História de Emílio Anderman 4ª Parte –

M E M Ó R I A S

De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

LEIA TAMBÉM EM “CRONICAS HISTÓRICAS” NESTE MESMO BLOG O ARTIGO “MEU PAI CARLOS ANDERMANN”

O TEOFILO COMO MENSAGEIRO

Isto aconteceu no dia 29 de junho, num domingo de manhã. Nós tivemos um culto muito demorado. Ainda estávamos orando a última prece quando o meu irmão Teófilo levantou-se e começou a olhar firme em volta. Até parecia que ele tivesse recebido notícias novas, edificantes. Ele sorria e ao terminar ele nos explicou que recebeu a incumbência de visitar a Igreja Batista para transmitir um recado. Todos ficaram admirados, os crentes se entreolharam e a minha mãe permitiu que ele fosse.
Rapidamente apanhou o chapéu e foi em frente, fechando a porta atrás de si. Depois Jacob Klava me contou o que havia acontecido: “Eu havia terminado o culto quando entrou o Teófilo que se sentou”. Terminado o último hino o nosso visitante se colocou em pé e indo lentamente para o lado da mesa disse:
“Hoje eu tenho de dirigir-lhes a palavra”.
Respondi: “fale”. Ele se aproximou da mesa apanhou a Bíblia eu folheava a procura de um texto. Finalmente se ateve no Apocalipse de S. João, leu alguns versículos e começou a exortar nós para que deixássemos os pecados. Eu respondi que isto nós já havíamos realizado. Depois ele falou sobre a próxima vinda de Cristo e nos lembrou de para que alvejássemos as nossas vestes e nos preparássemos para este acontecimento que seria em breve e que nós não teríamos acesso ao céu se não nos humilharmos perante Deus. Terminada a fala ele foi embora”.

MÊS DE AGOSTO

Todos os Letões, com exceção dos Pentecostais continuamos as nossas horas “de música e canto”. Também neste mês J. F. Frischenbruder nos começou a ministrar aulas noturnas pelas quais pagávamos 2$000 (dois mil reis) por mês.
O Silvestre trocou uma colônia de 25 hectares, por dois e meio da nossa terra, próximos a sua venda. Ampliei a cerca, aumentei a extensão do pasto, e abri uma grande vala para drenagem através da nossa colônia. Em 21 de agosto o meu pai tirou os meus irmãos da escola. Este passo me magoou sobremaneira.
A família de João Sudmalis mudou-se para morar em Mãe Luzia em 7 de agosto. Nós todos os patrícios fomos recebê-los na estação de Criciúma.

MÊS DE SETEMBRO

Os meus tios Karklis por parte da minha mãe, conforme notícias estão se desentendendo. Consta que a minha tia ficou tão nervosa que muitas vezes sofre de câimbras. Recebemos uma carta dele na qual diz que seria muito bom, se por uns tempos, ela pudesse viver em Mãe Luzia, por que a sua saúde estava abalada. Ela viria em companhia de Ernesto; mas em troca mandássemos a Lídia ou Mely para substituí-la na cozinha. Ficamos de acordo.
O tio Rodolfo resolveu viajar para a Linha Telegráfica, para visitar os pentecostalistas e assim conseguir alguma santidade; por que, depois que Strauss foi embora, nossa situação voltou a ser anterior. Como companheira de viagem ele escolheu a minha tia Lídia, que aceitou o convite com alegria.
Juntos tomamos o trem em Palmeiras; Rodolfo e Lídia com destino para Blumenau: eu e Melly para Rio Novo, onde ela ficou de cozinheira e eu Ernesto voltamos para Mãe Luzia.

MÊS DE OUTUBRO

Outra vez chegaram nuvens de gafanhotos que destruíram os nossos pastos e ficaram pulando em procura de um lugar para desova.
Eu e o primo Ernesto trabalhávamos com todo vigor limpando a terra na nossa nova Colônia. Neste mês também faleceu o filho do meu tio João Andermann que apenas teve alguns meses de vida.
O funeral foi dirigido pelo meu avô Ans, numa reunião muito solene; o meu pai e a minha mãe também falaram.
Uma tempestade destelhou a nossa casa.
O meu tio Rodolfo e a Lídia já retornaram de Linha Telegráfica e junto vieram 6 espiritualistas; a Ida, Zelma, o velho Strauss, o Alexandre com sua esposa e um irmão deles. Eles chegaram muito tarde de noite, pois haviam caminhado a pé de estação até em casa; voltaram enlameados, mas felizes por que finalmente chegaram a casa. Os Pentecostalistas já haviam terminado a reunião e este encontro também me deu alegria. A tia Lídia e o Rodolfo contaram coisas boas sobre esta viagem. O Rodolfo recebera o batismo do Espírito Santo e o dom de falar línguas. Também a tia Lídia acompanhou a dança, bateu palmas e também foi contemplada com o dom das línguas, mas em grau menor.

AS REUNIÕES

Agora não se trabalhava mais. Os cultos eram realizados diariamente com as tais manifestações que trouxeram os espiritualistas da Linha Telegráfica. Os nossos Pentecostalistas agora começaram com toda a seriedade, suplicar a Deus e clamar dele o dom destas manifestações extrovertidas.
A primeira reunião aconteceu no dia 15, sábado das 9 as 12. Eu anotei o seguinte: Não tive nenhuma intenção de encontrá-los. Deixei o culto depois das orações. “A profetiza então comandou: “em fila, em fila” então todos formaram um círculo, de cócoras batiam palmas de toda maneira cantavam louvores com ‘tra-la-la-la” em compasso. Passou me um frio pela espinha; por que o que eu presenciava pareceu uma desgraça. As preces, as orações foram sinceras, as línguas faladas eram espetaculares; mas aquela dança, aqueles pulos de louvar eram uma verdadeira loucura.

DIA 16 DE JULHO À TARDE

O culto foi iniciado cantando hinos, mas escolhidos principalmente aqueles que falam do amor de Jesus. Então tiveram início as preces, eles oravam a toda voz; principalmente as mulheres gritando histericamente. Em uma certa ocasião eu lhes disse que Jesus prometeu estar no meio daqueles dois ou três que se reunissem em seu nome; então não era necessário eles gritarem tanto; por que Jesus também ouve as orações silenciosas desde que feitas de “todo o coração”; ao que responderam: “sim, de todo o coração” e eu retruquei: “mas não de toda garganta”.
A Ida entrou para o centro do círculo para confessar os seus pecados; “durante a viagem algum marinheiro havia caçoado dela e ela lhe desejara o mal; em Florianópolis visitaram a Catedral – esta fora uma tentação visual; que ela era bastante forte para carregar a própria maleta, mas dera para o Rodolfo fazê. Depois penitente ela rastejou de membro em membro, osculando as mulheres e cumprimentava apertando e sacudindo a mão de todos; dizendo para cada um alguma palavra de animação ou conforto, como por exemplo: “permaneça sob a Cruz de Cristo” “louve com voz alta e em língua estranha”. Para alguns ela balbuciava sons estranhos, que respondiam da mesma maneira; então de novo a todos saudava: “siberai, samarai, Jeus simeri”. Continuando falar a língua estranha, ela mesmo traduzia o seguinte: “O diabo perseguirá o povo de Deus, zombará dele enganando-vos em nome de Jesus; isto tudo fará a poderosa força enganadora do diabo. Apenas os filhos de Deus serão os escolhidos; separados daqueles que são orgulhosos e não confessam os seus pecados. Muitos enganadores vão se fingir de anjos, mas Cristo vai vencê-los. Cada dia serão mais enganadores a ponto de serem difíceis de se distinguir. O anti-Cristo está para chegar e aqueles que não tiverem o Espírito de Deus não escaparão do castigo. Não tendo consciência do pecado eles não se confessarão e eles gemerão: “há, há, há” etc. Todos então pensarão que eles tem o Espírito de Deus, mas na realidade, enganados estarão se entregando ao diabo. Aqueles que não forem arrebatados sofrerão três vezes mais; serão desmembrados, fervidos em água e não terão para aonde fugir. Então vamos clamar para o Senhor enquanto temos fôlego – hoje! Hoje! Separai-vos do mundo.
A ordem divina é: “separai-vos do mundo! Não falais com ninguém que seja do lado contrário e não pensa como nós; nem mesmo com aquele que contestou com apenas uma palavra”. (Toda a assembleia clama “guado” e chora) “Louvai a Cristo” é a ordem de Ida e agora todos ficam de pé e dançam num bailado louco.
O culto depois do meio dia transcorreu sossegado por que chegou muita gente estranha para ver, mas que não pode entrar.
O culto da noite foi muito bem assistido por que vieram os Adventistas e os Batistas para ver este estranho procedimento. O velho Stekert pediu permissão para entrar. Então consideraram que muitos dos visitantes ainda não tiveram oportunidade de se definirem e o meu avô permitiu a sua entrada.
Todos entraram e sentaram nos bancos colocados ao longo das paredes. No meio da sala estava uma mesinha redonda sobre o qual ardia o lume de uma lâmpada de querosene, iluminando vagamente a sala ampla. Em torno da mesa se postaram os correligionários, abriram o hinário e cantaram. Muitos visitantes cantaram juntos, mas a maioria não participou por que a luz fraca não deixava ver o verso. Quando acabamos de cantar o primeiro entoaram ainda o segundo no que todos acompanharam com devoção; mas no fim do terceiro hino deu a louca na Ida. Ela gritava: “vai, vai, vai” e numa voz desnaturada urrava; gesticulava com as mãos pelo ar e com os pés, distribuindo coices e pontapés, agrediu os visitantes. Todos ficaram estarrecidos, todos foram tolhidos pela dúvida, medo e pavor. Ela estava possessa o seu rosto ficou roxo; ninguém havia esperado por um desfecho desta brutalidade. Foram tolhidos de surpresa e ficaram inertes; até os espiritualistas estavam surpresos. E neste estado de ânimo a Ida começou a gritar: “fora, fora, fora, etc”.
Então todos se levantaram ao mesmo tempo e correram na direção da porta atropelando-se, enquanto a Ida ainda amedrontava os retardatários gesticulando, agressivamente.
A Lídia Tereza, João Karklis, eu fugimos para um quarto; enquanto os outros lutavam para fugir pela estreita porta por que a Ida tentava pegar os intrusos pela garganta. No quarto, tremendo de medo e chorávamos de despeito e de vergonha. A Ida várias vezes quis derrubar a porta, mas nós a seguramos. Esta noite foi a mais tenebrosa que já passei na minha vida até hoje. Cumpre ainda explicar que a palavra “louvar” – queria dizer que os crentes em pé deviam pular sobre o assoalho, bater palmas com o barulho mais intenso possível.

