever devemos guardar limites.

Chegava o mês de abril de 1898; na Europa era início da primavera e aqui outono, época das colheitas. Faz agora quase um ano que o evangelista de Riga trabalha em nosso meio, e os nossos corações curtem os frutos de reconhecimento.

Em segredo absoluto a igreja organizou a festa dos balanços [?] no 14 de abril, que ainda estava em vigor segundo o antigo calendário da velha pátria (quarta-feira da semana santa). Ao redor da residência, junto à casa da família Grauzis onde [o pastor Inkis] se hospedava, foram se chegando na escuridão noturna, em passos silenciosos, grande parte dos habitantes da colônia.

Uma profunda paz noturna cobre toda paisagem. De repente luzes são acesas e um potente coral masculino irrompe com o hino: “Jeová, Jeová”, vibrando frente à porta da casa e ecoando pelo vale afora. Ao mesmo tempo mãos ágeis prendem e penduram arranjos florais e palmas nas portas e ao redor da residência do homenageado. Após este cântico ainda canta um coro misto. Então sai da sala aquele que foi acordado. Cumprimentos. Os cantores e os dirigentes da igreja entram na sala, enquanto os outros participantes silenciosamente se retiram para as suas casa para continuar o repouso. Na sala persiste um silêncio e uma expectativa, como que um estivesse esperando pelo outro ou que viria depois. O pastor Inkis tenta quebrar o silêncio contando um fato que acontecera em um culto “quaker” no qual reinava um silêncio como o daquele momento. Chegados e assentados aguardavam que surgisse uma palavra, mas ninguém parecia inspirado. Longo e interminável silêncio.

Então uma menina levanta-se, e na sua voz infantil teria dito:

— Pois eu acho que nós todos devíamos mais e mais amar o Senhor Jesus.

Foi como se tivessem sido abertas as comportas. Para muitos surgiram motivos para testemunhar do amor de Jesus, e também começou a desenrolar-se o nosso novelo com conversas e hinos. É aniversário, então também há presentes. F. Karps entrega ao obreiro, como presente, uma quantia em dinheiro. Após examinar ele diz:

— Realmente é um presente pesado.

Em seguida recebeu presentes de outras pessoas, depois mais hinos e palavras amáveis. Entre outras coisas, diz o pastor Inkis:

— Pois quando fui dormir ontem (era madrugada), estava sem sono e notei como os cães da colônia latiam mais do que em outras ocasiões. Agora entendo porque. Completei os 26 anos de idade e estou entrando para os 27, e o ano que tenho passado em Rio Novo posso contar entre os mais felizes da minha vida.

Já estava clareando o dia quando nos retiramos, os corações cheios de alegria.

Um belo dia o Sr. Staviarski, diretor da Empresa Colonizadora, enquanto atravessava a colônia de Rio Novo, parou em casa de colonos letos para descansar e tomar um café. Foi ali surpreendido por um grupo de crianças da colônia, orientadas pelo pastor Inkis, que o saudaram com um pequeno hino, “De todo nosso coração, nós saudamos tão caro hóspede, nossos olhos brilham, nossa alegria é real”, e em seguida “Ajuda-nos a cuidar dos pequenos.” Em seguida uma menina lhe entregou um livro de encadernação dourada — “A Terra em que Jesus andara”, em língua alemã, que ele conhecia perfeitamente. Seguiu-se a petição das crianças: que o senhor diretor tomasse as providências para doação de uma gleba de terra no meio da Colônia para que fosse possível ser construída uma escola para elas…

Durante este período houve diversos batismos, que foram festas de muita alegria tanto aqui na terra como no céu. O período de trabalho do pastor Inkis foi um santo tempo, pleno de alegria e crescimento espiritual. Não faltaram momentos de alegria e de descontração, mas também os de firmeza e determinação. Sempre ao lado da verdade e da justiça, ajudava os doentes com conselhos médicos e medicamentos, e sempre compartilhava com os sentimentos tantos os alegres como os de tristeza. Provocava um clima de boa vontade geral; por exemplo, a família Ochs veio ao encontro da necessidade da igreja hospedando o pastor por 6 meses e, em seguida, mais outros 6 meses foram passados na casa dos Grauzis nas mesmas condições.

