Corrida às compras | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo 29-04-17

Querido Reini,

Muito obrigado pelas cartas. Sexta-feira fui a Orleans e recebi três cartas: a do papai, a da mamãe e a minha própria. Esta última veio muito rápido, pois pelo carimbo já estava em Orleans desde o dia 21 de abril. Trouxe também uma carta tua para o Roberto [Klavin] e um cartão postal para o Arthur [Purim], que eu pude ler. Agora sei como estás passando e como vives. Pensei que esta carta de hoje deveria ser curta, porquê faz só uma semana que mandei uma carta muito, muito longa e depois disso aqui não aconteceu nada importante.

Nós aqui estamos todos bem e com saúde. O tempo está maravilhoso e no domingo passado soprava um vento muito frio. Chegamos a pensar em geadas, mas essas ainda não aconteceram. Porém os dias quentes estão longe para trás. Nas manhãs de neblina a gente já pode congelar. E como está o tempo por lá, está quente ou frio?

Numa das cartas você escreve sobre os rumores do Brasil e a guerra: aqui nada acontece e nada altera a nossa vida. Tudo continua como sempre. Há duas semanas correram rumores ou boatos de que o Brasil teria declarado guerra contra a Alemanha, porque esta teria afundado quatro navios cheios de café com destino a Inglaterra. Depois fiquei sabendo que não era verdade. Aqui o povo tem por moda, quando ouvem qualquer coisa, fazer um estardalhaço tremendo. Não tendo mais navios não haveria mais comércio; nem toucinho conseguiríamos vender, devido à interrupção total da ligação com outros portos. Durante uma semana o único comprador de toucinho foi a venda do Pinho, que através de sua fábrica de banha continuava trabalhando.

Devido a esses boatos [sobre a guerra] houve uma corrida às compras. Todo mundo saiu a comprar, pois com a chegada dos invasores “prussianos” nada mais haveria para ser comprado. Agora voltaram a comprar o toucinho, só que pagando menos, 10$300 a arroba – e agora que voltaram a comprar não querem pagar o preço anterior, mais alto.

Agora correm notícias, através de jornais de Porto Alegre, de que lá houve grandes desordens e que os alemães se comportaram com hostilidade contra os brasileiros em defesa de sua “Faterland”. Também em todo Rio Grande, porque os sócios das Sociedade de Tiro trazem em seus chapéus o emblema da “Deutschland”, brasileiros e italianos teriam se vingado destruindo os grandes estabelecimentos comerciais, metalúrgicas, etc, de propriedade dos alemães.

Dizem que aqui mesmo em Braço do Norte os soldados brasileiros estão vigiando os alemães. Mesmo aqui em Orleans, o Grünfeldt começou a se vangloriar e contar vantagens defendendo os alemães e logo foi ameaçado de levar uma surra. Ele tratou logo de fugir para não terminar na cadeia. Até agora realmente nada de mal aconteceu.

Quanto à Igreja de Rio Novo, nada de novo parece ter acontecido, e nada do que acontece em suas reuniões de negócios eles contam – mas com o passar do tempo eu fico sabendo. Hoje mesmo teve uma longa sessão, na qual o Maisin foi excluído do rol de membros e o Anz foi admitido. Continua a disputa pelos bens do Manemes, pois até o Butler e o Seeberg foram a Tubarão. Não sabemos quantas vezes eles já foram e ou quantas vezes terão ainda que ir. Pois aqueles quatro que vieram de baixo, quando você ainda estava em casa, tiveram que pagar 400$000 de seu próprio bolso.

Quanto a nossa Igreja [do Rodeio do Assucar] nada de novo tem acontecido, tudo velho.

Bem, hoje penso que chega. Você não está precisando de blocos para cartas? Se você quiser posso mandar, pois aqui posso conseguir estes blocos por 1$300, e são bem melhores que os
seus. O papel ai é caro? Como tu te vestes? Você tem com que se vestir (com orgulho)? E o Inkis é orgulhoso? E como é a esposa dele? Há entre os teus professores algum deles que sejam duros? (além do normal)

Desejo a você tudo de bom. Viva saudável.

