Pois nossa casa estava correndo perigo | Olga Purim a Reynaldo Purim

ADVERTÊNCIA
Esta carta apresenta uma série de não-conformidades. Houve falhas no comportamento de pessoas, sinais claros de ruptura na comunidade e também nas famílias, mas foram tratadas de modo pouco equilibrado pelo narrador, demonstrando partidarismos e envolvimento pessoal que até hoje poderiam causar embaraço aos seus descendentes. Além disso, algumas afirmações são baseadas em alguém que ouviu que alguém falou, e nunca teremos como verificar a outra parte. Sem interesse em gerar polêmica, mas por amor à fidelidade e à ambivalência da história, segue mais esta do jeito que foi escrita.
V. A. Purim

* * *

Escripto em letto
[Nota em português no original]

Rio Novo 22 setembro de 1918

Querido Reinold,

Na sexta-feira passada, voltando o Robert [Klavin] da cidade, trouxe para nós a tua carta escrita dia 6-9-18 em língua leta e que só demorou 2 semanas [para chegar]. Agradeço, pois me alegrei muito sabendo que aquela minha longa carta também recebestes. Na semana passada recebi os pacotes de jornais, um do dia 20, outro do dia 31 de agosto.

Agora a correspondência vai até que muito bem, pois todas as semanas recebo, senão cartas, então jornais. Não faz muito que escrevi uma outra longa carta em resposta àquela que veio dentro dos jornais no nome de E. L. [Eva Leiman]. As minhas cartas parecem que não são mais censuradas, pois todas chegam ao seu destino. Também aquela última tua não tinha sido aberta pela censura.

Os rapazes dos Klavim disseram que as cartas que eles escrevem para o Arthur [Leiman] e para você somem e não chegam a lugar nenhum. Não faz tempo, quando o Jurka ainda estava em casa, a encarregada dos Correios em Orleans perguntou se ele era irmão [palavras em itálico em português no original] pois sempre pedia as minhas cartas e ele respondeu que era “primo, sim”, mas não sei de onde arranjei esses “primos”. O Jurka acho que não sabe o que é primo. A Aninha é uma funcionária muito caprichosa e não dá a nossa correspondência para qualquer um, só para os primos.

Nós estamos passando bem. O tempo hoje de manhã estava quente e molhado. Ontem perto da noite veio uma tempestade com trovoadas e chuvas, mas agora todos dias ao entardecer fica um clima ameno e fresco. Hoje, 22 de setembro, é o primeiro dia da primavera, e hoje pela manhã realmente assim parecia. Os pastos ficando mais verdes, as laranjeiras plenas de flores, as abelhas trabalhando que chegam a zunir. Mas o tempo ainda está bastante irregular: ora está quente, ora frio.

No domingo passado, choveu forte quando voltávamos da igreja [na casa dos Leiman], e chegamos encharcados. Logo que limpou, noutro dia deu geada outra vez lá embaixo perto da igreja de Rio Novo ficou com o pasto todo branco.

A chuva é muito necessária, pois está tudo muito seco e ai é que acontecem as queimadas descontroladas que tem acontecido por aqui, e ainda bem que nós não fomos atingidos.

Na sábado passado foi um grande fogaréu.

Começou assim: na quinta-feira o Butler quis queimar uma pequena derrubada de capoeira grossa e soprava um vento forte. Ele tinha convocado o Augge [Augusto Felberg], os Grikis, os Leeknin e outros italianos que moram aí por perto para que às 13 horas estivessem lá para ajudar na queimada. Mas ainda nem eram 12 horas e o Butler com a Marta subiram o morro e puseram fogo. Quando o Augge e o seu pessoal viram a fumaça em sua direção, correram morro acima, em direção da queimada, e encontraram o Butler gritando que viessem correndo, que o fogo já tinha pulado pro mato do lado dele.

[NOTA: Queimadas de derrubadas (coivaras). Era convencionado que nenhuma queimada poderia ser executada sem a convocação do vizinho que possivelmente pudesse ser prejudicado. Este vizinho ou estes vizinhos tinham o poder do veto em caso de vento forte ou acendimento incorreto. Isto quer dizer que toda queimada tinha ser feita com os aceiros em perfeita ordem e começando sempre no lado que o vento não acelerasse a queimada e só depois de ter queimado uma área razoável, então iam cercando toda área com fogo. Mediante qualquer desobediência a este ritual poderia ser pleiteada indenização por danos causados.]