A MINHA VIDA COTIDIANA

Esta foi a primeira e desesperada dor que eu senti na minha vida. A minha tia e o Ernesto voltaram para Rio Novo por que não queriam aderir ao movimento. A Mely que lá estava de cozinheira, regressou a convite da tia Lídia e aderiu ao movimento com toda a força do seu coração. Tudo isto me causava muita mágoa e descontentamento quando percebi que todos os meus aderiram a este movimento avassalador. Isto me deixava muito triste quando eu percebia que eles lutavam com todas as sua forças para alcançar um estado de graça imaginário.
Os ovos de gafanhotos já estavam abrindo depois de chocadas e os filhotes saltitavam pelas nossas lavouras e plantações que eu havia cultivado com tanta dificuldade. Durante a noite eu acendia fogueiras cuja luz os atraia e as chamas queimavam; como também cerquei as lavouras de velas para impedir o seu progresso. Tudo isto eu fazia sozinho por que toda a minha família passava o dia em reuniões de oração e de louvor, cuja alegria era demonstrada num bailado exótico e bárbaro batendo os pés no chão e batendo palmas. Mas fiz este sacrifício com toda a paciência.
Eu vivia aborrecido e magoado, sem qualquer esperança no futuro desejava ter morrido já há muito tempo.
A única atividade espiritual que ainda me interessava era a nossa “hora musical” e outras reuniões realizadas com frequentadores selecionados. Nós tivemos várias reuniões, deste tipo, com a finalidade de angariar recursos para os Letões necessitados destroçados pela guerra e conseguimos coletar 600$000 (seiscentos mil reis).

O MÊS DE DEZEMBRO

Os Pentecostalistas continuaram a ter as suas reuniões na mesma rotina. A tia Paulina, minha irmã Mely Zelma, Elza e o Teófilo receberam os dons das línguas e os restantes, que ainda não tinham recebido o batismo do Espírito, lutavam com todas as forças para consegui-lo. Estas reuniões se tornaram uma verdadeira loucura. Nelas todos gritavam, urravam e clamavam em vozes desesperadas.
Não consigo esquecer-se de um culto noturno no qual a minha mãe chegou a desmaiar de exaustão. Continuavam as reuniões naquela ampla sala da casa do meu avô. Entre aqueles que lutavam com todas as forças para conseguir aquele batismo também estava a minha mãe. Quando entravam em estado de transe e então começavam a dançar, eles empurravam a minha mãe para o centro do círculo e a Ida repetia com insistência: “tenha fé, não perca a coragem”. Quando a minha mãe ficou totalmente tonta, então se aproximava a Zelma Straus, segurava as mãos de minha mãe e ai ficou rodopiando; no entanto mamãe não resistiu por muito tempo, começou a cambalear e a outra não teve forças para ampará-la. Então ambas caíram no chão, mas ainda no solo ela rolava e tremia.
Nesta ocasião eu não participei e observei o espetáculo pela janela e eu senti ódio contra a atuação destes profetas miseráveis. Fiquei tomado de ira e senti um grande desejo de vingança. Minha vontade era pular a janela e dar um a surra na Ida, mas o João Klava me dissuadiu.

FUI CONVENCIDO

Muitas vezes eu discutia com eles sobre um ou outro assunto que percebi em desacordo com a verdade bíblica. Mas eles se defendiam e me deram para ler uns caderninhos onde, com todo o cuidado, foram selecionados estes versículos:
Mateus 11:25; I Coríntios 1:28; Ev. São João 15:18; Isaías 66:2
Sobre humildade
Ezequiel 43:3; Josué 5:14; Daniel 10:9 e 8:18; Apocalipse 1:17
Sobre clamor
Hebreus 5:7; Gênesis 41:55; Êxodo 2:23 e 22:23; Ezequiel 58:9
I Samuel 15:11; II Samuel 22:7; Mateus 21;9; Habacuque 1:2
Salmos 39:13 – 40:2 e 145:19
Espírito Santo
Atos 2:16-21; I Corintios 2:13; Salmos 50:8; Evangelho João 4:14; Lucas 12:12; Joel 2:23
Sobre a o oração
Atos 3:8 e 5:41; Isaias 35:6 e 32:4; Lucas 6:23; I Pedro 4:13
Juízo Final
Romanos 2:5; Mateus 14:12; Evangelho 15:18
A sabedoria do arrependimento
Provérbios 1:7,29,20; 2:6; 3:35; 28:26; Jeremias 9:23.
Mas não era apenas pela leitura destes versículos que eu fiquei convencido. Cheguei a um relacionamento melhor com o Alexandre Silmanis, cuja natureza tranqüila eu admirava. Com empenho e perseverança eu consegui aniquilar parte dos pequenos gafanhotos e continuei trabalhando animado o campo. Nos momentos de lazer, entre uma reunião de oração e outra, o Alexandre e mais outras vieram me ajudar. Então em mutirão nós capinávamos as ervas daninhas e falávamos sobre assuntos espirituais. Esta troca de ideias me pareceu tão aprazível e tão querida. Cheguei a conclusão que ainda me faltava muita espiritualidade plena e observando a minha vida “morna” me sentia envergonhado.

Comecei a pesquisar as Escrituras e a minha oração a Deus soava: “Senhor, quero estar mais perto de ti”. É verdade que nas convicções destes irmãos encontrei muitos desvios; mas, os considerei em nível superior dos membros da Igreja Batista.
Também me entristecia aquela posição demonstrada pelos meus companheiros contra esta gente desorientada e a minha mente estava tão cheia de dúvidas e tristezas que, numa tarde, depois do culto eu me ajoelhei e extravasei toda a minha dor. Aquelas eram as labaredas da purificação que inundaram o meu coração. Era remorso, dor e arrependimento por causa dos meus pecados e também eram uma nova perspectiva do novo rumo no caminho da fé. Então me agarrei com mais força em Jesus Cristo. Mas ao mesmo tempo eu me encontrava no meio destes fanáticos e agora fui obrigada cumprir todas aquelas cerimônias. Esperando que tudo se acomodasse no futuro assisti tudo com paciência, mas vendo alguns erros, não consegui me manter calado. Eu apontei uma e outra profecia que não tinha se realizado e esta ousadia não agradou aquela gente, no entanto eu aderi ao grupo, mesmo contrariado, por falta de outra opção, embora sentisse algum remorso no coração.

AINDA REFERENTE AO MÊS DE OUTUBRO

Encontrei algumas anotações que agora transcrevo.
Uma semana antes do regresso do tio Rodolfo e aqueles espiritualistas que o acompanharam, através da intuição espiritual eles foram mandados para alguns locais. O primeiro foi uma visita ao tio Sigismundo em Tubarão. No encontro com ele o Alexandre, entre muitos outros sons incompreensíveis balbuciados, em leto, disse o seguinte: (creio que foi a tradução daquela língua estranha):
“Que na França o anticristo está perseguindo os cristãos. No Brasil ele mandaria os
crentes para as ilhas desertas do oceano onde os fritara na frigideira de Sodoma e Gomorra,
mas destes fiéis apenas três serão arrebatados (salvos)”.
Depois houve a manifestação da Ida, da qual contarei apenas a tradução em Letão:
“Zarau A O; Zarau A O; Zarau está a postos para aproximar de Cristo. Zarau está condizendo em fila de três em três. Lançai vós todos nas águas cristalinas do batismo de imersão três vezes repetido; para aliviados, com o coração purificado correrem em direção de Cristo. Três mostrarão amor; três terão as vestes alvejadas pelo Sangue do Cordeiro. O tempo está se esgotando pregai a verdade para aqueles que têm sede, mas ignorai aqueles que esperam na beira do caminho; por que para aqueles que são orgulhosos não há salvação” “Ainda existem aqueles que sentem tristeza, mas o fim está próximo. Cristo vai abrir aqueles Livros, Cristo lerá o livro, Cristo chamará pelo nome. O Zarau virá receber aqueles que Cristo mandar. Quem virá buscar é o Zarau por que Cristo permanecerá nas nuvens. Entra no círculo, apressa-te para entrar no círculo que já está se afastando”.
Fala de Rodolfo para o irmão Ziguismundo: (uma mistura de sons de língua estranha entremeada palavras letas que ora traduzo).
“Sera soltar outro. Vai hoje; vai hoje Tubaron. Será to, to, sera. Fala Ziguis. Prepara-te Ziguis; ziguis digo casa, depressa, depressa. A Marta (outra irmã morando em Curitiba) virá. Volte a cavalo, depressa, rápido :: livros :: ache, ache livros fora”. No mesmo dia eles retornaram.

Então desta fala de Rodolfo, Sigismundo chegou a conclusão que o tio Rodolfo estava convidando ele pra voltar a Mãe Luzia e a outra irmã Marta também aderiria ao movimento. No entanto eles nada conseguiram por que o tio Ziguismundo estava com o seu juízo perfeito.
Mas estas falas impressionaram o meu pai erradamente e ele começou a queimar os livros da sua vasta biblioteca pastoral. Consegui salva uma parte encaixotando e levando para a casa João Arajs e também o harmônio foi salvo das chamas.

