Mesmo que nada tenha recebido de você, terei que escrever. |De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1925 –

Rio Novo, 5 de agosto 1925
Querido irmãozinho! Saudações.

Mesmo que nada tenha recebido de você, terei que escrever. O Arthurs este sim recebeu cartas suas escritas no dia 2 de Julho e a Olga um pouco antes também uma. Mas como eles estão um tanto folgados em matéria de responder cartas e também cada um tem as suas tarefas para cumprir então as respostas das cartas vai ficando igual a você que também demora a responder as cartas.

O tempo agora está bom e bastante fresco. Mas na noite da segunda feira passada choveu bastante, mas no outro dia pela manhã o tempo já estava bom. Agora o tempo está predominantemente bom e fazia já várias semanas que não chovia e também começou a soprar o vento que sopra durante as secas como verão passado. Lá onde você está ainda está frio? Algum tempo atrás nós lemos no “Der Compass” que na noite do dia 13 de junho para o dia 14 ai no Rio deu uma grande geada e o gelo foi tanto que foi a 8o.C. negativos e também em outros lugares como São Paulo, Minas, Petrópolis todas atingidas por essa grande onda de frio e grande geada. Realmente aqui nestes dias estava muito frio, mas que deu este frio lá eu tenho lá as minhas dúvidas. Se fosse verdade calcule quantas pessoas teriam morrido de frio.

O milho já terminamos de colher, rendeu 36 carradas, porque agora não usamos mais cavalos para trazer a colheita de milho das roças porque é muito mais difícil. As espigas tinham-se desenvolvido muito bem. As coivaras ainda não começamos a derrubar e nem sei o lugar que vamos derrubar. Na Bukovina este ano não fizemos derrubadas, pois você poderia achar ruim, pois nós tendo tantas capoeiras mais próximas de casa por que ir tão longe na Bukovina. Se ainda conseguíssemos camaradas para trabalhar, seria mais fácil. A fabricação de farinha ainda não terminamos porquê faltou água e também estávamos com muito serviço. Você ainda pode vir ajudar e assim terminaremos antes. Agora a farinha está com bom preço de 18$ a 20$ por saca, Agora tudo aqui está caro, o feijão chegou a 80$ a saca, mas agora baixou um pouco, o toucinho está a 30$ a 36$ a arroba e também as coisas que temos que comprar também estão caras demais. Alguns dizem que Nova Odessa mudou-se para cá porque tudo é caro como lá. – O tempo está muito seco e há pessoas que estão arando a terra para as plantas crescerem melhor – Em Rio Novo um italiano abriu uma venda e também os Karps abriram uma venda na casa nova onde vendem de tudo com exceção de tecidos que ainda não chegaram. e ainda compram todos produtos da lavoura. O Oskar e o Eduard abriram uma companhia e como se houve por ai vai muito bem e que conseguem girar 2.1/2 mil por semana.
Esta semana voltou do Serviço militar o Alex Klavin. Você lembra bem quando ele foi, apesar de serem feitos pedidos de dispensa, quais não deram em nada. Pois teve que ir de qualquer jeito. E quando depois foi a Curitiba onde o Butler é amigo dos grandes homens que tranqüilamente conseguiu a dispensa para ele vir para casa. Ainda não sei se a vinda dele é definitiva ou é uma licença temporária. No meu caso foi mais fácil porque eu não tive que ir porque conversei com o Cascais e consegui a minha liberação. Aproveitei explicar melhor, apesar de já ter escrito uma vez que eu fui sorteada para serviço militar no exército [Os computadores da época consideraram a Lúcia como do sexo masculino], mas acho que aquela carta onde escrevi foi aquela que se extraviou, é uma pena que nesta carta também eu e a Olga escrevemos sobre o Pintcher, o Schimit e o Stroberg e como este povo vive e como agora pouco daquilo eu lembro, em oportunidade que nós nos encontrarmos eu vou te contar.

O Stroberg ainda está na escola e escreve que já consegue conversar em português e que por duas vezes visitou a Igreja de Rio Branco e está muito mais gordo. Os Rio-novenses o liberaram por um ano para aprender a língua e agora todo domingo pedem dinheiro para o seu sustento. Veja como é quando o Stroberg veio à primeira vez o Zeeberg não podia nem ver e agora e o seu melhor amigo. A Igreja melhorou porque não existem tantas rusgas como antes. A Escola Dominical está mais ou menos bem. A classe dos jovens e das jovens ainda existem. Quando o Stroberg estava aqui ele é quem dirigia a Classe das Jovens e quando ele foi embora então a Senhora Beker se prontificou a continuar, mas agora ela não mais dirige porquê ela teve a desavença com a senhora Frischembruder por problemas do Coro e agora não vem mais para a Igreja. Isto acontece às pessoas que procuram a sua própria honra e sempre querem ser mais que a outra.

