História de Emílio Anderman 4ª Parte –

M E M Ó R I A S

De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

LEIA TAMBÉM EM “CRONICAS HISTÓRICAS” NESTE MESMO BLOG O ARTIGO “MEU PAI CARLOS ANDERMANN”

O TEOFILO COMO MENSAGEIRO

Isto aconteceu no dia 29 de junho, num domingo de manhã. Nós tivemos um culto muito demorado. Ainda estávamos orando a última prece quando o meu irmão Teófilo levantou-se e começou a olhar firme em volta. Até parecia que ele tivesse recebido notícias novas, edificantes. Ele sorria e ao terminar ele nos explicou que recebeu a incumbência de visitar a Igreja Batista para transmitir um recado. Todos ficaram admirados, os crentes se entreolharam e a minha mãe permitiu que ele fosse.
Rapidamente apanhou o chapéu e foi em frente, fechando a porta atrás de si. Depois Jacob Klava me contou o que havia acontecido: “Eu havia terminado o culto quando entrou o Teófilo que se sentou”. Terminado o último hino o nosso visitante se colocou em pé e indo lentamente para o lado da mesa disse:
“Hoje eu tenho de dirigir-lhes a palavra”.
Respondi: “fale”. Ele se aproximou da mesa apanhou a Bíblia eu folheava a procura de um texto. Finalmente se ateve no Apocalipse de S. João, leu alguns versículos e começou a exortar nós para que deixássemos os pecados. Eu respondi que isto nós já havíamos realizado. Depois ele falou sobre a próxima vinda de Cristo e nos lembrou de para que alvejássemos as nossas vestes e nos preparássemos para este acontecimento que seria em breve e que nós não teríamos acesso ao céu se não nos humilharmos perante Deus. Terminada a fala ele foi embora”.

MÊS DE AGOSTO

Todos os Letões, com exceção dos Pentecostais continuamos as nossas horas “de música e canto”. Também neste mês J. F. Frischenbruder nos começou a ministrar aulas noturnas pelas quais pagávamos 2$000 (dois mil reis) por mês.
O Silvestre trocou uma colônia de 25 hectares, por dois e meio da nossa terra, próximos a sua venda. Ampliei a cerca, aumentei a extensão do pasto, e abri uma grande vala para drenagem através da nossa colônia. Em 21 de agosto o meu pai tirou os meus irmãos da escola. Este passo me magoou sobremaneira.
A família de João Sudmalis mudou-se para morar em Mãe Luzia em 7 de agosto. Nós todos os patrícios fomos recebê-los na estação de Criciúma.

MÊS DE SETEMBRO

Os meus tios Karklis por parte da minha mãe, conforme notícias estão se desentendendo. Consta que a minha tia ficou tão nervosa que muitas vezes sofre de câimbras. Recebemos uma carta dele na qual diz que seria muito bom, se por uns tempos, ela pudesse viver em Mãe Luzia, por que a sua saúde estava abalada. Ela viria em companhia de Ernesto; mas em troca mandássemos a Lídia ou Mely para substituí-la na cozinha. Ficamos de acordo.
O tio Rodolfo resolveu viajar para a Linha Telegráfica, para visitar os pentecostalistas e assim conseguir alguma santidade; por que, depois que Strauss foi embora, nossa situação voltou a ser anterior. Como companheira de viagem ele escolheu a minha tia Lídia, que aceitou o convite com alegria.
Juntos tomamos o trem em Palmeiras; Rodolfo e Lídia com destino para Blumenau: eu e Melly para Rio Novo, onde ela ficou de cozinheira e eu Ernesto voltamos para Mãe Luzia.

MÊS DE OUTUBRO

Outra vez chegaram nuvens de gafanhotos que destruíram os nossos pastos e ficaram pulando em procura de um lugar para desova.
Eu e o primo Ernesto trabalhávamos com todo vigor limpando a terra na nossa nova Colônia. Neste mês também faleceu o filho do meu tio João Andermann que apenas teve alguns meses de vida.
O funeral foi dirigido pelo meu avô Ans, numa reunião muito solene; o meu pai e a minha mãe também falaram.
Uma tempestade destelhou a nossa casa.
O meu tio Rodolfo e a Lídia já retornaram de Linha Telegráfica e junto vieram 6 espiritualistas; a Ida, Zelma, o velho Strauss, o Alexandre com sua esposa e um irmão deles. Eles chegaram muito tarde de noite, pois haviam caminhado a pé de estação até em casa; voltaram enlameados, mas felizes por que finalmente chegaram a casa. Os Pentecostalistas já haviam terminado a reunião e este encontro também me deu alegria. A tia Lídia e o Rodolfo contaram coisas boas sobre esta viagem. O Rodolfo recebera o batismo do Espírito Santo e o dom de falar línguas. Também a tia Lídia acompanhou a dança, bateu palmas e também foi contemplada com o dom das línguas, mas em grau menor.

AS REUNIÕES

Agora não se trabalhava mais. Os cultos eram realizados diariamente com as tais manifestações que trouxeram os espiritualistas da Linha Telegráfica. Os nossos Pentecostalistas agora começaram com toda a seriedade, suplicar a Deus e clamar dele o dom destas manifestações extrovertidas.
A primeira reunião aconteceu no dia 15, sábado das 9 as 12. Eu anotei o seguinte: Não tive nenhuma intenção de encontrá-los. Deixei o culto depois das orações. “A profetiza então comandou: “em fila, em fila” então todos formaram um círculo, de cócoras batiam palmas de toda maneira cantavam louvores com ‘tra-la-la-la” em compasso. Passou me um frio pela espinha; por que o que eu presenciava pareceu uma desgraça. As preces, as orações foram sinceras, as línguas faladas eram espetaculares; mas aquela dança, aqueles pulos de louvar eram uma verdadeira loucura.

DIA 16 DE JULHO À TARDE

O culto foi iniciado cantando hinos, mas escolhidos principalmente aqueles que falam do amor de Jesus. Então tiveram início as preces, eles oravam a toda voz; principalmente as mulheres gritando histericamente. Em uma certa ocasião eu lhes disse que Jesus prometeu estar no meio daqueles dois ou três que se reunissem em seu nome; então não era necessário eles gritarem tanto; por que Jesus também ouve as orações silenciosas desde que feitas de “todo o coração”; ao que responderam: “sim, de todo o coração” e eu retruquei: “mas não de toda garganta”.
A Ida entrou para o centro do círculo para confessar os seus pecados; “durante a viagem algum marinheiro havia caçoado dela e ela lhe desejara o mal; em Florianópolis visitaram a Catedral – esta fora uma tentação visual; que ela era bastante forte para carregar a própria maleta, mas dera para o Rodolfo fazê. Depois penitente ela rastejou de membro em membro, osculando as mulheres e cumprimentava apertando e sacudindo a mão de todos; dizendo para cada um alguma palavra de animação ou conforto, como por exemplo: “permaneça sob a Cruz de Cristo” “louve com voz alta e em língua estranha”. Para alguns ela balbuciava sons estranhos, que respondiam da mesma maneira; então de novo a todos saudava: “siberai, samarai, Jeus simeri”. Continuando falar a língua estranha, ela mesmo traduzia o seguinte: “O diabo perseguirá o povo de Deus, zombará dele enganando-vos em nome de Jesus; isto tudo fará a poderosa força enganadora do diabo. Apenas os filhos de Deus serão os escolhidos; separados daqueles que são orgulhosos e não confessam os seus pecados. Muitos enganadores vão se fingir de anjos, mas Cristo vai vencê-los. Cada dia serão mais enganadores a ponto de serem difíceis de se distinguir. O anti-Cristo está para chegar e aqueles que não tiverem o Espírito de Deus não escaparão do castigo. Não tendo consciência do pecado eles não se confessarão e eles gemerão: “há, há, há” etc. Todos então pensarão que eles tem o Espírito de Deus, mas na realidade, enganados estarão se entregando ao diabo. Aqueles que não forem arrebatados sofrerão três vezes mais; serão desmembrados, fervidos em água e não terão para aonde fugir. Então vamos clamar para o Senhor enquanto temos fôlego – hoje! Hoje! Separai-vos do mundo.
A ordem divina é: “separai-vos do mundo! Não falais com ninguém que seja do lado contrário e não pensa como nós; nem mesmo com aquele que contestou com apenas uma palavra”. (Toda a assembleia clama “guado” e chora) “Louvai a Cristo” é a ordem de Ida e agora todos ficam de pé e dançam num bailado louco.
O culto depois do meio dia transcorreu sossegado por que chegou muita gente estranha para ver, mas que não pode entrar.
O culto da noite foi muito bem assistido por que vieram os Adventistas e os Batistas para ver este estranho procedimento. O velho Stekert pediu permissão para entrar. Então consideraram que muitos dos visitantes ainda não tiveram oportunidade de se definirem e o meu avô permitiu a sua entrada.
Todos entraram e sentaram nos bancos colocados ao longo das paredes. No meio da sala estava uma mesinha redonda sobre o qual ardia o lume de uma lâmpada de querosene, iluminando vagamente a sala ampla. Em torno da mesa se postaram os correligionários, abriram o hinário e cantaram. Muitos visitantes cantaram juntos, mas a maioria não participou por que a luz fraca não deixava ver o verso. Quando acabamos de cantar o primeiro entoaram ainda o segundo no que todos acompanharam com devoção; mas no fim do terceiro hino deu a louca na Ida. Ela gritava: “vai, vai, vai” e numa voz desnaturada urrava; gesticulava com as mãos pelo ar e com os pés, distribuindo coices e pontapés, agrediu os visitantes. Todos ficaram estarrecidos, todos foram tolhidos pela dúvida, medo e pavor. Ela estava possessa o seu rosto ficou roxo; ninguém havia esperado por um desfecho desta brutalidade. Foram tolhidos de surpresa e ficaram inertes; até os espiritualistas estavam surpresos. E neste estado de ânimo a Ida começou a gritar: “fora, fora, fora, etc”.
Então todos se levantaram ao mesmo tempo e correram na direção da porta atropelando-se, enquanto a Ida ainda amedrontava os retardatários gesticulando, agressivamente.
A Lídia Tereza, João Karklis, eu fugimos para um quarto; enquanto os outros lutavam para fugir pela estreita porta por que a Ida tentava pegar os intrusos pela garganta. No quarto, tremendo de medo e chorávamos de despeito e de vergonha. A Ida várias vezes quis derrubar a porta, mas nós a seguramos. Esta noite foi a mais tenebrosa que já passei na minha vida até hoje. Cumpre ainda explicar que a palavra “louvar” – queria dizer que os crentes em pé deviam pular sobre o assoalho, bater palmas com o barulho mais intenso possível.

A MINHA VIDA COTIDIANA

Esta foi a primeira e desesperada dor que eu senti na minha vida. A minha tia e o Ernesto voltaram para Rio Novo por que não queriam aderir ao movimento. A Mely que lá estava de cozinheira, regressou a convite da tia Lídia e aderiu ao movimento com toda a força do seu coração. Tudo isto me causava muita mágoa e descontentamento quando percebi que todos os meus aderiram a este movimento avassalador. Isto me deixava muito triste quando eu percebia que eles lutavam com todas as sua forças para alcançar um estado de graça imaginário.
Os ovos de gafanhotos já estavam abrindo depois de chocadas e os filhotes saltitavam pelas nossas lavouras e plantações que eu havia cultivado com tanta dificuldade. Durante a noite eu acendia fogueiras cuja luz os atraia e as chamas queimavam; como também cerquei as lavouras de velas para impedir o seu progresso. Tudo isto eu fazia sozinho por que toda a minha família passava o dia em reuniões de oração e de louvor, cuja alegria era demonstrada num bailado exótico e bárbaro batendo os pés no chão e batendo palmas. Mas fiz este sacrifício com toda a paciência.
Eu vivia aborrecido e magoado, sem qualquer esperança no futuro desejava ter morrido já há muito tempo.
A única atividade espiritual que ainda me interessava era a nossa “hora musical” e outras reuniões realizadas com frequentadores selecionados. Nós tivemos várias reuniões, deste tipo, com a finalidade de angariar recursos para os Letões necessitados destroçados pela guerra e conseguimos coletar 600$000 (seiscentos mil reis).

