Cartas de Rio Novo | Por V.A.Purim

NESTE CAPITULO TENTEI DESCREVER A RAZÃO PELA QUAL EU USEI BASTANTE TEMPO NA TRADUÇÃO DAS CARTAS PARA QUE AGORA SEJA POSSÍVEL VISUALIZAR UMA PANORÂMICA DA VIDA DOS COLONOS DAQUELE TEMPO. VER O CAPÍTULO DE “CARTAS ” NESTE MESMO BLOG.

Cartas
de
Rio Novo

Cartas
Cartas que foram escritas de Rio Novo – Orleans e também de outras localidades também relacionadas à Colônia Rio Novo, para Reinaldo Purim, um estudante do Seminário Batista no Rio de Janeiro pelos seus familiares e amigos.

e
traduzidas
ou compiladas em 1.995 em diante
Por V. A. Purim.

Observação: Foi respeitada, na medida do possível, a linguagem na forma originalmente escrita, sem preocupação de corrigir os erros encontrados (concordância, gênero, etc. ) e nem os nomes de lugares e pessoas como Rio Larangeiras, Rodeio do Assucar e nem as cartas escritas em português ou castelhano. Também não foram consideradas todas as cartas que não tivessem alguma relação direta ou indireta com Rio Novo ou Orleans com exceção de algumas de amigos que nos permitem a visualização do tipo de amizades e relacionamentos entre os imigrantes letos e os seus descendentes.
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• MUITO IMPORTANTE: Sempre que são mencionadas opiniões sobre pessoas, Igrejas, associações, autoridades etc. daquela época devem ser encaradas somente no sentido histórico e todos descendentes destas pessoas como nós, possamos ver a História de modo positivo com o propósito de cada dia aprender mais e não repetir os eventuais erros de comportamento de nossos antepassados.

Objetivos:

Obter uma visão panorâmica da vida na colônia principalmente quanto as seguintes áreas:
1) Cultural – Avaliar a capacidade de absorção das influências externas. Jornais, livros, música, poesia e intercâmbio de informações com outros lugares e outros países. A Biblioteca da Comunidade. A língua e seus problemas, a comunicação informal, os boatos, as fofocas, etc. A importância dos Almanaques. Os primeiros rádios. A diferença cultural entre os Imigrantes Letos e das outras etnias.

2) Comercial – Observar os impactos dos acontecimentos mundiais no comércio e na vida de modo dos colonos de modo geral. As Vendas. Os Caixeiros Viajantes. Os Mascates. Os intermediários nas compras de porcos dos Serranos. Outros produtos comprados e vendidos pelos serranos. As Bodegas. Os Reclames.

3) Social – Verificar as diferenças entre as classes sociais, o preconceito racial, as divergências entre as famílias, entre grupos religiosos, os direitos da mulher, os serranos, os manecos, o impacto da Primeira Guerra Mundial na vida diária. As principais preocupações. Festas, noivados, casamentos, aniversários e funerais. As crendices, superstições. A comunicação com as outras colônias. Comportamento da Comunidade numa visão geral.

4) Geográfica –A posse legal das terras. O sistema da divisão das glebas, (Colônias) A Companhia Colonizadora Grão Pará. Sistema de pagamentos pela terra. Medidas usadas na época. Influência dos Diretores da Cia. na vida dos colonos. Nesta área incluímos os fenômenos climáticos, os desastres como inundações, queimadas, e ainda pragas como gafanhotos, papagaios, e as vias de comunicações como Estradas de Ferro. Estradas ligando as cidades entre si. Estradas ligando as colônias à cidade. Estradas ligando regiões como a área do litoral (Serra Abaixo) com o planalto (Serra Acima). Os correios e seu desempenho. O relacionamento com outros países, outras cidades e principalmente com as outras colônias como Rio Oratório, Mãe Luzia, Rio Branco, Nova Odessa, Varpa e outros países como Argentina, Estados Unidos, Letônia, etc.

5) Econômica – Principais culturas milho, feijão, arroz, batata, mandioca, cana de açúcar; principais criações, suínos, bovinos, aves, abelhas; renda anual de uma família de colonos.

6) Religiosa – Algumas diferenças entre os batistas e outros grupos religiosos e as divergências entre os próprios batistas. Os tradicionalistas e os “evangelistas”. Os movimentos de Renovação ou Pentecostais. Os cultos e outras atividades. As Festas Religiosas. A importância da Música. A importância do Domingo. Os dias separados dos Batistas Letos. Os Dias Santos dos Católicos. Os Sabatistas. Os Pentecostais. Os Luteranos. Os Ateus. As aspirações em busca da perfeição.

7) Educação – Escolas, cursos, professores e o alcance e a amplitude do conhecimento que era possível aspirar naquela época. As bibliotecas. A importância da vida cultural com intercâmbio através de publicações, livros, revistas e mesmo contato com pessoas de outros lugares e países. Necessidade da saída dos jovens em busca de mais oportunidades.

8) Política – Sistemas de governo. Campanhas políticas. Eleições. As revoluções. Impostos. Abertura e manutenção de estradas. Idem pontes. Serviço do Exército, Prefeitos, Justiça. Polícia. Inspetores de quarteirão. Comportamento das diversas classes de pessoas como Nacionais, Italianos, alemães, poloneses e outros etc.

9) Meio ambiente – Animais silvestres, caçadas, vegetação, ecologia, conservação etc.
10) Saúde – Doenças, epidemias, vacinas, acidentes, picadas de cobras, aranhas, marimbondos, mangangabas, motucas, mosquitos, formigas etc., medicamentos como chás, infusões, homeopatia, emplastros, hidroterapia, benzeduras, crendices, superstições.

11) Habitação – Templos, escolas, casas, ranchos, paióis, chiqueiros, galinheiros. A arquitetura típica. Os materiais de construção. O superdimencionamento das estruturas das construções.

12) Energia – A força do boi e do cavalo. As rodas d’água. As turbinas.

13) Os Profissionais carpinteiros e outros que planejavam e construíam casas, atafonas, os engenhos de cana, de farinha de mandioca, as serrarias, ferrarias. Etc.

14) Indústrias – De transformação como engenhos de cana para a fabricação de açúcar e também para farinha de mandioca, atafonas, serrarias, tecidos de lã de fiação e tecelagem caseira. As ferrarias rudimentares. Os fabricantes de móveis (marceneiros). Banha e linguiça. Carne seca (charque). Fabricação caseira de sabões. As Olarias (cerâmicas para fabrico de telhas e tijolos).

15) Transporte– navios, (vapores) trens, carroças, charretes, aranhas, galeotas, carros de bois, cavalos, tropas de mulas, manadas de bois (tropas), idem de porcos etc. Mais tarde automóveis e caminhões. Pontos de pousada.

16) Esporte e recreação – Bailes, Corridas de Cavalos. Jogos de Bocha. Caçadas. Pescarias. Banhos em rios e açudes. Piqueniques.

17) “Alimentação – Pão de farinha de milho, a polenta, as panquecas, a farinha torrada, o pão de trigo, as bolachas, a “minestra”, o molho leto, a biezu putru” (polenta de canjica servida com leite desnatado frio), o pirão de farinha de mandioca, o mel, o melado de cana, o açúcar mascavo, as roscas de polvilho, o requeijão, a nata, os queijos, os doces de frutas (mousse), o “thissel” que é uma geleia de suco de frutas com polvilho para dar consistência, o “tclhiltchan” que são sopas doces de frutas com massa panqueca dentro e servidos frios, os sucos de frutas em conserva, o salame de carne de porco, a carne de fumeiro (ossos salgados, costelas, etc., o charque, o torresmo o toucinho (bacon), o chouriço de fressura, o galet, o bullion, os ovos de galinhas e patas, a pasta de amendoim, a banha de porco, a carne conservada na banha, a carne de gado, a carne de porco, a carne de aves, a carne de ovelha, a carne de cabritos; os peixes como traíra, acará, piava, cascudo, jundiá e às vezes peixes do mar como tainha e pescada; em conserva como sardinhas e outros; a carne de caça como tatus, inambus, pombas, urus, pacas etc.) os feijões pela ordem: preto, manteiga, 60 dias, de vara, de metro, feijão arroz, macuco, de vagem etc.; a batata inglesa, a batata doce (branca, roxa, etc.), a batata ou mandioquinha salsa, os aipins (branco, manteiga pêssego, ouro etc.) o café de café, café de milho, café de sorgo, café com açúcar queimado; os chás de mate, de folhas de laranjeira, de groselha, de hortelã, preto e outros medicinais; arroz comum e o ligeirinho, palmito de juçara; hortaliças como os repolhos (Chato de Brunswick, Coração de boi, Roxo etc., as couves (Manteiga, Repolhuda etc.), os nabos, as cenouras, as beterrabas, as rúculas, as alfaces, as acelgas que eram usadas para fazer panquecas, os tomates, os rabanetes, as ervilhas, as chicória (as nativas eram chamadas pelos italianos de “radichi”), os chuchus, os agriões, os pepinos, as abóboras e as morangas, as a os taiás, os inhames; as frutas começando pelas laranjas: da terra, a crava ou mexerica, a tangerina, a baiana, a “coruja”, os pomelos etc. ; as bananas branca, nanica, roxa, abóbora, maçã, ouro, prata, figo, etc. ; os pêssegos, as ameixas enxertadas, as ameixas amarelas, as jabuticabas, os araçás, as cortiças, as cerejas, as amoras silvestres, as amoras domésticas, as goiabas, os figos, as pêras, as uvas, as melancias, os abacaxis, os ananases, os melões e os mamões. Os temperos como a pimenta cayena, a pimenta redondinha, a salsa, a cebolinha, o endro, a erva doce, os alhos ( colorau não tinha não).

18) Serviços Públicos = Escolas, estradas e cemitérios etc.

