…pois ele era corajoso, diligente e dava bom testemunho…| De Lucija Purim para Reynaldo Purim 1928

Rio Novo 9 de dezembro de 1928

Querido irmão. Saudações

Já longo tempo é passado que de você não temos recebido nada. Esperamos cada semana, mas nada tem chegado. Pensamos que talvez você esteja doente ou que outro motivo teria forçado a não escrever.

A última carta que recebi de você foi àquela escrita em 13 de junho e respondi a mesma no mês de outubro, mas, resposta que é bom até agora não chegou. Chegamos a pensar que alguém daqui tenha apanhado a sua carta no correio e sumido com ela. Tenho bom relacionamento com a agente do correio e ela categoricamente nega esta possibilidade, pois ela saberia que ao entregar uma carta errada ela pediria de volta e a pessoa devolveria.

Nós agora graças ao bom Deus estamos indo bem, todos com saúde e trabalhando o que cada um consegue fazer porque serviço é que não falta mesmo.
Todas as lavouras estão plantadas, quem sabe ainda plantaremos mais alguns litros de sementes de milho e então chega. Ai teremos mais do que 4 quartas plantados [Quatro quartas são iguais a um alqueire ] e em todas as partes as plantas vicejam bem. Em alguns lugares o milho já começa a pendoar (florescer) e por isso tem muita coisa para capinar porque a ervas daninha também crescem rápido. Trabalhamos todos os dias e quase conseguimos vencer. Logo teremos batatas para colher que estão bem crescidas e também batata inglesa, pepinos, cebolas então venha ajudar a comer. Também há laranjas começando a madurar, pêssegos prontos para saborear. As uvas em janeiro também estarão maduras, eu fui ao parreiral e eu nunca tinha visto tantos cachos grandes e tão bonitos. Também na horta tem muito o que colher como morangos, repolhos, nabos, beterrabas e tomates. Bem que você poderia vir ajudar a comer.

O tempo hoje está limpo e quente, mas parece que vai chover mais tarde depois do almoço, meses atrás estava muito seco e até as plantas começaram a sentir, mas agora voltou a chover normal.

O Paps contratou a derrubada dos capoeirões da Bokuvina com uns brasileiros quando na colheita pagarão a terça parte. Isto nós fizemos sem a sua autorização tendo certeza que você não vai levar por mal, pois nós mesmos não iremos lá trabalhar lá, pois temos muitos terrenos aqui bem mais perto que seria muito bom seria se que pudéssemos dar conta de tudo.

A Maria ainda está trabalhando conosco porque outros camaradas [empregados] agora é impossível conseguir então a Maria é muito útil para ajudar em tudo.

Agora nos temos 3 vacas dando leite e duas vão dar logo. Ai sim teremos leite para tomar até não poder mais. O Arturs gosta de tomar leite, mas eu não aprecio.
O Arturs te escreve? Pra mim ele escreve sempre e aqui as cartas vão e vem rápido porque é perto, ele está bem, ele engordou e quem sabe ele vem pra casa fazer uma visita.

Na semana passada tiveram ocasião os festejos do enceramento do ano letivo na Escola da Igreja. Também não haverá mais escola porque já aprenderam tudo e estão sábios e não precisam mais estudar[:A Professora da Escola era a esposa do Pastor]
.
No Domingo passado houve Festa de Batismos sendo 4 de famílias letas e dois brasileiros de Laguna: Francisco da Cruz e sua esposa. Ele é um senhor negro muito distinto e corajoso e é pena que não saiba ler, mas sabe muitas partes da Bíblia de cor … [partes ilegíveis porque a pessoa escreveu em ambos os lados do papel] .

No domingo a noite foi a despedida do Pastor Stroberg. Mas como choveu, assim mesmo havia muitas pessoas na Igreja. Agora os rio-novenses estão sem pastor de novo porque aqui ninguém consegue ficar muito tempo porque aqui todo mundo quer mandar. Em outros lugares o pastor manda na Igreja e aqui surgiram dificuldades…. [Ilegível]
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Antigamente o Klavim era de boa paz, mas agora que o Augusto viajou e a Lida S. teve estes casos então ele passou ser insuportável nas sessões de negócios da Igreja. Sempre soube que os velhos da Igreja trocavam farpas e davam um mau testemunho nestas reuniões. Quando os problemas são muitos e não se consegue a solução teria muito que escrever, mas não convém. Sempre penso que onde fica a honra e o louvor a Deus destes rio-novenses. Parece que com este comportamento de alguns da Igreja cumprem-se as palavras de Jesus que almas virão do Oriente e do Ocidente e sentarão no meu reino, mas aqueles filhos da luz serão excluídos da sua presença.

