Depoimento de J. A. Zanerip | Manas atminas no Rio Novas laiku dzivi

Terceira Parte

MEMÓRIAS DE MINHA VIDA EM RIO NOVO

Agora na nova vida em Rio Laranjeiras. Gostei muito da troca do Rio Mãe Luzia pelo Rio Laranjeiras. O rio Mãe Luzia era um rio largo e profundo. O rio Laranjeiras era raso e suas águas cristalinas e bem aquecidas, porque corria longos trechos entre pedras bem lavadas por grandes enchentes.

Agora há poucos anos viajei de Tubarão a Lauro Müller para subir aquela serra (Rio do Rastro). Ao passar por Orleans subimos até o lugar onde vivi na minha adolescência, isto é, nas margens do Rio Laranjeiras. Fiquei pasmado vendo o meu bem lembrado rio Laranjeiras, sempre cheio de muita água, agora virado num pequeno córrego! Isto talvez porque naqueles tempos chovia mais e as raízes da mata virgem retinham o escoamento rápido, conservando assim o rio sempre com bastante água.

No meu tempo esse rio era um paraíso da criançada. Era muito piscoso. Passei muitos dias pescando e me divertindo com os colegas. Será que este mundinho está secando mesmo?

A minha infância não foi nada fácil, pois já desde pequeno ia junto com a mamãe ajudar a limpar as roças; quando chegou o tempo de ir a escola as condições não permitiam ir. Minhas irmãs, sendo meninas, iam à escola, e à noite eu tinha que aprender — isto é, estudar as lições que as irmãs tinham aprendido na escola.

Mais tarde, quando fui à escola, meu primeiro professor foi o Sr. Treimanis, mas com a saída deste professor houve um longo período sem aulas.

As idas para a escola às vezes eram terríveis, principalmente no inverno. A estrada ficava branca de geada e a gente não tinha dinheiro para comprar sapatos, assim tinha que enfrentar a estrada com o pé no chão mesmo. Haviam ocasiões em que nem sapatos poderiam ser utilizados, com a grossa camada de lama que era formada pelas rodas dos carros de boi — principalmente quando chovia muito, — agravada pela passagem das tropas de burros e mulas que levavam mantimentos para os habitantes da serra. Essa conjunção de fatores tornava as precárias estradas intransitáveis.

Quem realmente poderia gostar dessa lamaceira eram os porcos que eram trazidos em manadas daquelas imensas distâncias, isto é mais de cinquenta quilômetros — de além das montanhas da serra, onde se situavam os grandes pinheirais e onde eram criados, tendo depois ainda a descida dos contrafortes da serra quase a pique. Hoje pode parecer inacreditável. Mas nós, que vimos com os próprios olhos, esperamos que aceitem essas coisas que hoje parecem totalmente improváveis ou impossíveis.

Tempos depois, agora já com uma irmã casada, um dia resolvemos fazer um mutirão para cortar cana de açúcar. Um futuro cunhado meu foi também. Voltando para casa o tempo fechou e começou a garoar, e a escuridão se tornou completa.

O Ernesto Karklis estava de namoro com a minha irmã Alvina, que tinha vindo a cavalo, mas para acompanhar o seu broto ele deu o cavalo para eu ir montado. Quando eu ia indo passando onde havia uma trilha por uma capoeira que naqueles dias tinha sido roçada e derrubada, e pela qual o cavalo estava acostumado a passar, o animal entrou derrubada adentro. Porém, como estava escuro demais e sem nenhum ponto de referência, fiquei sem saber como voltar. Resolvi esperar.

Quando ouvi vozes da turma conversando dei umas chicotadas no cavalo e voltei ao caminho. Apesar de não estar tão perto assim, a turma começou a gritar apavorada. Ao chegar a uma encruzilhada onde o Ernesto costumava se separar, fiquei esperando por eles. Quando a turma chegou, contaram que um bicho muito grande os tinha atacado, lá próximo ao toco da “maria mole” [NOTA: ombu, Phitolacca dioica, árvore chamada de “maria mole” por causa do tronco esponjoso e macio], e que tinham levado um tremendo susto. Logo imaginei quem deveria ter sido o bicho enorme: não poderia ser outro senão eu com o bandido do cavalo. Não contei nada com medo de apanhar, pois realmente não queria ter assustado ninguém.

