Mas em vez de 600 homens apareceram 6 “manecos” pela estrada da Serra. De Artur Purim para Reynaldo Purim – 1927 –

Ano de 1927
Rodeio do Assucar 13-1-27.
Querido Irmão
Primeiramente envio lembranças e felicitações pelo seu aniversário, se bem que o seu aniversário já passou, mas não tem importância, mas sim que os cumprimentos cheguem ai.

Recebi a tua carta que fala de manteiga, leite e espigas de milho já antes do Natal. Por ela muito obrigado. Mas queria que passassem as Festas para que depois tivesse mais o que escrever e como as Festas já estão longe tenho que me agarrar e escrever enquanto não esqueço.
No Primeiro Natal [Primeiro dia de Natal era o dia 25 e o dia 26 eram as Oitavas ou o segundo Natal] teve Festa com pinheirinho iluminado e naquela noite o tempo estava maravilhoso e gente que raramente tanta foi vista por ai. Também veio um automóvel de Orleans que deixou profunda impressão. Agora através das estradas de Rio Novo frequentemente disparam vários automóveis. Ainda no domingo passado subiu um automóvel pelo Rio Novo e foi até o Barracão e mais tarde voltou. Agora em Orleans existem 3 automóveis.

O programa da festa não foi muito extenso, mas foi muito bonito e interessante. No segundo dia de Natal eu não fui à Igreja. Eu e o Roberto [Klavin] fomos à Grão Pará dirigir um culto lá. A mocidade da Igreja todos os últimos domingos do mês vão ajudar nos Cultos lá. Agora lá está morando o Avelino e a velha senhora do Caciano. O velho Caciano separou-se dela e ajuntou-se com outra e está morando em Palmeiras [Também distrito de Orleans e Estação da Estrada de Ferro D. Tereza Cristina e hoje Pindotiba].

O pessoal de Grão Pará manda muitas lembranças para você e pedem que quando você voltar não se esqueça de visitá-los. Lá em Grão Pará os primeiros cultos foram muito bem frequentados. E é muito natural que em qualquer lugar onde o Evangelho é anunciado lá também o mal não fica em paz. Por isso no princípio de dezembro apareceu um jesuíta nômade que quando soube que nós fomos lá pregar ele separou uma semana de missas onde a nós disparava torrentes de maldições e ainda incluindo a todos que foram ouvir estas pregações do diabo que eram as nossas. Mas como não notamos nenhuma diferença depois destes anátemas e nada sentimos então na próxima vez nós iremos com mais entusiasmo e também mais pessoas.

Agora que tu já sabes como nós passamos o Natal gostaríamos de saber como você passou o Natal? Tinha Árvore de Natal ou não?

Alguns dias depois das Festas começamos a ouvir rumores de revolução e que nas Serras estão bandos de anarquistas, mas que brevemente vão descer para Serra Abaixo. Estas notícias deixaram todo povo alvoroçado. O assombro de uma invasão iminente foi tão assustador que por dias não se via pessoa alguma nas estradas. Outros diziam que nas Minas [Lauro Müller] já tinham descido 600 homens e logo iriam continuar para Orleans e outros lugares. Mas em vez dos 600 homens apareceram 6 “manecos” pela estrada da Serra. Mas assim mesmo foram solicitadas ao governo tropas com fuzis e metralhadoras. Dizem que estes revoltosos são da Bahia. Que nas Serras ainda tem muitos revolucionários. Até o pessoal de nossa comunidade andava tão assustada que muitos iam dormir no mato. A senhora Paegle acompanhada pelo seu velhinho passava as noites embrulhados em cobertores no pasto encostados numa grande pedra etc.
Desta vez penso que chega de escrever, pois a Lucija também promete escrever e assim você terá muitas notícias de nossa parte. Você possivelmente não está entendendo por que desta vez eu estou escrevendo a lápis. Pois é porque as ratazanas derrubaram o tinteiro com toda tinta. Elas talvez sejam quase a “última praga em casa”. Em toda minha vida eu não tinha visto tantas ratazanas e guaiquicas como este ano aqui em casa..
Com muitas lembranças. APurim.

[Saber com os historiadores que movimento revolucionário foi este]

…pois durante o dia temos que trabalhar e durante a noite também…| De Arthur Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

[carta de de Otto Purim (Arthur) sem data, mas pelo contexto deduz-se ter sido escrita neste período]

Querido maninho! Saudações.

