Fortalezas de puro aço | Reynaldo Purim a Lisete e Jahnis

Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1917

Queridos pais em Rio Novo,

Neste momento recebi as suas cartas e junto o dinheiro. De coração agradeço. Eu pensava que fosse difícil e quem sabe se este dinheiro chegaria antes do fim do mês, mas chegou.

Alegro-me que vocês estejam passando relativamente bem; como ainda não sei se aquela praga de gafanhotos destruiu todas lavouras, espero que Deus os proteja desses perigos e males.

Agora vou escrever algo sobre mim. Nos exames passei suficientemente bem; a nota mais baixa foi 85 e a mais alta 100. Este mês não terei o Boletim Mensal, mas amanhã irei receber o Diploma da Conclusão do Primeiro Ano. No Diploma estarão todas matérias e a média total de todo ano. Muitos não conseguiram passar.

Agora o assunto sobre as minhas férias. Sobre isso já escrevi alguma coisa.

Vocês sabem que do Ludi [Ludvig Rose] antes a gente nada recebia; não recebíamos nenhuma notícia. Isso certamente acontecia porque ele escrevia em leto; como todas cartas são censuradas pelo governo, eles não conseguindo ler não permitiam que seguissem. Mas tempos depois recebi dele um cartão postal escrito em brasileiro onde ele escrevia que posso ir a São Paulo [nas férias]. Respondi também em brasileiro, e também com cartão postal, e é assim que nós nos comunicamos nestes dias.

Então, vou mesmo para São Paulo. Vocês podem pensar que possa me dar mal, mas isso certamente não vai acontecer, pois está tudo muito quieto. Por favor não se preocupem comigo: confiem em Deus e assim estaremos protegidos. Espero sair de viagem na segunda-feira de manhã.

Fui à Polícia Central pedir um passe para viajar e mostrei o atestado da justiça que trouxe de lá; ali me informaram que eu não preciso de passe nenhum, porque não sou alemão e sou nascido no Brasil. Os alemães sim, se quiserem viajar para qualquer lugar precisam ir à “justiça” tirar um “salvo conduto”. Esse pode ser conseguido com a pessoa apresentando uma série de provas de quem é, onde mora, de onde veio e para onde quer ir. Eles tendo este documento ninguém perturba mais.

Antes de ser convidado pelo Ludi passei um tempo procurando trabalho para o período de férias, mas nessa época é muito difícil. Se não tivesse outro lugar para ir, iria trabalhar como colportor. Salomão [NOTA: Salomão Ginsburg era um judeu convertido, pastor e grande líder, naquela época diretor da “Casa Publicadora Batista”, hoje JUERP.] me ofereceu esse trabalho. Não seria um trabalho fácil e agradável, principalmente nestes tempos de guerra, sendo ainda que não havia um salário definido e compensador. Tudo dependeria das vendas.

Mas este plano eu pus de lado, pois as pessoas poderiam pensar que eu fosse um espião alemão, etc. Sobre este assunto não vou escrever mais pois acho que ficou bem claro.

Aquela minha caixa não vou levar junto, pois isso poderia me custar muito caro. Vou levar comigo algumas roupas, alguns livros e o violino — o resto vou ajuntar tudo, fechar dentro da caixa e deixar aqui mesmo. Todo mundo faz assim e viaja só com uma maleta.

Agora o tempo apresenta-se muito quente, principalmente na cidade nos “poços de pedra” e “valetas de pedra” onde circulam pessoas, automóveis etc.

Sobre a situação geral não sei o que escrever. Só sei que na Europa a situação está dia a dia pior. O exército russo não mais guerreia contra os alemães, mas entre si pelo controle do governo. A situação final na Rússia ainda não está delineada. A Polônia russa agora é um país livre. A Finlândia (Somija) está sacudindo e empurrando embora o governo russo. O que mais vai acontecer só Deus sabe.

Os franceses e ingleses inventaram umas fortalezas de puro aço que avançam (rodam) contra o inimigo equipadas com canhões e metralhadoras que as balas de outros canhões nenhum dano conseguem fazer, e assim causam imensa destruição na frente inimiga.

