DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN – 5ª PARTE

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS POR JOÃO REINALDO PURIN – 5ª PARTE
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REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin

5ª. Parte
Em Curitiba
Voltando um pouco no tempo, preciso colocar que no mês de janeiro de 1954, por ocasião de uma Assembléia da Convenção Batista Catarinense em Urubici, uma vez que há tempos, me considerava vocacionado para o Ministério da Palavra, atendi ao apelo. Depois de tornar pública a minha decisão, procurei o missionário Adriano Blanckenchip que se prontificou a conseguir bolsa de Estudos em Curitiba, na então Escola Batista de Treinamento, hoje Faculdade Teológica Batista do Paraná. Ali permaneci como aluno interno 4 anos. Pelas manhãs aulas bíblicas e trabalhava na horta, rachava lenha para a cozinha. À noite fazia o Ginásio.
Logo que cheguei escrevi carta ao Titio, comunicando que estava em Curitiba estudando para o Ministério Pastoral. Creio que no ano seguinte ele veio a Curitiba. Gostou demais da cidade. Ficou surpreso ao ver como o curitibano se trajava bem. Ficou por alguns dias na pensão da irmã Maria Túlio, na Rua Duque de Caxias onde meus irmãos, Valfredo e Viganth Arvido moravam.
Quando ele chegou, eu estava fazendo trabalho como pré-seminarista pelas Igrejas do Norte do Paraná. Quando nos encontramos, ele olhou para mim de alto a baixo e acho que ficou decepcionado com a minha altura e disse em leto: “tu ês mass noo augum” = tu és pequeno de (crescimento) altura.
Tive a oportunidade de levá-lo para visitar a Escola onde estudava e também para uma visita ao diretor, o missionário Lester Bell.
Neste ínterim, o Valfredo, falando com o irmão Mizael Cardona de Aguiar aventaram a possibilidade de se adquirir uma propriedade. O tio ficou também entusiasmado com a idéia e ao voltar para o Rio, limpou as suas reservas nos bancos e foi adquirida a propriedade da Rua Jacob Bertinato, que se tornou o centro dos Purins até agora.

Eu no Seminário
No ano de 1961 ingressei no Seminário do sul. Lá chegando, os colegas, maldosos, brincando, começaram a fazer hora comigo, pois sabiam que eu era sobrinho dele, diziam: “como é que pode…, agora aparece aqui um filho do Dr. Purim?” Tudo não passou de uma brincadeira. Ele sempre gostava de me receber em seu gabinete. Nas primeiras vezes já foi me dizendo que a Igreja de Bangu já tinha um seminarista e que não teria como ter dois. Mas por Deus, o Pr. Benilton Carlos Bezerra, da Igreja Batista em Laranjeiras já havia pedido um seminarista ao reitor, Dr. Oliver, que logo me deu carta de recomendação e para lá fui, onde passei meus quatro anos de seminário. Nos últimos meses, antes de minha formatura, o Tio me convidou para pregar em Bangu. Foi uma experiência muito boa. No final do culto alguém interpelou o pastor: “Mas, Dr. Purim, o senhor com um sobrinho no Seminário e ninguém aqui ficou sabendo?” Ele deu aquela risada característica. Ele já tinha me dito, no começo do meu curso que tinha por norma não apresentar parentes em parte alguma. Isto já era coisa antiga. Nunca procurou ajudar seus irmãos, especialmente as irmãs que tanto pediram que isto acontecesse. Mas era uma das normas dele e ninguém poderia convencê-lo de outra forma.

Uma de suas esquisitices notada pela família foi o fato de não participar de meu casamento, pois naquela mesma hora estaria acontecendo o aniversário da Sociedade Feminina de sua igreja. Horas antes do casamento, passou na casa dos meus sogros, justificou-se e preferiu a sua igreja. E lá se foi. Todos “compreenderam” e perdoaram.
Conceituadíssimo
Em que pese estas esquisitices ele era conceituadíssimo por todos que o conheciam e que ouviam falar dele.
Na igreja era muito querido. Todos o tinham na mais alta consideração, apreço e respeito. Solteirão que era, entretanto, freqüentemente casais iam tomar conselhos com ele, acatavam suas orientações e acertavam-se em seus relacionamentos.
Seus estudos bíblicos e sermões eram apreciadíssimos. Todos recebiam a palavra dele como vinda de Deus e faziam questão de não perder uma palavra ou o raciocínio dele que levava o auditório a ponto de perder o fôlego. Apenas, quando terminava, o povo se mexia, como que dizendo: que coisa maravilhosa! Sempre tinha algo novo que extraía da Bíblia que é realmente inesgotável. Ele mesmo dizia com certo orgulho que não repetia sermões. De fato, isto pode ser verificado pelos sermonários que deixou.
Para o púlpito levava a Bíblia e o seu sermonário. Era um livro grosso e pautado. Para cada mensagem usava uma página. Escrito em letras bem pequenas, porém, legíveis. Começava com o título, data, hora e local em que iria pregar: Bangu, Universidade Rural (Seropédica), Padre Miguel, 2ª de Magalhães Bastos, Vila Realengo (essas eram filhas da Igreja de Bangu), Ricardo de Albuquerque que era pastoreada pelo Pr. Arnaldo Gertner e em outros lugares, como Orleans, Rio Novo, Cajuru. Temos sermões desde os anos 1918 até 1969.
Estes sermonários estão sendo disponibilizados aos interessados, sob o título: Idéias Bíblicas para seus Sermões.
Assim era também no Seminário. Ninguém queria perder suas aulas. Lá ele era o catedrático. Ministrou as seguintes matérias: Filosofia, Filosofia da Religião Cristã, Religiões Comparadas, Apologética Cristã, Teologia Sistemática, Teologia do Novo Testamento, Teologia do Antigo Testamento, Epistemologia, Metafísica, Metodologia Teológica, Lógica, Hebraico, e anteriormente, Grego e História da Igreja.
Suas provas eram corrigidas com muito cuidado, pois qualquer palavra mal colocada prejudicava a resposta e a nota.

Sempre alguém o procurava para tirar suas dúvidas. Lembro-me de um grupo de alunos do Colégio Batista que o procurou dizendo que alguém iria fazer uma semente, um grão de feijão. Ao que ele foi logo dizendo. “Mas, fazer um feijão é uma coisa, vamos ver se este feijão vai nascer! Colocar vida em um feijão é outra coisa”.

