«Dictado em portuguez» | Arnold Klavin a Reynaldo Purim

Rio Novo 29 de maio de 1917

Querido amigo,

Faz poucos dias que recebemos sua carta e ficamos satisfeitos por você não ter tido que esperar muito a minha resposta.

Aqui tivemos grandes geadas um tanto inesperadas, pois vieram cedo. Já no dia 11 de maio os pastos e matos amanheceram brancos, matando muito feijão. Ontem teve geada forte novamente.

Na última vez em que o Arthurs [Leimann] foi visitar o Onofre eu queria ter mandado um peru do mato1, mas naquele dia fui caçar e só matei um bugio – e acho que ele não apreciaria. No dia 7 de maio eu e o Roberto fomos ao Morro da Palha caçar porcos do mato (poucos dias antes lá tinham sido mortos três porcos). Andamos algumas horas mato a dentro, até que escutamos sons de buzinas ao longe e nosso guia explicou tratar-se de bugres. Soltamos os cachorros e aí caiu uma grande chuva. Os cachorros correram uma caça, que devia ser uma anta, pois logo em seguida encontramos os seus rastros, mas devido a mais chuvas tivemos de voltar.

O Artur Paegle casou-se no dia 27 com a filha do Hilbert. O Osvaldo Auras noivou com aquela que todo mundo já sabe.

Nas sextas-feiras temos dictado em portuguez [em português no original] e o Arthurs Leimann é o nosso professor. E como cada um vai você mesmo pode imaginar. Estive no Rio Laranjeiras para ver como está o pessoal lá.

O engenho já levantamos e colocamos o telhado. Agora estamos batendo feijão e arando a terra.

Com muitas lembração [em português no original],

A. Klavin2

* * *

1. Peru do mato. Jacutinga?
2. Arnold Klavin. A família Klavim morava entre o Rodeio do Assucar e a Invernada, hoje município de Grão-Pará.

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Fotos por toda a colônia | Lizete Rose Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 28 de maio de 1917

Querido filho,

Recebemos sua carta, que nos alegrou bastante.

Aqui estamos todos com saúde e trabalhamos o mais que podemos, mas os serviços não têm fim. Arrancamos feijão, quebramos o milho e engordamos os porcos, dos quais quinze agora estão no chiqueiro. De arroz recolhemos mais de doze quartas em todas as roças. Os outros [vizinhos] que plantaram no cedo tiveram colheitas espetaculares.

Nós estamos passando bem, graças a Deus, e estamos felizes que tu também estejas te saindo bem. Como estás em matéria de dinheiro? Estás precisando? Escreva e mandamos o que pudermos. Aqui nós pouca coisa temos vendido: um porco gordo por 44$000 mil réis e 4 latas de mel por 38$00 mil réis; mas dinheiro ainda temos suficiente.

Do tio Ludvig [Rose] não temos notícia, e não sabemos se está ainda vivo, se foi enforcado, fuzilado ou talvez afogado. O Matias e a senhora Burdes espalharam boatos de que ele fora enforcado nove vezes, mas quem está vivo, vive, e quando eles mencionam o tio Ludi, mencionam também você. O Karklin alardeia por todos os cantos que três redações de jornais alemães foram explodidas: do Deutsche Zeitung für S. Paulo [onde era redator o Ludvig], do Germania e do Diário Alemão – e junto com eles o tio Ludi. O Sr. Zeeberg teria contado parte desta história para o tafoneiro1, assinalando que também o Karlis estaria em má situação, pois teria alugado uma pequena casa e viveria à procura de trabalho na companhia de uns negros. Isso ele teria lido em jornais.

O Fahter2, quando recebeu as fotos do tio Ludi, andou mostrando-as por toda colônia, começando pelo Sr. Butler e terminando pelos estonianos de Orleans. Mencionou também o seu nome, pois também estivestes em São Paulo. Tudo isso causou aqui muita inveja, porquê:
1) O tio Ludi tem uma alta posição;
2) Tu também tiveste alguma vantagem, sendo íntimo do tio.
[Por isso] agora sempre apareces como motivo de conversa.

O Butler está escrevendo cartas para o Father enviar ao Ludi, mas o assunto eu não sei.

Ainda muitas lembranças nossas e as bênçãos de Deus, do Papai de da Mamãe3.