Bem, por hoje chega. Sobre as coisas menores não vou escrever agora, nas férias penso escrever longas cartas para vocês. Quando chegar a S.P. vou escrever outra vez dando o meu endereço de lá.

O Inkis com sua esposa foram para nova Odessa. Não posso imaginar porque todos me esperam no Rio Novo.

Como vocês estão passando, agora? – E os gafanhotos ainda estão por lá? – Como vão todos de um modo geral? – E a igreja? – E as pessoas da igreja de Orleans vivem em paz?

Na outra vez vou contar sobre as igrejas daqui. Aqui eles não são tão rixentos quanto os letos.

Envio muitas e sinceras saudações. Vivam felizes e que Deus vos proteja.

Reinholds

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O Brasil está em guerra | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 15-11-1917

Querido Reini,

A tua carta escrita em 29 de outubro recebi ontem à noite. Obrigado! Você pergunta se recebemos todas as cartas, as últimas, sim. Uma no sábado passado, outra no domingo, e logo providenciamos as respostas: longas cartas e ainda 200$000 em dinheiro que despachamos logo na segunda-feira.

Apressamos as respostas para que chegassem ainda antes do fim do mês; esta estou escrevendo esta hoje de noite para mandar para ver se mando ainda amanhã.

Você escreve que o Brasil está em guerra. Nós só ficamos sabendo no dia 12 de outubro. Em Orleans o povo não fala outra coisa; contam coisas medonhas sobre a guerra, como em São Paulo todos estabelecimentos pertencentes aos alemães estão sendo sistematicamente destruídos. Se isso é verdade, como é que nas férias tu queres ir para lá? Junto com o Ludis [Ludvig Rose] acho não ser nada seguro. Nós nos preocupamos por você. Aqui acho que estamos relativamente seguros, pois achamos que na colônia não vai chegar nenhuma dessas desgraças.

Os donos das vendas sobem os preços das mercadorias todos os dias. Na outra vez, quando houve aqueles rumores de guerra, eles não queriam comprar toucinho, mas agora pedem encarecidamente que tragam toucinho; estão pagando 11$000 a arroba ainda com ossos, e enquanto o milho eles estão pagando 5$000 a saca, mas como será daqui para frente eu não sei.

Nos estamos bem, todos com saúde. Mas hoje foi um dia horrível, pois deu uma tempestade como não lembro ter visto um igual. Não tem chovido há mais de mês; tudo que foi plantado está secando, e hoje esta tempestade. Os dias anteriores eram realmente de tempo bom e também não tinha vento nenhum, mas hoje de manhã começou a soprar um forte vento do lado da serra; não aquele quente, mas bastante frio.

De manhã não era muito forte, mas quando chegou perto do meio-dia empurrava com tanta força que a gente não podia ficar de pé. Como a terra estava muito seca, formaram-se nuvens de poeira tão forte que nada na frente podia-se ver.

Hoje de manhã fomos à “Bukovina” e a serra estava limpa, mas os serranos que ontem e anteontem tinham queimado os campos deixaram aqui e ali porções de áreas queimando; com o vento, grande parte dos costões da serra estavam ardendo. Com mais vento, formou-se um verdadeiro mar de fogo descendo para o nosso lado. Aqui na roça também tínhamos um toco de madeira queimando e faltou pouco para que as faíscas levadas pelo vento chegassem nas samambaias secas da vizinha (Maninha?); com muito custo apagamos completamente esse foco.

Não sei como se saiu o Bekeris, pois ao redor de sua casa queimava mato, capoeiras e até o capim rasteiro; é verdadeiramente um milagre que a casa dele tenha escapado. Também do outro lado, perto da casa da Sesinanda, também vinha um grande fogo; à tarde, quando saímos para vir para casa, aquela área estava envolta em roldões de fumaça e fogo.