O vento vinha do lado do Grikis [sul]; justamente desse lado ele tinha posto o fogo, e o aceiro do outro lado não tinha ficado essas coisas. Nenhum ajudante tinha ainda chegado e ele, como um moleque afobado, que não sabe esperar, já tinha posto fogo. Ano passado, durante aquelas queimadas descontroladas, o Butler também tinha posto fogo e queimado meio mundo; agora outra vez, um fogo ainda maior que no ano passado.

O Augge correu para a casa velha dele e pegou um cavalo e saiu em desabalada carreira atravessando as roças para avisar os Karklin que um fogo descontrolado seguia na direção deles, e daí para os Stekert, Suschen e também o Wilis Balod e muitos outros italianos das vizinhanças. Com este todo povo trabalhando, conseguiram apagar já dentro das terras dos Karklin. O Butler mesmo, logo que o dele queimou, desceu e foi direitinho para casa; nem foi ver o tamanho do desastre que tinha provocado.

Aí, na quinta, o vento amainou e nada mais aconteceu. Mas no sábado lá pelo meio-dia começou soprar o vento quente do lado da serra. Lá pela uma da tarde avistamos rolos de fumaça negra do lado da igreja velha [norte]. A fumaça indicava fogo muito próximo, pois apareciam labaredas e faíscas de fogo lá por detrás do morro.

Nós todos ficamos assustados, pois o fogo poderia descer o morro, empurrado pelo vento, para a nossa casa. O Puisse [Artur Purim] foi correndo avaliar a situação e voltou informando que o fogo ainda estava no outro lado do banhado do Augge. Nem a casa nem as cercas do Augge podiam ser vistas, envoltas que estavam na densa fumaça. Mas ele pôde enxergar grandes labaredas de fogo saindo do alto do mato.

O Puisse voou para o lombo da Marsa e foi chamar Papai, que estava na roça, pois nossa casa estava em perigo, coberta de fumaça, com o vento empurrando agora o fogo em nossa direção. Enchemos todas barricas de água e começamos em desespero a molhar o telhado de tabuinhas do telhado da nossa cozinha. As tabuinhas estavam um tanto apodrecidas e já deviam ter sido trocadas; do jeito que estavam, era uma só faísca que aquilo explodiria em chamas.

O Enoz já tinha chamado o Schuschirs e o Willis Balod. Quando Papai chegou, apanhamos baldes e enxadas e subimos o morro tentando deter o fogo, antes de chegar mais perto, ainda no banhado do Augge. Para a casa do Augge, faltavam só três metros para que o fogo a tomasse conta.

Era um exército em luta diretamente contra o fogo. O pessoal do Augge, os rapazes dos Karklin, os Schunschis, o Vilis Balod com uma porção de camaradas. A senhora Grüntal também veio, apesar do sábado santo, o Karlis Karkle — enfim todos, com muito denodo e determinação enfrentaram as chamas e as debelaram.

Eram mais de 30 pessoas ao todo, e o que ajudou também foi que o poço tinha bastante água para que o pessoal jogasse no telhado da casa, naquele caminho que vai da casa do Augge para a casa de B. [Butler] e também para o caminho que vai para a igreja velha. Segundo a versão de alguns rapazes, o Butler tinha subido e perguntado se o fogo estava longe e eles teriam respondido que estava no mato ali mesmo; ele teria dito que este o ano o diabo mesmo ia apagar esse fogo, e descido em seguida novamente para casa.

A colônia do Augge queimou inteira, e também 100 braças de cerca de arame farpado, e mais outro tanto de cercas de espinheiros maricá do Willis Balod. Todo aquele pasto do velho Leepkaln ficou inteiramente queimado.

[NOTA: As cercas de espinheiros maricá (Mimosa bimucronata) eram cercas vivas ou sebes, e eram desenvolvidas do seguinte modo: no lugar onde se queria a cerca eram plantadas desta espécie de árvore espinhenta numa distância regular de uns 50 cm. Logo que estivessem bem desenvolvidas, isto é, com uns 2 metros de altura, era cavada em paralelo e no lado de dentro do pasto uma valeta de um metro de profundidade com uns 50 cm de largura. Esta terra era jogada sobre os espinheiros, e logo os espinheiros eram parcialmente cortados e dobrados (virados) por cima da terra, e assim rebrotavam; quando crescidos novamente eram virados, formando uma barreira para que o animal não passasse. Também podiam ser plantados ananazes com a mesma função. A valeta era para que quando o animal pusesse as patas dianteiras lá dentro não tivesse mais impulso para saltar através dos espinhos.