Depois ter passado um ano em Rio Novo o pastor Inkis tomou o rumo do Rio Grande do Sul, a fim de visitar a colônia leta de Ijuí. No dia da despedida houve uma grande festa na casa dos Ochs, um verdadeiro banquete. O desenvolvimento espiritual, cultural e mesmo financeiro da colônia estava em seus e nossos futuros planos. Em vão ainda tentamos alcançar, mas foi inútil. Não haverá mais…

Depois que o pastor Inkis voltou a Riga nos visitaram em Rio Novo os irmãos missionários americanos do Rio de Janeiro, W.B. Bagby e o Dr. Donan, ambos pioneiros do trabalho batista naquela cidade [Nota de J. Inkis: De minha parte devo informar que as notícias sobre os batistas letos de Rio Novo e sua localização foram cedidos por mim a esses missionários americanos. Quando da minha volta para a Europa fiquei retido uma semana no Rio de Janeiro, capital da República. Ali consegui encontrar uma igreja batista, que em 1899 era ainda a única em toda cidade, e onde também encontrei o missionário que desta pequena igreja era o fundador e pastor. Como vimos, este não planejado atraso proporcionou um encontro que foi fundamental para despertar no missionário o desejo conhecer a igreja do Rio Novo].

O missionário Bagby pregava e cantava sinceramente e poderosamente. Donan falava mais devagar mas, como de profissão era médico, ajudava os doentes e necessitados. Ambos gostaram muito da colônia e adjacências e disseram que o pastor Inkis deveria voltar a este lugar e trabalhar no evangelismo [Nota de J. Inkis: Esta palavra amiga dos missionários se cumpre como profecia 20 anos depois em outra localidade e em outras circunstâncias. Não foi muita vantagem para a igreja de Rio Novo, a não ser o desenvolvimento da literatura evangélica em língua leta, agora mais abundante e de fácil aquisição por ser produzida aqui mesmo no país (Varpa, SP)].

Como inesperado hóspede numa manhã de domingo visitou a igreja de Rio Novo o pastor luterano e nos apresentou em língua alemã um sermão sobre o homem rico e o pobre Lázaro.

F I M

Juris Frischembruders

Texto de Juris Frischembruders com prefácio de Janis Inkis. Publicado na Revista “Kristigs Draugs” (O Amigo Cristão) números 09, 10 e 11 nos meses de setembro, outubro e novembro de 1940.

Leia também:
1. Breve História da Igreja Batista Leta do Rio Novo, primeira parte
2. Breve História da Igreja Batista Leta do Rio Novo, segunda parte

Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, segunda parte

continuação da primeira parte

A idéia central dos participantes convergia para a urgente necessidade de se conseguir um templo, mesmo que provisório, mais amplo para as reuniões. Para escolher o local foram escolhidos os nomes dos seguintes irmãos: J. Ochs, J. Neiland, J. Simpson, K. Match e J. Stekert.

O lugar foi encontrado, bem no meio da colônia, numa encosta do terreno pertencente ao irmão J. Simson. Todos pegaram firme no trabalho. Até as irmãs mais novas, adolescentes mesmo, ajudavam a amarrar os feixes de resistentes folhas de palmeira [guaricana] para a cobertura, isto é, a confecção do telhado. Também as paredes foram confeccionadas com este mesmo material.

Para a confecção dos bancos foram assentadas estacas no chão até uma altura conveniente e sobrepostas travessas para sustentação feitas de ripas retiradas dos troncos de palmito [jussara]. O resultado foi satisfatório e os bancos até que ficaram confortáveis. Todos juntos trabalhando, em três dias a obra ficou pronta.

No fundo da construção estavam os assentos para os coristas. Organizaram-se dois coros. No lado direito ficava o coro do Rio Novo e no lado esquerdo ficava o coro do Rio Carlota.

Aqui cabe um esclarecimento: nesta imigração do pessoal da igreja de Dinaminde veio o coral quase completo, incluindo o seu dirigente, e como as terras do vale do Rio Novo já tivessem sido todas tomadas pelos que tinham chegado antes, estes se instalaram ao longo do outro vale — que os agrimensores haviam denominado de Rio Carlota. Durante algum tempo os colonos foram distinguidos pelo nome dos pequenos rios ao longo dos quais moravam, mas com tempo a denominação de toda colônia passou a ser Rio Novo, talvez por ter sido onde ela realmente começou.