O MÊS DE DEZEMBRO

Os Pentecostalistas continuaram a ter as suas reuniões na mesma rotina. A tia Paulina, minha irmã Mely Zelma, Elza e o Teófilo receberam os dons das línguas e os restantes, que ainda não tinham recebido o batismo do Espírito, lutavam com todas as forças para consegui-lo. Estas reuniões se tornaram uma verdadeira loucura. Nelas todos gritavam, urravam e clamavam em vozes desesperadas.
Não consigo esquecer-se de um culto noturno no qual a minha mãe chegou a desmaiar de exaustão. Continuavam as reuniões naquela ampla sala da casa do meu avô. Entre aqueles que lutavam com todas as forças para conseguir aquele batismo também estava a minha mãe. Quando entravam em estado de transe e então começavam a dançar, eles empurravam a minha mãe para o centro do círculo e a Ida repetia com insistência: “tenha fé, não perca a coragem”. Quando a minha mãe ficou totalmente tonta, então se aproximava a Zelma Straus, segurava as mãos de minha mãe e ai ficou rodopiando; no entanto mamãe não resistiu por muito tempo, começou a cambalear e a outra não teve forças para ampará-la. Então ambas caíram no chão, mas ainda no solo ela rolava e tremia.
Nesta ocasião eu não participei e observei o espetáculo pela janela e eu senti ódio contra a atuação destes profetas miseráveis. Fiquei tomado de ira e senti um grande desejo de vingança. Minha vontade era pular a janela e dar um a surra na Ida, mas o João Klava me dissuadiu.

FUI CONVENCIDO

Muitas vezes eu discutia com eles sobre um ou outro assunto que percebi em desacordo com a verdade bíblica. Mas eles se defendiam e me deram para ler uns caderninhos onde, com todo o cuidado, foram selecionados estes versículos:
Mateus 11:25; I Coríntios 1:28; Ev. São João 15:18; Isaías 66:2
Sobre humildade
Ezequiel 43:3; Josué 5:14; Daniel 10:9 e 8:18; Apocalipse 1:17
Sobre clamor
Hebreus 5:7; Gênesis 41:55; Êxodo 2:23 e 22:23; Ezequiel 58:9
I Samuel 15:11; II Samuel 22:7; Mateus 21;9; Habacuque 1:2
Salmos 39:13 – 40:2 e 145:19
Espírito Santo
Atos 2:16-21; I Corintios 2:13; Salmos 50:8; Evangelho João 4:14; Lucas 12:12; Joel 2:23
Sobre a o oração
Atos 3:8 e 5:41; Isaias 35:6 e 32:4; Lucas 6:23; I Pedro 4:13
Juízo Final
Romanos 2:5; Mateus 14:12; Evangelho 15:18
A sabedoria do arrependimento
Provérbios 1:7,29,20; 2:6; 3:35; 28:26; Jeremias 9:23.
Mas não era apenas pela leitura destes versículos que eu fiquei convencido. Cheguei a um relacionamento melhor com o Alexandre Silmanis, cuja natureza tranqüila eu admirava. Com empenho e perseverança eu consegui aniquilar parte dos pequenos gafanhotos e continuei trabalhando animado o campo. Nos momentos de lazer, entre uma reunião de oração e outra, o Alexandre e mais outras vieram me ajudar. Então em mutirão nós capinávamos as ervas daninhas e falávamos sobre assuntos espirituais. Esta troca de ideias me pareceu tão aprazível e tão querida. Cheguei a conclusão que ainda me faltava muita espiritualidade plena e observando a minha vida “morna” me sentia envergonhado.

Comecei a pesquisar as Escrituras e a minha oração a Deus soava: “Senhor, quero estar mais perto de ti”. É verdade que nas convicções destes irmãos encontrei muitos desvios; mas, os considerei em nível superior dos membros da Igreja Batista.
Também me entristecia aquela posição demonstrada pelos meus companheiros contra esta gente desorientada e a minha mente estava tão cheia de dúvidas e tristezas que, numa tarde, depois do culto eu me ajoelhei e extravasei toda a minha dor. Aquelas eram as labaredas da purificação que inundaram o meu coração. Era remorso, dor e arrependimento por causa dos meus pecados e também eram uma nova perspectiva do novo rumo no caminho da fé. Então me agarrei com mais força em Jesus Cristo. Mas ao mesmo tempo eu me encontrava no meio destes fanáticos e agora fui obrigada cumprir todas aquelas cerimônias. Esperando que tudo se acomodasse no futuro assisti tudo com paciência, mas vendo alguns erros, não consegui me manter calado. Eu apontei uma e outra profecia que não tinha se realizado e esta ousadia não agradou aquela gente, no entanto eu aderi ao grupo, mesmo contrariado, por falta de outra opção, embora sentisse algum remorso no coração.

AINDA REFERENTE AO MÊS DE OUTUBRO

Encontrei algumas anotações que agora transcrevo.
Uma semana antes do regresso do tio Rodolfo e aqueles espiritualistas que o acompanharam, através da intuição espiritual eles foram mandados para alguns locais. O primeiro foi uma visita ao tio Sigismundo em Tubarão. No encontro com ele o Alexandre, entre muitos outros sons incompreensíveis balbuciados, em leto, disse o seguinte: (creio que foi a tradução daquela língua estranha):
“Que na França o anticristo está perseguindo os cristãos. No Brasil ele mandaria os
crentes para as ilhas desertas do oceano onde os fritara na frigideira de Sodoma e Gomorra,
mas destes fiéis apenas três serão arrebatados (salvos)”.
Depois houve a manifestação da Ida, da qual contarei apenas a tradução em Letão:
“Zarau A O; Zarau A O; Zarau está a postos para aproximar de Cristo. Zarau está condizendo em fila de três em três. Lançai vós todos nas águas cristalinas do batismo de imersão três vezes repetido; para aliviados, com o coração purificado correrem em direção de Cristo. Três mostrarão amor; três terão as vestes alvejadas pelo Sangue do Cordeiro. O tempo está se esgotando pregai a verdade para aqueles que têm sede, mas ignorai aqueles que esperam na beira do caminho; por que para aqueles que são orgulhosos não há salvação” “Ainda existem aqueles que sentem tristeza, mas o fim está próximo. Cristo vai abrir aqueles Livros, Cristo lerá o livro, Cristo chamará pelo nome. O Zarau virá receber aqueles que Cristo mandar. Quem virá buscar é o Zarau por que Cristo permanecerá nas nuvens. Entra no círculo, apressa-te para entrar no círculo que já está se afastando”.
Fala de Rodolfo para o irmão Ziguismundo: (uma mistura de sons de língua estranha entremeada palavras letas que ora traduzo).
“Sera soltar outro. Vai hoje; vai hoje Tubaron. Será to, to, sera. Fala Ziguis. Prepara-te Ziguis; ziguis digo casa, depressa, depressa. A Marta (outra irmã morando em Curitiba) virá. Volte a cavalo, depressa, rápido :: livros :: ache, ache livros fora”. No mesmo dia eles retornaram.

Então desta fala de Rodolfo, Sigismundo chegou a conclusão que o tio Rodolfo estava convidando ele pra voltar a Mãe Luzia e a outra irmã Marta também aderiria ao movimento. No entanto eles nada conseguiram por que o tio Ziguismundo estava com o seu juízo perfeito.
Mas estas falas impressionaram o meu pai erradamente e ele começou a queimar os livros da sua vasta biblioteca pastoral. Consegui salva uma parte encaixotando e levando para a casa João Arajs e também o harmônio foi salvo das chamas.

ESTE CULTO DEMORADO

Este reunião se prolongou por muito tempo e eu tenho interesse de descrevê-la para que fique guardada alguma coisa para o futuro e os leitores prevenidos não passem por uma experiência igual a esta.
Todos começaram a apelar a Deus em oração, sem qualquer ordem, urrando, gemendo, gritando e ganindo. A Ida como desvairada grita com toda a força da sua garganta e em tom de exigência apela: “Venha Jesus, venha nos ajudar”. Após alguns momentos a Ida iniciou a sua fala em voz grave e gutural em línguas estranhas; depois clama: ”Alexandre você tem de vir para o centro”. Então todos os demais começam a orar por ele até que ele também inicia a sua fala estranha. No meio deste conjunto de sílabas incompreensíveis apenas anoto as que consigo assemelhar: “Leia já, leia logo. Orosanga. De Tubarão chame o irmão depressa”.
Novamente a Ida está falando algo em voz baixa e logo depois exclama irada: “Os crentes estão sem entusiasmo, não, não, não, isto não pode ser assim, isto não dará resultado, assim não vamos alcançar o objetivo”.
Então todos os crentes clamam a Deus pelo avivamento. A Ida ora: “Senhor fala, fale para nós de modo que possamos entender as suas ordens”.
Ida chama o Rodolfo para o centro, todos os presentes apertam o círculo para bem próximo onde ele está para colocar a mão direita sobre os seus ombros e o braço esquerdo levantado para o céu; todos clamando com toda a força: “Jesus, abençoe-nos e oriente os nossos passos”.
Rodolfo começa a balbuciar enquanto lhe tremia o corpo todo a ponto de inspirar medo:
“Amanhã Sig. Tubarão, viaje depressa Rud., depressa. (enquanto Ida dizia – fale com clareza – mande Rudi. Vem tristezas, rápido, rápido; Rodolfo, Marta, Marta, depressa rápido depressa rápido; o tempo se esgota; Burrigo, Seeberg; chame a Marta) agora falará o Alexandre: “Há gemidos em Tubarão, Rudi, depressa, depressa, mandará Rudi trabalhar para juntar, juntar aqueles que ainda faltam. Orossanga. Ir converter para Cristo batizando, porque Kris, virá breve, não há mais tempo.

O Ziguis de longe esta observando com tristeza indeciso, espera ajuda. Haverá muita tristeza, muita dificuldade. Pastoreie o rebanho de Cristo. Tudo está sendo entregue ao poder do diabo; não está bem. A cruz de Cristo”.
Então agora eles também deveriam ir para Urussanga e assim aconteceu. Vários deles chegaram lá, mas não sabiam qual seria a casa indicada e para ter esclarecimento oraram, recebendo logo a intuição onde seria. Entraram, leram a mensagem, falaram alguma coisa, mas voltaram sem qualquer resultado.
Mais uma vez e agora o meu pai foi mandado para falar com Siguismundo, mas ele não atendeu ao convite para regressar e o que causava espécie é de que aquelas mensagens truncadas não se cumpriam; insistentemente eram mandados outra vez para insistir em arrancar aqueles últimos, que diziam ter, alguma esperança de salvação.

EU VOLTEI A REFLETIR

Causava-me muita mágoa o fato de que os meus irmãos não percebiam este engodo, continuando na sua teimosia como se estivessem imobilizados.
Tinha lutado tanto para conseguir me converter, mas logo que os profetas foram embora eu comecei a falar da minha convicção declarando abertamente que a dança ou bailado e o ato de enxotar os interessados, a profetização e as suas inquisições previstas eram totalmente errôneas.
Muitas vezes eu discuti com a minha mãe e isto me deixava muito magoado. Ainda tive uma experiência com A que me moveu a não frequentar mais aqueles cultos. Por isto a minha irmã Mely Zelma por mim verteu lágrimas.
O João Klava que por causa desta minha adesão aos Pentecostalistas e que muito se preocupava, agora, diante da minha atitude, ficou feliz. O pastor Diter havia conseguido a sua matrícula em uma Escola de Paranaguá e ele me convidou para que eu fosse junto com ele, mas fiquei em dúvida se sem os recursos financeiros necessários nós conseguiríamos o nosso intento. Sobre este assunto eu orei muito a Deus.


ANO DE 1920

Foi designado um novo campo de trabalho para os profetas, os outros correligionários viajaram em grupo para a Linha Telegráfica, mas o Alexandre, Rodolfo e Ida foram mandados continuar o trabalho em Ijuí, RS.
Eu guardei apenas uma fala deste período:
“Alexandre Raisi Brasil. Cristo está mandando insistindo. Cristo ainda mandará, vai depressa perigo de morte. O perigo está chegando e alcançará a todos. A Ida lerá”.
Obedecendo a estas falas que se repetiam eles se sentiram enviados para esta viagem e eu os levei de carro de boi até Campinas . Minha irmã Mely Zelma também nos acompanhou, por que, ao retornar, queríamos adquirir e trazer para casa farinha de mandioca. Chegamos ao destino, deixamos lá o carro e os bois, pernoitamos e no dia seguinte prosseguimos. O tempo estava limpo e nos sentíamos felizes.
A estrada ficou muito arenosa e assim apenas ao meio dia chegamos ao local ao qual eles se sentiam convidados. Estávamos muito cansados, e tínhamos ainda outra preocupação, não tínhamos a certeza do que iríamos fazer exatamente. O Rodolfo sabia ler no idioma português, mas nenhum deles estava preparado para falar; eles aceitaram como obrigação o fato de ter que esperar uma inspiração e continuavam a andar a pé cada vez mais longe.
Também não podiam cantar, por que entre aqueles profetas, apenas o Rodolfo tinha a voz afinada. Em casa nós fizemos conjecturas de como é que eles iriam chegar em Ijuí.

Tinha lutado tanto para conseguir me converter, mas logo que os profetas foram embora eu comecei a falar da minha convicção declarando abertamente que a dança ou bailado e o ato de enxotar os interessados, a profetização e as suas inquisições previstas eram totalmente errôneas.
Muitas vezes eu discuti com a minha mãe e isto me deixava muito magoado. Ainda tive uma experiência com A que me moveu a não frequentar mais aqueles cultos. Por isto a minha irmã Mely Zelma por mim verteu lágrimas.
O João Klava que por causa desta minha adesão aos Pentecostalistas e que muito se preocupava, agora, diante da minha atitude, ficou feliz. O pastor Diter havia conseguido a sua matrícula em uma Escola de Paranaguá e ele me convidou para que eu fosse junto com ele, mas fiquei em dúvida se sem os recursos financeiros necessários nós conseguiríamos o nosso intento. Sobre este assunto eu orei muito a Deus.