ESTE CULTO DEMORADO

Este reunião se prolongou por muito tempo e eu tenho interesse de descrevê-la para que fique guardada alguma coisa para o futuro e os leitores prevenidos não passem por uma experiência igual a esta.
Todos começaram a apelar a Deus em oração, sem qualquer ordem, urrando, gemendo, gritando e ganindo. A Ida como desvairada grita com toda a força da sua garganta e em tom de exigência apela: “Venha Jesus, venha nos ajudar”. Após alguns momentos a Ida iniciou a sua fala em voz grave e gutural em línguas estranhas; depois clama: ”Alexandre você tem de vir para o centro”. Então todos os demais começam a orar por ele até que ele também inicia a sua fala estranha. No meio deste conjunto de sílabas incompreensíveis apenas anoto as que consigo assemelhar: “Leia já, leia logo. Orosanga. De Tubarão chame o irmão depressa”.
Novamente a Ida está falando algo em voz baixa e logo depois exclama irada: “Os crentes estão sem entusiasmo, não, não, não, isto não pode ser assim, isto não dará resultado, assim não vamos alcançar o objetivo”.
Então todos os crentes clamam a Deus pelo avivamento. A Ida ora: “Senhor fala, fale para nós de modo que possamos entender as suas ordens”.
Ida chama o Rodolfo para o centro, todos os presentes apertam o círculo para bem próximo onde ele está para colocar a mão direita sobre os seus ombros e o braço esquerdo levantado para o céu; todos clamando com toda a força: “Jesus, abençoe-nos e oriente os nossos passos”.
Rodolfo começa a balbuciar enquanto lhe tremia o corpo todo a ponto de inspirar medo:
“Amanhã Sig. Tubarão, viaje depressa Rud., depressa. (enquanto Ida dizia – fale com clareza – mande Rudi. Vem tristezas, rápido, rápido; Rodolfo, Marta, Marta, depressa rápido depressa rápido; o tempo se esgota; Burrigo, Seeberg; chame a Marta) agora falará o Alexandre: “Há gemidos em Tubarão, Rudi, depressa, depressa, mandará Rudi trabalhar para juntar, juntar aqueles que ainda faltam. Orossanga. Ir converter para Cristo batizando, porque Kris, virá breve, não há mais tempo.

O Ziguis de longe esta observando com tristeza indeciso, espera ajuda. Haverá muita tristeza, muita dificuldade. Pastoreie o rebanho de Cristo. Tudo está sendo entregue ao poder do diabo; não está bem. A cruz de Cristo”.
Então agora eles também deveriam ir para Urussanga e assim aconteceu. Vários deles chegaram lá, mas não sabiam qual seria a casa indicada e para ter esclarecimento oraram, recebendo logo a intuição onde seria. Entraram, leram a mensagem, falaram alguma coisa, mas voltaram sem qualquer resultado.
Mais uma vez e agora o meu pai foi mandado para falar com Siguismundo, mas ele não atendeu ao convite para regressar e o que causava espécie é de que aquelas mensagens truncadas não se cumpriam; insistentemente eram mandados outra vez para insistir em arrancar aqueles últimos, que diziam ter, alguma esperança de salvação.

EU VOLTEI A REFLETIR

Causava-me muita mágoa o fato de que os meus irmãos não percebiam este engodo, continuando na sua teimosia como se estivessem imobilizados.
Tinha lutado tanto para conseguir me converter, mas logo que os profetas foram embora eu comecei a falar da minha convicção declarando abertamente que a dança ou bailado e o ato de enxotar os interessados, a profetização e as suas inquisições previstas eram totalmente errôneas.
Muitas vezes eu discuti com a minha mãe e isto me deixava muito magoado. Ainda tive uma experiência com A que me moveu a não frequentar mais aqueles cultos. Por isto a minha irmã Mely Zelma por mim verteu lágrimas.
O João Klava que por causa desta minha adesão aos Pentecostalistas e que muito se preocupava, agora, diante da minha atitude, ficou feliz. O pastor Diter havia conseguido a sua matrícula em uma Escola de Paranaguá e ele me convidou para que eu fosse junto com ele, mas fiquei em dúvida se sem os recursos financeiros necessários nós conseguiríamos o nosso intento. Sobre este assunto eu orei muito a Deus.


ANO DE 1920

Foi designado um novo campo de trabalho para os profetas, os outros correligionários viajaram em grupo para a Linha Telegráfica, mas o Alexandre, Rodolfo e Ida foram mandados continuar o trabalho em Ijuí, RS.
Eu guardei apenas uma fala deste período:
“Alexandre Raisi Brasil. Cristo está mandando insistindo. Cristo ainda mandará, vai depressa perigo de morte. O perigo está chegando e alcançará a todos. A Ida lerá”.
Obedecendo a estas falas que se repetiam eles se sentiram enviados para esta viagem e eu os levei de carro de boi até Campinas . Minha irmã Mely Zelma também nos acompanhou, por que, ao retornar, queríamos adquirir e trazer para casa farinha de mandioca. Chegamos ao destino, deixamos lá o carro e os bois, pernoitamos e no dia seguinte prosseguimos. O tempo estava limpo e nos sentíamos felizes.
A estrada ficou muito arenosa e assim apenas ao meio dia chegamos ao local ao qual eles se sentiam convidados. Estávamos muito cansados, e tínhamos ainda outra preocupação, não tínhamos a certeza do que iríamos fazer exatamente. O Rodolfo sabia ler no idioma português, mas nenhum deles estava preparado para falar; eles aceitaram como obrigação o fato de ter que esperar uma inspiração e continuavam a andar a pé cada vez mais longe.
Também não podiam cantar, por que entre aqueles profetas, apenas o Rodolfo tinha a voz afinada. Em casa nós fizemos conjecturas de como é que eles iriam chegar em Ijuí.

Tinha lutado tanto para conseguir me converter, mas logo que os profetas foram embora eu comecei a falar da minha convicção declarando abertamente que a dança ou bailado e o ato de enxotar os interessados, a profetização e as suas inquisições previstas eram totalmente errôneas.
Muitas vezes eu discuti com a minha mãe e isto me deixava muito magoado. Ainda tive uma experiência com A que me moveu a não frequentar mais aqueles cultos. Por isto a minha irmã Mely Zelma por mim verteu lágrimas.
O João Klava que por causa desta minha adesão aos Pentecostalistas e que muito se preocupava, agora, diante da minha atitude, ficou feliz. O pastor Diter havia conseguido a sua matrícula em uma Escola de Paranaguá e ele me convidou para que eu fosse junto com ele, mas fiquei em dúvida se sem os recursos financeiros necessários nós conseguiríamos o nosso intento. Sobre este assunto eu orei muito a Deus.

A MINHA VIDA

Nós passamos a frequentar tardes Letas a fim de juntar algum dinheiro para presentear os necessitados daquele país. Os alemães já foram embora, mas no seu lugar ficaram os comunistas.
Os gafanhotos também devoraram tudo do pasto e da lavoura, e sobre a atividade agrícola não depositava mais nenhuma esperança e eu estava cansado de insistir. Uma vez que o Germano Skoolmeister contratou com a Prefeitura a construção da estrada que ia passar atrás da casa do meu avô, me engajei com ele para trabalhar naquela obra. Comia na casa dos meus pais. O trabalho era muito pesado. Cavar com a pá e depois jogar aquela terra longe não era tarefa fácil principalmente para mim um jovem. De cansaço doíam os ossos e até parecia que não poderia suportar, mas criei coragem e insisti. Trabalhava-se 9 horas por dia, iniciando-se a jornada bem cedo de manhã. Eu ganhava 4$000 (quatro mil reis) por dia, trabalhei um mês inteiro e recebi o total de 105$000.
A minha família mudou-se para a casa dos meus avós. Enquanto os profetas estavam ausentes, o seu lugar de liderança foi ocupado pelo irmão Teófilo e Mely Zelma. Através daquele linguajar foi ordenado que deveriam viver em comum sob o mesmo teto. Meu avô aceitou esta manifestação com desconfiança, mas obediente consentiu. Eu mesmo ajudei transportar os utensílios e a mobília para a nova habitação e fiquei morando sozinho na casa antiga em companhia de um relógio de parede que batia as horas. Vivia e trabalhava solitário, mas ia fazer as minhas refeições junto da família. Andava triste e sem objetivo, mas havia uma vantagem, não precisava mais acordar com aquela barulheira de bailado infernal da louvação. Este episódio também nunca esquecerei.


EM FEVEREIRO DE 1921

Mais uma vez os profetas retornaram. Não sei como eles conseguiram chegar em Ijuí (R.G. Sul), mas sobre a sua atuação naquela Colônia Leta não recebi nenhuma informação. Depois desta visita eles pegaram o navio em Porto Alegre e desceram no porto de Itajaí e voltaram a Linha Telegráfica. Em Rio Branco, um lugarejo que se situava próximo, eles primeiro visitaram o Graudim e o seu grupinho formado de Letos e Alemães que professavam a mesma crença de Pentecostes, mas verificaram que este grupo havia se separado do outro da Linha Telegráfica. Então houve cisma.
Com muita tristeza o tio Rodolfo contou:
“O diabo com tanta eficiência imita o Espírito Santo de Deus, que se torna difícil distinguir o certo do errado. Eles também falam línguas estranhas, dançam em louvor a Deus ainda mais forte de que nós; no entanto, foi nos revelado claramente que eles estão possuídos pela força do mal. Vejam quanta escuridão está cobrindo a terra. Torna-se quase impossível distinguir qual é o verdadeiro Espírito Santo”.
O Rodolfo agora está possuído por aquela força. Fora eleito o principal profeta e chefe. Teria falado com Deus rosto a rosto. Fora-lhe anunciado que ele seria uma das testemunhas na Nova Jerusalém e estava tão convencido disto que solicitou um plebiscito dos fieis com a pergunta: “Tu acreditas que eu sou um daqueles testemunhas, que eu serei torturado e morto, e depois arrebatado para os céus? E como uma prova de que as suas palavras eram verdadeiras ele mandou que a chuva parasse (e que realmente isto aconteceu conforme testemunho deles)”.
Mas agora depois de ter regressado a Mãe Luzia ele estava pálido e adoentado e mal podia assistir as reuniões.