A nós e também a alguns outros a vinda do pastor Stroberg não agradou muito, mas agora no final era tão bom que duvidamos os Rio-novenses consigam outro pastor igual, pois ele era corajoso, diligente e dava um bom testemunho e conseguia os resultados e que poderiam ser ainda melhores se houvessem mais pessoas com o ardor em testemunhar do Stroberg.

O Stroberg agora viajou para Kuritiba onde vai ficar com os parentes. Depois não está decidido para onde ele virá se para Mãe Luzia ou para Laguna ou mesmo outro lugar. As visões de trabalho pra ele são imensas com muitas pessoas interessadas na mensagem.

Recentemente trabalhou em Laguna um colportor [Vendedor de Bíblias] que ele ficou muito surpreso pela acolhida receptividade do povo desta cidade que não conhecia o Evangelho para a aceitação das Bíblias que ele vendia. Ele foi embora com as malas vazias e o coração cheio de alegria. Tomara que o Pastor Stroberg volte pra Laguna e assim em pouco tempo poderia formar-se uma boa Igreja.
Agora as lembranças do Skolmeister, da Maria da Silva, do Onofre Regis e esposa. Ainda no domingo passado esteve aqui em casa o velho Onofre e perguntou por você e eu falei que faz tempo que não temos notícias de você. Ai ele falou que uma vez você escreveu que depois de 2 anos voltaria prô Brasil. Então este seria o motivo de você não escrever.

Também lembranças do Stroberg e quanto aos demais quase não perguntam por você porque os assuntos gerais que se conversam são aqueles relacionados com a comunidade local.

Desta vez chega. Já escrevi bastante, quem sabe você nem queira que escreva tanto Então daqui em diante somente vou escrever respondendo as cartas que receber.
Lembranças do Paps, da Mamma e também de sua irmã Lucija.

…mas não obtive autorização para viajar. | de Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1928 –

Rio Novo 18 de abril de 1928
Querido irmão! Saudações!

As tuas cartas escritas em 12 de fevereiro e 7 de março uma na semana passada e a outra na semana anterior. Elas vieram rápidas. Muito obrigado por elas. Agora eu vou ter que matar 2 coelhos com um tiro só. É muita sorte receber duas no mesmo tempo.

Nós agora graças a Deus estamos bastante bem, estamos todos bem de saúde, somente o tempo está por demais chuvosos. Chove quase todo dia e quase não dá para trabalhar nas roças e muita coisa apodrece nas roças. Todo este verão não foi só chuvoso, mas teve tempestades e enchentes que impediam a gente ir à cidade. Os pequenos riachos se transformaram em grandes rios. Neste ano em todo Brasil chove muito e a chuva tem causado muitos prejuízos e desastres com muita infelicidade. Soubemos que em São Francisco a chuva foi tanta que o cemitério da cidade foi destroçado pelas águas das chuvas arrastando corpos sepultados e esqueletos pelas ruas da cidade. E que os morros adjacentes da cidade de Santos estão desmoronando e cobrindo grande parte da cidade causando imensos prejuízos a toda população.

Falando em chuva talvez você queira saber como estão as nossas roças. Na realidade penso que você tem pouco ou nenhum interesse neste assunto. As nossas lavouras estão muito bem. Não temos aquelas grandes roças que tínhamos antigamente, mas estão muito limpos porque nós capinamos 2 ou 3 vezes cada roça e assim as espigas crescem realmente maiores.

Na beira da estrada temos uma lavoura e também um pedaço plantado com cebolas. Na encosta do morro temos feijão plantado e está muito bonito. Pena que chove demais. Depois da mata na divisa com o terreno do Ernesto Grüintall no morro junto à mata está todo plantado com milho. Neste lugar quando você estava aqui não tínhamos culturas e sim pasto.
Na grota funda também derrubamos a mata e plantamos milho e abóboras e as plantas estão muito lindas. Pena que é tão difícil de trazer as abóboras lá de baixo. Depois vamos plantar grama e em outras partes semear o Capim catingueiro.
A semente deste capim chegou um saco de 18 quilos que o Artur conseguiu com um amigo do Ministério da Agricultura em Florianópolis. Agora ele tem recebido mudas de plantas frutíferas, sementes de lá. Nem tudo que ele pede consegue, mas quando ele tem, eles mandam.

