História da juventude de Emílio Anderman em Rio Novo

Esta História é longa, mas foge um pouco de Rio Novo, mas que poderá ser publicada se houver solicitação para tanto

M E M Ó R I A S D E E M I L I O A N D E R M N N

Escrito por Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

Na infância parece que o coração pulsava mais forte, era mais sensível. Dentro do corpinho pequeno abrigava labaredas de sentimentos que eram mais insistentes, rápidos e fortes.
Em Rio Novo, Santa Catarina, naqueles breves momentos em que lá vivi, adquiri impressões inesquecíveis sobre a natureza.
No relento, fora do aconchego do lar, ao anoitecer, respirando a atmosfera fresca eu exultava ao observar a natureza que adormecia. As escurecer progressivamente as grandes árvores e arbustos transformavam-se em simples sombras, pareciam mais agressivos.
Surgiam as estrelas, uma depois da outra. A lua nova por de traz da silhueta escura da crista da grande montanha aparecia como uma pequenina foice e tudo isto eu observava estupetafo. Seria esta mesma lua que iria se transforma em sangue com diz a profecia?
As grandes moitas envolvidas numa frígida nebulosa amedrontavam inspirando um respeitoso temor. Eu corria para dentro de casa onde brilhava a luz tênue de uma lâmpada de querosene. Aproximava o meu rosto da vidraça da janela e tentava olhar para fora, mas somente via a escuridão que freava a coragem de aventurar uma nova saída.
Numa noite quando eu dormia sozinho numa caminha fui tolhido por um pesadelo enervante. O local do acontecimento parecia aquele alto da montanha onde nascia o Rio Novo que era rodeada por outras maiores que limitavam a visão do horizonte, que eu habitualmente observava nas manhãs e ao entardecer.
Agora, no sonho, eu lá estava sobre os seus cumes cobertos de florestas, um insignificante ser, vendo surpreso uma tenebrosa convulsão das negras nuvens que rolavam céleres se enleando e distendendo numa louca corrida para ao infinito.

Nesta silenciosa penumbra, repentinamente estourou um mar de chamas se expandiu tomando toda a abóbada celeste e acima deste cataclismo, grandioso, impressionante, desfilava inesgotável o fluxo dos anos. Uma sonoridade constituída de muitas harmonias ecoava pelo infinito – “blam, blem, blam, blem”, que pareciam emitidas pelas trombetas dos arcanjos, cobria toda a orbe terrestre. Outros anjos sem coro cantavam hinos.
Eu dormira como se estivesse morto e quando acordei, os meus pés estavam sem os sapatos. Depois me contaram que na ocasião em que o relógio badalou as horas foi quando os meus calçados caíram dos meus pés.
Eu fiquei tão impressionado e amedrontado com este sonho que na conseguia mais adormecer sozinho e passava a noite temeroso, de que em uma outra ocasião qualquer, o fenômeno poderia se repetir na realidade.

MINHA DESPEDIDA DE RIO NOVO
Então nos estávamos em preparativos para viajar do Rio Novo para Mãe Luzia. Muito pouco me lembro daquela despedida que aconteceu na véspera. A minha irmãzinha Lídia e a Tereza estavam aprendendo a canção:
“Menino moribundo
No colo da mamãe.
Dizendo-lhe adeus
Baixinho, sussurrou
Em breve os anjos brancos
Pro lar me levarão
Oh! Mãe me encontre
Encontre lá no céu”.
Para ser entoada na reunião da despedida, elas me pediram para participar na voz de tenorino e eu cantei com muita garra, mas não tinha certeza se cantava o tenor, contralto ou outra harmonia qualquer; então para não estragar a execução, recusei-me a participar por que sempre fui bom no contra-canto, mas nunca igual na mesma tonalidade. Hoje tenho dúvida se realmente era a despedida.
A minha irmã Zelma (Mely) do meu pai e o tio Rodolfo andávamos tangendo um rebanho de ovelhas viajávamos na primeira leva; em outra ocasião depois desta, fez-se à mudança de toda a família.
De manhã cedinho fui despedir-me da família Klavim. Ali ficaram os meus inesquecíveis companheiros de brincadeiras infantis, mas fui para lá sentindo-me como se fosse um herói. O meu pai havia me presenteado uma harmônica de boca e eu soprava o instrumento com muita força e na minha imaginação o mundo todo estava escutando esta expressão de harmonia, esta solene e poderosa marcha de despedida e foi assim que subi a colina para me aproximar dos meus companheiros para me despedir deles.

Não me lembro dos detalhes desta despedida, mas apenas da grande confiança no futuro, o espírito entusiasmado e um sentimento de segurança que esta mudança me inspirava.
Depois nos iniciamos a viagem e começamos medir o caminho com os nossos passos até que entardeceu e chegou uma noite deslumbrante. Então nos acampamos e dormimos ao relento abrigados por uma encosta de morro, tendo as selas dos cavalos como travesseiros e os pelegos por colchões, cobertas pelas capas de cavaleiros.Além do vale soava uma música de dança que se ouvia de intervalo a intervalo, cujos tons chegavam ao sabor da brisa noturna. Na manhã seguinte acordei cedo por que a lua minguante brilhava nos meus olhos e também de Mely. Observamos a abóbada do céu onde reinava a luz, brilhavam as estrelas e enchiam os nossos coraçõezinhos com centenas de ilusões.
No fim da viagem em Rio Mãe Luzia a numerosa família do meu avô Ans que morava numa grande mansão, recebeu-nos como heróis. Fomos muito bem acolhidos, mas outra vez não me lembro dos detalhes, a não ser o paladar gostoso dos doces feitos com mel e polvilho preparados pela tia Marta, em contraste com a minha falta de compostura; logo depois, quando fiquei louco de raiva por causa de um pé de tangerina cheio de frutos que considerei uma propriedade exclusiva minha e a tia Marta me contrariou na minha intenção.
Sem perda de tempo iniciamos o desbravamento da mata virgem das terras que meu pai havia comprado; já havíamos feito o cercado e plantado o pasto e voltando depois de mais um dia de trabalho nele encontrado o gado trazido do Rio Novo. Isto despertou em nós o pensamento de que “eles já vieram” e então alegres e jubilosos corremos para cumprimentos os nossos pais.

