Mas em vez de 600 homens apareceram 6 “manecos” pela estrada da Serra. De Artur Purim para Reynaldo Purim – 1927 –

Ano de 1927
Rodeio do Assucar 13-1-27.
Querido Irmão
Primeiramente envio lembranças e felicitações pelo seu aniversário, se bem que o seu aniversário já passou, mas não tem importância, mas sim que os cumprimentos cheguem ai.

Recebi a tua carta que fala de manteiga, leite e espigas de milho já antes do Natal. Por ela muito obrigado. Mas queria que passassem as Festas para que depois tivesse mais o que escrever e como as Festas já estão longe tenho que me agarrar e escrever enquanto não esqueço.
No Primeiro Natal [Primeiro dia de Natal era o dia 25 e o dia 26 eram as Oitavas ou o segundo Natal] teve Festa com pinheirinho iluminado e naquela noite o tempo estava maravilhoso e gente que raramente tanta foi vista por ai. Também veio um automóvel de Orleans que deixou profunda impressão. Agora através das estradas de Rio Novo frequentemente disparam vários automóveis. Ainda no domingo passado subiu um automóvel pelo Rio Novo e foi até o Barracão e mais tarde voltou. Agora em Orleans existem 3 automóveis.

O programa da festa não foi muito extenso, mas foi muito bonito e interessante. No segundo dia de Natal eu não fui à Igreja. Eu e o Roberto [Klavin] fomos à Grão Pará dirigir um culto lá. A mocidade da Igreja todos os últimos domingos do mês vão ajudar nos Cultos lá. Agora lá está morando o Avelino e a velha senhora do Caciano. O velho Caciano separou-se dela e ajuntou-se com outra e está morando em Palmeiras [Também distrito de Orleans e Estação da Estrada de Ferro D. Tereza Cristina e hoje Pindotiba].

O pessoal de Grão Pará manda muitas lembranças para você e pedem que quando você voltar não se esqueça de visitá-los. Lá em Grão Pará os primeiros cultos foram muito bem frequentados. E é muito natural que em qualquer lugar onde o Evangelho é anunciado lá também o mal não fica em paz. Por isso no princípio de dezembro apareceu um jesuíta nômade que quando soube que nós fomos lá pregar ele separou uma semana de missas onde a nós disparava torrentes de maldições e ainda incluindo a todos que foram ouvir estas pregações do diabo que eram as nossas. Mas como não notamos nenhuma diferença depois destes anátemas e nada sentimos então na próxima vez nós iremos com mais entusiasmo e também mais pessoas.

Agora que tu já sabes como nós passamos o Natal gostaríamos de saber como você passou o Natal? Tinha Árvore de Natal ou não?

Alguns dias depois das Festas começamos a ouvir rumores de revolução e que nas Serras estão bandos de anarquistas, mas que brevemente vão descer para Serra Abaixo. Estas notícias deixaram todo povo alvoroçado. O assombro de uma invasão iminente foi tão assustador que por dias não se via pessoa alguma nas estradas. Outros diziam que nas Minas [Lauro Müller] já tinham descido 600 homens e logo iriam continuar para Orleans e outros lugares. Mas em vez dos 600 homens apareceram 6 “manecos” pela estrada da Serra. Mas assim mesmo foram solicitadas ao governo tropas com fuzis e metralhadoras. Dizem que estes revoltosos são da Bahia. Que nas Serras ainda tem muitos revolucionários. Até o pessoal de nossa comunidade andava tão assustada que muitos iam dormir no mato. A senhora Paegle acompanhada pelo seu velhinho passava as noites embrulhados em cobertores no pasto encostados numa grande pedra etc.
Desta vez penso que chega de escrever, pois a Lucija também promete escrever e assim você terá muitas notícias de nossa parte. Você possivelmente não está entendendo por que desta vez eu estou escrevendo a lápis. Pois é porque as ratazanas derrubaram o tinteiro com toda tinta. Elas talvez sejam quase a “última praga em casa”. Em toda minha vida eu não tinha visto tantas ratazanas e guaiquicas como este ano aqui em casa..
Com muitas lembranças. APurim.