* * *

1. Tafoneiro. Moleiro, aquele mói grãos de cereais (na tafona/moinho) para fazer farinha.
2. Fahter. “Pai”. Seria Jahnis Purim, meu avô, ou o pai do Ludvig (e da autora da carta), Jekabs Rose? Provavelmente o Jekabs Rose, pois o Jahnis Purins não iria pedir para o Prof. Butler escrever nenhuma carta.
3. Do papai e da mamãe. Escrita pela mãe, Lizete Rose Purim.

O Museo Nacional | Robert Klavin a Reynaldo Purim

28-V-17
A.B. [Antunes Braga]

Ao muito confiável amigo Reinhold, Rio de Janeiro

As tuas cartas recebi na quarta-feira. A primeira foi aquela que tinha uma para mim, uma para o Arthur [Purim] e uma para os seus pais, as quais imediatamente distribuí. O engraçado é que agora que eu tinha uma carta sua na mão esta deveria ser uma longa carta — E uma outra, escrita no dia 12-V, que recebi hoje e pela qual agradeço.

Alegro-me bastante, pois fiquei sabendo que estás passando bastante bem nos estudos e tens tirado boas notas.

Receba da Escola Dominical de Rio Laranjeiras muitas lembranças; eles nunca te esquecem, mas sempre perguntam se estás passando bem e aí e conto a todos das novidades e dos teus sucessos. O número de alunos é mais ou menos o mesmo, mas alguns que tem faltado não puderam ser visitados. Agora, por solicitação deles, todo domingo depois dos trabalhos normais da Escola Dominical nós lemos a lição do próximo domingo e é decorado o texto áureo – então podes ver que não sobra tempo para mais nada.

Três dos nossos alunos estão aprendendo a ler e escrever: Margarida, Augusta e José da Silva. Eu tenho ido regularmente e poucas vezes tenho falhado. A Sra. Kolegene tem se aprontado e prometido visitar o pessoal de Rio Laranjeiras há mais de dois meses, mas não foi por falta de companhia. A Isolina prometeu ir junto no Dia da Ascensão do Senhor; era para ter ido, mas daí surgiu uma dor de dentes que não permitiu, ficando assim para outra ocasião.

A “calça larga” [“moça”, pejorativo] do Slengmann esteve lá algumas vezes, mas depois saíram umas conversas desagradáveis por parte de alguns rapazes que começaram a contar vantagens. Depois de tudo investigado nada foi confirmado, mas causou muita tristeza e muitas lágrimas à pobre moça.

Aquela gente é muito unida; em qualquer caso, quando alguma coisa diferente aparece ou não dá certo, serão todas as condições avaliadas e naturalmente opiniões diversas surgirão – que deverão ser totalmente esclarecidas para que não paire nenhuma dúvida em nenhum componente do grupo.

Sobre o caso do Artur Paegle, a igreja nada pôde fazer, porque em 1912 a igreja em Pedras Grandes discutiu e deliberou que quando um membro da igreja se casar com um de fora não será reconhecido, mas também não será excluído como é praxe nas Igrejas Letas. O Arthur Leimann teria estado presente nessas deliberações mas não se lembra deste detalhe, e acha que alguma coisa teria sido alterada – mas assim mesmo ele não pôde ser disciplinado ou excluído.

No primeiro domingo deste mês, na igreja em Orleans, foi apresentado o novo casal, Artur Paegle e Frida Hilbert – e anunciado que a outra filha menor da Eeda também vai casar. Também ontem no Rio Novo noivaram o Osvaldo Auras e sua “gorda” [Emile Frischembruder].

Sobre o Rio Novo sei muito pouco. Agora na Escola regular o professor é o João Frischembruder, de Riga. Num trabalho muito esforçado, durante as aulas nos dias de semana, ele já organizou duas apresentações de trabalhos feitos pelos próprios alunos tendo em vista o desenvolvimento cultural deles – dando ênfase a saúde, higiene, comportamento responsável, correto e irrepreensível, etc.

Eu já queria ter escrito recomendando que você visitasse o “Museo Nacional”, sobre qual tenho lido bastante e que tem muita coisa interessante; agora soube que você já foi, e fico feliz que tenha aproveitado bastante.

No dia da Ascensão do Senhor o Arthur Leimann e o Avelino foram visitar o Leonardo lá no Rio Importe. Ele mora bem perto das serras, é bem o último morador antes das serras. Eles gastaram quatro horas a cavalo do Rodeio do Assucar até lá, isso avançando bem rápido pelos vales e pelos morros afora.

