Viagem de Porto Alegre até Rio Novo -Orleans em 1906

VIAGEM MISSIONÁRIA AO SUL DO BRASIL

POR FREDERICO LEIMAN
Avots (A Fonte) 1906/17, pág. 202

Neste ano (de 1906) em 16 de outubro a escola de Missões de Porto Alegre terminou seu longo curso. Após o término do ano letivo, estávamos destinados a campos já pré determinados, decidimos tirar alguns meses junto aos nossos pais para repouso e preparo para as próximas atividades. Em 17 de outubro o irmão J. Netenberg e eu encetamos uma viagem cujo percurso por terra é de 60 milhas (132 km) a pé, pesadas malas nas costas. Logo no primeiro dia o trovão, que chorava todos os dias lágrimas geladas, todas as estradas encontravam-se alagadas e que umedecia nossas roupas, pele e também o coração.
De vez em quando tínhamos que prosseguir com lama acima dos joelhos e até mais fundo em planícies alagadas, passamos 3 noites na chuva e vento, até que enfim nos alimentamos, 2 ½ dias andamos pela beira mar sem qualquer alimentação; pés inchados e carga pesada aumentou e por duas vezes caí em condições de desmaio.
Com os últimos esforços, após 9 dias de viagem chegamos a “Araranguá”, onde ficamos por alguns dias. Dirigimos alguns cultos. Que alegria – uma alma aceitou a salvação!
No ano de 1898 o irmão Kronberg e sua família veio morar aqui. No ano de 1901 chegaram mais algumas famílias de letos, com 7 crentes, os quais todos os domingos se reuniam para o culto.
Em 7 de maio de 1905 os crentes se reuniram para um trabalho conjunto e fundaram uma igreja que agora se compõe de 10 membros.
No que concerne à vida material o povo daqui é bem servido, mas na vida religiosa sofrem grandes dificuldades. Faltam pastores ou dirigentes de igreja e faltam escolas para os jovens.
Irmãos e irmãs devemos interceder por esse pequeno grupo, que no seu primórdio é suscetível de perseguições, devemos lembrar as palavras de Nosso Senhor Jesus “não temais ó pequeno rebanho, porque vosso pai agradou dar-vos o reino” Lucas 12.32
Dia 31 de outubro deixamos os letos de Araranguá e a noite alcançamos Mãe Luzia. Aqui ficamos a semana inteira, cada dia 2 celebramos 2 cultos e o Senhor no recompensou com ricas bênçãos.
A igreja foi fortalecida, alguns caídos levantaram e 3 almas herdaram a salvação. A pequena igreja leta se compõe de 20 membros e com alegria podem dizer: aqui reina o amor fraternal, e um vivo e verdadeiro cristianismo.
Com quem pesar este pequeno grupo sente a falta da liderança de um pastor e professor, mas lembremos a eles “Não temais, crê somente!”
Mais 2 ½ dias de andança estaremos em casa, mas o nosso coração ouviu algum chamado da Macedônia, e adentramos algumas milhas em um desvio de nosso caminho, a uma grande colônia composta de alemães, ( deve ser Crisciuma) onde o puro evangelho nunca havia sido pregado.
Conseguimos licença para utilizar um grande salão para realizar as reuniões, o povo compareceu em grande numero de perto e de longe, o espaço foi pequeno para a multidão. Quando tivemos trabalhado durante uma semana, junto a algum ouvinte começou a uma séria atividade do Espírito Santo.
Os recursos não permitiram permanecer por mais tempo: ao separarmos caíram muitas lágrimas dos ouvintes; eles imploraram para que os visitem novamente.
Agora diretamente de Mãe Luzia a Rio Novo – para casa. No último dia nos encontrou o trovão, ou por alegria ou inveja, porque estávamos próximos ao fim da viagem, chorava com suas grossas lágrimas. Os rios alagaram e ficaram intransponíveis e nos ficamos embebidos tão profundamente que só os letos sabem suportar. Passando a cavalo pela escola do Rio Novo encontramos o irmão Anderman, que havia dispensado os alunos para o recreio no jardim para exercícios físicos, com a ferramenta agrícola brasileira, ou seja, a “enxada.”
Quando finalmente após longa permanência distante, tantas dificuldades no caminho, cansado a morrer, sem ser notado, estava eu parado diante da casa paterna, o coração em pranto, os olhos marejados com lágrimas de alegria e gratidão ao Pai do Céu, que tão misericordiosamente nos conduziu.
No domingo teve um sincero reencontro com a nossa “mamãe” – a igreja. O irmão Anderman em nome da igreja discorreu sincero pronunciamento com base em II Timóteo 2.
À noite a mocidade programou um ágape, onde contamos uns aos outros nossas vivencias que o Senhor nos proporcionou de bom.
No que se refere à vida material em Rio Novo tem andado a passos gigantescos para frente, cada um possui sua propriedade, ninguém se queixa por necessidades.
Na parte religiosa com a vinda do irmão Anderman que exerce a função de professor e serve a igreja com dedicação as responsabilidades da igreja estão em dia; se os Rionovenses entendessem, que quanto a sua paz e verdadeira felicidade servem e permitissem que o Espírito Santo introduza seu amor e boa convivência, então Rio Novo seria para si e a redondeza como Betania ou Tabor, onde qualquer um visitaria com satisfação.
23 de março de 1906
Frederico Leiman
Missionário