A MINHA VIDA

Nós passamos a frequentar tardes Letas a fim de juntar algum dinheiro para presentear os necessitados daquele país. Os alemães já foram embora, mas no seu lugar ficaram os comunistas.
Os gafanhotos também devoraram tudo do pasto e da lavoura, e sobre a atividade agrícola não depositava mais nenhuma esperança e eu estava cansado de insistir. Uma vez que o Germano Skoolmeister contratou com a Prefeitura a construção da estrada que ia passar atrás da casa do meu avô, me engajei com ele para trabalhar naquela obra. Comia na casa dos meus pais. O trabalho era muito pesado. Cavar com a pá e depois jogar aquela terra longe não era tarefa fácil principalmente para mim um jovem. De cansaço doíam os ossos e até parecia que não poderia suportar, mas criei coragem e insisti. Trabalhava-se 9 horas por dia, iniciando-se a jornada bem cedo de manhã. Eu ganhava 4$000 (quatro mil reis) por dia, trabalhei um mês inteiro e recebi o total de 105$000.
A minha família mudou-se para a casa dos meus avós. Enquanto os profetas estavam ausentes, o seu lugar de liderança foi ocupado pelo irmão Teófilo e Mely Zelma. Através daquele linguajar foi ordenado que deveriam viver em comum sob o mesmo teto. Meu avô aceitou esta manifestação com desconfiança, mas obediente consentiu. Eu mesmo ajudei transportar os utensílios e a mobília para a nova habitação e fiquei morando sozinho na casa antiga em companhia de um relógio de parede que batia as horas. Vivia e trabalhava solitário, mas ia fazer as minhas refeições junto da família. Andava triste e sem objetivo, mas havia uma vantagem, não precisava mais acordar com aquela barulheira de bailado infernal da louvação. Este episódio também nunca esquecerei.


EM FEVEREIRO DE 1921

Mais uma vez os profetas retornaram. Não sei como eles conseguiram chegar em Ijuí (R.G. Sul), mas sobre a sua atuação naquela Colônia Leta não recebi nenhuma informação. Depois desta visita eles pegaram o navio em Porto Alegre e desceram no porto de Itajaí e voltaram a Linha Telegráfica. Em Rio Branco, um lugarejo que se situava próximo, eles primeiro visitaram o Graudim e o seu grupinho formado de Letos e Alemães que professavam a mesma crença de Pentecostes, mas verificaram que este grupo havia se separado do outro da Linha Telegráfica. Então houve cisma.
Com muita tristeza o tio Rodolfo contou:
“O diabo com tanta eficiência imita o Espírito Santo de Deus, que se torna difícil distinguir o certo do errado. Eles também falam línguas estranhas, dançam em louvor a Deus ainda mais forte de que nós; no entanto, foi nos revelado claramente que eles estão possuídos pela força do mal. Vejam quanta escuridão está cobrindo a terra. Torna-se quase impossível distinguir qual é o verdadeiro Espírito Santo”.
O Rodolfo agora está possuído por aquela força. Fora eleito o principal profeta e chefe. Teria falado com Deus rosto a rosto. Fora-lhe anunciado que ele seria uma das testemunhas na Nova Jerusalém e estava tão convencido disto que solicitou um plebiscito dos fieis com a pergunta: “Tu acreditas que eu sou um daqueles testemunhas, que eu serei torturado e morto, e depois arrebatado para os céus? E como uma prova de que as suas palavras eram verdadeiras ele mandou que a chuva parasse (e que realmente isto aconteceu conforme testemunho deles)”.
Mas agora depois de ter regressado a Mãe Luzia ele estava pálido e adoentado e mal podia assistir as reuniões.

História de Emilio Andermann – 3ª Parte

História de Emílio Andermann – Sua Juventude

3ª PARTE
M E M Ó R I A S
De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

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DO MEU DIÁRIO EM 19.11.1918

Antes daquela festa de jubileu a que me referi, congregávamos em ‘horas musicais”, mas depois daquela festa passaram semanas e a respeito desta diversão não se falava mais.
Agora eu tentarei levantar outra vez este movimento, embora esteja tão jovem que isto torna o resultado imprevisível.
Para reunir os ouvintes eu escrevi uns convites em tirinhas de papel para serem distribuídos aos patrícios:
“NO SÁBADO, ÀS 7,1/2 DA NOITE
TEREMOS UMA “HORA MUSICAL” NA
CASA DE ANS ANDERMAN. TODOS
ESTÃO CONVIDADOS.” VAMOS CANTAR
DO LIVRO: JOIAS MUSICAIS.
Além desta iniciativa ainda tenho muito trabalho pela frente por que quero iniciar um movimento para criar uma Escola. Se o professor Busman quisesse assumir o cargo durante um ano, isto traria um beneficio geral, principalmente para nós os adolescentes. Quanto eu gostaria de ter sido mais instruído, conhecer ciências, ter uma base gramatical para expressar melhor os meus sentimentos. O meu ideal é fazer alguma coisa para trazer mais vida no relacionamento da nossa colônia.

O ANO DE 1919

Neste ano ingressei com novas forças e mais entusiasmo. Encontrei na minha vida mais determinação, mais coragem. Comecei a observar tudo sob uma nova ótica e tudo me parecia mais acessível que no passado. Também enfrentei muitas tempestades. Sobre mim rolaram pesados acontecimentos, mas todos estes acontecimentos desenvolveram nhás forças e criaram em mim a coragem para erguer-me firme sobre os meus próprios pés.
Para a festa de passagem do ano chegaram visitas do Rio Novo. Nós esperamos a entrada deste ano conversando, cantando, tocando e aquelas visitas muito enfeitaram a nossa reunião. Eram cerca de 7 pessoas e entre eles estavam J. K. Frischenbruders, a Zelma e Alexandre Klavim.

EM 1 DE JULHO DE 1919

Encontrei o Pedro Skolmeister. Eu tinha muita admiração por ele e tive o privilégio de tê-lo como companheiro. Ele era um pensador e dizia:
“RACIOCINANDO O HOMEM PODE ENCONTRAR MARAVILHOSAS IDÉIAS DE PROFUNDIDADE E ELEVAÇÃO”.
PENSANDO ELE PODE ENCONTRAR FATOS EM QUE FUNDAMENTAR AS CONCLUSÕES.
“CADA ASSUNTO TEM O SEU INÍCIO, MAS AO ENCONTRÁ-LO O JUÍZO PODE DESENVOLVER IDÉIAS MARAVILHOSAS.”

EM 15 DE JANEIRO DE 1919

Os membros da Colônia combinaram viajar, de carro de boi para Araranguá para frequentar a praia do mar. Isto já havia acontecido anos seguidos quando os patrícios iam para tomar banho. Neste verão várias famílias combinaram viajar junto. Nosso carro era puxado pelos bois Amori e Ledi. Foi uma viagem penosa por causa da estrada mal conservada, mas ao chegarmos à beira do mar foi muito agradável.
Armávamos barracas e ficávamos acampados vários dias. O ar marinho, os banhos na água salgada deixam impressões duradouras sobre o corpo e o espírito. O apetite aumentava e o estado de saúde melhorava.
Era agradável passear e correr pela beira d’água, subir as alvas dunas e depois deslizar até em baixo, catar e comer araçá e outras frutas. Formávamos um grupo de 28 pessoas na maioria jovens e saudáveis então durante a maior parte do tempo demos rédeas a nossa animação. Alguns adolescentes correram para ver um navio que havia encalhado, para assistir o trabalho de devolvê-lo ao mar.
Encontramos uma velha canoa que consertamos cuidadosamente no dia seguinte, e então tentávamos navegar. Tentamos ganhar o mar aberto, mas a canoa quase se encheu de água. A esta dificuldade ainda deve se acrescentar que não tínhamos remos, apenas estacas para movimentar a embarcação. No mar aberto balançando sobre as ondas alguns companheiros ficaram enjoados.
No dia seguinte repetimos a proeza, mas desta vez uma correnteza tentava nos afastar da costa o que tornou a volta muito penosa.

EM 19 DE FEVEREIRO DE 1919

Até que a sementinha da escola germinou. Alguém assumiu a ideia e todos os vizinhos se reuniram para estabelecer as bases. A principio pensou-se em construir prédio para este fim, mas depois a ideia foi afastada por que os interessados eram em número pequeno.
O Jakob Klava então se prontificou a ceder a sala para as aulas e a família Zeeberg prometeu acolher o professor. Então fizemos uma relação de contribuições mensais para pagar o salário do professor: Kauling daria 10 mil reis; Burigo 5; Silvestre 5; Bernardo Keste 8; Akeldamis 6; Sudmalis 2; Klava 15 e nós 15 perfazendo o total de 70$000 (setenta mil reis) por mês.

EM 1 DE MARÇO DE 1919

A minha mãe começou levar no carro de boi produtos da nossa lavoura para vender aos trabalhadores das Minas de Carvão em Criciúma. Ela também comprava alimentos para nos abastecer. Muitas vezes eu a acompanhei nestas viagens.
Naquela época eu acreditava piamente nos sonhos, anotava o seu conteúdo e depois estudava. Por um milagre, as minhas interpretações aconteceram. Quando eu via um sonho, este me servia de aviso e premunição assim os eventos me pegavam preparado.
Eu mantinha uma forte relação de estima com os meus amigos. O Alberto Buks[ Books], entre eles, era o melhor. O João Klava também era um companheiro inseparável. Eles vinham me visitar e eu retribuía a gentileza. Quando reunidos tocávamos música; ou então discutíamos algum assunto importante. Um dos nossos assuntos preferidos era falar sobre a Letônia. Lamentávamos os seus sofrimentos e na hora da angústia, seríamos capazes até sacrificar as nossas vidas em benefício daquele povo. As nossas reuniões deixaram na minha mente recordações indeléveis.

A SEGUNDA VIAGEM DE MEU PAI PARA LINHA TELEGRÁFICA
EM 12 DE MARÇO DE 1919

Naquele momento já estavam terminados os essenciais trabalhos na lavoura; o milho já estava bem crescido a ponto das ervas daninhas não conseguirem mais superá-lo; feijão, arroz e outras semeaduras também já estavam crescendo. Faltava ainda plantar o Capim Serrano, cuja característica é crescer e manter-se viçoso mesmo em baixo de geada.
As outras atividades como limpar o pasto eu podia fazer sozinho e assim, realmente, este período do ano era o mais favorável para ele se ausentar.
Já fazia várias semanas que Graudin lhe mandara uma carta solicitando a sua presença urgente. Então nos parecia que todas as dúvidas se esclareceriam e com alegria despedimo-nos dele. Eu e a irmã Mely Zelma fomos fazer uma rápida visita a Rio Novo. No dia 20 de março lá houve uma festa da Igreja Batista local e então encontramos todos com saúde e disposição. Os filhos do Karklis trabalhavam ativamente na construção de um moinho. Quando regressamos em nossa companhia veio o Carlos Ignausky, Alida Klavim e também um irmão do Karklis. Esta foi uma viagem aprazível e agradável.

EM 4 DE ABRIL DE 1919

Nós, lá em Mãe Luzia, estávamos nos preparando para a Páscoa. O João Klava, que entre nós os jovens era o mais diligente, coletou 14 mil reis para cobrir as despesas da festa. Para esta festa veio de Rio Novo, Carlos e Filipe Karklis e este último ficou comigo para me ajudar.
Juntos colhemos feijão, serramos mourões de cerca e limpamos o pasto de ervas daninhas. Foi nesta época que eu comecei a escrever as primeiras cartas.

EM 5 DE MAIO DE 1919

Iniciamos a colheita do arroz. Neste outono o trabalho corre agradável e proveitoso. Compramos 3 vidros de mel.
A nossa vida espiritual corria monótona. Para frequentar as reuniões Batistas a nossa família não comparecia. O tio Rodolfo com todo o coração se apegou ao hábito de amealhar riqueza; única ocasião de convívio agradável era a “hora da música” por que então todos participávamos independentemente do credo. Estávamos nos aperfeiçoando em tocar em conjunto, mas Rodolfo que era o nosso dirigente perdeu o interesse pela música.
No dia 12 chegaram em visita o Ditter [A.B Deter era um missionário Americano sediado em Curitiba para tomar conta dos campos do Paraná e Sta.Catarina] e o Butler com a tia Marta. O Ditter trabalha há 7 anos como Missionário e agora ele deseja evangelizar o Paraná e a Santa Catarina. O seu sermão é poderoso e cordial, e pleno de suas experiências missionárias. Nós viajamos para Campinas e lá tivemos um culto. No dia 18, um domingo, nós tivemos uma reunião para reorganizar a Congregação Batista.
Elegemos o tio Rodolfo como líder que declinou do convite e assim continuou o Jacob Klava – me elegeram como secretário. O Stekert e o João Klava foram eleitos tesoureiros, para diáconos foram eleitos o tio Rodolfo e um outro filho do Klava.
Realizamos um culto de Evangelização em Nova Veneza, quando foi batizado o Eduardo Klava. O William Butler prometeu dar assistência pastoral, e assim como eles vieram também foram embora no dia 19.