A MINHA ORIGEM

Nasci na Letônia, em Pitraga, no dia 28 de julho de 1902. O meu pai exercia o cargo de Pastor da Igreja Batista local. De lá, quase nada me lembro.
Numa percepção longínqua, como num sonho, ficou guardada a lembrança de alguns acontecimentos:
• Meu pai me levava passear de bicicleta;
• A degola de um galo que esperneava muito;
• Junto com a irmã Lídia andávamos num campo de centeio;
• O majestoso mar Báltico.
No início do ano de 1905, atendendo a um convite, uma designação da Junta Missionária, o meu pai, junto com a família emigrou para o Brasil para ocupar o cargo de Professor da Escola primária Leta na Colônia de Rio Novo, perto de Orleans em Santa Catarina. Ainda me lembro dos marinheiros andando no tombadilho do navio que nos trouxe.
Nosso começo de vida aqui no Brasil foi muito bom. O meu pai dava aulas na escola, em dois turnos, de manhã e a tarde enquanto a família trabalhava na lavoura. Aos domingos e dias festivos ele dirigia o Culto e pregava na Congregação Batista.
Os nossos tios Karklis (a matriarca era meia irmã da minha mãe) nos convidaram para a festa de Natal e para chegar lá a Lídia e eu, cada qual, fomos acomodados em dois cestos [Jacás feitos de taquara Açu ] pendurados nos dois lados do cavalo, enquanto a Mely sentava na sela e esta foi a nossa condução. Fiquei fascinado pela luz das velinhas presas na árvore de Natal que me agradou muito, mas o maior interesse foi despertado pelo paladar das bananas que comi demais e tive uma indigestão.
Nós, os irmãozinhos ainda crianças, muito breve, encontramos companheiros para brincar de outras famílias que moravam perto. Mas a principal, logo depois que se descia colina e atravessava um regato, encontrava-se a casa dos Klavim, onde moravam os nossos principais parceiros lúdicos que eram três: Zelma – a mais velha, o Alexandre e por fim Alida – a mais moça.
Sempre encontrávamo-nos para brincar; às vezes com muito excesso e resultados arriscados.

OS COMPANHEIROS DE BRINCADEIRAS

Nossa atividade social, nossa alegria infantil, nossa felicidade, se realizavam quando nos encontrávamos. Aquele era o nosso mundo de crianças. Brincávamos de várias maneiras, construíamos casas, fazíamos bonecas de várias maneiras que dávamos em matrimônio que também adoeciam, morriam e então realizávamos os seus funerais no ritual Evangélico dos Batistas, cantando, dizendo versículos da Bíblia e orando.
Em outras ocasiões nós brincávamos de casamento. Vivíamos, adoecíamos, morríamos e depois realizávamos os nossos funerais, tentando imitar gente grande. Outras vezes brincávamos de anjos que traziam os bebes. O anjo se escondia atrás da esquina da casa e sorrateiramente vinha trazer a criança, enquanto nós fingíamos dormir. Então o anjo cantava, largava a criança e escapulia e nós acordando, vendo o nascituro jubilávamos de alegria. O anjo sempre era o mais idoso por ser o mais forte e o bebê o mais novinho por ser o mais leve.
Também imitávamos atividades domésticas e o patrão tinha o direito de castigar as crianças. Comerciávamos usando como dinheiro as folhas que colhíamos das árvores.
Numa ocasião as crianças dos Klavim vieram brincar na nossa casa. Terminado o jogo, quando elas retornavam para a sua casa, nós os acompanhamos até o riacho que estava transbordado devido às chuvas na cabeceira, correndo a água por cima da ponte.
Eles vadeavam com a correnteza até o joelho. De repente o Alexandre Klavim pisou em falso e sumiu nas águas. Lídia correu pela margem e o agarrou pela aba do paletó e assim, miraculosamente, conseguiu salvá-lo.
Brincando também cozinhávamos. Numa ocasião, mamãe não estando em casa fizemos o fogo da parede da Igreja que era de madeira e por isto começou a incendiar-se. Um transeunte viu o sinistro e chegou a tempo de apagar o fogo salvando a edificação. Constantemente apanhávamos surras dos nossos pais como castigo por excessos [A família Purim morava logo acima e minha avó Lisete e a família tinham visto diversas vezes as crianças dos Andermann andando pelo telhado do templo da Igreja qual tinha um pé direito bem alto mais o telhado de tabuinhas em um ângulo bastante acentuado, assim se uma criança despenca-se de lá de cima, seria um acidente sério na certa. A saída para o telhado era facilitada por uma janela junto ao final da escadaria da galeria ] praticados e por isto nos castigávamos mutuamente para se acostumar as pancadas.
Quando vesti as primeiras calças compridas conclui que a mamãe não teria mais o direito de me bater.

