Origens da colônia: João Arums

HISTÓRIA DE UM PIONEIRO

No ano de 1889 foram publicadas no diário letão Baltijas Vestnesis [Mensageiro do Báltico] as primeiras referências sobre o Brasil, terra anteriormente totalmente desconhecida aos letos.

Alguma coisa havia sido relatada antes disso por marinheiros que transportavam em veleiros, ao porto de Santos, o conhecido e apreciado ‘’Pinho de Riga’’. Suas lembranças do Brasil não eram nada favoráveis, dadas as condições de trabalho no porto: durante o ano todo um calor insuportável, as montanhas ao fundo impedindo os ventos, dias a fio suando por todos os poros, carregando montanhas de madeira para fora do veleiro. Naquele tempo ainda ameaçava a febre amarela, que não havia sido combatida. As poças de água estavam em toda a parte; nas proximidades plantações de bananeiras estendiam-se por toda parte, espalhando sua cor verde pela redondeza. Era essa a imagem que os marinheiros transmitiam. Os navios da Letônia que descarregaram o ‘’Pinho de Riga’’ no porto do Rio Grande [do Sul], onde o clima era mais ameno, tiveram deste porto imagem bem mais favorável.

As impressões dos marinheiros sobre o Brasil não tiveram muita repercussão, tendo permanecido entre suas estreitas relações familiares. Não encontramos registros de que algum leto tivesse estado ou residido no Brasil, ou escrito alguma coisa sobre esta terra, anterior ao testemunho do pastor J. Balod e de Pedro Zalit. As primeiras referências, como já dissemos, ocorreram no Baltijas Vestnesis, de hábil autoria dos dois citados personagens, que lançavam aos lavradores a idéia de fundarem colônias agrícolas em condições melhores do que as estabelecidas em Novogorod, Simbriska, Ufa e na Sibéria – todas na Rússia. As agruras desses agricultores J. Balodis conhecia, tendo sido pastor luterano durante muito tempo na longínqua Sibéria.J. Balod e de Pedro Zalit lançaram a idéia de colônias agrícolas em condições melhores do que as estabelecidas na Rússia.

Naquela época havia entre os letos um grande sonho pelo que chamavam de ‘’meu cantinho, meu pedacinho de terra’’, não importava onde fosse. Os autores, ambos de cultura esmerada, um teólogo, outro filósofo, ainda em sua juventude e por natureza idealistas e otimistas, divulgavam suas amplas esperanças de conduzir seus patrícios às ‘’terras quentes’’. Eram parâmetros ideais as grandes colônias alemãs em Joinvile e Blumenau: suas escolas, comércio e liberdade políticas na província de Santa Catarina, de clima ameno e terras férteis.

Balod e Zalit contataram as melhores condições de imigração junto às autoridades de imigração e a empresa de colonização Grão Pará com sede na capital, Rio de Janeiro. A Grão Pará franqueou aos colonos europeus uma enorme área de terras com mata ainda intocada na comarca de Tubarão, que se estende de não distante do oceano Atlântico até a cordilheira da Serra do Mar. O acordo oferecia terras baratas, pagamento em longo prazo, passagens gratuitas desde Lisboa até a nova morada e sustento durante o primeiro ano, a ser pago com a produção das lavouras.

Os primeiros a aceitarem essas propostas foram operários da indústria cimenteira de Riga. Eram em sua maioria trabalhadores rurais que haviam deixado a agricultura por falta de condições de subsistência. Procurando trabalho, muitos haviam se juntado às indústrias de madeira e de cimento.

A terra das palmeiras
Nas industria de cimento o trabalho o trabalho era insalubre e o ambiente poluído: só poeira e fumaça. O combustível utilizado produzia mau cheiro, e a fumaça expelida pélas chaminés, levada pelo vento, poluía toda a redondeza, prejudicando continuamente a saúde da população. Os homens lembravam sua mocidade no interior, ao ar livre, e desejavam voltar a suas origens: tornarem-se outra vez agricultores, viver em suas propriedades e em suas casas. Em sua terra natal isso não era mais possível.