A CARTA DE PAPAI

A carta de meu pai do dia 20-V-19 chegou cheia de notícias dos acontecimentos espirituais da Linha Telegráfica. Ele também falou de danças, bater palmas, e as manifestações espirituais de falar línguas estranhas.
Isto me deixou uma impressão péssima, mas não quero lutar contra uma coisa que eu não conheço.
Eu tinha todo o meu tempo tomado pela colheita e o transporte do milho para o celeiro.
Os meus dois companheiros de trabalho Amori e Ledis foram inutilizados por causa da negligência e maus tratos de Pietro Ronzani e por isto estou trabalhando com os cavalos de Burigo. Eu não poderia ficar sem tração animal e por isto comprei uma mula de um Serrano por 200$000 (duzentos mil reis) e outro em Rio Novo do Filipe que eu fui lá buscar.

RIO NOVO, 29 DE MAIO DE 1919.

Em Rio Novo havia uma festa sazonal de tradição Leta, então fui para lá com a intenção de participar; onde, com grande surpresa, encontrei o meu pai em companhia de R. Strauss, que recentemente haviam retornado de Blumenau. Lá o meu pai permaneceu 77 dias; ou 11 semanas; ou então 2 meses e 12 dias. A minha permanência em Rio Novo foi muito feliz e agradável; com a minha irmã Mely perambulamos outra vez por aqueles montes aprazíveis, conversando como meu pai, no ar livre, respirando aquele puro ar de montanha. Em contraste também sentíamos tristeza por que o velho Stekert [Sobre este episodio existem algumas lendas que ainda não foram esclarecidas] fora assassinado dentro da sua casa.
Todos nós depois voltamos para Mãe Luzia, inclusive a Mely, que temporariamente hospedada em casa de parentes frequenta uma escola, por que o meu pai não achou prudente deixá-la longe de casa.

Como as montarias não chegavam para todos, então, alternadamente também andávamos a pé. O Strauss parecia tão tagarela como se fosse um garoto; ele falava sobre Jesus, a sua vida humilde, etc.
Nós chegamos em casa às 3 horas da madrugada, tínhamos viajado 13 horas e por isto estávamos muito cansados; mas ao encontrar os familiares a alegria venceu a fadiga.
Na manhã seguinte todos foram assistir os funerais da velha Seeberg. Eu fiquei em casa por que desejava tocar o harmônio na casa dos meus avós. No momento que sentei, chegou perto de mim a minha avó Ana e disse:
“Deus na sua misericórdia também mandou
para nós um profeta que através do Espírito
nos falou sobre aquela sua “hora de música”
e “hora do canto”e disse que isto atrasava
o batismo do Espírito Santo e que por isto,
a partir deste dia, este divertimento estava proibido.”
Nada respondi por que assim fui educado; mas então percebi que entre “os nossos” e os remanescentes dos Batistas tradicionais todos os laços haviam sido rompidos. E não deu outra coisa, os Pentecostalistas frequentavam o seu culto de domingo à tarde; mas interromperam qualquer contato com os Batistas; parece que se sentiam mais santificados sob a liderança do Rodolfo Strauss, aquele que veio com meu pai de Rio Novo, de quem nunca se ouviu falar coisa boa, e sim de que era um homem ruim.

RODOLFO STRAUSS

Ele era de estatura mediana, um rosto magro e pálido, os lábios intumescidos, olhos castanhos, falava num tom de voz áspero e os seus argumentos eram inflexíveis. Saíra de casa muito jovem, sua profissão era de ferreiro, e havia morado 3 anos em São Paulo.
Como seu ajudante, junto com ele, nós forjávamos utensílios de uso domésticos, ele me contou muita coisa de sua vida passada; que havia sido repulsiva e escura.
Papai o encarregou da função de dirigir os cultos; e ele literalmente despejava opiniões contundentes que desagradava os ouvintes e deixava uma péssima impressão. Mas apesar da sua ignorante falação agressiva e contundente angariou muitos ouvintes do mesmo grau intelectual do dele; mas assim mesmo queixavam-se de que ele os simplesmente apedrejava.
Vou transcrever uma fala sua que transcrevi em 15. VI.19:
“Os nossos atuais pregadores estão longe daquela humildade e do verdadeiro amor que Jesus possuía. Nos Seminários e Colégios eles aprendem a sabedoria do mundo; convencidos de que amealharam a sabedoria e o amor Divino.
Eles não sabem que a verdadeira sabedoria somente se pode conseguir humilhando-se na presença de Deus, com muitas lamentações e lágrimas. Veja o exemplo de Jesus, como ele andava sobre a terra usando apenas uma túnica, era paciente e misericordioso.
Ele nem sabia onde apoiar a sua cabeça. O seu único objetivo foi cumprir o mandamento do seu Pai e Ele dizia:
“aprendei de mim…”
Pergunto se os nossos pastores estão seguindo este exemplo de Jesus? Eles são instruídos, tem nível de vida elevado, são orgulhosos; usam trajes senhoriais, calçados lustrosos, óculos de ouro em cima do nariz e não pregam por qualquer ninharia em dinheiro.
Eles são ricos, abastados, nada lhes faz falta, moram em mansões e passam o tempo catando alguém para batizar.

Escrevem e se promovem através de jornais, dizendo:
“eu batizei tantos… e tantos…”
e como se isto não bastasse, não batizam mais em rios como antigamente e sim em banheiras de luxo, fazendo do batismo um espetáculo teatral, com todo o conforto.
Quando distribuem a ceia do Senhor, não podem mais tomar o vinho de um só cálice por que podem transmitir doenças; mas cada membro deve usar o seu copinho individual; igual aos alcoólatras quando tomam os seus tragos.
Depois de tomarem o vinho, enxugam cuidadosamente os seus lábios com um lencinho de seda.
Eu não quero falar demais (apoiados do público) apenas estou dizendo o eu me foi dado transmitir-lhes para que espiritualmente não deixais este recinto nus e sem vestimenta perante Deus, etc, etc.”
Este exemplo traz no seu conteúdo a dúvida, a falta de tino, o despreparo ministerial e o estado de espírito do autor do sermão. Entende-se que ele foi um homem, que apenas no início deste movimento aprendeu a soletrar e a sua leitura era arrastada, repetindo as palavras e cheia de erros. Mas apesar disto ele se sentia como um grande servo de Deus aquinhoado de dons espirituais muito especiais. Assim como o Apóstolo Paulo, certa vez empreendera uma viagem de pregação para São Paulo; mas lá as suas palavras ásperas foram retribuídas na medida.
Colossenses 2:19 – “Por que dentro de nós habita a plenitude da vida”.
Agora desejo descrever um culto vespertino que ficou calcado profundamente na minha memória; por que nele adquiri uma enorme impressão negativa e eu aprendi, de um modo especial, entender este procedimento exagerado.
Em 21 de junho de 1921 anoitecia. As estrelas brilhavam na abóbada celeste, uma brisa vespertina soprava e balançava os ramos dos arbustos que na penumbra pareciam fantasmas.
Chegou aquela gente do meu avô para o culto. Eles escolheram a cozinha de chão batido que no centro tinha um fogão de lenha aceso soltando labaredas e estalidos, iluminando, como se fossem fantasmas as pessoas reunidas, entre os quais, eu me encontrava.

Em volta do fogareiro postado em círculo oravam, um depois do outro. Em cada oração eu percebi uma enorme dedicação e humildade. A reunião se desenrolava cordialmente; mas de repente ouvi o Rodolfo Straus, aos berros guturais e numa voz embargada e chorosa ganir: “pelos menos um de nós deveria receber o Espírito”. Alguns dos adeptos aderiram a esta gritaria, gemendo e implorando, fazendo coro.
Eu me levantei incrédulo sem saber se ria ou chorava, enquanto o Rodolfo continuava …. aba….. aba…… aba…. etc. De chofre vira-se para o meu irmãozinho Teófilo e disse: “Foi me revelado que hoje tu serás batizado – aproxima-te de mim”. O Teófilo obediente prostrou-se ao seu lado com o rosto no chão e começou a orar com todo o seu fôlego e até a onde a garganta permitia e o Rodolfo animava: “clama com mais força, implora com fé – JESUS BATIZE-ME – com toda confiança e convicção. Foi assim que R. Straus animava o menino, insistindo cada vez mais:“Grite com mais força, não se deixe distrair com outro pensamento” e o pequeno Teófilo berrava como um possesso continuava repetindo o mesmo refrão. O meu irmãozinho berrou durante quase uma hora até ficar rouco. Aproximava-se a hora de terminar a reunião e o Teófilo não conseguiu alcançar a graça, embora tenha perdido a sua voz durante várias semanas. Isto foi para mim como um pesadelo impressionante e doloroso, que me perseguiu durante toda a minha vida e que procuro esquecer dizendo a mim mesmo: “Isto na realidade não aconteceu – deve ter sido um sonho”.

O MEU PAI

Mas nesta altura dos acontecimentos o que estaria pensando meu pai? Eu creio que ao voltar da Linha Telegráfica ele já estava habituado com este espetáculo e foi arrastado por este redemoinho. Ao retornar, ele disse o seguinte:
“Quando eu cheguei em casa do Graudim em Rio Branco
fui saudado e recebido na fala das línguas estranhas.”
“O irmão Graudim me avisou, que talvez, a minha fé fosse destruída quando eu assistir aquelas reuniões. Mas quando cheguei na Linha Telegráfica e aqueles irmãos realizaram a sua reunião, eu compreendi quanto eu estava atrasado em relação a eles. No meu coração despertou dor e vergonha por causa disto. Então eu genuflexo, com o meu rosto colado ao chão, humildemente junto com os outros, clamava pela santificação. Que eu também, lá, recebera aquele batismo, mas o dom de falar línguas ou ver visões não apareceram; apenas se sentiu mais forte na sua fé e com a mente iluminada, e mais disposto fisicamente”.
Era este o seu testemunho fruto de uma experiência pessoal, que seria apenas o início para uma progressão rumo à plenitude; mas, na realidade, ele estava recuando da direção do objetivo da fé.

IMPRESSÕES SOBRE RICARDO STRAUS

Em Mãe Luzia ele não conseguiu deixar uma impressão duradoura ele não conseguiu entusiasmar os nossos para uma participação mais envolvente, como também não deixou nenhuma impressão positiva. Apenas Rodolfo Andermann despertou e lamentou o tempo perdido. Nas reuniões ele dava testemunho sobre a santificação e até esqueceu antigas desavenças com os vizinhos por causa do açude e a construção do moinho.
O moinho foi construído nas terras de papai, um e outro foram mais convencidos a observar melhor os rumos da própria vida; no entanto, nada de extraordinário aconteceu apesar de tanta insistência e orações. Por causa disto Rodolfo Straus, obedecendo a uma intuição espiritual retornou para a Linha Telegráfica em 27 de junho de 1917, por tanto ele nos visitou de 30 de maio até 27 de junho = 57 dias, 8 semanas (1 mês e 27 dias).
Então tudo voltou a rotina anterior. Os cultos continuaram a ser realizados no mesmo ritmo; apenas papai, algumas vezes se excedia no seu louvor, mas isto não deixou em nós nenhuma impressão danosa.

CONTINUA

História de Emílio Andermann – Sua Juventude

2ª PARTE

M E M Ó R I A S

De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

A VIAGEM DE PAPAI

No mês de maio o meu pai iniciou os preparativos para fazer uma viagem para Ijuí no Rio Grande do Sul, onde também havia uma Colônia Leta. Preparou a sua mochila de viagem e carregou junto uma porção de tratados e outra literatura espiritual. A sua mala pesava uma arroba (15 quilos). Eu o acompanhei até Campinas [nome antigo de Araranguá] e ao se despedir ele me osculou. Eu estava desconsolado, com o coração pesado quando eu voltava para casa. Em casa havia fartura por que a época da colheita já havia terminado.
Certamente a peregrinação dele se realizou lentamente, de casa em casa, onde ele reunia gente e pregava o Evangelho e durante muito tempo nós não recebemos notícias dele.
Seu destino era Ijuí; mas viajando ele certa noite sonhou e foi aconselhado que fosse melhor ele tomar outro rumo. Já no dia seguinte seguindo o conselho, ele tomou o rumo contrário e assim passo depois de passo, finalmente alcançou Blumenau.
Naquele local ele fora muito bem recebido. Teve oportunidade de pregar e, em algumas reuniões leu aqueles prospectos sobre o Pentecostalismo. Na sua viagem de volta ele viera de navio e apareceu novamente em casa em 7 de julho.

