Desta vez controlaram os velhos | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 9 de novembro de 1919

Querido Reinold!!

Primeiramente mui amáveis lembranças!

Bem, desta vez terei muito o que escrever.

Fazia muito tempo que aguardávamos cartas suas. A última foi a que recebemos no 24 de setembro; depois disso passou o mês de outubro inteiro. No dia 24 de outubro a Luzija mandou um cartão postal e no dia 31 de outubro outro cartão, porque não tinha chegado nenhuma carta. Então, na quinta-feira passada a Luzija foi novamente para a cidade e… quando chegamos da roça no meio-dia havia a mesa cheia com cartas com muitas cartas: 5 cartas e ainda jornais. Uma de 12 de outubro, outra do dia 19 de outubro. E mais aquelas três: uma do dia 11 de março de 1918, onde dentro veio também aquela carta de nosso parente da Rússia. Outra de 8 de abril de 1918 e a terceira do dia 19 de maio de 1918. Estas três tinham sido abertas pela censura e, pelos carimbos, ficaram no Rio até 28 de outubro de 1919. Em duas aparece também o carimbo de quando foram colocadas no correio em 1918 e uma em 1919, e por aí você pode imaginar o tempo que demoraram.

Nós não tínhamos mais esperança, achando que as extraviadas estariam perdidas de vez. Agora esperamos que cheguem aquelas outras que vinham com aqueles desenhos que você diz ter mandado no ano passado, e pode ser que estejam paradas em algum lugar.

Também os Leimann receberam cartões de Páscoa e outras cartas escritas no começo do ano. Agora das recentes está faltando a que foi escrita em 28 de agosto, as outras todas chegaram.

Esta última remessa de dinheiro foi muito rápida e sem custo qualquer.

Tu pedes que escreva as novidades do Rio Novo. Neste momento não há nada importante. O último evento importante foi a Festa da Mocidade [Dia 16 de outubro, aniversário da União de Mocidade da Igreja Batista Leta de Rio Novo]. Esta foi realmente grandiosa. Começou as 10h30 da manhã e foi até ao escurecer. O tempo que antecedeu a festa estava muito chuvoso; quando ia chegando o dia parou de chover porém continuava nublado. Mas o dia da festa amanheceu com um tempo magnífico, sem a menor nuvenzinha mas não calor demais, e tudo enxuto como fazia tempo que não tinha sido assim.

Foi um domingo muito bonito. Já na segunda começou a chover novamente. Esta Festa da Mocidade foi feita em conjunto com a Festa da Banda de Música. Havia gente demais, uma verdadeira multidão. Não sobrou lugar pra ninguém. Tinha muita gente de Orleans, inclusive o pessoal das vendas.

O programa foi dirigido pelo Butler. Desta vez controlaram os velhos, pois eles falam demais, tomando muito tempo. O programa consistiu de hinos, poesias e música. O número de rapazes da União é 32 e moças 36. O número de músicos é 15. Fizeram um relatório de atividades, mas não me lembro de tudo. Às 12 horas teve um intervalo quando foi servido um lanche com café, pão, etc, e não foi cobrado nada de ninguém.

Houve uma coleta com a finalidade de ajudar aos refugiados da guerra no Báltico, que rendeu 132$000. O coro dos jovens cantou quatro hinos, inclusive dois em brasileiro. O coro da igreja cantou cinco hinos, e também cantaram dois quartetos.

Notável mesmo foi a mensagem proferida pelo Butler. Esta valeu a pena mesmo. Se todos seguissem os conselhos e ditames, tudo seria melhor. Mas será que todos entenderam?

Depois do programa ainda teve um Bazar da Banda de Música, onde tudo que foi oferecido e vendido será destinado para compra de novos instrumentos. Houve muita animação e foi até ao escurecer. O melhor músico de sopro é o Ilris do Augusto. Mas o Grünfeldt não gosta de música e acha uma bobagem gastar dinheiro e tempo com isso. Mas nós achamos que é muito melhor que os jovens fiquem ensaiando e aprendendo música aos domingos à tarde do que por falta do que fazer terminem procurando alguma bodega. Agora não existe aquela liberdade, e qualquer que começar a balançar é seguido e advertido.

A família Balod faz tempo que foi embora para Porto Alegre. O Hermans lá ficou um pouco melhor. Mas agora está louco outra vez e não sei se não está em algum hospício. Acho que ele tem culpa desta situação, pois quando os filhos deles eram menores ele permitia que fizessem o que quisessem, e agora não consegue mais controlá-los. Eles fazem artes e safadezas, uma em cima da outra, e agora ele fica reclamando dessa situação triste.

Então foi o Arthurs [Leiman] que te escreveu sobre aquelas brigas e disputas. As moças daqui brigavam por causa dele e ele tratou de dar o fora daqui. Parece que ninguém escreve pra ele, e ele não fica sabendo nem metade do que você sabe.

