…Nos profetas de plantão que falavam… | de Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1928

Rio Novo 21 de agosto de 1928

Querido irmão Reinaldo!!

Há pouco tempo atrás recebi a tua carta escrita em 19 de junho e por ela muito obrigado. E também já foi recebida aquela carta para o Arthur com as fotografias. Muito obrigado também.

O que eu não pensava que nesta boa América ficasse tão velho e tão magro realmente parece um “padre” e se tivesse óculos poderia ser um “doctor”, mas deixa pra lá.

Nós graças a Deus estamos todo bem de saúde e trabalhamos tanto quanto podemos. Teríamos mais o que fazer, mas o tempo está chuvoso demais. Este ano foi um ano de temporais fora da conta. Diversas vezes houve grandes enchentes e agora semanas atrás começou a chover no dia 10 de manha e parou somente no dia 15. Isso mesmo que foi chuva. Foi um temporal qual eu nunca havia visto na minha vida chover os 6 dias sem parar. O sol não conseguia aparecer e a chuva era bastante fria e este tempo foi muito prejudicial para os animais que não tinham onde de abrigar. Muitos cavalos de propriedade dos italianos morreram congelados e os nossos animais todos tinham abrigo eram alimentados ficaram um tanto enrijecidos imagine aqueles que não tinham nenhum telhado para se abrigar.

Quando o tempo começou a melhorar tudo ficou mais alegre, pois quase nós estávamos começando a acreditar nos profetas de plantão que falavam que este ano a América do Sul iria afundar no mar e também havia profetas que diziam que uma guerra iria começar no dia 28 de maio. E o mês de maio passou e guerra nenhuma começou e assim todas estas previsões são de pessoas que falam e é só Deus que faz.
Este inverno não foi forte, várias vez deu geadas maiores, mas estas não prejudicaram tanto quanto em outros anos. Agora que a primavera está chegando temos que começar a plantar. Agora nos estamos derrubando o capoeirão perto do “Kanels” [a encruzilhada no alto Rio Novo era assim chamada devido a um colossal tronco desta madeira] onde está bastante crescido, pois desde que você foi embora nós não plantamos mais nada ai e por isso ele está infestado de cipoal e espinheiros que torna a derrubada muito difícil, eu estou com as mãos doendo. Fazia tempo que eu não trabalhava em derrubadas e agora tive que voltar. Nós também estamos contratando camaradas para trabalhar, mas está muito difícil conseguir boas pessoas, pois todo mundo está ocupado. A melhor opção seria contratar uma mocinha para ajudar em casa para todo mês, pois uma garota tanto em casa com na roça faz tanto quanto um empregado homem. Alguns anos atrás tínhamos a Maria do Maneco, mas no ano passado ele voltou a morar com a sua família e agora eu falei para ela voltar e ela disse que iria pensar. Ela era muito operosa e sabia fazer todos os serviços. Não bebia nem fumava como outras manecas (manekenes) costumam fazer.

O milho já faz tempo que terminamos de colher. Deu 37 carradas inda porque tínhamos plantado menos que noutros anos, mas este ano as espigas foram realmente maiores e bem regulares. Está até difícil achar as espigas pequenas (restolhos) destinados à alimentação dos animais que até agora no inverno era necessário. [não é possível dar espigas grandes para as vacas por que elas têm o hábito de engolir sem mastigar e ai ficam engasgadas ou afogadas]
Agora nós não estamos plantando tanto com antigamente, pois agora plantamos somente 5 quartas [4 Quartas dá um alqueire e 2 Alqueires dão 1 saco de 60 quilos] e nós antigamente plantávamos 15 quartas e hoje plantamos menos e colhemos a mesma quantidade e é claro que a capinação e os cuidados são sempre maiores, mas agora realmente as colheitas são bem melhores.

Agora está morando conosco a Lídia Klavim Que está indo à aula aqui na Igreja de Rio Novo, porque eles moram muito longe quase na Invernada e para ela vir para a aula fica difícil e por isso eles estão pagando pensão pra ela aqui. Ela gosta muito de conversar e fica falando o dia inteiro. Ela pediu para escrever que o irmão dela não escreve pra você porque é muito preguiçoso. Ele só pensa em sair e construir atafonas e engenhos. Ai ele ganha 10 mil réis por dia e mais a comida e lugar para dormir. Mas quando não tem serviço ele fica em casa. Aquela fotografia do Coro que eu mandei ele não aparece porque ele estava fora. A Senhora Klavim esteve muito doente e saia sangue pela boca e muita gente achou que ela iria morrer, agora sarou de tudo e está bem mais gorda [Ser gordo naquela época era sinal de saúde]. Agora ela vai à Igreja e faz visitas pelas vizinhanças. Ela manda muitas lembranças para você.

No próximo primeiro domingo de mês que vem haverá batismos Aqui na Igreja incluindo os filhos da Maria Thomaz do Rio Larangeiras e as noras dela. Também haverá batismos em Laguna onde 8 candidatos estão à espera. O trabalho lá é pequeno, mas está indo pra frente graças também ao trabalho do Pastor Stroberg que periodicamente viaja pra lá e também para Mãe Luzia. Aqui na Igreja apareceram algumas desavenças e existem pessoas que não podem passar sem elas. Não entendem que a proclamação do Evangelho e a salvação de almas deve ser a missão principal da Igreja. Acham que o Pastor viaja muito.