A tua pequena cartinha recebi há mais de duas semanas, mas não tinha tempo para responder, pois durante o dia temos que trabalhar e durante a noite também estive ocupado, pois todas semanas várias noites tinha que ir a Igreja para várias atividades e nas outras noites o sono vem forte: Mas tenho que escrever porque devedor eu não quero ficar.

Agora nós estamos passando bem, mas o tempo está muito frio. Hoje deu a primeira geada do ano, não foi das fortes, mas foi uma geada. Há umas duas semanas atrás choveu forte vários dias sem parar, mas agora está limpo, mas bastante frio, mas temos trabalhar todos os dias apesar do grande frio.. Nós esta semana vamos começar a fazer a farinha de mandioca por que já é tempo e se deixar para mais depois é pior e por isso temos que nos apressar. Você não quer vir ajudar? Este ano temos muita mandioca para fazer farinha e calculamos umas 50 sacas e então pode vir sem medo que haverá muito que fazer.

De modo geral vai tudo na mesma coisa e nada interessante tem acontecido e aquela miudeza não vale à pena escrever. No domingo passado foi comemorada a “Festa do Verão” [Festa do Verão (Pentecostes) é uma herança dos costumes da Letônia que fica no Hemisfério Setentrional e lá nesta época é verão] e nas Oitavas desta foi comemorada a Festa da Música da Mocidade. Foi muito bonita. Foram apresentados 30 números entre hinos, músicas e diversas mensagens interessantes. Apresentou-se o Coro da Mocidade, o Coro da Igreja e também solos, duetos, quartetos, quintetos e sextetos e no final da Festa todo grupo de participantes foi fotografado. Hoje chega. Se você tivesse mandado uma carta mais longa,, então, eu escreveria mais. Devemos viver de conformidade com as Escrituras que diz se você quer que eu escreva uma carta longa, escreva você primeiro.

Bem hoje chega mesmo.

Com muitas lembranças.
A. Purim

…mas receber alguma carta não tenho tido este prazer. De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

Rio Novo 30 de maio de 1926

Querido maninho.

Embora de você nada tenha recebido, apesar de sempre estar aguardando todos os dias e assim passam-se as semanas, mas receber alguma carta não tenho tido este prazer. Não sei o que tenha acontecido por que não escreve mais. Pode ser que esteja doente, pois em uma das cartas você menciona que está muito cansado e que seria possível vir o descanso na noite eterna, ou antes, e isso me deixou muito preocupada. Pois agora por qualquer coisa fico super nervosa e abalada. Fico pensando porque ele não escreve sobre a nova fase de sua vida. Pode ser que nesta fase esteja passando necessidades e ainda devido ao excesso de trabalho ou será que existe algum outro motivo. Antigamente você escrevia longas cartas e agora quando escreve são cartas curtas. Ou nada tens mais para contar. Para nós você pode contar tudo. Por que ficar tão reservado se nós somos da mesma família irmãos e irmãs.

Nós aqui vamos levando a vida de sempre, serviço à gente tem demais e nunca conseguimos fazer tudo. Como pessoas somos poucas e trabalhos demais e assim sempre estamos sobrecarregados de serviço e temos que trabalhar demais. A Olga nada pode ajudar, não está de cama, mas melhor não fica.

As Festas passaram já há bastante tempo, o tempo estava bom, se bem que pela manhã começou a chover um pouquinho, mas depois melhorou e saiu um belo sol. O programa foi longo e variado, mais hinos e músicas. Foram esperados visitantes de outras localidades, mas não veio ninguém.
O convite foi feito através da publicação “Zelhmalla Seedos” [“Flores a Beira do Caminho”], mas não tenho certeza se foi publicado, mas sei que o dinheiro da assinatura e também o correspondente ao valor do anúncio foram entregues pelo João Zeeberg para a Selma [Klavin] para que a mesma entregasse a pessoa responsável lá no Rio de Janeiro. Ficou bem claro que o dinheiro era também para o convite, mas agora surgem dúvidas se mesmo a Selma entregou e porque ninguém recebeu este ano este jornal e quem sabe tenha terminado a sua vida de publicação. Se isto aconteceu é deveras lamentável, pois a Kate contou que no Seminário este ano são 24 os alunos letos. São tantos mesmo?