Quanto a este caso específico, não temos os dados suficientes para determinar a real responsabilidade pelo desastre, mas achamos que pode ter sido falta de orientação pelos responsáveis pela comunidade — uma vez que o pastor Butler, embora tenha vivido algum tempo em Rio Novo logo depois da sua chegada da Letônia, logo viajou para os Estados Unidos da América, onde frequentou a diversas Escolas Superiores; retornando ao Brasil, permaneceu como professor do Seminário e Colégio Batista do Rio de Janeiro. Só depois disso veio a assumir a nova função de pastor e agricultor na colônia de Rio Novo. Não deve ser justo esperar que, quando ocorreu esta calamidade, ele tivesse toda a experiência e informações necessárias para dominar a nova atividade.]

Nós naquele dia voltamos para casa só lá pelas quatro horas e, como todo sábado, fomos fazer pão e mais todo aquele serviço, como tu bem sabes — todos sujos e exaustos ao extremo, um calor de rachar e tudo enfumaçado.

[NOTA: Aos sábados, principalmente à tarde, havia uma preparação para o domingo. Era lavado o assoalho da casa, feita uma faxina geral na parte externa, varrido o terreiro, passada a roupa com ferro a carvão para ser usada para ir a igreja, abatidas e limpas as galinhas para o almoço de domingo, feitos um pão de ló, bolachas ou pastel para se poder oferecer a alguma eventual visita que viesse no domingo à tarde, engraxados os sapatos, trazida uma reserva de cana ou de qualquer alimento suplementar para que no domingo somente fosse colocado para o gado comer; da mesma forma era cozido um tacho de batatas suplementar para os porcos e muitas outras coisas, como a troca da roupa de cama e do banho geral de gamela ou de sauna, pois aos domingos além de todos estarem imaculadamente limpos deveriam também fazer somente o inadiável como ordenhar as vacas e alimentar os animais.]

Pensávamos que não seria possível ir para a igreja [no dia seguinte], pois com tempo limpo e o perigo de reavivar algum foco de fogo, não seria seguro que todos saíssem de casa. Mas à noite ficou nublado e pela manhã começou a chover, e assim choveu o dia inteiro, apagando tudo. Não se pode brincar “com o honorável pai fogo” [ar seenigu tevu uguni].

O Butler agora tem mais inimigos que amigos. Antes a igreja fazia mutirão para fazer derrubadas, plantar, capinar e colhia o milho — agora eles mesmo tem que fazer. Aqueles bons tempos já se foram; ninguém mais vai trabalhar e todos falam: que trabalhem eles mesmos.

O Butler mesmo declinou uma vez do cargo de pastor. Não sei de onde saiu uma conversa de que o Willis Leimam estaria vindo para cá, para que ele de medo reconsiderasse, para não perder o seu bom lugar, mas o Wilis não virá. Isto esse povo inventou, pois o Butler não quer ninguém. Ele teria dito que não falaria para nenhum outro pastor vir para cá, pois as pessoas aqui são muito pobres e não conseguem pagar adequadamente o seu salário.

O João [Frischembruder] de Riga vai ano que vem deixar o cargo de professor. O Butler então apresentou a Marta para a vaga de professora. Vamos ver se vão aceitar. Ela espera um bom salário para ficar sentada algumas horas, diante de 10 ou 15 crianças, e ensinar o ABC. Agora o João de Riga está ganhando 45$000 réis por mês, e isso para o Butler serviria muito bem.

O Butler teria também se oferecido, a alguém de maior idade que quisesse se especializar, para dar algumas horas de aula por semana. E, quanto à Marta ser professora, não sei se vai dar alguma coisa, pois ela nunca foi a escola nenhuma. Quando ela começar a dar aula eu também devo ir aprender um pouco de inglês e álgebra com a digníssima esposa do Doutor, pois outras matérias mais comuns não vale à pena. Eu no primeiro dia a submeteria a um exame, e no outro dia não precisaria mais ir.