Ainda muitas e amáveis lembranças do pessoal de Larangeiras. Eles esperam quando voltares não deixar de programar uma demorada visita a todos eles, porquê de você eles não conseguem esquecer.
Bem agora eu vou terminar nem sei se você quer que eu escreva, e se tiver preocupado com aquele aniversário, não preciso pensar mais nisso porquê estes retratos eu perdi. Você poderá me mandar as que você tiver que eu ficarei realmente muito satisfeita.
Você está me devendo a resposta daquela que mandei junto com a carta do Arthur e ainda reitero que realmente não espero suas fotografias e somente os votos de feliz aniversário porquê eu nunca esqueço e eu tenho certeza que também você não me esquece. É pena que a Olga mencionou esta história de fotografias.

Logo no dia 30 vai ser festejada a Festa da Colheita que é em ação de Graças pelas boas colheitas. Você está convidado para participar. Poderá aproveitar que no dia 29 a Ema Slengmamm vai casar com o Adolfo Burmeister. Ela depois de um longo tempo conseguiu pegar um.

Esta semana nós fizemos açúcar, rendeu 4 fornadas, e há pouco tempo o Venis Grichk também fez 4 tachos e o Auge Felberg fez 2 tachos. Então tivemos bastante garapa para tomar.

Porquê não mandas mais nenhuma revista nem jornal?

Ainda muitas lembranças de todos. Lúcia
[escrito nas laterais]
[A minha caligrafia não é lá estas coisas e não sei se você vai conseguir decifrar, e é porque eu não tenho os dedos grã-finos como os teus.].
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Depoimento de J. A. Zanerip | Meu primeiro par de sapatos

Quinta Parte

Uma pequena história do meu primeiro par de sapatos. Como já tinha contado antes, por absoluta falta de dinheiro quase todas as crianças iam à Escola Dominical descalças. Costumavam ir descalças até mesmo aquelas que pelas condições financeiras poderiam ir calçadas, pois por longos períodos não havia as mínimas condições de usar sapatos, por causa da muita lama em períodos de chuva, o que era agravado pela grande quantidade de carros de bois.

Meu primeiro calçado foi um par de tênis, mas este durava muito pouco naquela época devido às grandes distâncias e às grandes caminhadas.

Um dia resolvi plantar um talhão de feijão só para mim, por entre um milharal qual estava quase maduro. Fiquei muito feliz quando, ao fazer a colheita, rendeu mais de quatro sacos de feijão limpo. Além disso, como no ano anterior quase não tinham aparecido compradores, pouca gente tinha plantado neste período. Daí o preço foi uma fábula: 25 mil réis a saca de 60 quilos, e na venda apurei limpo 75$00 réis.

Olha, creio que em toda colônia ninguém era mais rico que eu. Já pensaram, um menino com 75$00 mil réis no bolso? Um sonho!

Nestes dias apareceu alguém vendendo uma bicicleta por 75$00 mil réis, mas naquela altura eu já tinha gasto 5$00 réis. Ofereci 65$00 mil réis, mas o dono da bicicleta se mostrou irredutível: menos de 75$00 nem um tostão. Por fim ofereci o que tinha, 70 mil réis. Aí o dono da bicicleta abaixou o preço para 72$00 mil réis — e por causa de 2 mil réis deixei de comprar minha sonhada bicicleta.

Em compensação, um dia fui à cidade e comprei um par de sapatos, meus primeiros e lindos sapatos.

Aqueles sapatos rangiam muito; quando andava faziam “nhique nhoque, nhique nhoque”. Eram tão bonitos que eu nem queria usar para não sujar. Do dinheiro que sobrou gastei mais um pouco e o resto dei para a mamãe.

Foi um sucesso não esperado.

* * *

[continua…]

Inhame para cozinhar para os porcos | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 31 de julho de 1919

Querido Reini!