Então agora acho que já escrevi bastante e é bastante tarde. Hoje à noite estivemos na Igreja e teve aquele programa da Noite de apresentações diversas da Mocidade. Foi muito interessante o programa com hinos, mensagens, poesias etc. foi muito agradável para ouvir e meditar. Venha você também ouvir e ver como o trabalho é harmonioso quando todos componentes escalados colaboram e apresentam um trabalho muito bonito.

Hoje na Igreja foi apresentado o novo casal de noivos: A Natalia Felberg com o Eduardo Karklim.

Muitas lembranças de todos de casa e vou ficar aqui esperando uma longa carta tua.

Lucija

PS – Gostaria de saber se as cartas minhas enviadas em 16 de abril e 7 de maio tu já recebestes.

Aqueles remédios para a Olga já recebemos faz tempo…| De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

Rio Novo 8 de abril

Querido maninho! Saudações!!

Recebi a tua carta escrita em 15 de março no dia 1o. de Abril pela qual agradeço muito. Bem agora não quero me demorar em responder e nem me desculpar como você tem feito. Eu provavelmente tenha também tenha seguir ao seu exemplo e responder as cartas semanas depois. Você diz que não consegue tempo para escrever imaginemos nós aqui. Você não conhece ou já esqueceu de nossa vida atropelada aqui e tudo parece estranho. Também não tenho tempo de escrever, pois serviço tenho em toda parte e tanto que não consigo dar conta. Tenho ir de uma casa para outra e tão exausta que não tenho nenhuma vontade de ir para cá e para lá, tenho até tonteiras e a minha cabeça fica zonza, mas tenho que enfrentar sempre, pois não tem outra pessoa que os façam. E certo que não tenho estes trabalhos de ir fazer visitas e passeios outros.

O tempo agora está quente e chuvoso, chove todo dia, ronca trovoada e pela manhã um sol causticante. No mês passado teve uma seca tão forte que até começou secar os pastos, mas agora chove todo dia.

A festa do Aniversário da Igreja [Dia 20 de março] faz tempo que passou. O dia estava muito quente. A festa foi dirigida pelo Oskar[Oscar Karp ]. O programa foi bastante longo, foram apresentados belos hinos, poesias e mensagens. Também muitas cartas e telegramas de outras Igrejas e outros lugares. Quando terminou a Festa e o povo, ia embora caiu um grande temporal, mas no outro dia já estava tempo bom.
A Páscoa também já passou, desta vez a chuva começou já na quarta-feira e choveu durante todas as Festas. Vieram visitas de Mãe Luzia os da família Klava e a Selma Anderman. Eles saíram com uma carroça com cavalos de lá de Mãe Luzia. Vinha o Zigsmundo [Andermann] e sua esposa e também a mãe dele. Eles tiveram que voltar de Urussanga porquê a estrada estava molhada e tão lamacenta que os cavalos não agüentaram. Então estes Klavas e a Selma Anderman vieram a pé de Urussanga para cá.

A União da Mocidade vai bastante animada, o Alex [Alexandre Klavin] um dirigente muito operoso e muito bom líder. As noites organiza programas de apresentações, dividiu os membros ativos em 4 grupos e cada um deles tem na sua vez ir à frente e fazer os seus programas. Também existem os Estudos Bíblicos e quem dirige é o Alex. Agora estamos estudando a Terceira, parte do “Manual Normal”. Logo o Coro Jovem deverá começar os ensaios para as Oitavas de Pentecostes, pois este dia está reservado para os Jovens. Você também poderia vir e também trazer a sua contribuição em hinos.

Aqueles remédios para a Olga já recebemos faz bastante tempo, por eles muito obrigado. Agora não podemos pagar, mas quando vieres para, ai sim. É uma pena que não serviram. Também não fizemos nenhuma pesquisa maior se bem eu queria ir falar com o médico ou com o farmacêutico, mas a Mamma não quis e disse que era a mesma doença do velho Stroberg e ele ficou bom. Mas só agora quando fomos ao farmacêutico ele disse que não era o mesmo mal que teve o Stroberg. O dele tinha sido causado por uma mosca que têm muitas em Varpa. Ele receitou para a Olga outros remédios e compramos ali mesmo. Ela agora está morando lá em Orleans com os Grïkis e o farmacêutico fará avaliações diárias. Vamos ver se vai adiantar.

Bem agora vou terminar, seria muito bom que você escrevesse cartas tão longas. Agora vou aguardar uma longa e minuciosa carta sua. Escreva sobre sua vida, onde moras e quanto ganhas. Para nos você sabe que pode contar.