Agora vamos conversar sobre os nossos parentes na Letônia. Estes estão realmente pobres e isso é realmente penoso assim o Tio André [André Purens irmão do Jahnis Purim meu avô] escreveu um Cartão Postal. Ele mesmo está sempre doente e o Jahnites tem que ir servir o Exercito. A notícia boa é que a Igreja de Jaunjelgava conseguiu um espaço para ele morar de graça. Recentemente enviamos um cheque de 100$000 (cem mil réis) para o Pastor Frejis em Riga a fim que ele troque e mande adiante sabendo que em Jaunjelgava não tem nenhum banco com correspondente estrangeiro. É o que podemos fazer com parentes que precisam de ajuda em caso de tão grande necessidade e a fome bate a porta. O tio André também pediu o teu endereço e diz que vai escrever.

Dos parentes de São Paulo no momento não tenho notícias deles. A última carta do Tio Jehkabs e da Lilija recebemos antes do Natal as quais nós respondemos, mas depois disso não temos notícias deles. Nestas cartas eles insistiam em convidar para passar as Festas e poder visitá-los e como nós não demos bola para este convite é provável que tenham ficado tristes. Esta semana eu queria escrever para a Lilija e perguntar por que ela não escreve. Eu naquela oportunidade queria viajar, mas não obtive autorização para viajar. Tanto eu como o Artur somos tolhidos e não temos liberdade para sair, como você tinha e têm ainda.

As tuas lembranças para o Pastor Stroberg foram entregues e ele manda muitas amáveis lembranças pra você e também disse que vai escrever.
Lucia

Os Letos daqui estão ficando cada vez menos. | De Eduardo Karp para Reynaldo Purim – 1928 –

Rio Novo, 15 de abril de 1928

Prezado e distinto amigo Reynaldo Purim – Louisville

Muitas sinceras lembranças!

Desculpe-me por me permitir com estas poucas linhas incomodá-lo.

Tendo feito bastantes amizades com os seus aqui, espero que não leve a mal por traçar algumas palavras com você mesmo na distância em algum lugar na outra América.

Se não fosse a chance de conhecer mais intimamente a sua distinta irmã Lucia, assim nunca teria pretexto de escrever nem uma linha, pois não teria o menor motivo para tanto.

Tempos atrás viajei muito e morei em outros lugares fora de casa e agora já há vários anos moro aqui neste lugar e penso quanto for possível aqui permanecer.

Neste momento estou trabalhando com comércio. Abrimos aqui em casa uma pequena venda juntamente com o meu irmão Oscar e pela continuidade podemos vislumbrar um futuro promissor.

Eu realmente gosto de trabalhar na agricultura e cuidar das roças, pois este é o primeiro e melhor fonte para nossa sobrevivência que nos sustenta, mas neste momento esta área ficou para segundo plano e pouco aproveitada, se bem que os espaços e condições são bastante favoráveis.

Os letos daqui estão ficando cada vez menos. Muitos estão indo embora, mas os de outras nacionalidades são muitos e nós de nosso lado temos com eles bom relacionamento.

Quanto às novidades e fatos importantes acontecidos aqui não poderei compartilhar e considerando que deves ter recebido de sua irmã Lucia fartas informações de tudo que acontece por aqui. Também ela não tem falado nada e é só opinião minha.

De toda forma pretendo mantê-lo bem informado que por não curto tempo tenho aprendido a conhecê-la melhor e ela tem se tornado uma pessoa muito querida e o meu sincero desejo, se Deus permitir torná-la minha companheira para toda a vida.

Peço que me escreva algumas linhas contando de suas atividades na outra América.
Ainda não está pensando logo em velejar para o Sul?

Desta vez somente isto

Fico aqui como seu admirador
Eduardo Karp

O Pastor Stroberg trabalha diligentemente, mas não dá conta de ir a toda parte… De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1928 –

Rio Novo 26 de Janeiro de 1928

Querido irmãozinho – Saudações
Recebi a tua carta escrita no dia 30 de Novembro passado e bem como os cartões e por isso muito obrigado
Não sei o que teria acontecido com as minhas cartas ou não recebestes ou não queres responder. Nós também não recebemos cartas suas, pois a anterior a esta recebemos no mês de Outubro qual eu prontamente respondi. Depois escrevi mais uma carta e como nada acontecia parei de escrever. Fiquei esperando respostas suas e como até agora não tinha resposta às minhas cartas foi motivo suficiente para parar de escrever.
Também pode alguém ter ido ao Correio e apanhado as cartas e devido ao grande interesse e não ter entregado prá nós.
Agora graças a Deus estamos mais ou menos saudáveis, Somente a minha mão direita está inchada e dói, então fica difícil para escrever. Semana passada o Arthur teve febre que o atormentou até que comprei medicamentos e pudemos mandá-la embora.