IMPRESSÃO

Depois que ele voltou para casa ele retornou a normalidade tranquila da vida, mas em Blumenau num local chamado Linha Telegráfica [Localidade próxima a Massaranduba] ele deixara uma ótima impressão. Muita gente que estava cochilando em pecados, então começaram a acordar e suplicar a Deus pela misericórdia divina. Houve um avivamento e eles se reuniam com mais frequência e por mais tempo em reuniões de oração que se tornou um hábito agradável.
Eles também liam a Bíblia com mais frequência procurando no Novo Testamento aquelas preciosas promessas. Tornaram-se cada vez mais inflamados; oravam com insistência de todo o coração e, afinal, faziam encontros de oração todos os dias depois dos trabalhos, quando clamavam de Deus a santificação, mas este excesso de pedir em tom de exigência fizeram muitos se afastarem, por que estas fervorosas orações estavam se tornando exageradas.
Mas a parcela que ficou fiel continuou na mesma rotina de orações, até, que depois de algum tempo, quando eles já se sentiam cansados, veio a tão desejada santificação sobre alguns do grupo. Estes rolando pelo chão balbuciavam sons estranhos. Esta desesperada insistência se transformou em uma grande alegria. Então todos num culto de louvor agradeceram a Deus a benção recebida.
No entanto a maioria do grupo ainda não tinha recebido aquela graça e estes continuaram a orar insistentemente, arrependeram-se dos pecados, acertaram as desavenças com os vizinhos e em breve todos receberam a graça do batismo pelo Espírito Santo.
Uma mulher de nome Elisabeth num certo culto anunciara: “Hoje eu retiro esta máscara de hipocrisia e lhes dou a boa notícia de que sou Profetiza”. Ela fora muito bem dotada para falar. Também recebera o batismo do Espírito o Alexandre Silmanis, que, mais tarde, ele mesmo contou: “Quando eu recebi o batismo do Espírito fui obrigado a falar língua estranha sem poder parar. Ainda depois, quando em casa dava alimento para os animais domésticos, falava sem parar e os meus pais pensaram que eu havia perdido o juízo”.

Finalmente recebeu o batismo do Espírito uma mulher chamada da Ida [Ida Strauss], que, depois, ocupou o lugar de profetiza.
Os pastores Graudim com a sua família também apoiaram este movimento. Somente depois de muito tempo empregado em orações recebeu esta benção e abominou toda a sua obra anterior. Todos eles receberam o dom de falar línguas, mas ninguém recebeu o dom de traduzir, interpretar. Então com grande insistência pediram a Deus que mandasse o dom de interpretar e em breve surgiram alguns que falavam traduzindo palavra após palavra.

NOS CAMINHOS DA PERDIÇÃO

Este relato de agitação extrema em breve induziu a perda do rumo certo. Em uma fervorosa hora de oração a profetiza Elizabeth do assoalho pulou em pé e começou a saltitar gesticulando com as mãos. No início isto levantou admiração e dúvidas, mas, quando descobriram na Bíblia que Davi dançou (cap. 7 v. 4-8) então todos se acalmaram e convencidos; agitados pelo uso de línguas estranhas em grupo iniciaram a dança convictos que haviam recebido o mesmo poder do Salmista.
É compreensível que este desvio de rumo deixou a maioria temerosa que começou a discordar e passaram a fazer oposição. Brevemente foram apelidados “espiritualistas”, “saltitantes” etc. Os seguidores desta seita então se sentiram abandonados, os seus insistentes convites e pregações, não surtiam efeito e o balbuciar destas línguas estranhas não eram apreciadas. O grupo de fanáticos, cada vez menor, se isolava e para manter o fervor, instituíram vários cultos ao dia. Já não trabalhavam mais. Os que mais usavam a palavra eram o Alexandre e a Ida e por isto eram respeitados como profetas e os líderes do movimento.
Surgiram ideias de que a vinda de Jesus estava próxima. Agora seria a “meia noite” e aqueles que não se arrependessem esgotariam o seu tempo de pedir o perdão.
Vários dos seguidores receberam ordem, através da boca dos profetas, de que deveriam vender as suas propriedades, deixar o local onde viviam e ir para Linha Telegráfica para viver comunitariamente na propriedade de Strauss. Todas estas ordens foram cumpridas principalmente por que o dia do juízo final estaria próximo.

O MEU TRABALHO

Enquanto o meu pai estava viajando eu tive que enfrentar muito trabalho. O nosso gado arrebentava a cerca para fugir do pasto e tive de reformar a cerca. Convidei para me ajudar o João Klava, mas ele, por descuido, jogou um mourão sobre o meu pé e por causa deste acidente durante muito tempo não pude caminhar. Sentava na cama e copiava alguns apontamentos selecionados dos livros.
Eu aproveitava cada momento; quando não estava trabalhando então em casa lia livros ou escrevia. Eu tinha uma sede alucinada pela ciência. A minha maior ambição era freqüentar uma escola. No meu coração havia tanta iniciativa, tanto sentimento, tanta convicção e vontade própria que os meus pais tiveram muito trabalho em me dominar.

A MÚSICA

Copiava muitas músicas, também tentei compor alguma coisa daquilo que eu guardava na memória. Então em nossa casa se hospedou uma brasileira, ela cantava em português e eu copiava a letra e a música. Mesmo antes de saber tocar um instrumento tentava compor.
Aprendi a tocar violino com Ricardo Feldberg; aos domingos junto com os companheiros que eu esperava com seus instrumentos que eu lhes ensinava tocar.

NOSSA VIDA ESPIRITUAL

Os assuntos de religião aos poucos iam perdendo o meu interesse, por que eram muito monótonos. Nos domingos de manhã os cultos se realizavam na casa do Klava. Ele próprio dirigia todos os cultos. Por que era membro da Igreja eu assistia a reunião quase todos dos domingos.
O meu pai dirigia um outro culto na casa do meu avô nos domingos à tarde; então ele lia ou esclarecia alguma tradução Pentecostalista. Estes cultos eram bem frequentados, mas eu raramente comparecia, por que estava ocupado com os companheiros tocando música. Por isto fui advertido.
A tia Marta e William Butler casaram-se no dia 2 de maio. Esta notícia nos surpreendeu e trouxe muita alegria.

OS GAFANHOTOS

Em outubro começaram a chegar, em revoada, os gafanhotos. Eles se deslocavam em grande quantidade daqui para acolá. Eles acabaram com a lavoura e as pastagens. No fim do mês eles se estabeleceram no local e começaram a deitar ovos enchendo totalmente toda a terra. O povo do local ficou muito preocupado. Alguns araram os campos para enterrá-los, mas apesar destes esforços, um mês depois, eles já nasceram sabendo saltar e tinham tamanho de uma mosca. Eles ficavam em bandos e se deslocavam de um lado para o outro e aonde chegavam comiam tudo que era vegetal. Iniciou-se uma dura luta contra eles; cavavam-se valos e quando eles lá chegavam, cobríamos com terra. Aspergíamos os gafanhotos com água fervente, batíamos com vassouras, mas apesar deste esforço muitos vingaram e se tornaram adultos. Enquanto cresciam eles mudavam a pele várias vezes.

3 DE JULHO DE 1917

Hoje junto com o Alberto e Eugenio fomos cercar o cemitério dos Letos. Pode-se entender claramente que entre estes amigos eu me sentia à vontade. Fazíamos brincadeiras que retribuímos de uns para outros sem qualquer contrariedade. Ao entardecer eu convidei a minha irmã Lídia para irmos à casa da Lina [ Lina Akeldamis] para apanhar livros e no caminho encontramos companheiros e eu não poderia me sentir melhor.

26 DE JULHO DE 1917

O Homem, o que significa pertencer ao gênero humano? Que exista uma alma imortal – certamente é verdade; mas por que ele às vezes é tão feliz e também pode ser tão triste ou até se tornar zangado. E por quê? Esta indagação pode ser respondida por qualquer criança:- “quando a mãe lhe aplica uma surra”.

30 DE JULHO DE 1917

Hoje como de costume eu trabalhei com um arado puxado por boi “Amoru” e uma vaca “Lidi”. Depois do almoço fui tocar o harmônio na hora do descanso e ao entardecer fui à colina medir o local onde iríamos plantar o parreiral.

1 DE AGOSTO DE 1918

Também eu gostaria de entrar no Reino dos Céus, mas pelo que parece o São Pedro já antecipadamente fechou a porta para mim. Apesar deste sentimento, semanalmente tenho orado a Deus, mas sem resultado. Vou tentar de novo para ver se consigo mover o destino, mas não tenho bem idéia como iniciar a prece.

ANO DE 1918

Não guardei nenhuma recordação sobre o início deste ano. As primeiras tenho a partir do mês de julho. Parece que este espaço de tempo passou despercebido para mim. No início deste ano nós trabalhamos muito na erradicação dos gafanhotos. Neste ano eu sofri muito e cai numa grande melancolia por causa de um amor frustrado. Eu fiquei muito absorvido por questão de patriotismo. Pensei muito sobre o sofrimento do meu povo e por causa das más noticias que recebemos sobre o infortúnio da Letônia que me amargavam o coração. Neste ano também cresci muito. O meu corpo foi temperado e talvez torturado pelo excesso de trabalho na lavoura que eu, sozinho dirigi e orientei. O meu pensamento também ficou mais racional. Eu deixei o sentimento de orgulho de lado e no seu lugar assumir o sofrimento, que, certamente, ainda mais, prejudicou o meu desenvolvimento físico.
O início da minha vida foi difícil, triste e até desesperado, cheio de dúvidas de toda espécie.

2 DE AGOSTO DE 1918

Voltando de um banho no Rio, observei que no nosso pasto se encontravam cavalos estranhos. Conclui que seriam visitas do Rio Novo, mas entrando na cozinha encontrei uma família inteira de crianças e adolescentes. Era a família de Zanerip em viagem para o Rio Novo. Faleceu o marido da pobre viúva há alguns anos atrás, agora ela por motivos de convivência social, vendeu a sua colônia em Campinas [Nome antigo de Araranguá] e está se mudando para Rio Novo.

A VIAGEM EM BUSCA DO VIOLINO

O meu pai na sua primeira viagem Missionária, por causa do peso da mochila, deixou o violino em “Manoel Alves”. Eu desejava com muito empenho trazê-lo de volta por que sentia muito a sua falta. Então selei ‘Bigi” e cavalguei para Campinas aonde cheguei às 8 horas. Parei perto da casa de Sudmalis e lá deixei o cavalo que estava muito cansado; mas eu mesmo resolvi ir a pé para o local onde estava o violino. Atravessei o Rio e pela margem fui em frente. Pensei que este local estaria perto, mas o sol se deitou, ficou escuro e eu continuei andando. Encontrei um transeunte e perguntei onde se encontrava o tal lugar e ele me respondeu que ainda teria que caminhar 4 horas, me aconselhando que fosse melhor eu pernoitar na casa de alguém. Passei a noite na casa de um alemão e ao alvorecer continuei a viagem. Ainda não tinha comido nada e em volta ainda tudo estava escuro. Em toda parte havia florestas, apenas algumas clareiras queimadas próximas ao rio. Toda redondeza era muito plana e a terra parecia muito boa.
Às 11 horas cheguei ao destino, mas lá em informaram que o homem havia mudado. Tomei informações e continuei andando. A estrada passava entre brejos cercados de floresta virgem e as rãs faziam um barulho infernal, havia muitos mosquitos e outros insetos próprios dos brejos. Sentia a tortura da sede.
Depois do brejo a estrada começou a subir na montanha, mas eu quase não tinha forças para escalar. Cheguei à crista e me sentei para repousar – em toda a volta uma vista maravilhosa. Até aonde a vista abrangia somente havia mata virgem. Em toda a volta havia planície, mas a certa distância apareceu uma outra montanha que parecia um navio navegando num mar verde. Não tive tempo de apreciar toda esta beleza, tinha que continuar para conseguir comida.

Finalmente encontrei uma venda onde comi com fartura e assim, com as forças restauradas, segui caminho. Apressei o passo quanto podia pela estrada aberta no meio do mato.
De repente parei: um jovem tigre saltou na minha frente fechando o caminho. Eu puxei o revólver, mas enquanto isto o tigre novamente sumiu na floresta. O local onde se encontrava o violino se localizava perto do mar.
Apanhei o instrumento e apressado percorri o caminho de volta até que, tarde da noite, cheguei à casa do Sudmalis; muito cansado, mas satisfeito por ter tido esta aventura.