Lembranças de todos. Pode ser que a Olga ainda te escreva
Lúcia

Primeiramente os nossos votos de um Feliz Ano Novo …| De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1925 –

Ano de 1925

Rodeio do Assucar 3-1-25

Querido Reini! Saudações!

Primeiramente os nossos votos de um Feliz Ano Novo e também muitas felicidades pelo seu aniversário, então pensei que precisava mandar um cartão de felicitações, mas depois refleti e cheguei a conclusão que você sendo um homem tão importante, o que iria fazer com um cartão. Também nos nossos aniversários e dias dos nomes que você nem lembrar, lembra.

A tua carta escrita, melhor datilografada no dia 8 de dezembro recebi na semana anterior as Festas do Natal. Obrigada! Desta vez você foi muito caprichoso e escreveu em seguida. Aqui não dá para responder tão rápido, pois tenho que esperar acumular as notícias para então poder te escrever. Pensava que depois de ter passado todas as Festas teria muita coisa para escrever.

Mas se você se lembrar, foi igual ao Natal do ano passado. A diferença foi que no primeiro dia da Festa [O primeiro dia era sempre o dia 25 de dezembro] depois do meio dia deu um forte temporal de chuva e um pouco de granizo. Mas à tardinha passou e podemos ir para ver o pinheirinho, somente a estrada estava muito mole. [A chuva tornava o barro vermelho mole e pegajoso] Apesar disso tinha muita gente. A festa foi dirigida pelo Strobergs. As crianças [O Natal era uma Festa dirigida pelo pessoal da Escola Dominical e a própria Escola Dominical era considerada uma escola para crianças] apresentaram poesias, hinos e Representações e tudo transcorreu muito bem.

Na Noite do Ano Velho [Noite de Vigília] foi uma noite de apresentações sob responsabilidade dos Jovens e a espera pelo Novo Ano. Já na manhã do Ano Novo houve uma Festa de Missões e esta também foi muito bonita e também tinha muita gente. O tempo estava bom e seco e quente. Muitas poesias, hinos pelo coro e também muitos quartetos e a prédica do Karkle como acontece todo ano. É provável que sobre as Festas a Luzija já tenha escrito mais amiúde, para tanto não vale a pena. No Dia da Estrela [Dia dos Magos – 6 de janeiro] a Escola dominical está organizando um piquenique na casa dos Klavim.

A Selma da Kate [ Selma Klavin ] chegou de viagem[ do Rio de Janeiro ] totalmente abatida e cansada de tanto estudar, nas outras vezes era alegre e extrovertida e agora já não sabe mais ser assim. Eu pensava mesmo que ela fosse a frente em alguma ocasião e pedisse a palavra para contar algo de lá, mas até agora não aconteceu.

Por que vocês não nunca autorizam o João Klava a sair para vir para casa? Eu faz tempo que ouvia dizer que ele viria, mas até agora nada. Ele não pôde vir porquê, porquê ele é o diretor da Escola, ou substituto dele e por isso não pode viajar e ainda no começo de dezembro teve que fazer um curso especial de aperfeiçoamento e assim este ano teve que ficar.

A Sylvia Karklim e o Waldi chegaram de São Paulo de passeio aqui.

No Domingo passado recebi uma pequena carta da Lilija.[Lilija Purens]Eu tinha escrito para ela reclamando por que ela não me escreve e perguntando se eles ficaram orgulhosos morando na nova fazenda então ela respondeu que não tinha recebido as cartas minhas cartas anteriores e nada mais atrapalhou a escrita senão a preguiça e ninguém deles não escreveu para ninguém. Diz que o tempo estava muito seco, mas agora já está chovendo. Também de você eles receberam uma carta e a qual ainda não responderam.

Aqui as chuvas tem sido ainda poucas, Antes das Festas, ai sim chovia, mas desde aqueles dias tem estado muito quente e um vento seco que resseca tudo. Ontem à noite sim, roncou trovoada e formaram-se muitas nuvens, mas logo tudo se desvaneceu. Hoje amanheceu limpo e no meio dia estava marcando 40 graus C. no sol. Pela impressão que as lavouras nos dão são desanimadoras. As roças estão completamente estorricadas e não sei como vai ser com o pão de cada dia. Nós temos a nossa reserva, então com o pão realmente não nos preocupa, mas muitos não tem. Muitos colheram pouco e porquê o preço estava muito bom venderam tudo e agora a fome. Tudo está caro e às vezes nem tem para comprar. Os Letos não tem problema de passar fome, mas os Brasileiros e os Italianos não tem o que comer então andando pelas estradas e roubando. Se alguém tem feijão ou batatas em roças a beira de estradas, elas desaparecem. Trabalhar eles não querem, se não pagarem 3$ por dia e mais a comida, então eles dizem que é melhor morrer de fome, do que fazer os letos ainda mais ricos.