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História de Emilio Andermann – 3ª Parte

História de Emílio Andermann – Sua Juventude

3ª PARTE
M E M Ó R I A S
De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

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DO MEU DIÁRIO EM 19.11.1918

Antes daquela festa de jubileu a que me referi, congregávamos em ‘horas musicais”, mas depois daquela festa passaram semanas e a respeito desta diversão não se falava mais.
Agora eu tentarei levantar outra vez este movimento, embora esteja tão jovem que isto torna o resultado imprevisível.
Para reunir os ouvintes eu escrevi uns convites em tirinhas de papel para serem distribuídos aos patrícios:
“NO SÁBADO, ÀS 7,1/2 DA NOITE
TEREMOS UMA “HORA MUSICAL” NA
CASA DE ANS ANDERMAN. TODOS
ESTÃO CONVIDADOS.” VAMOS CANTAR
DO LIVRO: JOIAS MUSICAIS.
Além desta iniciativa ainda tenho muito trabalho pela frente por que quero iniciar um movimento para criar uma Escola. Se o professor Busman quisesse assumir o cargo durante um ano, isto traria um beneficio geral, principalmente para nós os adolescentes. Quanto eu gostaria de ter sido mais instruído, conhecer ciências, ter uma base gramatical para expressar melhor os meus sentimentos. O meu ideal é fazer alguma coisa para trazer mais vida no relacionamento da nossa colônia.

O ANO DE 1919

Neste ano ingressei com novas forças e mais entusiasmo. Encontrei na minha vida mais determinação, mais coragem. Comecei a observar tudo sob uma nova ótica e tudo me parecia mais acessível que no passado. Também enfrentei muitas tempestades. Sobre mim rolaram pesados acontecimentos, mas todos estes acontecimentos desenvolveram nhás forças e criaram em mim a coragem para erguer-me firme sobre os meus próprios pés.
Para a festa de passagem do ano chegaram visitas do Rio Novo. Nós esperamos a entrada deste ano conversando, cantando, tocando e aquelas visitas muito enfeitaram a nossa reunião. Eram cerca de 7 pessoas e entre eles estavam J. K. Frischenbruders, a Zelma e Alexandre Klavim.

EM 1 DE JULHO DE 1919

Encontrei o Pedro Skolmeister. Eu tinha muita admiração por ele e tive o privilégio de tê-lo como companheiro. Ele era um pensador e dizia:
“RACIOCINANDO O HOMEM PODE ENCONTRAR MARAVILHOSAS IDÉIAS DE PROFUNDIDADE E ELEVAÇÃO”.
PENSANDO ELE PODE ENCONTRAR FATOS EM QUE FUNDAMENTAR AS CONCLUSÕES.
“CADA ASSUNTO TEM O SEU INÍCIO, MAS AO ENCONTRÁ-LO O JUÍZO PODE DESENVOLVER IDÉIAS MARAVILHOSAS.”

EM 15 DE JANEIRO DE 1919

Os membros da Colônia combinaram viajar, de carro de boi para Araranguá para frequentar a praia do mar. Isto já havia acontecido anos seguidos quando os patrícios iam para tomar banho. Neste verão várias famílias combinaram viajar junto. Nosso carro era puxado pelos bois Amori e Ledi. Foi uma viagem penosa por causa da estrada mal conservada, mas ao chegarmos à beira do mar foi muito agradável.
Armávamos barracas e ficávamos acampados vários dias. O ar marinho, os banhos na água salgada deixam impressões duradouras sobre o corpo e o espírito. O apetite aumentava e o estado de saúde melhorava.
Era agradável passear e correr pela beira d’água, subir as alvas dunas e depois deslizar até em baixo, catar e comer araçá e outras frutas. Formávamos um grupo de 28 pessoas na maioria jovens e saudáveis então durante a maior parte do tempo demos rédeas a nossa animação. Alguns adolescentes correram para ver um navio que havia encalhado, para assistir o trabalho de devolvê-lo ao mar.
Encontramos uma velha canoa que consertamos cuidadosamente no dia seguinte, e então tentávamos navegar. Tentamos ganhar o mar aberto, mas a canoa quase se encheu de água. A esta dificuldade ainda deve se acrescentar que não tínhamos remos, apenas estacas para movimentar a embarcação. No mar aberto balançando sobre as ondas alguns companheiros ficaram enjoados.
No dia seguinte repetimos a proeza, mas desta vez uma correnteza tentava nos afastar da costa o que tornou a volta muito penosa.

EM 19 DE FEVEREIRO DE 1919

Até que a sementinha da escola germinou. Alguém assumiu a ideia e todos os vizinhos se reuniram para estabelecer as bases. A principio pensou-se em construir prédio para este fim, mas depois a ideia foi afastada por que os interessados eram em número pequeno.
O Jakob Klava então se prontificou a ceder a sala para as aulas e a família Zeeberg prometeu acolher o professor. Então fizemos uma relação de contribuições mensais para pagar o salário do professor: Kauling daria 10 mil reis; Burigo 5; Silvestre 5; Bernardo Keste 8; Akeldamis 6; Sudmalis 2; Klava 15 e nós 15 perfazendo o total de 70$000 (setenta mil reis) por mês.

EM 1 DE MARÇO DE 1919

A minha mãe começou levar no carro de boi produtos da nossa lavoura para vender aos trabalhadores das Minas de Carvão em Criciúma. Ela também comprava alimentos para nos abastecer. Muitas vezes eu a acompanhei nestas viagens.
Naquela época eu acreditava piamente nos sonhos, anotava o seu conteúdo e depois estudava. Por um milagre, as minhas interpretações aconteceram. Quando eu via um sonho, este me servia de aviso e premunição assim os eventos me pegavam preparado.
Eu mantinha uma forte relação de estima com os meus amigos. O Alberto Buks[ Books], entre eles, era o melhor. O João Klava também era um companheiro inseparável. Eles vinham me visitar e eu retribuía a gentileza. Quando reunidos tocávamos música; ou então discutíamos algum assunto importante. Um dos nossos assuntos preferidos era falar sobre a Letônia. Lamentávamos os seus sofrimentos e na hora da angústia, seríamos capazes até sacrificar as nossas vidas em benefício daquele povo. As nossas reuniões deixaram na minha mente recordações indeléveis.

A SEGUNDA VIAGEM DE MEU PAI PARA LINHA TELEGRÁFICA
EM 12 DE MARÇO DE 1919

Naquele momento já estavam terminados os essenciais trabalhos na lavoura; o milho já estava bem crescido a ponto das ervas daninhas não conseguirem mais superá-lo; feijão, arroz e outras semeaduras também já estavam crescendo. Faltava ainda plantar o Capim Serrano, cuja característica é crescer e manter-se viçoso mesmo em baixo de geada.
As outras atividades como limpar o pasto eu podia fazer sozinho e assim, realmente, este período do ano era o mais favorável para ele se ausentar.
Já fazia várias semanas que Graudin lhe mandara uma carta solicitando a sua presença urgente. Então nos parecia que todas as dúvidas se esclareceriam e com alegria despedimo-nos dele. Eu e a irmã Mely Zelma fomos fazer uma rápida visita a Rio Novo. No dia 20 de março lá houve uma festa da Igreja Batista local e então encontramos todos com saúde e disposição. Os filhos do Karklis trabalhavam ativamente na construção de um moinho. Quando regressamos em nossa companhia veio o Carlos Ignausky, Alida Klavim e também um irmão do Karklis. Esta foi uma viagem aprazível e agradável.

EM 4 DE ABRIL DE 1919

Nós, lá em Mãe Luzia, estávamos nos preparando para a Páscoa. O João Klava, que entre nós os jovens era o mais diligente, coletou 14 mil reis para cobrir as despesas da festa. Para esta festa veio de Rio Novo, Carlos e Filipe Karklis e este último ficou comigo para me ajudar.
Juntos colhemos feijão, serramos mourões de cerca e limpamos o pasto de ervas daninhas. Foi nesta época que eu comecei a escrever as primeiras cartas.

EM 5 DE MAIO DE 1919

Iniciamos a colheita do arroz. Neste outono o trabalho corre agradável e proveitoso. Compramos 3 vidros de mel.
A nossa vida espiritual corria monótona. Para frequentar as reuniões Batistas a nossa família não comparecia. O tio Rodolfo com todo o coração se apegou ao hábito de amealhar riqueza; única ocasião de convívio agradável era a “hora da música” por que então todos participávamos independentemente do credo. Estávamos nos aperfeiçoando em tocar em conjunto, mas Rodolfo que era o nosso dirigente perdeu o interesse pela música.
No dia 12 chegaram em visita o Ditter [A.B Deter era um missionário Americano sediado em Curitiba para tomar conta dos campos do Paraná e Sta.Catarina] e o Butler com a tia Marta. O Ditter trabalha há 7 anos como Missionário e agora ele deseja evangelizar o Paraná e a Santa Catarina. O seu sermão é poderoso e cordial, e pleno de suas experiências missionárias. Nós viajamos para Campinas e lá tivemos um culto. No dia 18, um domingo, nós tivemos uma reunião para reorganizar a Congregação Batista.
Elegemos o tio Rodolfo como líder que declinou do convite e assim continuou o Jacob Klava – me elegeram como secretário. O Stekert e o João Klava foram eleitos tesoureiros, para diáconos foram eleitos o tio Rodolfo e um outro filho do Klava.
Realizamos um culto de Evangelização em Nova Veneza, quando foi batizado o Eduardo Klava. O William Butler prometeu dar assistência pastoral, e assim como eles vieram também foram embora no dia 19.

