Melodias conhecidas de velhos hinos | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em Letto, linguagem fallada na Lithaunia (Rússia)
[Observação em português no original]

Rio Novo 24 de março (de ?)

Querido Reini,

Primeiramente muitas lembranças de nós todos. Na semana passada recebi uma carta em brasileiro que você escreveu para o Arthur. Naquele envelope só isso e nada mais. Na carta dele tinha uma observação com uma letra bonita numa das partes explicando alguma coisa, mas por motivo da tinta que você usou, ela pode ter sido molhada e a tinta borrou tudo, de modo que quase nada é possível ler. A única coisa que se pode ler é “uma carta em leto ficou… ” [frase em português no original] mas adiante nada mais. Eu achava que pelo tamanho do envelope devia ter mais alguma carta. Tem mais cartas, inclusive uma que eu mandei para Cachoeiro do Itapemirim e outras que não sei.

Nós temos uma nova agente do Correios e ela explicou que as cartas podem ser escritas em leto, só não podem ser escritas em língua alemã.

Nós agora estamos bem e todos com saúde. Semana passada estávamos resfriados, mas agora estamos todos bem. Hoje o tempo está nublado e está chuviscando um pouco. Semana passada inteira o tempo estava muito bom. Nestes últimos meses chovia mais do que fazia sol. Mas agora está chegando o outono e os dias estão ficando mais lindos e mais curtos. Também o sol não está queimando tanto.

O Paps e o Arthur estão roçando o pasto. Semana passada terminamos de dobrar o milho e agora estamos colhendo o amendoim. Estamos arrancando e colocando em cima das toras e madeiras para que sequem, depois vamos debulhar e ver quanto vai render.

O milho este ano está com espigas bem grandes; é pena que boa parte os temporais tenham derrubado. Este verão foi muito tempestuoso: dia 26 de janeiro teve um temporal que derrubou muito milho. No dia 26 de fevereiro teve outra tempestade que derrubou aquelas partes que tinham ficado em pé.

Essa última foi assim: um dia extremamente quente, e lá pelas três horas da tarde começou a soprar um forte vento sul, trazendo grande quantidade de nuvens, e depois de uma hora parou. Mas neste momento ficou muito escuro; quando chegou as cinco horas estava tão escuro que parecia noite. Do lado da serra um ronco contínuo de trovões sucessivos e relâmpagos. O gado, as galinhas e porcos todos vieram correndo assustados para os abrigos, para casa. Aí começou uma chuva que se prolongou noite a dentro. Neste verão os temporais foram muito comuns.

Da igreja do Rio Novo não tenho nenhuma novidade maior. O Oscar Karp casou-se no dia 21 de março, como já descrevi em outra carta. No dia 20 de março houve a festa de aniversário, mas não foi tão grandiosa quanto o Jubileu de 25 anos de fundação que aconteceu no ano passado.

Durante as festas o tempo estava bom, mas não havia tanta gente e nem o programa foi muito longo. A banda de instrumentos de sopro era a local tocada pelos rapazes daqui mesmo. Foram tocadas melodias conhecidas de velhos hinos, mas os comentários da oposição acham que os músicos tinham pouco fôlego.

Acho que você já sabe que o Arthur Leimann mudou-se para a Argentina. No dia 21 de fevereiro ele embarcou para Imbituba, mas o navio em que ele esperava embarcar tinha levantado ferros no dia anterior. Assim ele ficou nove dias à espera de um outro navio para embarcar até a cidade de Rio Grande. A viagem até lá demorou dois dias e uma noite e no dia 7 de março ele mandou um cartão postal da cidade de Rio Grande. De lá para frente ele seguiu de trem e escreveu que fez muito boa viagem.

Bem, por hoje chega. Vou aguardar uma longa carta. Você por acaso encontrou o nosso Diretor, que foi levar o filho para estudar no seu colégio? Alguns falam que ele foi para o Seminário. Por que não escreves quando não tens dinheiro? O Karlis escreveu para a mãe dele que você estava sem dinheiro. A gente fica sabendo por outras pessoas, o que é muito desagradável. Vamos mandar uma parte junto com esta carta.

Muitas lembranças de todos nós.

Olga

Um mutirão de limpeza | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 11 de março de 1919

Escripto em letto!!
[Nota em português no original]

Querido Reinold!!

Recebi a tua carta escrita em 21-2-29 no dia 7 de março. Muito obrigada! As cartas têm ido e voltado bastante rápido. Das cartas deste ano no total são três as cartas recebidas: esta e as de 21 e 31 de janeiro. Como as duas chegaram juntas já mandei a resposta já faz mais de duas semanas, e pode ser que já tenhas já recebido. As tuas cartas anteriores devem estar todas perdidas, mas não posso entender que como as minhas cartas chegam todas e as suas se perdem tantas.