Durante os cultos os corais se revezavam. O coro de Rio Carlota, composto pelos de Dinaminde, era dirigido pelo irmão K. Match, enquanto o do Rio Novo, composto por oriundos de Riga, era dirigido pelo irmão Frischenbruder. O último hino do culto de cada domingo era cantado por ambos coros unidos e dirigido alternadamente por um ou outro dirigente.

Como líderes da igreja foram eleitos os seguintes irmãos: J. Bachul, J. Neiland, J. Stekert e M. Indrikson. Para servir a ceia do Senhor, o irmão J. Bachul. A direção dos estudos bíblicos foi confiada ao irmão J. Simsom e mais tarde ao irmão J. Stekert. Para a direção da Escola Dominical apresentaram-se voluntariamente J. Neilands, K. Matchs e Julia Balod.

O progresso da igreja era lento mas firme, sempre em frente. A vida do irmão Simson foi curta, pois neste mesmo ano de 1892 ele veio a falecer. No lugar dele foi eleito, como secretário-geral, o irmão K. Seeberg. Como tesoureiro foi eleito o M. Leepkaln e, como responsável pelo livro da tesouraria, o irmão J. Klavin.

Continuavam a chegar novos colonos seguindo os que vieram de Riga, bem como uma nova leva oriunda das colônias Letas de Nowgorod (Rússia) — onde muitos tinham se inte­ressado pela vida nas terras quentes. Os recém-chegados, tanto de Riga quanto da região de Nowgorod, eram batistas, e com isso a igreja crescia ainda mais.

O salão se tornava pequeno demais, e além disso os dentes do tempo tinham feito o seu estrago no templo improvisado. Estando situado em local alto e descampado, os fortes ventos haviam desfiado as folhas de palmeira. Por diversas vezes havia sido discutida a necessidade de se adquirir um terreno para a sede definitiva do templo da Igreja e da Escola, mas este assunto ia sendo adiado por que os pioneiros tinham tarefas inadiáveis para tratar, coisas como a construção de seu próprio abrigo, cercas e as plantações — e isso tomava todas as suas forças.

Ao mesmo tempo a igreja começou a aspirar a visita de algum líder espiritual da Letônia. Começaram as trocas de cartas. Surgiu a possibilidade da visita do notável líder e editor de literatura batista de Riga, porém a prioridade dele era visitar a “Terra onde Jesus andara” (que mais tarde descreveu em forma de livro), ficando Rio Novo para depois. Aguardou-se então Karlis Ruschevitz, mas como este foi convidado para ser pastor da igreja de Riga, essa viagem também não pode ser concretizada.

Foi então decidida a construção de uma nova casa de cultos, maior e melhor construída. O local foi escolhido a colina perto da casa dos Leepkaln, junto ao túmulo do irmão Simson, em terreno pertencente ao irmão Jahnis Klavin. Na sessão da Igreja do dia 1º de julho de 1894 foi eleito um comitê de construção composto de sete irmãos, porém na sessão seguinte dois desses irmãos solicitaram a sua retirada do comitê, por não concordarem com as responsabilidades a eles atribuídas.

Os trabalhos de construção foram dirigidos pelo construtor profissional Karlis Matchs. Todos os trabalhos foram executados por voluntários sem qualquer remuneração, e assim mesmo todos trabalhavam com muita vontade. Os trabalhadores eram muitos e o trabalho avançava com rapidez. Tanto o telhado quanto as paredes foram feitos de lâminas lascadas com plaina. [Nota de VAP: Havia uma plaina própria, acionada pela força de 3 homens, na qual eram colocados pedaços do tronco de madeira, que eram por sua vez cortados em lâminas de aproximadamente 25 x 12cm e 0,5 mm de espessura. A madeira preferida era o louro. Na Letônia esta técnica é ainda usada para restaurar edifícios antigos; veja esta página (em leto).] Este templo foi construído no mês de agosto de 1894 em quatorze dias corridos, perfazendo a soma de 437 dias-homem de trabalho.

Skaidas Basnitza - Segundo templo

O primeiro templo era chamado de Lapas Baznitza/Templo de folhas e o segundo passou a ser chamado de Skaidas Basnitza/Templo de lascas de madeira — com a firme esperança de que num futuro muito próximo pudesse ser construído um templo definitivo.

Também no novo templo ambos os coros cantavam em união durante os cultos, e os líderes tudo faziam para que o trabalho fosse executado o melhor possível. Porém, com o tempo surgiram na vida da igreja dificuldades de harmonização de opiniões e até mesmo divergências sérias.