Atualizado em 10/08/2009

Viganth Arvido Purim
Curitiba – Paraná

O FEITICEIRO | POR VILLIS LEIMANN

O FEITICEIRO

Escrito por Willis Leimanis

Traduzido do Leto por Julio Andermann

Revisado: Viganth Arvido Purim

Há 70 anos, próximo da estrada de rodagem que seguia para o Leste, pela margem esquerda do rio Dvina [Daugava], na Letônia, a primeira casa que era visível acerca da metade do caminho foi a suntuosa edificação branca da Taberna de Pedra e continuando o caminho, construída em tijolos vermelhos, a Tasca [Também taberna] do Silo.

Continuando, por esta mesma estrada aparecia, em sequencia, a casa do Didemo e o lar dos Russinhos, que se compunha de várias casinhas, assim chamada por que foram doadas pelo Tzar da Rússia, junto com um pedacinho de terra, como preço [Prêmio] a soldados que haviam servido a Coroa por mais de 25 anos.

Deste conjunto de habitações, cruzando a estrada, por um caminho secundário se chegava à casa dos Pliko. O seu proprietário era agricultor e guarda de florestas, que eram entremeadas por charcos.

Ali também nascia o rio Ezerva, afluente do Dvina. Ignoro se aquelas florestas pertenciam a Coroa ou a algum latifundiário abandonado.
Estas são as lembranças de um menino que tinha 4 anos, que hoje está com 74 lamentando a falta de oportunidade de visitar este cenário e rever como ele está hoje. Ao lado da casa do Pliko, próximo à represa, em condições de muita pobreza, habitava a família Leiman que era constituída dos pais, avô paterno e 3 garotos. O pai da família ganhava a vida como serrador de taboas e dormentes – quando e onde pudesse encontrar o trabalho escasso e mal remunerado – sem qualquer esperança no futuro.

Corriam notícias de que no Brasil era possível comprar terras e que as Empresas de Colonização financiavam a viagem e o assentamento.
Nas casinhas dos Russinhos morava a família de Pliederis e Rudzi [Deve ser Rudzit] que também levavam uma vida miserável. Não me lembro do número de quantas pessoas eram, mas sei que o meu pai combinou com eles que iria procurar um caminho que todos conduzissem ao Brasil.

No fim da última década do século passado, emigrou a família do Leimanis (comigo entre eles); junto com o pai e filhos dos Pleederis [a pronúncia é “Pliederis”.] ficando a mãe e a filha para virem, em outro grupo, junto com o Rudzit, mais tarde. Depois de uma viagem de 8 semanas enfrentando desconforto e tempestades, a minha família estava nas matas virgens do Brasil no Estado de Santa Catarina.

Logo depois que o primeiro pedaço de terra estava preparado para o cultivo e a plantação começou a brotar, os Leiman, pai e filho, carregando o serrote, saíram à procura de trabalho.

Nas noites frias e chuvosas, os Pleederis vinham visitar a família Leiman, que sentados em volta de uma fogueira aconchegante, falavam sobre a Terra Natal distante, dos vizinhos que lá deixaram e também sobre acontecimentos sobrenaturais.

A senhora Leiman animava os filhos para que fossem dormir. Mas como? E estas estórias! Então contavam a respeito daquele fazendeiro que tinha um olhar azarado. Bastava ele olhar firme para um animal, para que ele em breve morresse. Até para os próprios cavalos evitava olhar e para isto, por traz do cocheiro, foi estendida uma cortina. Sim senhor – existe cada tipo!

No sótão de uma certa casa trabalhava um alfaiate, que era um agregado. Num dia, de manhã, exigiu da senhoria que imediatamente lhe servisse carne para comer. A dona da casa prometeu sacrificar um galo para lhe servir no almoço, mas o alfaiate insistiu, quero comer carne agora mesmo no desjejum. Inquieto se retirou da casa e logo depois o pastor de ovelhas ali próximo começou a gritar:
“Socorro, socorro, olha o lobo atacando o rebanho”.
Muita gente acudiu, mas o lobo já havia sumido deixando um carneiro com a garganta cortada. Logo depois, a dona da casa entrou outra vez na sala e observou restos de lã de carneiro nos dentes do alfaiate que tinha voltado. Então, ficou entendido que ele era um lobisomem.

Mas como isto pode acontecer? É muito simples, quem tem esta dupla natureza, quando quer rasteja por baixo de uma raiz de carvalho [Na nossa infância em Rio Novo Orleans também eram contadas estórias deste gênero com a diferença que seria necessário passar três vezes. Nós crianças fazíamos experiências com raízes de figueiras, embauvas etc. ficando decepcionados por não acontecer nada] – torna-se lobo – rasteja de volta – é outra vez homem com dantes. É por esta razão que um lobo deste tipo, não se consegue capturar nem mesmo com auxílio de cachorros.

Mas tudo isto não é nada. Vocês já ouviram falar daquele sujeito que carregava no bolso aquele rublo de prata encantado do diabo? É… com este rublo de prata ele podia comprar tudo que desejasse, mas depois quando o vendedor dava o troco, grachos e copecos, [Moedas divisionárias do rublo que eram a moeda oficial do Império Russo da qual a Letônia na época era uma simples província].
ao sair da venda, o rublo de prata estava outra vez no seu bolso. Quando chegou a hora da morte por causa da sua velhice, surgiram as dificuldades; ele não conseguia expirar. Sua agonia demorou um dia e meio, por que a alma não queria se separar do corpo. Então começou a inchar, ficando tão inflado que as suas roupas ficaram apertadas. Era terrível ver a agonia daquele homem que ficou tão estufado que acabou explodindo com um grande estrondo que quebrou as vidraças da casa e da vizinhança. Mas quando foram examinar os seus restos mortais espalhados por todo lado, verificaram que tudo cheirava a enxofre, sendo obrigados a chamar o padre para defumar tudo com incenso.
Onde ficou o rublo de prata? Não se sabe, por que qualquer um que o quisesse gastar teria primeiro de fazer o juramento ao diabo, e recitar os seus mandamentos.
Agora no Brasil.
Lá no meio da mata virgem onde ainda se ouvia os uivos de animais selvagens notívagos no escuro inescrutável, nos os adolescentes, tremendo de medo, se achegavam mais ao lume de lenha, o queixo tremendo e os dentes batendo e depois que foram dormir, o menino menor vítima de um pesadelo, acordou gritando, então a senhora Leiman concluiu que este tipo de estória era imprópria para auditório de menores; com o que não concordavam os garotos sequiosos de ouvir novidades tão escassas no local.

O jovem Pleederis veio nos visitar para solicitar da senhora Leiman uma opinião sobre as moças da colônia. Disse que estava pensando em se casar para constituir família, mas ela respondeu que, neste momento, isto era desaconselhável, por que a sua mãe e as irmãs, ainda não haviam chegado ao Brasil.
Os Pleederis e Leiman falavam o idioma Letão com a pronúncia do interior, quase com sotaque de caipiras, enquanto a maioria dos colonos da redondeza era oriunda dos arredores de Riga e caçoavam deste modo de falar. Mas o jovem Pleederis estava decidido a procurar uma noiva e quando há força de vontade, abre-se o caminho como diz o poema Kr. Waldemar [Karlis Waldemar – famoso poeta leto] que talvez ele não tivesse cultura para conhecer:
“Quem tem vontade e a mente forte,
Não temerá o percurso,
Vencendo florestas e muros fortes.
Abrirá o seu caminho”.
E, assim o Pleederis, resoluto começou a abrir o caminho em busca de uma moça para se casar.

Na Colônia Letã os livros no idioma pátrio eram escassos, a não contar a Bíblia e os hinários das igrejas. As famílias que tinham trazido livros de literatura emprestavam-nos aos vizinhos num intercâmbio, como também a outras pessoas que os desejassem ler.
Ficará em segredo o nome do proprietário que possuía o “Livro dos Noivos” que continha amostras e modelos de como escrever cartas de amor. De posse deste livro o Pleederis comprou papel de carta florido e deu início de elaborar cartas copiadas daquelas belas e amorosas sentenças insinuando amor, esperança e muitos outros sentimentos nobres.
Para entregar a correspondência a sua amada ele empregava aquela estratégia de emprestar e tomar emprestado livro, como era o costume, colocando a carta entre a capa e o título. Ele pegou o livro bem embrulhado e na reunião da Igreja no próximo domingo, na presença de senhoras e moças, aproxima-se da eleita do seu coração, devolve o volume e agradece a gentileza do empréstimo elogiando o seu conteúdo e pergunta se no próximo dia santificado, não lhe pode trazer um outro livro, acompanhando as palavras com aquele olhar furtivo que a moça entende imediatamente como um pedido de troca de correspondência.
Na Bíblia o Rei Salomão desaconselha a confiar em gente que se entreolha furtivamente; mas o que se pode esperar da decisão de uma moça inexperiente, cheia de paixão, embora ela tenha decorado o conteúdo do livro sagrado. Chegando em casa, sozinha e atenta, a eleita lê com agrado àquela carta escrita com aquelas palavras doces e enganosas que ele copiou do livro e o seu coração quase derrete esperançosa da felicidade.
Na vida monótona dos colonos que passavam os dias no trabalho pesado, tanto os homens como as mulheres, falta de recursos para pagar outras diversões, este era um momento fulgurante.
Finalmente as cartas acabavam marcando o encontro pessoal, que era um acontecimento difícil por que, durante o dia, todos trabalhavam na lavoura e a noite a família ficava reunida na pequena sala da primitiva habitação, até a hora de dormir, que tornava muito difícil manter o anonimato. Mas até para vencer este empecilho a “força de vontade” encontrou solução. Num breve diálogo com a sua eleita que tinha o nome de Ana, ficou combinado que este encontro se realizaria, numa manhã, na casa dos pais dela.
Enquanto todos trabalhavam na lavoura, ela encontrou uma razão plausível para dar uma chegada em casa. Absortos no namoro, os dois não notaram o tempo passar e eis que ouvem o alvoroço da família que estava voltando para o almoço. A única saída encontrada foi o Preedelis esconder-se num armário de roupas até que os comensais alimentados voltam para o trabalho vespertino, enquanto ele suava dos pés até a cabeça.
Este romance teve pouco tempo de duração. A Ana também tinha uma mente forte e afiada. Em breve ela verificou que o caráter do namorado não era bem aquele que transparecia nas cartas. Duro com duro não dá um bom muro e assim apareceu o desentendimento e o relacionamento acabou.