O Conferencista
Era freqüentemente convidado para institutos nas igrejas. Nem sempre podia ir, mas temos registros e escritos de suas palestras em retiros de pastores no Estado do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e outros. Em todos esses encontros deixava sempre as melhores impressões.

O Escritor
Em que pese ter deixado poucos livros, houve um período de janeiro de 1936 a dezembro de 1942, em que foi o redator da Revista da Mocidade Batista Brasileira. Essas lições eram estudadas pelos jovens nas então Uniões de Mocidade que funcionavam aos domingos à tarde, antes dos cultos. Através destas lições procurava orientar a juventude batista brasileira em aspectos bíblicos, doutrinários, missionários, morais e culturais. Este material também estará à disposição com o título geral: “Eu vos escrevi, jovens…”.
Os livros, nos quais deixou o seu pensamento registrado, são os seguintes:
As matérias disponíveis, por enquanto são:
* APOLOGÉTICA CRISTÃ, 73p;
* CRISTIANISMO E CULTURA CONTEMPORÂNEA, 63p.
* ELEMENTOS DE METAFÍSICA COM VISTAS À TEOLOGIA CRISTÃ, 70 p.
* FILOSOFIA DA RELIGIÃO CRISTÃ, 104 p.;
* HISTÓRIA DA FILOSOFIA, 100 p.
* INTRODUÇÃO À FILOSOFIA, 42 p.
* LÓGICA, APLICADA AO PENSAMENTO TEOLÓGICO, 68 p.
* METODOLOGIA TEOLÓGICA CRISTÃ, 42 p;
* TEOLOGIA BÍBLICA DO NOVO TESTAMENTO, 100 p.
Outro material que não foi produzido para uso em aula:
* A ESSÊNCIA DA OBRA DE CRISTO – Sua Tese de Ph. D, Com o título original “Um Introdução à Morte e Ressurreição de Cristo.”
* A EXULTAÇÃO DE CRISTO NO ESPÍRITO SANTO, 8p;
* A IGREJA DE CRISTO E SUA MISSÃO EVANGELIZADORA, 24 p;
* A IGREJA DE CRISTO, 52 p;
* A PREEMINÊNCIA DO INDIVÍDUO SOBRE AS CLASSES ORGANIZADAS, 10 p.
* ALGUNS PRINCÍPIOS EXCLUSIVAMENTE BATISTAS, 16 p.;
* AUTORIDADE NA RELIGIÃO CRISTÃ, 67 p.;
* DEMOCRACIA CRISTÃ (entrevista), 8 p.;
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. II, 98 p.
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. I, 98 p.
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. III, 99 p.
* JESUS CRISTO NO PANORAMA DA HISTÓRIA, 59p.
* JESUS CRISTO, O RECONCILIADOR, 76 p;
* O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO, 8 p.;
* O ENSINO DE JESUS SOBRE O ESPÍRITO SANTO, 10p.;
* O PODER DO ALTO, 20 p;
* ORIENTAÇÃO PARA OS NOVOS CRENTES, 24 p.;
* PREDESTINAÇÃO E APOSTASIA ou A PERSEVERANÇA DOS SALVOS, 70 p.;
* PRINCÍPIOS BATISTAS (tese para os pastores do Estado do Rio), 38 p.
Como já foi colocado acima, o Dr. Reynaldo Purim tinha uma cultura e um conhecimento geral de todas ou quase todas as áreas do saber humano.
Entretanto, para não incorrer em algum erro que alguém, algum dia pudesse incriminá-lo, ele era muito cioso aos expor suas idéias e pensamento. Esta, talvez, tenha sido uma das razões de ter produzido pouco. Antes de chegar à conclusão que o texto estava bom, ele corrigia e datilografava várias vezes (naquele tempo nem se falava em computador). Também ele perguntava, quem é que vai ler? Com isso dizia que, se ele expusesse o seu pensamento em sua profundidade, poucos iriam se interessar e ler.
O material que estou expondo, é o que encontrei em seus guardados em forma de apostilas e rascunhos datilografados. Como o que importa é o conteúdo estou colocando à disposição em forma de apostilas, sem muitas alterações.
Se o leitor estiver interessado, é só fazer o pedido.
Vem aí a 6ª Parte. Seus últimos anos – Morando no Seminário. Aguarde.

O PASTOR KARLOS ANDERMAN – SEGUNDA PARTE –

O PASTOR KARLOS ANDERMAN

2ª PARTE

DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS
Autor: Julio Andermann
Datilografado por Laurisa Maria Corrêa
Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
SEGUNDA PARTE