O Rio Novo está ficando cada dia mais vazio. O povo não quer mais morar aqui. Agora são os Match que estão indo embora para a Argentina, A Milda casou com um senhor argentino muito rico e que tem uma casa muito grande e outras casas e terrenos sem fim. Aqui os velhos sozinhos e cada vez mais velhos seria muito difícil sobreviver. Vão pra Argentina cuidar do Elias o filhinho da Milda e exercer a função de Vovô e de Vovó. Quem garante que quando crescer também não vire um profeta…

Os Matchis venderam a sua propriedade com casa [Na sala desta casa em 1940 eu tive o primeiro encontro com letras e números, pois ali foi a minha primeira sala de aula com a professora a Dª Matilde Tezza, mas isto já é outra história], moveis tudo de porteira fechada para o Eduardo Karp por 10 contos de réis. Agora ele tem onde ir morar. E é provável que ainda este ano eu também possa ir morar lá. O lugar é muito bonito . Um dos lugares mais lindos por ai. É provável que Deus tenha providenciado este lugar para mim.

Bem por hoje chega, já escrevi esta longa carta. E agora está batendo meia noite. Hoje à noite eu fui ao trabalho da Igreja e ai comecei a escrever. Quem começa tem que terminar. Os demais estão há muito dormindo. Eu também estou com sono. Como faz tempo que não recebemos noticias suas espero receber amanha quando for à cidade. Lembranças do Onofre Regis e família.

Muitas lembranças de Mamãe, Papae e minhas.
Lucija

…um temporal que igual eu não tinha visto, chover 6 dias sem parar…| De Lucija Purim para Reynaldo Purim

Rio Novo 21 de agosto de 1928

Querido irmão Reinaldo!!

Há pouco tempo atrás recebi a tua carta escrita em 19 de junho e por ela muito obrigado. E também já foi recebida aquela carta para o Arthur com as fotografias. Muito obrigado também.

O que eu não pensava que nesta boa América ficasse tão velho e tão magro realmente parece um “padre” e se tivesse óculos poderia ser um “doctor”, mas deixa pra lá.

Nós graças a Deus estamos todo bem de saúde e trabalhamos tanto quanto podemos. Teríamos mais o que fazer, mas o tempo está chuvoso demais. Este ano foi um ano de temporais fora da conta. Diversas vezes houve grandes enchentes e agora semanas atrás começou a chover no dia 10 de manha e parou somente no 15. Isso mesmo que foi chuva. Foi um temporal qual eu nunca havia visto na minha vida chover os 6 dias sem parar. O sol não conseguia aparecer e a chuva era bastante fria e este tempo foi muito prejudicial para os animais que não tinham onde de abrigar. Muitos cavalos de propriedade dos italianos morreram congelados e os nossos animais todos tinham abrigo eram alimentados ficaram um tanto enrijecidos imagine aqueles que não tinham nenhum telhado para se abrigar.

Quando o tempo começou a melhorar tudo ficou mais alegre, pois quase nós estávamos começando a acreditar nos profetas de plantão que falavam que este ano a América do Sul iria afundar no mar e também havia profetas que diziam que uma guerra iria começar no dia 28 de maio. E o mês de maio passou e guerra nenhuma começou e assim todas estas previsões são de pessoas que falam e é só Deus que faz.

Este inverno não foi forte, várias vez deu geadas maiores, mas estas não prejudicaram tanto quanto em outros anos. Agora que a primavera está chegando temos que começar a plantar. Agora nos estamos derrubando o capoeirão perto do “Kanels” onde está bastante crescido, pois desde que você foi embora nós não plantamos mais nada ai e por isso ele está infestado de cipoal e espinheiros maricá que torna a derrubada muito difícil, eu estou com as mãos doendo. Fazia tempo que eu não trabalhava em derrubadas e agora tive que voltar. Nós também estamos contratando camaradas para trabalhar, mas está muito difícil conseguir boas pessoas, pois todo mundo está ocupado. A melhor opção seria contratar uma mocinha para ajudar em casa para todo mês, pois uma garota tanto em casa com na roça faz tanto quanto um empregado homem. Alguns anos atrás tínhamos a Maria do Maneco, mas no ano passado ele voltou a morar com a sua família e agora eu falei para ela voltar e ela disse que iria pensar. Ela era muito operosa e sabia fazer todos os serviços. Não bebia nem fumava como outras manecas (manekenes) costumam fazer.

O milho já faz tempo que terminamos de colher. Deu 37 carradas inda porque tínhamos plantado menos que noutros anos, mas este ano as espigas foram realmente maiores e bem regulares. Está até difícil achar as espigas pequenas (restolhos) destinados à alimentação dos animais que até agora no inverno era necessário.

Agora nós não estamos plantando tanto com antigamente, pois agora plantamos somente 5 quartas [4 Quartas dão um alqueire e 2 Alqueires dão 1 saco de 60 quilos] e nós antigamente plantávamos 15 quartas e hoje plantamos menos e colhemos a mesma quantidade e é claro que a capinação e os cuidados são sempre maiores, mas agora realmente as colheitas são bem melhores.
Agora está morando conosco a Lídia Klavim Que está indo à aula aqui na Igreja de Rio Novo, porque eles moram muito longe para ela vir para a aula e por isso eles estão pagando pensão pra ela aqui. Ela gosta muito de conversar e fica falando o dia inteiro. Ela pediu para escrever que o irmão dela o Roberto não escreve pra você porque é muito preguiçoso. Ele só pensa em sair e construir atafonas e engenhos. Ai ele ganha 10 mil réis por dia e mais a comida e lugar para dormir. Mas quando não tem serviço ele fica em casa. Aquela fotografia do Coro que eu mandei ele não aparece porque ele estava fora. A Senhora Klavim esteve muito doente e saia sangue pela boca e muita gente achou que ela iria morrer, agora sarou de tudo e está bem mais gorda [Ser gordo sempre foi sinal de saúde por lá.] Agora ela vai à Igreja e faz visitas pelas vizinhanças. Ela manda muitas lembranças para você.

