Um belo futuro | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 27 de maio de 1919

Querido Reinold,

Primeiramente receba muitas lembranças. Na segunda feira passada, dia 19 de maio, recebemos a tua carta escrita no dia 7-5-19 e também os jornais enviados a 4-5-19. Muito obrigada. As cartas anteriores, bem como os jornais, já foram recebidos. Ainda não pude escrever as repostas, mas mandei um Cartão Postal no dia 29 de abril, outro no dia 17 de maio e uma carta em 4-5-19.

Nós estamos passando bem. Agora estamos com saúde, mas no domingo passado o Paps estava doente.

Bem, desta vez tenho muitos assuntos para escrever. É possível que você já saiba que o Deter esteve no Rio Novo, pois escrevi algumas linhas no cartão postal, então agora vou tentar descrever mais ou menos pela ordem dos acontecimentos. Já deveria ter escrito, mas o tempo passou tão depressa; os dias são tão curtos, à noite há outras coisas para fazer e ainda com o querosene faltando, a gente tem que apagar as lâmpadas logo e ir dormir. Os domingos também passaram rápido e por isso não deu para escrever.

O missionário Deter chegou em Orleans no dia 6 de maio com o trem da noite. Pude vê-lo naquela mesma noite, pois ele pernoitou na mesma casa onde estou hospedada, da família Stekert. Mas ele não está como daquela vez, que precisava andar de muletas. Nem bengala ele usa mais. Está mais gordo e um pouco grisalho. Naquela noite o pessoal foi dormir depois da meia noite, pois aproveitou para ouvir contar os mais variados acontecimentos das viagens e da vida dele. Ele também, na base da brincadeira, falou que logo na primeira noite teve a grande chance de conhecer o mundialmente famoso “Sr. Grünfeld”. Na outra vez em que o Deter esteve aqui o Grünfeldt estava em Desterro e assim o Deter não teve a grande oportunidade de conhecê-lo.

A primeira coisa que ele [Grünfeldt] fez foi se queixar e falar mal do pastor Butler, com o qual ele agora não se dá bem, como acontece com todos os outros pastores. Ele chegou à conclusão de que no Brasil não haveria um pastor de seu agrado; disse que quem sabe no mundo inteiro não houvesse um pastor que o agradasse. O Grünfeldt disse ainda que o Rio Novo é semelhante ao reino de Judá: quando o rei era fiel a Deus o povo prosperava, e assim também acontece com os pastores de hoje…

O Deter só escutava, e quando o Grünfeldt foi embora ele disse que sendo pastor e conhecendo grande parte do mundo não chegou a conhecer todos pastores do mundo, mas o Grünfeldt, que mora e sempre morou no Rio Novo, conhece. Disse ainda que não precisou de cinco minutos para perceber e reconhecer que ele [Grünfeldt] é um dos tantos que existem pelas igrejas procurando culpados e defeitos nos outros; para ele nada presta, e assim não vai chegar a lugar nenhum e somente atrapalhar os outros.

E ainda não contei da parte política: quando o Grünfeldt começou a falar mal do Brasil e disse que se o Deter fosse brasileiro teria vergonha, o Deter disse com firmeza e tranqüilidade que seria melhor, se ele realmente gosta tanto da sua “Faterland”, que ele se mudasse para lá. Mas ele continuou dizendo que não tinha governo nenhum e que o idioma alemão deveria ser obrigatório em todas as escolas do Brasil e que os alemães são de longe mais cultos. O Grünfeldt é como o Janzis Arais, que diz que se conseguisse as rédeas do governo levaria o mundo direto para a lua. Mas para sua infelicidade eles não conseguem tomar o leme do mundo…

