O povo desceu amassando o grande lamaçal em que as estradas…| De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1924

Rodeio do Assucar 2 de julho 1924
Querido Reini: Saudações!
Recebi a tua primeira carta escrita para mim este ano nas Oitavas da Festa de Verão. Obrigado! Até que enfim você lembrou de escrever. Eu sempre esperava que você escrevesse primeiro, pois agora você tem uma máquina de escrever. E escrever a máquina vai muito mais rápido. Poderia escrever e mandar uma carta todo dia. Parece que esta máquina não é tão útil porquê tão poucas cartas escreve.
Você pede que eu escreva bastante, mas sobre o que eu vou escrever, Sobre porcos e vacas você não tem nenhum interesse e o que acontece fora de casa a Luzija diz que tem contado tudo e que eu nem preciso escrever que ela já contou tudo. Se eu escrever tudo de novo você vai ter que ler notícias velhas. No dia 24 dia de São João teve piquenique da Escola Dominical na casa da Kate, mas não posso contar muito porquê eu não fui, mas o tempo estava muito bom. E na Quarta feira passada a noite teve a festa de recepção do Stroberg que até que enfim chegou.
O povo desceu amassando um grande lamaçal em que as estradas tinham se transformado. Cantaram e saudaram. Seria interessante ele saber que no meio destas pessoas logo poderão estar algumas reclamando do tanto que fizeram por ele na recepção e…
O tempo está novamente bom, mas esteve mais de uma semana continuamente chovendo e nublado e então as estradas ficaram um lamaçal só. Mas como a chuva era contínua, mas não forte, as águas dos rios e riachos não aumentaram e agora com o tempo melhor já voltaram ao normal de tempo de seca então a fabricação de farinha nem pensar.
As geadas foram grandes, mas com o tempo esquentando um pouco já começou a crescer grama outra vez para o gado.
O milho estará logo todo colhido, quase não temos lugar para guardar as espigas pequenas destinadas para alimento das vacas.
Naquela coivara onde fostes ajudar a capinar perto da divisa do Vitor onde plantamos 2 quartas e 3 litros deu somente 4 carradas, já aquela roça perto dos Klavim, ai sim as espigas eram bem maiores, mas não o tamanho de espigas como deram no ano passado. Como o milho deu ruim em toda a parte o preço já está a 16$000 o saco e o feijão a 30$000 o saco.
Para nós graças a Deus o milho vai ser suficiente para fazer o pão até a outra colheita. Agora para os animais não será possível dar tanto quanto nos outros anos, mas em compensação está sobrando mandioca para dar para eles.
Então de um jeito ou de outro vamos sobreviver. Vai ser difícil para aqueles que nem isso tem. E dinheiro os brasileiros e os italianos não têm para comprar.—
Aqueles remédios que você mandou pelo Victor Staviarski ainda não foram usados. E não sei quanto bons eles serão. Agora há pouco tempo chegou na farmácia um medicamento que foi prescrito pelo Diretor. [Etyiene] Cada vidro custa 15$000 e eu já estou tomando, não senti nenhuma melhora, mas não quero misturar esta com aquelas que você mandou. A perna já não dói e nem queima, mas não posso levantar nada pesado nem carregar, pois canso logo e o peito [Pakrutes= Pit of the stomach. Pakrutes sapes= Epigastric pain . Acho que seja dor do esôfago ou hérnia do hiato] incha e dói.
Bem hoje já chega, eu não tenho máquina de escrever e nem mais tempo, também não tenho mais nada para escrever.
Oh. Ainda a senhora Klavim mandou muitas lembranças e agradecer aqueles remédios que você trouxe na primeira vez para ela. Com eles, ela está ficando sã. Outros remédios ela deixou de tomar. Fora daquele que você trouxe ela toma chá de Anzerina.
Estas, o Roberts, trouxe da Serra, pois lá diz que crescem muito. Agora ela pode vir a cavalo para a Igreja tranqüilamente, pois ela se sente saudável e esperta e em morrer não pensa mais.
Escrito na lateral:
Também a pequena Lida [Lídia Klavin] ouviu a mãe dela mandar lembranças para você então ela também disse que queria mandar muitas lembranças para o Reinhold para que ele venha logo e vá passear uns dias na casa deles. [Dos Klavin]
Lembranças da Olga.