Quanto ao Rodeio do Assucar, nada importante há para ser assinalado: tudo correndo na melhor ordem. No domingo passado foi feita uma coleta que rendeu 10$000 para ser enviada ao Jornal Batista, para que seja distribuído gratuitamente nas cadeias. Outros deverão mandar mais 10$000 depois.

O Arthurs [Leiman] está as noites ensinado hinos brasileiros. A senhora Kolegeene ficou tão entusiasmada que encomendou da S.S.S. inglesa um hinário com notas.

Muitas lembranças de meus pais.

Que Deus o ajude a ser bem-sucedido, a seguir em frente com bons resultados em todas as atividades.

Também lembranças minhas.

Seu amigo Roberts [Klavin]



A grande revolta | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 27 de maio de 1917

Querido Reini!

Na semana passada, no dia 24 de maio, recebi sua carta que você mandou em nome do Roberto [Klavin]. Muito obrigado por ela. Ainda não tinha escrito a resposta porque não tinha ninguém que fosse a Orleans para levá-la até os Correios.

Hoje fui ao culto na casa dos Leimann e recebi A Folha da Moda e mais uma carta sua. Agora tenho, em vez de responder uma, que responder duas cartas suas. A carta do Klavin já devolvi.

Naquela primeira carta você pergunta se recebemos todas cartas. Você menciona que teria mandado uma longa carta para o papai, e esta ainda não foi vista. As outras todas foram recebidas. Essa que falta deve ter caído na unha de algum rionovense daqueles, então nunca mais a veremos. Eu já recomendei à encarregada do Correio para não entregar nossa correspondência a mais ninguém, mas nem sempre ela está lá e talvez algum outro entregue a qualquer um.

Sabe, os rionovenses vivem extremamente curiosos para saber o que está escrito em tuas cartas. Eles “sabem” que você está muito mal e que ainda nem chegou ao Rio de Janeiro, mas ficou em São Paulo com o Ludi. Agora o Ludis está na prisão, por ter sido o causador da grande revolta, e você estava junto. O Ludis está condenado a morte e ninguém sabe o que vai acontecer com você. Só sabem que não é nada bom.

Você pode mandar as cartas no rolo junto com os jornais e registradas, ou no nome do Roberto Klavin. Aquelas Folhas da Moda você não precisa assinar mais, pois quase não temos tempo para ler e trabalhos manuais elas não tem.

Agora estou passando muito bem. Você pergunta se já tivemos geadas. No dia 11 de maio teve uma grande geada aí para baixo, mas aqui em casa ainda não deu. Para os outros trouxe grande prejuízo, pois matou todo feijão. Tem italianos que perderam um saco de plantas, pois faz tempo que não geava tão forte e tão cedo.

Do [pessoal da igreja do] Rio Novo não sei de nada bom. Tenho ouvido um boato de que alguns rionovenses querem mandar o professor embora, como já é costume. Mal ele se instala no trabalho e tem gente querendo mandar embora – não entendem que ele é necessário e pode ficar desempregado.

Tu tens encontrado o Karlis? O Seeberg (Zeeberg) diz ter lido em “seu jornal” que o Karlis teria ido ao Rio para procurar emprego, mas não teria conseguido. O Zeeberg só sabe que os outros estão passando mal, mas ele mesmo o Zeeberg não sabe como está passando.

O que você pensa do grande e pretensioso Bruveris, que antes morava com os Ochs agora esta morando com o Zeeberg? Ele anda pela colônia fazendo jacás e balaios e tirando o trabalho do coitado do velho Malvess1. O Bekeris está lascando tabuinhas2 na casa do Seeberg e mora lá também. São muitas bocas para alimentar.

Você escreve que talvez o Ludis apareça por aqui – isso seria bom, ele poderia nos ajudar colher milho e bater feijão, ou será que ele já esqueceu esse tipo de trabalho? Poderíamos conversar em alemão e ainda discutir muitos assuntos (discordando). Ele poderia comer muito feijão e muita carne e ainda as laranjas que já estão ficando doces. Poderia engordar e ficar ainda mais gordo.

O comércio não está comprando feijão e a carne está barata demais, como nunca tinha sido antes. O toucinho está entre 11$500 a 12$000, e se tiver muita carne cai para entre 7$500 a 8$000. A carne tem pouca saída.

Bem, desta vez chega. O envelope estará cheio de papéis.

Com saudações sinceras,

Olga

* * *

1. O velho Malvess. Fritz Malwes chegou ao Rio Novo em 1891. Era pai, entre outros, do conhecido Julio Malwes.
2. Lascando tabuinhas. Para a cobertura de casas. A madeira mais utilizada era o louro (Cordia excelsa).