Mas o Pleederis não se deu por vencido e depois de algum tempo de espera, começou a agradar a outra moça. Mas também desta vez as mensagens daquelas cartas arrebatadoras, causaram boa impressão por pouco tempo e o resultado se repetiu, quando os namorados se aproximavam, num encontro pessoal, os rosados sonhos da noivinha se esmaeceram, deixando um coração ferido, humilhação e o amargor do engano.

O Pleederis tinha uma boa apresentação: a cabeleira avermelhada, bigodes, olhos da cor de azul celeste, face rosada, bem trajado até o ponto que isto era possível no meio da floresta; mas no seu relacionamento com outras pessoas, era desumano, empedernido e grosseiro com as palavras e na atitude. Quando procurava a noiva para se casar, não escondia a cobiça querendo saber quantos porcos, gado bovino e galinhas a noiva traria de dote e por causa destas exigências desmoronaram vários idílios.

Finalmente quando chegaram da Letônia a outra parte da família – a sua mãe e a irmã Elsa, se pode verificar que ele havia herdado a natureza da mãe. Esta senhora era rancorosa, ambiciosa, vingativa além de ter outros defeitos. Por motivos fúteis ela implicava com os vizinhos e num linguajar de caipira dizia: “Nunca, jamais, a minha Elise pensara em se casar com Frederico Leiman, [Fritz era irmão do Willis] porque nunca vou esquecer que sua mãe me xingava”, mas o máximo que a Sra. Leiman dissera para a Preedulis fora: “Você é fedorenta”.

Havia também uma diferença no modo de se expressarem, os colonos que vieram de Riga diziam: “Mas que rosa perfumada”, enquanto os caipiras diziam: “Esta rosa cheira bem”.

Mas na colônia as coisas se modificavam pela ação do tempo que se passava, a velha Pleeder de repente adoeceu e depois de alguns dias faleceu. Mais uma vez ficou comprovada a falta de sentimento no comportamento do filho. Mal o corpo da senhora chegou ao cemitério foi baixada a sepultura, e enquanto os assistentes ainda estavam rezando o “Pater Noster”, o jovem Pleederis jogou, com toda brutalidade, a terra em cima do caixão da mãe falecida, provocando aquele ruído seco de trovoada distante ao cair sobre a urna funerária, e embora esta gente tivesse acompanhado os outros enterros de patrícios falecidos anteriormente, nunca dantes se viu um procedimento tão irreverente. Meneando a cabeça alguns letões sentenciavam: “parece que este ato encerra alguma ciência oculta”.

A filha dos Pleederis, Elsa, viajou para a cidade a fim de servir como empregada doméstica e assim ganhar algum dinheiro, deixando o pai e o irmão sozinhos no sítio. O velho era um homem fraco. Já no primeiro ano de atividade, uma secreção leitosa de um cipó cortado, caiu num dos seus olhos que vazou. Portando uma barbicha e cabelos brancos, tendo as faces rosadas, ele deixava uma impressão estranha. Solitário, perambulando pelas estradas gesticulava ameaçadoramente. Falava sozinho e o que ele dizia, ninguém entendia nem mesmo os meninos adolescentes que se escondiam nas moitas da beira do caminho.

O jovem Pleederis continuou a perseguiu o casamento e quando ele estava bem humorado, se vangloriava, contando aos adolescentes as suas conquistas.

A estrada que cortava a colônia passava pelo terreno e perto da casa dos Leiman e o Frederico, já quase adulto, dizia caçoando como se fosse um diálogo, mas com a força da voz suficiente para ser ouvida pelo caminheiro: “Ele está febril e vai à consulta médica”. Diziam que outro costume que Pleederis tinha é que no meio da noite, para não levar um tombo ele andava com as pernas abertas. Sobre a estrada, em frente da casa dos Leimanis, passavam a noite, deitados os bovinos. Distraído ele acabou trepando no lombo de um novilho, que assustado levantou-se inesperadamente, com ele aboletado nas costas. Então o Pleederis escorregara ao solo, não se machucando, por milagre, por que caiu em cima de bosta ainda quente.

Já mencionei que ele gostava de andar bem trajado. Não tendo mulher em casa, ele próprio escovava, lavava e passava o seu traje. Certo dia com o ferro quente estava engomando a roupa, costume que adotara dos Letões de Riga. Inesperadamente os cães começaram a latir enquanto as galinhas cacarejavam. Correndo foi acudir as galinhas, por que um lagarto estava engolindo os pintos. Quando adultos estes animais mediam mais de um metro, pareciam crocodilos e não tinham medo de cachorros. Quando Pleederis se aproximou o lagarto fugiu o liberando para continuar o trabalho interrompido. Então viu que em vez de colocar o ferro sobre o suporte o havia deixado em cima da roupa, verificando que havia queimado nas calças um buraco do seu tamanho.

As calças ficaram inutilizadas e o usuário ficou muito zangado e ainda mais por que não tinha com quem desabafar, e por causa disto resolveu procurar outra vez uma esposa. Então ele se conscientizou que estava desmoralizado em toda a colônia em que morava [Rio Carlota] onde já não era mais levado a sério e se insistisse em alguma nova conquista, não teria êxito, por isso resolveu procurar a noiva em outro local, longe dos conhecidos.

Ausentou-se e por não ter amigos, ninguém percebeu, que durante algumas semanas, o Pleederis não fora visto, até que num dia, em que o seu pai, o velho Pleederis, foi procurar os vizinhos para pedir socorro a fim de capturar um leitão que havia fugido do chiqueiro. Mas onde estaria o filho? Viajou para o Rio Novo onde existia uma outra colônia Letã. Já muito antes de Marconi ter levantado o telégrafo sem fio, nas matas virgens entre as colônias se usava este meio de comunicação. Isto foi comprovado por que os comentários de um conglomerado eram ouvidos em outro e de forma exagerada. Logo que o pai havia deixado transparecer que o filho havia viajado, na outra ponta da linha todos já sabiam que ele fora contratar casamento.

As mais interessadas em espalhar notícias desabonadoras foram as suas ex-noivas. Algumas caçoavam, outras choramingavam, outras ficaram zangadas e mais alguma – por puro ciúme. Mas a despeito disto ele foi a Rio Novo e lá se casou.

Nesta colônia moravam os seus antigos conhecidos desde a terra natal, os Russinhos, que ele visitou para saudá-los e o encontro foi revestido de tanta alegria quanto pode haver quando se encontra um antigo vizinho numa reunião que acontece na terra estranha, embora nunca tivesse havia dum convívio assim tão amigável.

Quando o Pleederis falou de sua necessidade e solicitou do Russinho uma ajuda para encontrar a esposa, então o anfitrião indicou as famílias onde havia moças casadoiras e o convidou para ser o hóspede da sua casa. O Russinho nada sabia a respeito daqueles romances do seu hóspede; se tivesse conhecimento daquelas trapalhadas talvez teria convidado ele a se retirar da sua casa.

Ficou um tanto admirado por que o moço não era persistente na constância no relacionamento da namorada escolhida, não firmou com a primeira, nem a segunda, menos a terceira; até que visitou a família Salit, observou a Valentine e disse: “aquela me agrada” contratou casamento com ela e a trouxe para a sua casa.

Este acontecimento não despertou nenhuma curiosidade na colônia nem foi levado muito a sério, por que ele era motivo de chacota. A moça recém casada se apresentou bem vestida. O seu perfil e o seu rosto pareciam aceitáveis, mas as relações dos Pleederis com restante dos Letões, nunca foram muito cordiais e por causa disto assumiu uma vida solitária ao lado do marido. Eles recebiam visitas raramente e assim não necessitavam retribuí-las

Passado algum tempo chegou do Rio Novo o irmão de Valentine, de nome João e ficou hospedado na casa dos Pleederis ajudando nos urgentes trabalhos da lavoura. Depois da hora do almoço o João subiu pela escada ao sótão, onde ele dormia, e ficou surpreendido com o grande número de manuscritos espalhados pelo chão. Em alguns destes escritos ele reconheceu as letras dos hinos cantados na Igreja que eram copiados dos cantochões, por que não os havia em número suficiente para manuseio, facilmente identificáveis. Mas então veio a surpresa, as maiorias dos escritos eram cartas recebidas das namoradas assinadas “a tua Kátia”, “com todo amor Betia”, etc.
Estas missivas eram tantas que o João formou um colchão para dormir sobre elas. Então o João tentou convencer o cunhado: “Você agora é um homem casado, por que não queima aquelas cartas lá do sótão”. “Elas desagradariam muito a tua esposa se ela as descobrisse”; ao que ele respondeu: “Eu nunca mandei ela ler aquelas cartas”.

“Mas como foi possível você prometer casamento a uma que aceita o seu convite e ao mesmo tempo procura amizade com outra” ao que o Pleederis retrucou: “Você é muito moço e não entende destas coisas”. É verdade o João nunca entendeu.

De Rio Novo também chegou a velha Salit com os dois filhos mais jovens, mas o Pleederis recusou-se a hospedar a sogra e os cunhados obrigando os parentes procurar amparo junto de outras famílias, onde trabalhavam por uma pequena recompensa.
Ele tinha todas as condições para ter uma vida sossegada e feliz, mas não era, embora a sua esposa já houvesse desmamado o seu segundo filho. Não frequentava a Igreja, era rancoroso e desconfiado sem qualquer causa aparente. Todos os colonos possuíam uma espingarda de caça, mas Pleederis comprou uma pistola automática Browning, e esta já era uma arma de bandido.