A Arthur diz que se você escrever então ai ele também vai escrever. Ele teria o que escrever a semana inteira. No mês passado foram tantos os acontecimentos que você não poderia imaginar.

Lembranças da Olga.

…eu sei que estou gastando querosene e este está muito caro… De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1924 –

Rio Novo 27 de agosto

Querido irmão! Saudações!!
Hoje à noite eu fui a Igreja onde recebi a tua carta escrita no dia 14 de agosto e por ela muito obrigada. Eu faz tempo que estava aguardando e agora que eu recebi tantas novas notícias, por isso também vou começar a responder e pode ser que amanhã à noite eu termine, pois estou com muita coisa na cabeça para te escrever, apesar de que agora é tarde e eu não esteja atrapalhando ninguém eu sei que estou gastando querosene e este é muito caro e por isso não posso fazer tudo o que quero.

Nós graças ao bom Deus estamos passando bem. Somente está muito frio e seco. Na semana passada estava um pouco mais quente e ficou nublado, pensei que era a chuva que estivesse chegando, mas caíram algumas gotas esparsas e agora está novamente tudo seco e todas as manhãs amanhece branco de geada, apesar de estarmos no final de agosto ainda não esquentou nada. Agora na roça já começamos a plantar milho e já plantamos mais de uma quarta [de alqueire] de semente, também já plantamos mandioca e tudo está capinado, a terra limpa pronta para se plantada só aguardando a chuva. O açúcar também já fizemos e este ano deu muito pouco porque as canas este ano não cresceram e ainda estas mesmas os bichos comeram demais. [Cachorros do mato e graxains é que comiam a cana de açúcar]

Você pergunta como as coisas vão de um modo geral. A revolução ainda não chegou ainda aqui e quem sabe nem seja necessária a revolução chegar aqui porque no dia 29 de agosto às 8 horas da noite foi morto com um tiro o homem da Justiça, [Delegado da Polícia] Jonvili Nunes, [Jovelino ou Juvenil Nunes.] O famoso delegado era irmão do Evaristo. [Intendente ou prefeito nomeado pelo Interventor ou governador do Estado] Este homem que morreu era uma pessoa terrível, quando encontrava uma pessoa que não era do seu gosto, ele colocava na cadeia e fazia com eles o que queria, Uma vez na casa dele foi colocada uma bomba, não muito tempo atrás na Brusque, lá perto da atafona do Rudolfo Maisim [Na parte mais baixa do Morro da Coxia Seca (Coxilia Seca) A atafona do Maisin era movida por uma roda d’água, aproveitando o desnível de uma queda d’água do Rio Molha. A estrada da Brusque passava por dentro d’água, na parte cima da cascata e a água corria por cima de lajes de pedra. Eu quando era pequeno tinha medo que o carro de bois, pudesse despencar abismo abaixo.] Ele foi emboscado e levou um tiro, mas daquele ele sarou. A mulher dele até na última manhã tinha dito que seria mais prudente eles irem embora daí. Ele teria respondido dizendo quem vai poder fazer alguma coisa para mim. E a noite na frente da venda do Luiz Verane Cascaes, bem na porta, no meio de muitas pessoas foi atingido por um tiro e ninguém sabe quem foi quem atirou. [Existem diversos autores da história de Orleans que mencionam as prováveis pessoas que teriam praticado o crime.]

