…chegamos em casa em Paranaguá eram 2 da madrugada, mortos de cansaço | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim -1922

Paranaguá 28 de agosto de 1922

Querido Reinold

Saudações

Parece que eu nunca tenha escrito para você desta cidade. Você também terá o direito de dizer que não foi possível escrever por absoluta falta de tempo por não ter condições de estabelecer uma escala de prioridades, pois as tarefas e necessidades se sucedem de maneira impressionante.

Estou cheio de trabalho, já tive oportunidade de conhecer todo meu campo de ação que é muito grande. O maior problema é que muito poucas pessoas sabem ler, também a maior parte do meu deslocamento é por água.

Na semana passada saí de Assunguí de canoa em companhia de um negro que era o ajudante, às 10 horas da manhã, tinha chovido muito e o rio estava por fora das margens e para baixo íamos muito bem e ao entramos no mar na força da maré alta surgiu um forte vento contrário então tivemos que esperar a maré baixar e depois na base de remos enfrentando as ondas e o vento até que às 8 horas da noite quando ficamos encalhados numa parte rasa e dai quando chegamos em casa em Paranaguá eram 2 da madrugada mortos de cansaço.

Na Sexta Feira nós saímos às 3 horas da madrugada para chegar de volta em casa há meia noite. Estarei aprendendo lidar com o motor para sair com o barco grande.

O povo aceita o Evangelho, mas o difícil é organizar o trabalho para ele continuar sozinho, pois faltam pessoas capacitadas e com iniciativa. Daí sobra, tudo, pra gente.. Escreva-me como estás passando. Eu mandei para você as conclusões da Convenção.

O novo Inkis ainda continua na escola?

Tens alguma novidade do Rio Novo ou de Nova Odessa?

Saudações

Carlos Leiman

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…é o celeiro de trigo da Argentina e quem sabe do mundo | De Olga Purim para Reynaldo Purim 1922

Rio Novo 9 de agosto de 1922

Querido Reini – Amáveis recordações!

Recebi semanas atrás a tua carta escrita no dia 10 de julho. Obrigada. Justamente naquele dia e escrevi uma carta que por certo deves ter recebido. Faz tempo que estou aguardando a resposta. Possivelmente hoje ela chegue, pois lá em Orleans falaram que o Maxchelis [Depreciativo do vapor da Karl Hoepke, o Max] chegue hoje, ele sempre traz as malas do correio.

Quantas novidades poderei te contar hoje ainda não sei. Por aqui os ventos das notícias estão bastante devagar. Nós graças a Deus estamos passando até que muito bem.

A grande maravilha que este ano ainda não fez frio quase inteiramente sem geadas. Na verdade nós vimos algumas bem fracas lá em baixo no pasto ao redor do templo da Igreja. Houve sim um período de chuvas frias. Nenhuma planta foi morta pela geada e todo mês de julho foi muito quente. Agora os pessegueiros e as laranjeiras estão todas em flor que nos outros anos ocorria bem mais tarde no final de agosto.

Chuvas sim tiveram demais, pois nem terminamos colher o milho. Este ano o milho está sendo prejudicado pelo excesso de chuvas. O milho até que deu espigas grandes, mas agora ao colher aparecem muitas espigas apodrecidas. Alguns trechos as hastes são grandes e as espigas pequenas.

Logo vamos fazer açúcar e se quiseres tomar uma gostosa garapa e chupar cana, venha logo. A cana está crescida que dá gosto cortar. Não pense que vais conseguir todas estas delícias sem qualquer esforço. Você terá que ajudar a cortar, transportar para a fábrica, pois ferver a garapa para fazer o açúcar e o melado nós mesmos vamos fazer porquê este serviço de ficar na fornalha e cuidar do tacho será demais para um cara da cidade. Para você vai ficar reservado o serviço “leve” como cortar a cana, desfolhar e enfiar nos feixes [ver nota no final] e outros serviços similares.

Agora a escola de Rio Novo está com novo professor, o Emílio Anderman e logo vamos ver Rockfelleres sobrando por aqui. O Treiman não “formou” nenhum de seus alunos, pois foi logo embora.

No Domingo passado foi anunciado do púlpito o noivado da Lucija Sanerip com o Jahnis Ochs então breve vamos ter festa de casamento. Em Nova Odessa já casou o Conrado Frischembruder com a jovem Lídia Akeldam.
Há pouco tempo atrás chegou de Porto Alegre para morar em Orleans o Willis Gruntz. Ele comprou a casa do
Grünfeld.

Você já sabe que os Leiman foram embora e só para isso que o Fritz veio e foi suficiente convincente para fazer que os velhos deixassem tudo para traz e fossem embora para outro país. A maior pressão tinha sido exercida pela Kristina esposa dele que não se conformava de que eles ficassem sozinhos e com a saúde precária e tão distantes. Ela praticamente intimou o marido trazer os sogros de um jeito ou outro, pois lá ela teria todas as condições de cuidar e proporcionar a eles uma velhice bem cuidada depois de uma vida inteira de tantas lutas e trabalhos.