Então ele fez aquilo que, antes dele, nenhum imigrante Letão ainda tinha feito – procurou o conselho de um feiticeiro. Nas encostas montanhosas do rio Capivara morava um ex-escravo famoso, por que diziam que ele podia resolver casos difíceis, principalmente mau olhado, inveja e ainda outros assuntos.
Havia muitos deles e estes feiticeiros conseguiam grande fama através do misticismo, falsidade e tapeação. Como se sabe, as dores de dentes ou do aparelho digestivo, muitas vezes aparecem e somem espontaneamente. Acontece que a dor some no momento em que o feiticeiro apalpa a região do corpo do consultante e assim fica a fama da cura milagrosa.
Em outras ocasiões ele prepara bolinhos de batata ou de pão recheados com pelos e cabelos enrolados, ou então outra substância, que manda o enfermo engolir. Minutos depois manda ingerir uma porção que causa vômito, tudo isto acompanhado de ritual e pronunciamento de palavras misteriosas como demonstração de sua sapiência e força oculta. Quando o freguês regurgita, aparecem os cabelos e outras coisas que ele considera como se fosse de geração espontânea do seu organismo enfeitiçado.

Existem muitos empreendimentos deste tipo, mas se entre eles realmente funciona alguma com força positiva ou sabedoria, isto ainda não foi comprovado. Os negros trouxeram os seus rituais e cerimoniais da África e os preservaram durante o período da escravidão, apesar de muito sofrimento e perseguição eles foram cultuados, o que já por si causa admiração. Nos subúrbios das grandes
cidades existem centros de magia, onde os antigos escravos cultuam as cerimônias que tiveram origem nas florestas africanas.
Não são apenas os negros que lá comparecem para por em ordem o rumo da sua vida. Um jornalista com o auxilio de uma generosa gratificação em dinheiro, conseguiu assistir estas reuniões e imaginem o que ele viu – senhoras de famílias aristocratas abastadas, altos funcionários do Governo, deputados, todos lá estavam para confidenciar e receber orientação.

Ainda não haviam passado 20 anos de quando a escravidão foi legalmente extinta, o Pleederis foi procurar o seu salvador. Enfrentou uma caminhada no dorso do cavalo de longo percurso. Havia começado a cavalgada a meia noite. Quando despertou a madrugada encontrou colonos alemães de quem indagou a localidade onde o feiticeiro morava, dizendo o seu nome e assim obteve o rumo que deveria seguir, mas de tão absorto nem encarava estas pessoas.
Já passava do meio dia quando finalmente Pleederis encontrou o seu destino. Felizmente o feiticeiro estava em casa fumando o cachimbo sentado na sombra, em frente da sua choupana. Agora surgiu um novo obstáculo, o consultante conhecia apenas 10 palavras em português de objetos de uso diário. Ele sabia falar alguns substantivos, mas desta vez tratava-se de assunto abstrato e sobre esta matéria, o nosso personagem somente sabia dizer “diabo” e que assim mesmo pronunciava como “quiabo”, “grabu” ou “grebu”. Com auxílio deste vocábulo e “força de vontade”, gesticulando, o Pleederis conseguiu fazer-se entender. O feiticeiro não seria digno do seu oficio se não fosse um psicólogo nato para entender as aflições do cliente.
Depois de mandá-lo a entrar em casa, mandou que ele tirasse toda roupa deixando o corpo nu, da cabeça aos pés e continuando, com giz vermelho e branco, alternadamente, riscou o seu corpo verticalmente. Disse “grebu”, colocando a mão no seu peito, meneando negativamente a cabeça. Repetiu novamente a palavra “grebu” e agora apontou par o próprio peito, apanhou uma vara e começou a chicotear o ar em todas as direções, desde as paredes, nos cantos, no teto e o piso da casa, fazendo o zunir com aquele sibilar que acontece quando a atmosfera é cortada por uma haste devidamente preparada como se fosse uma espada, a ponto do paciente ter se apavorado, por que o objeto passava rente a sua cabeça.

De volta a colônia, numa fluente linguagem do idioma Letão, o Pleederis contou aos mais achegados, o que ele havia entendido. Os riscos de giz defendiam e fechavam o seu corpo expulsando o diabo para nunca mais dele se aproximar. Mas tendo saído o espírito maligno queria se abrigar outra vez num outro aconchego que estivesse por perto e assim queria invadir o do feiticeiro, que então energicamente agiu em defesa própria enxotando o demônio.
E depois desta sessão do exorcismo, ele foi advertido para tomar cuidados com os vizinhos, dizendo em português: “inimigo”.

Satisfeito e aliviado por este “trabalho” pagou a consulta ao feiticeiro com a importância que havia recebido na venda de um porco, assim satisfazendo a sua ambição.
Mas apesar deste empenho o Pleederis tornou-se cada vez mais pessimista, diferente. Poderia se imaginar que este estado de nervos abalados fosse consequência daquele período de noivados repetidos que o deixaram isolado dos conterrâneos respeitáveis.

Numa tarde ele abateu um leitão para o próprio consumo. O animal morto era raspado sobre algumas tabuas colocadas no quintal, derramando-se sobre ele água quente para soltar a epiderme e os pêlos que caiam no chão e eram calcados dentro da lama com os tamancos. As águas pluviais apagavam as pegadas e levavam os pêlos que ficavam agarrados nas raízes de alguma touceira no canto da casa. Chegando o verão no quintal cresceram ervas daninhas. O Pleederis então capina uma clareira em torno da casa para impedir que as cobras invadam-na furtivamente. Quando ele chega à esquina encontra um arbusto espinhoso que ele precisa cavar mais fundo para livrar as raízes. Imaginem a surpresa dele ao ver embaraçados nas suas raízes um monte de pêlos, então ele conclui que isto é magia negra. Este feitiço tem de ser queimado imediatamente antes que faça efeito, mas o fogo da cozinha está ocupado na preparação do jantar. Ali mesmo ele faz uma fogueira com gravetos e folhas secas e com a enxada vai jogando nas suas labaredas este “atraso de vida”. A combustão exala um cheiro de cabelo queimado. ‘“Pfui” (interjeição de nojo), esta é a fumaça de cabelos de uma bruxaria e conclui: “Sim senhor – na semana passada sumiu uma porca, o bezerro está com diarreia; dos 12 pintinhos da galinha amarela sobraram apenas 4. Ainda bem que descobri em tempo; mas será que não existe mais em outro lugar? Quem poderia ter feito este trabalho”?

Há muito tempo ele não recebia visitas de quem pudesse desconfiar. Os cães guardavam a casa com zelo agressivo desanimando qualquer intruso. Então conclui que isto só pode ser obra da velha Salit. Já faz muito tempo que tinha notado o seu mau olhado; tinha de expulsá-la da casa.

A providência seguinte foi fechar a estrada que cortava a sua terra para impedir a aproximação de estranhos. Mas quando ele mesmo por ela perambulava e sentiu alguém atrás, atirava com a Browning por cima do ombro, por sorte não acertou ninguém. Por esta razão ninguém se amedrontava, considerando este procedimento como uma atitude besta e apenas motivo para chacota.

Nos dias da semana combinados todos os colonos se reuniam na escola para o ensaio do coral. O Zeeberg vindo do povoado trouxe a correspondência dos vizinhos e manda avisar que Pleederis tem uma carta no correio trazendo dinheiro, mas, quem se disporia de dar a noticia sabendo que ele era meio louco. O destemido filho de Leiman se prontificou a avisá-lo na volta para casa e assim perturbar o seu sono com a boa notícia. O Wilis monta num cavalo meio xucro ainda amansando que sempre quer andar galopando. Noite de lua cheia irradiando luz como se fosse de dia. Ele entra no quintal de Pleederis enquanto os cães latem raivosos querendo atacar. Então ele grita a frase legal: “Oh de casa”. Nem tique nem taque. Repete a chamada mais duas vezes e não entende por que o dono da casa não acorda. Talvez estivesse fora, mas na sua ausência estariam o pai e a esposa. Chama mais uma vez. O cavalo indócil quer galopar e já pensa em desistir quando ouve um ruído. A porta se abre um pouco e na fresta aparece o nariz do dono da casa. “Boa noite, mas como você tem o sono pesado”. Ele abre a porta e sai com as mãos atrás das costas e o Wilis deduz “o homem está armado”. Ele responde: “muito boa noite, ainda bem que o reconheci, senão, teria atirado”. Então ele concluiu que isto não era brincadeira, mas perguntou “por que teria atirado? Estou trazendo boas notícias, para você ir ao Correio da Vila retirar o dinheiro que chegou”. Dá meia volta e sai galopando para casa.

Numa outra ocasião a sua irmã Antonia e a Matilde, filha do vizinho, foram fazer uma visita de cortesia a Valentine. O velho e o moço Pleederis olhavam para as visitas com o branco dos olhos e quando elas se retiraram, o velho espalhou cinzas na estrada por onde elas haviam passado, com o tição de lenha aceso fez o sinal da cruz, para destruir qualquer mau olhado.

No centro da Colônia moravam os Grunzis, uma família composta de 5 filhos, deles o mais velho já casado. Disseram que o terceiro filho foi participar da guerra dos Boers (África do Sul) como voluntário, onde morreu. Era gente pacata, mas falava-se que os pais não se entendiam. O velho então começou a beber até o porre. O velho Leiman sentia pena por ele e numa ocasião em que os dois cavalgavam juntos pela estrada, Grunzis estava bêbado e balançava no lombo do cavalo. Então o velho tentou convencer o viciado para deixar a bebida ao que o outro respondeu: “Mas meu estimado e caro Leiman, qual é o prazer que ainda me resta. Estou velho, mas ainda tenho tino, se desejo aquecer o coração então uso o copinho”.
Não havia botequim na colônia Leta e também ninguém produzia aguardente, por isso o Gruntzis procurava os italianos, além dos limites. O caminho mais curto para se chegar naquele local passava pela casa dos Pleederis que proibiu o seu uso para o público, o que era contra a Lei, por que este caminho foi demarcado pelo Governo e se esta irregularidade fosse denunciada certamente ele teria levado um pito que o faria esquecer esta manha.
“Mas onde não existe reclamante também não há justiça”. Não faltavam desavenças entre os Letões, mas apelar para justiça por causa fútil, quem consegue ganhar a demanda também adquire um inimigo para o resto da sua
vida. Além disto, não se dominando a língua falada no Brasil, o querelante não conseguia expressar-se por que lhe faltavam palavras.

