Depoimento de J. A. Zanerip | Um ataque iminente de índios bugres

Primeira parte

Em primeiro lugar quero aqui contar os fatos ocorridos antes da minha existência, narrados pela minha mamãe. Não posso contar nada que tivesse sido contado por papai, porque ele faleceu quando eu só tinha pouco mais de três aninhos de vida, e do papai quase não lembro nada.

Contou-me Eva Grimberg Zanerip, minha mamãe, que logo depois do desembarque no porto de Laguna, estado de Santa Catarina, um grupo de letos e alemães fizeram uma festa de confraternização. Cortaram duas varas compridas e improvisaram duas bandeiras, da Latvia [Letônia] e da Alemanha, e como os alemães e meus pais eram bons luteranos, encheram a cara de schnabs [cachaça]. No dia seguinte pegaram o trem para Orleans. Por incrível que pareça a foto tirada na ocasião ficou comigo até a festa do Centenário na Colônia Varpa em 1992, quando entreguei ao pastor Osvaldo Ronis, para ser juntada a outros documentos históricos.

Na verdade a chegada dos primeiros letos [ao Brasil, em Santa Catarina] não se deu em 1892, como é narrado incorretamente no livro Uma Epopéia de Fé, escrito pelo pastor Ronis, mas sim em 1890.

Chegando em Orleans seguiram por uma trilha que ziguezagueava dentro da mata até o acampamento já preparado por colonizadores em Rio Novo.

Meus pais e outros letos permaneceram algum tempo por lá, mas não gostaram por ser bastante montanhoso. Alguns letos foram para Mãe Luzia. Os Zanerip, acompanhando alguns alemães, foram mais longe, onde as terras eram mais semelhantes às da Latvia [Letônia]: um lugarejo chamado Araranguá (mais tarde minha terra natal).

Ao chegar ao acampamento, tiveram a triste notícia de um ataque iminente de [índios] bugres, como eram chamados. Sabendo que o ataque seria inevitável, prontamente escolheram um alemão chamado Guilherme Hans para organizar a defesa.

Esse alemão era o mais abastado da região; sabedor que vinha para uma terra ainda coberta de matas virgens, onde havia muita caça, tinha trazido muitas espingardas e muita munição — um verdadeiro arsenal de guerra. Ele determinou que se carregassem as espingardas até a boca com chumbinho mostarda [fino] para não matar ninguém. A uma distância de 100 metros nem atravessa a pele, mas dá uma tremenda chamuscada. O chumbo grosso seria usado em último caso, pois não se queria a morte de ninguém.

Na véspera do ataque a noite passou calma, mas ao amanhecer os índios atacaram com uma tremenda gritaria, e foram recebidos com uma tremenda salva de tiros.

Pobre da bicharada, não puderam sequer se aproximar do acampamento. O chumbinho fino fez uma cortina, e foi suficiente para que os bugres fugissem apavorados, mas foram perseguidos até os costões da serra, e lá se esconderam entre os paredões de rochas.

Na fuga abandonaram uma criancinha, uma menina, que foi adotada e criada por um casal que não tinha filhos, o senhor João Akeldamis e senhora. Mais tarde eu a conheci, era uma linda menina moça.

* * *

[continua…]

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