Também no Rio Novo há queimadas em diversos lugares. Por onde quer que a gente olhe são paisagens aterrorizantes; ainda a essa hora da noite clarões do fogo descontrolado estão por toda parte, espalhados pelo forte vento, e a gente não sabe como terminará esta tragédia.

Quando atravessamos a mata virgem na volta da Bukovina admiramos a grossa camada de folhas e galhos secos que cobriam o caminho e toda floresta, e calculamos com que facilidade, se chegasse uma faísca de fogo, aquilo tudo se transformaria numa verdadeira fogueira. Quando chegamos perto de casa, quase não a reconhecemos: laranjeiras derrubadas, e quando não a árvore, grande parte das frutas debulhadas. Pessegueiros caídos, galhos quebrados por toda parte, telhados das colméias arrancados.

Bem, agora chega. Esta vai ser a última carta que escrevo para o Rio. Até agora ainda não sabemos para onde tu vais nas férias, nem o teu endereço, por isso não espere cartas nossas. O Leiman falou que você talvez fosse para casa de Karlis. Agora faça o que achar melhor; nenhum conselho podemos te dar.

E ano que vem, vais continuar na escola? Não se preocupe muito conosco, o importante que te vá bem.

Com muitas sinceras lembranças de nós todos,

Olga

Todos os moços se apressam em casar | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 11-11-1917

Querido Reini,

As tuas cartas recebi. Muito obrigada. Ontem o Arthurs [Leiman] trouxe aquelas que vieram no nome dele. E agora de manhã o Roberto [Klavin] trouxe aquela escrita no dia 19 de novembro, junto com o boletim e dois jornais, só que a carta era muito curtinha.

Você pergunta se todas cartas foram recebidas. Sim, com exceção daquela escrita dia 21 de setembro, que até hoje não chegou. Daqui para a frente você pode mandar cartas registradas em nome dos Klavin ou dos Leiman, porque os espertos que gostam de apanhar as cartas dos outros tem medo de assinar, pois logo se descobre quem é o malandro.

Aquela fotografia sua junto dos seminaristas gostaria que você comprasse uma e mandasse, pois 1$300 é muito barato e nós vamos pagar. Aquela sua deve ficar com você.

Aqui corre um boato de que vão voltar a perseguir os alemães. Se for verdade, não é nada prudente [você] ir passar as férias em S.P. com o Ludi [Ludvig Rose]. Quem garante que ele mesmo não tenha que fugir? Aqui os seus colegas dizem que você pode e deve passar as férias, mas não aqui em Rio Novo, pois uma vez aqui poderá ser convocado para servir o exército.

Jepis ainda está aqui em casa e pensa que vai ficar, até que alguém o queira. Aqui está um tempo seco, há mais de um mês não chove. Fica nublado, mas as nuvens se dispersam rapidamente. As vezes dá uma peneiradinha que não chega molhar o pó. Na maioria do tempo o céu é limpo e sopra um vento fresco. Os dias quentes ainda não chegaram.

Na semana passada passou uma nuvem de gafanhotos, mas não pousaram. Os serranos contam que nas serras tem muitos gafanhotos, mas não começaram a descer. Em Mãe Luzia os gafanhotos são tantos que é um horror, formam uma camada grossa e puseram ovos. Os Klava escreveram para o Rio Novo consultando se há possibilidade deles trazerem o gado, pois lá não tem mais o que comer e é possível que morram de fome.

No Rio Novo vai tudo mesma, coisa. Hoje houve batismos. Batizaram-se duas filhas do Auras e o Jekabs e o Wilips Karkle [Nota: Jacob e Felipe Karkle. Esse Felipe mudou em 1946 para Pato Branco, no Paraná. Era casado com Da. Ema Burmeister. Formaram numerosa família, entre eles o Zefredo Karklis, agora morando em Curitiba.] Como foi eu não sei.

O Oskar logo vai se casar. O Arvido está em Nova Odessa, ele não se dá muito bem com o Oskar. Ele tem dito que não vai morar com o Oskar e a Lida para não ficar debaixo do tamanco deles — o Oskar como patrão e ele como empregado. A senhora Karp também não quer nem ver a Lida.