No outro dia o Butlers e o Roberts trouxeram um cavalo e levaram o Deter para o Rio Novo. Na outra vez ele precisou usar o selim próprio para mulheres, mas desta vez usou uma sela normal e seguia na frente deixando os outros para trás. Naquela mesma terça-feira teve culto na igreja do Rio Novo. Também na quarta e na quinta. Eu não fui nenhum destes dias, pois estávamos em Orleans e costurávamos até a meia-noite. O tempo estava quente e seco todas estas três semanas. No sábado eu cheguei em casa tarde, e com exceção do Puisse [Artur Purim] os demais tinham ido a um culto lá no Rodeio do Assucar na casa dos Leiman. Foi um grande culto, pois tinham vindo muitos brasileiros e muitos do Rio Novo. Desta vez o missionário Deter ficou na casa dos Frischembruder e daí eles também foram juntos ate lá. Neste culto os cânticos em brasileiro se desenvolveram muito melhor do que no Rio Novo, graças ao trabalho de ensino de música no tempo do Arthur Leiman.

No domingo pela manhã fomos todos à igreja do Rio Novo, pois não houve culto lá nos Leimann. Depois do culto houve uma assembleia dos comitês de ambas as igrejas, quando os nossos líderes fizeram uma explanação das condições em que ocorreu a cisão. O Deter então fez uma explanação das razões e vantagens que uma reunificação traria, principalmente nas áreas de evangelismo. Como a igreja de Rio Novo é a maior das províncias do Paraná e Sta. Catarina, ela deve ser a líder na área da Associação, e conseguir maior número de obreiros nas áreas de missões — obreiros que poderiam ser estrategicamente colocados em Laguna ou em Tubarão e assim dar assistência a toda região. Agora sai um trem de Tubarão para Campinas [hoje Araranguá].

Então eles ficaram deliberando, e não era permitido discutir assuntos do passado nem desrespeitar as regras parlamentares, mas no caminho para casa alguns não agüentaram e começaram a descarregar a tensão lá acumulada. Então, com a orientação do Dr. Deter, foi decidida a realização de uma sessão extraordinária da igreja de Rio Novo, cuja pauta seria unicamente a determinação do envio de um convite para que os irmãos que fazem parte da outra igreja [em Rodeio do Assucar] aceitem a proposta de reunificação, uma vez que não há nenhuma objeção doutrinária ou de qualquer outra natureza, a não ser falta de boa vontade de ambas partes; que voltem como irmãos e irmãs, que não se procurem causas e motivos do passado, os quais não trariam nada de positivo.

Na outra semana um mensageiro da igreja de Rio Novo compareceu na nossa igreja com a carta convidando a mesma para a reunificação. Ultimamente a nossa igreja estava um tanto fraca. Os jovens todos saíram e não havia ninguém que pudesse a ensinar a cantar. A Escola Dominical era dirigida pela Emma pois a Milda não mostrou boa vontade. O Roberts vai para Larangeiras atender o trabalho lá. O Arnaldo está nas Serras. Então, naturalmente, virá a unificação!

No dia 12 de maio o Deter e o Butler com a sua Marta foram a cavalo para Mãe Luzia. Lá houve cultos solenes muito concorridos e festas de batismos. Também estiveram em Campinas [hoje Araranguá] onde realizaram culto no Forum, e na volta fizeram mais um culto em Nova Veneza. A igreja de Mãe Luzia fez uma coleta para ajudar nas despesas de viagem do Pastor Deter, que rendeu 97$000. Lá ele ficou uma semana.

No sábado à noite, dia 17 de maio, quando eu voltava de Orleans em direção do Rio Novo, encontrei o W. Slengmann, que começou contando que o velho Stekert havia sido encontrado morto em sua casa. Em Orleans ninguém sabia de nada disso. Na terça-feira ele havia estado em Orleans e tinha falado que como no próximo domingo não estariam os pastores no Rio Novo ele viria a cavalo passar o fim de semana em Orleans. Os demais da família estavam todos em Orleans [NOTA: A família Stekert tinha dois domicílios: um na cidade, próximo à Estação da Estrada de Ferro, outro no Rio Carlota. Foi nessa segunda casa que o senhor Stekert foi encontrado morto].

Então, logo que souberam, naquela mesma noite, subiram todos perplexos e assustados para o Rio Novo. Dali em diante o pranto parecia não ter fim — e logo quem, pois a senhora Stekert se altera por qualquer coisa, imagine em um caso como esse.