No próximo primeiro domingo de mês que vem haverá batismos Aqui na Igreja incluindo os filhos da Maria Thomaz do Rio Larangeiras e as noras dela. Também haverá batismos em Laguna onde 8 candidatos estão à espera. O trabalho lá é pequeno, mas está indo pra frente graças também ao trabalho do Pastor Stroberg que periodicamente viaja pra lá e também para Mãe Luzia.

Aqui na Igreja apareceram algumas desavenças e existem pessoas que não podem passar sem elas. Não entendem que a proclamação do Evangelho e a salvação de almas deve ser a missão principal da Igreja. Acham que o Pastor viaja muito.
O Rio Novo está ficando cada dia mais vazio. O povo não quer mais morar aqui. Agora são os Match que estão indo embora para a Argentina, A Milda casou com um senhor argentino muito rico e que tem uma casa muito grande e outras casas e terrenos sem fim. Aqui os velhos sozinhos e cada vez mais velhos seria muito difícil sobreviver. Vão pra Argentina cuidar do Elias o filhinho da Milda e exercer a função de Vovô e de Vovó. Quem garante que quando crescer também não vire um profeta…

Os Matchis venderam a sua propriedade com casa [Na sala desta casa em 1940 eu tive o primeiro encontro com letras e números, pois ali foi a minha primeira sala de aula com a professora a Dª Matilde Tezza, mas isto já é outra história,], moveis tudo de porteira fechada para o Eduardo Karp por 10 contos de réis. Agora ele tem onde ir morar. E é provável que ainda este ano eu também possa ir morar lá. O lugar é muito bonito . Um dos lugares mais lindos por ai. É provável que Deus tenha providenciado este lugar para mim.

Bem por hoje chega, já escrevi esta longa carta. E agora está batendo meia noite. Hoje à noite eu fui ao trabalho da Igreja e ai comecei a escrever. Quem começa tem que terminar. Os demais estão a muito dormindo. Eu também estou com sono. Como faz tempo que não recebemos noticias suas espero receber amanha quando for à cidade. Lembranças do Onofre Regis e família.

Muitas lembranças de Mamãe, Papae e minhas.
Lucija

…não tenho escrito de casa porque estava muito aborrecido com você.| De Arthur Purim para Reynaldo Purim – 1928 –

Florianópolis 01-05-28

Querido irmão! Saudações.

Eu recentemente não tenho escrito de casa porque estava muito aborrecido com você. Bem, mas chegou o tempo de deixar estas coisas e esquecer; porque as circunstâncias assim o exigem. Você deve estar muito surpreso com o título” Florianópolis”, mas tem que ser assim. Agora eu estou aqui no Quartel servindo o Exercito sob regime de Guerra. Cheguei ontem e agora como primeira prioridade estou dando ciência da mudança.

Sexta feira passada me despedi do pessoal de casa e fui para a cidade onde dormi no hotel por conta da nação e no sábado de manhã embarcamos para Laguna onde dormi duas noites. No sábado o Pastor Stroberg também veio pra Laguna dirigir os trabalhos e foi uma boa oportunidade em poder auxiliá-lo principalmente nos cânticos etc.

Na manhã de segunda feira embarquei no vapor “MAX” e às 2 horas já estávamos aqui. A viagem foi mais ou menos boa. O mar estava muito calmo. Mas nem por isso tivemos chance de deixar de pagar o tributo ao deus do mar até o último tostão, porque a lei determina que para cada poder devido, deve ser pago integralmente a sua parte para o mar uma parte e para o Governo deverei ficar aqui um ano inteiro da minha vida.
Aqui na caserna estamos mais ou menos 300 pessoas. Uns vão embora porque já cumpriram o tempo e outros estão chegando. Só ontem chegaram umas 90 pessoas. Ainda não estamos divididos em grupos, mas ainda hoje ou amanhã será tudo normalizado.

Fiquei muito triste em deixar o pessoal de casa porque eu era o mais forte trabalhador e o pai já está com poucas forças e eu era o mais desenvolto, mas fui sorteado e não posso mais ajudar então tenho que deixar na mão de Deus.

Não estou nada preocupado, pois onde mandarem eu vou, o serviço que me determinarem faço e eu estou considerando como sendo a vontade de Deus se bem que antes do sorteio tentamos todas as possibilidades de não sermos incluídos, mas foi em vão.

Aqui no quartel de quanto pude conhecer achei que tudo está em boa ordem e da comida não podemos nos queixar. De manhã cedo todos são chamados e todos vão se lavar e todos recebem uma xícara de café e um pão. Às 10 horas o almoço onde é servido feijão, arroz, carne etc. e depois uma xícara de chá e um biscoito. Às 4 horas da tarde é a hora da janta onde é servido inicialmente um prato de sopa e depois o arroz, feijão etc.. Às 9 horas da noite todos deverão estar todos juntos. Mais pra adiante ainda não sei te dizer.

Segundo eu ouvi ainda lá em Orleans deverei realmente servir o exército em Curitiba ou em Ponta Grossa porque somente uma parte vai ficar aqui e os outros terão que ir em frente.