No próximo sábado vai ser o casamento do Arthur Paegle com a filha do Hilbert, e vai ser na casa deles (dos Hilbert). Todos os moços se apressam em casar; só passa um e já vem outro.

Hoje eu vi o Jankus Frischembruder [Nota: João Frischembruder. Não confundir com o outro, que vamos chamar de João de Riga.] na estrada abraçado com a Laura Seeberg. Agora sim o “S” terá um genro importante. O Jankus é dirigente da União de Jovens do Rio Novo e a Laura é a Presidente da União de Moças.

Bem, por hoje chega. Vou aguardar longa carta; estou aguardando resposta de duas, quem sabe já estejam chegando. Desejo para ti todo bem — Viva com saúde.

Com uma sincera saudação — Olga

Tinham vindo diversos brasileiros | Robert Klavin a Reinaldo Purim

A. Braga, 8 de julho de 1917

Querido amigo Reinhold,

A tua carta recebi, pela qual agradeço. No mês passado diversas pessoas foram visitar o Onofre Regis. Foram as seguintes pessoas: Arnolds, Arturs, Shenne e Koleggeene.

Desta vez “aqueles aqueles” estavam com grande coragem e disposição para viagem. Estando o tempo firme e as estradas boas, e sendo o último mês que o Arturs liderava o grupo, este conseguiu arrancar as pessoas como a Kolegeene de sua “vidinha querida e suave”; desta vez ela de boa vontade enfrentou as dificuldades de uma viagem.

No domingo seguinte elas fizeram a prometida viagem para o Rio Larangeiras: foram a Kolegeene e a Isolina. Eu também fui, mas não junto, pois as alcancei e na volta não pude voltar com elas. Saí bem depois, pois tive que conferir um trecho do ABC com a Margarida, ensinar os textos áureos das próximas lições da Escola Dominical e ler todas lições dos próximos domingos. Almocei e ainda conversei com diversos brasileiros amigos, e assim mesmo alcancei a Isolina e sua companheira.

Hoje entreguei as tuas lembranças e saudações ao pessoal de Rio Laranjeiras, pelas quais agradeceram e retribuíram – principalmente a Dominga de Medeiros e Maria da Silva, que estão também muito preocupadas com a Augusta, que se prepara para casar com aquele alemão logo que possível, apesar dos conselhos de todos. Essas coisas deixam todos muito preocupados. Nos últimos tempos tinha observado que a Augusta está um tanto diferente, mas achava que não seria nada. Diferente é a Margarida, que é diligente e aprende tudo com facilidade.

A congregação de Larangeiras está com uma freqüência menor do que naquele tempo. Alguns faltam, e também aparecem outros que a gente não conhecia.

Hoje à noite dirigi o culto aqui nos Leiman em leto e em brasileiro, pois tinham vindo diversos brasileiros.

Quanto ao Oscar tenho pouco a dizer, principalmente como ele vai, pois ele faz parte do grupo do Rio Novo. O que tenho ouvido dizer é que eles mesmos não conseguiram dividir as terras, então teriam levado à justiça para orientar a divisão.

O Arvids [Karp] está construindo a casa para o Salit e quando terminar ele vai embora. O Juris também vai escrever uma carta para você, sobre suas variadas experiências de sua vida, etc.

Que Deus te ajude e que te vá bem.

Muitas lembranças de meus familiares e finalmente também as minhas.

Roberts [Klavin]

Fotos por toda a colônia | Lizete Rose Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 28 de maio de 1917

Querido filho,

Recebemos sua carta, que nos alegrou bastante.

Aqui estamos todos com saúde e trabalhamos o mais que podemos, mas os serviços não têm fim. Arrancamos feijão, quebramos o milho e engordamos os porcos, dos quais quinze agora estão no chiqueiro. De arroz recolhemos mais de doze quartas em todas as roças. Os outros [vizinhos] que plantaram no cedo tiveram colheitas espetaculares.