Entre esses operários interessados na imigração estava também o nosso irmão batista João Arums, pessoa sincera, de postura e linguagem elegantes e educadas, otimista ao extremo, líder respeitado entre seus companheiros. Podemos concluir que tenha sido graças à sua liderança junto aos operários da fábrica de cimento que durante o período de inverno um grupo organizou-se para, na primavera de 1890, quando o degelo do rio Daugava permitisse, embarcar para a cidade de Lübeck (na Alemanha) e depois Lisboa, e de lá para o Brasil.

Havia também interessados entre os batistas de Riga, que não puderam acompanhar este primeiro grupo. Porém na primavera seguinte também eles deixaram as costas de Riga rumo ao Brasil.

Enquanto esse outro grupo se preparava para o longo curso começaram a circular notícias desagradáveis. Os jovens colonos [recém-chegados ao Brasil] estavam inquietos, sentiam-se desapontados. As mulheres, nascidas na cidade, choravam pelo futuro de seus filhos. Parte dos colonos, com mais recursos, foram para os Estados Unidos, que ultimamente conquistou a fama de país de mais futuro.

Nosso Arums, no entanto, tem outras perspectivas. Ele estima a ‘’terra das palmeiras’’ com sua imensidão territorial, suas leis liberais, o romantismo da mata virgem. Comunica-se por carta com seus irmãos de fé em Riga, dizendo que não aceitem os lamentos dos descontentes: esses não confiam em Deus, não têm paciência nas agruras da vida, não possuem clara visão do futuro, sentem falta dos prazeres mundanos e da tranqüilidade da vida material. Arums assevera que as condições oferecidas pela colônia são aceitáveis e o governo correto.Ao final de sua viagem desembarcaram na estação ferroviária de Orleans. Dentro das possibilidades é possível viver e prosperar, e os parâmetros para esta avaliação são as já estabelecidas colônias alemãs. As rotas de comunicação entre as novas colônias e os pequenos portos à margem do Atlântico, bem como a ferrovia de bitola estreita (construída com a intenção de explorar as minas de carvão mineral), asseguram a possibilidade de se manter a comunicação via postal e a troca de mercadorias.

As margens do Rio Novo
Os imigrantes do grupo de batistas de Riga estavam com firmes esperanças de que no próximo ano estariam a caminho do Brasil, [o que de fato aconteceu]. Ao final de sua viagem desembarcaram na estação ferroviária de Orleans, onde foram encaminhados ao barracão coletivo da empresa de colonização.

Os recém chegados eram os “cimenteiros”, e foram recepcionados pelas duas famílias remanescentes, os Arums e os Indrikson, essa a última de estonianos (mais tarde, após algum desentendimento com a empresa colonizadora, os acima citados pioneiros mudaram-se para outra colônia).

Sem demora os batistas mudaram-se para as áreas destinadas dentro da mata virgem, às margens do pequeno riacho que os agrimensores haviam denominado de Rio Novo, distante oito quilômetros da sede do município e da estação ferroviária. Ali se estabeleceram, uns próximos aos outros. Começaram as derrubadas e fizeram suas culturas: plantaram milho, arroz, feijão e raízes comestíveis como mandioca e batata doce.

Nos cultos o coral entoava hinos em quatro vozes. Isto foi em 1891.

Logo no primeiro ano fundaram também uma igreja batista com cultos regulares. Na falta de pastor, designaram entre seus membros homens dignos e responsáveis para a administração da igreja. Nos cultos o coral entoava hinos em quatro vozes. Isto foi no ano de 1891.

Cada acampamento, sua história
A estes seguiram-se novos grupos de imigrantes das igrejas batistas de Riga, de Além rio Daugava, da Foz do Daugava e também de Liepaja e de outros lugares; mais tarde ainda da colônia leta de Novogorod, na Rússia.