Professor? Não precisava mais ensinar as primeiras letras às crianças por que a vinda do Senhor estava próxima e instrução embotava a espiritualidade.
Ajudado por alguns membros da Igreja então adquiriu uma propriedade de uma colônia em Rio Mãe Luzia, tendo por limite numa ponta aquele rio, transparente, piscoso, que rolava num leito pedregoso entre cachoeiras e poços de águas mansas e profundas e que foi o meu amigo de brincadeiras durante a minha infância.
No mesmo local morava o meu avô Hans com a família onde restavam solteiros os filhos Rodolfo e Sigismundo e as filhas Tereza e Anna. Tereza a caçula da família nascera na mesma época que Lídia a primogênita de meus pais então a tia e a sobrinha tinham quase a mesma idade. Os dois lotes eram separados apenas por uma estrada que servia de limite.
A família do meu avô era abastada por que era dona do único moinho movida à água e também uma serraria e assim de longe vinham os colonos pra moer o milho e pilar o arroz como também cortar a madeira. Eles também possuíam uma ferraria para atender as necessidades locais de ferragens e serralheria. A mão de obra era paga ao moinho com 10% dos cereais em natura ou então mediante a conversão do valor em mil reis.
Até então eram todos membros da Igreja Batista cujo líder chamava-se Jacob Klava que era um radical seguidor da doutrina assim como ela fora transmitida há séculos.
Mas quando veio para aquele lugar o meu pai ele já decidido a insistir em fazer cultos e organizar reuniões de avivamento, onde durante muitas horas os crentes ficavam ajoelhados de quatro, com as nádegas para cima e a tônica temática, tanto da leitura do Evangelho como das fervorosas orações, era para o Senhor mandar o seu Espírito Santo conforme havia prometido e para receber esta graça buscava-se a purificação, o esvaziamento do próprio Ele, a fim de abrir o lugar para que esta força inundasse as mentes num êxtase que se manifestasse em todos aqueles dons descritos no Novo Testamento como seja: falar línguas estranhas, profetizar, ver visões, fazer milagres, mas sem a exigência de qualquer seqüência de causa e efeito; não importava que o linguajar ninguém entendesse, nem se comprovava se as nebulosas profecias se realizassem, ou se o milagre da cura realmente havia acontecido.
Da família do meu pai somente não aderiram o Emilio e a Lídia e da do meu avô, apenas o tio Sigismundo ficaram fieis a doutrina Batista, mas todos os outros se juntaram à nova seita por que o meu pai era considerado o intelectual do clã, o mais erudito, mais instruído, então a sua opinião prevalecia.
Ele então resolveu que a sabedoria mundana nada valia e lembro-me que a minha mãe queimava os livros como lenha para esquentar o forno de panificação doméstica, por que na sua opinião, seria mais interessante que esta literatura se queimasse do que as almas imbuídas das suas idéias enganosas ardessem nas labaredas do inferno.
Meu irmão Emilio que então tinha 13 ou 14 anos salvou alguns deles escondendo no mato e depois os entregou para serem guardados nas casas dos vizinhos; mas, conforme ele me contou depois, foi destruída uma vasta biblioteca constituída de livros doutrinários, enciclopédias, história, filosofia, ciência e ensino básico. O meu pai se convencera que a cultura não seria mais necessária por que, pelos sinais dos tempos, era eminente a vinda de Cristo que arrebataria apenas os crentes de corações limpos e não contaminados pelas coisas do mundo.
Como já disse: os meus irmãos Lídia e Emilio, não aderiram ao novo credo, mas depois que a coisa se aprofundou, certamente consideraram a doutrina Batista, como a base, o primeiro degrau desta escala que levou para aquela alienação mental, por que do seu meio saíram os seus primeiros seguidores, pois é próprio da natureza humana desprezar um todo por causa do suposto erro de um detalhe.
Assim a Comunidade Batista Leta de uma só vez perdeu mais de dez membros que se tornaram Pentecostais e além disto também várias famílias aderiram ao sabatismo; podendo se estimar em metade dos crentes que se afastaram. Então assim como acontece num rebanho que é invadido por um predador que agarra algumas ovelhas; o pastor somente consegue segurar algumas, as mais fieis, por que muitas outras se dispersam; assim também aconteceu lá, muitos indecisos ficaram balançando entre as crenças e acabaram perdendo a fé.
Não consta que tenham convertido algum incrédulo. Apanharam aqueles crentes que apesar de terem a certeza da salvação foram convencidos a tentarem emoções espirituais mais fortes, como se estas fossem um estagio superior, uma sobremesa do banquete espiritual e assim para satisfazer em uma emoção pessoal quase extinguiram o núcleo Batista naquele lugar.
Parece que o meu pai foi o primeiro doutrinador de Pentecostalismo no Brasil, mas devo dizer que naquele movimento ainda não entrou interesse pecuniário, a regra era dar de graça o que se recebesse de graça.
Na casa do meu avô havia uma sala destinada aos cultos Batistas, mas que depois passou a ser usada para aquelas reuniões de avivamento espiritual.
Naquela ocasião eu deveria ter a idade de 5 ou 6 anos, então me era permitido dormir o meu profundo sono de criança num quarto do lado. Quando de manhã eu acordava ia para sala ficava surpreso em vê-la cheia de detritos, latas velhas e numa ocasião até um cocho de dar comida aos porcos. Quando eu perguntei o porque? Responderam que era a perseguição do Kestrin Luris, que na minha imaginação tomei por um bicho papão, mas na realidade a curiosidade da vizinhança havia sido atraída por aquele vozerio de súplicas lancinantes: “Venha Senhor Jesus, mande o Consolador” num tom de exigência que se confundia com obrigatoriedade e eles por chacota haviam jogado todos aqueles objetos de noite pela janela para desestimular aquele escândalo e o Kestrin nisto entrava apenas como o chefe; mas os Pentecostais comparavam estes excessos com a perseguição dos crentes no inicio do cristianismo e como sinal inequívoco de que estava próximo a chegada dos dias finais.
Meus pais não se conformavam por que daqueles dons descritos no Novo Testamento nunca conseguiram uma manifestação pessoal, mas admiravam estes fenômenos nos outros. Hoje penso que foram sinceros, não sabiam fingir, esperavam uma manifestação verdadeira de transe espiritual que nunca conseguiram por inexistente naqueles termos.

Meu pai mantinha correspondência com outras comunidades Batistas Letas para divulgar o Pentecostalismo e principalmente com uma localizada no Rio Branco, nas proximidades de Jaraguá do Sul. Um dia chegou a notícia através de uma carta que havia um outro grupo procurando o avivamento espiritual através da doutrina de Pentecostes, num lugar chamado Linha Telegráfica. Lá já tinham conseguido as manifestações espirituais aguardadas e havia uma profetiza, a tia Ida [Strauss] e que ela intermediara uma mensagem marcando o dia em que Cristo desceria dos céus em toda a sua glória para arrebatar aqueles crentes reunidos e vigilantes].
Não me lembro dos detalhes, mas a nossa família na integra, meus avós e meus tios, abandonaram todas as propriedades; alguns de navio e outros mesmo em carroças puxadas por cavalos viajaram para aquele local.
Era um sítio inóspito, banhado cercado de morros e ameaçado de malária. Lá todos se reuniram numa comunidade imitando aquele ideal dos primórdios do Cristianismo descrito nos Atos dos Apóstolos. Construíram alojamentos, trabalhavam cooperativamente no cultivo de alimentos necessários a sobrevivência, vigiavam e oravam a espera do glorioso dia da vinda do Senhor.
Liam a Bíblia escolhendo aqueles versículos que davam apoio ao seu fanatismo e nas horas de lazer e durante muitas horas, de joelhos no chão e apoiados nos cotovelos, em circulo, oravam insistentemente pedindo a manifestação do Espírito. Quando um crente terminava com o amém o outro ao seu lado direito emendava, enquanto outros diziam “aleluia”.
Descobriram no Evangelho de que os Crentes deveriam confessar-se uns aos outros; então nesta mesma postura contavam as tentações a que teriam sido expostos. Na ausência de atos pecaminosos valiam aqueles praticados no pensamento. Qualquer dúvida quanto à legitimidade doutrinária desta iniciativa deveria ser declarada em público, desaprovada por todos os presentes e o culpado confesso compelido ao arrependimento.
No Apocalipse também consta que “eles cantarão um cântico novo” interpretando esta frase literalmente. Em conseqüência foram jogados ao chão todos o hinários tradicionais; balbuciando a comunidade qualquer coisa em qualquer tonalidade numa gritaria ensurdecedora.
A minha irmã Mely gritou tanto que acabou danificando as cordas vocais. Foi ela também que adolescente, com um alicate arrancou uma coroa de ouro que lhe revestia um dente e o jogou numa touceira de bananeiras, pois Deus tinha o poder de fazer nascer dentes novos.
Lembro-me de uma urna funerária pintada de branco guardada no sótão a vista de todos que se destinava a uma menina chamada Tabita, por que a profetiza havia previsto a sua morte; moça esta que anos depois encontrei em Varpa gozando perfeita saúde, mas a credulidade era tanta que na certeza do desfecho fatal, anteciparam a construção do caixão.
O fim desta história é fácil de se prever. No dia marcado Cristo não apareceu embora os fieis estivessem em vigília até o sol raiar no dia seguinte. [Estes fatos aconteceram aproximadamente na década de 1910 e também não constam nos Livros de História da Assembléia de Deus.]