Não se pode saber claramente o que ocorreu. Mas aconteceu nesse mesmo dia que eu vim de Orleans. Alguns pensam que algum brasileiro pôde tê-lo matado. Domingo, 18 de maio, foi o enterro. Não havia nenhum pastor na localidade. Na sessão da igreja do domingo anterior o Stekert tinha se desentendido com o Grünfeldt, e nesse domingo era levado para o túmulo. Eu tive que ficar duas semanas em casa, pois diante desses acontecimentos os familiares e outros alunos se dispersaram e não houve aulas de costura. Mas semana vão recomeçar as aulas.

O Deter voltou de Mãe Luzia no dia 20 de maio e nestes dias houve cultos todas as noites. No dia 23 de maio houve um casamento, e naquela tarde chegou a cavalo o Onofre Regis, e ali mesmo combinaram ir, ele e o Deter, até os Klavin. No sábado 24 de maio o Roberto Klavin, o Ernesto Slegman e o Deter foram fazer um trabalho evangelístico em Rio Larangeiras, pois lá o pessoal tinha sido avisado que o culto seria no sábado, já que no domingo ninguém iria para lá. Realmente houve um bom trabalho e tinha bastante gente, apesar de que o pastor sabatista realizava um culto acima da casa do Caciano, enquanto o pastor católico lá mais em baixo realizava missas. Assim mesmo as pessoas vieram para o trabalho batista que foi realizado no meio.

Naquela mesma noite teve culto lá nos Leiman e em seguida uma sessão deliberativa. Também estava o Butler e o Onofre Regis e todos homens importantes da igrejas. Entre outros assuntos houve muita deliberação sobre o destino dos bens da igreja e a reunificação da tesouraria com seus “baús cheios de dinheiro”.

O Butler serviu na sessão como intérprete, pois a pessoa que sempre faz isso é o Roberto, mas desta vez ele estava dirigindo a assembleia e ficaria muito demorado falar ambas as línguas sozinho. Ainda o Butler anotava em sua caderneta de bolso tudo, inclusive as importâncias existentes no caixa da Igreja e nas diversas organizações como Escola Dominical, União de Mocidade, etc.

O pessoal de Rio Novo andava com listas para angariar contribuições para a viagem do Missionário Deter, pois a coleta não tinha rendido o suficiente e no caixa deles dinheiro não tem. Por isso tanta insistência nessas listas. Mas na nossa Igreja tínhamos dinheiro suficiente: só no caixa da igreja tinha mais de 200$000; na nossa Escola Dominical 133$000, e desta soma foram designados 100$000 para as despesas de viagem do Deter. Ele não queria aceitar tanto, pois disse que as despesas não eram tão grandes.

Então o Butler também se manifestou, dizendo que a arrecadação da igreja de Rio Novo vai chegar a uma quantia perto de 100$000 réis. Na minha opinião é muito pouco para uma igreja com tanta gente. Nós somos bem menos pessoas e nem coletas tivemos que fazer. O pessoal da igreja de Mãe Luzia era ainda menos numeroso e deu mais do que todos. Na Sociedade Missionária tínhamos 48$00 e mandamos esta importância para a Associação de Missões Estaduais de Santa Catharina e Paraná. O destino dos saldos em caixa ainda não foi determinado, mas é bem provável que não vá para o Rio Novo.

A casa dos Leiman continua como congregação da Igreja de Rio Novo e da mesma forma a Escola Dominical em Rio Larangeiras (que era até agora dirigida só pelo Roberto, mas daqui para frente será designado um companheiro para ajudá-lo). O Deter pediu que de modo nenhum o trabalho deve ser abandonado.

No domingo passado a Maria da Silva e a Margrida estiveram na igreja e depois vieram almoçar em nossa casa. Elas solicitaram que quando nós escrevêssemos mandassem lembrança delas para você. Elas dizem que pedem ao Roberto para que quando escreva mande lembranças [em português no original], mas não sabem se o Roberto realmente escreve. Também disse que se você estivesse aqui os rapazes saberiam cantar muito melhor, porque o Roberto é bom mas não sabe ensinar música como você. Elas não têm esperança de que você volte, e acham que se um dia vier para casa talvez nem vá ao Rio Larangeiras, porque uma pessoa importante que mora em cidade grande não iria se lembrar da gente humilde de lá; certamente depois disso tudo terás te tornado muito orgulhoso.