[Saber com os historiadores que movimento revolucionário foi este]

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Logo ele vai embora para a sua tão louvada Argentina… | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 9 de fevereiro de 1922

Querido Reini:

Primeiramente te envio muitas amáveis lembranças. – Desta vez eu vou ter que escrever bastante porque devo respostas as duas cartas. A tua carta escrita em 14 de janeiro eu recebi no dia 27 de janeiro, mas devido o tempo de intensas chuvas não respondi, porque o tempo não estava propício para escrita e terminou ficando para quando o tempo melhorasse e na noite de segunda feira dia 6 de fevereiro recebi a outra tua carta escrita no dia 23 de janeiro. Junto com aquelas perfumadas folhas de plantas. Por tudo isso muito obrigado. –

Você mesmo está ficando rico com tantos presentes importantes e onde puseste aquelas flores que ganhaste. Aqui no Rio Novo, qual o pastor que iria ganhar tantos presentes?

Nós estamos passando mais ou menos bem. Somente a chuva é demais este ano. E assim é a vida de qualquer colono que fica diretamente dependente do tempo. Quando é muito seco, nem quando a chuva é demais, não é nada bom. Durante todo o mês de janeiro tivemos dois dias sem chuva. Todos dias ora chuva fina, outros dias chuvas com trovoadas e houve semanas que choveu da manhã à noite e outras vezes as noites inteiras. Todo tempo com os rios imensos e cheios d’água e quantos riozinhos pequenos se transformando em ruidosos ribeirões. Você pode andar em partes baixas ou no alto dos morros, você encontra nascentes em profusão. As estradas estão totalmente cheias de valetas e grandes pedras expostas que a gente não consegue acreditar como a água pode arrancar tantas e tão grandes pedras em pleno leito da estrada. Nesta semana já teve alguns dias com tempo bom, mas hoje a noite já está chovendo novamente.

Por isso, os trabalhos nas roças não estão nada fáceis. As plantas daninhas crescem demais e também não adianta capinar, porque tudo continua a crescer mesmo. A grande maioria já conseguimos capinar. Hoje fomos capinar na Bukowina. Lá à parte roçada queimou bem e não veio tanto mato.

Noutras partes por ai já houve grandes tempestades, mas aqui no nosso terreno, não houve nada. Começamos a plantar o feijão e faltaram 6 litros para uma quarta!

Na semana passada arrancamos ou fizemos a colheita de batata inglesa. Nós poderíamos até dar um saco de batatas para você, se você não tivesse esquecido de como comê-las. As batatas deram excepcionalmente este ano e num pedacinho onde plantamos 4 quartas de semente nós colhemos 13 sacas. Tínhamos também plantado em outro lugar onde também deu, mas não tanto, quanto nesta primeira roça. Estas, nossas batatas, serviriam para vocês grandes cozinheiros, que gostam de pouco trabalho.

Se você estivesse em casa, poderia comer pepinos pela manhã, no almoço e a noite e assim mesmo não daria conta. Ontem nós trouxemos uma carga inteira no cavalo só de pepinos.

As uvas já estão terminando e este ano também foram muito boas. As melancias se não houvera chovido tanto, seriam melhores, no começo elas cresceram bem, mas agora está encharcado demais, mas temos algumas já bem crescidas e daqui uns tempos estarão maduras. Vocês comem melancias nas refeições ou em alguma outra ocasião? Ou você está como o Augusto Klavin lá em Kuritiba que vê melancias à venda por 3$000 e em casa não pagaria nem trezentos réis.

Na semana passada houve em Orleans o funeral do velho Grüntals que faleceu no dia 29 de janeiro e foi enterrado no dia 30

Willis Leiman já viajou no dia 12 de janeiro, mas a Lucija e as crianças ainda ficaram. O Willis não quer mais morar aqui de jeito nenhum. Os velhos por sua vez não querem vender nem sair daqui e assim parece que ainda não conseguiram sair do impasse.