Agora o tempo está muito quente e chuvoso, pois chove toda à tarde se bem que logo após o Ano Novo esta muito quente e seco e a gente temia que todas as lavouras secassem. Felizmente semana passada começou a chover roncando trovoadas e dando temporais com ventanias derrubando milho nas roças. Nas nossas felizmente o prejuízo foi muito pouco, mas ai pela vizinhança tem muito milho no chão. Este ano parece que o milho vai dar espigas muito grandes e bem formadas. Este ano tudo se desenvolveu muito bem e se você estivesse em casa poderia com bastante frutas. Os pêssegos estavam super carregados mesmo aquelas arvores nas capoeiras tomadas de frutos e este ano sem bichos nenhum. Agora as uvas estão maduras e assim visitas é que não faltam. Também temos muitos pepinos e muitas outras coisas para comer. É uma pena que a gente não dá conta de comer. Eu tenho comido até mais não poder e assim mesmo não consegui engordar. Na próxima carta eu mesmo vou levar até a América e ai você vai poder avaliar se eu engordei ou se estou na mesma.

Na Igreja vão mais ou menos bem, às vezes os velhos ranzinzas gostam de uma polêmica principalmente o Velho Karklin, mas quando não há oponentes a discussão se esvai.
O Pastor Stroberg trabalha diligentemente e com muita boa vontade, mas não dá conta de ir a toda parte aonde o chamam. Em Laguna o trabalho vai muito bem e ainda no mês passado pagamos os 40,00 mil réis do aluguel do Salão. O Deter tinha prometido que deste ano em diante ele mandaria pagar e agora chega à notícia que ele não tem o dinheiro, mas nós aqui decidimos que o trabalho da pregação do Evangelho é muito importante e que tem que continuar principalmente neste local que o povo é muito receptivo e sempre pede que a gente volte. No dia 6 de Janeiro dia da Estrela ou dia dos Magos foi daqui uma caravana de cantores e outras pessoas e somente o Pastor não pode ir, pois nestes dias nasceu o Valfredo o primeiro filho da Dª Griselde e pastor Stroberg. Quem dirigiu os trabalhos lá em Laguna foi o Aléxis e o Siguismundo Anderman de Mãe Luzia. Se o Pastor tivesse ido teriam sido realizados os batismos e daí o Francisco da Cruz e sua esposa teriam sido batizados como os primeiros deste trabalho. Estes já são ativos professores da Escola Dominical onde estão matriculadas mais de 20 crianças. Agora Deus providenciou para que não seja mais necessário pagar os 40 mil réis, pois conseguiram salão mais confortável por apenas 20 mil réis e o povo de lá tem muita boa vontade e tenta fazer o mais barato possível para a continuação do trabalho. Em Grão Pará também o trabalho é bem acolhido e no mês passado eu fui a cavalo junto com 8 cantores e naquele dia tinha uma assistência de mais de 100 pessoas. Em toda parte há bastante trabalho, mas o Pastor não dá conta de atender a todas as necessidades o que o deixa um tanto frustrado.

Acho que devo terminar de escrever, pois estou com muito sono e o braço dói muito. Se você escrevesse uma carta tão longa pra nós traria muita alegria e satisfação. Mas parece que você não gosta mais de escrever para nós aqui, a Mamma já disse que quando você precisava alguma coisa de casa então lembrava facilmente de escrever e como agora não precisa então rapidamente esquece-se da gente.

Ainda amáveis lembranças de todos nós aqui e que te vá muito bem.
Fico aguardando resposta tua
Lúcia
PS
[Ainda os que faleceram no ano passado foi o velho Paeglis e no último dia do ano foi a velha senhora Tesmann. Ainda recebemos a triste notícia da Argentina onde no dia 17 de Dezembro a Senhora Kristina Leimann separou-se desta vida indo para o lar celestial de encontro com os seus que foram antes.,]

…O milho vem bonito e todas as roças e estão estão muito viçosos.