CONTINUA…

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN – 4ª PARTE

DR. REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin
4ª Parte

Sua rotina semanal:
Aos sábados: Bangu, onde, tomava as providências, fazer visitas, reuniões, programa especial à noite. Domingo o dia inteiro, Escola Bíblica Dominical, culto, almoço em casa de alguma família escalada, mais visitas, trabalho evangelístico ao ar-livre, culto a seguir. Tudo terminado tomava o trem e vinha para a cidade para as suas lides da semana. Quarta-feira à tarde, novamente Bangu e assim sucessivamente. Só quem conheceu os trens e os bondes daquela época pode calcular o sacrifício que era.

Um ano ele enviou para nós, pelo correio, um pacote com livros, em sua maioria de Monteiro Lobato: História das Invenções, Aritmética da Emília, Emília no País da Gramática, Serões de Dona Benta e outros. Foi uma alegria e também oportunidade, uma vez que gostávamos muito de ler, pois lá no sítio poucos recursos tínhamos para obter livros.

Certa vez, no dia seguinte à sua chegada em Rio Novo, após o café da manhã, ele foi logo dizendo: “calça velha, calça velha e um chapéu de palha”. Seria uma calça remendada de meu pai que era mais baixo que ele. Ficou uma “figura”. Queria logo ir com a gente para a roça capinar ajudando na lavoura. Como o sol era muito quente ele ficava com os braços queimados. Lembro-me de que ele próprio tirava a pele dos braços em longas tiras secas. Tudo isso era contra a nossa vontade, pois viera para descansar. Mas ele não era de ficar parado. Isto também era, para ele, uma boa higiene mental. Aos domingos ele pregava e também em algumas noites, à luz dos lampiões, no templo da Igreja Batista local em Rio Novo.

Lembro-me de que ele, com a mania de professor, sempre andava com lápis vermelho no bolso para corrigir as provas. Assim é que pediu logo os nossos cadernos da escola primária. Foi logo achando o que corrigir e reclamar da professora que não corrigia direito os seus alunos.

Houve um ano em que ao chegar em casa e abrir a mala nós, os meninos, vimos que ele trouxera um exemplar cinza-azulado de “Admissão ao Ginásio”. Supúnhamos que ele tinha intenções de levar algum dos sobrinhos para internar em um colégio no Rio ou em algum outro lugar. Passados alguns dias ele começou a nos dar aulas das matérias ali contidas: Português, Matemática, História, Geografia. Mas como ninguém cobrou nada dele, ficou por isso mesmo. Assim como veio, deixou o livro e voltou para as suas lides no Rio de Janeiro.

Nas suas férias gostava muito de apreciar a natureza. Ficava impressionado com o verde exuberante do sítio.
Mas reclamava de que meu pai e a família precisavam se organizar e viver dentro de um orçamento fixo. Não adiantava argumentar que as colheitas eram muito incertas e que os imprevistos eram constantes. Como solteirão e não tendo filhos, ele podia viver desta forma; mas para uma família na roça, dependendo da lavoura, isto era impossível. Mas quem para convencê-lo?

Também não queria que derrubássemos as matas virgens, pois, havia uma área muito boa, um chapadão com mata nativa e que poderíamos cultivar uma excelente área para boas plantações e colheitas. Entretanto, tínhamos que fazê-las em encostas e já muito gastas pelos anos anteriores e erosões. Às vezes as chuvas eram muito fortes e lá ia tudo água abaixo.

De longe, ele exercia forte influência sobre a nossa família que o respeitava e considerava. Entretanto, o tempo passou e tudo lá ficou.

No Rio de Janeiro

A minha primeira experiência com o tio Reynaldo no Rio de Janeiro foi já no ano 1958, quando já estava estudando em Curitiba. Eu era o coordenador da Organização Embaixadores do Rei no Paraná. Então fui convidado, com tudo pago, para participar de um Congresso Nacional no Sítio do Sossego em Rio Dourado, Estado do Rio. Como o trem da Leopoldina iria partir numa segunda-feira, viajei de avião pela primeira vez, chegando ao Rio no sábado, já bem de noite e fui logo procurar o Colégio Batista na Tijuca onde a meninada estaria se encontrando. Assim foi. No dia seguinte, procurei ir a Bangu. Tomei todas as informações e depois de muitas voltas cheguei à estação de Bangu. Procurei pela Rua Silva Cardoso e me informaram que era a próxima abaixo. Queria o número 279. Fui caminhando e encontrei uma casa velha e adaptada bem simples. As classes da Escola Dominical já estavam voltando para o culto. Era gente que não acabava mais. Assentei-me bem atrás e uma senhora logo veio falar comigo, perguntando se era crente. Respondi que era sobrinho do pastor, mas que era surpresa e não queria que ele soubesse. Assim foi. Logo pude ver o Tio lá na frente. Terno azul-marinho. Ao se por de pé, no púlpito, lançou seu olhar de quase 180º, e o silêncio total. Como que abraçando o púlpito que era próprio para a altura dele, colocou o seu dedo indicador da mão direita em riste, todos ficaram em pé. Anunciou o primeiro hino, e assim o culto transcorreu. Mensagem simples, de ótimo conteúdo bíblico. Era impressionante como ele prendia a atenção de todos até o fim da mesma. Todos prestavam atenção. Não queriam perder o pensamento até o fim. Quando o culto acabou, fui me encontrar com ele que foi dizendo “mas você por aqui?” Logo falou com a família que iria dar o almoço para ele e pediu que “colocasse mais água no feijão…” Pude notar o quanto era querido e considerado por todos.