Na quarta feira quando o Willis dirigiu o último culto, logo após houve uma festa de despedida e onde foi feita uma coleta de dinheiro para viagem que rendeu 40$. – O Arthurs disse que não tinha esquecido de você e tinha mandado uma carta logo depois do Ano Novo. Você recebeu esta carta?

Quanto à direção dos trabalhos na Igreja eles sabem se sair muito bem. O Willis você sabe, ele falava devagar, mas agora não fala mais tão devagar e está bem mais gordo que antes. –

O Arthurs continua do mesmo jeito que era antes e quando chegou era mais magro e agora está bem mais gordo. Quanto à comunicação, ele fala como antigamente somente bem mais desembaraçadamente, como deve ser um menino instruído.

Quanto ao cantar eles antigamente, cantavam o tenor e agora eles cantam o baixo.

Quanto ao trabalho na roça eu não sei direito, mas logo que o Willis chegou. Ele e o Arthur num lindo dia foram capinar uma roça de milho, que fica na divisa com os terrenos do Klavin. Mas logo o sol começou a esquentar. Como pessoas instruídas, encostaram os cabos das enxadas num toco de árvore e foram visitar os Klavin. Quando o sol já estava abaixando no poente ai lembraram das enxadas e o que eles vieram fazer e saíram correndo e agarraram com vontade e quando estava escurecendo a roça já estava toda limpa. –

No domingo passado o Arthurs foi visitar o Onofre [O Onofre Regis morava na Estação Barra do Norte ou Braço do Norte] e você não vai acreditar, ele foi a pé. O trem estava atrasado então ele foi andando.

Logo ele vai embora para a sua tão louvada Argentina e por isso tem que se despedir de seus antigos amigos como o Onofre.

O Karlos [Leiman] ainda não apareceu e parece que está morando no Rio Branco. O Rubis [Roberto Klavin] continua mergulhado em seus trabalhos, está desde o Ano Novo trabalhando em Mãe Luzia.

No dia 16 de janeiro chegou também o Butlers, era para ele ir as Conferencias, mas não foi. Ele ficou aqui somente 2 domingos. Ele veio visitar o velho pai dele e tomar outras providências. O velho mora sozinho, com os seus diamantes e agora já pode andar inclusive foi a Igreja algumas vezes. E a Anlise leva a comida. O Butlers não é mais Pastor em Kuritiba por causa do problema de sua voz. Agora somente é professor de uma Escola Superior da cidade e este ano vai mais cuidar de sua saúde. Se de tudo não puder falar tanto, então ele voltaria a morar no Rio Novo.

O Inkis também não pode ir a Rio Branco, mas ainda ele pensa de vir para visitar Sta Catarina e assim os Rionovenses estão convidando para a Festa do Jubileu dos 30 Anos da Igreja. Vamos ver se ele vem mesmo.

Bem agora chega mesmo. Com um tiro matei dois coelhos. Para que não seja demais leia uma página por dia senão vai dar nos nervos. Os Prospectos este ano não vais mandar? Os Jornais não tens mandado? Estarei esperando longa resposta.

Lembranças de todos outros de casa.

Com uma Boa Noite! Olga.
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Chove todos os dias e semanas inteiras. | De Arthur Leiman para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 02 de Fevereiro de 1922

Querido Reini!

Primeiramente muitas e sinceras lembranças.

Estou escrevendo, não sei se recebestes a minha carta anterior ou não. Há pouco recebi as esquecidas lembranças, ou melhor, os esquecidos receberam as lembranças. Obrigado por elas também e como para aqui não será possível escrever, pois logo no fim do mês deverei estar embarcando para o Rio Grande do Sul “ ne us do Nerte. “Compreender alemão? “

Aqui estou suficientemente bem. Fiquei muito feliz por ter tido a oportunidade de ajudar esta Mocidade ficar mais próxima a sua Igreja. Com os Brasileiros, não tive oportunidade de trabalhar e a grande maioria ainda tem dificuldade com a língua.

