Voçes ahi | Victor Eggers a Reynaldo Purim

[carta em português, apresentada na grafia original]

São Paulo, 28 de junho de 1918

Amigo Reynaldo!

Saudações!

Antes de tudo devo pedir-te desculpas de só responder agora ás tuas ultimas noticias, bem como agradecer-te o envio dos estatutos do collegio que freqüentas. O motivo de eu não ter escripto antes é em parte ter estado ausente, e em parte é preguiça de escrever. Não tome por mal a minha franqueza, mas quem como eu está condennado a ter o dia todo a penna na mão, sente-se aliviado quando chegou a hora da folga, e tudo que dizer respeito a correspondencia particular põe-se de lado quanto mais pouder. É devido a isto abandonei toda correspondência particular mantendo-a unicamente consigo e com meu mano que ahi se acha.

Farei entretanto, tudo possível de responder-te com maior presteza, sempre que tiver motivo para isto. Assim ao menos tenho um vicio menos, pois ainda me lembro da descompustura que levei de minha mãe, quando em tempo que estive morando em Santos, e durante os oito mezes que lá estive, escrevi um único cartão á família, o que é uma prova cabal da minha preguiça de escrever.

Você leu ahi ultimamente as noticias sobre o frio que aqui fez ultimamente? Foi simplesmente um horror, e eu que estou acostumado com o calor não resisto ao frio por mais calmo que seja. Calcule que tivemos 3 graus abaixo de zero, e justamente no dia de aniversário do teu tio (24 de junho) é que o frio foi mais intenso — nunca senti tanto frio em minha vida como naquele dia. Também não foi brinquedo, tanto que as plantações no interior do Estado foram todas devastadas, as noticias falam de prejuízo total ou collossal. Voçes ahi estão gritando que faz frio, e no entanto estão com o thermometro 8 -10 graus plus, o que não é nada.

O pequerrucho lá em casa está crescendo e engordando pra burro, algum dia vai ficar um gigante.

Para hoje basta de injecção. Envio as minha saudações e abraços s/ amigo

Victor [Eggers]

E o misturo com español | Arthur Leiman a Reynaldo Purim

[carta escrita num misto de português e espanhol, apresentada na grafia original]

Ramirez Entre Rios
26-6-1918

Estimado collega e amigo Reynaldo!

Saudações em nosso senhor Jesus Christo.

Hoje quando cheguei em casa recebi a tua carta. Muchissimas gracias! Só peço desculparme porque ahora me vae médio castijo [castelhano]. Isto não pnses que estoy caçoando no, esto és pura verdad.

Quanto a vida actual, eu teria muito o que dizer mas como sabes, acerca disto tem difficuldades, tu não comprehnderás tudo e tenho poço tempo, e ao mesmo tempo muito quando quero. Os primeiros dias semanas mezes são meio difficeis, devido os idiomas, portanto agora graças ao bom Deus vaese indo médio coma pá tokeem.

Estou actualmente estudando dois idiomas mais necessários e mais música, orgãm, citara, ect. Hace uma semana jo soy el segundo maestro de la escuela de Ramirez.

Ensino leer castijo e mas el outro idioma w-. requinat – ej dos veces por la semana al cantar. El miesmo maestro enterame em castijo y aleman. Quanto aos trabajos de la iglezia vae se indo.

Desejaria um que os membros frequentassem mais os cultos, mas também é um pouco impossível agora em inverno, faz muito frio, penso que tal frio nunca sentise que como tenho de passar agora e quando chuve tem tanto barro que não se puede nem imaginar de salir de casa, pois tudo és vargem a água para todo no meio do caminho e o resultado já podes imaginar. Faz frio de maneira tal que eu tenho duas sirolas e outras tantas calsas três camisas colete palito e um sobre casaco que custou 35 pesos e ainda estou tremendo.

Sim a egreja tem duas escolas dominicais , duas sociedades de moços e uma de señoras. E dolorozo ver que a mocidade pouco se interrassase acerca de estudos – egreja ect.

Os campos e as rossas já estan quasi todas semeadas porem hai tantos ratos que em certos logares destroem as plantas.

Desculpe estou com tanto frio que não posso agüentar. Assim queira desculpar a mala caligrafia pois nunca tive melhor, e o misturo com español.

Saudades e saudações, abraço do teu

Estimado Arthur Leiman

Ramirez
Entre Rios
Argentina

Mais este favor | Carlos Leimann a Reynaldo Purim

Cachoeiro do Itapemirim, 21-06-18

Prezado Reynold.

Que tudo corra-lhe bem são os meus desejos. Reynold, pelo correio envio-lhe 5$000 para comprares-me uma ocarina de barro como aqquele que deixei para o Arthur mais ou menos, e entregar ao irmão Reno ou Jackson para trazerem-me. Sim? Não precisa ter regulador a ocarina – Esperando que me faças mais este favor, sou seu amigo

Antecipadamente obrigado

Carlos Leimann

Os dedos começam a congelar | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 21 de junho de 1918

Querido Reinold,

Primeiramente envio muitas lembranças. Há muito tempo estamos esperando alguma carta sua, mas como não vem, o que se há de fazer. A última recebi no dia 9 de maio e em seguida preparei uma longa carta em resposta; junto mandei um pacotinho e sei que você a recebeu pelas anotações nos jornais. Mas a resposta não recebi nem junto com os jornais nem avulsa. Às vezes penso que tenha sido extraviado ou que alguém tenha tirado e não entregue. Os Boletins temos recebido regularmente.