Naqueles tempos ele já morava no bairro do Rio Comprido, à Rua Sampaio Viana, 46, propriedade do Maestro Arthur Lakschevitz. Ele morava em cima de uma garagem onde funcionava a gráfica desse irmão. Nela eram confeccionados os Coros Sacros, a Revista Teológica do Seminário do Sul e impressos para as igrejas. Lá em cima eram dois cômodos. O da frente, o maior, era a biblioteca, cadeira, escrivaninha e de tudo o mais. Na parte de trás era a cama e outras coisas do seu dia a dia. Como ele sabia que iria chegar, estava me esperando na calçada. Assim me fez entrar. Subimos pela escada que ficava nos fundos. Foi logo me mostrando a sua famosa tese de doutorado em filosofia. Estava embrulhada em vários papéis, inclusive um contra incêndio e outro contra umidade. Lembro-me que, talvez pela emoção, acabou quebrando o vidro ao fechar o armário.

Depois, em junho/julho do ano 1960, foi quando aconteceu o X Congresso da Aliança Batista Mundial. Fui o responsável pelo grupo que foi de ônibus de Curitiba. Ficamos alojados no Edifício Love no Colégio Batista. Logo nos encontramos e gostava muito de que estivéssemos juntos. Como ele sempre gostou de aproveitar bem de tudo, não participou como dirigente de nenhum grupo ou como intérprete que bem poderia ter sido. Gostava sempre de procurar um lugar próximo a uma caixa de som para não perder nada do que acontecia no Maracanãzinho. A gente ia almoçar no bandejão do SAPS da Praça da Bandeira que hoje já não existe mais.

O Congresso foi indescritível. Tive muitas oportunidades maravilhosas, especialmente no encerramento na tarde do dia 03 de julho, com o Maracanã cheio, o grande coral, Billy Graham pregando e milhares de pessoas manifestando-se ao lado de Cristo.

Continua…

Carta de Ernesto Grüntal para Ludwig Rose | Sobre o futuro de Reynaldo Purim – 1912

OPINIÕES
DIFERENTES
Carta de Ernesto Grüntall de Rio Novo para Ludvig Rose em São Paulo

Cópia cedida por Dª Waldtraut Rose
Tradução e comentários por Viganth Arvido Purim

O Reinis ou Reynaldo Purim era um mocinho inteligente e este vizinho chamado Ernesto Grüntal que era amigo do jornalista e Redator do Jornal alemão de São Paulo o Deucher Zeitung, o Ludwig Rose e nesta carta mostra claramente que estava torcendo que o Reinaldo deixasse do envolvimento que ele tinha com a Igreja Batista de Rio Novo e fosse trabalhar com o tio dele o Ludwig.
Vamos a Carta:

Rio Carlota 12-1-1912
[Rio Carlota era uma localidade contígua ao vale do Rio Novo]
Bom Amigo!
A tua carta recebi no dia 24 de Dezembro. Não parecia nada de bom e eu enfiei a mesma no bolso, pois pensava que seria mais uma daquelas de Porto Alegre de onde aqueles senhores novamente com duras palavras estariam cobrando o precioso pão que eu comi nos 2 ½ anos que fiquei lá. “Schtimungs” [esta palavra presumo que seja algum xingamento em alemão]•. Eu fiquei totalmente tomado de preocupação devido a estas coisas que poderiam acontecer.

Tendo chegado em casa e ainda com espírito desanimado, com a visão perturbada e muito apreensiva e assim colocando a carta em cima da mesa deixei-a para lê-la somente no dia seguinte. Mesmo não tendo aberto percebi que a carta era sua. O mundo pareceu totalmente sobre outro prisma, outra luz.
Pensei logo que agora teria que escrever em leto, mas pra você não seria prejuízo nenhum porque esta língua flui pra você como água. Eu pelo contrário quando tenho que escrever em alemão não posso prescindir de um dicionário.

Antes de continuar a escrever permita-me apresentar calorosos agradecimentos por ter me suprido todos estes anos com jornais, quais gostaria de continuar recebendo e assim tendo a oportunidade de avaliar o seu contínuo progresso mesmo sendo um leigo no assunto.
Posso mencionar a opinião do “clerical [Ele o Ernesto era ateu desprezava qualquer pastor] ” J. Inkis [Pastor batista que viajava e visitava as Igrejas] que reconhece que da sua mão a pena fluem idéias muito facilmente e você está em uma área quando a tua pena passando em papéis eles vão facilmente se transformando em dinheiro [o dinheiro vem dançando] .

Para perturbar ainda mais apressadamente perguntei se ele não iria aliciar esta pena tão fértil para ajudar causa dele. O homem começou a torcer dizendo que a obra dele era baseada em fatos irremovíveis como edificada em rocha sólida. Para permitir a ele mudança do rumo do vento e não me atacar com um punho fechado eu ofereci alguns exemplares do “F. Wochbelt” [deve ser alguma publicação em alemão] •. Lá entre outras coisas pode encontrar um Sermão sobre o Natal.

Noutra vez que nós nos encontramos ele reclamava da incredulidade e o distanciamento de Deus, do povo. Empertigado como um galo e com crista vermelha começou a fazer um sermão andando pela sala de um lado para outro e batendo com os punhos na mesa. Se ele tem sete cristas e faz toda essa encenação, tenho certeza que você tem pouco interesse, senão eu teria muito que contar, como estes pobres de espírito e curta perspectiva [estava se referindo ao seus conterrâneos letos da Igreja não ateus como ele]•, pessoas mesmo de pouca instrução que ficam correndo atrás dele.