Você pode vir para casa e aí na volta vai ter companheiros de viagem. Tem gente que está se aprontando [para partir]: são o Janka Klawa e o Emilio Andermanis de Mãe Luzia — por aí você pode avaliar que tipo de heróis. O Janka é negociante de cavalos e vive com os brasileiros das serras, comprando e vendendo. O Emílio é um dos irmãos “espirituais”; não entendo que como esses pentescostais, que não querem nem saber de estudo ou de escola. vão mandar um deles para lá. Dinheiro para pagar a escola eles não têm, dinheiro só têm para as passagens. Como eles vão trabalhar, vocês podem “economizar” algum serviço para os jovens que vão chegar. Se continuar tudo de graça não sei quantos espertos não vão querer ir para lá.

Tenho mais coisas para escrever. Nós estamos bem, graças a Deus. Com saúde estaríamos se a Mamma não tivesse aqueles problemas nas pernas: iguais àqueles [que tinha antes], só que muito mais [intensos]. O Pappa também teve ficar de cama também devido a problemas das pernas, e reclama que doem muito. Calcule, com tanto trabalho nas roças e eles quase inválidos.

O tempo está bastante chuvoso, mas nas últimas duas semanas choveu menos. A nova coivara nós queimamos no dia 1 de novembro, Não estava muito seco, mas como estava ameaçando a chover resolvemos tocar fogo. O Augusto e o Hari nos vieram ajudar. O fogo pulou o aceiro e passou para o mato só em um lugar, mas nós prontamente apagamos com vassouras [feitas de galhos de plantas], em poucos instantes. À noite começou a chover. Na coivara plantamos quatro quartas de semente de milho. Ao todo já plantamos sete quartas. Também plantamos 10.000 de mandioca, 2.000 de aipins, mais batata inglesa, arroz, batata doce, amendoim, carás e melancias. Começamos a roçar a “voadeira” na coivara do ano passado e está indo rápido. Se o tempo melhorar, poderemos queimar.

Este ano tem muitos ratos e ratazanas atacando o milho guardado.

Então agora chega, esta é a última carta que escrevo, pois nas férias não sei onde você estará. Você pode vir para casa e trazer os seguintes remédios: Aconitum, Belladonna, Sulfur e, se conseguir achar, o tal Pain Expeller que dificilmente se consegue e quando aparece é muito caro.

Você tem se correspondido com o Ludis [Ludvig Rose] e sabe o que ele anda fazendo? Você poderia passar as férias com ele [em São Paulo]. Quem sabe ele poderia arranjar um trabalho temporário [pra você], porque na cidade sem trabalho sai muito caro. E [você poderia] aproveitar para ver se o seu priminho está crescido.

Lembranças de todos,

Olga

Um choque | Arthur Leiman a Reynaldo Purim

Rodeio do Assucar, 9 de nov. de 1918

Querido Reinhold! O Senhor esteja convosco. Não sei se esta carta irá encontrá-lo lá. Ontem eu trouxe uma carta para o teu pai em que tu também me dirigiste algumas linhas. Obrigado. Hoje pela manhã o Arnolds trouxe aquela carta que escreveste para nós em geral. Agradecido.

Mesmo que não queira me queixar, não posso realmente dizer que vou bem. Semana passada recebi um choque, como que fosse de tempestade ou de um raio que me tivesse caído na cabeça, que me deixou tonto e quase desorientado. Não me considero culpado em hipótese alguma, mas alguns me acham assim.

As reuniões das quintas-feiras à noite, com muita tristeza, terminaram. Pode ser que depois do Ano Novo possamos recomeçar. Os cultos das quartas-feiras continuam, mas quando um dirige desagrada outro e às vezes, quando é outro, aí desagrada o terceiro. Outros não gostam do presidente, pois acham-no muito tolerante, sendo que deixa as coisas correrem com nada estivesse acontecendo.

Você pode se preocupar, quase se matar de trabalhar e a recompensa é esta. Até agora tenho trabalhado até os limites das minhas forças e dos meus conhecimentos nas Escolas Dominicais, distribuído literatura, dirigindo cultos, ensinado a cantar e música tanto em leto como em brasileiro. O grupo de brasileiros é de aproximadamente 38 pessoas, e dos letos um pouco menor. Mas o que se pode fazer?

Não queria sair para o bem da igreja, mas agora sinto do alto uma sensação como que alguém me determinasse a ir embora e mudar-me daqui porque minha missão já teria sido cumprida aqui, e uma pessoa com vontade não pode ficar entre aquelas que nada fazem e nada querem.

Este ano está havendo guerra. Vou esperar passar o Ano Novo e depois, aconteça o que acontecer, vou tomar a minha decisão. Também não pergunte a ninguém os motivos, pois o estrago pode ser maior.

Os gafanhotos que pousaram estão pondo ovos e nascendo aos milhares, como pequenos demônios.

A Escola Dominical está se aprontando para as Festas e, como sabes, tenho mais trabalho do que forças para dar conta.

O tempo está seco e eu estou cuidando de arar a terra, mas esta está muito dura. O arado vai trepidando, e à noite o corpo da gente está todo estropiado. Durante a hora do almoço tenho de mexer e cuidar das abelhas, e ontem sem mais nem menos uma me ferrou embaixo do queixo — mas mel, que é bom, este ano parece que vai ser pouco.