Nós estamos passando bem, graças a Deus, e estamos felizes que tu também estejas te saindo bem. Como estás em matéria de dinheiro? Estás precisando? Escreva e mandamos o que pudermos. Aqui nós pouca coisa temos vendido: um porco gordo por 44$000 mil réis e 4 latas de mel por 38$00 mil réis; mas dinheiro ainda temos suficiente.

Do tio Ludvig [Rose] não temos notícia, e não sabemos se está ainda vivo, se foi enforcado, fuzilado ou talvez afogado. O Matias e a senhora Burdes espalharam boatos de que ele fora enforcado nove vezes, mas quem está vivo, vive, e quando eles mencionam o tio Ludi, mencionam também você. O Karklin alardeia por todos os cantos que três redações de jornais alemães foram explodidas: do Deutsche Zeitung für S. Paulo [onde era redator o Ludvig], do Germania e do Diário Alemão – e junto com eles o tio Ludi. O Sr. Zeeberg teria contado parte desta história para o tafoneiro1, assinalando que também o Karlis estaria em má situação, pois teria alugado uma pequena casa e viveria à procura de trabalho na companhia de uns negros. Isso ele teria lido em jornais.

O Fahter2, quando recebeu as fotos do tio Ludi, andou mostrando-as por toda colônia, começando pelo Sr. Butler e terminando pelos estonianos de Orleans. Mencionou também o seu nome, pois também estivestes em São Paulo. Tudo isso causou aqui muita inveja, porquê:
1) O tio Ludi tem uma alta posição;
2) Tu também tiveste alguma vantagem, sendo íntimo do tio.
[Por isso] agora sempre apareces como motivo de conversa.

O Butler está escrevendo cartas para o Father enviar ao Ludi, mas o assunto eu não sei.

Ainda muitas lembranças nossas e as bênçãos de Deus, do Papai de da Mamãe3.

* * *

1. Tafoneiro. Moleiro, aquele mói grãos de cereais (na tafona/moinho) para fazer farinha.
2. Fahter. “Pai”. Seria Jahnis Purim, meu avô, ou o pai do Ludvig (e da autora da carta), Jekabs Rose? Provavelmente o Jekabs Rose, pois o Jahnis Purins não iria pedir para o Prof. Butler escrever nenhuma carta.
3. Do papai e da mamãe. Escrita pela mãe, Lizete Rose Purim.

Corrida às compras | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo 29-04-17

Querido Reini,

Muito obrigado pelas cartas. Sexta-feira fui a Orleans e recebi três cartas: a do papai, a da mamãe e a minha própria. Esta última veio muito rápido, pois pelo carimbo já estava em Orleans desde o dia 21 de abril. Trouxe também uma carta tua para o Roberto [Klavin] e um cartão postal para o Arthur [Purim], que eu pude ler. Agora sei como estás passando e como vives. Pensei que esta carta de hoje deveria ser curta, porquê faz só uma semana que mandei uma carta muito, muito longa e depois disso aqui não aconteceu nada importante.

Nós aqui estamos todos bem e com saúde. O tempo está maravilhoso e no domingo passado soprava um vento muito frio. Chegamos a pensar em geadas, mas essas ainda não aconteceram. Porém os dias quentes estão longe para trás. Nas manhãs de neblina a gente já pode congelar. E como está o tempo por lá, está quente ou frio?

Numa das cartas você escreve sobre os rumores do Brasil e a guerra: aqui nada acontece e nada altera a nossa vida. Tudo continua como sempre. Há duas semanas correram rumores ou boatos de que o Brasil teria declarado guerra contra a Alemanha, porque esta teria afundado quatro navios cheios de café com destino a Inglaterra. Depois fiquei sabendo que não era verdade. Aqui o povo tem por moda, quando ouvem qualquer coisa, fazer um estardalhaço tremendo. Não tendo mais navios não haveria mais comércio; nem toucinho conseguiríamos vender, devido à interrupção total da ligação com outros portos. Durante uma semana o único comprador de toucinho foi a venda do Pinho, que através de sua fábrica de banha continuava trabalhando.