O MOVIMENTO NA LINHA TELEGRÁFICA

Freqüentemente recebíamos notícias de que aquela gente simplesmente saíra dos trilhos. Todo este movimento Pentecostalista foi apelidado de movimento de Carlos Andermann e assim colocaram sobre os seus ombros toda a responsabilidade. O meu pai realmente deu o primeiro empurrão e deixou o movimento tomar o impulso próprio. Sendo gente de poucas letras, não lhe escreviam pessoalmente e as notícias que os outros mandavam, nestas ele não acreditava. Depois o movimento tomou regras próprias, sem qualquer fundamento na Bíblia. Todos acreditavam fielmente naquilo que os profetas diziam. Aquela dança iniciada pela Elisabeth tornou-se um ritual pagão alucinado. Todos então saltitavam, e louvar de maneira estranha com gritaria tornou-se hábito.
Os profetas também instituíram a confissão de pecados de uns para outros. Então quando se iniciavam as reuniões neste estado de espírito, assistir aos cultos sentados sobre bancos já não era mais possível e assim a assistência sentava diretamente no chão para depois, uns simplesmente deitados de bruços e outros ajoelhados de quatro, com as nádegas para cima e o rosto colado ao chão, orarem preces fervorosas. Formavam um círculo e aquele adepto que desejava confessar os pecados, ou exercer o dom de línguas estranhas, este ficava no centro do grupo.
A confissão dos pecados se dividia em duas categorias; os primeiros contando as transgressões mais recentes que aconteciam na vida diária; a outra que narrava os pecados da vida pregressa, a partir das primeiras lembranças da infância.
Aquele que confessasse os pecados cotidianos ao terminar a fala, de joelhos, devia engatinhar junto a cada um do circulo e pedir perdão. Depois do primeiro confessante, mais dois deviam se submeter ao mesmo ritual para totalizar o número de três penitentes. (Não sei explicar por que). Depois que os três terminavam esta parte do culto, em seguida, estes três oravam a Deus antes dos outros, na mesma sequencia de um, dois e três. Terminada esta fase da cerimônia, toda a congregação orava de um em um. Este ritual às vezes durava uma semana inteira.

Eram os profetas que determinavam o tempo necessário para cada penitente confessar. Antes da comunhão, todo o grupo, de um a um, tinha de confessar os pecados e rastejar o círculo todo pedindo o perdão. Em seguida o profeta lavava os pés dos homens e a profetiza, das mulheres.
Na ceia do Senhor cada crente quebrava o seu naco de pão, pois assim todos teriam partido o Corpo de Cristo. Eles proibiram as relações matrimoniais entre os casados; por que, muito em breve aconteceria à vinda de Cristo. As crianças pequenas e os adolescentes também tinham de participar obrigatoriamente destas tempestuosas reuniões. Finalmente como profetas foram selecionados Ida e Alexandre por que tinham mais dom de falar línguas estranhas. No seu estado de transe disseram coisas que seriam possíveis de acontecer.
Profetizavam que a influência do “anticristo” estava se expandindo no mundo. Que Ricardo Inkis seria um dos membros deste aglomerado de 666. Diziam que os Batistas que seguissem o Ricardo não seriam perdoados e que ele como “anticristo” os perseguiria; bem entendido que seria o Ricardo e os Batistas. Que eles os lançariam no cárcere deixariam morrer de fome, fritariam em frigideiras; exilariam os crentes para ilhas longínquas do oceano, nus e sem alimento.
Que não se precisava trabalhar mais, por que no início do ano de 1919 o Senhor desceria das nuvens para arrebatar os crentes. Além disso, profetizaram que 3 do grupo morreriam e a crença no recado era tanta que, de antemão, prepararam os caixões para enterrar os apontados.
Em outra ocasião 6 deles foram mandados para a Igreja Batista de Rio Branco onde seriam assassinados pela Congregação. Estes “carneiros de sacrifício” se despediram dos outros companheiros com grande tristeza e o coração pesado. Por uma estrada enlameada eles seguiram para Rio Branco, mas os irmãos da Congregação Batista os receberam com muita gentileza.
Também deram uma surra no João Strauss por que ele desejara dormir com a esposa. Profetizaram também que iria acontecer um terremoto e uma enchente que, no entanto não sucedeu, mas estes enganos eram interpretados como prova de fé a que Deus os havia submetido. Cada vez com mais frequência apregoavam que o tempo para arrependimento estava findando.

O Pastor P. Graudin de Rio Branco foi visitar o grupo para dizer por que o “espírito” lhe mostrara um caminho diferente, mas ele foi exortado e isto lhe amargurou o coração. A mensagem que não deixaram transmitir fora de que: “Tivera uma revelação que todos deviam voltar ao trabalho, por que ainda restava tempo para isto”.
Outra característica da seita era a de que, para batizar, o novo adepto, eles imergiam três vezes.
E assim eles perdidos doutrinariamente oscilaram entre uma crença e outra, afundando cada vez mais na ignorância, até serem envolvidos pela escuridão.

OUTRA VEZ NA MÚSICA

Fiz tantos exercícios estudando o harmônio que já conseguia tocar os hinos. A Congregação Batista este ano festejava o jubileu dos 25 anos. Nosso grupo de músicos preparou um programa festivo. Ensaiamos muito, compramos instrumentos melhores; eu também comprei um violão, no qual fazia exercícios de escalas e de posições.
Neste caderno anoto algumas melodias que me soavam nos ouvidos, mas que devem constituir fragmentos das músicas que tocávamos e cantávamos na Igreja.

A ESCALADA DO MORRO REDONDO EM 04.11.1918

Junto com o grupo de adolescentes, resolvemos ir para redondezas do “Rio Cedro” onde se situava uma montanha denominada “Morro Redondo” com a intenção subir as suas encostas. Fazia um dia muito bonito; já de manhãzinha nós marcamos encontro na cabeceira da nova estrada de rodagem. Todos estávamos alegres e animados, felizes e contentes. Iniciamos a caminhada e depois de 3 horas de progressão alcançamos o Rio Cedro. Então nós tínhamos de deixar o caminho e embrenhar na mata virgem para chegar à base da montanha. Foi uma empreitada difícil. Nós tínhamos que abrir picada através do mato cheio de cipós e de espinhos. A floresta estava tão fechada que nós não sabíamos para onde estávamos indo.
Resolvemos que um dos nossos companheiros deveria escalar uma árvore para estabelecer o rumo certo. Isto ajudou e depois de mais 2 horas de caminhada chegamos ao pé da montanha. A montanha estava coberta por árvores gigantescas, com algumas clareiras onde caíram barreiras e apenas sobrou a nua rocha, que, olhada de baixo, parecia uma testa coberta de cabelos.
Gritamos “hurra’ e iniciamos a escalada”. Em fila indiana apressados vencíamos a ladeira íngreme, com muito vozerio e gritaria. Chegando ao topo da montanha fizemos a nossa refeição – estávamos famintos como feras. Depois atingimos o cume da rocha mais alta. Que vista deslumbrante.
Lá em baixo se abriam em leque planícies. Os rios, como se fosse barbantes corriam em meandros sinuosos. As dunas das praias do mar longínquas brilhavam como prata, envolvendo o oceano azul. Observamos. As casas pareciam caixinhas de fósforos, as lavouras e os pastos como manchas dentro da floresta. Nova Veneza parecia estar próxima, logo ao pé do morro e levantando a vista além, a visão se perde nas montanhas longínquas onde se situa Rio Novo – então senti saudades.
Então volvemos o olhar para o outro lado, e lá, até o ponto que a vista alcança somente percebemos a mata virgem interminável. Ali a mão destruidora do homem ainda não chegou; toda a exuberante vegetação lá cresce no seu estado natural.

Deflagramos alguns tiros que ecoavam pelos contrafortes. Depois começamos a rolar pedras que caiam pelas encostas íngremes das encostas rochosas se espatifando lá em baixo. Estávamos felizes, também despreocupados, pois não tínhamos temor das rochas por onde passava o caminho. Não houve acidente grave, pois apenas um dos companheiros escorregou e caiu na água.

O JUBILEU DOS 25 ANOS DA IGREJA BATISTA
EM 09-10-1918
A Congregação Batista de Mãe Luzia foi fundada em 9 de outubro de 1893. Daquela época até hoje já passaram 25 anos e esta festa era de Jubileu. O culto festivo teve lugar na casa de Jacob Klava. Tocamos música, cantamos, ouvimos o sermão e algumas narrativas da história.

DO MEU DIÁRIO – FINS DE OUTUBRO

Nesta tarde eu senti profundamente o fato de que estavam se aproximando os últimos dias de vida do meu avô Ans. Ele me pareceu tão idoso, tão pálido; e de repente percebi que, depois de mais alguns anos, não poderei mais contempla-lo. Ele terá de nos deixar e isto será muito triste para todos. Ele é o nosso ascendente, nosso patriarca.
Deus abençoou muito a vida dele e fazendo que tivesse tantos filhos. Quando ele partir, no seu lugar ficarão muitos descendentes jovens e fortes. Esta idade irá aumentar até o seu último suspiro. Ele partirá, mas não de todo; no seu lugar ficaremos nós.

6 DE NOVEMBRO DE 1918

Fui assistir à aula de música. No meu coração surgiram tristezas que eu não conseguia controlar – surgiram imperceptivelmente se instalaram. Não conseguiria descreve-las; se fosse capaz de realizar este intento então dividi-las-ia com outros. Sendo impossível – com que satisfação eu deixaria Mãe Luzia para percorrer o longínquo mundo e encontrar um lugar onde eu pudesse esquecer a minha querida “A”. Estou convencido que este local não existe por que onde quer que esteja me lembrarei da sua imagem. Apesar disto tudo o eu gostaria mesmo é conquistá-la.
Assim a minha puberdade trouxe dois assuntos para minha consideração; primeiro a ideia da morte, quando observei o meu avô; e, a segunda a possibilidade de me ausentar de Mãe Luzia.

16 DE NOVEMBRO DE 1918

A Grande Guerra Mundial acaba de terminar!!!! Paz! Paz! Finalmente a Letônia está livre podendo ter governo independente. Isto me deixa muito feliz. O povo Letão nunca gozou de liberdade… Mas agora chegam notícias de que poderá livrar-se de quem a dominou. Ao se aproximar o fim do conflito, eu já havia imaginado que isso pudesse acontecer.

Continua

História da juventude de Emílio Anderman em Rio Novo

Esta História é longa, mas foge um pouco de Rio Novo, mas que poderá ser publicada se houver solicitação para tanto

M E M Ó R I A S D E E M I L I O A N D E R M N N

Escrito por Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

Na infância parece que o coração pulsava mais forte, era mais sensível. Dentro do corpinho pequeno abrigava labaredas de sentimentos que eram mais insistentes, rápidos e fortes.
Em Rio Novo, Santa Catarina, naqueles breves momentos em que lá vivi, adquiri impressões inesquecíveis sobre a natureza.
No relento, fora do aconchego do lar, ao anoitecer, respirando a atmosfera fresca eu exultava ao observar a natureza que adormecia. As escurecer progressivamente as grandes árvores e arbustos transformavam-se em simples sombras, pareciam mais agressivos.
Surgiam as estrelas, uma depois da outra. A lua nova por de traz da silhueta escura da crista da grande montanha aparecia como uma pequenina foice e tudo isto eu observava estupetafo. Seria esta mesma lua que iria se transforma em sangue com diz a profecia?
As grandes moitas envolvidas numa frígida nebulosa amedrontavam inspirando um respeitoso temor. Eu corria para dentro de casa onde brilhava a luz tênue de uma lâmpada de querosene. Aproximava o meu rosto da vidraça da janela e tentava olhar para fora, mas somente via a escuridão que freava a coragem de aventurar uma nova saída.
Numa noite quando eu dormia sozinho numa caminha fui tolhido por um pesadelo enervante. O local do acontecimento parecia aquele alto da montanha onde nascia o Rio Novo que era rodeada por outras maiores que limitavam a visão do horizonte, que eu habitualmente observava nas manhãs e ao entardecer.
Agora, no sonho, eu lá estava sobre os seus cumes cobertos de florestas, um insignificante ser, vendo surpreso uma tenebrosa convulsão das negras nuvens que rolavam céleres se enleando e distendendo numa louca corrida para ao infinito.

Nesta silenciosa penumbra, repentinamente estourou um mar de chamas se expandiu tomando toda a abóbada celeste e acima deste cataclismo, grandioso, impressionante, desfilava inesgotável o fluxo dos anos. Uma sonoridade constituída de muitas harmonias ecoava pelo infinito – “blam, blem, blam, blem”, que pareciam emitidas pelas trombetas dos arcanjos, cobria toda a orbe terrestre. Outros anjos sem coro cantavam hinos.
Eu dormira como se estivesse morto e quando acordei, os meus pés estavam sem os sapatos. Depois me contaram que na ocasião em que o relógio badalou as horas foi quando os meus calçados caíram dos meus pés.
Eu fiquei tão impressionado e amedrontado com este sonho que na conseguia mais adormecer sozinho e passava a noite temeroso, de que em uma outra ocasião qualquer, o fenômeno poderia se repetir na realidade.