É melhor eu continuar a minha carta.
É verdade que faz tempo que não temos trocado uma palavra. A verdade é que da minha parte o prejuízo foi maior e toda culpa da tua parte. Mas como eu leria “K.D.R.Vernümft “ [algum autor alemão] e tentasse entender. Quanto eu consigo me lembrar você foi o primeiro redator com quem em minha vida eu me correspondi. Estas pessoas pessoalmente não tenho oportunidade de conhecê-las e como tenho informações através de literatura que eles, os redatores estão atulhados de trabalho e estes homens não tem folga nenhuma. Também o índice de mortalidade destes é muito alto. Pois forçam muito o raciocínio elaborando, contestando se preocupando e assim prejudicando a saúde.
Por isso neste período eu não fiquei sabendo nada de você, como você estava passando e também os teus.
Contei ao teu pai [Jekabs Rose] de como trabalhas em jornais e tudo o mais que você faz lá. Ele não reclamou de nada e cofiando sua barba disse: “Estas coisas agora já são sabidas” Agora eu ainda transmiti a mensagem que você pediu para passar pra ele. Ele mora agora na propriedade dos Kunz [Família Alemã Sabatista que morava no Rio Larangeiras] , ganhando 60 mil réis por ano. Ele sente-se melhor para o trabalho, depois da doença, se bem que o reumatismo não o tenha deixado completamente e em tempos chuvosos ele ainda sente dores nos joelhos.
O plano dele é viajar para Timbó [Cidade do vale do Itajaí Assu acima de Blumenau] a de fim de consultar o Dr. Berkhotz para que ele o cure. E como ele espera viver até os cabelos ficarem grisalhos ele quer encontrar lá algum dentista que faça uma dentadura nova. Ele gostaria de ficar lá para viver. Se o médico o quiser poderá cuidar da terra dele. Isso tudo ele me contou. Manda muitas lembranças e saudações para você. Somente aos sábados ele se torna inacessível, pois se falar com alguém não pode partilhar dos cultos sabatistas.
Quanto ao Reinis [Reynaldo Purim] não tenho a menor dúvida que se ele cair sob a sua direção ele crescerá e se desenvolverá um grande homem. Moço esguio e crescido, mas ainda não chegou a tua altura, mas pode passar de você. A vida social dele é da casa até a Igreja Batista, em outros lugares você não vai vê-lo. Enquanto ele promete vir aqui em casa e demora, eu já fui e levei os “F.Wochblt”. Como sendo membro da Igreja Batista (encharcado pelo J.I [João Inkis] ) [Batizado por imersão, sistema praticado pelos Batistas] ele é constantemente alertado para não ter relações de amizade com os infiéis [um patrulhamento para que os jovens não vejam e não ouçam além do permitido] . Assim mesmo ele disse que foi inquirido, mas como são sabidas associações de outras correntes de opinião aqui não existem. Ele ficou muito admirado que a dª Anna Elbert tenha contado sobre você. Ele falou confiado na minha palavra que ela mesma teria escrito pra você. Quanto eu sei a única carta ou cartão foi por ele enviado ao Pastor Frey , redator do “Awots “ descrevendo alguma festividade da Igreja aqui. O Sr. Purim reconheceu que o filho Reinis é por você como que tivesse uma idéia fixa. Mas ainda não poderá deixar o Reinis ir embora, pois o irmão ainda não o substitui, ainda é pequeno (Artur) para tomar o seu lugar. Ai estará o prejuízo de uma enxada a menos na coivara.
Sobre livros que ele gosta, ele prefere os culturais e científicos. História e contos ele não gosta muito, diz que tem pouco o que aprender com lutas e dificuldades que ela apresentam. O Professor dele o Hans Elbert só tem coisas boas a dizer sobre ele. Sempre foi o aluno mais esforçado e diligente e com muito boa cabeça.
Quando compartilhei a tua carta na casa de tua irmã [Ludwig Rose era tio de Reynaldo Purim, A mãe de Reynaldo era Lisete Rose Purim irmã de Ludwig] os olhos dele brilhavam. Porem tinha que fazer o que a carta recomendava. Faltava confiança. Será que trabalhar em jornais seria o melhor emprego? Então porque você mesmo não escreve direto pra eles? Outro dia eu desci até a casa deles e perguntei como iria ficar, pois eu precisava te responder. Então recomendaram muitas lembranças, mas a viagem somente será ou seria possível quando a cegonha passear com carruagem de ferro [Uma expressão que na Letônia era usada quando indicando impossibilidade total do projeto ou evento] . Bem você vai saber mais quando te corresponderes com eles aqui.
Pelos sinais que você indica é que você se lembra de nós todos quando você vai muito bem, e isso não é de todo mal, pois se você estivesse passando mal nos estaríamos protegidos das más notícias…
Nos anexos de sua carta, preciso reconhecer e dizer, você mexeu com um assunto muito sensível. Eu não tenho nada com o que me gloriar. Reconheço que minhas lutas são com as minhas dívidas. A vida não vai como a gente queria que fosse. O quanto a gente planta a gente colhe. Durante o ano a gente gasta, mas nada em especial, mas no final não sobra nada. Termina curto e estreito. Se não fossem as dívidas seria bem mais fácil sobreviver. Iria tudo bem melhor.
Existem momentos que fico desanimado, mas eu tenho todo animo que um niilista [Niilismo, filosofia anarquista que não aceita nenhuma norma, princípio ou autoridade] pode ter. Quando estou sem esta depressão ai tudo bem. Dívidas maiores ainda tenho com o Diretor [Diretor da Cia Colonizadora] onde devo 300 mil réis. O contrato diz que eu tenho que pagar 100 mil réis todo ano. Além desta eu tenho uma dívida com o Sr. Purim onde falta pagar 130 mil réis. Eu tomei emprestado em 1907 para o pagamento com juros de 6% ao ano. E como ele é sócio da Cooperativa e lá eles pagam juros maiores ele este ano pediu o dinheiro. Dívidas em vendas [Vendas ou casas de comércio que vendem pela caderneta] eu não tenho. Se você pudesse me fazer um empréstimo de uns 300 mil réis, seria muito bom pra mim. E em minha vidinha daria um grande passo à frente.
Com uma calorosa saudação em pleno verão.
Fica o teu Ernesto

(Escrito na lateral da 2ª página:)
Muito agradecido pelo envio do livro “Viagens de Darwin”

No Próximo Capítulo: Anexo 1 – Algumas informações sobre Ernesto Grüntal

Ficaremos muito felizes com sua estada aqui . . . | F. Janowski para Reinaldo Purim

Rio Branco 18 de Outubro de 1920

Querido amigo Reinold.
Já faz um bom tempinho que recebi a tua carta. Obrigado por ela. Perdoe-me por ter demorado a responde-la. Nós ficamos sem a nossa mãe e também da minha irmã que diligentemente fazia as vezes dela. Agora quem nos ajuda nos trabalhos da cozinha é a sogra da minha irmã mais velha, a senhora Lavise Waldhauer. Ela já ultrapassou os 70 anos de vida, mas o seu espírito alegre e o seu constante bom humor não a tem abandonado. Também administrar a casa ela sabe muito bem e é pena que com o peso dos anos, as forças começam a diminuir. Mas estamos felizes com esta solução, pois parecia impossível e agora o problema está totalmente contornado.