Devido a esses boatos [sobre a guerra] houve uma corrida às compras. Todo mundo saiu a comprar, pois com a chegada dos invasores “prussianos” nada mais haveria para ser comprado. Agora voltaram a comprar o toucinho, só que pagando menos, 10$300 a arroba – e agora que voltaram a comprar não querem pagar o preço anterior, mais alto.

Agora correm notícias, através de jornais de Porto Alegre, de que lá houve grandes desordens e que os alemães se comportaram com hostilidade contra os brasileiros em defesa de sua “Faterland”. Também em todo Rio Grande, porque os sócios das Sociedade de Tiro trazem em seus chapéus o emblema da “Deutschland”, brasileiros e italianos teriam se vingado destruindo os grandes estabelecimentos comerciais, metalúrgicas, etc, de propriedade dos alemães.

Dizem que aqui mesmo em Braço do Norte os soldados brasileiros estão vigiando os alemães. Mesmo aqui em Orleans, o Grünfeldt começou a se vangloriar e contar vantagens defendendo os alemães e logo foi ameaçado de levar uma surra. Ele tratou logo de fugir para não terminar na cadeia. Até agora realmente nada de mal aconteceu.

Quanto à Igreja de Rio Novo, nada de novo parece ter acontecido, e nada do que acontece em suas reuniões de negócios eles contam – mas com o passar do tempo eu fico sabendo. Hoje mesmo teve uma longa sessão, na qual o Maisin foi excluído do rol de membros e o Anz foi admitido. Continua a disputa pelos bens do Manemes, pois até o Butler e o Seeberg foram a Tubarão. Não sabemos quantas vezes eles já foram e ou quantas vezes terão ainda que ir. Pois aqueles quatro que vieram de baixo, quando você ainda estava em casa, tiveram que pagar 400$000 de seu próprio bolso.

Quanto a nossa Igreja [do Rodeio do Assucar] nada de novo tem acontecido, tudo velho.

Bem, hoje penso que chega. Você não está precisando de blocos para cartas? Se você quiser posso mandar, pois aqui posso conseguir estes blocos por 1$300, e são bem melhores que os
seus. O papel ai é caro? Como tu te vestes? Você tem com que se vestir (com orgulho)? E o Inkis é orgulhoso? E como é a esposa dele? Há entre os teus professores algum deles que sejam duros? (além do normal)

Desejo a você tudo de bom. Viva saudável.

Com muitas lembranças,

Olga

(Escrito nas laterais)
Se você mesmo lava a sua roupa, não deixe fora no varal durante o tempo em que está na aula, pois a senhora Leiman contou que o Karlis teve as dele roubadas durante o tempo que estava na escola, e por isso você deve ficar atento a essas coisas…

(No outro lado)
Se você quiser saber notícias da guerra pergunte ao “Jurka“1, pois ele sabe mais que todo mundo junto. Nas quartas-feiras ele conta notícias em roldão. A última é que sob a ponte de Laguna (Rio Pratas?) os alemães teriam colocado minas explosivas, para levar tudo pelos ares quando quiserem. Se fosse para escrever tudo que ele conta numa noite só já daria para encher o couro de um boi inteiro. Ele ganha do Ludi de longe; é pena que não tenha como ele uma gráfica…

* * *

1. Jurka. Provavelmente algum Juris; talvez o Juris Klavin.

Batismos no Laranjeiras e o Jornal da Moda | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 15-4-17

Querido Reini,

Eu tua carta, que recebi 13 de abril, você reclama que não chega nenhuma carta. Naquele mesmo momento comprei um cartão postal e mandei naquele mesmo dia. Talvez a essa altura você já tenha recebido nossas cartas e esteja a par dos acontecimentos daqui. Mas, como temos coisas novas, vou contando.

Aqui vamos bem e saudáveis. O tempo agora é bom e o céu limpo. Faz mais de uma semana que não chove. Os dias de outono não são quentes e as manhãs são frescas e com neblina. Meu trabalho agora é colher milho, arrancar inhame, trazer para casa e engordar os porcos, porque o toucinho está com bom preço: 12$000 a arroba, e a banha 18$000 a arroba.

