Igual à de um colono qualquer | Fritz Jankowski a Reynaldo Purim

Rio Branco, 27 de julho de 1920

Querido amigo Reinold:

Recebi de você duas cartas, uma já há tempo, logo que cheguei de Rio Novo, e uma uns cinco dias atrás. Muito grato por tudo: notícias, conselhos e inquirições. Nesta carta quero no mais possível transmitir minhas emoções de coração aberto.

Você pergunta qual o motivo da minha tristeza e depressão. Agora quero te asseverar que nenhum mortal exceto você tem ouvido de mim tantas lamentações e tão grande falta de esperança.

O principal motivo que deixou o meu coração tão desesperançado e sombrio que deixou rastros negros na carta que naquele momento dramático te escrevi — você, sendo meu amigo; sendo que nossos pensamentos e opiniões sempre coincidiam como com nenhuma outra pessoa, você em quem eu via os hábitos e sentimentos muito mais completos, maduros e fortalecidos do que os meus, — é que eu tinha a sensação de ter cometido um erro irreparável em ter abandonado a escola [o Seminário].

Por quê? Por causa de insignificantes e infundados motivos. Falando mais claramente, por enganos traiçoeiros [glhenvilibas]! As palavras escritas em Jó 5:2 eram para a minha alma, amarradas como uma pedra que me arrastava para as profundezas insondáveis e aniquilava minha vontade de viver nesta triste condição.

A isso se juntaram desagradáveis situações na vida de minha família, que ameaçavam roubar as minhas últimas oportunidades de seguir o caminho que tinha escolhido, isto é, o de continuar os meus estudos.

O que aconteceu foi que minha irmã se enamorou secretamente de um jovem alemão, Albert Richter, um sabatista. Quando isso veio ao conhecimento público aquela notícia levantou-nos outros grandes descontentamentos e contrariedades.

Depois de uma longa série de argumentações e conselhos ela cedeu e deixou este rapaz — porém não convencida de que estivesse fazendo algo de errado ou de mau, e sim para obedecer a vontade do pai e dos demais parentes.

Mas não muito tempo depois algo ocorreu através de uma jovem luterana muito alegre e comunicativa que passou a frequentar os nossos cultos: uma cantora de primeira classe e colaboradora da União dos Jovens da Igreja, mas pelos meus pensamentos toda essa atividade era como toucinho na ratoeira para pegar os ratos.

Minha irmã ficou enamorada do irmão desta moça, Karlos Ignowski, e contra este novo relacionamento não há contrariedades.

Esses acontecimentos para nós são amargos, mas sem nenhuma saída, pois daqui há poucas semanas minha irmã Emília com o mencionado jovem vão se comprometer através do enlace matrimonial.

No cartão estavam anotadas as alternativas nas quais durante a viagem mais uma vez recapitulei, e que são as seguintes:

Se nós aqui quisermos restabelecer a nossa vida, eu e meu pai, tenho que assumir e não há meio de fugir da direção das atividades, pois o pai não quer mais, impedido também pela doença.

A outra alternativa seria vender. Poderia vender e voltar para a escola, mas de onde veria o sustento? E onde ficaria o meu pai? Tentamos arrendar a nossa propriedade, mas não apareceu nenhum interessado.

Então meu pai disse:

— Agora meu filho, tu tens que se preocupar pela nossa casa e pela nossa vida diária. Faça tudo como melhor te aprouver, pois destas preocupações quero ficar livre e sob sua responsabilidade viver os meus dias até a velhice. Espero que este fardo não seja pesado demais por minha causa.

Considerando como santa a responsabilidade em atender o desejo do meu velho pai, ainda assim procurei alguma alternativa para conseguir resolver este problema. No fundo mesmo, queria ficar livre desta responsabilidade e dessas preocupações.

Também reconheço que Deus providencia nossa vida em todas as circunstâncias e tudo isso quero aceitar com gratidão, como vindas diretamente de Suas Santas Mãos.

Sob o outro aspecto da vida diária, com alegria posso dizer que eu estou indo muito bem. Minha atividade diária é igual à de um colono qualquer: derrubo matas e capoeiras, arranco tocos para facilitar o preparo da terra, planto árvores frutíferas, negocio o meu arroz etc.