MINHA DESPEDIDA DE RIO NOVO
Então nos estávamos em preparativos para viajar do Rio Novo para Mãe Luzia. Muito pouco me lembro daquela despedida que aconteceu na véspera. A minha irmãzinha Lídia e a Tereza estavam aprendendo a canção:
“Menino moribundo
No colo da mamãe.
Dizendo-lhe adeus
Baixinho, sussurrou
Em breve os anjos brancos
Pro lar me levarão
Oh! Mãe me encontre
Encontre lá no céu”.
Para ser entoada na reunião da despedida, elas me pediram para participar na voz de tenorino e eu cantei com muita garra, mas não tinha certeza se cantava o tenor, contralto ou outra harmonia qualquer; então para não estragar a execução, recusei-me a participar por que sempre fui bom no contra-canto, mas nunca igual na mesma tonalidade. Hoje tenho dúvida se realmente era a despedida.
A minha irmã Zelma (Mely) do meu pai e o tio Rodolfo andávamos tangendo um rebanho de ovelhas viajávamos na primeira leva; em outra ocasião depois desta, fez-se à mudança de toda a família.
De manhã cedinho fui despedir-me da família Klavim. Ali ficaram os meus inesquecíveis companheiros de brincadeiras infantis, mas fui para lá sentindo-me como se fosse um herói. O meu pai havia me presenteado uma harmônica de boca e eu soprava o instrumento com muita força e na minha imaginação o mundo todo estava escutando esta expressão de harmonia, esta solene e poderosa marcha de despedida e foi assim que subi a colina para me aproximar dos meus companheiros para me despedir deles.

Não me lembro dos detalhes desta despedida, mas apenas da grande confiança no futuro, o espírito entusiasmado e um sentimento de segurança que esta mudança me inspirava.
Depois nos iniciamos a viagem e começamos medir o caminho com os nossos passos até que entardeceu e chegou uma noite deslumbrante. Então nos acampamos e dormimos ao relento abrigados por uma encosta de morro, tendo as selas dos cavalos como travesseiros e os pelegos por colchões, cobertas pelas capas de cavaleiros.Além do vale soava uma música de dança que se ouvia de intervalo a intervalo, cujos tons chegavam ao sabor da brisa noturna. Na manhã seguinte acordei cedo por que a lua minguante brilhava nos meus olhos e também de Mely. Observamos a abóbada do céu onde reinava a luz, brilhavam as estrelas e enchiam os nossos coraçõezinhos com centenas de ilusões.
No fim da viagem em Rio Mãe Luzia a numerosa família do meu avô Ans que morava numa grande mansão, recebeu-nos como heróis. Fomos muito bem acolhidos, mas outra vez não me lembro dos detalhes, a não ser o paladar gostoso dos doces feitos com mel e polvilho preparados pela tia Marta, em contraste com a minha falta de compostura; logo depois, quando fiquei louco de raiva por causa de um pé de tangerina cheio de frutos que considerei uma propriedade exclusiva minha e a tia Marta me contrariou na minha intenção.
Sem perda de tempo iniciamos o desbravamento da mata virgem das terras que meu pai havia comprado; já havíamos feito o cercado e plantado o pasto e voltando depois de mais um dia de trabalho nele encontrado o gado trazido do Rio Novo. Isto despertou em nós o pensamento de que “eles já vieram” e então alegres e jubilosos corremos para cumprimentos os nossos pais.

A MINHA ORIGEM

Nasci na Letônia, em Pitraga, no dia 28 de julho de 1902. O meu pai exercia o cargo de Pastor da Igreja Batista local. De lá, quase nada me lembro.
Numa percepção longínqua, como num sonho, ficou guardada a lembrança de alguns acontecimentos:
• Meu pai me levava passear de bicicleta;
• A degola de um galo que esperneava muito;
• Junto com a irmã Lídia andávamos num campo de centeio;
• O majestoso mar Báltico.
No início do ano de 1905, atendendo a um convite, uma designação da Junta Missionária, o meu pai, junto com a família emigrou para o Brasil para ocupar o cargo de Professor da Escola primária Leta na Colônia de Rio Novo, perto de Orleans em Santa Catarina. Ainda me lembro dos marinheiros andando no tombadilho do navio que nos trouxe.
Nosso começo de vida aqui no Brasil foi muito bom. O meu pai dava aulas na escola, em dois turnos, de manhã e a tarde enquanto a família trabalhava na lavoura. Aos domingos e dias festivos ele dirigia o Culto e pregava na Congregação Batista.
Os nossos tios Karklis (a matriarca era meia irmã da minha mãe) nos convidaram para a festa de Natal e para chegar lá a Lídia e eu, cada qual, fomos acomodados em dois cestos [Jacás feitos de taquara Açu ] pendurados nos dois lados do cavalo, enquanto a Mely sentava na sela e esta foi a nossa condução. Fiquei fascinado pela luz das velinhas presas na árvore de Natal que me agradou muito, mas o maior interesse foi despertado pelo paladar das bananas que comi demais e tive uma indigestão.
Nós, os irmãozinhos ainda crianças, muito breve, encontramos companheiros para brincar de outras famílias que moravam perto. Mas a principal, logo depois que se descia colina e atravessava um regato, encontrava-se a casa dos Klavim, onde moravam os nossos principais parceiros lúdicos que eram três: Zelma – a mais velha, o Alexandre e por fim Alida – a mais moça.
Sempre encontrávamo-nos para brincar; às vezes com muito excesso e resultados arriscados.

OS COMPANHEIROS DE BRINCADEIRAS

Nossa atividade social, nossa alegria infantil, nossa felicidade, se realizavam quando nos encontrávamos. Aquele era o nosso mundo de crianças. Brincávamos de várias maneiras, construíamos casas, fazíamos bonecas de várias maneiras que dávamos em matrimônio que também adoeciam, morriam e então realizávamos os seus funerais no ritual Evangélico dos Batistas, cantando, dizendo versículos da Bíblia e orando.
Em outras ocasiões nós brincávamos de casamento. Vivíamos, adoecíamos, morríamos e depois realizávamos os nossos funerais, tentando imitar gente grande. Outras vezes brincávamos de anjos que traziam os bebes. O anjo se escondia atrás da esquina da casa e sorrateiramente vinha trazer a criança, enquanto nós fingíamos dormir. Então o anjo cantava, largava a criança e escapulia e nós acordando, vendo o nascituro jubilávamos de alegria. O anjo sempre era o mais idoso por ser o mais forte e o bebê o mais novinho por ser o mais leve.
Também imitávamos atividades domésticas e o patrão tinha o direito de castigar as crianças. Comerciávamos usando como dinheiro as folhas que colhíamos das árvores.
Numa ocasião as crianças dos Klavim vieram brincar na nossa casa. Terminado o jogo, quando elas retornavam para a sua casa, nós os acompanhamos até o riacho que estava transbordado devido às chuvas na cabeceira, correndo a água por cima da ponte.
Eles vadeavam com a correnteza até o joelho. De repente o Alexandre Klavim pisou em falso e sumiu nas águas. Lídia correu pela margem e o agarrou pela aba do paletó e assim, miraculosamente, conseguiu salvá-lo.
Brincando também cozinhávamos. Numa ocasião, mamãe não estando em casa fizemos o fogo da parede da Igreja que era de madeira e por isto começou a incendiar-se. Um transeunte viu o sinistro e chegou a tempo de apagar o fogo salvando a edificação. Constantemente apanhávamos surras dos nossos pais como castigo por excessos [A família Purim morava logo acima e minha avó Lisete e a família tinham visto diversas vezes as crianças dos Andermann andando pelo telhado do templo da Igreja qual tinha um pé direito bem alto mais o telhado de tabuinhas em um ângulo bastante acentuado, assim se uma criança despenca-se de lá de cima, seria um acidente sério na certa. A saída para o telhado era facilitada por uma janela junto ao final da escadaria da galeria ] praticados e por isto nos castigávamos mutuamente para se acostumar as pancadas.
Quando vesti as primeiras calças compridas conclui que a mamãe não teria mais o direito de me bater.

A MINHA DOENÇA

Papai cada dia ia banhar-se no Rio Novo. Eu o acompanhava, mas certa vez demorei demais dentro da água gelada, apanhei um resfriado e fui atacado de meningite. Minha mãe me cuidou com muita atenção empregando o método terapêutico de Belke, mas mesmo assim fiquei acamado por longo tempo. Depois me contaram que tinham de me acomodar com cuidado na cama por que sentia muitas dores. Graças aos esforços e cuidados da minha mãe eu convalescia e isto me causou muita felicidade e alegria por que, novamente podia correr livremente na natureza.
Certo dia a minha mãe precisou ir a cavalo para Orleans a fim de fazer compras e antes de seguir viagem recomendara ao meu pai que não me permitisse tomar banho no rio durante a sua ausência; mas o meu pai insistiu no banho e me levou junto quando apanhei outro resfriado e tive uma recaída. Outra vez a minha mãe teve de me tratar durante dias e noites, até que finalmente sarei; mas estava tão debilitado que, quando saí da cama, tive que engatinhar por que não tinha forças para caminhar.
Na minha convalescença minha mãe me perguntou o que eu queria comer e eu respondi: “uma sopa cosida e banana frita”. Em breve ganhei forças e fiquei completamente curado e podia novamente correr e brincar pelos montes de Rio Novo.

O MEU ENTENDIMENTO

Não sei por que, desde a tenra idade, o meu entendimento me propôs várias questões para analisar e pensar, mas que não tinha explicação. Também não sei por que a música e as maravilhosas belezas que eu observava na natureza tocavam tão profundamente a minha sensibilidade e tudo isto deixou no meu coração uma ânsia insaciável por uma existência farta e abrangente de realizações.
Repetida vez eu observava as nuvens que rolavam céleres sobre as montanhas, sem destino; e, estas brancas ondas de neblina, impressionavam o meu coração profundamente. Depois aquele céu escuro de onde aconteciam as trovoadas e que acentuavam a luminosidade dos relâmpagos absorviam o meu interesse. Quando o relâmpago riscava o céu com milhares de ramificações cintilantes e o trovão estourava naquele ruído que ecoava pelas montanhas, então eu corria para ao lugar onde eu havia visto a faísca atingir a terra, a procura daquela “bomba” e ver a cratera da explosão. Perdi muitas horas procurando a tal bomba.
Pensava que o arco-íris, em algum lugar, se firmava no solo e em uma ocasião decidi correr para encontrar este lugar.
Também sentia medo. Uma vez eu e os meus irmãozinhos nos banhávamos no riacho a beira da estrada. Pelo caminho vinham dois homens, um deles manuseando uma faca. Eu desconfiei de que eram malfeitores e então numa fugida louca, deixando a roupa para traz corremos para casa até chegar junto do meu pai de quem pedi uma faca para enfrentá-los. Então eles já estavam mais próximos e meu pai disse calmamente: “Eles estão picando fumo”.
Comentei com a minha mãe: “Tu disseste que o mundo é tão grande, no entanto ele termina logo ali adiante” e enquanto eu falava apontava para a linha do horizonte, pois estava convicto de que os limites da terra não iam além do campo da visão.

O GOSTO ARTÍSTICO

A música me empolgava muito. Quando ouvia tocar harmônio ou cantarem hino abandonava as brincadeiras e ouvia absolutamente sossegado. Eu também cantarolava tentando encontrar naquelas sonoridades que emitia, alguma coisa bela e atraente. Nas reuniões da Igreja Batista, quando toda a Congregação cantava, meu coração ficava tocado até as lágrimas, então os outros me observavam sem entender e me perguntavam se eu estava magoado. Meu pai me presenteou com uma gaitinha de boca que eu tocava insistentemente.
Quando a minha avó Ana veio nos visitar em Rio Novo ela me presenteou com uma flautinha de soprar que se tornou o meu brinquedo mais querido. Acabei estragando o instrumento por que queria aumentar o número e a largura dos furos onde colocar os dedos. Fui convidado a cantar no Coro da Igreja, mas depois me esqueceram de chamar e por causa disto fiquei magoado até as lágrimas.

A MINHA ALFABETIZAÇÃO

Já estava crescidinho e assim passei a freqüentar a escola. No recreio eu corria junto com os colegas. Sentia-me muito feliz por que estava me desenvolvendo e queria tornar-me logo um homem adulto e importante.
Quando observei que apenas o meu pai, como professor, iniciava as aulas com uma oração a Deus eu o aconselhei que deixasse os alunos também orarem; observei que a mamãe nos mandava fazer preces, todos os dias, de manhã cedinho aos acordarmos; mas o meu pai não me queria como conselheiro e sim como aluno e nesta condição ele me mandava decorar letras e números.
Depois que eu aprendi a ler e a escrever ele me mandava para a Biblioteca [Já naquela época a Igreja junto com a Escola mantinham uma Biblioteca ] para ler junto com outros companheiros mais adultos. Um dia, de brincadeira começamos a espirrar; apareceu papai e nos ameaçou castigar colocando em pé num canto da sala, mas os meus companheiros desculparam-se de que estavam resfriados, então eu fiquei sozinho por que ele sabia que eu não estava gripado.
Assim na brincadeira eu aprendi a ler. Também tentava fazê-lo em português, mas não entendia palavra, mas com a ajuda do meu pai em breve aprendi a língua tão bem que numa viagem missionária que meu pai realizou a fim de pregar o Evangelho, ele permitiu que eu lesse em voz alta o Novo Testamento em público.