Quanto àquele fornecimento de livros que mencionei na carta anterior mostra-se inviável. Após consultas a diversas pessoas amigas de livros, aqueles que os tem não querem largar e aqueles que herdaram de outras pessoas e não tinham interesse logo se desfizeram. Tenho esperança de conseguir alguns hinários antigos, alguns sem títulos, sem capas e até sem as primeiras e últimas páginas. Entendo não ser necessário mandar para o Rio via Correio, pois sendo que o período de férias estando tão próximo e certo que virás passar as tuas férias em St. Catharina; tenho um pressentimento que não vais deixar Rio Branco excluída das localidades honradas com a sua presença. Ficaremos muito felizes com sua estada aqui e todos livros que achares aproveitáveis e só por na mala de viagem.

Anteontem 16 de outubro em Curityba foi realizada a “Reunião da Junta da Convenção Baptista Paraná / Sta. Catharina”. Daqui da Igreja também foi mandado como representante o querido irmão P. Kalnin. Este irmão tem uma firme convicção na Palavra e o coração abrasado no Trabalho do Senhor Deus.

A Igreja Batista Leta de Nova Odessa convidou o irmão J. A . Freijs da Letônia o qual desde o dia 6 de agosto encontra-se na América do Norte para visitar as Igrejas Batistas Letas do Brasil. Este convite foi aceito com muita alegria e o grande líder Frejis deverá chegar ao Brasil aproximadamente em janeiro de 1921.
Eu descrevi vagamente a minha viagem ao Rio Novo. Mas queria descrever e compartilhar mais amiúde mas a tinta secou e a pena da caneta enferrujou e tempo para muito escrever, não consigo. Junto com esta carta mando um poema que guardei da minha viagem para o Rio Novo.

Por favor mande-me um livrinho com o título mais ou menos assim “A pratica da Oração” de W.E. Entzminger.

Com muitas e amáveis lembranças.
F. Janowsky

Algumas informações sobre a Colônia do Rio Novo | Otto Purim a Janis Lepste

[NOTA de V. A. Purim: Carta escrita por meu pai, Otto Roberto Purim, em resposta a uma escrita pelo Sr. Janis Lepste, de São Paulo. Cópia do original gentilmente cedido pela senhora Brigita Tamuza, de Riga, Latvija. Traduzida do leto para o português por Viganth Arvido Purim]

 

[Curitiba, 23/08/71]

Sinceras saudações.

Há algumas semanas recebi a sua carta com os mapas da Colônia Rio Novo e a publicação “Melnu um Baltu” (Branco e Preto), pelos quais agradeço e os quais li e avaliei com grande interesse. Se tiver a oportunidade de publicar outros exemplares, não se esqueça de mandar alguns números para cá.

No que diz respeito aos mapas de Rio Novo, considerando-se que foi a sua primeira visita e sabendo-se das limitações de uma visita como essa, seu trabalho foi muito eficiente. Estou anotando algumas informações a lápis, pois poderão ser rapidamente apagadas com borracha e depois anotadas com aquele capricho, com tinta. Também colei ao lado do mapa alguns papéis indicando moradas de outros letos não mencionados no original. O que mais pede modificações são as curvas dos rios e das estradas e informações como distâncias, etc. Muitos lugares de moradas de famílias letas anotei de memória, outras me foram contadas pelos meus pais, porque eu não tinha condição de lembrar.

Você me pergunta das atividades cotidianas dos recém-chegados imigrantes letos. Inicialmente, logo depois da chegada, todos dedicaram-se à agricultura. Mais adiante aqueles que tinham alguma profissão começaram a procurar meios de exercer outras atividades.

Por exemplo, o Alexandre Grünfeldt, sendo marceneiro (fabricante de mesas), transferiu-se para Orleans, e nos fundos da casa improvisou uma cobertura onde fabricava móveis. A esposa e filhas trabalhavam de costureiras.

Também o Grüntall, que era também marceneiro, fazendo todos móveis manualmente. O filho dele, Ansis, abriu uma oficina de conserto de relógios.

O Gustavs Grikis, sendo ferreiro, abriu uma ferraria em Orleans. Karlis Match, Indricksons, e depois Roberto Klavin e outros, mesmo sendo agricultores, saíam pelas redondezas construindo atafonas movidas por rodas d’água e também engenhos para a fabricação de farinha de mandioca e de açúcar de cana, serrarias para cortar tábuas, etc. Outros trabalhavam em construção de casas, etc, e nesta categoria se incluía meu pai, Jahnis Purim.

Ainda, devido à sua importância e reconhecimento, devemos mencionar o sr. Karlis Zeeberg, que, sendo agricultor, também trabalhava cuidando da saúde das pessoas com bons resultados. Ele usava o sistema de hidroterapia preconizado pelo famoso Dr. Kneip, aplicando o sistema Bilts. O Zeeberg ia atender os doentes nas suas próprias casas. Ele conseguia curar enfermos que outros médicos já haviam desenganado, considerando-os casos perdidos. Mesmo em nossa casa foi chamado diversas vezes, com bons resultados.

Nenhum dos profissionais mencionados, no entanto, procurou aprender alguma profissão; quase todos que emigraram vieram da classe de empregados e eram dependentes dos seus empregadores na Letônia. Naturalmente muitos vieram com família e filhos, e esta nova geração criou novas necessidades. Por exemplo, o Julio Malvess, os filhos do Leimann, o Villis Vanags, meu tio Ludvigs Rose e muitos outros; não tentarei mencionar todos agora, mas é importante lembrá-los e reconhecer o seu esforço e suas conquistas.