Com muitas lembranças,

Olga

(Escrito nas laterais)
Se você mesmo lava a sua roupa, não deixe fora no varal durante o tempo em que está na aula, pois a senhora Leiman contou que o Karlis teve as dele roubadas durante o tempo que estava na escola, e por isso você deve ficar atento a essas coisas…

(No outro lado)
Se você quiser saber notícias da guerra pergunte ao “Jurka“1, pois ele sabe mais que todo mundo junto. Nas quartas-feiras ele conta notícias em roldão. A última é que sob a ponte de Laguna (Rio Pratas?) os alemães teriam colocado minas explosivas, para levar tudo pelos ares quando quiserem. Se fosse para escrever tudo que ele conta numa noite só já daria para encher o couro de um boi inteiro. Ele ganha do Ludi de longe; é pena que não tenha como ele uma gráfica…

* * *

1. Jurka. Provavelmente algum Juris; talvez o Juris Klavin.

Uma boa conversa | Lúcia Purim a Reynaldo Purim

[Sem data, mas deve ser abril ou maio de 1917]

Querido Reini,

Tua querida carta recebemos. Agradeço. Agora aqui estamos todos bem. Longa carta não poderei escrever, porque aqui está tudo velho.

Ontem a Marta [Klavin] veio nos visitar e pousou aqui em casa. Hoje fomos à igreja juntas. Hoje de manhã também chegou a Isolina, ela já há mais de um mês que mora com os Leimann. É como se fosse filha.

No dia da Ascensão do Senhor ficou combinado um piquenique na casa dos Frischembruder, mas a chuva estragou. Fazia bom tempo até de manhã quando, na hora de sair, desabou um temporal.Este ano ficou determinado que as crianças que não forem à Escola Dominical deverão pagar uma multa de 300 réis.

Este ano ficou determinado que as crianças que não forem à Escola Dominical deverão pagar uma multa de 300 réis.

Na Escola Primária Básica tem uns 12 a 13 alunos. O professor é o Zeeberg, porquê o [João] Frischembruder assusta as crianças.

Naquele dia do piquenique nós não saímos de casa. Lá pelas 9 da manhã chegou o velho Netemberg e ficou até as duas da tarde. Ele é muito “papudo e pretensioso” e gosta de uma boa conversa.

Semanas atrás levamos um porco gordo para Orleans e rendeu 44$000 réis. Estão pagando 11$500 a arroba. Nós agora temos 15 porcos na engorda no chiqueiro, mas ainda não estão gordos. Agora imagine a quantidade de espigas [de milho] que precisamos para 38 porcos.

Acho que você não consegue pés de porco para comer? Bem, por hoje chega; se não noutra vez o que vou escrever?

Com muitas lembranças

Lúcia

Papagaios | Artur (Otto) Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 16-04-17

Querido Reini,

Agora vou eu escrever uma carta para você. Sei bem que não sei escrever direito, mas você vai conseguir ler.

Eu estou indo muito bem. Aqui apareceram muitos papagaios. Outro dia quando o Arnoldo Klavin ia para Orleans admirou-se com a quantidade e a bulha que faziam. Noutra viagem, quando ia para o Rio Larangeiras, ele trouxe a espingarda e deixou aqui em casa. Na volta, como era tarde, ele não foi para a casa dele e dormiu na nossa e ainda na sua cama e vestiu o seu paletó cinza.

No outro dia ambos fomos para o mato caçar porcos do mato, mas os cachorros não acharam. Ao todo matamos 10 papagaios. Cinco deles ele levou para o pequeno Karlos [Carlos Klavin]. Foi um grande tiroteio, e é uma pena que os papagaios foram embora.

Ontem na volta da Escola Dominical achei um canivete de bolso com duas lâminas, e se ninguém procurar vai ser meu.

Agora chega de imprimir.

Muitas lembranças,

Arthurs [Purim, na época com 11 anos de idade]

PS. (Escrito por outra pessoa) Agora o Artur está um palmo mais alto. Antes, quando chegava um grupo de meninos, ele ficava sumido no grupo e só se ouvia a sua voz. Agora ele é o primeiro, o mais alto.