O genro do velho Butler, o Peteris, teria ido embora, não sei para onde. Ele e a Kate viviam brigando, e chegaram a ir à justiça apresentar queixas contra a Kate e o Peter. Ganharam a questão, mas tiveram que pagar bem para a justiça, porque na realidade viviam como gato e cachorro. A Kate queria que a justiça os separasse, mas isso ela não fez. A justiça teria dito para o Peter que a Kate teria dito lá na justiça para ele ir embora. Ele pode até estar indo embora, mas depois de algum tempo ele volta e vive novamente com ela: a Kate não pode mandá-lo embora.

Então o Peteris teria vendido os porcos e bois que lhe pertenciam e tinha viajado. Dizem que o Peteris não é tão má pessoa, mas a Kate reclamava demais que ele não providenciava roupas bonitas para os filhos e não comprava pão branco para eles. Agora toda Orleans sabe que “maravilhosa” irmã tem o Butler.

Bem, agora vou começar a terminar. Quanto à tua vinda nas férias, iria trazer alegria para todos nós. Informe-se com as pessoas aí se os navios tem terceira classe. Nós aqui de navios sabemos pouco, pois estamos longe daquele açude cheio, mas você pode descobrir até quem sabe nas tuas igrejas: pode ter alguma pessoa que tenha informações sobre este assunto, e depois nos escreva. Quando receber essas notícias eu te mando o dinheiro para as passagens, pois sei que você para isso não tem.

Bem, agora chega. Vou aguardar uma longa carta, pois tens que mandar notícias novas de lá. Muitas lembranças de Papai, Mamãe, Luzija, Arthurs e

Olga

O fogo chegava até a altura das árvores mais altas | Robert Klavin a Reynaldo Purim

Invernada, 20-9-18

Querido amigo,

Sábado recebi a tua carta escrita no dia 31-8 pela qual agradeço. Estou muito satisfeito em saber que você se está saindo bem nos estudos.

A irmã Guedes, depois de longa enfermidade, separou-se dos desta terra. Quando no dia da Ascenção do Senhor estive lá, visitando, ela estava muito fraca e tão magra que parecia que a pele estava cobrindo os ossos. A fisionomia era totalmente diferente. O Guedes tinham gasto uma fortuna em remédios e médicos, mas nada disso adiantou.

Também a senhora Onofre Regis está mais doente do que nunca. Esteve com médicos de Tubarão e eles vêm às vezes visita-la em casa, e assim mesmo não consegue melhorar nada — e ela está doente há mais de 20 anos.

Quanto à nossa igreja [em Rodeio do Assucar], por enquanto não tem nada de novo, o que mais falta é um pastor. Quanto à Escola Dominical do Rio Laranjeiras, vai estável. A Maria Verginia e a Benta foram embora dali. Os netos do Caciano não vem mais para a Escola Dominical porque foram proibidos pela mãe, que tem medo dos batistas, e crêem nas doutrinas católicas e outras superstições. Ela foi fazer farinha de mandioca lá no Rio Bonito e quando voltou não mais deixou os filhos irem para a Escola Dominical.

No começo deste mês inscreveu-se um de nome Pedro Vieira. O pai dele é muito rígido em suas convicções, mas ele não se inscreveu o sem conhecimento do pai e do avó. Também uma filha daquela Maria solicitou para inscrever na Escola Dominical, então por aí você pode ver como está o trabalho da mesma no Rodeio do Assucar, que aos poucos está levando o seu objetivo em frente.

O Theodoro [Klavin] já faz tempo que foi embora; na noite de 25 passado ele chegou em São Paulo.

O tempo aqui se mantém bom e muito frio e ainda na semana passada houve geadas. Neste ano podemos observar um fenômeno inédito na região: fortes ventostrouxeram imensas nuvens negras de fumaça do alto da serra. Lá queimam os campos e os faxinais numa medida antes nunca imaginada, porque nunca as cinzas chegaram até aqui, e vindo daquela distância do alto da serra.

Na semana passada aqui em baixo da serra também queimaram descontroladamente muitas áreas de mato, capoeirões e capoeiras, fazendo um ruído medonho; à noite, apesar da fumaça, havia clarões por todo o lado. A queima é facilitada porque grande parte da vegetação das matas está totalmente queimada pela geada. O fogo era realmente apavorante, pois chegava até a altura das árvores mais altas. Fiquei imaginando que se não tivesse chovido, apagando tudo, o fogo teria chegado às nossas vizinhanças e acabado com todas as samambaias.

