…nesta nossa pequena “Letônia além do Atlântico” | Fatos da América do Sul – 1898

DA AMÉRICA DO SUL
Publicado no jornal da Letônia
Majas Viesis n. 22 (O Visitador do Lar) de 22 de maio de 1898
Traduzido para o português por Valfredo Eduardo Purim
Matéria gentilmente enviada por Brigita Tamuza de Riga
Primeira Parte

“Em Orleans do Sul (encontra-se na província de Santa Catarina no sul do Brasil)”.
Da cidade portuária de Laguna (junto ao Oceano Atlântico, da foz do rio Tubarão até Orleans há uma ferrovia. A estação ferroviária de Orleans do Sul é também o principal acampamento da colônia Grã-Pará e distante de Laguna aproximadamente 75 quilômetros), no sul do Brasil e nos escreve:
Os periódicos noticiam por reuniões sociais noturnas e outros eventos agradáveis. Também nesta nossa pequena “Letônia além do Atlântico” que nós chamamos, isto é, “Rio Novo” e “Rio Carlota”, conseguem nivelar-se com qualquer pequeno agrupamento humano na terra natal. Desde aquele tempo, enquanto aqui chegou um pastor batista leto, ocorreu raro movimento de renovo. Para bem entender a diferença entre o presente e o passado, então devemos retornar no tempo uns 6 anos atrás, quando nós como novos colonos entramos em nossos barracos, trazendo em nosso peito sentimento estranho. Ao desembarcar da composição ferroviária, encontramos alguns batistas letos de levas anteriores de imigrantes, todos com um recipiente ao lado, cujo liquido nos ofereceram alegremente – dizendo: aqui irmãozinho, isto é a nossa bebida. Irmãozinho, ao tomar um gole notamos a repugnância, podendo entender que a bebida oferecida não é própria aos espirituais. Devolvendo o copo, ao receber, à pessoa que 0fertou comenta: sem isto (cachaça – bebida alcoólica feita de caldo de cana, semelhante à bebida da Letônia feita de centeio) aqui no clima quente é indispensável.
Então, como os demais depois de satisfeitas as necessidades materiais não foi de todo difícil construir um pequeno templo e fundar uma pequena Igreja, cujo objetivo dela seria uma cidade no topo de um morro, isto é, viver exemplarmente entre os brasileiros, florir como uma flor branca e com isto chamar a atenção, para quando eles vendo nossas boas obras, aprenderem a nos respeitar. Embora entre nós com dificuldades a imagem deverá ser forte e brilhante.
Nas assembléias da Igreja a questão principal era sobre as bebidas. Boa parte vigorosamente defendia que, o uso de bebidas alcoólicas em publico seriam moralmente [embriagues oculta também. ], outros manifestaram, que seria melhor usar moderadamente. Pelo menos não se apresentar como amantes do álcool (…).
Nestas assembléias restritas havia senso e dissenso. Uns queriam nadar a favor da correnteza, outros discordavam firmemente. Isto não poderia se arrastar por muito tempo. Terra livre e povo livre cada um pode como quer, certamente observando os limites legais.
Assim num belo dia, os últimos levantaram ali perto sua igrejinha, templozinho menor agremiação maior paz. Ouvia-se falar em uma terceira igreja. Porém duas foram suficientes. [ Na realidade naquela época não haviam duas Igrejas, pois a outra era em Oratório que foi outra Colônia de vida efêmera]
Verificamos, que com duas embora com menor número de irmãos, que desmoronava, observando o vasto campo missionário, onde só os pretos pagãos existem, embora eles não saibam em meio a desavenças usar sua liberdade e vivem moderadamente. Entre os católicos nós pretendemos iniciar um trabalho missionário.
Um certo irmão, ainda jovem, certamente imaginando, que com os brasileiros e negros (católicos) pouco há o que fazer e nós não dançamos conforme a sua música, tinha decidido nos deixar ao nosso destino e adentrar as matas junto aos bugres (índios brasileiros) para assim converte-los em batistas (…). Alguns aqui passaram a vida toda sem nunca terem visto bugres, que cada vez penetram mais longe na mata virgem.
Com muitos bons propósitos e maus resultados passaram estes 6 anos, sem um líder e sem unanimidade… Mas, não importando o que cada um fazia e dizia, a Missão Batista de Riga nos mandou o Sr.J. Inkis, para que ele visitasse as colônias de Grã-Pará, Mãe Luzia e Blumenau para revigorar as almas letas entre elas 17 luteranos, todos sem pastor. No ano passado, no dia de S. João o novo pastor pela primeira vez cumprimentou do púlpito os seus irmãos, não importando que recentemente tinha deixado seu bordão de viagem. Ele alegrou-se muito, encontrando seus patrícios materialmente satisfeitos. Ele havia imaginado encontra-los em condições bem precárias. Exatamente ao contrário no lado espiritual e parecia que ele percebeu em curto espaço de tempo – e como competente trabalhador tudo fará para nivelar o terreno. Ele proferiu sermões dominicais, mas não esqueceu os alemães (…). Até agora a “Sociedade das Missões” aqui trabalhava em silencio, espalhando panfletos nos caminhos, onde brasileiros e italianos (católicos) transitavam. (…) Começam os nossos a se unirem. Projetamos convidar da terra natal alguns professores. Nossa nova geração até agora está completamente sem qualquer progresso cultural (…). O Sr. Inkis conduz também as assembléias dos colonos, onde são solucionadas diversas questões sobre agricultura, administração e progresso da colônia.
Agora estamos organizando uma “Expedição” para explorar as redondezas para verificar sua fertilidade para aqueles que possuem áreas menores [isto se refere à incompetência na distribuição das áreas] para conseguirem boas áreas para que tenhamos espaço para todos os tempos, para que os letos não tenham que se dispersar por todos os cantos do Brasil, mas todos, convivendo próximos, pudessem cultivar a fé e a nacionalidade (…). Nós aqui lemos parte livros editados pelo Sr. Frey de Riga. Também não esquecemos das publicações periódicas, nós lemos Majas Viesi (O Visitador), LatvieŠu Avise (O Jornal da Letônia), Balsi (A Voz), Teviju (A Pátria). “