A MINHA DOENÇA

Papai cada dia ia banhar-se no Rio Novo. Eu o acompanhava, mas certa vez demorei demais dentro da água gelada, apanhei um resfriado e fui atacado de meningite. Minha mãe me cuidou com muita atenção empregando o método terapêutico de Belke, mas mesmo assim fiquei acamado por longo tempo. Depois me contaram que tinham de me acomodar com cuidado na cama por que sentia muitas dores. Graças aos esforços e cuidados da minha mãe eu convalescia e isto me causou muita felicidade e alegria por que, novamente podia correr livremente na natureza.
Certo dia a minha mãe precisou ir a cavalo para Orleans a fim de fazer compras e antes de seguir viagem recomendara ao meu pai que não me permitisse tomar banho no rio durante a sua ausência; mas o meu pai insistiu no banho e me levou junto quando apanhei outro resfriado e tive uma recaída. Outra vez a minha mãe teve de me tratar durante dias e noites, até que finalmente sarei; mas estava tão debilitado que, quando saí da cama, tive que engatinhar por que não tinha forças para caminhar.
Na minha convalescença minha mãe me perguntou o que eu queria comer e eu respondi: “uma sopa cosida e banana frita”. Em breve ganhei forças e fiquei completamente curado e podia novamente correr e brincar pelos montes de Rio Novo.

O MEU ENTENDIMENTO

Não sei por que, desde a tenra idade, o meu entendimento me propôs várias questões para analisar e pensar, mas que não tinha explicação. Também não sei por que a música e as maravilhosas belezas que eu observava na natureza tocavam tão profundamente a minha sensibilidade e tudo isto deixou no meu coração uma ânsia insaciável por uma existência farta e abrangente de realizações.
Repetida vez eu observava as nuvens que rolavam céleres sobre as montanhas, sem destino; e, estas brancas ondas de neblina, impressionavam o meu coração profundamente. Depois aquele céu escuro de onde aconteciam as trovoadas e que acentuavam a luminosidade dos relâmpagos absorviam o meu interesse. Quando o relâmpago riscava o céu com milhares de ramificações cintilantes e o trovão estourava naquele ruído que ecoava pelas montanhas, então eu corria para ao lugar onde eu havia visto a faísca atingir a terra, a procura daquela “bomba” e ver a cratera da explosão. Perdi muitas horas procurando a tal bomba.
Pensava que o arco-íris, em algum lugar, se firmava no solo e em uma ocasião decidi correr para encontrar este lugar.
Também sentia medo. Uma vez eu e os meus irmãozinhos nos banhávamos no riacho a beira da estrada. Pelo caminho vinham dois homens, um deles manuseando uma faca. Eu desconfiei de que eram malfeitores e então numa fugida louca, deixando a roupa para traz corremos para casa até chegar junto do meu pai de quem pedi uma faca para enfrentá-los. Então eles já estavam mais próximos e meu pai disse calmamente: “Eles estão picando fumo”.
Comentei com a minha mãe: “Tu disseste que o mundo é tão grande, no entanto ele termina logo ali adiante” e enquanto eu falava apontava para a linha do horizonte, pois estava convicto de que os limites da terra não iam além do campo da visão.

O GOSTO ARTÍSTICO

A música me empolgava muito. Quando ouvia tocar harmônio ou cantarem hino abandonava as brincadeiras e ouvia absolutamente sossegado. Eu também cantarolava tentando encontrar naquelas sonoridades que emitia, alguma coisa bela e atraente. Nas reuniões da Igreja Batista, quando toda a Congregação cantava, meu coração ficava tocado até as lágrimas, então os outros me observavam sem entender e me perguntavam se eu estava magoado. Meu pai me presenteou com uma gaitinha de boca que eu tocava insistentemente.
Quando a minha avó Ana veio nos visitar em Rio Novo ela me presenteou com uma flautinha de soprar que se tornou o meu brinquedo mais querido. Acabei estragando o instrumento por que queria aumentar o número e a largura dos furos onde colocar os dedos. Fui convidado a cantar no Coro da Igreja, mas depois me esqueceram de chamar e por causa disto fiquei magoado até as lágrimas.

A MINHA ALFABETIZAÇÃO

Já estava crescidinho e assim passei a freqüentar a escola. No recreio eu corria junto com os colegas. Sentia-me muito feliz por que estava me desenvolvendo e queria tornar-me logo um homem adulto e importante.
Quando observei que apenas o meu pai, como professor, iniciava as aulas com uma oração a Deus eu o aconselhei que deixasse os alunos também orarem; observei que a mamãe nos mandava fazer preces, todos os dias, de manhã cedinho aos acordarmos; mas o meu pai não me queria como conselheiro e sim como aluno e nesta condição ele me mandava decorar letras e números.
Depois que eu aprendi a ler e a escrever ele me mandava para a Biblioteca [Já naquela época a Igreja junto com a Escola mantinham uma Biblioteca ] para ler junto com outros companheiros mais adultos. Um dia, de brincadeira começamos a espirrar; apareceu papai e nos ameaçou castigar colocando em pé num canto da sala, mas os meus companheiros desculparam-se de que estavam resfriados, então eu fiquei sozinho por que ele sabia que eu não estava gripado.
Assim na brincadeira eu aprendi a ler. Também tentava fazê-lo em português, mas não entendia palavra, mas com a ajuda do meu pai em breve aprendi a língua tão bem que numa viagem missionária que meu pai realizou a fim de pregar o Evangelho, ele permitiu que eu lesse em voz alta o Novo Testamento em público.