Rodeio do Assucar 2-2-27
Querido irmão!
A tua carta escrita no dia 25 de Dezembro eu recebi no dia 28 de janeiro e por ela muito obrigado, pois esta foi longa e eu gosto quando descreves o modo como você vive, como você está passando, o que você come e se está trabalhando ou não. Agora queria saber mais se tens alguma outra atividade ou somente estudas e depois sai por ai passeando com o seu novo casaco? Aquela camisa que nós costuramos aqui conforme a nossa moda é provável que não estejas usando, talvez seja ordinária demais por que é um trabalho nosso aqui do mato e assim é possível que eles achem graça de uma camisa destas.

Hoje está fazendo tempo bom e está bastante fresco, quase um tanto frio e um ar como fosse um dia de outono. Dias atrás choveu, mas não demais e foi muito bom para a lavoura, noutros lugares sim no domingo passado deu um temporal com granizo e tudo, mas aqui para nós, não deu. As roças este ano crescem muito bem. Agora somente esperamos que apareça nenhuma seca. As plantas de modo geral então o milho que já vem bonito em todas as roças estão muito viçosoas. Logo que plantamos o milho não estava vindo muito bem e as ervas daninhas cresciam demais, mas logo capinamos e começou logo a chover, agora todas as roças estão capinadas, somente a coivara do Rio Novo aquela na beira da estrada falta capinar a segunda vez então assim todas as roças estarão limpas. Aquele velho pasto que nós aramos e plantamos milho, já está com espigas grandes, podes vir comer do modo americano e assim poderemos aprender a “tornear” as espigas.

Este ano não vamos ter melancias, não cresceram e as que sobreviveram estão cheias de larvas, todos falam que este ano não foi bom para melancias.

Uvas nós temos bastante, mas não aqui. Aqui enquanto estavam verdes os cachos eram lindos, mas ainda verdes elas começaram a cair. No Rio Novo ali sim estes ano as uvas estão lindas, doces e você pode comer até dizer chega.

Outra coisa que se você estivesse em casa poderia comer bastante mesmo são os figos, também leite, pois nós temos 3 vacas dando leite. Eu aqui tiro de 2 vacas um balde cheio e a Mamma lá tira da “Bunita” bastante então você poderia tomar leite puro e também o soro de manteiga. Foi bom que você foi para a América, pois aprendeu a tomar soro de manteiga o que aqui você não fazia. Isto foi muito bom que você aprendeu.

É muito bom que você está passando bem e também a comida é abundante. O Artur [Artur Leiman] conta que quando ele estava na Escola passava fome e eles davam tão pouca comida que não dava para sobreviver, assim para 12 estudantes 1 kilo de carne então cozida numa sopa não era suficiente para sobreviver, então quem tinha algum dinheiro comprava algo para complementar e aos domingos era muito pior porque se não conseguisse chegar na hora não tinha mais comida. Por isso uma vez nesta situação eles arrombaram o armário da cozinha e comeram tudo o que acharam e assim você pode imaginar que vida. Por isso o Artur agora está doente e cai por ai, ele não sabe como vai ser a vida dele, pois ele está doente, a esposa dele também e ainda com duas crianças pequenas. Agora ele está em Nova Odessa com toda família, mas logo vai mudar para Itajay para aprender a ser dentista com o Adam da Minna. Esta Minna é aquela Kushmane que algum tempo teria morado com nós. Como que o Artur vai se sair eu não sei. Quando ele veio de Nova Odessa ele deixou toda mudança lá e tinha emprestado 700 mil em dinheiro e viajado pensando que voltaria a estudar. Agora achou que a proposta da Minna era mais conveniente então não sei quantas idas e vindas serão necessárias para acertar tudo. A esposa ele não quer deixar sozinha. Esta vez que ele veio ele gastou os 700 mil até Imbituba então calcule o custo desta viagem. A esposa com cabelo cortado em estilo conforme a ”moda” . E os filhos de óculos. Aqui uns irmãos da Igreja sugeriram que ele se apresentasse a Associação Missionária para trabalhar em Santa Catharina, pois trabalho há bastante e nem falta lugares para tanto onde ele poderia evangelizar. Ele declinou dizendo que todos americanos não cumpriram com o prometido e talvez o Deter não seja melhor. Melhor aprender uma profissão para suprir as necessidades da família e parece que o trabalho de Missões está fora das prioridades dele.