A preocupação dos irmãos era evidente, principalmente por parte dos que conheciam pessoalmente o irmão [Janis Aleksandrs] Freijs. Estes começaram a se corresponder com ele na esperança de que com conselho ou mediação dele se pudesse conseguir um obreiro para o trabalho espiritual da igreja de Rio Novo, mesmo que fosse por um período [limitado] de tempo.

Janis Aleksandrs Freijs

Neste mesmo tempo haviam sido fundadas outras colônias letas no Brasil, como em Ijuí, no de Rio Grande do Sul e, aqui mesmo em Santa Catarina, as colônias de Mãe Luzia e Guarani — lugares cujos nomes não eram desconhecidos para o irmão Freijs, pois essas pessoas mantinham contato com sua editora de literatura cristã em Riga. Porém junto ao seu coração estavam principalmente os da igreja de Rio Novo, que tinham sido membros das igrejas de Riga e Dinaminde. Por ocasião das últimas imigrações o irmão Freijs era pastor da igreja de Dinaminde, e esses dirigiam-se a ele como se fosse ainda o seu pastor, pois ele realmente se preocupava com a situação da igreja em Rio Novo. Então, no início de 1897 Freijs informou-nos que saíra de viagem para o Brasil um colaborador da sua editora e agora zeloso evangelista, Jahnis Inkis.

A tão esperada visita chegou ao Rio Novo em plena festa de São João, isto é, no dia 24 de junho de 1897, após dois meses de viagem. Com muita sinceridade e entusiasmo a igreja o aguardava e, como antecipadamente havia sido deliberado em sessão, foi celebrada sua chegada com dois dias de festa na igreja.

No domingo seguinte, dia 27 de junho, nova da sessão da igreja, agora sob a liderança do irmão Jahnis Inkis, que propõe à igreja uma reunião de perdão e reconciliação entre os irmãos, e que no domingo seguinte se comemore o memorial da ceia do Senhor. Nova sessão da igreja no dia 4 de julho: irmãos perdoam-se entre si, alguns excluídos pedem a sua reconciliação; outros irmãos e irmãs, esquecendo o passado e perdoando uns aos outros, acertavam-se entre si.

O Irmão Fritz Karp foi eleito para continuar dirigindo as sessões da igreja, e os batismos foram marcados para o próximo domingo. Naquele dia, pregação da palavra pela manhã e em seguida uma solene caminhada até o local dos batismos, a poucos quilômetros dali, no próprio Rio Novo, entre as casas dos Irmãos Ochs e Frischembruder. Após os batismos nova caminhada, agora para a igreja, para a celebração do memorial da Ceia do Senhor.

Assim começou o trabalho do pastor evangelista Jahnis Inkis na igreja de Rio Novo. Inkis cuidava da vida da igreja tanto na parte interna quanto na externa, dando especial ênfase ao trabalho de missões, especialmente entre os vizinhos alemães e outros das colônias adjacentes.

Cada domingo repartia uma porção da Palavra de Deus, mas foram estabelecidas também outras atividades — cultos de oração, cultos de missões e reuniões de treinamento, nas quais eram lidos trabalhos diversos, proporcionando a todos a possibilidade de falar e de se apresentar em público — pois sempre, após a leitura de um trecho de alguma publicação religiosa, era dada oportunidade para que se acrescentasse um breve comentário, fazendo com que a pessoa ficasse cada vez mais segura.

Essas reuniões de treinamento, dirigidas pelo irmão Inkis, aconteciam duas vezes por semana: nas noites de terça-feira, na casa do irmão Ochs, numa das extremidades da colônia, e nas noites de quinta-feira na casa do irmão Grauze. Eram também lidos e feitos breves comentários dos livros da Bíblia (tais como os livros de Samuel e os livros de Reis), do livro de John Bunyan, “Luta Santa”, e de Adolf Sasir, “Cristo e as Sagradas Escrituras” — e nos intervalos cantava-se muito louvando a Deus e elevando-se a Deus fervorosas orações.