MEU COMPANHEIRO CELINO

Ele era brasileiro autóctone e tendo ficado órfão não tinha onde ficar. Então minha mãe o abrigou em nosso lar como se fosse filho. Mas isto foi um erro por que este menino de 11 anos me arrastou para uma má conduta. Eu acabei submisso a sua vontade e ele me perseguia tanto quanto desejava. Nosso círculo de brincadeiras e amizade foi acrescido dos filhos dos Feldsberg. Então já com mais idade iniciamos reuniões para orar a Deus. Destes momentos o meu novo e mau companheiro brevemente me afastou.
Em vez das brincadeiras antigas agora fazíamos pipas, andávamos a cavalo, tomávamos banho no rio e praticávamos pequenos furtos nos pomares e hortas dos vizinhos. Ele era tão arteiro que breve encontrou o caminho para o sótão e depois para cima do telhado [ A minha avó Lisete Rose Purim confirma esta informação de eles andarem sobre o telhado. Na parte leste do telhado havia uma mansarda que facilitava bastante o acesso ] .
O meu pai nos mandava colher milho na roça. O Celino então aconselhou que procurássemos as espigas sem grão por que eram mais leves de carregar. De fato os cestos ficaram mais leves, mas gastamos tanto tempo e trabalho na procura que teríamos ficado menos cansados se tivéssemos trabalhado direito.

MUDANÇA PARA MÃE LUZIA

O meu pai Carlos Andermann teve muito interesse e começou a ler a literatura dos Pentecostais que o levou a modificar a sua convicção religiosa. Por causa do desvio doutrinário ele foi pressionado para deixar a liderança da Igreja Batista de Rio Novo.
Em Mãe Luzia morava a família dos nossos avós paternos, Ans e Ana Anderman, neste local o meu pai comprou um terreno vizinho, fazendo fronteira com a propriedade do meu avô.
A minha irmã Mely Zelma e eu fomos os primeiros a viajar para juntos dos meus avós. Nós andamos durante dois dias a cavalo por uma estrada muito enlameada.
Nós avançamos heroicamente pela estrada, a viagem transcorreu e nos agradou muito.
Gostamos muito de Mãe Luzia que tinha outro aspecto topográfico por que planície, com montanhas enormes (a Serra do Mar) muito distantes. Os meus avós e os meus tios nos receberam amorosamente e procuravam nos agradar muito. Descobrimos o rio de águas límpidas, mas que tinha muita correnteza que, quando nós tomávamos banho, não nos deixava afastar das margens com medo de sermos arrastados. Esta Mãe Luzia era novidade pra mim, era estranha e prometia muitas descobertas novas. Ela encheu o meu coração e me senti feliz como se fosse um passarinho.
Depois do dia de trabalho e aos domingos o tio Rodolfo tocava num harmônio enorme de fabricação inglesa com técnica de um virtuose, um artista e até executava uma peça chamada “Gloria in Excelsis Deo” de Vivaldi. Estes momentos me agravam tanto que eu pensava: “o céu não será mais acolhedor”. A música me agradava tanto que até esquecia a existência enquanto a escutava.
Passados alguns meses, em 1910, chegou o restante da família, pois como já disse eu e a Mely, fomos os precursores. Agora o meu pai trouxe a mudança. Vieram também os irmãozinhos Teófilo, Celino e as irmãzinhas, assim todos estávamos reunidos, iríamos morar provisoriamente na cada do meu avô. Na mesma viagem, tangido pela estrada, viera também o gado bovino.
Começou o trabalho árduo de desbravar as terras virgens que foram compradas por meu pai pela importância de 600$000 (seiscentos mil reis).

A VIDA EM MÃE LUZIA

Ali a nossa vida na corria com tanta facilidade como a tínhamos imaginado. Tivemos que trabalhar na lavoura desde o amanhecer até o anoitecer, cercar e cuidar do pasto para o rebanho. Os primeiro anos foram muito difíceis para nós.
A moradia em casa estranha também não era fácil. Aconteciam desentendimentos, falta de cordialidade. Diluiu-se também aquela bela esperança religiosa baseada no Pentecostalismo a vida nos levou por um caminho difícil de ser vencido e junto com o corpo cansado sofria o espírito. Papai não tinha resistência física para aguentar o trabalho braçal, além de franzino a sua formação era de intelectual e a minha mãe muito menos todo serviço brutal que fazia ia além de suas forças.
Os trabalhos domésticos eram feitos depois do anoitecer. O pão caseiro de milho era assado durante a noite, como também lavada toda a roupa da família. Nós os filhos também aprendemos a trabalhar com suor nos rostos para arrancar da terra a nossa simples alimentação e conseguir o desenvolvimento físico.
O que mais me perturbava era o Celino que era um menino de sentimentos muito baixos. Ele tinha a habilidade de me desviar par ao caminho do mal. Eu orava muito a Deus e tinha o coraçãozinho bastante iluminado e por isto distinguia o caminho mau, mas ele era como se fosse o próprio satanás que insinuava aquelas idéias e conseguia me influenciar.
As cercas da nossa propriedade eram fracas. O gado do meu avô invadia a nossa lavoura e devorava as plantações cultivadas com tanto esforço. Esta preocupação perturbava muito a minha mãe que diante desta ameaça não conseguia dormir. O fato dos meus avós não conseguirem dominar o seu gado aborreceu a minha mãe a tal ponto que ele resolveu abandonar Mãe Luzia. Numa manhã ela selou o cavalo e partiu para o Rio Novo, deixando o meu coração muito, muito, machucado quando chorei demora e dolorosamente. Lá em Rio Novo ela teve uma inflamação no pé e este acontecimento a conscientizou e, assim depois de algum tempo, ela de surpresa, retornou e diante disto tos nós ficamos muito contentes.