Os problemas que você já sabe | Artur Leimann a Reynaldo Purim

Rodeio do Assucar, 01 de maio de 1917

Prezado amigo e irmão em Christo nosso Salvador!

Recebi no domingo passado o teu cartão postal. Obrigado. Estive na Escola Dominical do Rio Laranjeiras no lugar do Roberto [Klavin] que estava tratando os dentes. Agora o trabalho da Escola Dominical já não é mais feito naquele engenho de farinha de mandioca e sim numa casa provisória ali bem perto. O número de participantes se mantém.

A Izolina Mendes mora com nossa família e parece mais tranqüila. Na volta de lá fui antes em Orleans receber o indispensável. Também encontrei o irmão M. Guedes1. Chegado em casa, depois da ceia houve culto de oração e ensaio do coro.

O que você acha das brigas do João Maisin e sua turma lá [na igreja do] do Rio Novo? Eu soube quando estava voltando de Orleans, quando parei lá nos Slengmann. Ontem aqui também contaram que houve uma sessão da igreja com grandes divergências.Agora estamos lendo em brasileiro. Foi dirigida pelo Dr. Butler, que conseguiu excluir o João Maisin, enquadrando-o na irregularidade de que numa das votações ele levantou as duas mãos para votar – além daqueles problemas que você já sabe. Também o H. Elbert2 foi aceito na Igreja. Mais informações você vai saber direto do Juris.

Aqui também na nossa igreja houve alguns problemas, mas tudo foi para o seu lugar. Somente o José Araújo saiu da igreja, com muita classe, enviando uma carta com explicações. A Martha Toppel3 será convidada para a próxima sessão para dar uma posição sobre alguns assuntos que precisam ser esclarecidos. O Macht também, devido a alguns problemas pessoais, solicitou demissão de todos os cargos na igreja, mas parece que são quase sem fundamento. Como não tenho nenhum cargo oficial na igreja, tento avaliar as maiores necessidades e lá por as minhas inaptas mãos vou tentando ajudar.

Estamos esperando o Missionário Rooth, de Porto Alegre, que virá para Orleans do Sul.

***

Você percebe que mudei de tinta. Meu pai comprou um vidro novo por 2$000 réis.

Apesar de na primeira carta já ter contado como estamos trabalhando na construção do engenho, as madeiras e tábuas para o açude estão todos prontos. Depois de muita medição e avaliação concluímos que será possível estabelecer nova rota com valetas e calhas e conduzir a água por cima. O açude vai ficar perto da porteira no lado da estrada.

Na noite de ontem nos tivemos a reunião de preparação dos professores da Escola Dominical. Agora estamos lendo em brasileiro e tomamos ditados, eu como professor. Entre outras atividades procuramos passagens bíblicas, fazemos perguntas,«Pegue a tua espingarda que eu vi um bicho grande.» organizamos debates e terminamos a noite com a sensação muito agradável e de muito proveito, sem aquelas questões que em tempos passados tanto atrapalhavam.

Agora imagine, quando todos já tinham ido embora o Arnold [Klavin] veio me chamar. “Venha, pegue a tua espingarda e o cachorro porque eu vi um bicho grande”. Atravessamos a roça recém-queimada e entramos no mato quase rastejando. Foi quando sentimos o cheiro de gambá e aí vi movimento no alto. Atirei mas não acertei em nada: os cachorros ficaram latindo, mas parece que o bicho tinha subido muito alto no mato escuro. Assim voltamos pateticamente para casa.

Bem, chega de contar coisas daqui. Estou passando muito bem. Que Deus te abençoe e te ajude, é o que deseja o teu irmão na fé e companheiro,

A. Leimann

* * *

1. M. Guedes. Guedes Ribeiro era uma família de “serranos” que tinha sido evangelizada pelos Leimann, Klavin, Purins e outros. Moravam provavelmente na região de Bom Jardim da Serra, mas não pode ser devidamente comprovado.
2. H. Elbert. Willis Elbert, funcionário da Companhia Colonizadora Grão Pará e sucessor do famoso Etiene Staviarski.
3. Marta Topell. Mãe da Fania Paegle (esposa de Karlos Paegle) e da Leontina Sandrine (esposa de Alexandre Sandrini) . Os problemas mencionados eram o envolvimento com doutrinas pentecostais.