Agora a igreja decidiu mandar dois mensageiros à Convenção em Paranaguá, que vai acontecer no dia 9 de julho. O Pastor Deter queria que fossem no mínimo dois, então foram designados o Roberto [Klavin] e o Butler. As despesas do Roberto a nossa igreja ainda vai cuidar, então o Roberto vai ter a honra de nós representar naquele evento. O Deter explicou que só deveriam ir pessoas que sabem falar o brasileiro, e o Roberto se enquadra neste quesito. Para o Roberto o Deter queria pagar todas as despesas. De Mãe Luzia irá o Klava.

O Deter foi embora no dia 26 dizendo que gostou muito daqui e prometeu em breve voltar. Agora ele foi para Blumenau, e só depois vai para a casa dele em Curitiba. Ele prometeu que quando for ao Rio vai te procurar (para levar alguma coisa para ti não; não mandamos nada pois ele vai demorar para viajar para lá). Na volta para Paranaguá deverão viajar o missionário Langston e outros.

Bem, por hoje chega, senão não caberá no envelope. Se você quiser saber mais alguma coisa pergunte, então eu escreverei noutra vez…

Com muitas lembranças,

Olga

[Escrito nas laterais:]
Junto a esta carta estou enviando um pacote contendo 3 camisas, 3 gravatas, uma ceroula, 1 par de meias e as cartas Luzija e Arthur. – Um feliz dia de Pentecostes. E ainda algo sobre o Deter: como a igreja de Rio Novo vai mandar mensageiros para a Convenção em Paranaguá, e vai se filiar então como sendo a maior igreja da Convenção, a Assembléia do ano que vem, se Deus quiser, é bem provável que seja aqui no Rio Novo. Esperamos por um belo futuro.

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Qualquer brasileiro que estivesse usando calças | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto!
[nota em português no original]

Rio Novo, 11 de agosto de 1918

Querido Reini,

Primeiramente envio muitas lembranças! Na semana passada, no dia 8 de agosto recebi duas cartas suas, uma escrita no dia 17-7-18 e a outra no dia 22-7-18, ambas escritas em brasileiro. Muito obrigado. Estávamos bem desiludidos de tanto esperar cartas, pois fazia 3 meses que não recebíamos cartas suas e somente jornais.

Naquele mesmo dia em que recebi as cartas, mandei 200$000 via cartão. Cansada de esperar suas cartas, semanas atrás mandei uma, de que ainda não recebi resposta. As tuas cartas anteriores, nenhuma delas foi por nós recebida, nem aquelas que você diz ter mandado em nome do R. K. [Roberto Klavin], nem aquele rolinho.

Aquele jornal leto é maior que os nossos jornais? Se não é, pode enrolar junto com os outros jornais porque jornais ninguém abre. Você pede que eu escreva em brasileiro, mas com tantas novidades eu não conseguiria escrever e ainda tenho muita dificuldade.

Terminamos de colher o milho no dia 3 de agosto. No ano passado tínhamos terminado 19 de julho. O atraso foi devido a vários fatores, principalmente ao fato de que começamos mais tarde e que a maior parte das nossas roças estavam na Bukuvina, sendo que nos outros anos tínhamos poucas roças lá. Despejamos no paiol 195 cargas — 5 menos que no ano passado, e as espigas também foram menores este ano.

Ainda bem que deu razoavelmente, apesar da seca. E em alguns lugares os gafanhotos comeram. Também os temporais deram bastante prejuízo, derrubando muito. Alguns foram derrubados mesmo antes de pendoar, e ai que não deu nada mesmo. Havia partes onde o milho derrubado era mais do que aquele em pé.

As abóboras, estas sim cresceram bem. Pena que a geada queimou boa parte, e estas apodrecem muito rápido. Mas assim mesmo tem muita abóbora para trazer para casa.