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Depoimento de J. A. Zanerip | Manas atminas no Rio Novas laiku dzivi

Terceira Parte

MEMÓRIAS DE MINHA VIDA EM RIO NOVO

Agora na nova vida em Rio Laranjeiras. Gostei muito da troca do Rio Mãe Luzia pelo Rio Laranjeiras. O rio Mãe Luzia era um rio largo e profundo. O rio Laranjeiras era raso e suas águas cristalinas e bem aquecidas, porque corria longos trechos entre pedras bem lavadas por grandes enchentes.

Agora há poucos anos viajei de Tubarão a Lauro Müller para subir aquela serra (Rio do Rastro). Ao passar por Orleans subimos até o lugar onde vivi na minha adolescência, isto é, nas margens do Rio Laranjeiras. Fiquei pasmado vendo o meu bem lembrado rio Laranjeiras, sempre cheio de muita água, agora virado num pequeno córrego! Isto talvez porque naqueles tempos chovia mais e as raízes da mata virgem retinham o escoamento rápido, conservando assim o rio sempre com bastante água.

No meu tempo esse rio era um paraíso da criançada. Era muito piscoso. Passei muitos dias pescando e me divertindo com os colegas. Será que este mundinho está secando mesmo?

A minha infância não foi nada fácil, pois já desde pequeno ia junto com a mamãe ajudar a limpar as roças; quando chegou o tempo de ir a escola as condições não permitiam ir. Minhas irmãs, sendo meninas, iam à escola, e à noite eu tinha que aprender — isto é, estudar as lições que as irmãs tinham aprendido na escola.

Mais tarde, quando fui à escola, meu primeiro professor foi o Sr. Treimanis, mas com a saída deste professor houve um longo período sem aulas.

As idas para a escola às vezes eram terríveis, principalmente no inverno. A estrada ficava branca de geada e a gente não tinha dinheiro para comprar sapatos, assim tinha que enfrentar a estrada com o pé no chão mesmo. Haviam ocasiões em que nem sapatos poderiam ser utilizados, com a grossa camada de lama que era formada pelas rodas dos carros de boi — principalmente quando chovia muito, — agravada pela passagem das tropas de burros e mulas que levavam mantimentos para os habitantes da serra. Essa conjunção de fatores tornava as precárias estradas intransitáveis.

Quem realmente poderia gostar dessa lamaceira eram os porcos que eram trazidos em manadas daquelas imensas distâncias, isto é mais de cinquenta quilômetros — de além das montanhas da serra, onde se situavam os grandes pinheirais e onde eram criados, tendo depois ainda a descida dos contrafortes da serra quase a pique. Hoje pode parecer inacreditável. Mas nós, que vimos com os próprios olhos, esperamos que aceitem essas coisas que hoje parecem totalmente improváveis ou impossíveis.

Tempos depois, agora já com uma irmã casada, um dia resolvemos fazer um mutirão para cortar cana de açúcar. Um futuro cunhado meu foi também. Voltando para casa o tempo fechou e começou a garoar, e a escuridão se tornou completa.

O Ernesto Karklis estava de namoro com a minha irmã Alvina, que tinha vindo a cavalo, mas para acompanhar o seu broto ele deu o cavalo para eu ir montado. Quando eu ia indo passando onde havia uma trilha por uma capoeira que naqueles dias tinha sido roçada e derrubada, e pela qual o cavalo estava acostumado a passar, o animal entrou derrubada adentro. Porém, como estava escuro demais e sem nenhum ponto de referência, fiquei sem saber como voltar. Resolvi esperar.

Quando ouvi vozes da turma conversando dei umas chicotadas no cavalo e voltei ao caminho. Apesar de não estar tão perto assim, a turma começou a gritar apavorada. Ao chegar a uma encruzilhada onde o Ernesto costumava se separar, fiquei esperando por eles. Quando a turma chegou, contaram que um bicho muito grande os tinha atacado, lá próximo ao toco da “maria mole” [NOTA: ombu, Phitolacca dioica, árvore chamada de “maria mole” por causa do tronco esponjoso e macio], e que tinham levado um tremendo susto. Logo imaginei quem deveria ter sido o bicho enorme: não poderia ser outro senão eu com o bandido do cavalo. Não contei nada com medo de apanhar, pois realmente não queria ter assustado ninguém.