Os imigrantes poloneses e alemães, bem que tentaram procurar a polícia, gesticulando, não dizendo coisa com coisa entremeando algumas palavras inteligíveis sobre questões irrelevantes, irritando as autoridades, que resolviam a contenda da seguinte maneira: Quem apresentasse a queixa iria direto para o xadrez. Depois traziam preso o réu, trancafiando os dois na mesma cela e lá deixavam, os dois passar 24 horas um encarando o outro, como havia acontecido com o Pawub e Kenzio.

Depois eram apresentados ao comissário de polícia que os xingava e destratava empregando todo um vocabulário de baixo calão, brandindo ameaçadoramente um relho e aumentando ainda mais a rispidez da voz numa admoestação de que os querelantes não entendiam palavra. O queixoso pensava que a descompostura era contra o outro como culpado, mas por fim, tanto um como outro apanhavam de palmatória, como gatos num saco.

Os Letões já sabiam deste método de fazer justiça; então quando um ameaçava o outro dizendo que iria apresentar queixa na polícia, o outro dizia: “Vai, vai esquentar o lugar”.

Quanto àquela estrada que passava pela terra dos Pleederis, ela tornara-se inútil. Antigamente sim, quando os italianos, que moravam além do rio que rolava a sua água em muitas cascatas, possuíam um moinho para moer os grãos, então era uma passagem obrigatória. Mas depois que os Letões construíram o próprio engenho, aproveitando um outro rio, ficou desnecessária, pois não se precisava mais dela. Por esta razão a proibição de se usar aquela via, não incomodava ninguém a não ser ao Gruntzis, que precisava dela para ir a colônia italiana “esquentar o coração”. Quando interpelava o Gruntzis, surgia uma grande e acalorada discussão. Pleederis berrava que era o dono das terras; o ofendido alegava que a estrada era pública e continuava o seu percurso.

Num belo dia o vizinho Karp precisou convocar um mutirão de gente jovem para realizar um trabalho pesado. Todos então observaram Grunzis montado num cavalo, por aquela estrada se dirigindo para o lado dos italianos. Pouco depois, à distância, ouviram-se vozes ásperas e iradas, que, devido à distância, não se conseguia entender as palavras, mas sabia-se que os vizinhos estavam discutindo outra vez.
Inesperadamente ouve-se um estampido de tiro seguido de gritos desesperados por socorro. Vários rapazes correram para lá e encontraram o Grunzis caído na estrada dentro de uma poça de sangue e um ponto vermelho no peito. A bala havia varado o seu tórax e examinando o seu pulso e a respiração verificou que ele estava morto. Mais adiante o velho e manso cavalo em pé aguardava a volta do dono.

Improvisaram uma padiola e removeram a vítima para o prédio da escola que também funcionava como centro comunitário e Igreja aos domingos. A seguir tomaram todas as providências que se fazem necessárias para em consequência de uma tragédia assim, incluindo a captura do assassino.
Emilio, [Anderman] o filho mais jovem do professor estava admirado com este grande movimento. Num dia de semana, nunca viu um tão grande número de pessoas dentro e cercando o prédio da escola. Nos domingos e dias santificados sim, ele estava habituado a ver muita gente, quando havia Culto, o pastor falava e o coral cantava. Então os fiéis vinham bem trajados, sorrindo e conversando alegremente, os rapazes e as moças trocavam olhares e arriscavam alguma palavra. Hoje todos estavam usando a grosseira e remendada roupa de trabalho e trazendo armas de fogo.

Para passar o tempo faziam competição de tiro ao alvo. Pareciam ameaçadores. Os meninos sentiam medo. Depois de reunidos todos aqueles homens foram embora e o menino juntava os cartuchos vazios de diversos tamanhos para usar como apitos, os menores faziam um ruído mais agudo enquanto os maiores tinham um som mais grave, mas antes de terminar, eles voltaram trazendo junto o Pleederis com as mãos amarradas. Ele tinha sido preso, sem resistência dentro da própria casa.

Os colonos acharam por bem anteciparem a ação da polícia e entregar o criminoso na delegacia, antes que os filhos e os amigos de Grunzis praticassem vingança com as próprias mãos e então o caso se tornaria mais complicado.

Os conselhos do feiticeiro não deram bons resultados na vida do Pleederis.

FIM
NOTA DO TRADUTOR
Traduzido de um manuscrito encontrado nos arquivos do meu falecido irmão Emilio Anderman e traduzido do Letão por mim Julio Anderman, em agosto de 1991.

…Nos profetas de plantão que falavam… | de Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1928

Rio Novo 21 de agosto de 1928

Querido irmão Reinaldo!!

Há pouco tempo atrás recebi a tua carta escrita em 19 de junho e por ela muito obrigado. E também já foi recebida aquela carta para o Arthur com as fotografias. Muito obrigado também.

O que eu não pensava que nesta boa América ficasse tão velho e tão magro realmente parece um “padre” e se tivesse óculos poderia ser um “doctor”, mas deixa pra lá.

Nós graças a Deus estamos todo bem de saúde e trabalhamos tanto quanto podemos. Teríamos mais o que fazer, mas o tempo está chuvoso demais. Este ano foi um ano de temporais fora da conta. Diversas vezes houve grandes enchentes e agora semanas atrás começou a chover no dia 10 de manha e parou somente no dia 15. Isso mesmo que foi chuva. Foi um temporal qual eu nunca havia visto na minha vida chover os 6 dias sem parar. O sol não conseguia aparecer e a chuva era bastante fria e este tempo foi muito prejudicial para os animais que não tinham onde de abrigar. Muitos cavalos de propriedade dos italianos morreram congelados e os nossos animais todos tinham abrigo eram alimentados ficaram um tanto enrijecidos imagine aqueles que não tinham nenhum telhado para se abrigar.

Quando o tempo começou a melhorar tudo ficou mais alegre, pois quase nós estávamos começando a acreditar nos profetas de plantão que falavam que este ano a América do Sul iria afundar no mar e também havia profetas que diziam que uma guerra iria começar no dia 28 de maio. E o mês de maio passou e guerra nenhuma começou e assim todas estas previsões são de pessoas que falam e é só Deus que faz.
Este inverno não foi forte, várias vez deu geadas maiores, mas estas não prejudicaram tanto quanto em outros anos. Agora que a primavera está chegando temos que começar a plantar. Agora nos estamos derrubando o capoeirão perto do “Kanels” [a encruzilhada no alto Rio Novo era assim chamada devido a um colossal tronco desta madeira] onde está bastante crescido, pois desde que você foi embora nós não plantamos mais nada ai e por isso ele está infestado de cipoal e espinheiros que torna a derrubada muito difícil, eu estou com as mãos doendo. Fazia tempo que eu não trabalhava em derrubadas e agora tive que voltar. Nós também estamos contratando camaradas para trabalhar, mas está muito difícil conseguir boas pessoas, pois todo mundo está ocupado. A melhor opção seria contratar uma mocinha para ajudar em casa para todo mês, pois uma garota tanto em casa com na roça faz tanto quanto um empregado homem. Alguns anos atrás tínhamos a Maria do Maneco, mas no ano passado ele voltou a morar com a sua família e agora eu falei para ela voltar e ela disse que iria pensar. Ela era muito operosa e sabia fazer todos os serviços. Não bebia nem fumava como outras manecas (manekenes) costumam fazer.

O milho já faz tempo que terminamos de colher. Deu 37 carradas inda porque tínhamos plantado menos que noutros anos, mas este ano as espigas foram realmente maiores e bem regulares. Está até difícil achar as espigas pequenas (restolhos) destinados à alimentação dos animais que até agora no inverno era necessário. [não é possível dar espigas grandes para as vacas por que elas têm o hábito de engolir sem mastigar e ai ficam engasgadas ou afogadas]
Agora nós não estamos plantando tanto com antigamente, pois agora plantamos somente 5 quartas [4 Quartas dá um alqueire e 2 Alqueires dão 1 saco de 60 quilos] e nós antigamente plantávamos 15 quartas e hoje plantamos menos e colhemos a mesma quantidade e é claro que a capinação e os cuidados são sempre maiores, mas agora realmente as colheitas são bem melhores.

Agora está morando conosco a Lídia Klavim Que está indo à aula aqui na Igreja de Rio Novo, porque eles moram muito longe quase na Invernada e para ela vir para a aula fica difícil e por isso eles estão pagando pensão pra ela aqui. Ela gosta muito de conversar e fica falando o dia inteiro. Ela pediu para escrever que o irmão dela não escreve pra você porque é muito preguiçoso. Ele só pensa em sair e construir atafonas e engenhos. Ai ele ganha 10 mil réis por dia e mais a comida e lugar para dormir. Mas quando não tem serviço ele fica em casa. Aquela fotografia do Coro que eu mandei ele não aparece porque ele estava fora. A Senhora Klavim esteve muito doente e saia sangue pela boca e muita gente achou que ela iria morrer, agora sarou de tudo e está bem mais gorda [Ser gordo naquela época era sinal de saúde]. Agora ela vai à Igreja e faz visitas pelas vizinhanças. Ela manda muitas lembranças para você.

No próximo primeiro domingo de mês que vem haverá batismos Aqui na Igreja incluindo os filhos da Maria Thomaz do Rio Larangeiras e as noras dela. Também haverá batismos em Laguna onde 8 candidatos estão à espera. O trabalho lá é pequeno, mas está indo pra frente graças também ao trabalho do Pastor Stroberg que periodicamente viaja pra lá e também para Mãe Luzia. Aqui na Igreja apareceram algumas desavenças e existem pessoas que não podem passar sem elas. Não entendem que a proclamação do Evangelho e a salvação de almas deve ser a missão principal da Igreja. Acham que o Pastor viaja muito.

O Rio Novo está ficando cada dia mais vazio. O povo não quer mais morar aqui. Agora são os Match que estão indo embora para a Argentina, A Milda casou com um senhor argentino muito rico e que tem uma casa muito grande e outras casas e terrenos sem fim. Aqui os velhos sozinhos e cada vez mais velhos seria muito difícil sobreviver. Vão pra Argentina cuidar do Elias o filhinho da Milda e exercer a função de Vovô e de Vovó. Quem garante que quando crescer também não vire um profeta…

Os Matchis venderam a sua propriedade com casa [Na sala desta casa em 1940 eu tive o primeiro encontro com letras e números, pois ali foi a minha primeira sala de aula com a professora a Dª Matilde Tezza, mas isto já é outra história], moveis tudo de porteira fechada para o Eduardo Karp por 10 contos de réis. Agora ele tem onde ir morar. E é provável que ainda este ano eu também possa ir morar lá. O lugar é muito bonito . Um dos lugares mais lindos por ai. É provável que Deus tenha providenciado este lugar para mim.