O que fazer? Teria ainda muito o que contar, mas estou a caminho para visitar o Onofre. Que tudo te vá bem –

Lembranças do teu Arthurs [Leimans]

Viagem a Tubarão | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto
[observação em português no original]

Rio Novo, 24 de outubro de 1918

Querido Reinold,

Recebi a tua carta, escrita no dia 3 de outubro em brasileiro em nome de E. Leimann, no dia 18 de outubro. Agradeço. Eu devia responder mais rápido, mas o tempo chuvoso e as estradas lamacentas não permitiram. Devido a isso a matança dos porcos gordos [também] não foi possível; como poderíamos transportar os mesmos para vender? Por isso não respondi, já que ninguém iria levá-la ao correio.

As tuas cartas também estão demorando. Recebemos os jornais e uma pequena cartinha e mais o Bolletin cor de rosa. A carta do Watson também foi recebida. E quanto à convocação e os regulamentos militares, não gostamos nada, principalmente quando [soubemos que] você poderá ser chamado. Aqui sobre estas coisas pouco se fala.

Quanto ao nosso bem-estar, graças a Deus estamos muito bem. Serviço é que temos bastante: temos que capinar e plantar, e quando a gente termina num lado, o mato já está nascendo do outro.

Agora faz um mês que está quente, chuvoso e úmido que até parece janeiro ou fevereiro. São chuvas de trovoadas, mas temos medo que venha algum período de seca. Milho já plantamos cinco quartas, perto da roça da ponte; na roça atrás do mato plantamos arroz, mandioca, aipim grande, batata inglesa e amendoim.

Quanto às coivaras, ninguém consegue “fumegar”, pois estão ficando verdes e bonitas outra vez e quase não se distingue o que é uma coivara de mato por aí. Este ano tivemos visitas da Argentina [gafanhotos]; aqui em nosso terreno poucos tem aparecido, mas lá nos Klavin e nos Leimann passaram imensas nuvens. Por sorte não desceram, foram pousar bem longe na terra dos italianos, onde estão pondo ovos.

Aproveitando, enquanto me lembro, o Arthur Leimann manda muitas lembranças para você e para os seus colegas.

Agora vou escrever alguma coisa de novo: nossa viagem a Tubarão.

Tu tens viajado de trem muitas vezes, agora eu, desta vez foi a primeira — mas “quem toma gosto por viagens voltará a viajar”. Aqui o governo ofereceu passagem para as pessoas que quisessem votar para intendente; teriam que ir a Tubarão preparar uns papéis [de qualificação eleitoral], pois naquela primeira eleição não deu nada e por isso estavam procurando novos eleitores — dando passagem gratuita, refeições, pagamento do hotel, e tudo faziam para que fossem até lá. Mas havia uma condição: só podia votar quem tinha propriedade. Então Papai foi e aproveitei para ir junto, mas não comece a pensar que fui para votar também.

Nós pensávamos de aproveitar a viagem para lá comprar alguma coisa mais barato, mas não encontramos nada mais barato que em Orleans. Para não dizer que nada era mais barato, tinha o café, que em Orleans era 2$000 o quilo e lá era 1$500.

Nossa viagem foi no dia 26 de setembro. Fomos a pé na véspera até Orleans; eu pernoitei na casa dos Stekert e Papai foi para a casa do João Feldmann. Naquela viagem éramos seis letos: os Leimanns, o Arnoldo Klavin e o Willis Elbert. Pela manhã o tempo estava magnífico, mas mais tarde começou a ficar nublado e a soprar um vento frio e terminou ficando um dia até bem escuro.

Em Tubarão nada de bonito cheguei a ver, e sim estava cheia daqueles árabes velhacos. Comprar em Orleans é muito mais tranqüilo, pois os donos das vendas são todos conhecidos e são muito mais confiáveis.

À noite estávamos de volta e a Luzija foi me buscar com a “Marsa”. Papai não voltou naquele dia; a noite estava por demais escura e depois ainda começou a chuviscar. Voltamos todos montados de Orleans: eu a Luzija, os Klavin e os Leimann. Chegamos bem em casa, apesar da negra escuridão, que podia até furar os olhos. Ainda não sabemos quem será o novo intendente.

No dia 15 faleceu o velho Wilmans e no dia 16 foi feito o funeral. Ele toda vida morou em Mãe Luzia, mas quando doente, sem mais poder se cuidar e nada mais poder fazer, voltou a morar com a mulher em Rio Novo.

Na noite de 16 de outubro teve a festa de aniversário da União de Mocidade da Igreja de Rio Novo. Como foi a festa eu não sei, as estradas estavam lamacentas, tanto que quando as pessoas passavam fazia barulho. Foi servido café com mistura e isso custou $300 por pessoa.

No dia 9 de outubro foi a festa do Jubileu de 25 anos da Igreja Batista de Mãe Luzia e para tanto foi convidada a nossa igreja e também a do Rio Novo. Da nossa igreja foram o Robert Klavin e do Rio Novo uns quatro. Como foi o Jubileu não sei ao certo, mas é possível que o Roberto te escreva contando.

Na quarta feira passada, dia 24 de outubro, foi o casamento do Jahnis Frischembruder com a Laura Seeberg. O casamento foi memorável, como bem merece uma filha única. Mas a Laura “não tinha alimentado o cachorro nem o gato”: o tempo já estava chuvoso, mas nem no dia anterior nem no dia depois choveu tanto como naquele dia. Deste a alta manhã roncava trovoada, relampejava e caía água.