Nós soubemos que a esposa do Willis Leiman faleceu no dia 20 de dezembro deixando 4 crianças pequenas. Ela faz tempo que estava doente com câncer e disso que ela morreu. Para os familiares muitas preocupações. O Willis agora morava em Guarany um dia de viagem de Ijuy. Ele trabalha para a Missão Sueca que trabalha com os alemães.
A Selminha [Selma Klavin] está planejando voltar para o Rio e vai levar mais duas alunas que são a Kornelija Balod e a Klara Salit. Vamos se realmente irão, mas que estão se aprontando estão. Assim o Rio Novo cada dia está ficando mais vazio.

Já agora no dia 10 a Milda Match vai viajar para a Argentina, viagem para a qual faz tempo que está se aprontando. Nenhuma moça daqui não fez uma viagem desta e também nenhum objetivo como o dela foi tentado por nenhuma jovem daqui. Ela está determinada para que aconteça o que acontecer ela tem que ir embora para lá. Que seja para a vida ou para a morte e se fracassar nunca mais chegará perto de seu homem e seu casamento. Faz muito tempo que o Fritz [Fritz Leiman] tinha escrito para o Match sobre o assunto e quando o Arturs chegou, contou com mais detalhes. Começou com uma carta do Zeeberg daqui para o Fritz onde junto foi uma fotografia do pessoal daqui do Rio Novo onde também aparece a Milda e em lá chegando um viúvo chamado Kristian Hainze achou a moça muito bonita e encarregou o seu pastor, o Fritz para que escreva inclusive enviando uma soma de dinheiro para que ela fosse para lá. Assim ela vai embora mesmo, pois sendo homem já vale a pena. Dizem que é um homem gordo de bigodes fartos e pretos e barba de bode. Tem 45 anos de idade. Aqui no pedaço tem gente fazendo gozação porquê o Fritz além de ser pastor lá é encarregado de conseguir esposas para os viúvos de plantão. Agora uma vez que a Milda está indo embora, aqui ela tinha tentado pegar todos, mas não deu certo. Ela queria o Stroberg e por isso ela entrou em choque com todo mundo. Aqui ela está com um conceito muito lá embaixo. Ela queria ensinar o coro e como não deu certo então as reclamações vieram aos montes. Em nenhum dos coros apareceu uma tão manhosa como a Milda.

Logo na semana que vem chega aqui o Pastor Stroberg com a esposa com a qual se casou. A escolhida foi a professora alemã Griselde Bichels de Kuritiba, então vamos ver como ela vai ser.

Na semana passada o Arturs viajou para Lauro Müller onde foi visitar o Ivo Reis, pois ele mora lá mesmo e recentemente faleceu a sua esposa e com eles está tudo bem e manda para você muitas lembranças.

Estou também mandando o endereço do Karlos Salit e assim você poderá escrever para ele.

Desta vez chega de escrever, pois o papel acabou. Ainda tinha algumas coisas para contar, mas fica para outra vez.
Ainda muitas lembranças de todos nós, que estamos passando bem. Lucija.

(Escrito na lateral)
Muito obrigado pelos Cartões de Boas Festas, se bem que não são tão bonitos quanto os do ano passado. Gostei muito do costume dos americanos de mandar presentes durante as Festas. Você pode trazer este hábito para o Brasil. Nas entrelinhas de tuas cartas observei que não é tão logo que você volta para o Brasil. Estou certa disso ou não?
(Escrito na lateral pelo Artur (irmão deles)

A Lucija no dia 14 de janeiro mandou uma carta contendo 2 fotografias como presente para o seu aniversário, recebeste ou não, se não escreva que então eu vou reclamar no Correio, pois elas foram registradas. AP.
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…o relógio já bateu as 12 horas e eu preciso ir dormir. | De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

Rio Novo 5 de maio de 1926

Querido maninho!!

Saudações!

Envio para você muitas lembranças. Então hoje à noite eu tenho que escrever esta carta. A carta tua escrita no dia 16 de abril recebi no dia 30 e por ela muito obrigada, pois depois de uma longa espera enfim chegou. Hoje à noite quando fui a Igreja o Augusto Klavim me entregou em também para o Arthur uma pequena carta escrita no dia 24. Então veja você espera cartas nossas e nós, as suas. Então agora está confirmada que a minha carta escrita no dia 26 de fevereiro foi extraviada. Neste envelope seguiu uma fotografia nossa tirada por ocasião do ano Novo se bem que não ficou muito boa. O prejuízo maior foi à longa carta onde eu descrevi muitas coisas daqui e esperava que logo que ela chegasse lá. Então agora eu acho que eu, alguma coisa, vou ter que escrever outra vez. Acho que há um grande relaxamento nos correios e por isto que tantas cartas desaparecem. O nosso Agente dos Correios aqui em Orleans é muito bom para nós e para todos os letos daqui. Ele as nossas cartas ele não dá para os outros não autorizados a trazerem a correspondência para o Rio Novo. Pode ser que não seja perfeito, mas o problema acho que está nos correios de todo Brasil.