O tempo está magnífico e fresco. Também não chove muito, e algumas semanas atrás estava tão quente que parecia verão e o tempo muito enfumaçado. Fazia três semanas que não tinha chovido e tinham começado as queimadas, e os serranos estavam queimando os campos. Se o tempo continuar seco, como tudo está seco devidos às geadas, vai queimar o mundo inteiro, pois onde queimou ano passado tinha somente samambaias e vegetação rasteira, e esta foi totalmente queimada pelas geadas.

Geadas não tivemos mais. Semana passada um dia choveu um pouco e depois limpou à custa de um vento frio. Noutro dia fui trabalhar na Bukuvina e as serras estavam cobertas de neve, nunca tinha visto as serras tão brancas e tão baixas, mas naquele dia geada não deu. Se não fosse aquelas quatro manhãs com aquelas grandes geadas não teríamos tido grandes prejuízos [NOTA: Da Bukuvina a gente tinha uma vista maravilhosa e privilegiada das serras. Quando se diz que a neve estava baixa é que a neve não estava só no alto, mas também descendo pelas encostas para o lado do chamado “serra abaixo”(leste).].

As nossas laranjeiras estão vivas e começando a florescer. Das dos outros, aí mais para baixo, a geada derrubou todas folhas e frutos. Os pessegueiros estão em flor.

Semana passada fizemos açúcar, deu duas fornadas (tachos). A cana não se desenvolveu bem devido à seca. As da soca estavam quase secas e as novas ficaram queimadas pelas geadas. Ainda bem que não foram todas e ainda sobraram para mudas; os outros nem isso tem. A nossa sorte foi aquela roça atrás do mato, ficou bem protegida do frio. O açúcar está valendo entre 12 e 15$000 a arroba, e vai subir mais. Nós não temos comprado, pois ainda temos e também temos mel, então quanto ao açúcar ter ou não, não faz diferença.

Agora estamos fazendo derrubada da mata (coivara) perto de casa naquela grota que chamamos de “pequena mata”, coisa que já tínhamos resolvido fazer há muito tempo. Por baixo está tudo roçado. Papai e o Puisse estão derrubando as grandes árvores, que caem com um grande gemido seguido de um imenso estrondo. Preste atenção com o ouvido que quem sabe você escute o barulho das árvores caindo. O Puisse está com mais de um metro e meio de altura, e fica ainda maior quando tem chance de ajudar a derrubar a mata [NOTA: Puisse é “menino” ou “rapaz” em leto, e refere-se a Otto Roberto Purim, mais conhecido como Artur].

Estamos comendo muito palmito [Euterpe edulis]. E não só nós, mas também o gado. O Puisse traz os palmitos e também folhas de palmeira para o gado; nesta época são muito úteis porque, devido às geadas e à seca, não há grama verde nenhuma [NOTA: Eram muito usadas para alimentação do gado as folhas de palmeira ou do muito conhecido coqueiro jerivá, (Arecastrum romanzoffianum)].

Também nas capoeiras não há grandiúvas [Trema micrantha], ingaseiros [NOTA: Ingá uma árvore da família das leguminosas (Inga uruguensis). As mais conhecidas em Rio Novo eram o ingá macaco, o ingá banana e o ingá feijão. Este último medrava melhor em beira de rios e riachos] nem caetés [helicônia]: tudo está queimado pelas grandes geadas.

Nas próximas férias aguardamos você aqui em casa.

Quanto à obediência aos regulamentos do alistamento para o exército, acho que não precisas se preocupar, pois quanto sei esta inscrição é voluntária e você por isso não necessariamente precisa fazê-la. Estas ameaças são engodo simplesmente para assustar. Lá, quem está insistindo para você se alistar? Ninguém pode forçar, pois você pertence ao estado de Sta. Catarina.