Mas lá nas Serras não choveu e o fogo continuou, e o forte vento trazia, além das nuvens de fumaça, um calor desagradável. Por fim lá também choveu, apagando aquele inferno, tudo voltando a normalidade.

Agora outra vez, o tempo está bom e sopra uma brisa agradável.

Terminando, receba muitas lembranças minhas e votos de bons dias. Que Deus te ajude.

Teu Roberts [Klavin]

[Escrito na lateral:]
Muito obrigado pelas lembranças recebidas do Eduardo Sahlit. Quando escreveres saúde ele por mim.

432$000 réis para os refugiados de guerra na Letônia | Olga Purim a Reynaldo Purim

[trecho de carta, provavelmente setembro de 1918]

[…] o Butlers queria estar de volta em casa no começo de agosto, mas ainda não conseguiu navio para voltar de Desterro [Florianópolis], onde teve que ficar esperando uma semana em um hotel, pagando 6$000 réis por dia; depois conseguiu um preço mais especial de 4$000 réis pela diária, e por aí você pode ver a despesa — se tiver que parar aí.

Daqueles 150$000 que a igreja pagou, ninguém passou. As aulas começaram no começo de setembro e foi só um dia, pois no outro o professor Butler já viajou para Tubarão. A partir do ano que vem a escola vai ser paga pelo governo, tendo o Butler como professor, pois ele em Desterro prestou exame de suficiência, onde aprendeu mais em brasileiro. Mas, vamos ver se tudo isso vai mesmo acontecer, pois prometer é fácil.

Na noite do domingo passado houve a “Festa da Colheita” [Festa de Ação de Graças] e também a Festa da Escola Dominical, quando foi levantada uma coleta que será mandada para o Rio [de Janeiro] para a Associação da Escolas Dominicais, como está escrito no Jornal. A importância quanto rendeu eu não sei.

Você recebe “O Baptista” [Jornal informativo da Convenção das Igrejas Batistas do Paraná/Santa Catarina]? No último número saiu uma matéria referente ao Rio Novo. Eu encomendei esse jornal, mas ainda não recebi.

Quanto à Rússia, aquilo lá está terrível. Antes do Butler viajar foi enviada a importância de 432$000 réis para os refugiados de guerra na Letônia e outros países do Báltico. Da Escola Dominical do Rodeio do Assucar, mais 32$000 réis. Na despedida do João [Frischembruder] de Riga foi conseguida mais a quantia de 87$000 réis e ainda outras ofertas de outras sociedades, cujas quantias eu não sei. Mas o que poderá fazer este dinheiro? São tantos que precisam e tudo está tão caro!

Outra coisa terrível é que o Herman [Germano] Balod ficou louco. Faz bastante tempo que ele já estava doente — não de cama, mas sim, andando por aí e dizendo bobagens. Como ninguém mandava nos empregados eles ficavam vadiando, e dívidas há bastante. Eles estavam se aprontando para mudar para ir de mudança para Porto Alegre, inclusive venderam o gado, mas daí ele começou a ficar pior e assim mesmo o pessoal lá ficou esperando que ele melhorasse. Na semana passada ele ficou completamente alucinado, querendo matar todo mundo e quebrar a casa inteira, e a família teve que chamar os soldados para levar para a cadeia, para que se acalmasse. Assim mesmo são necessárias três a quatro pessoas para dominar o homem o tempo todo. Vamos ver como vai ficar.

Bem, hoje chega. Noutra vez escrevo mais. Lembranças de todos e que te sempre vá bem.

– Olga.

Os soldados estão tocando brasileiros das terras que não compraram | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto
[Observação em português no original]

Rio Novo, 8 de setembro de 1918

Querido Reinold!!

Envio muitas lembranças. Sexta-feira, dia 6 de setembro, o Arnolds [Leiman], voltando da cidade, deixou preso, enfiado entre os sarrafos da porteira da entrada de nossa casa, um rolo de jornais; enrolada entre eles estava uma carta, pela qual agradeço. Tinha demorado mais de um mês, mas enfim chegou.

Hoje fomos nos Leimann, e a senhora Leiman também entregou uma carta escrita em 24-8-18, em brasileiro, que o próprio Arnolds tinha trazido na sexta-feira. Esta veio muito rápido. A senhora Leiman tinha ficado feliz, achando que a carta era do filho Karl, que faz muito tempo que não escreve. Mas não era.