Nesse ritmo de expansão, começaram a faltar terras férteis a serem cultivadas na colônia do Rio Novo. Inconformados, os colonos começaram a buscar outras áreas para moradia e cultivo.

João Zarin, um dos pioneiros no Brasil e que foi designado como agrimensor, liderou um grupo até as margens do rio Mãe Luzia. Os oriundos de Liepaja mudaram-se para o Rio Grande do Sul e fixaram-se na grande colônia de Ijuí, próximos às colônias alemãs.

Cada acampamento, sua história. Um grupo de Novogorod dirigia-se para Rio Novo, mas diante de notícias a bordo de que em Blumenau havia terras e infra-estrutura em boas condições, desembarcaram no porto de Itajaí e por via fluvial dirigiram-se para Blumenau.

Jacu-Açú
Em Blumenau sentem-se à vontade com a forma de vida dos alemães. Buscam terras onde desbravar e morar, e encontram terras devolutas a 40 quilômetros de distância, numa colônia de poloneses, entre as montanhas de Guaraniassú. Com suas oito famílias ocupam toda a área de uma baixada onde há um córrego; os que chegaram mais tarde tiveram que se contentar com outras áreas mais distantes e montanhosas.

Anos mais tarde foram chegando mais parentes e conhecidos da região de Novogorod. Estes se fixaram nas margens da estrada, onde haviam terras devolutas, embora improdutivas, por isso não ocupadas. Eram os chamados ‘’beiradeiros’’.

Chegam mais imigrantes. Onde colocá-los? Um comerciante do local, polonês inteligente, amigo dos letos, conta que em uma de suas caçadas, além do rio Patanga, encontrara numa região ainda desabitada uma várzea com um riacho. Observou que, com as frutas silvestres e as árvores, devia ser uma área de terras produtivas.

Organizam uma pequena expedição ao local conduzida pelo amável polonês, senhor Eduardo, de sobrenome polonês impronunciável. O lugar é agradável; os proprietários determinam as medições, e verifica-se que está situado nas fronteiras de três municípios: Blumenau, Joinvile e Parati. O agrimensor imagina que o riacho pertença ao município de Blumenau.

São distribuídas aos novos colonos as áreas na localidade que ainda não tem qualquer denominação. O agrimensor abate a tiro, para seu almoço, uma ave que na língua tupi-guarani chama-se Jacú-Acú – e naquele momente entende que encontrara um nome o para a localidade: Jacuassú!

Aumentaram os pretendentes às terras. Nas proximidades encontraram outro riacho, este já com nome, Ponta Comprida, reduzido a simplesmente Comprida. Verificou-se mais tarde que a área colonizada pertencia ao município de Joinvile. Correram boatos de que as áreas ocupadas a mais de dez anos, onde moram sem qualquer pagamento, é de proprietário desconhecido, de procedência realmente obscura. Não demorou a ser esclarecido: a propriedade é dos descendentes do famoso Barão do Rio Branco. Após o esclarecimento a área passou a chamar-se Rio Branco.

Um pouco do céu azul
Notícias sobre Guarani e Jaguassú alcançam Rio Novo e Mãe Luzia. Surgem famílias em uma e outra parte que se mudam e chegam para morar aqui. O primeiro a transferir-se e chegar é o nosso amigo Arums. Ele prefere a mata romântica, inóspita e desconhecida, caminhos por abrir e mudança de condições de vida. Prefere novos empreendimentos, os primeiros passos do desbravamento da natureza ainda virgem. Arums ama o Brasil e nutre por ele verdadeiro entusiasmo; lamenta não ter chegado aqui nos seus anos de juventude.

A família de Arums é pequena, três pessoas: a esposa e um filho adotivo, adotado ainda em Riga. Vivem alguns anos na colônia de Guarani. Quando falece sua esposa, fiel companheira de vida e de fé e exemplar dona de casa, Arums liquida seus bens e visita a nova colônia [leta] de Nova Odessa [no estado de São Paulo].