O MEU BATISMO EM 1911

O Pastor João Inkis, vindo da Letônia, visitou as colônias no Brasil. Ele também esteve em Rio Novo e de lá, acompanhado por muitos outros patrícios, a cavalo, também veio para Mãe Luzia. Os sermões dele tinham muita vida, inspiração e força de convicção.
Num domingo de manhã, antes do culto ele falou especialmente para os adolescentes que sentávamos, em fileira,,sobre um banco tosco de madeira. Ele então falou sobre a fé, contou estórias sobre o amor, tomando para ilustrar, exemplos da vida diária e atingidos por estas explicações os nossos corações começaram a derreter. Sentimos remorso da vida que levávamos e o arrependimento dos pecados e fomos profundamente atingidos na nossa alma.
Vários de nós sentiram a alegria da salvação e entre estes estava a minha irmã Lídia e eu. O nosso batismo foi um acontecimento muito bonito; a margem do rio foi roçada e lá se reuniu muita gente. Lembro-me que fiquei temeroso de entrar na água fria; mas depois da imersão, senti uma felicidade tão grande que até então nunca havia sentido antes.
Depois do batismo me esforcei para ser um crente exemplar. Eu orava muito a Deus e comecei a ler sistematicamente o Novo Testamento. O versículo que mais me agradou foi aquele Salmo de Davi: “O SENHOR É O MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ”.
Aqueles eram momentos muito agradáveis em que eu gozava a solidão junto a Deus.

A CASA NOVA

Anteriormente numa colina nas terras de meu pai edificamos uma meia água sob a qual nos abrigávamos das chuvas. Depois construímos uma cabana, onde nós brincávamos e às vezes estudávamos enquanto os nossos pais trabalhavam.
Não me lembro em que ano começamos a pensar na construção da nossa casa nova. A nossa primeira preocupação foi com o telhado e então, sozinho, fui a cavalo para o Rio Novo para convidar o velho Rosa que era um hábil artesão em lascar telhas de madeira. O Jakobson e o professor Germano serravam as tábuas. O meu pai com o machado aparava [Farquejar ou falquejar] a madeira da estrutura, o esqueleto para sustentar as paredes e o teto. Em mutirão vieram mais alguns amigos de Rio Novo junto com o velho Karklis que assumiu o cargo de “mestre de obras”. Então o Levenstein [Löwenstein] se desentendeu com o Karklis e o primeiro largou o trabalho e voltou.
A nova casa nós estávamos edificando num promontório que havia sido desmatado recentemente. Ainda haviam tocos e troncos abatidos. O trabalho progredia acelerado e em breve a estrutura já estava de pé e assim continuou até a colocação da cumeeira. Depois o velho Karklis também foi embora e daí em diante a construção ainda demorou muito para terminar.
Ainda tivemos que construir o celeiro, o estábulo e cavar um poço, mas tudo isto foi conseguido rapidamente. Eu também contribui com todas as minhas forças até o dia feliz, quando finalmente,. Pudemos fazer a nossa mudança. Na nossa imaginação não existia nada mais lindo no mundo do que o nosso novo lar, embora ainda faltasse o assoalho.
Havia mais animação para iniciar uma vida nova, aumentando o pasto, ampliando a extensão das terras plantadas, plantar o laranjal e as nossas forças de adolescentes não correspondiam para vencer todos estes trabalhos, e, assim ainda passaram vários anos até que a nova vida começasse a progredir com certa regularidade.

COM 14 ANOS EM 1916

Neste ano surgiram na minha mente ideias novas e nobres. Daquela época ainda guardo os meus primeiros trabalhos escritos. No meu coração acordou a ambição pelo estudo. Teve início a minha paixão pelo estudo da música e também surgiram em mim sentimentos de patriotismo, pois a Letônia foi o campo de batalha da Guerra de 1914 a 1918. Com muito ardor então me afeiçoei a uma mulher a que chamarei de A e ela me causou muita mágoa. Neste ano a Mely Zelma e eu frequentávamos uma escola em Forquilhinha, mas por causa da grande distância que tínhamos de caminhar, depois de 4 meses de frequência tivemos de abandoná-la. Para lembrança estou guardando um caderno desta época.
Neste ano também encontrei novos amigos; nós aprendíamos a tocar instrumentos e pontualmente tínhamos reuniões de aulas de música. Neste ano também teve início a construção da estrada de rodagem de Criciúma para Mãe Luzia e assim foi facilitada à comunicação com aquela estação férrea. O Silvestre começou a construção de sua venda nas terras do meu avô.

MÚSICA

Lembro-me que já há muito tempo eu desejava estudar música e assim pedi ao meu pai para escrever as notas para mim. Eu iniciei o estudo da escala, mas fiquei admirado como poderiam as pessoas distinguir o valor de cada uma através daqueles pontinhos negros que me pareciam iguais. Não percebi que elas estavam escritas no pentagrama e que a escala subia ou descia de acordo com a sua colocação. Quando iniciei o aprendizado para tocar o harmônio então também aprendi as notas.
Eu também aprendi a tocar violão e violino. O tio Rodolfo construiu um violão para si mesmo e eu não sentia nada mais agradável que tanger as suas cordas. Meu pai comprou um violino e eu iniciei o seu estudo com todo empenho. Tio Rodolfo muitas vezes tocava violino e eu era capaz de acompanha-lo ao violão. Nós frequentemente tocávamos música e estes momentos foram os mais felizes para mim. Foi um passatempo agradável. Nunca pude imaginar qualquer coisa mais bela do que a música e por isto eu adorava ficar na casa do meu avô por que lá se tocava muito o harmônio.