Bem, as tuas férias já acabaram? Com que pessoas você trabalhou? Eram brasileiros? Era longe da Escola?

As camisas ainda não posso mandar porque não tenho o tecido em casa; na próxima vez que for a Orleans irei comprar. Você tem algum modelo especial? Alguma combinação de camisas com as gravatas? Você ainda tem meias? Para aprender a passar a ferro os colarinhos, (avulsos) eu não preciso, pois aqui não temos este tipo de ferro de passar. Se for para aprender alguma outra coisa até tudo bem.

Nós graças a Deus estamos passando bem. Estamos todos com saúde e os grandes serviços já estão terminados. Ontem o Papus e o Puisse estavam roçando o pasto [NOTA: O pasto era roçado com alfanje, também chamada de gadanha; quando o a vegetação era muito grosseira tinha ser com a foice de bico]. Eu e a Luzija estávamos dobrando milho e hoje terminamos a roça lá de perto da ponte [NOTA: A prática de dobrar as hastes de milho na fase de maturação tinha diversos motivos: 1º Deixar mais luz para permitir o crescimento do feijão. 2º Proteger as espigas, evitando a entrada d’água; desse modo, mesmo em colheitas tardias as espigas permaneciam secas e saudáveis. 3º Apressar o amadurecimento em caso de necessidade de uso, quando a colheita anterior tivesse acabado.].

Começamos a trazer para os porcos espigas novas, porque o milho da safra anterior já terminou. Por aí você pode ver que ainda serviço nós temos bastante.

Hoje o Enoz esteve com o seu carro de bois trazendo as tábuas serradas lá do mato até em casa. Semana passada eles terminaram de serrar. Agora todas estão em casa; logo que estiverem secas vai ser feito o forro do paiol e construído um “werkstube” [NOTA: Weskstube. Alemão: divisão ou compartimento de uma fábrica. Área de trabalho de uma fábrica.] em que será colocada a bancada de carpintaria. Os fusos já foram comprados faz muito tempo, mas até agora não tínhamos um local apropriado para estas coisas [NOTA: Os fusos eram usados na bancada de carpintaria para prender, segurar para serrar, aplainar, furar, lixar ou colar peças ou conjuntos de madeira durante a sua fabricação.].

Hoje não tenho muita coisa para escrever. No domingo passado, dia 9 de março, saiu de Curitiba o missionário A. B. Deter, e esta semana já é esperado no Rio Novo. Os rionovenses hoje foram fazer um mutirão de limpeza no templo da igreja para bem receber o ilustre visitante. [NOTA: Neste mutirão era feita também a manutenção dos jardins, das cercas, dos gramados, etc. Nós gostávamos muito porque apesar ser um trabalho muito puxado e chefiado por líder, o mesmo era feito em grupo e saía da rotina cotidiana].

Você pede que descreva todos acontecimentos e isso eu prometo que farei, descrevendo todos resultados.

Semana retrasada houve batismos no Rio Novo. Foram batizadas quatorze pessoas: Elvira Maisin, Ludis, Alvine Sanerip [NOTA: Alvine mais tarde casou-se com Ernesto Karkle. A Marta do Gustavo Zeeberg é uma das filhas do casal], Luzija Sanerip, Emma Burmeister, Aldona Balod [Aldona Balod casou-se com Otávio Fernandes e foi mãe do Cláudio Fernandes de Orleans], Jahnis e Valdis Karklin, Rudis e Natalia Felberg, Jahnis Seeberg [João Seeberg foi pai do Gustavo, da Neli, da Frida e da Irma], Alida Klavin, Hilda Auras [esposa de João Seeberg] e Fanija Topel [A Fani casou-se com o Karlos Paegle e foi mãe do professor Vinicius, da Neli (primeira esposa do Carlos Auras), do Edgar e do Durval Paegle].

Disseram que o João [Frischembruder] de Riga também iria se batizar, mas parece que não quis desta vez, assim dizem. Agora a escola também está funcionado, mas o professor é o mesmo João de Riga, e quando ele for embora depois do “São João” [NOTA: 24 de junho, grande festa na Letônia em comemoração à passagem do solísticio de verão no hemisfério setentrional] a Marta [Marta Anderman Butler, mãe da Dra. Hellen Butler Muralha] vai começar a lecionar. Agora ela em casa está aprendendo português e inglês. O Willis Butler não quer que a esposa seja incompetente quando começar a dar aulas. O Butlers em casa faz tudo. Em casa ele faz até a comida, pois isso ela não sabe fazer: é realmente uma madame de pastor.

Bem, por hoje chega. Deixa para outra vez quando algo de novo tenha acontecido. Escreva bastante para mim. Muitas sinceras lembranças do Papa, Mama, Luzija, Arthur e

Olga