Todos os moradores da localidade foram convidados, menos nós. De Orleans foi convidada a banda de música, bem como outras pessoas importantes que não vieram ou não puderam vir. A solenidade na igreja foi às 12 horas, e depois todo cortejo subiu o morro em direção a casa dos Seeberg. Lá houve a maior comilança e beberança da paróquia, e não sei quantos centos foram gastos na festa do casamento, pois tudo devia brilhar e reluzir. Além disso, em toda a colônia nenhuma moça teve um enxoval tão completo e tão grande como o dela — teriam sido gastos milhares de réis.

Tempos atrás o Victor Karklin esteve interessado em se candidatar a “genro”, mas não se apressou o suficiente e o outro passou ele para trás. E por isso também não foi à festa. Os Karklin teriam dito que se soubessem de tanta riqueza no dote, teriam se apressado mais; também eles só procuram as riquezas e estas não são muitas.

A segunda festa do casamento foi no domingo na casa nova, defronte aos Frischembruder, recém-construída no outro lado rio, onde era a antiga colônia dos Match. Esta casa foi construída de tijolos e seria a melhor de toda colônia, especial para o Jahnis.

Há pouco tempo houve noivado da Ana Burmeister com o Alfredo Leepkaln. Quem não gostou foi a senhora Wilman, pois parece que queria o moço para a seu genro e viu a sua filha ser preterida. A “distinta” pôs a boca no trombone e depois chegou a conclusão que não perdeu tanto, pois esse moço Leepkaln não é muito afeito ao trabalho.

Pode ser que em breve o Arnold Karklin e o Augusto Felberg viajem para São Paulo. O Jurka tem escrito que lá em Nova Odessa que qualquer um ganha 2$000 por dia e assim eles também iriam para Leijputriju [NOTA: Pronuncia-se “Leiputriu” e é um lugar fabuloso e imaginário onde mana o leite e o mel, equivalente a Shangrilá ou El Dorado]. O Matiss, que também está lá, escreve que lá tudo é caro. O que adianta ser tudo tão caro, se nada se tem para vender?

Bem hoje chega, outra vez escrevo mais. Muitas lembranças de todos. Fico aguardando longa carta sua.

Olga

PS [Escrito à lápis]. Junto estou enviando 100$000. Recebemos a carta escrita em 7 de outubro e também os jornais. Se puderes venha para casa, mas se tem lugar onde ficar decida você mesmo o que quer. Orleans, 01 de novembro de 1918.

Os dedos começam a congelar | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 21 de junho de 1918

Querido Reinold,

Primeiramente envio muitas lembranças. Há muito tempo estamos esperando alguma carta sua, mas como não vem, o que se há de fazer. A última recebi no dia 9 de maio e em seguida preparei uma longa carta em resposta; junto mandei um pacotinho e sei que você a recebeu pelas anotações nos jornais. Mas a resposta não recebi nem junto com os jornais nem avulsa. Às vezes penso que tenha sido extraviado ou que alguém tenha tirado e não entregue. Os Boletins temos recebido regularmente.

Desta vez não tenho muito o que escrever. Nós vamos bem. Estamos com saúde, apesar da tosse estar na moda. Isso porquê o tempo é muito irregular. Até agora [os dias] eram sempre quentes, mesmo quando chovia ou quando o sol brilhava. Esta semana teve chuva, mas a temperatura em geral esteve muito quente; porém começou soprar um vento frio e logo limpou o tempo e em seguida, ontem pela manhã, deu a primeira geada do ano.

A geada chegou até a nossa casa, mas não era das grandes. Neste ano ainda não tinham ocorrido geadas em nenhum lugar por aqui. Ontem pela manhã, com a geada, o tempo estava limpo, mas com o passar do dia começou a ficar nublado e continuou muito frio. À noitinha começou uma chuva muito fria, mas hoje já não está tão frio.

As chuvas são tão frequentes que nos impedem de bater o feijão, apesar de não ser tanto que ainda falta. Estão arrancadas já há bastante tempo, e a colheita também levou muito tempo por causa do tempo chuvoso. Este ano não fizemos a eira na roça devido à umidade. Batemos o feijão no terreiro. Atrelamos o Bosi e vamos buscar na roça perto do mato ou aquela perto do cedro, carregamos de feijão por bater e trazemos para casa. Se o tempo ajudasse já teríamos terminado. No ano passado, antes do São João, o paiol estava quase cheio de milho, mas este ano o tempo não deixa.

[Leia sobre o cultivo do feijão]

[NOTA: O cedro mencionado era um pé de Cedrela brasiliensis – Cedro branco. Havia outras variedades de cedro: Cedrela fissilis – Cedro vermelho; Cedrela sp — Cedro rosa. O menos nobre era o cedro batata, que por ser muito macio e tenaz, era usado para fazer as “cantadeiras”, que eram os mancais dos eixos dos carros de bois. Já os próprios eixos eram feitos de madeira bem dura como a peroba ou o pau jacaré (Laplacea semiserrata) que é uma árvore espinhenta, mas depois de seca se torna dura e resistente]

Fizemos uma cerca nova na parte baixa do pasto, na divisa com o terreno da igreja, pois a velha estava muito podre. O Augus [Augustin] não saiu da zeladoria da Igreja; parece que o Peteris não tinha amigos em quantidade suficiente para votar nele. Outra razão: como ele não ia plantar nada, a comunidade teria que sustentá-lo.