Batismos no Laranjeiras e o Jornal da Moda | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 15-4-17

Querido Reini,

Eu tua carta, que recebi 13 de abril, você reclama que não chega nenhuma carta. Naquele mesmo momento comprei um cartão postal e mandei naquele mesmo dia. Talvez a essa altura você já tenha recebido nossas cartas e esteja a par dos acontecimentos daqui. Mas, como temos coisas novas, vou contando.

Aqui vamos bem e saudáveis. O tempo agora é bom e o céu limpo. Faz mais de uma semana que não chove. Os dias de outono não são quentes e as manhãs são frescas e com neblina. Meu trabalho agora é colher milho, arrancar inhame, trazer para casa e engordar os porcos, porque o toucinho está com bom preço: 12$000 a arroba, e a banha 18$000 a arroba.

A Páscoa passou maravilhosa. A semana que antecedeu chovia muito, mas já na quinta feira limpou. No domingo de Páscoa fomos ao culto na casa dos Leimann. Como já tinha escrito, seria feita uma coleta para Missões Nacionais. A coleta rendeu 37$00, mais 10$00 da Escola Dominical e mais 5$00 da Sociedade Missionária.

Na segunda festa da Páscoa fazemos um grande viagem para Laranjeira (em português no original) para a festa de batismos. Na igreja1 tinham sido aceitos o Augusts Klavin, a Margrida (que não tinha sido batizada da outra vez porque o pai não tinha autorizado) e mais um candidato da igreja de Pedras Grandes.

A igreja decidiu que desta vez os batismos seriam no Rio Laranjeiras. O dia estava magnífico. De manhã cedo cavalgamos perto do Salto do Beker e entramos mata adentro. O caminho na mata estava muito lamacento; na subida do morro e também na descida a chuva abriu profundas valetas. O rio não estava muito cheio, mal chegou a água encostar na barriga da [égua] Zebra. Mas chegamos bem.

O povo tinha chegado de todas as partes, e muitos nunca tinham visto coisa igual. O Roberto já tinha vindo na primeira Festa [Domingo de Páscoa] à tarde e passado a noite. O candidato ao batismo morador em Pedras Grandes não veio, e não ficamos sabendo o motivo. Então o pai da Margrida mudou de idéia: não deixou que ela fosse batizada, porque os parentes vieram e encheram-lhe a cabeça, dizendo que se ela se batizasse nunca mais acharia um casamento, e a moça ficaria perdida para todos os tempos. Então ficou o Augusto sozinho.

Primeiro foi realizado um culto na casa de Cassiano, que estava quase pronta. Daí fomos a pé até o rio logo ali perto. O batismo foi realizado pelo Arthurs [Leimann]. O povo todo se comportou solenemente. Voltamos para a casa, onde houve outro culto, também dirigido pelo Arthurs. Tivemos bastante oportunidade de cantar com todo entusiasmo e alegria.

Agora começamos a nos preparar para o retorno para o lado de casa. Ainda fomos obsequiados com café, doces e bolos; cantamos o hino 36 de Cantor Cristão e então nos separamos. Na volta para casa o Robert [Klavin] nos guiou por outro caminho. Cavalgamos beirando o rio abaixo por um longo trecho, depois atravessamos e seguimos ainda mais um grande trecho rio abaixo; atravessamos a roça de um italiano e terminamos saindo na estrada do Rio Novo na altura, ou melhor, um pouco além da casa da filha do Klaumann.

Essa estrada era bem melhor, porquê não tinha morros para subir nem tanta lama. Para mim foi uma experiência muito interessante, pois havia muito o que ver, morros e grotas diferentes onde corria o rio de águas límpidas e transparentes.

Voltando para casa a cavalo éramos treze, como foi no Natal: Roberts, Arnolds, Juris, Augusts, Arthurs, Leimans, Emma, Lonija, Milda, Schenia [Eugenia], Luzija [Purim] e eu, e ainda Avelino e três dos Paegles. Chegamos em casa de noite todos saudáveis e felizes, pois apesar de tudo nenhum mal nos não aconteceu.