A CARTA DE PAPAI

A carta de meu pai do dia 20-V-19 chegou cheia de notícias dos acontecimentos espirituais da Linha Telegráfica. Ele também falou de danças, bater palmas, e as manifestações espirituais de falar línguas estranhas.
Isto me deixou uma impressão péssima, mas não quero lutar contra uma coisa que eu não conheço.
Eu tinha todo o meu tempo tomado pela colheita e o transporte do milho para o celeiro.
Os meus dois companheiros de trabalho Amori e Ledis foram inutilizados por causa da negligência e maus tratos de Pietro Ronzani e por isto estou trabalhando com os cavalos de Burigo. Eu não poderia ficar sem tração animal e por isto comprei uma mula de um Serrano por 200$000 (duzentos mil reis) e outro em Rio Novo do Filipe que eu fui lá buscar.

RIO NOVO, 29 DE MAIO DE 1919.

Em Rio Novo havia uma festa sazonal de tradição Leta, então fui para lá com a intenção de participar; onde, com grande surpresa, encontrei o meu pai em companhia de R. Strauss, que recentemente haviam retornado de Blumenau. Lá o meu pai permaneceu 77 dias; ou 11 semanas; ou então 2 meses e 12 dias. A minha permanência em Rio Novo foi muito feliz e agradável; com a minha irmã Mely perambulamos outra vez por aqueles montes aprazíveis, conversando como meu pai, no ar livre, respirando aquele puro ar de montanha. Em contraste também sentíamos tristeza por que o velho Stekert [Sobre este episodio existem algumas lendas que ainda não foram esclarecidas] fora assassinado dentro da sua casa.
Todos nós depois voltamos para Mãe Luzia, inclusive a Mely, que temporariamente hospedada em casa de parentes frequenta uma escola, por que o meu pai não achou prudente deixá-la longe de casa.

Como as montarias não chegavam para todos, então, alternadamente também andávamos a pé. O Strauss parecia tão tagarela como se fosse um garoto; ele falava sobre Jesus, a sua vida humilde, etc.
Nós chegamos em casa às 3 horas da madrugada, tínhamos viajado 13 horas e por isto estávamos muito cansados; mas ao encontrar os familiares a alegria venceu a fadiga.
Na manhã seguinte todos foram assistir os funerais da velha Seeberg. Eu fiquei em casa por que desejava tocar o harmônio na casa dos meus avós. No momento que sentei, chegou perto de mim a minha avó Ana e disse:
“Deus na sua misericórdia também mandou
para nós um profeta que através do Espírito
nos falou sobre aquela sua “hora de música”
e “hora do canto”e disse que isto atrasava
o batismo do Espírito Santo e que por isto,
a partir deste dia, este divertimento estava proibido.”
Nada respondi por que assim fui educado; mas então percebi que entre “os nossos” e os remanescentes dos Batistas tradicionais todos os laços haviam sido rompidos. E não deu outra coisa, os Pentecostalistas frequentavam o seu culto de domingo à tarde; mas interromperam qualquer contato com os Batistas; parece que se sentiam mais santificados sob a liderança do Rodolfo Strauss, aquele que veio com meu pai de Rio Novo, de quem nunca se ouviu falar coisa boa, e sim de que era um homem ruim.

RODOLFO STRAUSS

Ele era de estatura mediana, um rosto magro e pálido, os lábios intumescidos, olhos castanhos, falava num tom de voz áspero e os seus argumentos eram inflexíveis. Saíra de casa muito jovem, sua profissão era de ferreiro, e havia morado 3 anos em São Paulo.
Como seu ajudante, junto com ele, nós forjávamos utensílios de uso domésticos, ele me contou muita coisa de sua vida passada; que havia sido repulsiva e escura.
Papai o encarregou da função de dirigir os cultos; e ele literalmente despejava opiniões contundentes que desagradava os ouvintes e deixava uma péssima impressão. Mas apesar da sua ignorante falação agressiva e contundente angariou muitos ouvintes do mesmo grau intelectual do dele; mas assim mesmo queixavam-se de que ele os simplesmente apedrejava.
Vou transcrever uma fala sua que transcrevi em 15. VI.19:
“Os nossos atuais pregadores estão longe daquela humildade e do verdadeiro amor que Jesus possuía. Nos Seminários e Colégios eles aprendem a sabedoria do mundo; convencidos de que amealharam a sabedoria e o amor Divino.
Eles não sabem que a verdadeira sabedoria somente se pode conseguir humilhando-se na presença de Deus, com muitas lamentações e lágrimas. Veja o exemplo de Jesus, como ele andava sobre a terra usando apenas uma túnica, era paciente e misericordioso.
Ele nem sabia onde apoiar a sua cabeça. O seu único objetivo foi cumprir o mandamento do seu Pai e Ele dizia:
“aprendei de mim…”
Pergunto se os nossos pastores estão seguindo este exemplo de Jesus? Eles são instruídos, tem nível de vida elevado, são orgulhosos; usam trajes senhoriais, calçados lustrosos, óculos de ouro em cima do nariz e não pregam por qualquer ninharia em dinheiro.
Eles são ricos, abastados, nada lhes faz falta, moram em mansões e passam o tempo catando alguém para batizar.

Escrevem e se promovem através de jornais, dizendo:
“eu batizei tantos… e tantos…”
e como se isto não bastasse, não batizam mais em rios como antigamente e sim em banheiras de luxo, fazendo do batismo um espetáculo teatral, com todo o conforto.
Quando distribuem a ceia do Senhor, não podem mais tomar o vinho de um só cálice por que podem transmitir doenças; mas cada membro deve usar o seu copinho individual; igual aos alcoólatras quando tomam os seus tragos.
Depois de tomarem o vinho, enxugam cuidadosamente os seus lábios com um lencinho de seda.
Eu não quero falar demais (apoiados do público) apenas estou dizendo o eu me foi dado transmitir-lhes para que espiritualmente não deixais este recinto nus e sem vestimenta perante Deus, etc, etc.”
Este exemplo traz no seu conteúdo a dúvida, a falta de tino, o despreparo ministerial e o estado de espírito do autor do sermão. Entende-se que ele foi um homem, que apenas no início deste movimento aprendeu a soletrar e a sua leitura era arrastada, repetindo as palavras e cheia de erros. Mas apesar disto ele se sentia como um grande servo de Deus aquinhoado de dons espirituais muito especiais. Assim como o Apóstolo Paulo, certa vez empreendera uma viagem de pregação para São Paulo; mas lá as suas palavras ásperas foram retribuídas na medida.
Colossenses 2:19 – “Por que dentro de nós habita a plenitude da vida”.
Agora desejo descrever um culto vespertino que ficou calcado profundamente na minha memória; por que nele adquiri uma enorme impressão negativa e eu aprendi, de um modo especial, entender este procedimento exagerado.
Em 21 de junho de 1921 anoitecia. As estrelas brilhavam na abóbada celeste, uma brisa vespertina soprava e balançava os ramos dos arbustos que na penumbra pareciam fantasmas.
Chegou aquela gente do meu avô para o culto. Eles escolheram a cozinha de chão batido que no centro tinha um fogão de lenha aceso soltando labaredas e estalidos, iluminando, como se fossem fantasmas as pessoas reunidas, entre os quais, eu me encontrava.

Em volta do fogareiro postado em círculo oravam, um depois do outro. Em cada oração eu percebi uma enorme dedicação e humildade. A reunião se desenrolava cordialmente; mas de repente ouvi o Rodolfo Straus, aos berros guturais e numa voz embargada e chorosa ganir: “pelos menos um de nós deveria receber o Espírito”. Alguns dos adeptos aderiram a esta gritaria, gemendo e implorando, fazendo coro.
Eu me levantei incrédulo sem saber se ria ou chorava, enquanto o Rodolfo continuava …. aba….. aba…… aba…. etc. De chofre vira-se para o meu irmãozinho Teófilo e disse: “Foi me revelado que hoje tu serás batizado – aproxima-te de mim”. O Teófilo obediente prostrou-se ao seu lado com o rosto no chão e começou a orar com todo o seu fôlego e até a onde a garganta permitia e o Rodolfo animava: “clama com mais força, implora com fé – JESUS BATIZE-ME – com toda confiança e convicção. Foi assim que R. Straus animava o menino, insistindo cada vez mais:“Grite com mais força, não se deixe distrair com outro pensamento” e o pequeno Teófilo berrava como um possesso continuava repetindo o mesmo refrão. O meu irmãozinho berrou durante quase uma hora até ficar rouco. Aproximava-se a hora de terminar a reunião e o Teófilo não conseguiu alcançar a graça, embora tenha perdido a sua voz durante várias semanas. Isto foi para mim como um pesadelo impressionante e doloroso, que me perseguiu durante toda a minha vida e que procuro esquecer dizendo a mim mesmo: “Isto na realidade não aconteceu – deve ter sido um sonho”.

O MEU PAI

Mas nesta altura dos acontecimentos o que estaria pensando meu pai? Eu creio que ao voltar da Linha Telegráfica ele já estava habituado com este espetáculo e foi arrastado por este redemoinho. Ao retornar, ele disse o seguinte:
“Quando eu cheguei em casa do Graudim em Rio Branco
fui saudado e recebido na fala das línguas estranhas.”
“O irmão Graudim me avisou, que talvez, a minha fé fosse destruída quando eu assistir aquelas reuniões. Mas quando cheguei na Linha Telegráfica e aqueles irmãos realizaram a sua reunião, eu compreendi quanto eu estava atrasado em relação a eles. No meu coração despertou dor e vergonha por causa disto. Então eu genuflexo, com o meu rosto colado ao chão, humildemente junto com os outros, clamava pela santificação. Que eu também, lá, recebera aquele batismo, mas o dom de falar línguas ou ver visões não apareceram; apenas se sentiu mais forte na sua fé e com a mente iluminada, e mais disposto fisicamente”.
Era este o seu testemunho fruto de uma experiência pessoal, que seria apenas o início para uma progressão rumo à plenitude; mas, na realidade, ele estava recuando da direção do objetivo da fé.