Não faz muito tempo faleceu o velho Rebeins e, pouco tempo depois, a esposa. Logo em seguida Emilio e o Rodolfinho casaram, não sei se com brasileiras ou italianas.

Ainda uma novidade: no dia 6 de junho, logo depois do meio dia, do lado do morro do Grikis, começaram vir gafanhotos, mas numa quantidade imensa como nunca tinha visto antes. Perto da nossa casa eles não pousaram; todos seguiram em direção do morro do Leepkaln.

Era uma nuvem tão densa que escureceu o sol e um ruído com fosse um prenúncio de uma tempestade. Começaram a surgir às 13h30 e terminaram de passar às 15h00; tivessem pousado seria uma camada muito grossa. Na nossa Bukovina eles pousaram, mas o prejuízo foi pequeno, pois comeram as folhas e baraços das abóboras e o milho estava a salvo, porque já estava seco. Por isso eles não ficaram e seguiram em frente. Esses gafanhotos eram diferentes, porque aí para frente só pousavam para se alimentar e iam embora.

Bem, agora chega os dedos começam a congelar e amanhã terei que ir à cidade. Quando receber alguma carta, sua, vou escrever mais. Escreva bastante, pois semana que vem você deverá estar em férias.

Os chapéus não ficaram grandes demais? O que você fez na Festa do Verão? [NOTA: Festa da ascensão do Senhor — no hemisfério norte era verão]. Aqui esse dia foi realmente de verão: quente e seco. Neste dia o Robert [Klavin] e o Arnolds [Klavin] foram para as Serras.

Ainda muitas lembranças do Papae, Mamae, Lusija, Arthur e

Olga

Atirou três vezes | Arnolds Klawin a Reynaldo Purim

[carta em português, apresentada na grafia original]

Rio Novo, 7-2-1918

Caro amigo,

Não sei se a minha ultima carta tens recebido ou não. Assim com esta é a primeira carta neste ano então desejo a ti feliz anno novo com muitas Bençans do Pae Celestial!

Eu por enquanto vou bem. Espiritualmente vae assim com ovelhas sem pastor é muito sensível a falta de um pastor aqui. Na última sessão da egreja foram excluídas as irmãs Charlota Bess e Augusta da Silva porque a vida delas foi em desharmonia com a palavra de Deus.

Houve uma questão forte sobre si os membros que casarem-se com os de fora (agora já e riscado o ponto nos estatutos que os membros da egreja podem se casar com incrédulos); alguns quiseram excluir todos que tem feito assim mas esta vez isto não se deu.

Pediram cartas demissorias A. [Arthur] Leimann e Guilherme Paegle. O ultimo para unir-se com a egreja do Rio Novo e o primeiro para ir para a Argentina.

Elle já foi se despedir da família Guedes Ribeiro; quando voltou ele disse que a Clarinha Guedes R. Terá casamento no dia 4 deste m. Elle também já procurou pasaporte e parece que brevemente vae viajar, mas — mas a amizade entre os dois já certos é bem forte e é por causa disso que elle precisa ir embora porque a mãe delle nem quer ver tal coisa, e em casa até aquela M.M. tem recebido palavras bem duras, mas eles disseram que foi gente que fez callunias delles. Uma vez o A. veio acompanhar-nos depois do cullto da noite e veio até quelle paredão e dalli voltou e pegou a conversar com B. e sabe lá que hora acabaram. A falta delle será me bem sensível porque elle mesmo tinha dito que M.M. para diante quer retirar-se da Escola Dominical então o peso será sobre mim. Roberto está com tenção de ir para Serra e eu quem sabe quanto tempo ficarei aqui.

Oscar Karp atirou 3 vezes um ladrão e o filho do Pedro Buschis também atirou um home o qual tabem morreo.

Nos agora plantamos feijão preto e mulatinho e já temos um saco e meio plantado. O milho do cedo ficou bem atrazado devido a seca . Em Minas [NOTA: Hoje Lauro Müller] agora estão trabalhando muito, dizem que tem 300 trabalhadores.

17-2-18

Os gafanhotos pequenos já são grandes e vocês decerto já sabem que o Guilherme Paegle casou com a Erna Hauras e já dizem que ele é um dos sorteados (foi desmentido). Nos temos plantado 2 sacos de feijão e 200 litros de milho e tudo está regular.

Muitas lembranças tabém do Theodor.

A. [Arnolds] Klawin

Adeus cartas longas | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 27-12-17

Querido Reini,

Recebemos a tua carta, escrita em 5 de dezembro, no dia 23 de dezembro. Obrigado. Foi uma longa espera e nem sabíamos onde você estava. Tu escreves que mandou uma carta ainda do Rio, mas esta ainda não chegou. Os desenhos recebemos junto com dois rolos de jornais. Os pacotes de desenhos tinham sido abertos pela censura, mas os rolos de jornais não, portanto você pode escrever nos espaços vagos dos jornais que eles não abrem. Dia 22 de dezembro te mandei um cartão escrito em leto, vamos ver se chega. A mulher do correio falou que as cartas escritas em leto não serão mais abertas, mas esta tinha sinais que tinha sido aberta. A censura pelos correios não é uma coisa boa, mas muito mais difícil se as cartas tiverem que ser escritas em brasileiro — se for assim, adeus cartas longas, porque nesta língua a gente não tem facilidade.