Mas como chove aqui. Chove todos os dias e semanas inteiras. As estradas são lamacentas e as noites escuras. Ontem à noite voltando a cavalo da Igreja……. (Parte ilegível).

O Butler também esteve aqui um par de semanas.

Estou esperando o Karlos [ Leiman]. Não sei onde ele está caído ou entalado e como ele não escreve. Daí terei que ir procurá-lo. Que posso fazer, assim são os Ilustríssimos Senhores.

Teria muito que reclamar para você, mas certamente não faltarão outros melhores e mais inteligentes, nestas questões.
Escreva-me para Ramón Falcon 4.100 Bs. Airé R. Argentina.

Saúda-te o teu companheiro Arthurs Leiman
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Ernesto Grüntal – Recordações de João Reinaldo Purin | Crónica Histórica de Rio Novo

ERNESTO GRÜNTALL – RECORDAÇÕES DE JOÃO REINALDO PURIN

Ernesto Grüntall era uma “figura” solitária que morava ao norte de nossa propriedade na colônia dos letos de Rio Novo e adjacências.

A nossa casa ficava numa subida que era conhecida como “o morro dos Purim”. A estrada ao chegar em cima do morro se dividia.

O local era conhecido como “encruzo” ou “encruzilhada”. À direita ia-se para Rio Carlota e à esquerda ia-se para Brusque do Sul. [ Neste ponto as pessoas que vinham da Igreja as vezes ficam bastante tempo conversando antes de separar-se e antigamente este lugar era chamado de “Kanels” porque havia um tronco imenso desta árvore]

Caminhando-se uns 100 metros para a esquerda, pela estrada cheia de pedras ferro pontiagudas, chegava-se à entrada da casa do Ernesto Grüntall. Havia uma porteira e mais para dentro uma casa de tijolos à vista. Era tudo muito simples, uma vez que não tinha a menor preocupação com coisa alguma. Estava sempre lendo alguma revista ou jornal antigo.

Mais aos fundos havia uma olaria que nunca a vi funcionando.
Mais adiante ainda ele fazia algumas plantações que não davam para a sua subsistência. Apesar de serem terras planas e uma grande área para cultivo.

Passados alguns tempos apareceu em sua propriedade e mais tarde veio morar na mesma casa uma senhora conhecida como Maria Bombazara que nós a chamávamos de “Velha Marica”. Usava óculos redondos, cabelos oxigenados e crespos artificialmente. Lembro-me que vi, perto do fogão, pela primeira vez uma espécie de tesoura ou tenaz que era aquecido no fogo para aquela finalidade. A “Velha Marica” era bem ranzinza. Criava problemas com todos os vizinhos; inclusive com meus pais, nunca soube o por quê. Parece também que mexia com algum tipo de magia.

Pois bem, o Ernesto Grüntall era de um físico frágil, como se pode ver na foto de n.289. Tinha um andar lépido. Freqüentemente aparecia em nossa casa para conversar com a vovó Lizette e com papai e os demais. Conversava bastante com o Valfredo que poderá também relatar outras recordações. Era pacífico e muito bom de conversa, sempre querendo saber das novidades. Não me lembro de tê-lo visto nervoso ou criando problemas com quem quer que seja.

Lembro-me de que nos tempos da 2ª Grande Guerra, ao receber uma carta, creio que tenha sido a última de sua namorada que se chamava Toska que morava na Alemanha; veio feliz nos mostra e lia alguns trechos que falavam de uma tal de “schlakfeast” que se referia ao carnear porco cevado.

Também trazia jornais da Alemanha com um suplemento infantil em Alemão “ KunterBunt” que nós ficávamos vendo as figuras. Ele era grande admirador do Führrer Adolf Hitler.

Outra lembrança que tenho do Ernestinho como era conhecido, foi quando, certa vez, ao voltar da cidade de Orleans, entrou em nossa casa e contou maravilhado que viu uma “máquina de moer dinheiro”. Era naturalmente a máquina registradora que ao se rodar a manivela, a gaveta se abria para dar o troco.