IMPRESSÕES SOBRE RICARDO STRAUS

Em Mãe Luzia ele não conseguiu deixar uma impressão duradoura ele não conseguiu entusiasmar os nossos para uma participação mais envolvente, como também não deixou nenhuma impressão positiva. Apenas Rodolfo Andermann despertou e lamentou o tempo perdido. Nas reuniões ele dava testemunho sobre a santificação e até esqueceu antigas desavenças com os vizinhos por causa do açude e a construção do moinho.
O moinho foi construído nas terras de papai, um e outro foram mais convencidos a observar melhor os rumos da própria vida; no entanto, nada de extraordinário aconteceu apesar de tanta insistência e orações. Por causa disto Rodolfo Straus, obedecendo a uma intuição espiritual retornou para a Linha Telegráfica em 27 de junho de 1917, por tanto ele nos visitou de 30 de maio até 27 de junho = 57 dias, 8 semanas (1 mês e 27 dias).
Então tudo voltou a rotina anterior. Os cultos continuaram a ser realizados no mesmo ritmo; apenas papai, algumas vezes se excedia no seu louvor, mas isto não deixou em nós nenhuma impressão danosa.

CONTINUA

Ele falava brasileiro…. | De Olga Purim para Reynaldo Purim

Rio Novo 26 de agosto de 1920

Querido Reini!

Recebi a tua carta escrita no dia 7-9-20 hoje depois do almoço, Obrigado. – Ontem o Rubis (Roberto Klavin) tinha ido a Orleans e tirado do Correio, mas como ele não tem um vintém de memória e as vezes vive desligado filosofando, ele passou a cavalo em frente de nossa porteira e esqueceu de entregar a carta. Mas hoje pela manhã a Mamma foi visitar a senhora Klavim e a trouxe. Parece que esta ficou bastante tempo em Orleans.

Bem, como você foi muito caprichoso em responder a minha carta na mesma noite eu também esta noite vou escrever algumas linhas, porquê amanhã alguém irá para a cidade e poderá levar ao Correio e ai você também rapidamente terá a sua carta. Aquelas anteriores todas foram recebidas e chegaram quase as 3 no mesmo tempo e nós mandamos a resposta no dia 9-8-20. – Você sempre quer saber de novidades e desta vez pode ser que tenha alguma coisa de novo se bem que prá mim parece que tudo está de velho. – Nós graças a Deus estamos todos bem. O tempo este mês está seco e sopra um vento frio. Terminamos de colher o milho. Despejamos no paiol 157 cargas. No ano passado colhemos 132 cargas. Sobre a fabricação do açúcar já escrevi em outras cartas e deu 6 fornadas (tachos) e agora estamos com 3 formas cheias { Forma era um cesto de taquara mansa com o mesmo trançado do tipiti mas bem maior sem o arremate reforçado e a boca estreita do tipiti. A forma tinha uns 0.70 de boca e uns 0.90cm de altura e era usada para escorrer isto é separar o melado do açúcar. As formas eram colocadas em cima de cochos e apoiadas em sarrafos. No cocho acumulavam-se o” melado do cocho” e as “mãe do mé” mas esta é outra história..} Se você chegasse esta noite poderia ir para a “fábrica “ servir-se de melado do forno quente e garapa a vontade e ainda o abrigo cheio de cana, pois o Enoz já foi para casa dele. Agora é o Enoz ( Ernesto Grüintall) que está fazendo açúcar. Ele vai ficar rico pois a cana dele também cresceu muito bonita. Ele está trabalhando com um camarada brasileiro. Vai dar uma umas 4 fornadas ou talvez mais.

Nós já plantamos 2500 mudas de cana de açúcar e 1800 mudas de cana sal para o gado. Na semana passada começamos o roçar o capoeirão na Bokuvina onde em tempos passados foi a grande coivara. Eu não tenho ido porque eu não tenho uma foice. Estão dizendo que onde eles tão roçando quase parece mata virgem mesmo. Cresceu muito rápido e com as mesmas espécies de mato. Eu estou capinando onde será plantada a mandioca.

Você menciona a sua preocupação de que com a saída do Butler diminuiria a freqüência dos membros e freqüentadores da Igreja. Esta sua preocupação não se concretizou, pois até parece que mais gente tem vindo a Igreja. A noite mais que de dia. E mesmo nas quartas feiras, mesmo pessoas de idade tem vindo mais que antes.

– Quando o Butler estava de viagem para Curitiba ele encontrou em Imbituba um Missionário americano que está fazendo uma viagem de reconhecimento pelo Sul do Brasil e em conversas o Butler recomendou este americano ir até o Rio Novo para conhecer. Recomendou que procurasse os Stekert e inclusive escreveu uma carta para a senhora Stekert para ela saber quem era a pessoa que eles iriam receber e outra também para o Juris Frischembruder. E no domingo seguinte aqui em Rio Novo muita gente se assustou com um novo pastor no púlpito. Ele mora na Província do Pará e de naturalidade sueco, mas muito novo tinha emigrado para os Estados Unidos onde depois cursou o Seminário Batista de Chicago, mas ele não pertence a mesma Convenção dos outros missionários americanos que a gente conhece por aqui. O nome dele é Gunnar Wingren { Este foi o fundador da Igreja da Assembléia de Deus no Brasil – Parece que estava fazendo uma viagem de avaliação} e aqui ele passou 2 domingos e dirigiu 4 cultos, isto é um domingo pela manhã e outro domingo a noite respectivamente. Ele falava brasileiro bastante compreensível. Também houve dois cultos que ele dirigiu em Orleans. O Butler também tinha contado a ele de Mãe Luzia e dos Andermann e o tipo de cultos de adoração deles. Então o Roberto levou ele até lá. Pode ser que ele tenha te escrito, mas em resumo, quando chegaram lá na segunda feira a noite foram direto ver o tipo de culto e noutro dia o americano disse que aquilo era brincadeira, então já viu. Não tiveram a menor chance e foram fazer o culto na casa dos Klava. É que o Andermman não admite ou permite ninguém que não seja ele ou conhecido dele. Na volta entraram na Estação do Braço do Norte para conversar com o Onofre e na volta em Orleans ainda teve a chance de estabelecer uma polêmica com o pastor Sabatista que tinha vindo buscar os “dízimos”. Depois ele viajou para o Rio Grande do Sul onde vai se encontrar com outros suecos com os quais mantém contatos.

– Ontem por pouco consegui ler a carta que o Mis. Deter escreveu para o Onofre; ele conta que ele e o Lupper estiveram em Florianópolis e que o Deter tinha vencido as resistências que havia pois o pessoal de São Paulo queria que o Lupper fosse para lá. Mas é promessa que ele venha para Sta. Catarina e breve virá até o Rio Novo. Outro pastor e também com a esposa que deverá vir até Rio Novo é o Revmo. James Mc Cabes e deverá ficar algum tempo por ai. De que lugar ele é o Deter não menciona. – Antigamente ninguém sabia e nem vinha para o Rio Novo e agora tudo mundo quer vir para terra onde mana o leite e o mel. Pode ser que seja positivo pois durante as Conferências foram mencionados fatos onde os letos são muito ricos e conceituados então seria bom que os letos daqui se abrissem para novas idéias e também procurassem novas oportunidades.

Bem por hoje chega. Bem agora a moda são cartas longas e assim quero que você continue a mandar. Lembranças de todos. Olga.

(Escrito na lateral) Sobre os livros do Butler eu não sei nada. Só sei que a primeira remessa chegou. Tu podes escrever direto para Curitiba. O novo, endereço, ainda não sei. Sei que chegaram lá no dia 27 de julho.

A luz da lamparina tão fraca | Roberto Klavin a Reynaldo Purim

12 de junho de 1920, Invernada

Querido amigo!

A tua carta escrita no Rio de Janeiro recebi quando voltei para casa de Mãe Luzia no fim de abril. Fiquei só dois dias em casa, pois fui trabalhar em outro serviço no Rio Larangeiras. Lá pensei que tivesse oportunidade de responder para você, mas com tanto serviço e tantas complicações e a luz da lamparina tão fraca não é nada de prático — não é possível fazer, e o que pode resultar disso é prejudicar a visão.

Ah! Como gostaria de estar em casa para estudar com boa luz as lições da Escola Dominical, ler os jornais e aprontar-me para a Convenção e as Conferências que estavam chegando bem perto.

O período que passei em Mãe Luzia foi mais de três meses, e aproveitei para conhecer o povo leto de lá e seus costumes. Porém nada importante existe por lá. Os “homens espirituais” [pentecostais] continuam a sua atividade por lá e sempre indo em frente.. Eu não fui ver nenhuma vez.

Descobri também que os rapazes letos, malandros, têm feito muita molecagem [com os pentecostais], por exemplo: aberto furos no forro da casa onde eles se reúnem, trancado as portas por fora e aberto as portas quase arrancando das dobradiças. Numa oportunidade em que os “fiéis” estavam em grande êxtase e pulando descontroladamente, esses meninos entraram jogando pimenta moída no pilão, acertando em diversas pessoas e na esposa do Karlos Amdermann. Jogaram direto na boca, e aí pode imaginar o que aconteceu…

Em outra ocasião os brasileiros e italianos começaram a apedrejar a casa do Anderman, quebrando muitas telhas. Se os letos não tivessem dado o mau exemplo esses outros provavelmente não teriam tido também este mau comportamento.

O Emilio Andermann, no começo de maio, viajou para Nova Odessa para morar com o André Leeknin, e logo depois da Convenção o João Klava foi para lá também.