Assim passamos a Páscoa. E você, o que fez na Páscoa?

Nas oitavas da Páscoa o Artur Paegle casou-se com a Frida Hilbert, e quem deve estar com o chapéu cheio de felicidade é a Mille [Emilia Frischembruder, mas tarde casada com Osvaldo Auras]. Deu certo gosto nela, pois há tempos ele vinha dizendo que não gostava de baixinhas e gordas, e sim de moças lindas, e esta é. Mas sobra ainda um desastre, pois ele não fala alemão e ela não fala nem leto nem brasileiro. O que se espera é um novo idioma.

O Willis Paegle está muito doente: machucou-se levando uma forte pancada quando trabalhava na tafona, que o deixou desacordado por longo tempo. Chegaram a falar da necessidade de ser levado ao hospital, mas não sei se foi levado ou não.

Você pergunta se O. [Oskar Karp] vai ou não. É inútil você ficar esperando: ele não vai mais, porque a cauda está muito firmemente presa. Agora L. vai quase todo domingo junto de braço dado. Algumas pessoas dizem que brevemente será anunciado do púlpito. Então se apronte para o casamento, mas quando será ainda não, sei. Agora eu descobri que já há tempo ele não queria ir; só não queria contar a você, por isso vinha dizendo que iria. A senhora Karp lamenta que O. tenha deixado lá muitas roupas, dois cobertores, dois travesseiros, lençóis e fronhas e outras roupas às dúzias, que, com todo esse tempo, já devem ter crescido. Poderia por tudo isto no enxoval, mas agora o pobrezinho tem ficar sem enxoval.

Agora no Rio Novo tem sido feita uma boa estrada. O imposto da fumaça não será mais necessário pagar, mas cada colono deverá dar uns dois ou três dias de trabalho para a manutenção da estrada. Agora a estrada daqui de casa até Orleans está boa, porque todos — italianos, letos e alemães — foram trabalhar enchendo valetas, consertando pontes e explodindo pedras. E por sorte, na época em que foi consertado não choveu e o caminho foi compactado, senão teriam se formado grandes lamaçais. Melhor é ir trabalhar e ter a estrada boa do que pagar 5$00 e a estrada continuar naquele péssimo estado.

No Rio Novo acho que não tem acontecido nada especial. Parece que eles não tiveram nenhuma festa de Páscoa porque grande parte acompanhou a caravana que foi a Mãe Luzia. Até o próprio [?] parece que também foi para arranjar uns genros, mas se conseguiu não sei.

Na semana passada chegou uma carta para você do Salomão [Ginsburg, diretor da Casa Publicadora Batista, editora do Jornal Batista], cobrando o Jornal. Você ainda não pagou? Ele oferece a condição de que quem pagar até fins de junho e mais 1$500 poderá receber o “Jornal da Moda” como cortesia. Eu te peço que aceites esta proposta e que a assinatura deste outro jornal também seja efetivada; para tanto, quando mandarmos dinheiro, mandaremos mais o correspondente a essas despesas. Você consegue ler o Jornal? Gostaríamos de continuar recebendo, porque assim nos consideramos grandes brasileiros.

Você mantém correspondência com Ludi [Ludvig Rose]? Nós lhe escrevemos mas não obtivemos resposta. E Karlis tem escrito para você? Depois que você foi embora não recebemos mais nenhuma notícia dele.

Penso que por hoje chega. Todas as coisas mais importantes daqui eu descrevi. Ouvi falar que o Brasil teria declarado guerra a Alemanha, mas não sei se é verdade, porque aqui o povo basta ouvir falar para ir dizendo que é verdade.

Agora vou aguardar de você uma longa e completa carta. – Ainda, muito sinceras e profundas saudações do papai, da mamãe, da Lúcia [Purim] e do Artur [Otto Purim]. Viva saudável, alegre e feliz.