Bem por hoje chega, já escrevi esta longa carta. E agora está batendo meia noite. Hoje à noite eu fui ao trabalho da Igreja e ai comecei a escrever. Quem começa tem que terminar. Os demais estão há muito dormindo. Eu também estou com sono. Como faz tempo que não recebemos noticias suas espero receber amanha quando for à cidade. Lembranças do Onofre Regis e família.

Muitas lembranças de Mamãe, Papae e minhas.
Lucija

História de Emílio Andermann – 9ª parte -2º Caderno

História de Emílio Andermann – 9ª Parte – 2º Caderno

M E M Ó R I A S
De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

“Leiam também neste mesmo Blog o artigo escrito por Julio Andermann que está em “Crônicas Históricas com o titulo de” Meu pai Karlos Anderman “

Nesta parte o escritor descreve a infinidade de providências e cuidados para a viagem para os Estados Unidos.
Também tendo chegado lá apresenta as primeiras impressões.

(O Terceiro Caderno devido a não ter relação direta com o Rio Novo será publicado neste Blog somente se houverem solicitações especificas para tanto.).

SEGUNDO CADERNO (ÚLTIMA PARTE DESTE CADERNO)

TERMINEI A ESCOLA

Ontem terminamos o exame das matérias lecionadas durante o mês e a minhas alunas mais adultas Aldonia Balod e a Marta Slengman de mim se despediram. Elas passaram com muitas boas notas. Como é doloroso separar-me dos meus alunos que já estou ensinando durante um ano e três meses. Durante a insônia da noite no meu pensamento desfilaram várias ideias e o sono não foi repousante… por que vou ter de te abandonar também. Também sentaram na classe os meus irmãos Teófilo e a Claudia, que com um carro de bois vieram me buscar de Mãe Luzia. Estou dando as notas finais.
Os meus amigos vieram para se despedir de mim e para cada um deles dei uma palavrinha e abraço. Não demonstrei tristeza por que os sentimentos de dor foram transformados em sorrisos… e foi hoje a última vez em que apertei a tua mão. Também tiramos fotografias de toda a escola reunida.
O tempo está bom e assim segunda feira partiremos, deixo atrás de mim muitas realizações e centenas de sonhos e a sepultura das minhas esperanças. Deixo também a ti, o meu tesouro, por quem daria tudo que possuo até a última gota do meu sangue; daria o mundo todo… e agora me separo de ti, deixando-te no meio destas colinas e vales, cobertos desta natureza exuberante, e sob a guarda de teus pais cuidadosos. ADEUS!

A DESPEDIDA DA CONGREGAÇÃO

Nunca pensei nem esperei uma tão espontânea demonstração de amabilidade. A União de Mocidade organizou esta reunião. Embora eu estivesse triste, esta noite me alegrou por que tudo foi organizado com muito cuidado. Os adolescentes recitaram poesias cujo tema era a separação. Os hinos ecoavam cordialmente. O salão da Congregação estava enfeitado onde nem rosas faltaram. Tudo dava testemunho do amor que esta gente tinha por mim e mostrava a tristeza da separação.
O Alexandre Klavim falou entusiasmado lembrando o meu desempenho na União da Mocidade durante a atividade do ano passado e a falta que farei no futuro. Aldonia Balod recitou um poema cujo tema era a “Luta”. A Clara Salit declamou uma poesia triste sobre a separação (ela mesma tristonha e enigmática como as profundezas de um oceano) – dizia que toda a luta pela vida se situava entre o berço e a morte. O Eduardo Salit, um menino ponderado e tranquilo, relatava as dificuldades e as lutas da vida, acentuando que a “Paz somente existe sob a Cruz de Cristo”. A Cornelia Balod (sempre inquieta como se fosse um filete da água) falou da esperança de um novo encontro – se não aqui, lá na pátria do além. As outras poesias não consegui anotar. Ainda ouvimos um lindo dueto de despedida cantado pelos meus alunos. O Diretor da Escola Dominical, K. Zeeberg expressou a sua alegria pela esperança de que continuaria estudando e lamentou a falta que eu faria como professor da Escola Dominical e terminou dizendo: “Deus vê e sabe o nosso destino” e de que “nas orações perante o trono de Deus será o nosso encontro permanente”.
O conjunto de violinos tocaram algumas músicas, especialmente “Viaje seguro”. O organizador da Escola onde eu ensinei disse que: “nós andávamos como através de uma galeria de quadros onde vemos diferentes paisagens; e, um destes quadros, estava sendo pintado nesta noite”. Elogiou-me dizendo que eu fora despretensioso, nunca falara alguma coisa ofensiva, fora bem comportado e já tinha o meu lugar garantido no coração da comunidade… mas agora temos de separar-nos, e terminou com as palavras de Paulo: “Conserve o Tesouro”. Alida Klavin declamou uma poesia longa bonita sobre a despedida: “Encontramo-nos, conversamos e outra vez temos de separar-nos; em toda à parte a instabilidade não permite a nossa permanência por muito tempo no monte Tabor”.
Um intervalo para saborear um cafezinho acompanhado de pãezinhos e o descanso. Na segunda parte mais músicas sobre a despedida, todas melancólicas, mas uma foi excepcionalmente linda e continua soando no meu ouvido. Freiman falou sobre a necessidade de mais pregadores e missionários e disse estar alegre por que mais um candidato está se encaminhando. O velho tio Karklis fez desfilar na minha frente os nomes dos jovens tementes a Deus que constam da Bíblia e aos quais foram atribuídas grandes responsabilidades. O Alexandre Klavim emocionado disse palavras em nome da União de Mocidade: “Seja alerta para que ninguém arrebate a tua coroa” (Apocalipse 3-11).
No aperto de mão da despedida vi lágrimas num e noutro semblante; eu não chorei embora o meu coração estivesse tomado de saudosa tristeza.
Depois desta abençoada despedida, arrumamos as caixas contendo a bagagem no carro de bois e partimos para uma longa e difícil jornada para Mãe Luzia, alcançamos o nosso destino três dias depois, onde fui recebido com muito amor pela minha família.

5 DE OUTUBRO DE 1923

Uma vez que agora tenho de morar aqui, longe de ti e onde não te vejo e onde tangido pela brisa do ocaso eu apenas posso sonhar com as lembranças que profundamente se enraizaram na minha memória; quero ainda registrar alguns aspectos da tua figura. Tens a cabecinha redonda ornada com cabelos dourados que pendiam sobre as orelhas e a nuca; a testa alta adornada com alguns anéis deles; os olhos escuros que às vezes olhavam com tanta serenidade; outras vezes choravam amargamente e também alegremente brilhavam quando sorriam para mim; o narizinho redondo; a boca de lábios rubros que me pareciam tão doces; a formosa face quando sorria exprimia a pureza; o porte tão esbelto; as costas retas; mãozinhas elegantes, os dedos ágeis; pequenos pés com os artelhos curtos, musculosos e fortes. O comportamento gentil, esperto e interessante; a tua voz soava como se fosse um sininho e era possante, mas doce quando falavas afinado em “sol” com inflexões para “la”. Quando choravas com amargura e arrebatamento o teu lamento parecia uma admirável melodia em “do”, que subia para “fa” e depois, descia. A tua risada era tão alegre que eu não consegui defini-la com precisão.
Tu és o meu anjo, viva com saúde e alegria ignorando a minha dor por que eu te amo e de ti sentirei saudades – mas, quem sabe, todas estas esperanças, com dor e lágrimas, terei de sepultar na tumba escura da inoportunidade.

18 / X / 1923

A minha vida tornou-se uma sequencia rotineira por que estabeleci um programa ordenado que só espero modificar quando viajar para os EUA, daqui a um semestre. De manhã quando acordo faço ginástica pelo método Mueller, tomo banho. Até o desjejum tenho tempo de estuda alguma coisa, depois desta refeição realizamos um culto matinal e em seguida vou para o campo trabalhar na lavoura durante duas horas. Voltando para casa estudo inglês e francês até a hora do almoço. Na parte da tarde estudo História Universal e ciências. Depois das 14 horas vou para a Carpintaria de João Karklis aprender aquele oficio durante hora e meia (algo parecido com o que vou fazer nos EUA). Depois estudo álgebra e a gramática portuguesa e leio obras clássicas. Após o jantar até dormir estudo música, pratico o violino e leio em inglês.
As terças e sábados, tenho aulas com J. K. Frischenbruder para esclarecer várias matérias e ele me cobra 1$00 por aula. Mas acima deste empenho todo – tu oh minha preciosa menina permaneces no meu coração e minha mente em forma de uma doce lembrança.
O tio Sigismundo e eu estivemos em Araranguá procurando uma certidão de nascimento para poder tirar o passaporte e viajar para a terra estranha. Como já disse, embora nascido na Letônia fui registrado como brasileiro. Foi uma viagem agradável – Araranguá é uma cidadezinha bonita.