SEGUNDA-FEIRA, 5 DE FEVEREIRO DE 1916

Hoje foi um dia muito quente, não chove há várias semanas. Todos nós levantamos cedo e fomos capinar o canavial. Junto com o meu pai, fomos arar. Era um trabalho difícil por que a terra ainda estava cheia de tocos e raízes, nós arrancamos três tocos. Na hora do almoço toquei violino. Agora é tempo de melancias maduras e nós temos bastante para colher.
7 de FEVEREIRO – Levantamos junto com a alvorada e fomos continuar a arar a terra do meu pai. Logo terminamos e amanhã já poderemos plantar. Depois também chegou Teófilo que trouxe o Julinho. Todos estávamos muito felizes e a minha mãe que trouxe o almoço para comer ali mesmo nos disse que durante toda a existência não iríamos esquecer este momento.

ANO DE 1917

Este ano foi para mim repleto de trabalho estafante.
Nas horas de lazer eu lia muitos livros e me esforcei para escrever. A Geologia me fascinou e eu também com muita volúpia me interessava por outras ciências. Também a música atraiu minha atenção, copiava músicas e tentava criar alguma coisa por mim mesmo, mas toda esta insistência me deixou muito cheio de mim, orgulhoso, quando na realidade eu deveria ter tido vergonha da minha ignorância.

…pois durante o dia temos que trabalhar e durante a noite também…| De Arthur Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

[carta de de Otto Purim (Arthur) sem data, mas pelo contexto deduz-se ter sido escrita neste período]

Querido maninho! Saudações.

A tua pequena cartinha recebi há mais de duas semanas, mas não tinha tempo para responder, pois durante o dia temos que trabalhar e durante a noite também estive ocupado, pois todas semanas várias noites tinha que ir a Igreja para várias atividades e nas outras noites o sono vem forte: Mas tenho que escrever porque devedor eu não quero ficar.

Agora nós estamos passando bem, mas o tempo está muito frio. Hoje deu a primeira geada do ano, não foi das fortes, mas foi uma geada. Há umas duas semanas atrás choveu forte vários dias sem parar, mas agora está limpo, mas bastante frio, mas temos trabalhar todos os dias apesar do grande frio.. Nós esta semana vamos começar a fazer a farinha de mandioca por que já é tempo e se deixar para mais depois é pior e por isso temos que nos apressar. Você não quer vir ajudar? Este ano temos muita mandioca para fazer farinha e calculamos umas 50 sacas e então pode vir sem medo que haverá muito que fazer.

De modo geral vai tudo na mesma coisa e nada interessante tem acontecido e aquela miudeza não vale à pena escrever. No domingo passado foi comemorada a “Festa do Verão” [Festa do Verão (Pentecostes) é uma herança dos costumes da Letônia que fica no Hemisfério Setentrional e lá nesta época é verão] e nas Oitavas desta foi comemorada a Festa da Música da Mocidade. Foi muito bonita. Foram apresentados 30 números entre hinos, músicas e diversas mensagens interessantes. Apresentou-se o Coro da Mocidade, o Coro da Igreja e também solos, duetos, quartetos, quintetos e sextetos e no final da Festa todo grupo de participantes foi fotografado. Hoje chega. Se você tivesse mandado uma carta mais longa,, então, eu escreveria mais. Devemos viver de conformidade com as Escrituras que diz se você quer que eu escreva uma carta longa, escreva você primeiro.

Bem hoje chega mesmo.

Com muitas lembranças.
A. Purim

Aqueles remédios para a Olga já recebemos faz tempo…| De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

Rio Novo 8 de abril

Querido maninho! Saudações!!

Recebi a tua carta escrita em 15 de março no dia 1o. de Abril pela qual agradeço muito. Bem agora não quero me demorar em responder e nem me desculpar como você tem feito. Eu provavelmente tenha também tenha seguir ao seu exemplo e responder as cartas semanas depois. Você diz que não consegue tempo para escrever imaginemos nós aqui. Você não conhece ou já esqueceu de nossa vida atropelada aqui e tudo parece estranho. Também não tenho tempo de escrever, pois serviço tenho em toda parte e tanto que não consigo dar conta. Tenho ir de uma casa para outra e tão exausta que não tenho nenhuma vontade de ir para cá e para lá, tenho até tonteiras e a minha cabeça fica zonza, mas tenho que enfrentar sempre, pois não tem outra pessoa que os façam. E certo que não tenho estes trabalhos de ir fazer visitas e passeios outros.

O tempo agora está quente e chuvoso, chove todo dia, ronca trovoada e pela manhã um sol causticante. No mês passado teve uma seca tão forte que até começou secar os pastos, mas agora chove todo dia.