Certamente eles realmente estarão bem ali, pois o Fritz tem em imóveis o equivalente de 20.000 pesos, morando na cidade de Ramirez, província de Entre Rios como um bem instalado fazendeiro. Tem uma grande casa na cidade com todo conforto com grande jardim e na parte posterior uma grande horta. Fora da cidade uma grande gleba onde ele planta trigo que dá para comer o ano inteiro e ainda muito para vender, tem sempre 4 ou 5 vacas dando leite. A Kristina vende todos dias, leite e derivados e mais verduras em geral. Também eles têm um automóvel com o qual se pode viajar entre 60 a 80 quilômetros por hora. Antes ele mantinha cavalos, mas agora com as boas estradas não tem mais sentido. Toda Província de Entre Rios e entre cortada de boas estradas e a topografia é muito plana. Esta parte do país é o celeiro de trigo da Argentina onde estão situadas as melhores terras para o cultivo deste cereal da Argentina e quem sabe do mundo. – Agora esperamos que a viagem para lá tenha sido bem sucedida e por isso estamos aguardando longas cartas.

Daqui eles desceram a cavalo para Orleans no dia 11 de julho e no dia 12 embarcaram de trem para Imbituba para aguardar o navio. Lá naquela noite, o Fritz que até ali tudo tinha corrido muito bem. O trem não tinha prejudicado a saúde dos velhos, a mãe estava com muito apetite e a tosse tinha diminuído bastante. O navio deverá entrar no porto nesta mesma noite e no outro dia já iria sair para o porto com destino da cidade de Rio Grande. Eles queriam antes visitar o Karlis [ Leiman em Joinville] e então de trem para Ijuí, mas depois parece que apareceram obstáculos e eles iriam direto para Ijuí encontrar o Willis. Como realmente foi a viagem ainda não sabemos. Aquela semana aqui foi de clima ameno e calmo.

Bem desta vez chega, estarei esperando muitas novidades daí. Se você quiser saber alguma coisa mais especifica, escreva.

Agora que nós compramos a propriedade dos Leiman estamos com a família dividida alternadamente ficam alguns lá e outros cá. Eu na minha humilde opinião acho possível que você não esteja interessado nos detalhes de nossa vida aqui, mas se perguntares algo eu responderei pela ordem.

Então finalizando lembranças de todos e fico aguardando muitas novidades. Muitas lembranças de todos e especialmente as minhas. Olga
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[Para transportar a cana em carros de bois se tornava muito difícil pois as mesmas são escorregadias, ocupam muito espaço e são muito difíceis de amarrar, então para facilitar eram feitos feixes da seguinte maneira: Eram feitas argolas pré-amarradas de cipó São João ou outro qualquer bem forte com um diâmetro de palmo ou pouco mais e onde as canas depois de desfolhadas e despontadas eram enfiadas até não caber mais mesmo, isto é até ficar um feixe compacto e firme e fácil para transportar]

Eles eram os únicos parentes nossos aqui… | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 9 de julho de 1922

Querido Reini – Saudações

Recebi a tua a tua carta datada há bastante tempo, mas não quis responder de imediato porquê o Karlis [Leimanis] na última manhã que passou em nossa casa prometeu contar tudo como as rodas giram por aqui para você lá no Rio. Achei que seria muito melhor do que uma simples carta e aqui o tempo continua escasso com tanto serviço para ser feito.

Hoje também não vou escrever muito, pois chegamos agora à noite do último culto dirigido pelo Fritz Leiman e amanhã ele vai embora e nós ainda vamos até Orleans para acompanhar na despedida. Pode ser que o Karlis já tenha contado que o Fritz veio buscar os pais que estão sozinhos e incapacitados para viverem sem acompanhamento.

Nenhum dos filhos queria voltar a morar aqui. Então o Fritz convenceu a ambos os velhos que em indo junto com ele as preocupações cessariam tanto deles próprios como dos demais irmãos que não tinham sossego imaginando como os pais estariam longe e sozinhos. Eles ficaram muito tristes ter que deixar lugares queridos e pessoas amigas. Mas o Fritz com suas brincadeiras e muito bem humorado está tentando minimizar o trauma, pois a mãe não estava com esta saúde toda. Mas a pesada sensação que será a última vez que estarão abraçando os amigos deixa o ambiente muito triste.

A Sra. Leiman veio para o culto ontem à noite e não mais voltou para a sua casa, ficou hospedada na casa dos Ochs. Foram o velho e o Fritz buscar parte da mudança para viajarem amanhã. Tu não imaginas a nossa tristeza, pois se os velhos estão indo embora; os filhos que apareciam aqui eram por causa deles e agora pouco provável que eles por aqui apareçam outra vez. Eles eram os nossos únicos parentes aqui….

Teria muita coisa para escrever, mas está difícil para se concentrar em um momento destes.

Não sei se você vai achar por bem ou por mal, mas nós compramos do Leiman as roças, os animais, a fábrica de farinha de mandioca e todas demais utilidades domésticas. Agora vamos ter que morar alguns tempos por lá. O Fritz como também o velho Leiman sugeriram que também fosse comprado o terreno e lá instalado o tio que deverá vir da Letônia para o Brasil e menos traumatizante para a Sra. Leiman deixar as coisas para os parentes daqui do que vender para estranhos e este tipo de preocupação deixá-la doente novamente.

Se você souber algo sobre a chegada destes nossos parentes tente avisar que nós os estamos aguardando-os aqui.

Já chegaram os parentes dos Auras que vieram da Alemanha. Bem por hoje chega.

O tempo está seco e o inverno está quente e nenhuma geada grande ainda não ocorreu.

Os jornais já chegaram há bastante tempo.

Não se assuste se nós aparecermos por lá. Só não esqueça de encomendar um grande almoço.

O Fritz esteve um domingo em casa e fez um serviço não recomendado (tirou fotos) e depois trouxe os resultados em forma destes retratos quais não ficaram muito nítidos porquê alguns sais de revelação estavam em falta para ele, mas assim mesmo estou mandando para você.

Então até outra vista. Olga