Sua Olga

* * *

1. Na igreja. Naquela época havia em Orleans duas igrejas batistas: uma, mais antiga, no Rio Novo propriamente dito, junto à escola, e outra na cidade de Orleans, resultado de uma separação da igreja de Rio Novo no tempo que o pastor Carlos Leimann era seu líder. Carlos Leimann seguiu pastoreando a igreja em Orleans, que tinha pelo menos duas congregações filiais: uma em Rio Laranjeiras e outra no Rodeio do Assucar, na casa dos Leimann. Era desta última que participavam os Purins e seus amigos que assinam as cartas. A igreja de Orleans (bem como seu ponto de pregação em Rodeio do Assucar) preocupava-se mais com a evangelização dos brasileiros do que a igreja em Rio Novo; aparentemente esse havia sido o motivo da divisão em primeiro lugar.

São poucas as que chegam | Olga Purim a Reynaldo Purim



Querido irmão,

Hoje recebi a tua carta escrita no 1° de abril. Muito obrigada. Escreves que mandaste uma carta para o Papai, e esta não recebemos. Recebemos apenas uma carta escrita do Rio para a Mamãe e aquelas que escreveste de São Paulo. Mandei uma carta no dia 30 de março, junto com um pacote contendo dois chapéus. Você já recebeu? Aqui estamos todos bem e estamos com saúde. Agora, quando chegar em casa [em Rio Novo] vou escrever uma carta de verdade para você. Não se preocupe demais com as cartas suas que não chegam aqui: são poucas as que chegam. Muitas lembranças de nós todos.

Olga

Orleans, 13 de abril de 1917



A entrada na guerra | Ludvig Rose a Reynaldo Purim

São Paulo, 10 de abril de 1917

Querido Reyhnold,

Só hoje consegui uma oportunidade de escrever-te1. A tua primeira carta não pude responder, pois tinha perdido o teu endereço. Pensei que o número fosse 282, mas assim mesmo fiquei aguardando nova carta, achando que você colocaria o endereço no verso, o que realmente aconteceu.

Tendo recebido a segunda carta, novamente não pude responder, com a entrada dos Estados Unidos na [Primeira] Guerra [Mundial]. Esperávamos que o Brasil não fosse seguir o seu caminho, e ficamos observando diariamente para ver o que aconteceria. Agora tudo realmente indica que o Brasil também entrará nesta guerra, e esse futuro próximo é realmente preocupante.

Não sabemos se o governo será capaz de nos garantir o sossego para continuar editando o nosso jornal [em língua alemã]. Pode acontecer que tenhamos que fechar. Com estes obstáculos e nestas condições eu não receberia o salário. Esse é o grande motivo pelo qual no momento nenhuma ajuda eu posso te prometer. Eu ficaria bem mais tranqüilo se as coisas estivessem calmas, assim poderia te ajudar tranqüilamente. Agora mesmo estou colocando tudo em caixas e me aprontando para mudar para Orleans se as coisas não se mostrarem seguras por aqui.

Você percebe que tudo depende da situação. Se continuar ganhando bem como sempre, terei certeza de poder te ajudar. Se não, você poderá acompanhar a mim e minha esposa até o Rio Novo. Lá esperamos a guerra passar, depois do que eu continuo a escrever e você a estudar.

Muitas lembranças a todos os parentes,

Ludvig [Rose]2

* * *

1. Carta escrita em papel timbrado do Deutsche Zeitung Für S. Paulo. Entre outras informações, o cabeçalho diz:
Diretor: Sr. Rudolf Troppmair
Endereço: Rua Libero Badaró 99, Telefone 4575, Caixa Postal Y
Endereço telegráfico: Zeitung São Paulo.
2. Ludvig Rose, irmão de minha vó Lisete Rose, era leto mas escrevia para um jornal alemão (o Deutsche Zeitung) na cidade de São Paulo. Como seus colegas alemães, era simpatizante da causa alemã na Primeira Guerra Mundial.

Uma falha no Novo Testamento | Robert Klavin a Reynaldo Purim

Antunes Braga1, 9 de abril de 1917

Querido amigo Reynold!

A tua carta escrita no dia 17 de março recebi no dia 4 de abril, pela qual agradeço. Desculpe não ter respondido antes.