Agora tenho tanta coisa para escrever que não sei se vou conseguir fazer pela ordem… Nós estamos passando bem, estamos todos com saúde, e nenhuma calamidade aconteceu depois daquela tempestade de fogo que varreu toda região. Pela minha carta anterior você deve ter percebido que condições precárias nós passamos.

Oh. Foi a situação mais crítica de toda nossa história. Neste ano o 15 de novembro, maior Feriado Nacional, deverá ser gravado com letras de ouro. Quantas famílias perderam tudo! Só abaixo da serra mais de vinte casas de brasileiros ficaram um monte de cinzas. Propriedades inteiras ficaram irreconhecíveis: cercas, árvores, pastagens e plantações viraram uma mancha negra. Até para os Klavin, faltou muito pouco para perderem a casa e as demais dependências. Foi quase sorte: juntaram muita gente e durante o dia inteiro usaram escadas para molhar os telhados, paredes e cercas, isso no meio de uma nuvem de fogo e fumaça.

Este ano foi um ano cheio de tragédias. No começo de ano as enchentes, depois as grandes geadas, a neve, os gafanhotos, um mês e meio de seca imensa e depois, para completar, o fogo.

Você pode imaginar como tudo ficou ressequido depois de tanto tempo que não chovia: os pastos estavam tão secos que o gado nada tinha para comer. Começamos a trazer folhas do mato [grandiuva] até dezembro, mas já estava faltando e tínhamos de ir longe nos matos e capoeiras em busca do pouco verde que restava para os animais. Também dávamos espigas de milho (as pequenas), mas já estavam acabando. Ainda bem que dia 1° de dezembro começou a chover, e choveu sem parar por dois dias e meio: agora está tudo verde.

Este ano as plantas não cresceram o que seria esperado. O milho plantado no cedo, se não continuar a chover, não vai dar nada. Em muitos lugares o milho não tem um metro de altura e já está soltando o pendão. O milho terminamos de plantar no dia 15 de dezembro, e no total plantamos 16 ½ quartas. Nunca tínhamos plantado tanto quanto este ano. A batata inglesa [kartupeles] cresceu um pouco, mas depois secou tudo. Só aqueles plantados no tarde estão verdes.

Perto de Orleans apareceram novamente gafanhotos, também em Rio Laranjeiras, Rio Belo e Braço do Norte. Perto de Orleans tive oportunidade de ver uma nuvem deles, as beiras das estradas tão cheias que chegavam a chiar; ainda bem que não estão em toda a parte. Onde eles estão eles comem tudo e começam pôr ovos. O governo determinou que as pessoas não atingidas fossem trabalhar dois dias, pelos menos, matando os filhotes [NOTA: Abriam-se valetas e espantavam-se os filhotes para dentro, cobrindo-os em seguida com terra]; nas roças tudo fácil, mas nos matos e nas capoeiras nada havia o que fazer. Se os que sobrarem subirem o Rio Novo, vão comer tudo. Esperamos que sigam para o leste, para onde foram os adultos. Para baixo de Orleans falam que tem muito mais, que na estrada de ferro não se consegue enxergar os trilhos. Os filhotes são pouco maiores que moscas, com um risco cinza nas costas; ainda não tem asas
mas são muito espertos para pular.

Semana passada comecei escrever esta carta, mas como durante as festas ninguém foi a Orleans, perdi a pressa de terminar esta. Hoje, dia 30 de dezembro, o Roberto [Klavin] trouxe a sua carta escrita em 10 de dezembro. Muito obrigado. Estou muito feliz porque você está passando bem. Você pergunta se aquelas cartas enviadas do Rio chegaram: não, a última escrita do Rio foi aquela datada 16-11-17.

Como foi o seu exame? Você não recebeu o último boletim da tua escola? Se você mandou, deve ter-se extraviado. Quanto aos desenhos, são os últimos? Eles são lindos e servirão de moldes para as minhas costuras. Você levou a sua caixa de coisas junto? Desta vez vou fazer muitas perguntas e aguardar longas cartas. Você está em férias e tem tempo bastante para escrever.

Bem, preciso escrever sobre as festas de Natal. Este é o primeiro Natal que passamos sem você…… Bem, mas tudo correu muito bem, passamos alegres e fazia muitos dias que o tempo não estava tão lindo. Não está quente demais e havia um luar muito lindo. Naquele domingo antes das festas estava chovendo e estávamos temerosos, pois poderia atrapalhar as programações, mas a chuva logo parou.

No Rio Laranjeiras estava programada a festa com pinheirinho e tudo para o dia 24, mas este dia amanheceu brusco e parecia que logo iria chover; felizmente, lá pela hora do almoço começou soprar um vento seco que dispersou todas nuvens, então alegres pudemos nos aprontar para a viagem.