Só bastante tempo depois, quando peguei uma vez carona no carro de boi do colega Adolfo Burmeister, e ao passar no famoso lugar dos bichos, no toco da “maria mole” com os seus lindos brotos, contei ao Adolfo que não acreditava nessa história de bichos e contei o que acontecera comigo e com aquele cavalo naquela noite.

O Adolfo começou a rir, não querendo acreditar e achando que era minha invenção, mas consegui convencê-lo de que era a pura verdade. Ai o Adolfo fez me prometer que não contaria nada a ninguém (e prometi) e contou-me outro fato sobre esse mesmo local.

Disse ele que uma vez tinha se atrasado na roça e já no crepúsculo da noite viu o Jacob Karklis vindo pelo caminho. Rapidamente ele, o Adolfo, saiu do caminho e entrou no meio da touceira de brotos do toco da “maria mole”. Quando o Jacob ia passando ele deu um ronco e saiu pulando abraçado aos brotos.

Pobre do Jacob! Jogou uma pedra que trazia na mão e correu como um doido, chegando em casa completamente exausto e contando que tinha acabado de escapar de um bicho terrível. Como conseqüência do susto adoeceu por um bom tempo.

Começou a circular o boato de que outras pessoas também tinham visto o bicho. Até um dia uma turma de italianos decidiu ajudar o pessoal na grande caçada ao lendário bicho. É claro que não acharam nada. Mas como esses caçadores podiam imaginar que esses bichos andam de carro de boi? Tudo mentira, fruto da fraqueza e do medo.

* * *

[continua…]

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Enfrentou a noite enluarada | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 30 de junho de 1920

Querido Reini!

Primeiramente receba muitas lembranças de todos de casa. Recebi a tua carta escrita no dia 3 de junho no dia 23 de junho. Obrigada! Já há tempo esperávamos cartas suas, fazia mais de um mês que não tínhamos recebido noticias.

Você ainda não recebeu a carta que mandei no dia 30 de abril? No mesmo envelope seguiram as cartas dos estudantes [Lúcia e Artur], e isso realmente é um grande prejuízo. Mandei no dia 25 de maio a resposta à tua escrita em 6 de maio, e ainda em 18 de junho uma longa carta com muitas notícias dos últimos acontecimentos daqui.

Agora as cartas tem ido e vindo muito devagar, talvez seja porque está chovendo pouco e deve ter pouca água no mar, talvez esteja vazio. Hoje está chovendo um pouco; se vai aumentar o nível eu não sei, porque chuva de verdade faz tempo que não tem havido. Às vezes chuvisca um pouquinho só para fazer lama, mas aumentar o nível dos rios, isso não acontece faz tempo. Quem também reclama da falta de água é o tafoneiro, que não tem água para moer o milho por falta de água.

Geadas tem havido algumas fortes, lá para baixo perto de Orleans, que atingiram bananeiras, canas de açúcar e mesmo as capoeiras. Mas aqui em casa a geada não matou nada: só duas manhãs amanheceram com alguma geada nas baixadas. A semana passada e esta também está bastante quente, como se fosse verão. Vamos ver quanto tempo isto vai continuar.

Agora estamos colhendo milho e despejando no paiol.

Hoje é o último dia de aula para os estudantes. No mês que vem parece que não vai haver aula, pois ainda não se sabe quem vai ser o novo professor. O Butler no mês que vem vai para Curityba e agora está tomando todas as providências para a sua saída e a viagem. Está mandando arrumar todas as cercas porque quando chegar a Kate, que vai morar na casa dele, naturalmente não vai cuidar disso.