Desta vez não tenho muito o que escrever. Nós vamos bem. Estamos com saúde, apesar da tosse estar na moda. Isso porquê o tempo é muito irregular. Até agora [os dias] eram sempre quentes, mesmo quando chovia ou quando o sol brilhava. Esta semana teve chuva, mas a temperatura em geral esteve muito quente; porém começou soprar um vento frio e logo limpou o tempo e em seguida, ontem pela manhã, deu a primeira geada do ano.

A geada chegou até a nossa casa, mas não era das grandes. Neste ano ainda não tinham ocorrido geadas em nenhum lugar por aqui. Ontem pela manhã, com a geada, o tempo estava limpo, mas com o passar do dia começou a ficar nublado e continuou muito frio. À noitinha começou uma chuva muito fria, mas hoje já não está tão frio.

As chuvas são tão frequentes que nos impedem de bater o feijão, apesar de não ser tanto que ainda falta. Estão arrancadas já há bastante tempo, e a colheita também levou muito tempo por causa do tempo chuvoso. Este ano não fizemos a eira na roça devido à umidade. Batemos o feijão no terreiro. Atrelamos o Bosi e vamos buscar na roça perto do mato ou aquela perto do cedro, carregamos de feijão por bater e trazemos para casa. Se o tempo ajudasse já teríamos terminado. No ano passado, antes do São João, o paiol estava quase cheio de milho, mas este ano o tempo não deixa.

[Leia sobre o cultivo do feijão]

[NOTA: O cedro mencionado era um pé de Cedrela brasiliensis – Cedro branco. Havia outras variedades de cedro: Cedrela fissilis – Cedro vermelho; Cedrela sp — Cedro rosa. O menos nobre era o cedro batata, que por ser muito macio e tenaz, era usado para fazer as “cantadeiras”, que eram os mancais dos eixos dos carros de bois. Já os próprios eixos eram feitos de madeira bem dura como a peroba ou o pau jacaré (Laplacea semiserrata) que é uma árvore espinhenta, mas depois de seca se torna dura e resistente]

Fizemos uma cerca nova na parte baixa do pasto, na divisa com o terreno da igreja, pois a velha estava muito podre. O Augus [Augustin] não saiu da zeladoria da Igreja; parece que o Peteris não tinha amigos em quantidade suficiente para votar nele. Outra razão: como ele não ia plantar nada, a comunidade teria que sustentá-lo.

Não faz muito tempo faleceu o velho Rebeins e, pouco tempo depois, a esposa. Logo em seguida Emilio e o Rodolfinho casaram, não sei se com brasileiras ou italianas.

Ainda uma novidade: no dia 6 de junho, logo depois do meio dia, do lado do morro do Grikis, começaram vir gafanhotos, mas numa quantidade imensa como nunca tinha visto antes. Perto da nossa casa eles não pousaram; todos seguiram em direção do morro do Leepkaln.

Era uma nuvem tão densa que escureceu o sol e um ruído com fosse um prenúncio de uma tempestade. Começaram a surgir às 13h30 e terminaram de passar às 15h00; tivessem pousado seria uma camada muito grossa. Na nossa Bukovina eles pousaram, mas o prejuízo foi pequeno, pois comeram as folhas e baraços das abóboras e o milho estava a salvo, porque já estava seco. Por isso eles não ficaram e seguiram em frente. Esses gafanhotos eram diferentes, porque aí para frente só pousavam para se alimentar e iam embora.

Bem, agora chega os dedos começam a congelar e amanhã terei que ir à cidade. Quando receber alguma carta, sua, vou escrever mais. Escreva bastante, pois semana que vem você deverá estar em férias.

Os chapéus não ficaram grandes demais? O que você fez na Festa do Verão? [NOTA: Festa da ascensão do Senhor — no hemisfério norte era verão]. Aqui esse dia foi realmente de verão: quente e seco. Neste dia o Robert [Klavin] e o Arnolds [Klavin] foram para as Serras.

Ainda muitas lembranças do Papae, Mamae, Lusija, Arthur e

Olga

Ainda verei o Brasil | Karlis Salits a Reynaldo Purim

85 Charlotte St.
12ta Junija, 18 [12-06-1918]
Rochester, M. J.

Querido Reinold,

A tua querida carta recebi. Muito obrigado. Como tu sabes as tuas cartas levo em alta conta, mas minha admiração e o meu respeito por sua pessoa se multiplicaram muitas vezes pela sua personalidade e não só por isso — e ainda mais por ter mencionado muitos e queridos nomes de pessoas amigas, aqui e ali em sua carta. As feições desses brotavam em minha mente com agradáveis recordações dos tempos passados, à medida em que eles desfilavam pela sua carta e pela minha memória.

Saúdes a todos: diga-lhes que sempre os mantenho no registro das mais gratas e queridas recordações. Ficaria muito alegre em saber mais destes nossos amigos. O que faz o teu tio Ludvig Rose? Ele ainda edita aquele jornal em língua alemã? Por favor mencione o endereço dele. Teria muito o que pedir e perguntar mas não ouso, sabendo das minhas limitações neste assunto.

Agora tenho realmente muitas atividades e trabalho. No mês passado tive de enfrentar três exames na escola noturna. Agora estou estudando a língua francesa e em compensação dou aulas de espanhol, que por aqui são muito bem pagas.

Meu irmão terminou a Universidade aqui em Rochester e está praticando na área de Química. Pode ser que depois vá para o Brasil. Quanto a minha pessoa, no que depender de mim podes afirmar a todos que ainda verei o Brasil.

Peço perdão pelo longo silêncio.

Seu

Karlis Salits