Outra vez, não sei como a conversa girou em torno de dentes. Ele, então disse que não queria mais dentes, pois assim toda comida ia direto para o estômago… Meu pai, como sempre, por tudo isso achava muito engraçado e ria muito. Pois o Ernestinho sempre dava a tudo um ar filosófico.

Pouquíssimas vezes aparecia na Igreja Batista Leta de Rio Novo bem como em outros eventos da comunidade leta, tais como piqueniques etc. Como já foi dito, era asceta, ou niilista, ou ateu ou coisa que o valha.

Saí de Rio Novo, em fevereiro de 1954. Passados alguns tempos, soube que o velho Ernestinho havia falecido e que tinha sido sepultado no cemitério da Igreja Batista de Rio Novo. O nosso pai é quem dirigiu o serviço do funeral. Não sei o que ele teria dito nessa ocasião a respeito dele. Realmente ele foi uma “figura” ímpar. Um bom vizinho.

…o trovão que chorava todos os dias lágrimas geladas… | Frederico Leiman – 1906

A006-1966-

A VOLTA PARA CASA

VIAGEM MISSIONÁRIA NO SUL DO BRASIL

Material gentilmente enviado por Brigita Tamuza da Letônia
Traduzido do Leto para o Português por
V.A.Purim
Avots (A Fonte) 1906/17, pág. 202

Neste ano (de 1906) em 16 de outubro a escola de Missões de Porto Alegre terminou seu longo curso. Após o término do ano letivo, estávamos destinados a campos já pré-determinados, decidimos tirar alguns meses junto aos nossos pais para repouso e preparo para as próximas atividades.

Em 17 de outubro o irmão J. Netenberg e eu encetamos uma viagem cujo percurso por terra é de 60 milhas (132 km) a pé, com pesadas malas nas costas. Logo no primeiro dia o trovão, que chorava todos os dias lágrimas geladas, todas as estradas encontravam-se alagadas e que umedecia nossas roupas, pele e também o coração.

De vez em quando tínhamos que prosseguir com lama acima dos joelhos e até mais fundo em planícies alagadas passamos 3 noites na chuva e vento, até que enfim nos alimentamos, 2 ½ dias andamos pela beira mar sem qualquer alimentação; pés inchados e carga pesada aumentou e por duas vezes caí em condições de desmaio.

Com os últimos esforços, após 9 dias de viagem chegamos a “Araranguá”, onde ficamos por alguns dias. Dirigimos alguns cultos. Que alegria – uma alma aceitou a salvação!
No ano de 1898 o irmão Kronberg e sua família vieram morar aqui. No ano de 1901 chegaram mais algumas famílias de letos, com 7 crentes, os quais todos os domingos se reuniam para o culto.
Em 7 de maio de 1905 os crentes se reuniram para um trabalho conjunto e fundaram uma Igreja que agora se compõe de 10 membros.
No que concerne à vida material o povo daqui é bem servido, mas na vida religiosa sofrem grandes dificuldades. Faltam pastores ou dirigentes de igreja e faltam escolas para os jovens.
Irmãos e irmãs devemos interceder por esse pequeno grupo, que no seu primórdio é suscetível de perseguições, devemos lembrar as palavras de Nosso Senhor Jesus “não temais ó pequeno rebanho, porque vosso pai agradou dar-vos o reino” Lucas 12.32

Dia 31 de outubro deixamos os letos de Araranguá e a noite alcançamos Mãe Luzia. Aqui ficamos a semana inteira, cada dia celebramos 2 cultos e o Senhor no recompensou com ricas bênçãos.

A Igreja foi fortalecida, alguns caídos se levantaram e 3 almas herdaram a salvação. A pequena Igreja leta se compõe de 20 membros e com alegria podem dizer: aqui reina o amor fraternal, e um vivo e verdadeiro cristianismo.