A festa do Aniversário da Igreja [Dia 20 de março] faz tempo que passou. O dia estava muito quente. A festa foi dirigida pelo Oskar[Oscar Karp ]. O programa foi bastante longo, foram apresentados belos hinos, poesias e mensagens. Também muitas cartas e telegramas de outras Igrejas e outros lugares. Quando terminou a Festa e o povo, ia embora caiu um grande temporal, mas no outro dia já estava tempo bom.
A Páscoa também já passou, desta vez a chuva começou já na quarta-feira e choveu durante todas as Festas. Vieram visitas de Mãe Luzia os da família Klava e a Selma Anderman. Eles saíram com uma carroça com cavalos de lá de Mãe Luzia. Vinha o Zigsmundo [Andermann] e sua esposa e também a mãe dele. Eles tiveram que voltar de Urussanga porquê a estrada estava molhada e tão lamacenta que os cavalos não agüentaram. Então estes Klavas e a Selma Anderman vieram a pé de Urussanga para cá.

A União da Mocidade vai bastante animada, o Alex [Alexandre Klavin] um dirigente muito operoso e muito bom líder. As noites organiza programas de apresentações, dividiu os membros ativos em 4 grupos e cada um deles tem na sua vez ir à frente e fazer os seus programas. Também existem os Estudos Bíblicos e quem dirige é o Alex. Agora estamos estudando a Terceira, parte do “Manual Normal”. Logo o Coro Jovem deverá começar os ensaios para as Oitavas de Pentecostes, pois este dia está reservado para os Jovens. Você também poderia vir e também trazer a sua contribuição em hinos.

Aqueles remédios para a Olga já recebemos faz bastante tempo, por eles muito obrigado. Agora não podemos pagar, mas quando vieres para, ai sim. É uma pena que não serviram. Também não fizemos nenhuma pesquisa maior se bem eu queria ir falar com o médico ou com o farmacêutico, mas a Mamma não quis e disse que era a mesma doença do velho Stroberg e ele ficou bom. Mas só agora quando fomos ao farmacêutico ele disse que não era o mesmo mal que teve o Stroberg. O dele tinha sido causado por uma mosca que têm muitas em Varpa. Ele receitou para a Olga outros remédios e compramos ali mesmo. Ela agora está morando lá em Orleans com os Grïkis e o farmacêutico fará avaliações diárias. Vamos ver se vai adiantar.

Bem agora vou terminar, seria muito bom que você escrevesse cartas tão longas. Agora vou aguardar uma longa e minuciosa carta sua. Escreva sobre sua vida, onde moras e quanto ganhas. Para nos você sabe que pode contar.

Lembranças de todos. Pode ser que a Olga ainda te escreva
Lúcia

O PASTOR KARLOS ANDERMAN. | POR JULIO ANDERMAN, UM DE SEUS FILHOS. 4ª PARTE


O PASTOR KARLOS ANDERMAN
4ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
]
[Digitado por Laurisa Maria Corrêa]

A tia Salit então sugeriu que aqueles que tivessem economias guardadas em casa deviam trazê-las e juntar em um só cofre numa repetição do exemplo de Atos 3:42-47 e aos mais hesitantes citava o exemplo de Barnabé. Foram trazidas latas cheias de moedas de prata de 2 mil reis que todos guardavam pensando serem imunes à inflação devido ao valor do nobre metal. Nesta aventura então entrou um fato novo que era o interesse pecuniário.

Novamente veio uma ordem transmitida por via espiritual para que todos aqueles crentes vendessem as suas propriedades e com as suas famílias se mudassem para a Colônia Varpa em São Paulo. Mas chegando lá se verificou que as condições do clima e do solo não eram apropriadas a uma existência saudável. A terra era muito arenosa dando a impressão que lá já existira o mar. Havia muitos bichos de pé. Faltava água e os lençóis freáticos, quando encontrados, localizavam-se a mais de 20 metros de profundidade tornando a escavação do poço manualmente arriscada pela ameaça do desmoronamento de suas paredes.

Mas nós éramos considerados como peregrinos em busca da terra prometida e que desta vez ainda não a tínhamos encontrado. Novas orações, novas consultas, novas
Outra peregrinação pela Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande para aquele destino.
Em Varpa sofri a maior perda da minha vida, faleceu a minha mãe Emilia. Habituada em Mãe Luzia a uma dieta de leite, legumes e cereais, em Varpa teve de se alimentar de arroz, feijão e carne, ao que não resistiu a sua delicada constituição orgânica, mas antes de fechar os olhos, escrevera cartas para aquelas lideranças espirituais dotadas de dons e que comandavam então os nossos destinos, denunciando aqueles desvios doutrinários designando com uma única palavra “pústulas”. Em conseqüência destas cartas depois dela morta ainda tive de ouvir insinuações de que, por não ter resistido às provações e se desviado daquela doutrina, pairava duvida sobre a salvação da sua alma.

No Rio Grande o nosso destino final foi uma localidade chamada Cascata de Burica que se localizava numa mata virgem próximo do Rio Uruguai. Outra vez fazia-se à derrubada da floresta para a construção das casas e as plantações agrícolas, mas terminados os trabalhos diários, as famílias se reuniam em reuniões de oração na mesma rotina costumeira.