Volta a sua terra junto a seu filho Adolfo, que adquire uma gleba de terras em Bananal, nas proximidades de Rio Branco. Nos cultos da igreja a atmosfera espiritual é das melhores.

Com boa vontade e prazer Arums participa com o filho nos trabalhos de derrubada de árvores, abrindo novos espaços para agricultura. Não há dúvida de que a derrubada produz experiências: são árvores milenares, que sendo cortadas começam a lentamente a declinar e com grande estrondo vão ao chão, quebrando seus próprios galhos e as arvores menores. O chão estremece aos pés e na mata verde, sempre na penumbra, onde o sol não penetra, um facho de luz ilumina e aparece um pouco do céu azul…

Inesperadamente, ao cair uma destas árvores, nosso Arums foi vítima fatal. Ele amava a mata e a mata o levou. Sem enfermidades, sem sofrimentos e sem a fraqueza da velhice chegou à sua verdadeira morada, onde as arvores da vida estão sempre verdes, florescem e produzem seus frutos ‘’no meio do paraíso de Deus’’.

Um silencioso companheiro
Nós o vemos sorridente no seu retrato, tirado em sua residência – como ele andava pela vida.

Em sua memória acrescentamos algumas citações da recordação de amigos. Num discurso entitulado Letos no Brasil, impresso no Kristiga Drauga [O Amigo Cristão] de janeiro de 1948, J. Inkis referiu-se a Arums com estas linhas:

Neste grupo de imigrantes de Riga encontrava-se um silencioso companheiro, um batista com sua pequena família. Era o irmão Arums, que mais tarde passei a conhecer melhor. Vivendo numa colônia após outra, transmitia seu entusiasmo pelo Brasil, pela liberdade aqui reinante em comparação à Rússia, pela fertilidade das terras e o clima ameno, onde recuperou sua saúde.

Nas ocasiões festivas ele usava da palavra e com seu sincero semblante e sua amável figura e palavra entusiasmava a igreja dos pioneiros. No meio da mata virgem ele clamava alegremente “onde outrora os macacos em seus galhos cantavam, agora os crentes cantam louvores a Deus!’’

Numa carta o evangelista F. J. Janoskis escreve sobre ele, entre outras coisas:

João Arums foi um verdadeiro cristão, de coração ardente, sempre disposto a colaborar em qualquer atividade. A ele cabia perfeitamente a expressão bíblica a Barnabé, “filho da alegria”. Sua alma continha uma alegria inesgotável que transbordava, derramando seu entusiasmo a todos os que com ele se comunicavam.

Ele compreendia muito bem os jovens e as crianças. A cada um distribuía seus conselhos e experiências. Conhecia todas as crianças da redondeza, carregava-as no colo, afagava seus cabelos e falava meigamente de Jesus.

Na sua vida cristã cavou profundos fundamentos. Nenhum vento de doutrina poderia abalar suas convicções: era, para os demais, um anteparo seguro. Reconhecia que o objetivo e dever de todo cristão é anunciar o evangelho. Constantemente estimulava os jovens a estudar o vernáculo para poderem anunciar com eficiência a bela mensagem do evangelho aos outros cidadãos, ainda no obscurantismo. Este seu grande desejo ele chegou a ver começando a ser implantado…

Um homem como ele, de qualidades apreciáveis, foi, perceba, o primeiro batista leto a desbravar as matas do Brasil – e isso embora não tenham faltado seguidores batizados com mesmo espírito de amor. “Bem-aventurado o homem cuja força esta em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados. Aquele que leva preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo seus molhos… Esses vão de força em força.”

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Autor: Um de seus seguidores (anônimo)

Extraído do BRAZILIJAS LATVIESU KALENDARS (Calendário Leto do Brasil), Ano 1952
Tradução: V. E. Purim
Revisão: V. A. Purim e Paulo Brabo