Aqui hoje é dia de festa, mas que festa que é eu não sei e todos os soldados têm toda liberdade então tocam música na rua e ficam a vontade.
Hoje ainda quero procurar uma Igreja Presbiteriana pode ser que assisto algum culto. Também preciso encontrar o General Rosinha que é batista e possivelmente a gente se torne bom amigo.

Desta vez acho que chega de escrever, pois não sei mais nada daqui e perguntas não irei fazer mesmo porque você não precisa responder esta, pois eu não sei o endereço que realmente eu vou ficar em Curitiba ou aqui mesmo. Quando eles decidirem eu escrevo de novo.

Fico enviando sinceras saudações.
Seu irmão Arthur

…mas não obtive autorização para viajar. | de Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1928 –

Rio Novo 18 de abril de 1928
Querido irmão! Saudações!

As tuas cartas escritas em 12 de fevereiro e 7 de março uma na semana passada e a outra na semana anterior. Elas vieram rápidas. Muito obrigado por elas. Agora eu vou ter que matar 2 coelhos com um tiro só. É muita sorte receber duas no mesmo tempo.

Nós agora graças a Deus estamos bastante bem, estamos todos bem de saúde, somente o tempo está por demais chuvosos. Chove quase todo dia e quase não dá para trabalhar nas roças e muita coisa apodrece nas roças. Todo este verão não foi só chuvoso, mas teve tempestades e enchentes que impediam a gente ir à cidade. Os pequenos riachos se transformaram em grandes rios. Neste ano em todo Brasil chove muito e a chuva tem causado muitos prejuízos e desastres com muita infelicidade. Soubemos que em São Francisco a chuva foi tanta que o cemitério da cidade foi destroçado pelas águas das chuvas arrastando corpos sepultados e esqueletos pelas ruas da cidade. E que os morros adjacentes da cidade de Santos estão desmoronando e cobrindo grande parte da cidade causando imensos prejuízos a toda população.

Falando em chuva talvez você queira saber como estão as nossas roças. Na realidade penso que você tem pouco ou nenhum interesse neste assunto. As nossas lavouras estão muito bem. Não temos aquelas grandes roças que tínhamos antigamente, mas estão muito limpos porque nós capinamos 2 ou 3 vezes cada roça e assim as espigas crescem realmente maiores.

Na beira da estrada temos uma lavoura e também um pedaço plantado com cebolas. Na encosta do morro temos feijão plantado e está muito bonito. Pena que chove demais. Depois da mata na divisa com o terreno do Ernesto Grüintall no morro junto à mata está todo plantado com milho. Neste lugar quando você estava aqui não tínhamos culturas e sim pasto.
Na grota funda também derrubamos a mata e plantamos milho e abóboras e as plantas estão muito lindas. Pena que é tão difícil de trazer as abóboras lá de baixo. Depois vamos plantar grama e em outras partes semear o Capim catingueiro.
A semente deste capim chegou um saco de 18 quilos que o Artur conseguiu com um amigo do Ministério da Agricultura em Florianópolis. Agora ele tem recebido mudas de plantas frutíferas, sementes de lá. Nem tudo que ele pede consegue, mas quando ele tem, eles mandam.

Agora vamos conversar sobre os nossos parentes na Letônia. Estes estão realmente pobres e isso é realmente penoso assim o Tio André [André Purens irmão do Jahnis Purim meu avô] escreveu um Cartão Postal. Ele mesmo está sempre doente e o Jahnites tem que ir servir o Exercito. A notícia boa é que a Igreja de Jaunjelgava conseguiu um espaço para ele morar de graça. Recentemente enviamos um cheque de 100$000 (cem mil réis) para o Pastor Frejis em Riga a fim que ele troque e mande adiante sabendo que em Jaunjelgava não tem nenhum banco com correspondente estrangeiro. É o que podemos fazer com parentes que precisam de ajuda em caso de tão grande necessidade e a fome bate a porta. O tio André também pediu o teu endereço e diz que vai escrever.

Dos parentes de São Paulo no momento não tenho notícias deles. A última carta do Tio Jehkabs e da Lilija recebemos antes do Natal as quais nós respondemos, mas depois disso não temos notícias deles. Nestas cartas eles insistiam em convidar para passar as Festas e poder visitá-los e como nós não demos bola para este convite é provável que tenham ficado tristes. Esta semana eu queria escrever para a Lilija e perguntar por que ela não escreve. Eu naquela oportunidade queria viajar, mas não obtive autorização para viajar. Tanto eu como o Artur somos tolhidos e não temos liberdade para sair, como você tinha e têm ainda.

As tuas lembranças para o Pastor Stroberg foram entregues e ele manda muitas amáveis lembranças pra você e também disse que vai escrever.
Lucia

O Pastor Stroberg trabalha diligentemente, mas não dá conta de ir a toda parte… De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1928 –

Rio Novo 26 de Janeiro de 1928

Querido irmãozinho – Saudações
Recebi a tua carta escrita no dia 30 de Novembro passado e bem como os cartões e por isso muito obrigado
Não sei o que teria acontecido com as minhas cartas ou não recebestes ou não queres responder. Nós também não recebemos cartas suas, pois a anterior a esta recebemos no mês de Outubro qual eu prontamente respondi. Depois escrevi mais uma carta e como nada acontecia parei de escrever. Fiquei esperando respostas suas e como até agora não tinha resposta às minhas cartas foi motivo suficiente para parar de escrever.
Também pode alguém ter ido ao Correio e apanhado as cartas e devido ao grande interesse e não ter entregado prá nós.
Agora graças a Deus estamos mais ou menos saudáveis, Somente a minha mão direita está inchada e dói, então fica difícil para escrever. Semana passada o Arthur teve febre que o atormentou até que comprei medicamentos e pudemos mandá-la embora.