Chegou a pegar fogo na casa dele, enquanto ele estava na festa.

Bem, agora preciso responder as duas cartas. Há três semanas escrevi uma longa carta registrada e é possível que já tenhas recebido, pois nela contei todas as novidades daqui. Das cartas sumidas nem notícia, e acho que estão perdidas para sempre.

Nós graças a Deus estamos passando bem. Ficamos muito alegres em saber que também estás passando bem. Estamos todos com saúde; ficar doente não está na moda e também por falta absoluta de tempo, pois serviço a gente tem demais.

A época do plantio chegou. A derrubada da mata daquela parte perto da casa terminamos, como já escrevi. Aproveitamos para derrubar o capoeirão que ficava junto do lado da mata e o Enoz [Ernesto Grüntal] derrubou a capoeira do lado dele, assim vai ser uma grande queimada e uma grande coivara.

Plantamos 1500 pés de cana de açúcar e 2000 de rama de mandioca. Agora estamos capinando aquela coivara do ano anterior, perto da ponte, e está quase no fim. Lá vamos plantar o milho de cedo, onde mais tarde vamos plantar [intercalado ou consorciado] feijão.

Outras coisas não temos começado ainda a plantar, porque o tempo está tão seco e a terra tão dura que se torna difícil fazer uma simples cova. Já vai fazer um mês que não chove uma chuva de verdade. Fica nublado freqüentemente, mas não chove nada e quando começa já para. Todo o capim e as samambaias estão totalmente secos. Se por acaso pegar fogo, parece pólvora; se ainda houver vento, apagar nem pensar. Na nossa propriedade não aconteceu de pegar fogo em nada, mas no domingo passado teve outra vez uma tempestade de fogo.

A atmosfera está extremamente seca, esfumaçada e um clima pesado. Soprava aquele vento quente do lado da serra e se aprontava para uma tempestade com ventania e trovoadas. Quando estávamos voltando da igreja [na casa dos Leiman] estava queimando alguma coisa lá para os lado do Rodeio das Antas, mas parecia muito longe — e também estavam queimando as matas dos Klavin. Mas, quando chegamos na altura dos Grunski o vento estava trazendo fumaça e um calor que parecia uma sauna.

Mais tarde, quando escureceu, roncava trovoada por todos os lados e o vento parou, e parecia que fosse cair aquela tormenta de chuva. A noite estava por demais escura. Era a noite em que a Igreja do Rio Novo estava festejando a Festa da Colheita [Ação de graças], e as pessoas iam descendo como que seguindo um fio, pois não se enxergava absolutamente nada. A chuva começou, mas logo parou. Durante o anoitecer o morro dos Leepkaln estava já um pouco iluminado pelo fogo, mas lá pelas dez ou onze horas ficou tão iluminado que parecia que o fogo estivesse aí mais perto. Voltou soprar um vento forte que trazia redemoinhos de fumaça, e a trovoada continuando.

O pessoal que estava na Igreja do Rio Novo passava correndo para as suas casas. Aquele fogaréu era nas samambaias do João Leepkaln, e daí subiu para as colônias do velho Indrikson, depois para a do Grunski.

O povo que estava tentando apagar gritava e urrava, alertando e tentando flanquear a frente de fogo. Mais tarde começou a chover e apagou tudo, e se não fosse assim não sei onde teria terminado.

Queimou a maior parte das terras do Leepkaln e chegou mesmo a pegar fogo na casa dele, enquanto ele estava na festa, mas aí os vizinhos e outras pessoas conseguiram apagar.

A partir de agora se o governo descobrir quem são as pessoas que põem fogo por aí, é cadeia na certa — ou terão que pagar pesadas multas. Neste caso foram alguns rapazes brasileiros que resolveram por fogo nas samambaias secas. Agora com estas ameaças do governo acho que eles vão ficar mais temerosos.

Como já escrevi na outra carta, passamos pelos tempos [das medições] dos agrimensores: agora está tudo medido e pago. Este ano foi tudo bem, porque não tivemos que pagar ninguém para ajudar. Pessoas para ajudar [voluntariamente] havia bastante: dos Karkle o Velho e o Karlis, o Enoz, Papai e o Puisse e mais o Joaquim Flontim, que agora mora na casa do velho Balod. Agora ele comprou o terreno que fica perto daquele do Frischembruder, portanto faz divisa com o nosso: agora é nosso vizinho. Por isso mesmo ele ajudou a medir, porque assim ficou sabendo direito onde estão as extremas [divisas]. Ele mesmo é brasileiro, mas é casado com uma alemã de Orleans, filha do velho Jung.