Então agora diversas pessoas daqui do Rio Novo foram embora para São Paulo. No Domingo dia 17, foi à noite da despedida, mas na realidade eles saíram no dia 21 deixando o Rio Novo e as pessoas ainda dizem não saber se eles conseguirão chegar lá porque até agora não tem chegado notícia nenhuma de lá. Outras pessoas diziam que a revolução tinha terminado e o caminho estava livre. Outras recomendavam a eles para não saírem nestas condições. Até o Cascaes não queria liberar o Salvo Conduto. Quando eles chegaram em Laguna todo mundo ficou admirado que como esta gente vai viajar para São Paulo, num período tão convulsionado. A viagem deles está mais complicada porque eles estão levando toda a mudança junto. São mobílias, louças, roupas enfim tudo que era móvel foi levado junto. Dizem que gastaram 4 dúzias de tábuas para fazer as embalagens, isso porque segundo eles, existe a promessa do Governo de São Paulo reembolsar todas despesas das passagens e das bagagens. Vamos ver se isso realmente vai acontecer. Existem pessoas que dizem que Nova Odessa está cheia dos ex-acampados de Varpa e segundo o “Der Compass”, os revolucionários já chegaram em Campinas e daí já estão perto de lá. Não sei como está o povo de Nova Odessa porque nem os nossos parentes de lá não tem escrito.

Você quer saber como foi a nossa Festa das Crianças, o tempo aquele dia estava chuvoso e frio. Gente não tinha muito devido às condições do tempo. A Festa começou logo depois da Escola Dominical e foram apresentadas poesias, hinos e tudo transcorreram muito bem, só faltou o sermão, O Stroberg falou novamente sobre os tijolos, mas isto nada me comoveu e nem lembro direito o que ele falou.
A Festa da Colheita [Ação de Graças] o tempo estava bom, somente muito frio mesmo, pela manhã tinha dado uma grande geada. O programa estava rico e variado com hinos, poesias, o coro da Igreja cantou e houve diversos quartetos. E sermões e prédicas eu não consegui contar quantas pessoas falaram. Só sei que o grande Karkles falou duas vezes, pode ser que ele tenha falado porque ele é grande e assim é mais que os outros. Depois o café com leite e o famoso pão doce e quando terminou já eram 11 horas.

A Escola Dominical está indo, muito bem. Quem dirige é o Stroberg. A direção dele é melhor que a do Zeeberg. Eu também vou as sextas feiras na Reunião da preparação dos professores e lá tem muito que aprender. Aqueles professores que sabem melhor o brasileiro traduzem as lições das Revistas e depois estudam os melhores meios de apresentar a lição às crianças e o que deverá ser apresentado aos maiores. Finamente o Stroberg faz um resumo apresentando as suas idéias e sobre isso eu teria muito o que escrever, mas deixa isto para outra vez.

O Victor Staviarski ainda continua na Escola? Ele ainda mora lá? Na semana passada encontrei a mãe dele e ela perguntou se você não tinha escrito alguma coisa sobre ele o Victor, porquê eles nenhuma notícia tem recebido dele e não sabem se ele concluiu o curso ou não e se ele está no Rio ou já viajou.

Quando o Victor fez a festa do noivado, você foi convidado para participar desta honra? Dizem que ele está noivo com a filha mais velha do Soren [Francisco Fulgencio Sorem – Por longos anos Pastor da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro e mais – Na realidade este moço casou com uma jovem do Sudoeste do Paraná.].

A Kate que fica contando isso por aqui e se é verdade não sei e ainda nem tudo que a Kate conta tem procedência

Você nos tem mandado o “Kristiga Balss”. [“A Voz do Cristão”] Não precisa mais mandar porquê quando por ocasião quando fiz uma encomenda de livros lá de Riga, eu encomendei esta também e as revistas tem chegado regularmente.
Agradeço pelo papel azul ele vai nos servir muito. [papel carbono] Podes mandar mais algum.
A União de Mocidade resolveu em sessão que este ano também vai comemorar o seu aniversário no dia 16 de Outubro, então com bastante tempo de antecedência estou convidando para prestigiar a nossa Festa.

Bem agora chega de escrever, os demais aqui de casa não querem escrever, eles ficaram com muita preguiça, que não é possível dizer para ela escrever e a Olga ainda não respondeu a tua carta.

Se eu tiver tempo eu logo vou escrever novamente.
Bem hoje chega. Ainda muito amáveis lembranças de todos os de casa e também minhas. Lucy.
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Esta veio rápida e por ela muito obrigada. | De Luziha Purim para Reynaldo Purim 1924 –

Rio Novo 14 de maio
Querido Irmãozinho! Saudações!
Recebi a tua carta escrita no dia 28 de abril no dia 9 de maio. Esta veio rápida e por ela muito obrigada. Também aqueles remédios recebemos hoje à noite na Igreja e nem sei quem trouxe da cidade até aqui.