Saímos às 4 da tarde e chegamos lá antes de escurecer. A estrada estava inteiramente seca mesmo dentro da mata virgem, lá onde na vez passada, na Páscoa, havia aquele lamaçal horrível. Por coincidência, éramos novamente treze pessoas: Arthurs, Arnolds, Juris, Augusts, Ernest Slengman, Ema, Lonija, Isolina, Milda, Schenia, Lusija e eu. O Roberto estava lá desde domingo. O pinheirinho era igual do ano passado e no mesmo lugar. Não tinha tanta gente como no ano passado e o programa não foi tão longo.

A festa foi dirigida pelo Roberto, que é da Escola Dominical daquela Congregação. A escola tem 24 alunos matriculados e as entradas do ano, com o saldo do ano passado, perfazem mais ou menos 30$000; as despesas, 18$000, ficando um saldo de 20$000 para o próximo ano.

Este ano não foram feitos bolos [kukas] porque está tudo muito caro. Foram comprados em Orleans, nas padarias, onde saiu mais barato, bem como os bombons [bombongas] para as crianças. Os presentes foram muitos.

Agora vou contar quais os hinos foram cantados e daí você pode cantar e fazer de conta que participou da festa. Pela E.D. de Rio Laranjeiras, foram cantados dois hinos, os de número 210 e 438 do Cantor Cristão. Todos juntos cantamos 4 hinos: os de números 18, 217, 225 e 242. Dois hinos foram cantados pelos vicitantes que vieram para cima, os de números 248 e 446. Então ainda cantou um trio masculino — Roberts, Arnolds e Arthurs, — o hino 444: “Sejais Corajosos Povo de Deus”. As poesias eu não teria como transcrever. Todo o povo participou com grande reverência.

Depois do término tomamos café e saímos de volta para casa. O cansaço apareceu na subida daquele grande morro, mas de modo geral saiu tudo bem, pois não estava nem quente nem frio. Chegamos em casa a uma e meia da madrugada. Só música não houve; não porque não tivessem sido levados os instrumentos, mas porque não foram levadas cordas de reserva e deu azar de terem arrebentado algumas — e deu no que deu…

Nos Leiman [sede da Igreja de Rodeio do Assucar] o pinheirinho foi aceso dia 26 Dez. Lá houve um programa mais longo do que no ano passado.

A festa foi dirigida pelo Arthurs [Leimans]. Poesias houve vinte e uma: dez em leto e onze em brasileiro. As em brasileiro foram declamadas por Arnolds 1, Juris 1, Augusts 1, Vilis Slengmann 1, Isolina 1, Emma 2, Milda 1, Luzija 1 e eu 1. Não posso te transcrever pois não sei onde foram encontradas. Os professores entregaram, mandaram decorar e pronto. As poesias em leto foram apresentadas pelos mesmos.

Hinos foram cantados doze: sete em leto e cinco em brasileiro. A Escola Dominical cantou os hinos do Hinário Bernu Kokle números 125, 127, 137, 109, e 134. E ainda cantaram em trio Emma, Lonija e Milda o de número 78, enquanto o Arthurs acompanhava com a guitarra. O Ernesto, Emma e Lonija Slengman cantaram o hino 7 do Musu Dsiesma Gramata, seção Ceribas Auseklis. Pela Escola Dominical os alunos cantaram em brasileiro os números 76, 161 e 247. O Arthurs fez solo do hino 220 do Cantor Cristão acompanhando da guitarra e também do violino do Roberts. Ainda a Milda e Isolina cantaram o número 73 do Cantor Cristão. Agora você sabe quais hinos foram cantados. Foram apresentadas duas músicas instrumentais do hinário inglês. O programa ficou um tanto longo.

Nunca tinha havido tanta gente: brasileiros, italianos mas muito mais rionovenses [NOTA: Membros da igreja batista rival, de Rio Novo], a juventude quase toda. Até os velhos Karklim também estavam. Para abrir mais espaço, o Matiss ajeitou lugares atrás das janelas. Assim pudemos bem recepcionar os “inesquecíveis” visitantes rionovenses. Barulho ou qualquer movimento não foi permitido pelo encarregado da ordem, o Juris Klavin, que ficou no lado de fora. Ficaram tão comportadinhos que lembraramvque não estavam em sua Igreja do Rio Novo.

Neste dia tive a oportunidade de ver as beldades do Rio Novo, antigamente não apareciam como agora vão… Pelas estradas sempre estão aos pares, e junto de cada rapaz vai uma mocinha. Ninguém sabe como vai terminar essa grande loucura…

No dia 25 de Dez. os rionovenses comemoraram o seu Natal. No pinheirinho havia somente treze velinhas, e estas eram curtas e acabaram logo. A Escola Dominical é tão grande que quase não se pode enxergar… Mas para o próximo ano o professor Butler vai tomar as rédeas e fazer todos os pequenos e grandes participar da E.D. — se não os novos ficam mal acostumados e ficam por aí.

Nas cartas passadas escrevi que o Oscar ia se casar, mas até hoje não saiu nada. As promessas eram muitas mas até agora nada, e porque também não sei. No domingo passado na casa de “T” houve o noivado de Laura e João. Agora “T” e ”S” são tão parentes que é de se admirar. Antes “T” e “S” não podiam nem se ver, agora se beijam.