Este cuidado é para que o gado dele não fuja e vá estragar as plantações dos vizinhos. Os animais ele não pretende vender ainda, porque depois de um ano ele pretende voltar.

Agora a igreja de Rio Novo vai ficar novamente sem pastor. Quem virá para o lugar dele? Domingo atrasado o Onofre esteve em Rio Novo e apresentou uma proposta ao comitê de sucessão pastoral: que escrevessem para o missionário Deter dizendo que, uma vez que o Butler está indo para Curitiba, ele mandasse o pastor Manoel Verginio para morar em Laguna e dar atendimento a todas igrejas da região. O Comitê inicialmente aprovou de pronto essa ideia, mas para infelicidade de alguns. Aqueles da corrente contrária já começaram reclamar, pois a igreja naturalmente terá que colaborar com o seu sustento e outras despesas. Essa corrente começou a fazer barulho, mesmo sem ter chovido nada.

Durante a convenção alguns já tinham ouvido reclamações pelos cantos e beiras de estrada, mas agora esses começaram a gritar e reclamar, dizendo que quem concordou com os acordos e as novas normas que os cumpram. Dizem que o Butler quando traduzia [as conferências e deliberações] para a língua leta teria omitido partes, mas a realidade é que aqui tem gente que só entende o que interessa e aquilo com que concordam.

Quem maior barulho faz e mais reclama é o velho Karklin, que disse que se tudo não for traduzido para o leto ele e outras pessoas de idade não entenderam nada. Esse sabichão, que lê todos jornais do país e conhece de cor e salteado todas as leis, para nós foi longe demais.

Na sessão regular do domingo passado houve uma tentativa de homologação das resoluções havidas durante a convenção. Tinha chegado “O Baptista” de Curitiba com as atas e novos estatutos decididos nesta última convenção, e o comitê queria aproveitar ainda a estada do Butler para normatizar todos estes assuntos.

O primeiro assunto foi a “Grande Campanha”, cujo alvo é 22$500 por ano, que acharam demais. O Karklin concordou com o dízimo, pois quem ganha mais, mais terá que dar. Ele disse que os outros dão o dízimo, mas a igreja manda para qualquer Sociedade Missionária que ninguém conhece e nem dá satisfação. Ele estava bastante descontrolado. Disse que ele alguns anos dá mais que o dízimo, que é 10%; ele teria dado 14% e até 15%, e insistiu que sabia calcular muito bem.

O Butler reconduziu a ordem e explicou que o dinheiro não vai faltar desde que não se gaste com supérfluos e assemelhados. Se os rionovenses fizerem tudo o que é preciso, não haverá problema nem de falta de dinheiro. O [jornal] Baptista deverá vir de graça, mas é solicitada uma coleta para ajudar na sua divulgação, e se a coleta for muito pequena será enviada uma oferta do caixa da igreja.

Será também feita uma coleta para a Sociedade Missionária da Letônia e depois enviada para o Deter, que providenciará seu envio para o seu destino. Isto irritou ainda mais o Karklin, pois assim ele não foi reconhecido como grande defensor da pátria de nascimento. Ele não tem razão, porque daquelas coletas anteriores ninguém viu comprovante de que o dinheiro tenha chegado lá. Também aquela campanha para os refugiados de guerra, ninguém sabe onde o dinheiro ficou. O Karklin, em vez de mandar direto para a Letônia, mandou para França e eles de lá mandariam para a Letônia. Mas o caso é que, se realmente mandaram, foi para o governo da Letônia, assim os refugiados não viram a cor do dinheiro.

O Lamberts do “Drauga Balsis” [“A voz do amigo”, jornal da denominação batista na Letônia] recomendava que todas doações para os necessitados fossem mandadas para as igrejas de lá, ou endereços pessoais de gente conhecida, senão o governo de lá fica com tudo.

Mas não foi desta vez que chegaram a acertar tudo, e parte ficou para outra vez.