A Páscoa passou maravilhosa. A semana que antecedeu chovia muito, mas já na quinta feira limpou. No domingo de Páscoa fomos ao culto na casa dos Leimann. Como já tinha escrito, seria feita uma coleta para Missões Nacionais. A coleta rendeu 37$00, mais 10$00 da Escola Dominical e mais 5$00 da Sociedade Missionária.

Na segunda festa da Páscoa fazemos um grande viagem para Laranjeira (em português no original) para a festa de batismos. Na igreja1 tinham sido aceitos o Augusts Klavin, a Margrida (que não tinha sido batizada da outra vez porque o pai não tinha autorizado) e mais um candidato da igreja de Pedras Grandes.

A igreja decidiu que desta vez os batismos seriam no Rio Laranjeiras. O dia estava magnífico. De manhã cedo cavalgamos perto do Salto do Beker e entramos mata adentro. O caminho na mata estava muito lamacento; na subida do morro e também na descida a chuva abriu profundas valetas. O rio não estava muito cheio, mal chegou a água encostar na barriga da [égua] Zebra. Mas chegamos bem.

O povo tinha chegado de todas as partes, e muitos nunca tinham visto coisa igual. O Roberto já tinha vindo na primeira Festa [Domingo de Páscoa] à tarde e passado a noite. O candidato ao batismo morador em Pedras Grandes não veio, e não ficamos sabendo o motivo. Então o pai da Margrida mudou de idéia: não deixou que ela fosse batizada, porque os parentes vieram e encheram-lhe a cabeça, dizendo que se ela se batizasse nunca mais acharia um casamento, e a moça ficaria perdida para todos os tempos. Então ficou o Augusto sozinho.

Primeiro foi realizado um culto na casa de Cassiano, que estava quase pronta. Daí fomos a pé até o rio logo ali perto. O batismo foi realizado pelo Arthurs [Leimann]. O povo todo se comportou solenemente. Voltamos para a casa, onde houve outro culto, também dirigido pelo Arthurs. Tivemos bastante oportunidade de cantar com todo entusiasmo e alegria.

Agora começamos a nos preparar para o retorno para o lado de casa. Ainda fomos obsequiados com café, doces e bolos; cantamos o hino 36 de Cantor Cristão e então nos separamos. Na volta para casa o Robert [Klavin] nos guiou por outro caminho. Cavalgamos beirando o rio abaixo por um longo trecho, depois atravessamos e seguimos ainda mais um grande trecho rio abaixo; atravessamos a roça de um italiano e terminamos saindo na estrada do Rio Novo na altura, ou melhor, um pouco além da casa da filha do Klaumann.

Essa estrada era bem melhor, porquê não tinha morros para subir nem tanta lama. Para mim foi uma experiência muito interessante, pois havia muito o que ver, morros e grotas diferentes onde corria o rio de águas límpidas e transparentes.

Voltando para casa a cavalo éramos treze, como foi no Natal: Roberts, Arnolds, Juris, Augusts, Arthurs, Leimans, Emma, Lonija, Milda, Schenia [Eugenia], Luzija [Purim] e eu, e ainda Avelino e três dos Paegles. Chegamos em casa de noite todos saudáveis e felizes, pois apesar de tudo nenhum mal nos não aconteceu.

Assim passamos a Páscoa. E você, o que fez na Páscoa?

Nas oitavas da Páscoa o Artur Paegle casou-se com a Frida Hilbert, e quem deve estar com o chapéu cheio de felicidade é a Mille [Emilia Frischembruder, mas tarde casada com Osvaldo Auras]. Deu certo gosto nela, pois há tempos ele vinha dizendo que não gostava de baixinhas e gordas, e sim de moças lindas, e esta é. Mas sobra ainda um desastre, pois ele não fala alemão e ela não fala nem leto nem brasileiro. O que se espera é um novo idioma.