Primeiramente envio muitas lembranças! A tua carta escrita no dia primeiro de julho recebi no dia 21 de julho; esta foi uma das que demoraram bastante. Muito obrigado. Cheguei a pensar que você não havia recebido as minhas cartas pelo tempo que ficamos esperando as respostas. Não aguentando de saudades, no dia 14 de julho mandei mais uma carta, porque nos jornais que chegaram você tinha anotado que estava esperando notícias nossas.

Bem, [esse tipo de atraso] não tem muita importância, desde que a gente tenha certeza que as cartas realmente cheguem os seus destinos. Hoje não se compara com os tempos de incertezas do período da guerra: agora está realmente muito melhor.

Lendo sobre a Convenção das Escolas Dominicais, fiquei muito feliz em saber que você esteve em todos aqueles eventos. Ah, como eu gostaria de ter estado também, pois nunca tive oportunidade de estar no meio desta multidão; nunca me vi nem me ouvi numa situação dessas, num meio em que as grandes personalidades ponderam e decidem. Então estiveram mensageiros de todas partes, até do Rio Grande do Sul, que fica tão longe!

Então você deve ter conversado com o Karlis [Leiman]. Parece que hoje a moda é ir viajar para as Conferências. O Butler, o Robert e o Klava viajaram para Paranaguá, e sobre isso já escrevi um pouco. Eles estão sendo esperados em casa, mas até hoje não chegaram e já faz um mês que eles foram. Porém soubemos que depois da Convenção eles ainda iriam para Kuritiba e ainda visitar as colônias letas na região de Blumenau.

Você não imagina como o Grünfeldt está preocupado. As reclamações dele não têm fim. Por que precisam ir à Convenção? Por que gastar tanto dinheiro e tempo? E os pastores só pensam de zanzar de um lado para outro. Por que ficam tanto, tempo fora de casa? A grande infelicidade dele é que ninguém lembra dele para nada, e daí o problema.

De resto, tudo igual na velha Rio Novo. Ninguém casou e ninguém morreu… Nós estamos passando, bem graças a Deus, e todos com saúde. Hoje o tempo está nublado e chove um pouco. Sopra um vento frio do lado de baixo [sul: minuano].

A festa do açúcar este ano foi melhor do que a dos outros anos, pois nos anos passados não passou de dois tachos [isto é, duas fornadas], mas no ano passado a geada foi tão forte que matou a cana até o chão. Este ano foi muito bom, a cana cresceu muito bem. Aquelas que o vento derrubou cresceram tortas e tiveram que ser cortadas ao meio para que fosse possível enfeixar. Em comparação com os anos anteriores, em que nem tinha sobrado mudas para plantar, este ano nós fizemos 5 ½ fornadas (tachos). Veio o Caciano do Rio Laranjeiras com seus irmãos e seus bois para moer a nossa cana.

Os nossos bois não foram adestrados para andar ao redor da moenda no engenho. O Ostos não gosta mesmo de andar e o Bullis [“boi”, em leto] não foi ensinado. Com Osto nós vamos buscar inhame para cozinhar para os porcos e também lenha para o engenho; já andar ao redor não é com ele [NOTA: Para que os bois não ficassem tontos caminhando ao redor da moenda eram colocados uns anteparos feitos de couro sobre os olhos deles, chamados antolhos]. Mas é uma vez por ano que a gente faz açúcar, e ainda tem de puxar sem ajuda.

Agora nós temos açúcar para o ano, e hoje em dia não está barato, 3$000 ou 4$000 como era no passado; agora está 15$000 a arroba. Todo tempo do corte da cana o tempo esteve quente e seco como se fosse verão. Começamos no dia 24 de julho e terminamos dia 29. Este ano ainda não fez frio, e nenhum sinal de inverno por aqui. Está tão quente que já pode se começar a plantar. Os pessegueiros já floresceram e as laranjeiras estão com botões; outras já brotaram e as abelhas chegam a zunir atrás do seu pólen e néctar. No ano passado [nessa mesma época] estava tudo congelado, nenhuma abelha se atrevia sair de sua colméia.

Ontem o Pappa estava fazendo uma limpeza nas colméias retirando os favos escuros [isto é, vazios, que tinham sido usados como ninho] para deixar espaço para a colheita que vem por ai, mas elas estavam muito ferozes, avançando em tudo e em todos. O Pappa disse que em muitas colméias já tinha bastante mel.