Os participantes da Convenção do Paraná ficaram aqui muito pouco tempo, pois chegaram na segunda-feira e no sábado foram embora. Os de Rio Branco ficaram mais uma semana e também foram embora.

As Conferências se desenrolaram muito bem. Para nós no Rio Novo está começando um tempo muito triste, pois o nosso pastor vai deixar daqui um mês o Rio Novo e vai embora para Curityba. Como vai ser depois que ele for embora somente o futuro poderá mostrar.

Desta vez só tenho notícias tristes e nenhuma alegre. Terminando, receba muitas lembranças de seu amigo

Roberto Klavin

Essa carta subiu o Rio Novo de mão em mão | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 24 de maio de 1920

Querido Reinold!

Recebi tua carta escrita em 5 de maio no dia 22 de maio. Muito obrigada!

Eu teria muito o que escrever, mas esta noite não vale à pena começar, pois esta noite não poderei pela ordem e minuciosamente escrever tudo por falta de tempo, pois amanhã cedo vamos cavalgar até Orleans para o enterro do velho Felipe, que morreu esta manhã — e também porque amanhã são as terceiras Oitavas da Festa do Verão [Treschu Wasaras Svehtki]. Então não leve por mal, que só vou descrever como foi a Festa do Verão e como os mensageiros da Convenção foram embora.

A verdade é que a temporada desta grande batalha não terminou totalmente, pois dois ainda continuam aqui: os dois mensageiros de Rio Branco, o Fritzis e o Loks. Eles tudo querem conhecer. Todos os letos por nome eles têm que visitar. Esta noite o Fritz foi para a casa dos Leimann, onde já esteve várias vezes. E amanhã de manhã cedo, montados no Prinzi e no Lapu, irão para Mãe Luzia.

Eles querem se demorar em todos lugares. Todos morros altos querem escalar e até a Serra eles falaram em conhecer. O plano deles seria sair bem cedo pela manhã, chegar ao meio-dia lá em cima só para ver aquelas maravilhosas montanhas, então sem muita preocupação estar à noite em casa. Isto naturalmente seria possível para pessoas acostumadas a subir montanhas como o Roberto Klavin, cujo passo quase ninguém consegue acompanhar, mas esses heróis que não estão acostumados acho que não conseguiriam.

Os demais convencionais desceram para Orleans na sexta-feira, então na igreja do velho Karlos fizeram um grande culto, mas lá eu não estive. O Watson dormiu na casa do Diretor [Staviarski, da Companhia de Colonização], e os demais espalhados pelas casas dos letos. No sábado de manhã embarcaram no trem para Imbituba e não sei se conseguiram o navio como era esperado ou não.

Neste mesmo dia o Jahnis Klava viajou para Nova Odessa, onde pretende acumular dinheiro para depois viajar para a América do Norte para estudar; ao Rio [de Janeiro] ele não pôde ir pois o próprio Satanás lhe pôs obstáculos. Já quanto eu sei [o motivo] é que ninguém e nenhuma igreja daria uma carta de recomendação, pois todo mundo conhece que pássaro ele é. Segundo escreveram de Mãe Luzia ele estaria envolvido com aqueles “homens de espírito” [pentecostais], pois uma carta veio aberta ou teria sido aberta para o Wileams Slegmann, e nela descreviam certas barbaridades praticadas por eles; um outro Slengmann tirou do correio e essa carta subiu o Rio Novo de mão em mão até chegar ao Butler, que apesar de não achar correto abrir ou ler correspondências dos outros também leu e ficou sabendo de tudo. Como esperar carta de recomendação?

Ontem à noite a União da Mocidade da igreja teve uma das noites de treinamento com apresentações. Foram boas apresentações e parecem que de agora em diante serão mais frequentes. A bronca do Kirils [Carlos Karkle] deu resultado.

[NOTA: Apresentações. Em leto “preeschnessumu” — literalmente algo que foi levado à frente, apresentado: opinião, fato, peça, poesia ou música. Era basicamente e intencionalmente usado para que a mocidade aprendesse a enfrentar o público e perdesse a inibição, e com bons resultados.]

O João de Riga Frischembruder apresentou trechos do Jaunibas Drauga/O amigo da juventude que realmente foram muito proveitosos. Outros apresentaram contéudos às vezes maiores ou outras apresentações menores, mas desta vez todas foram consistentes, cada uma com mensagens muito claras e definidas.

Os dirigentes desta vez foram o Fritz Jankowski e o Looks de Rio Branco. Aqui na semana passada correu a notícia de que o Fritz recebeu do seminário o “passe do lobo” e não mais pôde voltar este ano para lá. Também há aqui alguns que se admiram que ao Reine foi permitido voltar para a escola. Eles parece que esqueceram ou não ouviram o Watson dizer que de ouvir falar do Rio Novo ele já conhecia bem e agora teve a satisfação de conhecer pessoalmente. Ele transmitiu à igreja as tuas saudações e lembranças e contou que tinha insistido para que você viesse junto, mas que você tinha declinado do convite alegando a necessidade de dar continuidade aos estudos. Se tivesse sido possível teria sido uma grande satisfação, mas havia sido numa data conflitante. Ele também disse que você é um dos melhores alunos e que dirige uma Escola Dominical em Pilares, onde ele espera muito no futuro. E ainda disse que o Rio Novo tinha roubado um professor dele ou da escola e ele agora o recapturou. Ele em cada conversa ele sai com alguma brincadeira. Ele provavelmente já terá contado tudo isso para você quando esta carta chegar. Ele levou o S.S.S. [dinheiro?] e uma carta minha.

Não receba dinheiro por aquele livro do Leiman. Mande para ele logo que for possível o cantor [hinário] de qualquer modelo que conseguir. Ou então escreva perguntando em que acabamento ele quer e se não tiver que espere.

O que de bom ele te escreve? Ele menciona o Rio Novo nessas cartas? O velho Leiman tem perguntado por que esperam o Artur em casa, pois já estariam desanimados de esperar o que não seria verdade.

Hoje chega. Nunca consigo escrever suficiente para satisfazer a sua curiosidade de todas as notícias daqui. Faça o favor de fazer uma lista de perguntas por prioridade e eu tentarei te responder. Sobre a Convenção ainda vou descrever do começo ao fim.

Viva feliz e saudável. Com sinceras e amáveis lembranças,

Olga

O profeta Pedro Silman e a profetiza filha do Strauss | Robert Klavin a Reynaldo Purim

29 de fevereiro de 1920, Mãe Luzia

Querido amigo!

A tua carta do dia 15-2 recebi esta semana; como não foi possível responder para o Rio Novo, vou enviar esta para o Rio de Janeiro.

Na semana retrasada estive em Campinas [Araranguá] com o Professor e outros de Mãe Luzia, e também alguns do Rio Novo, como um Leepkaln e dois dos Maisin. Aqui de Mãe Luzia saímos no sábado antes do meio dia, e a noite estávamos em Campinas. Nosso trajeto era margeando o Rio Mãe Luzia no sentido da foz, isto é descendo o rio. As várzeas das margens são de uma terra excepcionalmente boa, e a vegetação e as plantações demonstram sobejamente. As barrancas do rio quase sempre são altas e as várzeas são úmidas, como um banhado. O arroz é muito bonito, está plantado inundado, mas poderiam ser feitas valetas e trabalhado no seco, e assim poderia se plantar de tudo.

Aqui de modo geral é tudo plano e em muito poucos lugares se encontram pequenas elevações ou alguns morrinhos. Morros grandes realmente não existem. Mesmo a vilazinha de Campinas se encontra num lugar muito lindo e também muito plano. O mar está há menos de duas horas de viagem, mas lá para baixo o rio fica mais largo e fundo e para atravessar: são necessárias balsas para passar, pois de outra maneira não seria possível. Em muitos lugares consegui ver as marcas e vestígios de até onde o rio na cheia tinha inundado. O rio atingira parte das culturas com tanta intensidade que chegara a cobrir completamente as plantas nas partes mais baixas, mas a vantagem é que sendo as águas muito tranquilas não fizera nenhum estrago ou prejuízo, e em baixando as águas tudo volta ao normal.

De Campinas saímos em viagem para a casa do Augusto Sanerip há 1 ½ horas de viagem, onde chegamos bem tarde. O Augusto tinha organizado uma festa de aniversário para ele próprio. Eu não fui atrás da festa e sim para conhecer aquelas redondezas, mas a pressão dos colegas para ficar na festa foi muito grande. Quando lá chegamos já tinham chegado os amigos dele e outros conhecidos, na maioria alemães, e naquela noite em dormir ninguém conseguiu pensar, com o som das músicas e cantorias que correram solto a noite inteira sem dó nem piedade. Todos os outros participaram da festa e eu não podia sair, mas fiquei conversando com outras pessoas e logo amanheceu e daí partimos para a casa do Joeff Herr. Ele é um batista, alemão e conhecido meu, que antes morava em Mãe Luzia.

Lá conseguimos dormir por mais ou menos duas horas. Logo depois do meio-dia saímos de volta para a casa do Augusto Sanerip, e lá pelas 4 horas da tarde saímos de volta para Mãe Luzia. Neste trajeto vim junto com dois dos filhos do Klava.

Logo o sono começou a apertar tanto que resolvemos dar uma cochilada na beira da estrada, mas os mosquitos e pernilongos não nos deixaram em paz. Resolvemos tirar os “palos” [capas de montaria para proteção da chuva e frio] para nos protegermos desses invasores incômodos, mas aí o calor se tornou nsuportável. Então resolvi com a mesma capa fazer uma espécie de barraca para proteger os braços e a cabeça, deixando um buraco para entrar ar, mas os bichos entravam por aí e picavam sem trégua. Por aí você pode deduzir que o tal cochilo não deu em nada.

Montamos e continuamos em frente chegando a Mãe Luzia quando a meia-noite já estava de longe passada.