Do lado dos agrimensores eram quatro ao todo: três brasileiros e o Hermans Hilberts, que é o responsável, pois ele dá o início e deixa para os outros o trabalho de abrir a picada, assentar os aparelhos e puxar as correntes. Ele fica só com os cálculos.

O pagamento também não é por dia e sim por metro. Por mil metros o preço é 10$000 réis; se medem bastante ganham bastante, e se medem menos ganham menos. Se passarem o dia inteiro e nada medirem, não será pago nada.

O pagamento de nossa parte foi a meia com o Karklis, e a nossa parte deu 12$600 Réis. Para o diretor [da Empresa Colonizadora Grão Pará] pagamos o que faltava para a quitação final, que era 116$000 réis.

Agora as terras estão muito caras, 0$35 a braça [quadrada], e para aqueles que não pagaram regularmente todo ano foram estabelecidos novos preços. Já foram os tempos em que cada um fazia o que queria. Agora se um não consegue pagar, é passado para outro que quer trabalhar. Este ano novamente os soldados estão tocando brasileiros das terras que não compraram e ficam acocorados nas suas benfeitorias [palavra escrita em português no original].

A senhora Karkle teve a honra de engordar os agrimensores. Ela dava o “broukast” [café da manhã reforçado] e o Karlis e o Ernests levavam o “pusdienu” [“janta” do meio-dia] para o nosso rancho na Bukuvina, onde era ponto do almoço. Para nós sobrou a “vakarinhas” [ceia da noite] e o pernoite, e algumas vezes o café da manhã.

Ocorreram diversas mudanças em nossa colônia. O magnífico Firmanis Peteris logo vem para morar no fim da estrada do Grikis, naquela capoeira do Limors, e vai construir uma casa nova. A madeira já trouxe e logo vai começar a construção.

Também o genro do velho Geda, com sua Leni, foram para a sua propriedade nos fundos, e lá moram como se fossem realmente brasileiros.

Também a senhora Sanerip veio de Campinas [Araranguá] para morar aqui. Ela comprou dois terrenos do Bekeris, e assim uma família leta a mais.

Mas também o Matiss e o pessoal dele foram para São Paulo. E ainda o Juris Klavin foi para Nova Odessa, com aqueles imensos salários ganhar!

Agora as passagens de navio estão extremamente caras, porque os navios que saem de Imbituba tem somente primeira classe, e esta dizem que custa mais de 90$000.

Você durante as férias virá para casa? Se outros navios tivessem a terceira classe, como antigamente, por 50$000 Réis, até não custaria tanto. Mas, agora quase 200$000 Réis de ida e volta e mais a parte de trem.

Você diz que vai procurar lugar para ficar, mas será que vais encontrar? E se conseguir um lugar para ficar vai precisar ganhar para o sustento; será que vale a pena? O Ludis tem escrito e convidado para passar as férias com ele? Quem sabe fosse mais fácil. O que o Victor te escreve? Poderias escrever mais sobre os parentes de São Paulo.

Tens recebido cartas do Arthur Leiman? Na última ele reclamava que fazia seis meses que estava prá lá [na Argentina] e não tinha recebido nenhuma carta dos rapazes do Klavin. E do Rio Novo também nada sabia. Tu sabes por onde anda o Karlis Salit e se está vivo? O pessoal de Rio Novo alardeava que ele estava preso ou enforcado. Certo ninguém sabe. Tens escrito para o Karlis Leiman? A senhora Leiman disse que você teria escrito para ele diversas vezes e, como não tinha recebido respostas, deixara de escrever.

Os Leiman estão bem e vivem como sempre. Construíram novo paiol e até Papai também foi ajudar a levantar. Agora o Robert [Klavin] às quartas-feiras nos ensina a cantar, mas ele não tem a desenvoltura do Arthur [Leiman].

Desta vez chega, noutra vez tem mais. Esperaremos de você longas cartas.

Ainda muitas e amáveis lembranças do Papai, Mamãe, Luzija e do Arthur. Fico sua resposta aguardando,

Olga