Algumas damas que cantam no coro faz quase um mês que não puderam se apresentar no “palco”, pois estão com os tímpanos partidos; o Watsons tinha falado tão alto que parecia que estivesse falando para uma platéia de surdos, e também na orquestra os rapazes tinham tocado muito alto. Parece que elas não sabem dos inúmeros elogios que os componentes da orquestra receberam dos pastores por terem apresentado músicas maravilhosas de hinos usados na América do Norte e na Inglaterra.

Bem, quem ainda não estava com os tímpanos partidos deve ter ficado na noite do domingo passado quando, por ocasião daquele trabalho especial dos jovens, a orquestra tocou o hino 400 do Cantor: “Igreja, alerta”. Eles ouviram este hino pela primeira vez apresentado pelos mensageiros da Convenção e em seguida o Butler ensinou a cantar, e agora os rapazes da orquestra já tocaram com a maior vibração. Se o Deter estivesse aqui e tivesse ouvido, teria ficado muito satisfeito que o pessoal gostou da música que eles cantaram.

Há uma pequena parte da igreja que nada contra a corrente e diz que não vai quebrar a língua aos pedaços para cantar em brasileiro. Algumas dessas pessoas em outros tempos já tinham cantado em brasileiro, mas agora a roda girou para trás.

O Roberto [Klavin] conseguiu por sorte terminar o trabalho e voltar para casa para as conferências, e colaborou intensamente para o sucesso dos trabalhos. Agora ele está construindo uma fábrica de farinha de mandioca no Rio Larangeiras e o Arnoldo Karklim estava trabalhando para ele como ajudante, mas logo no início trabalhou com tanto entusiasmo que fez um corte no pé e com isso parece que bastou.

Por que o [Fritz] Jankowiski não voltou para o seminário este ano? Aqui, apesar de inquirido, ele não deu uma resposta clara. Já na primeira noite o Leimans quis saber por que e qual a razão pela qual ele não voltou a estudar este ano. Ele respondeu que este ano as circunstâncias não tinham sido favoráveis, mas que no próximo se as coisas mudarem ele irá de novo.

O que ele tem escrito para você sobre o Rio Novo, dizendo que encontrou tudo bem diferente do que imaginava, e que as pessoas que ele conhecia por nome e informações também não eram bem assim. O Karlis Ignausku, que tinha estado em Rio Novo, tinha contado que os Karklis eram pessoas muito enérgicas, mas ele não pôde observar essa
energia, embora o velho seja realmente um tipo enérgico.

Você poderia transcrever as impressões de viagem dele sobre o Rio Novo e o que ele viu de bom ou diferente. Esta semana o Arthur recebeu uma longa carta dele escrita no dia 5 de junho. Ele tinha conseguido chegar em casa no dia 4 de junho. Tinha saído daqui de Orleans no dia 26 e no dia 30 pegaram o “Max” de Laguna até Desterro [Florianópolis] e na segunda-feira a noite pegaram o “Anna” até Itajay. De lá o Looks foi a pé, beirando o mar até em casa.

Mas ele [Fritz Jankowiski] ainda queria conhecer Blumenau e então pegou um naviozinho até lá. De lá ele iria pegar uma carroça para ir até em casa, mas não deu certo encontrar as ditas carroças, então enfrentou a noite enluarada com a mala e bagagem nas costas, como se fosse um mascate, e depois de doze horas de marcha chegou a Rio Branco.

Parou primeiro na casa dos pais e da irmã, que encontrou quieta e vazia. Já na casa dele encontrou cheia de gente. Tinha chegado o Waltauris de seu Castelo da Felicidade que é Porto União. Aqui ele já tinha falado da possibilidade de quando ele voltasse este estivesse lá pela casa dele. O pai dele não estava em casa porque ficou doente no dia 31 de maio e viajou de trem para Rio Negro para se tratar com médico.

Os outros que saíram da Convenção ficaram retidos cinco dias em Imbituba esperando navio.

Bem, hoje chega. Vou esperar uma longa carta sua. Como se passaram os seus dias livres? Foi algum outro leto para a “Chautauqua”? Os, jornais, vais continuar nos mandar? Nós só recebemos um pacote e faz muito tempo. Este ano eles voltarão de mandar de cortesia o “Drauga Balss”?