Agora o tempo está muito quente e chuvoso, pois chove toda à tarde se bem que logo após o Ano Novo esta muito quente e seco e a gente temia que todas as lavouras secassem. Felizmente semana passada começou a chover roncando trovoadas e dando temporais com ventanias derrubando milho nas roças. Nas nossas felizmente o prejuízo foi muito pouco, mas ai pela vizinhança tem muito milho no chão. Este ano parece que o milho vai dar espigas muito grandes e bem formadas. Este ano tudo se desenvolveu muito bem e se você estivesse em casa poderia com bastante frutas. Os pêssegos estavam super carregados mesmo aquelas arvores nas capoeiras tomadas de frutos e este ano sem bichos nenhum. Agora as uvas estão maduras e assim visitas é que não faltam. Também temos muitos pepinos e muitas outras coisas para comer. É uma pena que a gente não dá conta de comer. Eu tenho comido até mais não poder e assim mesmo não consegui engordar. Na próxima carta eu mesmo vou levar até a América e ai você vai poder avaliar se eu engordei ou se estou na mesma.

Na Igreja vão mais ou menos bem, às vezes os velhos ranzinzas gostam de uma polêmica principalmente o Velho Karklin, mas quando não há oponentes a discussão se esvai.
O Pastor Stroberg trabalha diligentemente e com muita boa vontade, mas não dá conta de ir a toda parte aonde o chamam. Em Laguna o trabalho vai muito bem e ainda no mês passado pagamos os 40,00 mil réis do aluguel do Salão. O Deter tinha prometido que deste ano em diante ele mandaria pagar e agora chega à notícia que ele não tem o dinheiro, mas nós aqui decidimos que o trabalho da pregação do Evangelho é muito importante e que tem que continuar principalmente neste local que o povo é muito receptivo e sempre pede que a gente volte. No dia 6 de Janeiro dia da Estrela ou dia dos Magos foi daqui uma caravana de cantores e outras pessoas e somente o Pastor não pode ir, pois nestes dias nasceu o Valfredo o primeiro filho da Dª Griselde e pastor Stroberg. Quem dirigiu os trabalhos lá em Laguna foi o Aléxis e o Siguismundo Anderman de Mãe Luzia. Se o Pastor tivesse ido teriam sido realizados os batismos e daí o Francisco da Cruz e sua esposa teriam sido batizados como os primeiros deste trabalho. Estes já são ativos professores da Escola Dominical onde estão matriculadas mais de 20 crianças. Agora Deus providenciou para que não seja mais necessário pagar os 40 mil réis, pois conseguiram salão mais confortável por apenas 20 mil réis e o povo de lá tem muita boa vontade e tenta fazer o mais barato possível para a continuação do trabalho. Em Grão Pará também o trabalho é bem acolhido e no mês passado eu fui a cavalo junto com 8 cantores e naquele dia tinha uma assistência de mais de 100 pessoas. Em toda parte há bastante trabalho, mas o Pastor não dá conta de atender a todas as necessidades o que o deixa um tanto frustrado.

Acho que devo terminar de escrever, pois estou com muito sono e o braço dói muito. Se você escrevesse uma carta tão longa pra nós traria muita alegria e satisfação. Mas parece que você não gosta mais de escrever para nós aqui, a Mamma já disse que quando você precisava alguma coisa de casa então lembrava facilmente de escrever e como agora não precisa então rapidamente esquece-se da gente.

Ainda amáveis lembranças de todos nós aqui e que te vá muito bem.
Fico aguardando resposta tua
Lúcia
PS
[Ainda os que faleceram no ano passado foi o velho Paeglis e no último dia do ano foi a velha senhora Tesmann. Ainda recebemos a triste notícia da Argentina onde no dia 17 de Dezembro a Senhora Kristina Leimann separou-se desta vida indo para o lar celestial de encontro com os seus que foram antes.,]

Eu naquela vez não consegui escrever e assim ficou para outra semana …| de Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1927 –

Rio Novo 01 de setembro de 1927

Eu naquela vez não consegui escrever e assim ficou para outra semana e então ficou “até agora”.

Nós tínhamos que fazer a mudança aqui para o Rio Novo, então serviço tinha demais até trazer tudo para cá então agora ficou somente o milho lá no paiol e a mandioca nas roças que depois nós teremos que ir buscar, mas agora todos estão morando aqui e assim mesmo temos serviço demais. Já roçamos um pedaço do pasto que depois de queimar, vamos arar e depois plantar milho e grama. Então não fique tão admirado por que eu estou atrasada com a escrita de cartas por que durante o dia a gente tem que trabalhar na lavoura e a noite vem um sono tão forte então quando a gente cai na cama e pela manhã acorda ainda com sono e se tivesse alguém que comprasse o excesso de sono teria para vender.