Certo, se você for sorteado, aí sim você deve se apresentar. Ano passado havia um papo de que quem estivesse estudando, isto é, fazendo curso superior, era automaticamente dispensado. Aqui entre os letos ninguém foi chamado. Quando do último sorteio, em fevereiro, somente quinze jovens foram chamados do município de Orleans e foram para Florianópolis — por quanto tempo não sei, mas eram italianos e brasileiros. Não sei se vão colocar o seu nome na lista daqueles a serem sorteados, pois no ano passado o seu nome não estava.

Quanto à associação “Tiro de Guerra”, as pessoas que nela se inscrevem tem que se apresentar aos exercícios com sua própria roupa e levar a sua própria comida. Para o governo é uma vantagem tremenda, pois aí aprendem a atirar e, em caso de necessidade de alguma convulsão social, serão os primeiros a serem chamados.

Ano passado o Artur Leimann estava em Orleans e uma pessoa desconhecida o abordou e logo foi tirando do bolso um papel e exigindo que o assinasse. Não falou porquê e nem o que era este papel. Depois de longa discussão e quando viu que deste modo não ia conseguir nada, só então falou que era agente do “Tiro de Guerra” alistando novos atiradores, e que quem não fosse por bem ele poderia levar a força. Mas na realidade ele não poderia forçar coisa nenhuma, pois as pessoas que se alistam tem de ter meios para sua sobrevivência. Se o governo quiser forçar, deveria ter meios para sustentar toda esta gente. Hoje o pessoal do governo ignora essa gente que se alista. Elas têm que providenciar por sua conta o seu uniforme, hospedagem e alimentação. Por isso aconselho você a não se inscrever em nada, pois podes até entrar em fria.

Aqui por enquanto está tudo calmo e em paz. Só no domingo, primeiro de agosto, dia da eleição do “intendente”, teve uma grande briga, porque este ano nem todos puderam votar, só os que tinham toda a terra (colônia) quitada e registrada na justiça. Como sabes, existem dois partidos, um o antigo e outro do Galdino. O Galdino queria esta honra por todos os meios e saiu por aí tentando conquistar votos [NOTA: Galdino Guedes era da oposição, Mais tarde, com a revolução de 1930, foi nomeado prefeito].

Este ano a burocracia era a seguinte: quem tivesse propriedade desonerada passava na justiça e lá pegava um recibo, e assim estava apto para votar. Se não tivesse este papel na mão, nada feito. Bem diferente de outros anos, em que qualquer brasileiro que estivesse usando calças tinha o direito de votar.

E outra vez elegeram o velho José da Silva. O Galdino não gostou nada, então soltou bebida por conta dele aos seus partidários. Quando a cabeça está cheia de pinga a coragem também é grande, e começou a briga: todo mundo com pistolas, e começou o maior tiroteio. Houve uma morte e diversos feridos. Também o Ricardo, filho do Germano Balod, estava no meio da multidão e levou um tiro: a bala atravessou as costelas. Não sei se ainda está vivo, só sei que estava muito mal. Diretamente ninguém atirou nele, mas como estava no meio da multidão, sobrou pra ele. Também, por que estes rapazes tem que meter o nariz, envolvendo-se em toda encrenca que aparece? Os rapazes do Rio Novo também estavam lá, mas logo que sentiram a boca quente deram no pé para as suas casas. É o que acontece quando esta gente jovem, que nada tem a fazer em eleições de intendentes, se mete em encrencas onde nem foram chamados.

Nestas férias você poderia vir para casa. Você não tem onde ir mesmo. Faz muito tempo que não nos vemos. Terás tanta coisa para contar que levará mais de um mês. Ou não?

Você poderia nos trazer uma caixa de querosene, porque aqui só vendem em garrafas. Uma caixa [com duas latas de 18 litros cada] custa 50$000. Se algum negociante tem uma lata ele não vende, porque tem que servir a uma porção de fregueses que sairiam insatisfeitos sem a mercadoria.

Outro dia li num jornal, nas notícias de mercado, que no Rio uma caixa está custando 20$000. Assim, se trouxeres uma caixa, poderemos ganhar 30$000. Ainda temos daquela caixa que compramos ano passado por 18$500, mas quando esta acabar não sei como vamos nos arranjar.