Muitas lembranças de todos nós aqui.

Olga

Inhame para cozinhar para os porcos | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 31 de julho de 1919

Querido Reini!

Primeiramente envio muitas lembranças! A tua carta escrita no dia primeiro de julho recebi no dia 21 de julho; esta foi uma das que demoraram bastante. Muito obrigado. Cheguei a pensar que você não havia recebido as minhas cartas pelo tempo que ficamos esperando as respostas. Não aguentando de saudades, no dia 14 de julho mandei mais uma carta, porque nos jornais que chegaram você tinha anotado que estava esperando notícias nossas.

Bem, [esse tipo de atraso] não tem muita importância, desde que a gente tenha certeza que as cartas realmente cheguem os seus destinos. Hoje não se compara com os tempos de incertezas do período da guerra: agora está realmente muito melhor.

Lendo sobre a Convenção das Escolas Dominicais, fiquei muito feliz em saber que você esteve em todos aqueles eventos. Ah, como eu gostaria de ter estado também, pois nunca tive oportunidade de estar no meio desta multidão; nunca me vi nem me ouvi numa situação dessas, num meio em que as grandes personalidades ponderam e decidem. Então estiveram mensageiros de todas partes, até do Rio Grande do Sul, que fica tão longe!

Então você deve ter conversado com o Karlis [Leiman]. Parece que hoje a moda é ir viajar para as Conferências. O Butler, o Robert e o Klava viajaram para Paranaguá, e sobre isso já escrevi um pouco. Eles estão sendo esperados em casa, mas até hoje não chegaram e já faz um mês que eles foram. Porém soubemos que depois da Convenção eles ainda iriam para Kuritiba e ainda visitar as colônias letas na região de Blumenau.

Você não imagina como o Grünfeldt está preocupado. As reclamações dele não têm fim. Por que precisam ir à Convenção? Por que gastar tanto dinheiro e tempo? E os pastores só pensam de zanzar de um lado para outro. Por que ficam tanto, tempo fora de casa? A grande infelicidade dele é que ninguém lembra dele para nada, e daí o problema.

De resto, tudo igual na velha Rio Novo. Ninguém casou e ninguém morreu… Nós estamos passando, bem graças a Deus, e todos com saúde. Hoje o tempo está nublado e chove um pouco. Sopra um vento frio do lado de baixo [sul: minuano].

A festa do açúcar este ano foi melhor do que a dos outros anos, pois nos anos passados não passou de dois tachos [isto é, duas fornadas], mas no ano passado a geada foi tão forte que matou a cana até o chão. Este ano foi muito bom, a cana cresceu muito bem. Aquelas que o vento derrubou cresceram tortas e tiveram que ser cortadas ao meio para que fosse possível enfeixar. Em comparação com os anos anteriores, em que nem tinha sobrado mudas para plantar, este ano nós fizemos 5 ½ fornadas (tachos). Veio o Caciano do Rio Laranjeiras com seus irmãos e seus bois para moer a nossa cana.

Os nossos bois não foram adestrados para andar ao redor da moenda no engenho. O Ostos não gosta mesmo de andar e o Bullis [“boi”, em leto] não foi ensinado. Com Osto nós vamos buscar inhame para cozinhar para os porcos e também lenha para o engenho; já andar ao redor não é com ele [NOTA: Para que os bois não ficassem tontos caminhando ao redor da moenda eram colocados uns anteparos feitos de couro sobre os olhos deles, chamados antolhos]. Mas é uma vez por ano que a gente faz açúcar, e ainda tem de puxar sem ajuda.