Os cultos missionários eram celebrados aos domingos. Os estudos bíblicos eram durante os dias da semana. O povo todo diligentemente colaborava em todos trabalhos. O pastor Inkis amava a Escola Dominical e dela participava. Organizou também o trabalho com os jovens, com a formação de uma união de moços e uma união de moças. Neste trabalho com os jovens ele se dedicou de todo o seu coração, promovendo novas atividades, inclusive culturais. Fundou um coral jovem sob a regência do irmão Gustavo Grikis, orientando na escolha das músicas e dos textos, e foi naquela época que sugiram as famosas festas da Mocidade.

conclui na terceira parte

Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, primeira parte

Autor: Juris Frischembruders
Prefácio: Janis Inkis Senior
Texto publicado na Revista Kristigs Draugs (O Amigo Cristão), números 09, 10 e 11, nos meses setembro, outubro e novembro de 1940
Traduzido para o português por V. A. Purim

PREFÁCIO

Li no Jornal Batista, publicação periódica da Convenção, que a Igreja Batista de Rio Novo, a mais velha das irmãs entre as Igrejas Batistas Letas do Brasil, estava se preparando para comemorar os seus 50 anos, isto é, o seu Jubileu de Ouro, e naquele momento me veio à mente que durante muitos anos tenho em mãos material referente à história desta igreja. Este material, desde há sete anos, foi coligido e cuidado com carinho pelo irmão Juris Frischenbruders.

O irmão Juris mandou-me este material esperando que eu o publicasse nas páginas da Revista “Kristiga Draugs” para que todos tivessem pleno conhecimento destes fatos. De boa vontade eu o teria feito, porém lendo este trabalho sobre o início da igreja, encontrei por diversas vezes o meu nome e elogios sobre a minha atuação e meu trabalho naqueles tempos. Decidi então, naquela época, que uma publicação dessa natureza não deveria vir à luz por minha iniciativa, pelo que este importante trabalho ficou um bom tempo engavetado.

Bem, agora que águas dos tempos já correram, que as enchentes já baixaram, que os seixos rolados da memória pelo tempo estão brancos; agora que a primeira geração de imigrantes já se foi para o descanso eterno e a terceira da geração do início da colônia e da fundação da igreja pouco sabe, sinto-me então constrangido a lidar com recordações tão personalíssimas como as do irmão Frischimbruders, que tirou a maior parte das informações de sua própria memória. Neste momento não vejo mais como alguém poderia antepor obstáculos ou levantar dúvidas sobre a nossa honesta participação nessa história. Entendo que nós dois, ele como o escritor da narrativa e eu como seu guardião, somos para a querida e inesquecível igreja de Rio Novo eternos devedores e, para tanto, neste Jubileu de Ouro, oferecemos a sua história. Esperamos que em nenhum momento isso seja entendido como algum elogio a nós próprios, mas a toda família leta no Brasil.

J. Inkis Sen, 1940

 

PREÂMBULO

Anos atrás a igreja [batista do Rio Novo] determinou ao professor Ans Elbert que escrevesse a história da vida da igreja; porém sendo a vida dele cheia de sofrimento e de dificuldades (após anos de doença ele veio a falecer), seu trabalho não teve solução de continuidade. Minha grande preocupação era que a história da igreja fosse colocada por escrito. Antes da comemoração do jubileu dos 40 anos de estabelecimento da igreja (a 28 de fevereiro de 1932), foi a mim designada esta importante responsabilidade. Para minhas debilitadas forças a tarefa pareceu realmente difícil, mas assim mesmo admitiram que eu escrevesse do melhor modo possível.

Procurei ficar bem no centro do caminho da verdade. As notícias e datas tirava do livro de atas da igreja, mas grande parte do conteúdo tirava diretamente da memória. Esforcei-me para anotar todos quantos labutaram na igreja: pastores, professores, pregadores itinerantes — até mesmo os guardas das portas (introdutores). Pensei: do mesmo modo que foi importante atribuir essas tarefas a eles, também é importante mencioná-los na minha narrativa. Cristo disse: “Aquele que oferecer um copo de água fresca não ficará sem o seu galardão”. Assim também aqueles que, mesmo numa função humilde, desempenharam com boa vontade e com coração dedicado ao bem estar dos irmãos e da igreja, certamente terão também o seu reconhecimento.

Tomei por certo que a igreja me havia autorizado escrever a história de modo geral e abrangente. Assim mesmo, em assuntos polêmicos, tomei cuidado, sendo prudente e deixando tudo nas mãos de Deus. Nestes casos, escrever só o necessário, e sempre com espírito pacificador.