Tudo está ficando muito caro. Por exemplo, a potassa [soda cáustica] para fazer sabão nós antigamente comprávamos por $600 réis; ano passado já custava 2$000 e agora está custando entre 6 e 8$000 réis. Pergunte quanto custa lá. Sei que o transporte também custa, mas não custa perguntar — e acho que assim mesmo vai ficar muito mais barato.

Comparando o que estamos vendendo, estamos perdendo, porque o preço não sobe na mesma proporção. O feijão agora está valendo 16$000 réis o saco. Nós ainda não vendemos o nosso. Se com um saco de feijão pudéssemos comprar uma caixa de querosene, seria ótimo. O toucinho no dia 10-8 estava a 11$500 réis a arroba. O milho está a 7$000 a saca. Coitado de quem tem comprar a farinha de milho, já paga outro preço. A manteiga está valendo 2$500 réis o quilo. Ovos estávamos vendendo a $600 – $500 réis, e agora está somente $400 réis a dúzia.

***

Agora vai fazer uma semana que estou escrevendo esta carta. Hoje é 18 de agosto. Semana passada não deu para ninguém descer a Orleans para por no correio e a minha carta ficou aguardando inacabada.

Ontem recebi os jornais enviados no dia 12-7-18 e dois pacotinhos expedidos no dia 26-7-18, e também os boletins cor-de-rosa.

Semana passada começou a temporada das medições, pois os agrimensores estão por ai. Primeiro mediram as terras as terras do Burmeister, dos Karklis, do Bekeris e de outros, então daí chegou a nossa vez. No primeiro dia choveu muito o dia inteiro e eles voltaram do mato mais molhados do que ratazanas. O Karkle falou que época de medições é tempo de preocupações e sobressaltos e a gente fica parecida como os slatvengeanos e os tchanglegeanos. Sobre isso o Puisse deverá escrever com detalhes, uma vez que é ele que está acompanhando estes profissionais [NOTA: A analogia — slatvengeanos e tchanglegeanos — é com figuras de um clássico da literatura leta vivenciado no período da Reforma Agrária na Letônia, nos meados do século XVIII (Mernieku Laiki, de Kaudzites Reinis e Kaudzites Matiss). Talvez durante as medições houvesse a possibilidade de que, quando confirmado pelos agrimensores, um ou outro lado ficasse com prejuízo ou vantagem, pelo menos aparente, pois não é possível agradar os gregos e troianos ao mesmo tempo].

Hoje na igreja do Rio Novo é a grande festa de despedida do Matiss e do Pedschem(?), e quem sabe também do Jurka Klavin, que vão viajar para São Paulo. Vão procurar as maravilhas que contam de lá.

Neste momento a igreja de Rio Novo parece um botequim: uns correm, outros dão gargalhadas tão alto que se escutam aqui de casa. Porém todos desejam sucesso para o Matiss.

Mas como disse o Karkles em seu discurso na semana passada quando veio aqui em casa: “Não pode ser considerada uma pessoa séria a que fica valsando de um lado para outro lado do mundo. Só porque os negócios aqui não estão se desenvolvendo bem, vai em busca de outras paragens. Se aqui ele já tem logrado e enganado a quase todos, então que vá embora”. Isso faz lembrar aquele que foi para o Rio e quanto tempo parou lá? Voltou com o rabo entre as pernas como um cachorro que apanhou uma surra. Eu ainda vou conversar sério com ele.

Ainda bem que já sabemos o discurso do sr. Karkles, assim não precisamos ir a estas festas. Assim economizamos os 300 réis que é quanto cobram pela entrada nessa festa.

Bem, por hoje chega. Aguardo uma carta tão comprida quanto a minha. Com muitas e amáveis lembranças de nós todos,

Olga

[nas laterais:] Você pode escrever em brasileiro, mas as palavras difíceis, que você sabe que eu não sei, você tente não utilizar. Aquelas palavras mais difíceis e desconhecidas você escreva em leto. Assim também faz o Arthur Leimann: muitas palavras ele escreve em leto. Hoje voltou a dar uma grande geada. Está fazendo tempo bom, mas muito frio.