No sábado passado houve aqui em Mãe Luzia e região uma chuva torrencial que gerou uma enchente tal que os moradores daqui não lembram de outra igual por aí. Os riozinhos que escoam para o Mãe Luzia se tornaram grandes rios. O Mãe Luzia, com uma largura descomunal, serpeava vagarosamente, fazendo o seu caminho em curvas suaves em direção do mar.

Os domingos aqui em Mãe Luzia são realmente muito quietos. Os cultos são realizados somente aos domingos pela manhã, e à noite não há nada mesmo. O clima também não tem se apresentado muito favorável. Agora parece que sentiram que alguma deve ser feita, então ontem à noite houve ensaio de hinos dirigido pelo Seeberg e na noite do domingo que vem também haverá.

O Rudolfo Andermann voltou com o seu partido [de pentecostais] e trouxe junto o profeta Pedro Silman e a profetiza filha do Strauss. Ela está voltando de Ijuy RS. Agora estão planejando outra viagem missionária: vão a Ijuy e depois ainda dali querem ir até o Paraná.

Eles continuam pulando nos cultos segundo e seguindo os seus costumes. Muitas pessoas vão para observar. Eles não querem que eu vá e mantém as portas trancadas; só deixam entrar quem eles querem.

Uma das noites pessoas forçaram a entrada do local da reunião e jogaram pimenta moída lá dentro. Dizem que foram letos que fizeram esta brincadeira. Eu não apoio nem entro para uma turma que faz estas coisas, mas ambém não tenho interesse de ver este espetáculo: o que eu vi naquela viagem na Linha Telegráfica foi suficiente. Mas têm pessoas que vão todas as noites.

Quanto a possibilidade de eu ir estudar, vamos ver como as coisas vão se desenrolar. Tudo isso está nas mãos de Deus. Eu sempre tenho pensado sobre isso, mas não consegui chegar a uma conclusão definitiva. Também sei que não seria fácil e tenho avaliado, se começar, das minhas possibilidades de ir até o fim. O grande e maior problema seria a subsistência, pois se tiver que trabalhar e enfrentar todas as matérias com a pouca base, seria muito temerário. Outro problema meu seria a saúde, pois ela não é estas coisas e já algumas vezes estive em situações bastante críticas. Agora não tenho estudado nada, mas quando voltar para o Rio Novo devo voltar a estudar, pois daqui em diante as noites vão ficando cada vez mais compridas.

Aqui quanto ao trabalho ainda não terminamos. Possivelmente lá pelo dia 20 estaremos terminando.

No que se refere a livros para os meus estudos, espero que você me mande, pois tenho certeza que você sabe o que eu mais necessito e aqueles que são realmente importantes. Depois me mande a conta para que eu possa pagar.

Neste momento, graças a Deus, estou bem e com saúde.

Muitas e sinceras lembranças de seu amigo,

Roberts Klavin

Você é um ignorante | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 2 de setembro de 1919

Querido Reinold,

A tua carta escrita em 17 de agosto recebi no dia 21 de agosto. Obrigada! Precisava ter respondido mais rápido, mas como ninguém ia para a cidade para levar ao correio, foi ficando e demorei a escrever. Ainda estou esperando resposta de duas cartas: uma mandei no dia 1° de agosto e outra no dia 15 de agosto, as quais espero que tenhas recebido.

Fiquei muito alegre em saber que você está sempre passando bem e que estás com saúde. Nós também, agora estamos bem graças ao bom Deus, e todos com saúde. Mas semanas atrás estivemos todos com influenza; doía muito a cabeça e [tínhamos] moleza em todo corpo. O Pappa ficou vários dias de cama. Curityba é uma bela cidade, só que falta muita água.Nós, os demais, com tanto serviço não tínhamos tempo de ficar de cama.

O tempo está muito variado, ora quente ora frio. Houve dias tão quentes que parecia verão, e soprava um vento quente do lado da Serra [noroeste]. Depois, na semana passada, deu três dias de chuva e vento frio; hoje está meio nublado e é possível que volte a chover.

Agora as laranjeiras estão em plena floração e as árvores estão literalmente brancas. O milho terminamos de colher no dia 20 de agosto; uma plantação de 17 quartas de semente rendeu 135 cargas, que foram despejadas no paiol. Ano passado foi plantada uma área menor e rendeu 195 cargas. Era porque naquele ano as espigas eram grandes, e este ano são menores, tanto que podem quase diretamente ficar para as vacas.

[NOTA: Espigas de milho pequenas eram chamadas de “restolho” e as vacas podiam comer direto sem perigo de se engasgarem e se afogarem, o que acontece com frequência com o gado.]

Este ano não foi um ano bom para o milho; em Orleans o preço da saca já está 6$500. Comprar milho para o gasto está fora de qualquer cogitação. Se faltar milho, os porcos vão passar somente com inhame, pois este ano eles não pegaram geada e na Bukovina em toda baixada está correndo água (mesmo em lugares em que nunca havia nascentes), então vai dar para passar.

Agora estamos derrubando uma capoeira lá perto do monjolo, mas você é um ignorante, não sabe mais nada daqui, então vou dizer que é lá onde antigamente tínhamos uma horta — assim é possível que você se lembre. Agora, como um morador de cidade grande, caso vier para cá você seguramente vai se perder logo no primeiro dia.

Quanto ao Rio Novo, vai indo de modo variado [em leto, “eet raibi”]. Os mensageiros da Convenção enfim voltaram, chegaram dia 14 de agosto. Como tinham saído no dia 31 de junho, você pode calcular quanto tempo eles ficaram fora.

A viagem foi boa, a falta de sorte foi com os meios de condução (navios) em todas ocasiões. O Robert ainda não esteve aqui em casa para contar as peripécias da viagem. Pode ser que ele tenha escrito minuciosamente para você. O Butler aqui na Igreja contou uma coisa e outra, que de modo geral a viagem foi boa.

Saíram na segunda-feira com informações de que haveria um navio em Laguna, mas lá chegando o navio já tinha levantado ferros e partido. Seguindo informações e palpites de que em Imbituba estaria um navio grande sendo carregado, no outro dia pegaram o trem e foram até lá, mas este também já tinha ido embora e para o outro lado, para o sul, Porto Alegre. Então voltaram: o Butler ficou em Tubarão, na casa do Ziguismundo Anderman, e o Robert e o Klava vieram até Pedras Grandes para visitar o Onofre.

Então na sexta-feira pegaram o “Max” da Karl Hoepke e foram até Desterro [Florianópolis], porque ele não segue mais longe. Mas ali souberam que havia um navio atracado na parte norte da ilha, e daí pegaram uma lancha a motor e conseguiram embarcar; mais dezenove horas e estavam em Paranaguá.

Resumindo, de Rio Novo até Paranaguá foi exatamente uma semana de viagem.

Sobre a Conferência não tenho muito que escrever, pois o Deter ainda não mandou as estatísticas e as atas [em leto, “protokulus”]. O Butler foi o presidente [dirigente] da Convenção e todos os dias havia três reuniões; os letos tiveram que cantar muito.

Os letos eram ao total quatro, porque veio também o Broks de Blumenau.

Depois das conferências ainda estiveram em Antonina e daí viajaram para Kuritiba pela mais bela estrada de ferro do Brasil. Ficaram então uma semana em Paranaguá e uma em Kuritiba. O Klava ainda viajou para São Paulo.

Curityba é uma bela cidade, só que falta muita água. Se de manhã você lava o rosto, à tarde não pode mais lavar porque não tem água.

Ainda estiveram em Blumenau: o Robert se acomodou na casa do Janausks e o Butler ficou com os Suti. Ambos moram perto da igreja. Mas eles não ficaram muito tempo por lá, porque foram também visitar a Linha Telegráfica, onde moram os Straus e outros pentecostais. Ali os cultos são “extraordinários”, pois de longe se pode escutar como gemem, correm de um lado para outro, andam de quatro, etc. Os nossos chegaram atrasados e assim não foi permitida a entrada; eles ficaram “apreciando” pelas janelas. O Butler disse que o comportamento deles nada tem com o movimento espiritual que ele conheceu nos Estados Unidos. Este mais parece certo povo que adora ídolos na Índia.

Neste mês vai haver a festa de aniversário da União de Mocidade. Estamos aprendendo a cantar todas as quartas-feiras à noite. O Oswaldo Auras é o dirigente que ensina. E nas noites dos últimos domingos de cada mês os jovens apresentam um programa livre, de partes práticas. Cada um pode apresentar o que quiser: poesias, partes musicais, opiniões, comentários, etc.

Durante as férias você bem que poderia viajar para casa. Falta pouco tempo para fazer três anos que estás longe de casa.

Você escreve que o Deter quer que você venha para o Paraná. Quanto isto vai custar? Sem 200$000 nem pensar, e de trem fica mais caro ainda. E porque ir para um lugar de pessoas estranhas? Nós pensamos que você poderia vir para casa ou então ficar na Escola como no ano passado. Mas ir para outros lugares nunca dissemos.

Agora os navios que vêm para Laguna tem a terceira classe, e esta não custa tanto quanto a dos grandes navios que aportam em Imbituba.

Nós o dinheiro vamos mandar, mas no correio de Orleans não tem aquele “vale postal” porque são muito poucas pessoas que mandam dinheiro daqui. Se existissem, seria muito prático e barato mandar por este sistema.

Você sabe se o Fritz Janausks vai viajar ou vai ficar aí mesmo? Hoje, 3 de outubro, enviei através do Pinho 100$000 e eles garantiram que desta vez vai chegar mais rápido do que na outra vez. Se demorar, podes perguntar lá se ainda e porque não chegou. Amanhã é dia da mala postal, pode ser que chegue alguma carta sua.

Se você não pode ficar aí, venha para casa. A Mamma não quer que você viaje para outro lugar.

Com lembranças,

Olga