No dia 1º de abril, domingo, estivemos em Orleans, e a igreja recebeu o meu irmão Augusto para o batismo. O empregado do Onofre disse que viria quando tivesse uma ocasião, mas como ele não veio a igreja decidiu dar oportunidade no dia do batismo: se ele viesse, seria chamado para a profissão de fé. A Margarida não foi chamada, pois já tinha sido aprovada em 1915. A igreja determinou para 9 de abril a data dos batismos no [Rio] Laranjeiras, junto à casa do Caciano de Medeiros e, como pastor para efetuar os batismos, o Artur Leiman.

Depois chegou um recado do Onofre, dizendo que o empregado dele não estaria nesse dia no Rio Laranjeiras. Na Sexta-Feira Santa fomos eu e o Artur Leiman solicitar autorização do Caciano de Medeiros para usar a propriedade dele para esse fim, se bem que de antemão tínhamos certeza de sua aquiescência. Também precisávamos providenciar um lanche para os visitantes que viessem de outras localidades. Tudo foi acertado, inclusive o abrigo para a troca de roupas.

Também começaram as dificuldades com o pai e a mãe da Margarida, que não queriam que ela se batizasse, mas ele ia decidir até sábado.

Viemos para casa e paramos nos Leiman para o culto, agora com novas reformas que acabaram de ser implantadas: uma é que a leitura bíblica é feita em português. Em seguida é feito um ditado para fixação do texto, e somente depois é estudada a lição.

[Ali] também o Artur contou os problemas com a Margarida e outros de Rio Larangeiras. A Sra. Kolegene achou que isso representava uma reclamação, e entendeu que diante das dificuldades de acesso deveriam abandonar este trabalho — idéia esta que foi refutada por todos, principalmente pelo grupo de voluntários, que não medem esforços para estar sempre lá.Pedro, o alemão, tinha encontrado uma falha no Novo Testamento.

No domingo pela manhã, depois das atividades normais da igreja, fui para o Rio Laranjeiras terminar de cuidar das providências para as atividades do dia seguinte. Ali contaram que o tal Pedro, o alemão, tinha encontrado um erro, uma falha no Novo Testamento: haveria uma passagem sobre dois irmãos que viviam em determinado lugar; um dele teria atravessado três colunas de fogo e ido para o céu, e como nada lá fosse bom, teria voltado e dito ao outro irmão que para o céu nunca fosse.

O Caciano então me perguntou se eu sabia ler em alemão e eu disse que sabia, se bem que não muito bem. O Caciano determinou que o Pedro viesse e trouxesse o seu Novo Testamento em alemão: ele veio todo prosa, e quando foi pedido que mostrasse o trecho mencionado ele levou um tempo imenso e apresentou um trecho que nada tinha daquilo que ele tinha falado. Li em alemão, traduzi e depois li o mesmo trecho em português: ficou comprovado que ele tinha inventado toda a história.

Depois que o Caciano deu um apertão ele disse que achava então que tinha lido no Cantor Christão. Depois ele procurou outra passagem; quando eu li e provei que nada do que ele falou havia nesta passagem, o Caciano entrou diplomaticamente no assunto, solicitando que ele estudasse direito e em outra oportunidade continuariam os esclarecimentos.

À tarde fui aos Paegles visitar o Willis, que teve um acidente mas agora já está andando. Ele estava trabalhando na atafona [engenho de farinha] e chegou perto da roda dentada; nem ele sabe como, mas bateu a cabeça com uma violência tal que ficou desacordado e assim ficou várias horas. Quando voltou a si estava todo ensangüentado, com o carretel dentado caído junto dele. Sangrava pelos ouvidos e tinha alguns dentes quebrados, e junto dele os eixos e as rodas giravam a toda velocidade. Assim mesmo sangrando ele foi fechar a água para parar a roda d’água, e depois foi se arrastando até a casa. Por vários dias continuou sangrando pelos ouvidos; nos primeiros dias ele se alimentou somente de leite e hoje está ainda com um dente quebrado e outro deslocado, e a cabeça toda inchada.