Com quem pesar este pequeno grupo sente a falta da liderança de um pastor e professor, mas lembremos a eles “Não temais, crê somente!”

Mais 2 ½ dias de andanças estaremos em casa, mas o nosso coração ouviu algum chamado da Macedônia, e adentramos algumas milhas em um desvio de nosso caminho, a uma grande colônia composta de alemães, [deve ser Criciúma] onde o puro evangelho nunca havia sido pregado.
Conseguimos licença para utilizar um grande salão para realizar as reuniões, o povo compareceu em grande numero de perto e de longe, o espaço foi pequeno para a multidão. Quando tivemos trabalhado durante uma semana, junto a algum ouvinte começou a uma séria atividade do Espírito Santo.

Os recursos não permitiram permanecer por mais tempo: ao separarmos caíram muitas lágrimas dos ouvintes; eles imploraram para que os visitem novamente.

Agora diretamente de Mãe Luzia a Rio Novo – para casa. No último dia nos encontrou o trovão, ou por alegria ou inveja, porque estávamos próximos ao fim da viagem, chorava com suas grossas lágrimas. Os rios alagaram e ficaram intransponíveis e nos ficamos embebidos tão profundamente que só os letos sabem suportar.
Passando a cavalo pela escola do Rio Novo encontramos o irmão Anderman [pastor e professor], que havia dispensado os alunos para o recreio no jardim para exercícios físicos, com a típica ferramenta agrícola brasileira, ou seja, a “enxada.”

Quando finalmente após longa permanência distante, tantas dificuldades no caminho, cansado a morrer, sem ser notado, estava eu parado diante da casa paterna, o coração em pranto, os olhos marejados com lágrimas de alegria e gratidão ao Pai do Céu, que tão misericordiosamente nos conduziu.

No domingo teve um sincero reencontro com a nossa “mamãe” – a Igreja. O irmão Anderman em nome da Igreja discorreu sincero pronunciamento com base em II Timóteo 2.
À noite a mocidade programou um ágape, onde contamos uns aos outros nossas vivencias que o Senhor nos proporcionou de bom.

No que se refere à vida material em Rio Novo tem andado a passos gigantescos para frente, cada um possui sua propriedade, ninguém se queixa por necessidades.

Na parte religiosa com a vinda do irmão Anderman que exerce a função de professor e serve a Igreja com dedicação as responsabilidades da Igreja estão em dia; se os Rio-novenses entendessem, que quanto a sua paz e verdadeira felicidade servem e permitissem que o Espírito Santo introduza seu amor e boa convivência, então Rio Novo seria para si e a redondeza como Betania ou Tabor, onde qualquer um visitaria este lugar com satisfação.
23 de março de 1906
Frederico Leiman
Missionário

Alexandre Klavim – Primeiro Pastor da Igreja Batista Leta de Rio Novo – Orleans Santa Catarina

ALEXANDRE KLAVIN, FOI O PRIMEIRO PASTOR DA IGREJA BATISTA LETA DE RIO NOVO – ORLEANS NO BRASIL.
TERCEIRA PARTE.

Ano 1900
Notícia publicada no Jornal da Letônia chamado
“Majas Viesis n.19 (O Visitador do Lar) de 14 de abril de 1901 “
Traduzido do leto por Valfredo Eduardo Purim
Matéria gentilmente cedida pela Sra. Brigita Tamuzza de Riga na Letônia

(continuação)
As pastagens aqui, devem ser plantadas, que aqui é chamada de “pasto”. Existe uma pastagem oriunda da mata que não resiste ao rigor do inverno, mas o “pasto” plantado permanece verde o ano todo. É uma pastagem alta, de folhas largas, que é arrancada do chão e em seguida, após aberto um furo na terra com auxilio de um bastão de madeira. A muda é plantada e após 6 meses o chão está coberto por um tapete verde. Bovinos, eqüinos e suínos são confinados na pastagem cercada, dispensando um pastor ou vigia.