Desta vez chega, outra vez eu escrevo mais se tiver mais notícias. As camisas serviram? Não ficaram justas? Agora nas vendas de Orleans está começando a aparecer novos tecidos e ficando um pouco mais baratos.

Com sinceras e saudosas lembranças de todos de casa. Escreva bastante.

Olga

Para conhecer a cidade | Olga Purim a Reynaldo Purim

[Parte legível de um Cartão Postal com carimbo de Orleans de 18 de julho 1919]

…então eles deverão logo chegar de volta da Conferência [da Convenção Batista], pois esta já deve ter terminado. Eles viajaram para lá no dia 30 de junho, mas não sei em que navio embarcaram. Outros dizem que eles não conseguiram aquele navio que esperavam tomar. O Deter escreveu que a viagem a Blumenau foi muito boa e de lá para a Convenção irá o E. Broks. Torna a insistir que aguarda os mensageiros do Rio Novo.

A Convenção em Paranaguá começou no dia 9 de julho e este dia aqui em Rio Novo foi um dia muito lindo; tomara que lá em Paranaguá tenha sido assim. Depois do término da Conferência o Butler, o Klava e o Robert vão viajar até Kuritiba para conhecer a cidade e visitar a família do Deter. Na volta da viagem o Robert terá muita coisa para contar, pois ele foi conhecer muitos lugares a que nunca tinha tido a oportunidade de ir antes.

A Escola Dominical de Rio Larangeiras está sendo dirigida pelo Arnolds [Klavin]; ele está passando o inverno em casa, pois os serranos nesta época estão batendo os dentes de frio.

Agora os Klavin estão fazendo farinha de mandioca. O problema é que o preço não está como no ano passado, quando se vendia por até 12$000 uma saca de qualquer farinha. Agora se for muito boa [o preço fica entre] 5$000 e 6$000, e se não for boa cai para 2$000 a 3$000 o saco.

O Jurgis e o Woldis Karklin foram embora para São Paulo sem mostrar no Rio Novo a Iluminação elétrica que prometeram. Também a Elza Karklin tem andado de um lado para outro, e até em Mãe Luzia ela foi.

Bem, por hoje chega. Pode ser que logo receba cartas suas, e se você pedir para escrever mais sobre o Rio Novo eu escrevo. Ainda muitas lembranças do Papa, Mamma, Arthur, Luzija e da

Olga

Uma decisão arriscada | Lucia Purim a Reynaldo Purim

[Sem data, mas deve ser junho ou julho de 1919]

Querido irmão!

Obrigado pela tua carta escrita em 22 de maio. Eu estou passando bem. O tempo está sempre quente e semana passada choveu quase todo o dia. O pessoal daqui está falando que quando a chuva parar, aí o tempo vai esfriar.

Eu agora estou colhendo milho sozinha e trago para casa com a Zebra. Agora nós temos nove porcos no chiqueiro para engorda. O toucinho está com o preço muito bom; 13$000 com ossos e tudo. Nós agora temos 18 leitãozinhos, então comedores de milho é que não faltam mesmo. Nós agora temos três vacas dando leite. A Luscha já está dando há quase um ano e por isso já não está dando tanto. A filha da Luscha é uma bezerra chamada Rucina; é vermelha acinzentada e está bem grande. A Magone [“Papoula”] teve recentemente uma bezerrinha amarela que foi adoecendo e semana passada terminou morrendo, mas a Magone continua dando leite mesmo sem o bezerrinho. E a Lagstigala [“Rouxinol”] também esta dando leite. Essa só está há um mês conosco: nós compramos dos Grikis por 180$000 e ela tem um boizinho, mas também este ficou doente. Agora só temos estas três vacas, pois a Nete e a Seedalla faz tempo que não as temos mais.

Os Grikis este ano venderam diversos animais. A Maria na semana passada fez um leilão de suas coisas, pois faz tempo que ela queria ir para o Rio Grande do Sul a procura da irmã dela. Ela não queria ficar com os Grikis, pois enquanto o Sommers não tinha morrido ela precisava ficar para ajudar a sustentá-lo, mas agora não havia mais esta necessidade. Mas quando ela foi se despedir dos Leimann a senhora Leimann convenceu-a ficar morando com ela, dizendo que seria uma decisão arriscada se meter em lugares desconhecidos, quando ela muito bem poderia ficar morando com ela. E assim a senhora Leimann ganhou uma auxiliar e tanto.

Bem, por hoje chega. Lembranças da

Luzija

Devidamente inutilizados | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 4 de maio de 1919

Querido Reinold!!