A PRECIOSIDADE MAIS CARA

Luto para alcançar um alvo, que no momento é um sonho – Tu. Não consigo esquecer-te, não passo uma noite sem te ver nos sonhos. Meu coração sente a mágoa do amor oculto. Tu arrebataste o meu coração, os meus sentimentos, o meu amor; será que em algum dia vais me devolve-los? Ou serei condenado a morar na América sentindo saudades tuas eternamente.
Contei tudo para a minha mãezinha. Ela me disse para eu não ser orgulhoso e não considerar este amor levianamente, porque, igual a este, só nasce uma vez na existência. Disse para eu procurar manter correspondência com os seus pais e a sua família e talvez Deus me atenderá.
Ela me contou sobre o seu grande amor para com J. I., mas por causa do orgulho e não querendo se manifestar casou com outro e, depois de arrependeu. Estas palavras impressionaram o meu coração, mas por ora somente resta a esperança, e a lembrança de alguns acontecimentos. Uma certa ocasião ela disse, depois que eu falei que iria embora “eu vou correndo para te acompanhar”, depois ela ficou assustada com o que falou, enquanto os outros riram. Quando formamos o grupo para tirar o retrato da escola tu disseste: “parece que não te verei nunca mais”, eu respondi: “que não sabemos o que a vida vai trazer para nós e que poderá acontecer um novo encontro”.
Não há existência sem preocupações, se a vida não tivesse obstáculos então ela se tornaria frágil e qualquer brisa nos derrubaria.
O tio Rodolfo teve a ousadia de escrever para os Balkit nos EUA para eles tomarem cuidado comigo por que estava entregue ao diabo, por que seguia a doutrina do inferno. Foram os meus irmãos que em contaram por que ouviram ele dizer isto. O que posso esperar quando o meu próprio tio procura destruir a minha imagem pessoal, mas em 9 de dezembro recebi uma carta dos EUA que eles esperavam receber-me na primavera; depois de passar o frio de inverno e isto ajudou a normalizar a minha esperança no futuro. Espero que esta viagem se realize em fevereiro ou março.

25 DE DEZEMBRO DE 1923 – NATAL

De noite organizada pela Escola Dominical, houve uma pequena festa. Há 3 meses dirijo uma classe da Escola Dominical. Fiquei muito feliz. O ano de 1923 esta se despedindo e neste período tenho lutado muito e trabalhado, às vezes com alegria e outras com tristeza no meu coração; mas tudo isto tem reforçado o meu ânimo. Neste ano estabeleci grandes objetivos que terei de realizar em pouco tempo e para isto terei de trabalhar com todas as minhas forças. Na profissão de carpinteiro aprendi a usar a plaina e outras ferramentas, pois este será o meu ganho pão. Na música descobri as maravilhosas obras de Beethoven.

SALVE 1924
“TUDO POR TI HUMANIDADE, TUDO POR TI MEU POVO QUERIDO”
1 DE JANEIRO DE 1924

Carrego dentro do meu coração a saudade, cada dia que passa os meus pensamentos ganham asas e voam para ti e quanto gostaria de ver-te nem que fosse uma única vez.
Neste ano na minha vida se desenrolarão grandes mudanças. Acredito que a passos largos e decididos, alcançarei aqueles objetivos, cujo ideal se desabrocha em mim desde a minha infância; mas talvez o preço desta conquista será a tua perda – que sofrimento – no entanto sou capaz de fazer tudo em beneficio da humanidade.

10 DE FEVEREIRO DE 1924

Recebi uma carta do meu tio Balkit de cuja leitura conclui que a minha viagem para os EUA ainda demorará alguns meses. Este assunto da América já está me aborrecendo; está se tornando um conto de fadas que não tem fim. Estou escrevendo. No mês passado terminei a descrição da História do Brasil e neste mês, vou escrever a primeira parte de um livro sobre o Brasil, conforme havia planejado.

18 DE MARÇO DE 1924

Recebi duas cartas registradas, uma contendo o Termo de Responsabilidade assinado pelo meu tio Balkit para minha emigração aos EUA e outra com uma passagem de navio paga e um bilhete de trem de Nova York até Filadélfia, que custou US $86 dólares.
A minha viagem está bem delineada. No dia 22, de navio, partirei para o Rio de Janeiro e no princípio de abril embarcarei em um navio da Lampport & Holt Inc.
Agora na parte da manhã estou trabalhando na obra da ampliação da nossa casa construindo uma cozinha e sala de jantar em anexo. Numa atividade diligente tudo já está em pé embora as minhas mãos tenham ficado calejadas. Em breve terei de deixar esta construção – também me despedirei de Mãe Luzia, de todos os meus conhecidos e de ti minha cara que já não te vejo há mais de 6 meses, de ti que vives no meu coração.

18 DE MARÇO DE 1924

De noite a Congregação Batista de Mãe Luzia organizou uma reunião de despedida. Foi um acontecimento confortador para mim e para todos os presentes. Jacob Klava explicou vários textos da Bíblia sobre reanimação para todos e principalmente para mim. O tio Zigismundo disse: “É muito difícil falar numa ocasião de despedida, por que a linguagem embola e as lágrimas escorrem; mas por outro lado todos devem alegra-se por causa dos ideais meus. Que tinha o mérito de ter reativado a Escola Dominical e reforcei a fé de todos através dos meus sermões inflamados; que eu era um cristão de natureza pacífica e arrebatado”. Terminou com a frase, “Seja fiel até a morte e eu te darei a coroa da vida” para servir de lema a fim de vencer as tentações que surgem nas grandes cidades, no meio das multidões, as quais tantos jovens têm sucumbido. O Jacob Klava lembrou ainda que desde pequeno eu fora um bom aluno da Escola Dominical, falou da festa do meu batismo em 1911 e de que agora eu o havia ultrapassado no conhecimento e de que o seu desejo final era o de me encontrar salvo na praia do mar de cristal. Todas estas falas foram entremeadas de hinos de despedida.
Terminada a reunião fomos convidados para uma mesa de guloseimas oferecida pela Escola Dominical, através das mãos diligentes da tia Janina. Nunca poderei esquecer tamanha prova de amor e apreço, pois eles ainda me ofertaram uma coleta de 20$000 (vinte mil reis). Como poderei retribuir isto tudo? Mantendo a memória deles na minha lembrança.

20 DE MARÇO DE 1924

Ontem de tarde me despedi dos meus pais e dos meus irmãos. O carro de bois nos transportou, por 12 quilômetros, até a estação de Criciúma. Lá me despedi do Teófilo e do Julinho que choravam muito. Despachei a bagagem e depois fui dormir no hotel que, junto com o jantar e o café da manhã, custou 4$000. Agora, às 11 horas do dia 21, já me encontro no porto de Imbituba. Fiquei com cólicas intestinais por causa do café forte de que havia abusado, mas agora já estou bom. Hoje, no Rio Novo, estão festejando o aniversário da Igreja.

29 DE MARÇO DE 1924 – NO RIO DE JANEIRO

Até aqui a minha viagem transcorreu muito linda e agradável. O mar estava admiravelmente calmo. Ontem ao entrar na barra, com admiração observei os poéticos montes cobertos de florestas da Capital da República. Junto com o meu companheiro de viagem Adão Bernardes, estudante de Direito, procuramos uma pensão para nos hospedar e que vai custar 6$000 por dia. De tarde ele me levou à Biblioteca Nacional, um lugar que eu admirei profundamente. O meu companheiro de viagem é um Brasileiro com amplos horizontes de idealismo.
Fui a Agência Marítima de Lampport & Holt e ao Cônsul dos EUA onde encontrei ainda dois obstáculos no meu caminho. 1° – os meus documentos tem de ser visados pelo Cônsul em Porto Alegre ao qual está subordinado o Estado de Santa Catarina; 2° – tenho de deixar aqui um depósito de $25 dólares dos quais serei reembolsado quando desembarcar no destino. Somente poderei partir naquele navio que vai partir no dia 1° de maio. Cedinho de manhã no domingo fui procurar o Celino que estava morando num quarto pequeno e mal arrumado. Fiz a visita na esperança de que ele me emprestaria os 25 dólares, mas enganei-me porque ele não possuía o dinheiro.
Hoje, domingo, dia 30, me dirigi para o Colégio Batista na esperança de encontrar alguns velhos amigos conhecidos; mas neste dia eles estavam ausentes. No dia 31, novamente me dirigi para lá e o João Klava veio ao meu encontro com quem troquei ideias sobre o meu passaporte. Fomos à Central de Polícia que me deixou uma boa impressão por que o meu Requerimento foi despachado, mas o passaporte somente me seria entregue no dia seguinte porque já passava da hora do expediente. O meu companheiro então me mostrou a grande cidade e me levou a Igreja para me apresentar por que ele trabalha lá como missionário e é por ela apoiado materialmente. Em seguida pegamos o Bonde e fomos para a casa do pastor G. Ginsburg. O encanecido obreiro Batista estava trabalhando em casa. Ele é um homem admiravelmente simples e que está lutando no campo missionário há 40 anos. Nas suas veias corre o sangue judeu e pode ser comparado com os apóstolos de Cristo.
Hoje de noite faleceu um grande amigo do povo brasileiro, Nilo Peçanha e por isso as Repartições Públicas ficarão fechadas em sinal de luto, por que o povo está triste.

02 DE ABRIL DE 1924

Ontem o João Klava me acompanhou, mas o passaporte ainda não conseguiu, hoje fui lá sozinho e consegui superar este obstáculo. O passaporte me custou mais de 30$000. Ainda falta o visto do Cônsul. Esta cidade é muito enfadonha, a natureza que a envolve é muito bonita e entusiasma o visitante logo que ele aqui chega e até o arrebata, mas as ruas são estreitas e cheias de poeira. O sol esquenta e o ar se torna abafado e traz o desanimo e o cansaço. O calor e a alimentação inadequada roubam-me todas as forças. Hoje à tarde tomo o trem e amanhã estarei em São Paulo.

03 DE ABRIL DE 1924

Fui procurar a minha irmã Mely Zelma e a encontro andando no meio da rua. Ela me leva aos seus aposentos da casa onde trabalha, tomo banho e repouso. O ar fresco e saudável de São Paulo e a recepção acolhedora da minha irmã me reanimaram. Ela está gordinha, bonita e forte e trabalha muito, mas mesmo assim temos momentos para conversar.