Na noite de ontem eu fui a Igreja para o ensaio dos hinos para a Festa da Mocidade [O aniversário da União da Mocidade era no dia 16 de Outubro] então recebi uma carta a mim endereçada com a caligrafia totalmente desconhecida. Quando abri vi que era do Rio de uma moça ou dona quem escreveu. Eu não a conheço, mas ela diz que me conhece por fotografias. Ela quer saber quando é o teu aniversário e ela quer que escreva rápido o mês e o dia e é isso tudo que ela queria de mim. O nome dela é Aruclia de Oliveira – Rua Antonio Vargas 23 Estação de Cascadura – Rio- O que ela quer com o seu aniversário eu não sei. Se ela é de Pilares você deve conhecê-la. Eu não vou escrever a data do seu aniversário, mas vou dar o teu endereço para que ela peça direto para você. Ela também queria saber se eu sou mais nova que ela.

Você pergunta sobre a minha ida para escola. Estou sentindo que não vai dar. Eu tenho pensado e avaliado sob todos os aspectos. O pessoal de casa não quer que eu vá para a cidade grande. Se eu for quem, vai pagar os custos? Você promete pagar a metade. Será que eu poderia arranjar o dinheiro para pagar ou quem sabe nem dinheiro para poder voltar. Agora a Escola está muito cara 120$ por mês quem poderá pagar? Quando você foi embora nós ficamos trabalhando para mandar dinheiro para você pagar os seus estudos, mas agora não pode ser mais assim. O Paps e a Mamma estão ficando mais velhos e não conseguem o mesmo o que eles faziam naquele tempo. O Artur sozinho apesar de muito trabalhador não vai conseguir. A época que eu deveria ter ido está longe para traz. Quando aqui tinha aulas na escola eu não era autorizada a ir assistir as aulas por que tinha que ir para a roça plantar, colher, vender para mandar dinheiro para você e estes anos estão longe atrás.

Se alguma vez você trouxe com você o “gaspazu” [Un gadiuma ja tu atvedi sev gaspazu lidz….] então eu não ganhei nada. Aqui faz tempo que o povo fala que no Rio de Janeiro você não conseguiu nenhum e então por isso você teve que embarcar para a América. Você nada escreve nada sobre você mesmo e não é como nós que escrevemos e contamos tudo. [ Devido a dificuldade da tradução desta palavra “ gazpazu “ esta frase ficou completamente prejudicada. Palavra não foi encontrada nos meus dicionários]
O Arturs não diz nada, ele sempre está de acordo comigo e com o que eu faço, mas a Mamma não quer que eu vá para a Escola porque alguma tem morrido e que adianta ir para escola e depois morrer, mas eu não ligo para isso, mas o Paps disse que as moças é suficiente saber cozinhar sopa [Putru] eu sei que não é bem assim, é bom que saiba de tudo, mas quando não é possível então resta se contentar com que a gente sabe e tentar aprender o possível em casa. Ainda aquele caso com Eduardo [Namoro] não está terminado e quem sabe nem termine, pois o nosso pessoal aqui não tem nada contra e eu tenho começado a conhecê-lo melhor, ele é uma boa pessoa e todo pessoal dele é favorável e espera em paz que eu aceite e vá para lá. Ele prometeu te escrever, quando ele escrever então me escreva contando a tua opinião sobre ele, pois você sempre foi sabido e que conheces as pessoas até pela letra.
Por hoje chega outra vez eu escrevo mais.
Ainda mais lembranças de todos. Lúcia.
(Escrito na lateral)
O Romão Fernandes não mora mais aqui, ele faz tempo que mudou para Araranguá para morar lá. O Arturs mandou aquela carta, mas se ele recebeu eu não sei. Ainda muitas lembranças e saudações do Onofre Regis e esposa.

[Nesta carta quando traduzi me deparei com um termo em leto “gazpazu” e assim a frase não dava sentido algum.
Mas a minha sorte é ter amigos que entendem o idioma muito mais que eu que nunca tive uma aula desta língua e tudo que aprendi foi com a minha avó Lizete Rose Purim e este meu amigo João Gretzitz mandou a Pedra de Roseta e tudo ficou claro.
Este termo “gazpazu ” acentuado de modo diferente quer dizer esposa. A irmã da carta não viu a esposa, Se ele levou a esposa para a América.-Para deixar mais claro o assunto vou colar a mensagem do meu super amigo Gretzitz: “Novo comentário ao seu artigo “Eu naquela vez não consegui escrever e assim ficou para outra semana …| de Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1927 -”
Autor: João Gretzitz (IP: 189.46.167.207 , 189-46-167-207.dsl.telesp.net.br)
Email : gretzitz@gmail.com
URL : http://www.facebook.com/j.gretzitz
Whois : http://whois.arin.net/rest/ip/189.46.167.207
Comentário:
Prezado amigo, com relação ao texto onde aparece à frase: “…un gadiuma ja tu atvedi sev gaspazu lidz….” , peço desculpas para sugerir que, onde se lê “gaspazu” possa ser na verdade a palavra “gaspažu”, o mesmo que “kundze”, em português: “senhora”. Gosto muito de ler aquelas histórias relatadas na cartas publicadas e que tanto nos mostram da história de lutas e sacrifícios daquelas famílias, algo comum a todos os demais imigrantes letos que chegaram no Brasil, naquela época… Espero ter podido contribuir e deixo aqui meu muito obrigado e um grande abraço.

Pode visualizar todos os comentários a este artigo aqui:
https://rionovo.wordpress.com/2013/04/18/eu-naquela-vez-nao-consegui-escrever-e-assim-ficou-para-outra-semana-de-lucija-purim-para-reynaldo-purim-1927/#comments

Por tudo muito obrigado
V.A.Purim
}

Agora nos estamos passando suficientemente bem. | De Lucija Purim para Reinaldo Purim – 1927 –

Rodeio do Assucar 27 de julho

(Não esta grafado o ano, mas pelo contexto infere-se ser de 1927).