Como moto para o seu trabalho o autor escolheu um verso do poeta Bilnisch:

Tu não podes parar e sonhar
Tu tens que amarrar os feixes colhidos
Ou és um navio a fazer água,
Que está prestes a afundar…
Tu tens que terminar alguns trabalhos
Mesmo com o seu coração cansado,
Mesmo que ao derredor uive o vento cortante,
E o temor da morte se faça presente.

E ainda um verso do poeta Ciruls:

Se surgisse dos nossos
Antepassados pais, o espírito
Então para o trabalho e saber
Ganhariam novo alento…

Juris Frischembruders, 1933

 

A IGREJA BATISTA DO RIO NOVO NO PERÍODO DE 40 ANOS — 1892-1932

Os colonizadores letos do Rio Novo foram sem dúvida os primeiros desta nacionalidade a imigrar para viver no Brasil. Com as providências de cultos e ilustrados conterrâneos como o Balod, o Salit e o Lübek, e sob a sua liderança, em plena primavera (deles) de 1890 saíram de Riga os primeiros colonizadores em busca da distante e desconhecida Terra das Palmeiras. Tinham escolhido para a próxima etapa da vida um local no estado de Santa Catarina em que uma companhia de colonização havia sido aberta e onde vendia, com facilidades para os imigrantes, terrenos em plena mata virgem, não longe da estação de estrada de ferro de bitola estreita de um local chamado Orleans do Sul.

Os primeiros imigrantes eram luteranos, mas entre eles havia três membros das igrejas batistas de Riga: Janis Arums, sua esposa e Katrine Bitait.

Um ano depois, em 1891, cerca de cinco famílias de batistas letos de Riga seguiram as trilhas recentemente abertas até a recém-inaugurada Colônia de Rio Novo/Jaunupe. Esse nome tinha sido dado a um pequeno rio em cujas margens, de um lado e de outro, os letos se instalavam. Entre esses estavam este que agora escreve (Juris Frischenbruder) e sua família, Janis Ochs, Aleksandis Grinfelds, Janis Baschulis e Fritz Malves com suas respectivas famílias.

Após dois longos meses de viagem, no dia 13 de julho, chegamos à estação da estrada de ferro em Orleans do Sul. A direção da Colonizadora providenciou para que as nossas coisas fossem arranjadas no lombo de mulas e levadas para a nova colônia, onde fomos alojados num alojamento comum, construído para o abrigo inicial dos imigrantes que chegassem. Nosso irmão Janis Arums e outros letos nos ajudaram a chegar a este acampamento em plena mata virgem. Esses oito quilômetros de caminhada por dentro da mata, através de trilhas escorregadias, lamacentas, subindo e descendo morros, só foram vencidos com grandes e desconhecidas dificuldades.

Quando cada um dos recém-chegados já havia recebido sua terra e se instalado nela, e dessa forma dado início à sua vida de legítimos pioneiros, a preocupação de nós, batistas, voltou-se para nos organizarmos a fim podermos realizar os cultos a Deus.

Os cultos de oração eram dirigidos alternadamente por nós e a ceia do Senhor era servida pelo irmão Janis Baschulis, enquanto o coro quem dirigia era eu, Juris Frischimbruders. Éramos muito alegres e cantávamos com tanto entusiasmo que a própria selva respondia com eco.

Neste mesmo ano de 1891, no mês de novembro, quando lá na Letônia era outono e aqui primavera, surpreendeu-nos numa manhã de domingo a chegada de mais letos que nos haviam seguido de Riga. Eram esses Jahnis Neilands e Jahnis Simsons. Foi um feliz encontro e grande a confraternização; agora o nosso pequeno coro havia sido reforçado com duas realmente potentes vozes masculinas.

Um mês depois, em dezembro, chegou uma leva realmente grande de imigrantes, cerca de 25 famílias de Riga, membros das igrejas [batistas] de Angelskalna e Dinamindes (Daugavgrivas/Foz do Daugava).

Como naquela época quem tinha dentre os colonos a maior sala em sua casa era o J. Ochs, os cultos eram realizados lá na casa dele. Os primeiros desta leva entraram na colônia durante os festejos do Natal de Cristo; participaram ativamente do nosso culto a Deus os irmãos Fritz Karps e J. Klavins, da Igreja de Dinaminde, e o irmão Bankovitz de Riga.