Agora nós temos açúcar para o ano, e hoje em dia não está barato, 3$000 ou 4$000 como era no passado; agora está 15$000 a arroba. Todo tempo do corte da cana o tempo esteve quente e seco como se fosse verão. Começamos no dia 24 de julho e terminamos dia 29. Este ano ainda não fez frio, e nenhum sinal de inverno por aqui. Está tão quente que já pode se começar a plantar. Os pessegueiros já floresceram e as laranjeiras estão com botões; outras já brotaram e as abelhas chegam a zunir atrás do seu pólen e néctar. No ano passado [nessa mesma época] estava tudo congelado, nenhuma abelha se atrevia sair de sua colméia.

Ontem o Pappa estava fazendo uma limpeza nas colméias retirando os favos escuros [isto é, vazios, que tinham sido usados como ninho] para deixar espaço para a colheita que vem por ai, mas elas estavam muito ferozes, avançando em tudo e em todos. O Pappa disse que em muitas colméias já tinha bastante mel.

Desta vez chega, outra vez eu escrevo mais se tiver mais notícias. As camisas serviram? Não ficaram justas? Agora nas vendas de Orleans está começando a aparecer novos tecidos e ficando um pouco mais baratos.

Com sinceras e saudosas lembranças de todos de casa. Escreva bastante.

Olga

135 cargas | Lucia Purim a Reynaldo Purim

[Sem data, mas deve ser julho de 1919]

Querido irmão,

Recebi a tua carta, pela qual agradeço. Agora eu estou indo muito bem. Hoje o tempo está magnífico, mas a semana inteira ficou nublado e chovia um pouco. Fazia mais de um mês que não tinha chovido.

Ainda bem que agora podemos transplantar os repolhos, e os nabos estão quase no ponto de cozinhar. As alfaces, umas estão bem grandes e outras estão ainda pequenas.

O milho não está todo colhido. No paiol despejamos 135 cargas, e quanto ainda temos que trazer não sei calcular. Na nova coivara em toda parte o milho deu espigas muito grandes. Da Bukovina foram trazidas 60 cargas.

Lá também deu muita abóbora. Fazia anos que isto não acontecia. Junto àquele tronco onde o gavião fica pousado deram abóboras das grandes, de diversas formas e cores e muito pesadas. Nós estamos dando prioridade para a colheita do milho; as abóboras vamos buscar depois. Para a Marsa e a Zebra não faltará serviço.

Daqui a pouco tempo vamos ter que começar a derrubar capoeiras. Então trate de vir logo para casa para ajudar-nos.

Você deve vir para casa para ver os patos, os filhos da “Lembrança”: são dois machos e duas fêmeas. Os machos nós chamamos um de Doca e o outro Schina. As fêmeas, uma é Schika e a outra e Saglene [“ladrona”]. A Saglene pôs treze ovos e começou a chocar. A Schika também começou a botar. As duas são muito safadas, pois voavam pelo ar e chegaram a voar até o pasto do Butler, onde ele tinha um pequeno açude de peixes. Elas tentavam colaborar na pescaria e não voltavam para casa: a solução foi cortar as penas das asas.

Quando você vier para casa nós vamos matar o velho peru. Agora temos 5 perus: dois machos e 3 fêmeas. Você nos deve avisar para que o coloquemos em regime de engorda.

Bem por hoje chega de escrever, deixa para outra vez.

Com sinceras saudações,

Luzija

Uma decisão arriscada | Lucia Purim a Reynaldo Purim

[Sem data, mas deve ser junho ou julho de 1919]

Querido irmão!

Obrigado pela tua carta escrita em 22 de maio. Eu estou passando bem. O tempo está sempre quente e semana passada choveu quase todo o dia. O pessoal daqui está falando que quando a chuva parar, aí o tempo vai esfriar.