Outra pergunta sua refere-se aos letos que moravam na Colônia Rio Novo e seguiam religiões diferentes, não pertencendo à igreja batista. Poderia resumir dizendo que a grande maioria dos imigrantes pertencia à igreja batista. Por exemplo, da Igreja Batista de Daugavagriva (Dünaminde, naquela época) veio o coro completo, inclusive o regente Karlis Matchs. Tendo embarcado no vapor no porto de Riga o coro cantou com potentes vozes o hino “Quem quer ir conosco a Sião?”; além do coro, um bom grupo de outras pessoas veio desta mesma igreja.

Aqui no Brasil a exceção foram algumas famílias luteranas que também vieram, mas depois, pelo batismo, uniram-se à Igreja Batista de Rio Novo. Só uns dois não pertenciam a igreja nenhuma. Um era o Ernesto Grüntal (não confundir com o outro acima mencionado) e o outro era o Herman Grunskis, ambos solteirões e ambos já falecidos — sendo que o sepultamento do primeiro foi em Rio Novo e o do segundo em Tubarão.

Havia também o Edvards Grunskis (Padre Grunskis) que frequentou um seminário católico em Porto Alegre; tempos depois ele largou a batina e aceitou o trabalho de correspondente de um jornal alemão no exterior. As últimas cartas e fotografias dele que chegaram em Rio Novo foi no ano 1920, despachadas de Moscou. É possível que os comunistas tenham posto ele de lado…

Dez anos passados… Os descendentes dos letos de Rio Novo se mudaram e outros se perderam nesta vastidão sem dar notícias, abandonando suas origens e sua religião.

Sobre o Rudolf Libeku não me lembro de nada. Só lembro de alguma coisa que minha mãe falava, que o Libeks tinha morrido repentinamente numa rua do Rio de Janeiro. Sobre a família e filhos não tenho nenhuma informação.

Desta vez devo terminar. Já escrevi bastante. Quem sabe seja difícil entender. Penso que seria muito mais fácil a assimilação dessas informações se pudéssemos sentar e conversar. E, sem interrupções, trocar opiniões e chegar mais rápido às conclusões. Se por acaso vieres para cá traga aquela planta para podermos aperfeiçoar. Por escrito é sempre mais difícil.

Finalizando, peço dentro de suas possibilidade ceder por empréstimo o livro “Muza meza Maldi” (Os enganos da floresta virgem) e o “Mernieka Laiki” (A época dos agrimensores) [NOTA: O primeiro conta de modo jocoso a entrada dos imigrantes letos nas florestas da Paulista, debochando daquele espírito de crentes que fugiam do Grande Urso Vermelho e da Grande Perseguição, e o segundo fala da Grande Reforma Agrária na Letônia.]. O que eu soube é que existem duas versões do segundo livro: um original, editado na época em que a Letônia era uma república independente, e outra versão retrabalhada pelos comunistas russos. Se você tiver as duas versões, a antiga e a nova, por favor me mande.

Devo terminar esta, se não com o tempo gasto na leitura desta carta os outros seus afazeres ficarão para trás.

Com grande consideração,

Otto R. Purim
Curitiba, 23/8/71

PS. Queria deixar assinalado que lembrei de que estou planejando ir em breve a São Paulo visitar alguns parentes. Nesta ocasião poderia conseguir uma oportunidade para visitar você. Como não sei nem o dia nem a hora, teremos de marcar uma ocasião em que você possa estar disponível. Para tanto não esqueça de mencionar a melhor alternativa em sua carta.

O mesmo

 

***

[Para ver o mapa mencionado nesta correspondência, clique aqui]

Eu daria tudo | Fritz Jankowiski a Reynaldo Purim

Rio Branco, 6 de maio de 1920
[NOTA: Rio Branco era uma colônia leta entre Massaranduba e Bananal — atual Guaramirim]

Querido amigo Reinold:

Tua carta escrita em 10 de abril recebi no dia 30 de abril. Agradeço por tudo que partilhaste e fico muito alegre que chegaste feliz de volta à escola.

Depois de amanhã, na sessão ordinária da igreja, lerei a carta de agradecimento à oferta que esta igreja mandou para a de Pilares.

Gostaria que você fizesse o favor de dar uma sacudida no Carlos Vieira para que ele me mande aqueles livros, pois na realidade não recebi nem um livro; só recebi aqueles cadernos e Revistas das Lições para a Escola Dominical para o primeiro trimestre deste ano, que pedi diretamente por carta à Casa Publicadora Batista. A relação dos livros vou colocar em anexo.

A igreja aqui está um tanto sonolenta. O Leiman declinou do convite para ser nosso pastor. Há uma proposta para que seja convidado o pastor Edwardo Akschenbirs; mas se esta ideia se concretizará ainda é uma incógnita. A União de Mocidade e a Escola Dominical agora vão razoavelmente bem, porém somos poucos, porque uma grande parte das famílias dos letos daqui se mudou para Porto União, no Paraná, então estão se espalhando por aí afora.

No que se refere à minha vida pessoal, então: posso dizer que no aspecto da minha vida material estou indo muito bem, mas isso não consiste em fundamento ou base para uma vida feliz e sossegada. Não olhando para a abundância em que vive minha vida material, há um enorme contraste, pois minha alma nada em tristezas cujos fins parecem por demais sinistros.

Tu és um herói — um destemido! A tua vida transpira esperança, enquanto que a minha está perdida. Eu daria tudo tudo — e mais, padeceria penúria no sentido material, só para voltar ao passado, mas não é mais possível. Os feitos e decisões do passado estão gravados e emaranhados em eternos rolos que determinam e caracterizam a situação do futuro.

A minha estada no Seminário, juntamente com todas as oportunidades, foi uma onda de sorte e felicidade que certamente teria me levado para uma terra pela qual a minha alma tanto aspira. E por uma desconhecida força fui barrado. Não resisti, e não me entreguei inteiramente à força dessa imensa vaga. Esta onda se foi e agora luto contra tempestades e miragens.

Por este lado estão contando que o Pastor R. Inkis assumiu o pastorado da Igreja Batista Leta de Nova Odessa. Isso é realmente verdade?

Com amável saudação, teu

Fritz Jankowiski

[em anexo:]
Os títulos dos livros encomendados:
1 Doutrina de Nossa Fé > Recebido
1 Manual Normal > Falta
1 Sete Leis do Ensino > Ainda falta
1 Constituição Brazileira > Ainda falta
1. 2. Trimestres Revistas > Recebi
3 Dúz de Cartões > Recebi
12 Cadernos > Recebi