Primeiramente mando muitas e sinceras lembranças! Semana passada, dia 29 de abril, recebi tuas cartas escritas do dia 4-4-19. Danke [“obrigado”, em alemão no original].

Estou muito alegre porque tu estás bem e eu posso dizer o mesmo. Nós estamos passando bem e estamos com saúde. Agora já está fazendo duas semanas que mandei uma carta que espero a esta altura que você talvez já tenha lido; antes das festas da Páscoa mandei um cartão postal, e na semana passada, quando recebi as cartas, mandei outro cartão postal. Tudo foi recebido?

Bem, desta vez você pediu dinheiro. Toda as vezes que você pede dinheiro ele já há algum tempo foi enviado. Faz duas semanas que o dinheiro seguiu, mas desta vez não pelo correio. O nosso Diretor [da Companhia de Colonização Grão-Pará] estava se aprontando para ir ao Rio visitar o filho no Colégio Batista [Colégio Batista do Rio de Janeiro, adjacente ao Seminário], então pensamos que ele poderia levar o dinheiro para você. Sendo assim, eu tive a honra de subir as escadas do palacete da Companhia com 300$000 na mão, mas ele disse que não gostava viajar com grandes importâncias em dinheiro e imediatamente desceu comigo até o Pinho, onde determinou que se fizesse uma transferência para a firma correspondente via telégrafo e o imediato pagamento para o Colégio Batista. Então o nosso dinheiro ficou aqui no Pinho, que também forneceu um recibo legal com as estampilhas e selos da República devidamente inutilizados, garantindo a legalidade da transação. Nos Correios para enviar os 300$000 eu teria que pagar 7$000, e assim não tive que pagar nada.

O Diretor sabia que você estava naquela escola; ele quis ainda saber quanto tempo você iria estudar, e se iria estudar tanto quanto o Butler. Já nas férias do ano passado o filho dele vinha estudar inglês com o Butler. Aliás, a recomendação do Colégio Batista também foi dele [Butler], pois melhor não poderia se desejar.

Então, semana passada o Sr. Diretor e sua distinta filha viajaram para o Rio para visitar o filho, aproveitando para visitar a outra filha em Florianópolis. Pode ser que você tenha visto este hóspede tão ilustre.

O tempo está magnífico, com lindos dias de outono. É uma pena pensar que o que está verde e lindo logo que venham as geadas elas deixarão tudo cinza e deprimente. Os dias estão ficando mais curtos. Os milharais estão amarelados.

Semana passada a Anna Burmeister foi com o Alfredo [Leepkaln] dela a Laguna a fim de fazer altas compras para o casamento, que parece que vai ser este mês. Esta gente anda numa pinta de um jeito que até agora não foi visto por aqui. A senhora Wilman não fazia nada que parecesse ostentação, mas este pessoal nem se fala: todo domingo tem recepções e festas. Se dinheiro houvesse tudo bem, mas o que sobra são dívidas, e ainda contam vantagens dizendo que o mais rico da comunidade é o Leepkaln. Outro que se possível seria rico é o Willis Slegmann.

A Nanija Karklin está trabalhando em Laguna. Ela passou uns tempos em casa, e quando as roupas ficaram ultrapassadas e gastas ela voltou trabalhar.

O Jurgis Karklin vai para São Paulo, e dos projetos de eletricidade até agora nada. O Rio Novo está completamente às escuras; agora que faltou petróleo ele poderia ter iluminado toda Rio Novo com a eletricidade.

Agora em Orleans já chegou o querosene, mas os donos das vendas estão querendo muito caro por ele. Uma lata [custa] 25$000 e a garrafa 1$000, e quando vier mais deve ficar mais barata. A potassa [soda cáustica] para fazer sabão, que custava ano passado 6$000 a 8$000, agora pode ser comprada por 2$500. As roupas continuam caras e não há nenhuma que seja realmente boa, pois as vendas continuam vazias.

Bem, por hoje chega de escrever, você não terá tempo de ler tudo isso. Mas escreva uma longa carta para mim.

Porque não tem mandado aqueles “boletins” este ano, ou eles não têm sido mais distribuídos? Não recebemos nenhum este ano. Jornais estamos recebendo regularmente. O Deter ainda
não veio e nem sei quando virá. Quem disse que ele já teria vindo?

Com lembranças de todos de casa,

Olga