Eu agora estou colhendo milho sozinha e trago para casa com a Zebra. Agora nós temos nove porcos no chiqueiro para engorda. O toucinho está com o preço muito bom; 13$000 com ossos e tudo. Nós agora temos 18 leitãozinhos, então comedores de milho é que não faltam mesmo. Nós agora temos três vacas dando leite. A Luscha já está dando há quase um ano e por isso já não está dando tanto. A filha da Luscha é uma bezerra chamada Rucina; é vermelha acinzentada e está bem grande. A Magone [“Papoula”] teve recentemente uma bezerrinha amarela que foi adoecendo e semana passada terminou morrendo, mas a Magone continua dando leite mesmo sem o bezerrinho. E a Lagstigala [“Rouxinol”] também esta dando leite. Essa só está há um mês conosco: nós compramos dos Grikis por 180$000 e ela tem um boizinho, mas também este ficou doente. Agora só temos estas três vacas, pois a Nete e a Seedalla faz tempo que não as temos mais.

Os Grikis este ano venderam diversos animais. A Maria na semana passada fez um leilão de suas coisas, pois faz tempo que ela queria ir para o Rio Grande do Sul a procura da irmã dela. Ela não queria ficar com os Grikis, pois enquanto o Sommers não tinha morrido ela precisava ficar para ajudar a sustentá-lo, mas agora não havia mais esta necessidade. Mas quando ela foi se despedir dos Leimann a senhora Leimann convenceu-a ficar morando com ela, dizendo que seria uma decisão arriscada se meter em lugares desconhecidos, quando ela muito bem poderia ficar morando com ela. E assim a senhora Leimann ganhou uma auxiliar e tanto.

Bem, por hoje chega. Lembranças da

Luzija

Mais de cem | Lucia Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 4-5-19

Querido irmão,

Obrigado pela tua carta, que recebemos. Estou passando bem.

O tempo agora está seco e bonito, e hoje pela manhã fez bastante frio, pois até agora o tempo estava relativamente quente. Domingo passado estava nublado e a noite passou inteira com chuva; assim continuou a segunda-feira inteira, e só ao anoitecer limpou o tempo.

Na terça-feira cavalguei até a cidade. Os rios tinham estado cheios e transbordando. Orleans mudou bastante desde a minha última visita, pois tem muitas casas novas e as ruas foram aplainadas.

O nosso pasto já está roçado. Agora estamos começando a colher o feijão que está maduro. O arroz que já colhemos deu 14 quartas. O amendoim que já está em casa rendeu 27 quartas e tem mais na roça, mas ainda estão verdes.

Agora estamos em plena festa da jabuticaba. Toda semana vamos buscar para comer. Lá provavelmente não há esta delícia…

Agora estamos construindo novo galinheiro. Já colocamos dois esteios. Nós temos criação de aves maior do que da esposa do Dr. Schepard lá no Rio. Temos mais de cem, contando os pintos. As tuas patas ainda estão todas, e ainda tem mais três, sendo ao total onze, e ainda três perus. Você deve imaginar o barulho quando todos os galos cantam juntos e ainda muito mais
quando não tem ninguém em casa: um barulho infernal.

Os ovos estão caros, $600 a dúzia. Nós agora temos sete porcos no chiqueiro para engorda. Sete foram colocados recentemente, mas um já faz tempo: é grande e gordo e logo vai deixar de morar no interior e vai para mudar de ares para a cidade. O toucinho com todos os ossos estão pagando 12$500.

Bem, vou aguardar longa carta sua.

Com amáveis lembranças,

Lucija

Estou morando na cidade com os Stekert | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 20 abril 1919

Querido Reinolds!!

Saudações! Festa da Páscoa! Cristo ressuscitou! A mensagem da Paz ressoa.

Na semana passada recebi dois pacotinhos de jornais [enviados] no dia 27-3-19, e na segunda-feira 14 de abril recebi tua carta de 27-3-19. Sinceros agradecimentos. As cartas anteriores foram todas recebidas; só não tenho resposta da que escrevi no dia 28 de março, e no mesmo envelope foram cartas da Luzija e do Arthur. Também no dia 8 de abril mandei um cartão postal. Todas foram recebidas?

Nós estamos alegres por sabermos que você está passando bem. Nós podemos dizer com alegria que estamos todos com saúde.