Ass.
Um colono da Grã-Pará

Continua

Depoimento de J. A. Zanerip | Um ataque iminente de índios bugres

Primeira parte

Em primeiro lugar quero aqui contar os fatos ocorridos antes da minha existência, narrados pela minha mamãe. Não posso contar nada que tivesse sido contado por papai, porque ele faleceu quando eu só tinha pouco mais de três aninhos de vida, e do papai quase não lembro nada.

Contou-me Eva Grimberg Zanerip, minha mamãe, que logo depois do desembarque no porto de Laguna, estado de Santa Catarina, um grupo de letos e alemães fizeram uma festa de confraternização. Cortaram duas varas compridas e improvisaram duas bandeiras, da Latvia [Letônia] e da Alemanha, e como os alemães e meus pais eram bons luteranos, encheram a cara de schnabs [cachaça]. No dia seguinte pegaram o trem para Orleans. Por incrível que pareça a foto tirada na ocasião ficou comigo até a festa do Centenário na Colônia Varpa em 1992, quando entreguei ao pastor Osvaldo Ronis, para ser juntada a outros documentos históricos.

Na verdade a chegada dos primeiros letos [ao Brasil, em Santa Catarina] não se deu em 1892, como é narrado incorretamente no livro Uma Epopéia de Fé, escrito pelo pastor Ronis, mas sim em 1890.

Chegando em Orleans seguiram por uma trilha que ziguezagueava dentro da mata até o acampamento já preparado por colonizadores em Rio Novo.

Meus pais e outros letos permaneceram algum tempo por lá, mas não gostaram por ser bastante montanhoso. Alguns letos foram para Mãe Luzia. Os Zanerip, acompanhando alguns alemães, foram mais longe, onde as terras eram mais semelhantes às da Latvia [Letônia]: um lugarejo chamado Araranguá (mais tarde minha terra natal).

Ao chegar ao acampamento, tiveram a triste notícia de um ataque iminente de [índios] bugres, como eram chamados. Sabendo que o ataque seria inevitável, prontamente escolheram um alemão chamado Guilherme Hans para organizar a defesa.

Esse alemão era o mais abastado da região; sabedor que vinha para uma terra ainda coberta de matas virgens, onde havia muita caça, tinha trazido muitas espingardas e muita munição — um verdadeiro arsenal de guerra. Ele determinou que se carregassem as espingardas até a boca com chumbinho mostarda [fino] para não matar ninguém. A uma distância de 100 metros nem atravessa a pele, mas dá uma tremenda chamuscada. O chumbo grosso seria usado em último caso, pois não se queria a morte de ninguém.

Na véspera do ataque a noite passou calma, mas ao amanhecer os índios atacaram com uma tremenda gritaria, e foram recebidos com uma tremenda salva de tiros.

Pobre da bicharada, não puderam sequer se aproximar do acampamento. O chumbinho fino fez uma cortina, e foi suficiente para que os bugres fugissem apavorados, mas foram perseguidos até os costões da serra, e lá se esconderam entre os paredões de rochas.

Na fuga abandonaram uma criancinha, uma menina, que foi adotada e criada por um casal que não tinha filhos, o senhor João Akeldamis e senhora. Mais tarde eu a conheci, era uma linda menina moça.

* * *

[continua…]

«Dictado em portuguez» | Arnold Klavin a Reynaldo Purim

Rio Novo 29 de maio de 1917

Querido amigo,

Faz poucos dias que recebemos sua carta e ficamos satisfeitos por você não ter tido que esperar muito a minha resposta.

Aqui tivemos grandes geadas um tanto inesperadas, pois vieram cedo. Já no dia 11 de maio os pastos e matos amanheceram brancos, matando muito feijão. Ontem teve geada forte novamente.

Na última vez em que o Arthurs [Leimann] foi visitar o Onofre eu queria ter mandado um peru do mato1, mas naquele dia fui caçar e só matei um bugio – e acho que ele não apreciaria. No dia 7 de maio eu e o Roberto fomos ao Morro da Palha caçar porcos do mato (poucos dias antes lá tinham sido mortos três porcos). Andamos algumas horas mato a dentro, até que escutamos sons de buzinas ao longe e nosso guia explicou tratar-se de bugres. Soltamos os cachorros e aí caiu uma grande chuva. Os cachorros correram uma caça, que devia ser uma anta, pois logo em seguida encontramos os seus rastros, mas devido a mais chuvas tivemos de voltar.

O Artur Paegle casou-se no dia 27 com a filha do Hilbert. O Osvaldo Auras noivou com aquela que todo mundo já sabe.

Nas sextas-feiras temos dictado em portuguez [em português no original] e o Arthurs Leimann é o nosso professor. E como cada um vai você mesmo pode imaginar. Estive no Rio Laranjeiras para ver como está o pessoal lá.

O engenho já levantamos e colocamos o telhado. Agora estamos batendo feijão e arando a terra.

Com muitas lembração [em português no original],

A. Klavin2

* * *

1. Peru do mato. Jacutinga?
2. Arnold Klavin. A família Klavim morava entre o Rodeio do Assucar e a Invernada, hoje município de Grão-Pará.