Nós aqui estamos mais ou menos bem de saúde. A Olga continua do mesmo jeito. Ela tomou aquelas injeções [“Eepoteeja” indica enxerto, vacina ou inoculação e não injeção, mas por falta melhores informações preferimos injeção] daqueles outros remédios, mas não melhorou nada e depois ela voltou ao médico e ele não mais dar aquelas injeções porque poderia até piorar e por isso deu outros remédios para tomar e disse que fosse para as “Minas” [Era como era chamada Lauro Müller, naquele tempo um distrito de Orleans] porque aquele médico que mora lá poderia acertar. Mas a Olga não quer aquele médico e levar a força não vale a pena. Porque prá ela é assim: se os remédios não fazem efeito logo de pronto estes, remédios não, servem ou não prestam. Agora a Mamma trouxe todos os livros de Medicina do Zeeberg [Karlos Seeberg era um prático na área da Medicina alternativa muito procurado na região que seguia o famoso monge alemão Kneipp, apóstolo da Hidroterapia e também usava Homeopatia e Fitoterapia] e ela vai procurar algo que sirva para ela.

Quando é que você vai para Ijui, pois aqui todas pessoas sabem através do “Kristiga Balss” [Kristiga Balss era um periódico batista leto editado na Letônia.], pois o Ukstin escreveu que já tinham convidado você para pastor e somente estavam aguardo o “sim”. Onde ficou o Kartinh? Será que já foi mandado embora? O teu colega, o Linkis, nada te conta sobre eles? Por que você não escreve nada sobre este assunto? As pessoas que estiveram lá e conhecem o pessoal de lá acham que você seria muito tolo de aceitar porque eles recebem muito bem, mas logo mandam embora e que muitas pessoas são mais difíceis que as daqui. Se por acaso fores para lá, poderás dar uma entrada até aqui no Rio Novo para descansar um bocado. É bem provável que ninguém vai tocar você embora somente avise quando você vai chegar senão a Lede poderá estralhaçar as tuas calças. O Arthur diz que você deveria vir aqui durante o Natal, pois também poderá estar aqui o Arthur Leimann para vender o terreno, pois o Fritzis escreveu que eles querem vender logo aquele terreno e pergunta se você não quer comprar. Assim você poderia ter mais terras.

As roças este ano estão mais ou menos bem. As plantas estão crescendo bem, somente o milho do tarde foi perdido com a seca. Mas conseguiremos sobreviver. Os porcos conseguimos engordar com o milho do ano passado. Agora começamos colher o milho da nova colheita. Cinco dos porcos muito gordos já vendemos conseguimos mais de 700 mil réis e ainda mais cinco prontos para serem vendidos. Também temos muitos outros para serem separados para engorda. Agora o preço do toucinho está baixando, estão pagando só 23$000 a @. A farinha de mandioca está valendo agora 8$ o saco, mas há pouco estava a 5$ e como sempre tudo que a gente tem para vender é barato e o que a gente tem para comprar está sempre caro.

Os nossos parentes têm escrito para você? Para nós faz tempo que não escrevem. Escrevemos duas cartas, mas não obtivemos respostas. Eles devem estar aborrecidos porque eles sempre insistiram para que fôssemos visitá-los e ninguém foi. Eu bem que queria ir, mas não deixaram. Você bem que poderia fazer uma visita, pois durante a semana você poderia ir e voltar em caso que não quiser passar o fim de semana lá.
Aqueles jornais e outros papéis eu recebi e por tudo muito obrigada. Aquele jornal poderia encadernar [“Costurar junto], mas falta o primeiro número. Este ano “O Crisol” não vai sair? Por que você não os tem mandado? Tens recebido o “Selhmallas Seedi” [Flores a beira do caminho]? Mande-os para mim.