04 DE ABRIL – EM NOVA ODESSA

Depois de pagar o bilhete de trem para Nova Odessa, ainda fiquei com 1$000 na algibeira. Ainda bem que a minha irmã me alimentou, caso contrário não teria tido dinheiro para pagar esta viagem. O meu espírito se eleva quando olho pela janela do vagão e vejo plantações variadas em toda à parte.
A Lídia e o Gustavo me receberam amavelmente. Trabalhando eu ajudo na colheita do arroz e o esforço de bater para separar os grãos me fatigou, mas desenvolveu o apetite. O clima daqui é muito bom e em breve fiquei reanimado. Também ajudei na colheita do algodão que trouxe desconforto para a coluna. Este foi um esforço agradável e cada tostão ganho era para mim precioso, porque me preocupava muito aquele depósito de $25 que teria de conseguir emprestado. Os homens não querem ajudar e entre os parentes os mais acessíveis foram os meus tios João e Lina Andermann que nesta emergência estenderam-me a mão.
Como tudo aqui está mudado: Os novos imigrantes, desconhecidos para mim, já ocupam a metade desta coletividade, a administração das propriedades agrícolas sofreu modificações, os jovens se tornaram homens adultos e fortes. Ao redor da Igreja foi plantado um grande e bem cuidado jardim resultado do esforço da mocidade. Os meus antigos conhecidos vieram ao meu encontro com muita amabilidade por que os velhos laços da amizade ainda não haviam rompido. O pastor da Igreja me procurou para um encontro e me deu conselhos notáveis, pois o irmão Kraul é um moralista profundo que procura apontar qualquer pecado. Lá também encontrei o João Salit que chegou a procura de terras para comprar e isto foi para mim muito agradável. Para a minha irmã Lídia eu falei abertamente a verdade e ao despedir-me lhe disse que era capaz de trocar as minhas convicções cem vezes para servir a “verdade” e de que para esta luta eu precisava de muita força moral e de apoio.
Voltei a São Paulo onde a minha irmã Mely Zelma me hospedou no seu quarto, com a permissão dos seus patrões; a vida dela corre muito bem e ela engordou um pouco. Ela me emprestou 80$000 e na separação chorou amargamente e isto me deu a certeza de que agora conseguirei superar as dificuldades desta viagem para os EUA.

26 DE ABRIL – AFINAL O CAMINHO LIVRE

Hoje estive na Polícia Central para retirar os meus documentos no que tive êxito, mas outra vez me atrasei para a visita com o Cônsul. Hoje, dia 27, passei no meu quartinho que me custa 4$000 por dia. No dia 28 pedi a ajuda do João Klava. Ele me acompanhou ao Cônsul e falou em meu nome. Tive muita dificuldade por que a minha certidão me fez 5 anos mais jovem e pediu um atestado de Ricardo Inke que fomos procurar de automóvel para ganhar tempo. Lá conseguimos o documento desejado e finalmente o Cônsul visou o passaporte que me custou 100$000. Para pagar a despesa tive de tomar emprestado 40$000 do Ricardo Inke e agora estou devendo: 250$000 para João Andermann; 80$000 para Mely Zelma; 40$000 para o Ricardo Inke; 20$000 ao Celino e 10$500 ao João Klava; num total de 400$000. Subirei a bordo do navio sem um tostão no bolso, mas estou feliz porque finalmente consegui o meu intento, graças à ajuda dos meus amigos.

VANDYCUS

No dia 1° de maio fiquei numa situação estranha, passei o dia inteiro sem comer por que não tinha dinheiro. Os trocados que me restaram tive de gastá-los para o transporte da bagagem a bordo; os carregadores exigiram mais de mim do que o combinado e isso me aborreceu. Cheguei a bordo do grande navio faminto e cansado. Ele é um gigante marítimo; dentro dele caberiam 4 ou 5 dos nossos paquetes costeiros.
Os passageiros da terceira classe são constituídos de italianos, russos, israelitas, alemães e eu o único de sangue letão. A maioria destes passageiros parece bem abastada; algumas famílias parecem ter recursos. Nós fomos alojados 6 em cada cabine. No café tínhamos pão com manteiga, no almoço sopa, comida, salada e sobremesa e a mesma coisa no jantar; tudo com bastante fartura.
Aquilo que nos outros naviozinhos se chama de balanço, aqui quase não se percebe porque ele é muito grande e as ondas se esboroam no seu costado. Estou meditando muito sobre a humanidade, não sei por que esta preocupação, este empenho, de ver o seu progresso e a sua salvação.

OS PASSAGEIROS

Já no Rio eu tinha encontrado a Emilia, uma alemã, que estava visitando os Inke e que também está seguindo viagem no mesmo navio. Ela disse ter trabalhado em Wurtemburg como professora e é uma pessoa agradável, culta e me emprestou alguns livros.
É muito interessante observar como os membros de várias nacionalidades se agrupam. O bloco italiano, numa noite organizou uma apresentação artística com um conjunto cantando as suas canções populares. No bloco dos israelitas russos havia um músico que tocava música clássica no bandolim, acompanhando os patrícios que cantavam entusiasmados. O grupo de alemães é o menor, mas também se mantêm unido. Os jovens jogam baralho e até as crianças encontram brincadeiras para passar o tempo.
Na tarde de 4 de maio o sol se deitou nas costas do Brasil. Os dias anteriores estavam nublados, mas hoje tivemos um céu limpo. Esta costa pernambucana é a mais avançada do Brasil e termina no Cabo de São Roque e por isto esta aproximação que nos permite ver de noite, as luzes de Recife. Está quente porque estamos nos aproximando do Equador. No dia seguinte o navio seguiu rumo para o Oeste até que alcançamos Trinidad que é uma pequena cidade servida por um porto insignificante. O navio recebeu uma carga de cacau, se abasteceu de água e recolheu passageiros negros com destino a Barbados. Estas ilhas são tomadas de arbustos e ao longe aparecem montanhas de cor parda.
Agora a rota vai para o oriente. Depois de uma dia de viagem jogamos âncora perto de uma linda cidadezinha situada numa ilha de praias planas e águas límpidas onde o navio ficou cercado de canoas que trouxeram frutas e a sua tripulação mergulha para apanhar moedinhas jogadas no mar. Outra vez embarcaram muitos companheiros negros. Agora estamos viajando para as ilhas das Antilhas, que ficam mais para o Leste. Como é lindo quando acompanhamos pelo mapa e observamos de bordo todas estas pequenas ilhas dormindo e parece que até estão sonhando dentro da atmosfera tropical e mergulhas nas águas escuras. Neste solo trabalham os pretos… e quanta poesia eles inspiraram para a história do sofrimento… que, afinal, foi o canto da liberdade que soou quando foram rompidas as correntes da escravidão. Entre os passageiros negros vejo crentes que leem a Bíblia e cantam hinos.
Hoje é dia 15 e desde ontem à noite notamos a atmosfera mais fria. A água esta menos morna. Como me sinto feliz porque estou me aproximando do meu destino. Leio os livros que guardei nas malas e o tempo se esgotou rápida e imperceptivelmente. Não sei por que tenho vontade de mandar saudações para todos os meus conhecidos e principalmente para ti… caro coração.

17 DE MAIO – FIM DE VIAGEM

Ontem, através de muita neblina e um frio cortante, o nosso gigante Transatlântico chegou a Nova York que parecia muito maior, do que se poderia imaginar antes de conhecê-la. Que porto grande e edifícios enormes. Depois de passar a noite a bordo, de manhã iniciamos o desembarque. Os inspetores examinaram a nossa bagagem e depois subimos em uma lancha que nos levou para a ilha dos imigrantes. Os passageiros de segunda e primeira classe não foram submetidos a este ritual. Eu havia ouvido críticas nas informações sobre esta verificação, mas agora encontro tudo muito bem organizado. O exame de saúde foi muito rigoroso, mas depois tudo correu tranquilo e fácil. Fui dispensado junto com outros que teriam de tomar o trem e o acompanhante nos conduziu para a estação. E como aconteceu isto? Primeiro fomos conduzidos de lancha e depois pelo Metrô e por fim outro barco nos conduziu para a estação. Sozinho eu estaria perdido entre toda esta gente movimentada e situação complicada que até parece mágica. Tomei um trem que em duas horas me deixou em Filadelphia. E depois para onde ir? Não sabia dar um passo. A língua inglesa que este povo fala para mim é quase incompreensível, mas por sorte todos entendem o que eu pergunto. Cordialmente os homens me conduzem e respondem as minhas indagações, me acompanham, até a passagem de Metrô eles pagaram.
Depois de muita dificuldade tomei aquele trem que vai para Quakertown, a última cidade do meu caminho, mas ainda não sei como chegar à casa do Balkit que se localiza no interior. Tomo um automóvel que corre iluminando a estrada de terra mal conservada e chegando ao destino onde não foi fácil encontrar a casa desejada, lá chegando o dono estava ausente. Então esperei pensando que, por ser sábado de noite talvez os moradores estivessem na Igreja, conjectura que não estava errada, porque em breve chegou num automóvel toda aquela gente que me receberam carinhosamente. Eu não conseguia fazer mais nada do que sorrir, sorrir, sorrir.
Terminada esta viagem tão selvagem e cheia de obstáculos me senti como um herói que venceu uma dura batalha. Para aqui eu vim ao encontro de uma humanidade livre.

AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES

O ar ainda está fresco e o clima parece ameno. A água está fria. As arvores, com exceção dos pinheiros, estão revestidos de uma tenra folhagem verde. Os campos estão cobertos por uma erva macia enfeitada de florzinhas amarelas como se fossem lágrimas. Aqui não se vê nenhuma planta tropical que veste a forte e selvagem natureza Brasileira, apenas alguns salgueiros que sonham a beira de um lago se assemelham. Tudo está tão lindo como se fosse um sonho maravilhoso.
Eu trabalhava em grotões cobertos de floresta e piso de pedras e cada cantinho me parecia tão agradável, tão lindo.
Os meus parentes estão com as faces coradas, o meu tio é um homem alegre, muito ágil, muito franco e dedicado. A minha tia parece uma dama respeitável e fala num tom de voz agradável parecida com a da minha avó Ana que é a sua mãe. A prima Lídia se parece muito com a Ema Karklis e a Milija com a Tereza. Os dois meninos de faces rosadas Carlos e Vilis se parecem com os filhos do tio João Andermann com a diferença de que são de natureza mais ativa. Todos eles são profundamente tementes a Deus.

AVISO IMPORTANTE:
Como o 3º Caderno não tem relação direta com a história da Colônia Rio Novo somente será publicado se houverem solicitações para tanto.