MEU COMPANHEIRO CELINO

Ele era brasileiro autóctone e tendo ficado órfão não tinha onde ficar. Então minha mãe o abrigou em nosso lar como se fosse filho. Mas isto foi um erro por que este menino de 11 anos me arrastou para uma má conduta. Eu acabei submisso a sua vontade e ele me perseguia tanto quanto desejava. Nosso círculo de brincadeiras e amizade foi acrescido dos filhos dos Feldsberg. Então já com mais idade iniciamos reuniões para orar a Deus. Destes momentos o meu novo e mau companheiro brevemente me afastou.
Em vez das brincadeiras antigas agora fazíamos pipas, andávamos a cavalo, tomávamos banho no rio e praticávamos pequenos furtos nos pomares e hortas dos vizinhos. Ele era tão arteiro que breve encontrou o caminho para o sótão e depois para cima do telhado [ A minha avó Lisete Rose Purim confirma esta informação de eles andarem sobre o telhado. Na parte leste do telhado havia uma mansarda que facilitava bastante o acesso ] .
O meu pai nos mandava colher milho na roça. O Celino então aconselhou que procurássemos as espigas sem grão por que eram mais leves de carregar. De fato os cestos ficaram mais leves, mas gastamos tanto tempo e trabalho na procura que teríamos ficado menos cansados se tivéssemos trabalhado direito.

MUDANÇA PARA MÃE LUZIA

O meu pai Carlos Andermann teve muito interesse e começou a ler a literatura dos Pentecostais que o levou a modificar a sua convicção religiosa. Por causa do desvio doutrinário ele foi pressionado para deixar a liderança da Igreja Batista de Rio Novo.
Em Mãe Luzia morava a família dos nossos avós paternos, Ans e Ana Anderman, neste local o meu pai comprou um terreno vizinho, fazendo fronteira com a propriedade do meu avô.
A minha irmã Mely Zelma e eu fomos os primeiros a viajar para juntos dos meus avós. Nós andamos durante dois dias a cavalo por uma estrada muito enlameada.
Nós avançamos heroicamente pela estrada, a viagem transcorreu e nos agradou muito.
Gostamos muito de Mãe Luzia que tinha outro aspecto topográfico por que planície, com montanhas enormes (a Serra do Mar) muito distantes. Os meus avós e os meus tios nos receberam amorosamente e procuravam nos agradar muito. Descobrimos o rio de águas límpidas, mas que tinha muita correnteza que, quando nós tomávamos banho, não nos deixava afastar das margens com medo de sermos arrastados. Esta Mãe Luzia era novidade pra mim, era estranha e prometia muitas descobertas novas. Ela encheu o meu coração e me senti feliz como se fosse um passarinho.
Depois do dia de trabalho e aos domingos o tio Rodolfo tocava num harmônio enorme de fabricação inglesa com técnica de um virtuose, um artista e até executava uma peça chamada “Gloria in Excelsis Deo” de Vivaldi. Estes momentos me agravam tanto que eu pensava: “o céu não será mais acolhedor”. A música me agradava tanto que até esquecia a existência enquanto a escutava.
Passados alguns meses, em 1910, chegou o restante da família, pois como já disse eu e a Mely, fomos os precursores. Agora o meu pai trouxe a mudança. Vieram também os irmãozinhos Teófilo, Celino e as irmãzinhas, assim todos estávamos reunidos, iríamos morar provisoriamente na cada do meu avô. Na mesma viagem, tangido pela estrada, viera também o gado bovino.
Começou o trabalho árduo de desbravar as terras virgens que foram compradas por meu pai pela importância de 600$000 (seiscentos mil reis).

A VIDA EM MÃE LUZIA

Ali a nossa vida na corria com tanta facilidade como a tínhamos imaginado. Tivemos que trabalhar na lavoura desde o amanhecer até o anoitecer, cercar e cuidar do pasto para o rebanho. Os primeiro anos foram muito difíceis para nós.
A moradia em casa estranha também não era fácil. Aconteciam desentendimentos, falta de cordialidade. Diluiu-se também aquela bela esperança religiosa baseada no Pentecostalismo a vida nos levou por um caminho difícil de ser vencido e junto com o corpo cansado sofria o espírito. Papai não tinha resistência física para aguentar o trabalho braçal, além de franzino a sua formação era de intelectual e a minha mãe muito menos todo serviço brutal que fazia ia além de suas forças.
Os trabalhos domésticos eram feitos depois do anoitecer. O pão caseiro de milho era assado durante a noite, como também lavada toda a roupa da família. Nós os filhos também aprendemos a trabalhar com suor nos rostos para arrancar da terra a nossa simples alimentação e conseguir o desenvolvimento físico.
O que mais me perturbava era o Celino que era um menino de sentimentos muito baixos. Ele tinha a habilidade de me desviar par ao caminho do mal. Eu orava muito a Deus e tinha o coraçãozinho bastante iluminado e por isto distinguia o caminho mau, mas ele era como se fosse o próprio satanás que insinuava aquelas idéias e conseguia me influenciar.
As cercas da nossa propriedade eram fracas. O gado do meu avô invadia a nossa lavoura e devorava as plantações cultivadas com tanto esforço. Esta preocupação perturbava muito a minha mãe que diante desta ameaça não conseguia dormir. O fato dos meus avós não conseguirem dominar o seu gado aborreceu a minha mãe a tal ponto que ele resolveu abandonar Mãe Luzia. Numa manhã ela selou o cavalo e partiu para o Rio Novo, deixando o meu coração muito, muito, machucado quando chorei demora e dolorosamente. Lá em Rio Novo ela teve uma inflamação no pé e este acontecimento a conscientizou e, assim depois de algum tempo, ela de surpresa, retornou e diante disto tos nós ficamos muito contentes.

O MEU BATISMO EM 1911

O Pastor João Inkis, vindo da Letônia, visitou as colônias no Brasil. Ele também esteve em Rio Novo e de lá, acompanhado por muitos outros patrícios, a cavalo, também veio para Mãe Luzia. Os sermões dele tinham muita vida, inspiração e força de convicção.
Num domingo de manhã, antes do culto ele falou especialmente para os adolescentes que sentávamos, em fileira,,sobre um banco tosco de madeira. Ele então falou sobre a fé, contou estórias sobre o amor, tomando para ilustrar, exemplos da vida diária e atingidos por estas explicações os nossos corações começaram a derreter. Sentimos remorso da vida que levávamos e o arrependimento dos pecados e fomos profundamente atingidos na nossa alma.
Vários de nós sentiram a alegria da salvação e entre estes estava a minha irmã Lídia e eu. O nosso batismo foi um acontecimento muito bonito; a margem do rio foi roçada e lá se reuniu muita gente. Lembro-me que fiquei temeroso de entrar na água fria; mas depois da imersão, senti uma felicidade tão grande que até então nunca havia sentido antes.
Depois do batismo me esforcei para ser um crente exemplar. Eu orava muito a Deus e comecei a ler sistematicamente o Novo Testamento. O versículo que mais me agradou foi aquele Salmo de Davi: “O SENHOR É O MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ”.
Aqueles eram momentos muito agradáveis em que eu gozava a solidão junto a Deus.

A CASA NOVA

Anteriormente numa colina nas terras de meu pai edificamos uma meia água sob a qual nos abrigávamos das chuvas. Depois construímos uma cabana, onde nós brincávamos e às vezes estudávamos enquanto os nossos pais trabalhavam.
Não me lembro em que ano começamos a pensar na construção da nossa casa nova. A nossa primeira preocupação foi com o telhado e então, sozinho, fui a cavalo para o Rio Novo para convidar o velho Rosa que era um hábil artesão em lascar telhas de madeira. O Jakobson e o professor Germano serravam as tábuas. O meu pai com o machado aparava [Farquejar ou falquejar] a madeira da estrutura, o esqueleto para sustentar as paredes e o teto. Em mutirão vieram mais alguns amigos de Rio Novo junto com o velho Karklis que assumiu o cargo de “mestre de obras”. Então o Levenstein [Löwenstein] se desentendeu com o Karklis e o primeiro largou o trabalho e voltou.
A nova casa nós estávamos edificando num promontório que havia sido desmatado recentemente. Ainda haviam tocos e troncos abatidos. O trabalho progredia acelerado e em breve a estrutura já estava de pé e assim continuou até a colocação da cumeeira. Depois o velho Karklis também foi embora e daí em diante a construção ainda demorou muito para terminar.
Ainda tivemos que construir o celeiro, o estábulo e cavar um poço, mas tudo isto foi conseguido rapidamente. Eu também contribui com todas as minhas forças até o dia feliz, quando finalmente,. Pudemos fazer a nossa mudança. Na nossa imaginação não existia nada mais lindo no mundo do que o nosso novo lar, embora ainda faltasse o assoalho.
Havia mais animação para iniciar uma vida nova, aumentando o pasto, ampliando a extensão das terras plantadas, plantar o laranjal e as nossas forças de adolescentes não correspondiam para vencer todos estes trabalhos, e, assim ainda passaram vários anos até que a nova vida começasse a progredir com certa regularidade.

COM 14 ANOS EM 1916

Neste ano surgiram na minha mente ideias novas e nobres. Daquela época ainda guardo os meus primeiros trabalhos escritos. No meu coração acordou a ambição pelo estudo. Teve início a minha paixão pelo estudo da música e também surgiram em mim sentimentos de patriotismo, pois a Letônia foi o campo de batalha da Guerra de 1914 a 1918. Com muito ardor então me afeiçoei a uma mulher a que chamarei de A e ela me causou muita mágoa. Neste ano a Mely Zelma e eu frequentávamos uma escola em Forquilhinha, mas por causa da grande distância que tínhamos de caminhar, depois de 4 meses de frequência tivemos de abandoná-la. Para lembrança estou guardando um caderno desta época.
Neste ano também encontrei novos amigos; nós aprendíamos a tocar instrumentos e pontualmente tínhamos reuniões de aulas de música. Neste ano também teve início a construção da estrada de rodagem de Criciúma para Mãe Luzia e assim foi facilitada à comunicação com aquela estação férrea. O Silvestre começou a construção de sua venda nas terras do meu avô.

MÚSICA

Lembro-me que já há muito tempo eu desejava estudar música e assim pedi ao meu pai para escrever as notas para mim. Eu iniciei o estudo da escala, mas fiquei admirado como poderiam as pessoas distinguir o valor de cada uma através daqueles pontinhos negros que me pareciam iguais. Não percebi que elas estavam escritas no pentagrama e que a escala subia ou descia de acordo com a sua colocação. Quando iniciei o aprendizado para tocar o harmônio então também aprendi as notas.
Eu também aprendi a tocar violão e violino. O tio Rodolfo construiu um violão para si mesmo e eu não sentia nada mais agradável que tanger as suas cordas. Meu pai comprou um violino e eu iniciei o seu estudo com todo empenho. Tio Rodolfo muitas vezes tocava violino e eu era capaz de acompanha-lo ao violão. Nós frequentemente tocávamos música e estes momentos foram os mais felizes para mim. Foi um passatempo agradável. Nunca pude imaginar qualquer coisa mais bela do que a música e por isto eu adorava ficar na casa do meu avô por que lá se tocava muito o harmônio.

SEGUNDA-FEIRA, 5 DE FEVEREIRO DE 1916

Hoje foi um dia muito quente, não chove há várias semanas. Todos nós levantamos cedo e fomos capinar o canavial. Junto com o meu pai, fomos arar. Era um trabalho difícil por que a terra ainda estava cheia de tocos e raízes, nós arrancamos três tocos. Na hora do almoço toquei violino. Agora é tempo de melancias maduras e nós temos bastante para colher.
7 de FEVEREIRO – Levantamos junto com a alvorada e fomos continuar a arar a terra do meu pai. Logo terminamos e amanhã já poderemos plantar. Depois também chegou Teófilo que trouxe o Julinho. Todos estávamos muito felizes e a minha mãe que trouxe o almoço para comer ali mesmo nos disse que durante toda a existência não iríamos esquecer este momento.

ANO DE 1917

Este ano foi para mim repleto de trabalho estafante.
Nas horas de lazer eu lia muitos livros e me esforcei para escrever. A Geologia me fascinou e eu também com muita volúpia me interessava por outras ciências. Também a música atraiu minha atenção, copiava músicas e tentava criar alguma coisa por mim mesmo, mas toda esta insistência me deixou muito cheio de mim, orgulhoso, quando na realidade eu deveria ter tido vergonha da minha ignorância.