Na igreja ocupo o cargo de Superintendente da Escola Dominical e Secretário Geral da igreja. Damos graças a Deus por nos ter maravilhosamente guiado e pelo período de paz que reina em nossa igreja, pois no passado houve um período um tanto difícil.

Também hoje a harmonia não está completa, pois uma parte da igreja tem por lema trabalhar por missões e a outra tem por lema descansar. Mas na maioria com tranqüilidade concordam, esforçando-se para arrastar todos juntos ao cumprimento do desígnio de uma igreja cristã, que é proclamar Cristo através de missões.

A Escola Dominical vai até de certo modo muito bem, mas o que preocupa é a falta de um obreiro qualificado para cuidar dos alunos que receberam os ensinos e correm o risco de se perder. A Convenção das Igrejas Batistas do Paraná e Sta. Catarina estão convidando para o próximo ano o irmão Carlos Leimann, e estão oferecendo para escolher como centro de atividades os seguintes lugares: Laguna, Itajay e Joinville. Nós estamos torcendo que ele escolha Joinville, pois para nossa igreja seria muito bom.

Sobre a Convenção, uma vista geral e completa pode ser acompanhada lendo “O Baptista”.

Gostaria de saber: que mudanças houve no Colégio e no Seminário? Você ainda trabalha na igreja de Pilares? Como vai a nova Escola Dominical que começaste no ano passado?

Peço que me desculpe pela curiosidade e pela tão longa carta.

Com muitas lembranças, seu amigo

Fritz Jankowski

Meus pais não podem me ajudar como fazem os seus | Roberto Klavin a Reynaldo Purim

Invernada, 27 – 7 – 1920

Querido amigo!

Agradeço pela carta cuja escrevestes no dia 23-06-1920, a qual recebi dias atrás.

Foram embora do Rio Novo o irmão Butler e sua esposa para Curytiba. Eles viajaram na semana passada, dia 22. Na noite do último domingo houve as despedidas. Ele, ao se despedir, entre outras coisas disse que voltará para cá somente caso tenha problemas com a voz; se a voz se adaptar ao novo clima ele para cá não mais voltaria.

Quanto a mim e a minha possibilidade de ir estudar, eu muito tenho pensado e planejado, mas o que no fim vai dar isso tudo só Deus sabe. Para o primeiro ano eu teria dinheiro para passar o ano tranquilamente e sem preocupações maiores, mas para o segundo ano não teria condições, uma vez que meus pais não podem me ajudar como fazem os seus. Eles estão bastante sem forças e principalmente a minha mãe, que está sempre doente e muito fraca, em condições tais que às vezes não consegue cumprir com as obrigações da administração do lar — e aí outras pessoas tem que ajudá-la. Ainda com irmãos e irmãs menores, que terão que cumprir a escola básica, não se é possível esperar nenhuma ajuda substancial.

E como eu já tinha mencionado: não tenho certeza de que devo dar este passo. Sem que esteja seguro que poderia atravessar este período, com estas condições extremamente críticas, esta é uma questão da qual não posso fugir.

No mesmo tempo estou convicto que se eu ir estudar é a vontade de Deus ele fará acontecer conforme a sua santa vontade. Fico no aguardo dos acontecimentos.

Outra alternativa seria a proposta pelo Butlers, que quer que eu vá para Curytiba trabalhar e estudar à noite e depois do básico ir adiante.

Este mês está muito chuvoso e o tempo muito ruim. As estradas também estão muito ruins e eu tive que me cuidar muito para não me resfriar, porque estou com dor em um dente. Muitas noites não tenho dormido direito e passado sem sono, por causa desta dor que é muito desagradável.

Já há diversos domingos que não tenho ido a Rio Larangeiras e hoje deu uma chuva forte com trovoadas e granizo. Agora também estou vários dias em casa, mas logo terei que ir para o trabalho.

Terminando, receba mui afetuosas lembranças dos meus e também minhas.

Teu amigo,

Roberto Klavin