Não posso continuar, pois a febre voltou. | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim. – 1925 –

Portão [Agora bairro de Curitiba] 27 de Outubro de 1925

Querido Reynold
Faz tempo que estou me aprontando para escrever-te. Mas sempre aparece alguma coisa mais urgente.
Hoje saí de viagem, mas tive que voltar atrás. Vou amanhã.

Escrever tudo o que aconteceu nos últimos meses será demais. Vou escrever só o que eu lembrar. Agora estamos morando quase em Curitiba – O endereço é Caixa Postal T.

Nos dias de férias trabalhei na lavoura. Plantamos 4 quartas de milho, 2 quartas de feijão, 4 de batata etc.. Passei maior tempo doente com febre; então ainda caí da carroça e quebrei um osso. Até hoje a febre me atormenta.

Numa das últimas viagens me roubaram a minha maleta com todas roupas, Bíblias novas, um Cantor Cristão com música etc.
Trabalho tenho muito, mais do que consigo fazer. O Deter e o Stroberg estão este mês no Rio Novo. Casamentos.

Mas não posso continuar, pois a febre [Maleita ou Sezões] voltou.

Amanhã estarei viajando para Iguape S.P..
Sinceras saudações.
Carlos Leimann

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Os nomes deles (dos navios) são: Itaipava, Itaituba e Itaperuna. | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim – 1923

Paranaguá 13 de novembro de 1923
Caro Purim
Saudações!
Sei que você está muito ocupado com trabalho e estudos e ainda se aprontando para os exames finais e estou pensando que logo você vai se mandar de viagem para este lado.
Como ainda estarei em Paranaguá. Quando passares por aqui gostaria que me avisasse em que navio tu virás.
Os melhores que vão para Imbituba são os da “Companhia Nacional de Navegação Costeira” e estes navios levantam ferros no Rio nos dias 8, 18 e 28 todo mês. Os nomes deles são: Itaipava, Itaituba e Itaperuna.
Gostaria de encontrar com você e conversar sobre diversos assuntos que estou planejando, já no mês que vem, ir embora, mas não tenho certeza se vai dar certo. São tantos os obstáculos e tanto trabalho.
Na semana que vem espero viajar até Joinville e possivelmente organizar uma nova igreja.
Espero a informação para poder me encontrar com o navio que sai do Rio dia 28 ou dia 8.
Com muitas lembranças
Carlos Leiman