Querido irmãozinho!

A tua carta escrita em 19 de maio recebi. Muito obrigado. Agora o envio e recebimento de cartas não são como antigamente como quando você morava no Rio de Janeiro, pois naquele tempo as cartas iam e voltavam rápido, mas agora demoram até 3 meses ou mais e quando elas se desencontram ai a gente cansa de esperar por elas e às vezes passa o mês sem que a gente receba carta alguma.

Nós agora estamos passando suficientemente bem. Todos mais ou menos sãos, agora eu peguei uma tosse muito forte, mas não fui para a cama. Na semana passada sim o Paps foi para a cama, mas agora já está bom. No final do mês passado o Arturs ficou doente com a febre [Deve ser malária, pois esta doença era comum ainda quando eu era pequeno e morava lá.]. Ficou de cama algumas semanas e tanto que eu tive que ir a Orleans em busca de remédios para ele, então depois ele sarou, mas a febre está atacando a muitos por ai.

Agora o tempo está bom e está frio, já faz quase um mês que o tempo se mantém bom e muito frio e toda manhã amanhecia tudo branco. Agora tudo está morto queimado pelas geadas. O gado não tem nada verde para comer. Agora na semana passada ficou um pouco mais quente e no sábado a tarde veio uma chuva, mas no outro dia que o tempo amanheceu limpo e está geando outra vez. Estou um tanto cansada de tanto frio e gostaria que fosse um pouco mais quente, mas nem tudo que uma pessoa quer nem sempre acontece. Um inverno frio como este fazia muito tempo que não acontecia como está sendo este ano. Deverá haver a partir de agora um bom verão. Não deverá haver tantas lagartas e besouros que comem as plantações e assim podem se desenvolver melhor. Aqui os italianos dizem que se não há um inverno rigoroso, então no verão nada se desenvolve bem. Agora eu não concordo inteiramente porque no ano passado não tivemos um inverno frio e as plantações para nós foram ótimas.
O milho já está todo colhido e guardado nos paióis, portanto poderemos tranquilamente comemorar a Festa da Colheita. Este ano o milho desenvolveu-se muito bem e muito melhor que no ano passado, pois colhemos 35 carradas [Em um carro de boi cabiam x jacás ou balaios de milho tanto se fosse usada a seve que era uma cobertura lateral e também frontal fixa aos fueiros feita de taquara e cipó de um metro de altura fazendo com que o aproveitamento da mesa do carro de boi fosse totalmente otimizada para o transporte do mesmo ou se fosse usada a armação gradeada de madeira que tinha a mesma finalidade, mas em vez de ser uma peça flexível era composta de duas laterais com encaixes apropriados para duas tampas uma dianteira e outra traseira, mas também fixada nos mesmos fueiros.] e em todas as roças as espigas eram grandes quase não sobrando restolhos [Restolho era uma segunda espiga do colmo ou uma não bem desenvolvida usada naquele tempo para alimentação das vacas e isso era feito enquanto eram ordenhadas. Não eram dadas espigas grandes porque elas podiam engasgar e se afogar. Naquele tempo lá não existiam os desintegradores e quando não havia espigas pequenas as normais eram cortadas com facão ou machadinha. Como o milho era armazenado do modo que chegava da roça era feita catação na hora da necessidade e muitas vezes quando a noite no escuro devido a falta de luz a avaliação era feita baseada no tato] para alimentar as vacas.

No mês passado no dia 26 morreu o velho Auras, ele ficou doente vários meses. A doença dele começou com um resfriado e apesar dos familiares acharem que ele iria sobreviver e ficar bom, pois ele não era tão velho, pois tinha somente 56 anos de idade, mas agradou ao Senhor leva-lo para a sua nova habitação e a sua glória. Resta o desconsolo dos familiares e amigos.

O pastor Stroberg na semana passada esteve em Mãe Luzia acompanhado de músicos e cantores que foram dar apoio ao seu trabalho. Depois foram também à Laguna também fazer trabalho de evangelização. Voltaram para casa muito felizes porque o trabalho foi um sucesso. Em Laguna eles foram agraciados com a cessão do Teatro inteiramente grátis então houve um grande auditório de gente atenciosa e ainda solicitando para que fossem outras vezes. Também tiveram um grande apoio de uma distinta família presbiteriana que ajudou a providenciar o auditório e divulgar as atividades. Para o pastor Stroberg as portas estão abertas em toda parte e só ir trabalhar, mas como pode uma pessoa sozinha fazer tudo e ainda mais complicado devido as grandes distâncias e assim dificulta o acesso.

Na semana que vem é esperado o Missionário Deter aqui. Vamos ver se vem mesmo, pois algumas vezes têm prometido e não tem conseguido vir.
No dia 22 de junho viajou para o Rio de Janeiro o Alexandre Klavin acompanhado o Wiktor Staviarsky. O Alexandre vai para o Colégio aprender ser Professor.
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Então depois de passado um bom tempo que eu comecei escrever esta carta, já há mais de um mês então tenho que continuar. Na semana passada recebi a tua carta escrita no dia 24 de julho e por ela muito obrigado e fiquei feliz por que você respondeu rápido. Eu nunca tinha sido tão preguiçosa como agora, mas também não vou ficar me desculpando como faz a Lilija [Lilija Purens a prima de Nova Odessa] Tenho ouvido falar ai por outras pessoas que a Lilija ficou noiva de um Fulano de tal, mas para nós ninguém escreveu nada. Vou ter que escrever e perguntar se é assim mesmo.