Antes da Páscoa tivemos duas semanas de tempo muito seco: não choveu nada e [fez] muito calor. Então, no sábado da Páscoa, começou a ficar nublado e de noite estava roncando trovoada e muita chuva, mas o Domingo da Páscoa amanheceu com uma manhã radiosa e assim permaneceu.

Pela manhã fomos ao culto na casa dos Leiman no Rodeio do Assucar. Lá no sábado haviam chegado as visitas da Argentina [NOTA: gafanhotos]. Nós todos tivemos a oportunidade de ver uma quantidade imensa desses insetos. Quando passavam provocavam um ronco surdo como uma tempestade, e chegavam a fazer sombra como fazem as nuvens: nem a luz do sol podia ser vista. Eles gostam mais de feijão, mas não deixam de limpar os milharais e a sorte é que estes já estão na fase de maturação.

Para nós no Rio Novo eles não chegaram, e é provável que nem passem por lá e sigam o seu caminho para o outro lado. Na fazenda dos Klavin também desceram, mas lá eles tanto fizeram que conseguiram espantar, batendo e tocando. e não permitiram que fossem completamente devoradas as lavouras.

O Arnolds [Klavin] veio da serra onde mora para as festas da Páscoa, e pretende voltar logo em seguida. O Roberto [Klavin] foi passar as festas lá no “Brasso do Norte” com o Onofre. O Deter ainda não veio; e não sei por que prometeu e não veio, e nem sei quando ele virá. Agora em Orleans tem um Pastor Presbiteriano e durante as festas na igreja de Rio Novo ele fez um sermão em inglês. Ele veio da serra e ficou na casa do pastor Butler.

Você escreve que lá as roupas estão caras, mas não são tão caras quanto aqui, embora aparentemente estejam ficando aos poucos mais baratas. Vamos mandar dinheiro quando precisares de calças e fraques, e você poderá mandar fazer, ou provavelmente comprar roupas prontas. Camisas e ceroulas mandaremos se estiveres precisando.

Agora aqui não estamos conseguindo um tecido bom e próprio para camisas, mas a loja do Pinho garantiu que vai chegar um grande carregamento de bons tecidos. Nós ultimamente não tínhamos comprado tecidos para roupa, pois tínhamos comprado bastante tempo da venda da coperativa, e quando começou ficar mais caro compramos bastante “americano” [NOTA: Tecido de algodão cru muito usado para roupa de cama].

Temos um par de meias de lã prontos, tricotados para mandar para você. Fio de algodão aqui é difícil de conseguir, então você terá que comprar as meias de algodão prontas nas vendas.

Querosene aqui não existe mais, e faz tempo que nos falta. Temos emprestado da Sra. Grüntall algumas garrafas e usado velas, mas estas também estão muito caras: $300 a peça e não duram nada, principalmente quando a gente tem que trabalhar à noite. Quem tinha querosene para uso pessoal vendeu até entre 1$500 a 2$000 a garrafa.

Pelo toucinho estão pagando 12$000 a arroba e é um bom preço, considerando que não estão descontando nem os ossos. Ovos já vendemos duas vezes e eles estão pagando $600 a $700 a dúzia. Estamos com mais de cem galinhas, isso sem contar os pintos.

Brevemente o Diretor Staviarski [da Companha de Colonização] pretende viajar com a filha para o Rio de Janeiro para visitar o seu Victor. Você conhece esse jovem filho do nosso Diretor? Ele deve estar estudando em outra classe. Ele sempre fala da boa ordem do Colégio e o filho está muito bem lá.

A novidade comigo é que agora estou morando na cidade com os Stekert aprendendo costura, e somente aos domingos vou para casa. Escreva bastante porque estando em Orleans posso buscar as cartas facilmente no correio. Ainda muitas sinceras lembranças de todos de casa, que ficam aguardando longa carta sua.

Olga

[Escrito nas laterais:]

Junto a esta carta segue o Aviso de 300$000 que segue através da firma do Pinho e será paga a você pelo Colégio Baptista, assim não tenho que mandar no envelope Valor Declarado, o que espero seja melhor para você.