Só bastante tempo depois, quando peguei uma vez carona no carro de boi do colega Adolfo Burmeister, e ao passar no famoso lugar dos bichos, no toco da “maria mole” com os seus lindos brotos, contei ao Adolfo que não acreditava nessa história de bichos e contei o que acontecera comigo e com aquele cavalo naquela noite.

O Adolfo começou a rir, não querendo acreditar e achando que era minha invenção, mas consegui convencê-lo de que era a pura verdade. Ai o Adolfo fez me prometer que não contaria nada a ninguém (e prometi) e contou-me outro fato sobre esse mesmo local.

Disse ele que uma vez tinha se atrasado na roça e já no crepúsculo da noite viu o Jacob Karklis vindo pelo caminho. Rapidamente ele, o Adolfo, saiu do caminho e entrou no meio da touceira de brotos do toco da “maria mole”. Quando o Jacob ia passando ele deu um ronco e saiu pulando abraçado aos brotos.

Pobre do Jacob! Jogou uma pedra que trazia na mão e correu como um doido, chegando em casa completamente exausto e contando que tinha acabado de escapar de um bicho terrível. Como conseqüência do susto adoeceu por um bom tempo.

Começou a circular o boato de que outras pessoas também tinham visto o bicho. Até um dia uma turma de italianos decidiu ajudar o pessoal na grande caçada ao lendário bicho. É claro que não acharam nada. Mas como esses caçadores podiam imaginar que esses bichos andam de carro de boi? Tudo mentira, fruto da fraqueza e do medo.

* * *

[continua…]

Depoimento de J. A. Zanerip | Lua de mel

Segunda parte

Agora, após a tempestade, cada um procurou o seu ninho. Os alemães instalaram as suas vendas no outro lado do rio Mãe Luzia, por sentirem-se mais protegidos dos ataques dos bugres, como eram chamados os índios.

Os Zanerip, sendo pescadores e construtores de suas próprias embarcações na Letônia, no mar Báltico, e muito acostumados a lidar com madeira, construíram uma ótima lancha para atravessar o rio e ser usada pelas pessoas que iam fazer compras nas vendas dos alemães do outro lado do rio. Mais tarde construíram uma balsa para permitir a passagem de carroças de quatro rodas puxadas por cavalos, carregadas de mantimentos, muito usadas pelos alemães, e tudo de uma só vez.

Assim a vida corria monótona; menos mal, pois recebiam e faziam muitas visitas aos letos que ficaram morando em Mãe Luzia. Como esses eram todos batistas, meus pais quiseram ingressar também na igreja batista. Mas havia um problema: eles só eram casados na igreja luterana, o que naquelas épocas era válido na Europa, mas não diante das leis nacionais do Brasil.

A igreja batista achou que as leis brasileiras deviam ser respeitadas e que era necessário regularizar a situação. Desse modo foi realizado um casamento um tanto curioso, os Zanerip fazendo sua “lua de mel” já com sete pimpolhos, faltando somente a caçulinha.

Depois de tudo posto em ordem, faleceu o nosso pai, desnorteando a nossa vida.

Agora os filhos mais velhos, cansados do isolamento dos outros, do nosso povo, resolveram vender tudo e procurar um terreno mais próximo ao Rio Novo. Acharam um terreno bastante montanhoso, mas com uma várzea muito fértil, junto às barrancas do Rio Laranjeiras.

Depois foi a vez da vinda da mudança, que veio de carro de boi. Levou dois dias e uma noite para fazer o percurso de Araranguá até o Rio Laranjeiras. As terras compradas pela minha mãe, Eva Grimberg Zanerip, foram adquiridas em prestações [anuais] de R$200.00 [duzentos mil reis], e já eram de segunda mão.

Aqui terminam as histórias contadas pelos meus familiares e não vividas por mim. Agora a nova vida em Rio Laranjeiras.

* * *

[continua…]