Muito obrigada por eles também, na verdade nem estávamos esperando, inclusive escrevi para você mandar aqueles remédios para “Mal da Terra” [Ancilostomíase]. Quando você estava em casa você disse que não falou nada desta remessa. Não veio nenhuma carta acompanhando. Você mandou estes remédios para a Olga? Ou você mandou para nos entregarmos para os Klavin? Uma vez a Mamma falou que a senhora Klavin tinha também pedido remédios para “Mal da terra” pois ela também estava precisando, pois o Willis estava com 20 anos e o Karlis com 10 anos. E nós aqui também estávamos esperando estes remédios.

Nós graças a Deus estamos bastante bem. Nesta noite nos estivemos na Igreja, pois no Domingo foi anunciado que na Terça feira o Stroberg iria chegar e na Quarta feira seria a noite da recepção, mas não chegou ninguém e nenhuma notícia certa de quando realmente ele deverá chegar. Primeiramente ele era esperado para o dia 3 de maio, mas só chegaram o Sahlits.

O Wilis Slengmann, a senhora Andermann com o filho de sua filha [neto] chamado Artur Abolim foram direto para Mãe Luzia.
O Sahlit não foi até o Acampamento no “Deserto” e sim somente até Nova Odessa. Se ele gostou ou não ainda eu não sei. Quando chegaram o Willis Slengman e o Wilis Ochs eles contaram que lá em Nova Odessa existe um amor fraterno [Silta milestiba – Amor caloroso quente].
O Slengmann já aceitou aquela terra, mas ainda não sei se eles irão embora porquê aqui não tem ninguém que quer comprar a terra deles aqui. Mas eles querem se possível levar mais dinheiro para comprar mais terras e porque lá para tocar a lavoura é bem mais fácil.

Na semana passada eu também recebi cartas das primas e entre outras coisas a Lilija escreve que ela perdoa por você não ter escrito e ter esquecido delas durante as tuas férias. Também escreve que ela gostaria de andar a cavalo. Que somente uma vez ela montou no lombo de um animal. Que sempre ela gosta de ver pessoas cavalgando. Que a Alma e a Lilija trabalham com os patrões e ganham 3$000 por dia cada e mais abrigo e comida e a Vilma trabalha com a família Leeknim e o Tio trabalha numa fábrica de madeira.

A Lilija escreve ainda que quando vier para cá ela vai aprender andar a cavalo.

O tempo aqui estava muito seco, tanto que do dia 27 de abril até 8 de maio fez um tempo tão limpo que não tinha nenhuma nuvem nem no fim do horizonte. Soprava um vento seco e tudo estava seco e estorricado. Até que na Sexta feira passada começou a ficar nublado e no Sábado choveu um pouquinho e no Domingo fez tempo outra vez e na Segunda feira choveu um pouco outra vez e assim continuou bom até hoje 15 de maio amanheceu carregado com nuvens escuras e ainda bastante quente. Roncou trovoada e choveu bastante e continua nublado e ainda bastante quente e é provável que ainda chova. Naquele período de tempo bom fazia bastante frio.

Quanto a Escola Dominical vai muito bem. A Igreja também vai bem e quanto a União de Mocidade vai como sempre. O trabalho do Rio Larangeiras continua. Somente uma vez não foram. O Roberts [Roberts Klavin] ainda não está em casa. Pela Páscoa ele desceu a Serra, mas em seguida voltou junto com o Willis.[Klavin] Ele terminou uma atafona e agora está fazendo outras.
Obrigado pelo convite para participar na Festa de Aniversário do Coro. Sei que deveria ir, mas veja acho que já estaria atrasada e nós aqui a Mocidade terá a sua própria Festa de Música e Cânticos. E se de repente você viesse para a nossa Festa e eu estivesse indo para lá quem levaria o cavalo para eu ir da cidade até lá onde você mora e eu também não saberia o caminho então será muito melhor eu ficar na nossa festa e quem sabe noutra vez eu vá.

Bem desta vez chega de escrever senão você não terá tempo de ler inteira. Quando mandares os jornais outra vez mande também o papel azul para tirar cópias de desenhos. [papel carbono]

Muitas lembranças de todos os de casa, se bem eu disse para que os outros também escrevam, mas parece que eles ficaram são totalmente preguiçosos, pode ser que outra vez eu possa obrigá-los também a escrever.
Fico aguardando longa carta de resposta. Luzija.