Demorou um bom tempo até que todos os companheiros de viagem ocupassem os seus lotes na colônia. Alguns estavam muito satisfeitos [com sua nova vida], porém outros se sentiam enganados. Com amargo ressentimento esses inquiriam em especial o autor das cartas (Arums), que teria pintado um cenário mais pitoresco e colorido do que a dura realidade da vida de pioneiros, e indicado uma visão de futuro promissor que eles não conseguiam antever.

A verdade é que os recém-chegados não tinham escolhido uma época propícia para emigrar. A melhor época teria sido quando aqui é outono, nos meses de abril e maio, pois durante o inverno poderiam ter sido derrubadas as matas e aprontadas as coivaras para as plantações da primavera, de agosto em diante. O clima do final de ano pareceu excessivamente quente aos recém-chegados. Diante das primeiras impressões, meu sogro [Juris Bankovitch] disse: “Melhor teria sido trabalhar em pedreiras, carregando pedra sobre pedra na Letônia, do que ter vindo ao Brasil”. Mais tarde, devidamente acomodado, ele mostrou-se feliz por ter optado em vir morar no Brasil.

Quando todos tinham entrado para a colônia e já estavam alojados no acampamento comum, mais gente procurava lugar nos nossos cultos. Mais tarde, quando cada um já tinha construído para si o seu teto, sua casa em sua própria terra, e já havia se restabelecido das dificuldades da mudança, ficou evidente que o local de cultos tinha ficado pequeno demais — e que era também, para alguns, longe demais do local em que moravam. Surgiu então uma idéia e sobre ela todos falavam uns com os outros: a necessidade de organizar uma igreja e construir para ela um templo.

Era uma bela tarde de domingo, 20 de março de 1892, quando se reuniram os irmãos e irmãs na casa de Jahnis Ochs para uma deliberação. O culto foi aberto pelo Irmão Fritz Karps; por unanimidade e aclamação ele mesmo foi eleito para dirigir esta e as próximas sessões, e o irmão J. Simsons apontado como secretário.

Após a inscrição, a relação de todos membros da nova igreja era a seguinte:

Jahnis Balodis
Katrina Grausis
Katrina Bitait
Gederts Feldmanis
Lavise Feldman
Made Bankovitz
Ans Grinfelds
Auguste Grinfeld
Auguste Grinfeld
Juris Frischembruder
Anna Frischembruder
Anna Feldmann
Jahnis Arums
Karlote Arums
Jahnis Ochs
Katrina Ochs
Júris Bankovitz
Sofija Vanag
Ilse Dobit
Jahnis Baschulis
Marija Baschul
Elizabete Grinfeld
Katrina Grinfeld
Katrina Grinfeld
Jahnis Neilands
Johana Neiland
J.Simsons
Martinch Leepkaln
Darta Leepkaln
Jekabs Rose
Jekabs Karklis
Lavise Karklis
Lavise Rose
Lisete Rose
Evalds Martinsons
Lihsa Balod
Krischjahnis Akmenhgrauzis
Anna Akmenhgrauzis
Karlis Match
Katrina Match
Getrude Grintal
Ieva Indrikson
Anna Engel
Fritz Karps
Fritz Malwes
Anna Malwes
Olga Malwes
Julija Balod
Auguste Balod
Jahnis Fridembergs
Ieva Fridenbergs
Amalija Fridemberg
Wilis Grintals
Gederts Netembergs
Nitenbergs
Ans Witinchs
Ilse Witinh
Matilde Witinh
Emília Witinh
Woldemars Stekerts
Hedwigs Stekert
Jahnis Stekert
Karlote Stekert
Jahnis Binemans
Dore Bineman
Lihse Bineman
Anna Bineman
Lavise Bineman
Lihsa Akmenhgrauzis
Martins Indrikson
Davids Grunskis
Jahnis Klavins

— totalizando 74 membros.

[Nota de VAP: Nesta relação existem algumas irregularidades. Nela são encontrados vários nomes e sobrenomes semelhantes sem que se mencione, por exemplo, se se tratavam de mãe ou filha, e há ainda sobrenomes sem o nome próprio, pelo que fica difícil determinar quem desta ou daquela família era realmente membro-fundador da igreja. Não sabemos se o autor da história não conseguiu ou não achou relevante preencher estas lacunas.]

continua na segunda parte