Estradas aqui não há, se você mesmo não fizer em sua colônia. Uma estrada grande cheia de curvas foi construída pelo governo que percorre por toda a colônia que perpassa pelas colônias umas pelo meio, outras pela margem… Em todos os lugares, a cavalo. Os letos mais ricos possuem animais de tração… Quando um proprietário possui 6-7 “purvietas” de plantações e outra 6-7 “purvietas” em pastagens, pode manter 2-3 cavalos, 10-12 vacas, 50-60 suínos, 100 galinhas e 4-5 pessoas e durante o ano juntar 400-500 mil réis pode dar-se por satisfeito.

… No Brasil progride-se depressa, porém com grandes dificuldades, e aqui eles são felizes, todos aqueles que estão dispostos a fazer tudo a sós, porque contratar pessoas é muito difícil, os brasileiros ou mori (?) não produzem nada…

As moças letas, que preferem ser empregadas domésticas, conseguem nas cidades boas colocações e percebem 15 rublos mensais[ 45 mil réis] (quanto na Letônia?). No Brasil o proprietário e o empresário trabalham devagar quanto podem e ainda afirmam que “há tempo que chega”.

Jovens com alguma especialização logo estão com dinheiro. Aqui em Rio Novo temos diversos profissionais. Ainda não temos alfaiate e sapateiro. Rio Novo é a maior colônia leta…. Aqui podemos desenvolver a agricultura e também a pecuária. Aqui se produz de tudo. Realmente não há tanto calor. Já possuímos Igreja e escola.
FIM

Depoimento de J. A. Zanerip | A vida na igreja

Sexta Parte

Apesar das grandes distâncias que a maioria do povo da colônia morava, e das péssimas condições das estradas, a frequência era ótima nas escolas dominicais e nos cultos.

A escola começava todos domingos às nove horas da manhã. Em seguida era celebrado o culto, como acontece até agora.

Mas vejam só, o término da escola e do culto era por volta das 12 horas, e depois vinha a longa caminhada para casa — alguns até oito quilômetros de distância, conforme o morador.

Logo no final da tarde, lá pelas 17h30, nova caminhada para o culto da noite — lembrando ainda que isso enfrentando lama e a escuridão da noite e ainda às vezes garoas, frio, chuvinhas finas, chuvas grossas e até temporais. Porém, calçados ou descalços, o povo seguia para a igreja.

Por causa das estradas lamacentas, os irmãos faziam o contrário do que Deus tinha determinado a Abraão: “Tire os sapatos porque a terra onde estás é santa”. Nós vínhamos descalços, trazendo os sapatos na mão; chegando no riacho Rio Novo, após a devida lavagem dos pés, calçavam-se os sapatos para se cobrir os restantes 500 metros até o templo da igreja.

Havia ocasiões em que a lama era tanta que nem esse pequeno trecho era possível percorrer sem perder os sapatos, então a alternativa era lavar os pés numa nascente dentro do jardim da igreja. Assim, andando-se descalços pela grama e pela calçada, adentrava-se a parte social do templo, onde eram calçados os sapatos — para daí adentrar o Santuário decentemente trajado na presença do Senhor. Devo lembrar que a intenção desse procedimento de modo nenhum era a economia, mas a total impossibilidade de se usar sapatos nos caminhos já descritos.

Nas quartas-feiras sempre havia culto de oração, que se iniciava às 19 horas, e depois ainda havia o ensaio do coro — por isso a gente nunca chegava em casa antes das 23 horas.

Apesar da distância, da chuva e da escuridão os irmãos da igreja iam aos trabalhos e nós íamos também — eu, como era adolescente, fazia questão de ir. Às vezes me pergunto se essa situação fosse hoje, e se fosse preciso enfrentar essas mesmas condições, qual seria a minha atitude. Acho que enfrentaria. E por que não? A gente ia cantando e sorrindo das dificuldades sem se preocupar com nada.

Qual era a atração que levava o povo a ouvir a leitura da Bíblia por irmãos que hoje seriam chamados de leigos?

[continua…]