Dos Paegles fui de volta para o Rio Laranjeiras e pousei na casa do Caciano, para no dia seguinte aguardar os convidados e visitantes de Rodeio do Assucar e outros. Lá pelas 10 ½ da manhã começaram a chegar os brasileiros da localidade, e um pouco mais tarde chegaram os mesmos que tinham estado no Natal, com exceção do Wilis Slegmann que desta vez não veio.

Atravessaram os morros, enfiando-se por caminhos quase fechados pelo mato para chegar até o Rio Laranjeiras.

No domingo o pai da Margarida não apareceu, mas disseram que ele estava firme no “não” para que a filha não se batizasse. Logo chegou a hora dos batismos: depois de um culto na casa de Caciano nos dirigimos para o local junto ao rio. Ali, depois de cantados diversos hinos e lidos um trecho da Bíblia e uma dissertação pelo Artur sobre o batismo bíblico, foi batizado o candidato. Ambas as margens estavam cheias de gente, que se comportou dignamente — e, sendo assim, não houve o mínimo incidente durante o evento.

Voltando para casa do Caciano ainda cantamos diversos hinos, antes de tomarmos o caminho de casa.

Quanto à igreja, vai um tanto difícil, pois o Artur Paegle enamorou-se até as orelhas pela “calça larga” do Hilbert e a Margarida está apaixonada pelo alemão Pedro. Para nós é um tanto complicado administrar essa situação; o que a Igreja determinará neste caso, não sei.

Quanto ao Rodeio do Assucar2, vai tudo a mesma coisa. O Arturs [Leimann] ainda está em casa, e se ele vai embora não sei. Muita gente está fazendo tudo para que ele não se vá.

Quanto à igreja de Rio Novo, não sei como está. A estrada desde a Canela3 até Orleans, que estava muito ruim, foi totalmente consertada pelos rionovenses.

Quanto a tua saída daqui, não sei se alguém se alegrou. Se isso aconteceu, não fiquei sabendo.

Bem, por hoje chega. Escreva logo que puder. Lembranças de meus pais e finalmente as minhas.

Teu amigo Roberts [Klavin]

* * *

1. A “Linha Antunes Braga”, onde moravam os Klavin, ficava mais ou menos um quilômetro adiante da casa dos Leimann no Rodeio do Assúcar. Esta “Linha” ficava já na vertente que tende para Grão Pará e Braço do Norte. O forte da colonização dessa localidade era polonesa. Mais precisamente seria a “Alta Linha Antunes Braga”, que também fazia parte da microbacia da Invernada.
2. Rodeio do Assucar é um pequeno vale onde passava a antiga estrada de Imaruí, que tomava o rumo da serra. Nos lugares limpos, como nos pastos, até há pouco tempo viam-se marcas profundas características, formadas pelas pegadas das mulas. Devia haver variantes mais antigas, pois os Klavin encontraram na propriedade deles, que fica bem mais adiante na Invernada, as mesmas trilhas profundas, mas já com perobas crescendo – e pela contagem dos anéis concêntricos foi confirmado que este caminho, naquele lugar e naquela época já tinha sido abandonado há mais de 80 anos. Lendas dizem que era um pouso das tropas que transportavam charque e outros produtos serra abaixo e que levavam sal, ferragens e açúcar para o planalto. Neste lugar uma das tropas teria sofrido um ataque dos índios, e muito açúcar teria ficado esparramado. Há também lendas sobre uma bruaca cheia de ouro, pertencente a Anita Garibaldi, que teria sido enterrada em suas margens, durante sua fuga de Laguna para Curitibanos. Outra versão diz que, por falta de uma ferramenta própria, como uma pá, Anita teria afundado o tesouro num banhado. Rodeio do Assucar é também o nome de um pequeno rio, onde os Leiman tinham um engenho de farinha de mandioca. Esse rio, juntando-se ao rio do Rodeio das Antas e ao rio Carlota, forma o rio Barracão.
3. Canela, encruzilhada no final do vale do Rio Novo. Neste ponto a estrada se dividia, indo à esquerda para Coxia Seca e Brusque, à direita para Rio Carlota, Rodeio do Assucar, Barracão, etc.