Logo parece que vamos ter o casamento do Vilis Paegle com a Erna Auras. Agora saiu uma lei na Justiça que no ano que vem só poderão casar os que tiverem se inscrito este ano, e o motivo é a convocação para servir o Exercito. Por isso os meninos estão correndo para casar. E ainda há um papo de que se por acaso for casado e convocado, passará a receber um soldo muito maior que o solteiro. Não sei se estas novas da justiça tem alguma lógica ou se são só para se ganhar dinheiro com mais casamentos.

Sobre os feitos heróicos dos rionovenses eu teria muito o que escrever, mas deixa prá lá. Não vale a pena escrever.

Agora, o ano no fim, vou descrever o nosso balanço com as entradas e saídas. Neste ano vendemos 70 arrobas de toucinho que renderam 709$590. Banha, 69 quilos por 69$00. Das abelhas mel e cera, 98$000. Manteiga, 21 quilos e 37$500. Ovos, 189 dúzias e 66$300. Feijão, 11 sacos, deram 110$000. Total de entradas, 1:101$890; saídas, 374$320. Saldo: 726$970.

Este ano as entradas foram maiores e as saídas menores do que no ano passado. Agora está tudo mais caro, o feijão já está a 17$000 a saca, o toucinho 13-14$000 a arroba, e o que a gente compra é três vezes mais caro do que antes.

Dias atrás em Orleans saiu uma conversa de que teria chegado um telegrama informando que a guerra tinha terminado e que a Alemanha derrotada havia pedido a paz, pelo que houvera grandes festas em Orleans.

Bem, chega. Vou esperar uma longa carta sua. Tu podes escrever em leto e colocar no rolo com jornais, e assim vão chegar sem ninguém abrir. Aquelas fotografias dos seminaristas você chegou a nos mandar?

Com sinceras lembranças para vocês todos,

Olga

Destruição e pavor | Roberto Klavin a Reynaldo Purim

Antunes Braga, 18-XI-917

Querido amigo,

A tua carta escrita em 29/10 recebi na quarta-feira e já respondi com um cartão postal, prometendo que ia escrever mais logo que possível.

Já no cartão mencionei as terríveis queimadas, e agora soube de mais notícias destas. No Rodeio das Antas queimaram quatro casas, fora o resto: matas, capoeiras, pastos, cercas, etc.

Aquele fogo que queimou toda a nossa propriedade começou numa queimada de um vizinho e depois de ter atravessado a nossa colônia continuou Antunes Braga afora. Foi muita sorte que não queimou nenhuma casa, mas como já disse antes, nem matas nem roças, nada escapou. Na quarta-feira eu queria ter escrito uma carta para você, mas os olhos ardiam tanto que quase não conseguia aguentar.

Na quinta-feira, quando ia para Orleans, outra vez pude observar os estragos causados pelas queimadas. Nas terras dos Karklin, do Stekert, do Wilis Balod e da Anlise, há lugares em que queimou até a estrada. No Alto Rio Novo, onde você morava, não queimou tanto, mas lá embaixo, perto dos Paegle, os italianos deixaram queimar quase tudo. Lá do outro lado do rio de Orleans [Nota: Rio Tubarão] também queimou a colônia do Hermman Balod. Também o Rio Belo e o Barracão sofreram violentas queimadas.

Hoje fui a Laranjeiras. A mata dos fundos do terreno do Willis Slegmman tinha queimado tudo. Parece que o fogo veio do lado dos italianos. Lá no Caciano não tinha nada anormal, mas eles contaram que lá no Rio da Vaca o fogo desceu as serras empurrado pelo vento, causando destruição e pavor. Lá também queimaram quatro casas. Mas fogo mesmo foi no Rio Importe, onde queimaram 17 casas e tudo mais.

Agora chegou uma notícia de que no Rodeio das Antas não queimaram quatro casas, mas sim em outro lugar. A antiga casa que era do Janis Grikis, que agora era de um italiano, queimou tudo, ficando de pé somente a chaminé.

O João Thomas da Silva [de Rio Laranjeiras] também passou maus bocados e sofreu muito com esse pesadelo. Queimou tudo, do pasto ficou somente a terça parte. Queimaram todas as roças plantadas e cercas, e chegou mesmo a pegar fogo no paiol; se queimasse o paiol certamente a casa ia também. Para apagar o fogo no paiol, dispenderam esforços desesperados. Quando acabou a água, terminaram usando lama mesmo: a casa escapou mesmo por um milagre. O calor do fogo era insuportável, a fumaça não permitia que vissem nada e deixava todo mundo sufocado. Tudo ao redor queimou sem sobrar nada. Ainda agora ainda estão perplexos, não entendendo como suportaram aquele inferno. Até as roupas que usavam ficaram inutilizadas pelas fagulhas que vinham do fogo e da fumaça. O calor era tanto que sentiram que tinham chegado ao limite da resistência e da exaustão. Era realmente uma luta de vida ou morte.

Tem muita gente contando que os gafanhotos estão atacando a região de Minadouro. Dizem que são tantos que formam grossas camadas. Aqui eles também passam, mas voando alto e não pousam; isso acontece quase todos os dias.

Muitas lembranças minhas, que Deus de auxilie e guarde.

Roberto [Klavin]

PS. Na quarta-feira que vem vou para a casa de Onofre Regis, onde me aguarda bastante serviço, tanto na área material como na espiritual.