O Willis Paegle está muito doente: machucou-se levando uma forte pancada quando trabalhava na tafona, que o deixou desacordado por longo tempo. Chegaram a falar da necessidade de ser levado ao hospital, mas não sei se foi levado ou não.

Você pergunta se O. [Oskar Karp] vai ou não. É inútil você ficar esperando: ele não vai mais, porque a cauda está muito firmemente presa. Agora L. vai quase todo domingo junto de braço dado. Algumas pessoas dizem que brevemente será anunciado do púlpito. Então se apronte para o casamento, mas quando será ainda não, sei. Agora eu descobri que já há tempo ele não queria ir; só não queria contar a você, por isso vinha dizendo que iria. A senhora Karp lamenta que O. tenha deixado lá muitas roupas, dois cobertores, dois travesseiros, lençóis e fronhas e outras roupas às dúzias, que, com todo esse tempo, já devem ter crescido. Poderia por tudo isto no enxoval, mas agora o pobrezinho tem ficar sem enxoval.

Agora no Rio Novo tem sido feita uma boa estrada. O imposto da fumaça não será mais necessário pagar, mas cada colono deverá dar uns dois ou três dias de trabalho para a manutenção da estrada. Agora a estrada daqui de casa até Orleans está boa, porque todos — italianos, letos e alemães — foram trabalhar enchendo valetas, consertando pontes e explodindo pedras. E por sorte, na época em que foi consertado não choveu e o caminho foi compactado, senão teriam se formado grandes lamaçais. Melhor é ir trabalhar e ter a estrada boa do que pagar 5$00 e a estrada continuar naquele péssimo estado.

No Rio Novo acho que não tem acontecido nada especial. Parece que eles não tiveram nenhuma festa de Páscoa porque grande parte acompanhou a caravana que foi a Mãe Luzia. Até o próprio [?] parece que também foi para arranjar uns genros, mas se conseguiu não sei.

Na semana passada chegou uma carta para você do Salomão [Ginsburg, diretor da Casa Publicadora Batista, editora do Jornal Batista], cobrando o Jornal. Você ainda não pagou? Ele oferece a condição de que quem pagar até fins de junho e mais 1$500 poderá receber o “Jornal da Moda” como cortesia. Eu te peço que aceites esta proposta e que a assinatura deste outro jornal também seja efetivada; para tanto, quando mandarmos dinheiro, mandaremos mais o correspondente a essas despesas. Você consegue ler o Jornal? Gostaríamos de continuar recebendo, porque assim nos consideramos grandes brasileiros.

Você mantém correspondência com Ludi [Ludvig Rose]? Nós lhe escrevemos mas não obtivemos resposta. E Karlis tem escrito para você? Depois que você foi embora não recebemos mais nenhuma notícia dele.

Penso que por hoje chega. Todas as coisas mais importantes daqui eu descrevi. Ouvi falar que o Brasil teria declarado guerra a Alemanha, mas não sei se é verdade, porque aqui o povo basta ouvir falar para ir dizendo que é verdade.

Agora vou aguardar de você uma longa e completa carta. – Ainda, muito sinceras e profundas saudações do papai, da mamãe, da Lúcia [Purim] e do Artur [Otto Purim]. Viva saudável, alegre e feliz.

Sua Olga

* * *

1. Na igreja. Naquela época havia em Orleans duas igrejas batistas: uma, mais antiga, no Rio Novo propriamente dito, junto à escola, e outra na cidade de Orleans, resultado de uma separação da igreja de Rio Novo no tempo que o pastor Carlos Leimann era seu líder. Carlos Leimann seguiu pastoreando a igreja em Orleans, que tinha pelo menos duas congregações filiais: uma em Rio Laranjeiras e outra no Rodeio do Assucar, na casa dos Leimann. Era desta última que participavam os Purins e seus amigos que assinam as cartas. A igreja de Orleans (bem como seu ponto de pregação em Rodeio do Assucar) preocupava-se mais com a evangelização dos brasileiros do que a igreja em Rio Novo; aparentemente esse havia sido o motivo da divisão em primeiro lugar.