Terei que terminar de escrever porque o relógio marca mais de 12 horas da noite e eu preciso ir dormir. Eu quase nunca consigo dormir cedo e ainda 3 noites por semana tenho que ir a Igreja aprender a cantar para as festas.
Se você também escrevesse cartas tão longas seria muito bom. Eu já mandei uma carta em abril. Esta já foi recebida?
O tempo agora está magnífico e bastante frio. Pode-se congelar quanto quiser, mas geadas ainda não tivemos e é possível que tão breve não as tenhamos. Venha no dia 16 de maio, eu vou fazer aniversário e vou fazer uma rosca especial [Kringelis – uma rosca especial feita como fosse com massa de pão, mas com muita manteiga e outros ingredientes. (ver a receita no capítulo “Pratos e comidas letas”] e você pode vir ajudar comê-la.

Ainda muitas e saudosas lembranças de todos de casa e vamos aguardar longa carta. Eu fico feliz quando você diz ir bem em seus trabalhos. Apesar de eu aqui nada possa te ajudar, mas peço a Deus em minhas orações todos os dias e mais do que isso nada posso fazer, mas o Senhor pode ajudar em qualquer lugar.

Desculpe por eu estar escrevendo tão rápido, mas certamente vais entender. – Lucija.

(Escrito a lápis no verso de uma das páginas)
Tinha esquecido de mencionar que na semana passada no dia 27 o Willis Slegmann viajou para ir servir o Exército. Foram juntos para despedida até Laguna o pai, a mãe e a noiva. Os demais letos não foram chamados ainda. Se algum será convocado, eu não sei. Existem informações circulando que mais reservistas serão convocados, mesmo os que estejam doentes ou que pagaram os 100$$. Alguns já foram embora daqui senão. [Sempre nestas convocações ou sorteios existia uma espécie de “terror” gerando boatos e insegurança nas famílias dos possíveis futuros reservistas]
Então agora estás recebendo uma longa carta e se me responderes pelo menos a metade desta será muito bom.
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Que o Senhor te abençoe e dê a sua Benção… | De Lilija Purens para Reynaldo Purim

Fazenda Areias 30/01/1926
Saudações! Reinhold!!!!

Amavelmente e muito amavelmente te saúdo nesta noite. Que a Paz de Deus e a Sua Misericórdia sejam com você. Que o Senhor te abençoe e dê a Sua Benção em Abundância.

Querido Primo. Perdoe-me pelo longo tempo que não tenha escrito. Como nada tenha recebido nenhuma carta assim faltou ousadia para escrever pelo temor que talvez o primo não tenha tempo de ler. Bem, mas, esta noite como nada tenho para fazer então se você tenha tempo para ler ou não vou escrever do mesmo modo.

Graças ao Bom Deus nos estamos todos com saúde e trabalhamos nos serviços normais da lavoura. No momento estamos ocupados com a limpeza de nossas culturas, existem algumas ervas daninhas esparsas e brotações que nos estamos limpando .

Nós temos consideravelmente grandes culturas então trabalho sempre é suficiente. O arroz está bem crescido e logo vai florescer e granar e ai nós teremos o lindo trabalho de cortar o arroz. Este trabalho eu realmente adoro. O algodão está também bem desenvolvido e logo vamos ter que colher o algodão. Agora estamos cuidando da limpeza.. Então meu primo você não preferia trabalhar na lavoura? Na cidade sob este calor a repetição de tarefas e a sucessão de eventos não se torna monótona?… Ou não???

Por que tu Reinhold você não viaja para cá nos visitar? Contou-me um vizinho que você teria dito que não vinha nos visitar não queria nos atrapalhar e estorvar. Porque deves pensar em uma coisa que não existe. Nunca seria uma dificuldade uma vez que estamos esperando demais que você venha nos visitar e conhecer como nós os seus parentes estamos vivendo.
Mas parece que ao primo não interessa vir nos visitar e conhecer ou não é isso?
Então vamos aguardar para as próximas férias você aqui conosco.

Recebi uma carta da Olga e ela convida para nos viajar e passar uns tempos com ela, mas ela bem que poderia vir passar uns tempos aqui conosco. O que você pensa sobre isso?

Agora Reinhold vou aguardar uma longa carta sua, pois sempre escreves cartas curtas onde quase nada tem para ler. Descreva como estás passando, se conheces outros letos de nossa Igreja aqui e como vais de modo geral lá no Rio.

Amáveis lembranças do Papa, Mama, Vovô, Vilma, Melania, Teófilo e Alma.
E de minha parte também uma amável saudação com muito respeito.
Sua prima.
Lili

Aguardo Resposta
Endereço:
Fazenda Areias
Linha Paulista Vila-Americana
São Paulo
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