A festa de aniversário da Igreja [O aniversário da Igreja era dia 20 de Março]foi muito boa, o programa bastante extenso. Chovia torrencialmente, mas o templo ficou repleto e quando tem café grátis com acompanhamentos então ainda mais fácil vir muita gente. Tinha 3 visitantes de Mãe Luzia e um de Kuritiba que é o pastor de lá o Djalma Cunha, Ele trabalhou muito no Norte do Brasil e estudou no Seminário Teológico de Recife e agora está em Kuritiba. Ele é bastante jovem e ativo tem 33 anos e a cor morena queimada pelo forte sol do Nordeste. Ele veio uma semana antes da Festa, sem ninguém estar esperando e foi embora uma semana depois. As lições que o Pastor Djalma Cunha ofereceu no Instituto Bíblico foram ótimas e valeu a pena mesmo, lamentável foi que coincidiu com a época das grandes enchentes, pois chovia sem parar e assim muitas pessoas não puderam vir. Também havia planos para fazer cultos de evangelização em Orleans e pelo mesmo motivo deu em nada. O Pastor Djalma prometeu voltar no mês de outubro por ocasião da Festa de Aniversário da União da Mocidade e também quer apresentar um Curso baseado no livro “Manual da Mocidade”.

Depois do Instituto no dia 22 de março houve o Casamento do Willis Slengmann com a Elvira Salmin Stroberg que era viúva. Então você pode imaginar todo povo marchando num imenso lamaçal para a casa dos Slengmann. Agora eles não moram lá dentro onde eles moravam antes e sim desceram para lá um pouco acima do passo do Rio Novo [Neste lugar onde os animais, carros de boi, arranhas e galeotas passavam por dentro d’água. Somente os pedestres e os cachorros passavam por uma pinguela. O meu pai que trazia mercadorias da Estação da Estrada de Ferro para a venda do Tio Eduardo Karp neste lugar muitas vezes teve que passar toda mercadoria nas costas devido o rio estar cheio demais].
Já no meu tempo quem morava ali era o Eugenio Elbert casado com a Alida Slengmann e continuavam com a atafona moendo milho, sal, etc. e também tinham uma trilhadeira onde nós levávamos trigo cortado para ser debulhado. [Ao redor da casa havia muitas árvores europeias como bétulas, plátanos etc.]. Ele mora agora onde o outro Slengmann tinha uma atafona junto ao Rio Novo onde que a gente sempre tem que atravessar.

Durante a Páscoa o tempo esteve bom e muito quente como fosse pleno verão, raramente houve calor assim, mas depois começou a chover outra vez. As Festas da Páscoa transcorreram calmas por que o Pastor tinha ido a Mãe Luzia e nós aqui ficamos sem o Pastor. Ele ainda foi a Laguna. Em Laguna o trabalho vai em frente apesar de com tanta rapidez não é possível fazer obras grandiosas. Se lá tivesse um obreiro fixo então teria muito mais oportunidades de que o trabalho fosse para frente rápido e não como hoje quando as viagens são quase esporádicas. O Pastor Stroberg tem muito trabalho então ele convide e convoca outras pessoas para o auxiliarem, mas as dificuldades são que muitos lugares são distantes e de difícil acesso. Na semana que vem o Pastor planeja ir, a Urubici, no outro lado das Serras. Ele quer visitar os Grikis e os velhos Bruvers. O mano Artur está planejando ir junto e vamos ver se vai mesmo.

Não me lembro se já escrevi sobre o casamento do Werner Grikis com a Elza Sanerip no dia 30 de setembro do ano passado.

A senhora Klavin da “mata [Mejza Klavene – Distingue a Senhora Klavin que morava no Rio Novo (Katy) da outra que morava lá no interior da Invernada –nas matas. Esta senhora era da família Malvess e antes fora casada com o Simpson que depois de viúva casou com o Klavin.] está muito doente e não sei se vai sobreviver, ela sempre foi um pouco doente, mas não tão gravemente com agora, pois agora sempre está de cama.

Junto com esta estou mandando uma fotografia de um piquenique no pasto do Augusto Felberg e a outra é do coro da Igreja do Rio Novo. Agora não está mais tão grande. Você ainda pode reconhecer alguém? Quem está sentada ao lado do Osvaldo Auras é a Lídia Stoberg irmã do pastor.
A terceira fotografia a pessoa [Deve ser do Eduardo Karp, naquela época, namorado dela.] que aparece se você não a conhece não tem importância ele também quer conhecer você melhor e manda muitas lembranças e votos de bem estar.

Se na América onde você está tem pêssegos e melancias deliciosas então mande as sementes para nós plantarmos aqui. Tudo o que for bom e barato pode mandar. Também cartões e outras publicações onde aparecem os lugares onde você está também pode mandar. Quando você vem para casa? Pelo que eu deduzi das suas últimas cartas você está pensando vir para este lado.
Bem desta vez chega de “imprimir”, pois já está uma longa carta e eu também não tenho mais papel. Aquela carta escrita para o Arthur foi recebida há muito tempo. Ainda lembranças de todos aqui. Agora fico aguardando longa carta sua. Lucia.

(Escrito na lateral)
O endereço do tio André é o seguinte:
Ratujza Iela N.17 – Jaunjelgava – Latvija.
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