A líder espiritual do grupo continuava a mesma tia Salit. Mas acontece que para o nosso acampamento veio outro par recém-casado e o nome da moça era Zelma Zvagere, uma das imigrantes da Colônia Varpa que se casara com um rapaz de Rio Branco chamado Alexandre. Por ocasião de uma destas reuniões de orações vespertinas, enquanto todos estavam ajoelhados a profetiza teve uma visão e então disse a Zelma: “Eu vi uma parelha de cavalos atrelada ao balancim que o teu marido Alexandre estava segurando e sendo arrastado para longe de ti”.
Sucedia que Alexandre tinha se afastado do grupo por que, embora fosse crente, o seu juízo não aceitava estes exageros, mas ele era meu amigo, pois trocávamos idéias. Assim que terminou esta reunião por acaso encontro o Alexandre e pedindo sigilo contei a visão profética. Logo a seguir chega em casa Zelma toda chorosa e se dirige ao marido: “Então você pretende deixar-me” ao que o outro respondeu: “Quando vierem os cavalos com o balancim”.
Na próxima reunião do dia seguinte ao formarmos o circulo de orações a profetiza aparentando inspiração espiritual disse assim: “Quem foi que contou ao Alexandre aquela revelação de ontem?” “Se o culpado não se manifestar o Espírito vai denunciar”. Ora, só poderia ter sido eu que já tinha fama de tagarela; então pensei, isto já passa da conta, vou me confessar e fingir arrependimento vamos ver se o Espírito vai denunciar a minha falsidade. Confessei-me culpado e choramingando pedi perdão e qual não foi a minha surpresa – fui perdoado.
Depois da reunião falei com o meu pai e lhe contei o acontecido e afirmei que tudo aquilo era mentira e sugeri que ele se afastasse deste grupo, mas ele ficou hesitante por que era o doutrinador Teológico. Estava escrito no Novo Testamento repetidas vezes a respeito da manifestação do Espírito Santo e aquela gente, se depois desta penitencia, desta obediência cega não fosse contemplada então ele não sabia encontrar o erro.

Abandonei aquele lugar pelas picadas através da floresta caminhei 15 quilômetros até Santa Rosa onde encontrei trabalho na chácara do Dr. Frederico Krebser e estava agnóstico.
Mas o que me salvou do desvio do comportamento foram os ensinamentos e a doutrinação que a minha mãe, ela acompanhou o meu pai sem discutir toda esta confusão, mas não se descuidou da minha educação, dando uma interpretação própria de várias citações evangélicas. Uma delas foi a de que “todos pecados seriam perdoados, menos os contra o Espírito Santo”. Ela explicava que a voz do Espírito Santo se manifestava através da consciência, mas tantas vezes o homem insistia no pecado que acabava não sentindo remorso e neste grau a perdição seria irreversível. Para exemplo citava a história de um assassino nos Estados Unidos que fora condenado a execução na cadeira elétrica e quando perguntado por que havia matado um cidadão que viajava na boleia de uma carroça dirigindo uma parelha de cavalos a resposta tinha sido: “Por que eu estava curioso em ver como iria cair o cigarro que estava fumando”.
Também naquele interstício do episódio da Linha Telegráfica e o outro da tia Salit que durou vários anos, freqüentei a Escola Dominical clássica onde aprendi aqueles hinos “Vinde Meninos” e outros, decorei versículos, assimilei as lições das aulas que freqüentava. Até que eu poderia ter me segurado naquela comunidade Batista liderada por Jacob Klava, mas ele feria os meus sentimentos filiais quando na minha frente dizia que meu pai, Carlos Andermann era podre e eu não pude admitir isto por simples respeito a minha origem e por que sabia que ele era um ingênuo pesquisador de uma literal verdade evangélica sem qualquer interpretação Teológica.
Então surge a pergunta; como foi possível que um adolescente de 13 anos ficou fiel a um grupo e excêntricos como aquele? Primeiro fui obediente aos meus pais. Depois quem entra num redemoinho de águas turvas ou idéias não consegue sair sozinho por que sempre é arrastado para o centro. O empenho principal da liderança era doutrinar os fieis para mantê-los unidos como minoria escolhida de Deus e evitar qualquer contágio de idéias de fora denominado “o mundo”. Também o que facilitou este Pentecostalismo obscuro foi o fato de eu ser semi-analfabeto, mas o principal foi o sentimento de obediência aos meus pais.

Certamente todos os meus irmãos o foram até os 13 anos, mas quando caíram na realidade tiveram um choque tão grande motivado por causa do batismo pelo Espírito que levou a este descalabro, que resolveram renunciar toda a doutrina da Salvação. Esqueceram que os Batistas explicavam a trilogia – Deus Pai – Jesus Cristo – Espírito Santo – dando o mesmo peso para cada um completando o outro; Deus determinava, Jesus mediava e o Espírito estabelecia o contato entre a mente humana e a inspiração Divina. Se tivessem pesquisado melhor a Escritura teriam descoberto que os primeiros crentes falaram línguas estranhas, mas que cada um daqueles forasteiros entendiam como sendo o próprio idioma. Então havia relação de causa e efeito, pregar o Evangelho numa língua que os outros entendiam como a sua própria.
Isto já foi dito há mais de 50 anos passados pelo Pastor Inke em Nova Odessa quando ele falou que Seminaristas inspirados pelo Espírito Santo estudavam línguas estrangeiras para trabalho missionário – então foi muito criticado pelos Pentecostalistas.
Mas neste caso também a relação de causa e efeito é a mesma dos primórdios do Cristianismo – falar uma língua estrangeira na qual um povo de fora entendesse a mensagem de Deus.
Já havia participado como voluntário na Revolução Constitucionalista de 1932 defendendo a legalidade, mas este é um capítulo à parte.
A minha irmã Lídia que morava em Nova Odessa pediu ao João Jankovitz que viajou para Ijuí, que me fosse apanhar em Santa Rosa onde eu então era aprendiz de oleiro, favor que ele cumpriu devotamente e por isto eu estou-lhe eternamente agradecido.
Eis-me agora na Fazenda Velha perto da Estação de Nova Odessa em São Paulo, onde estava localizada uma Colônia Leta, muito progressista material e espiritualmente.
Todas as propriedades eram produtivas e respondiam a diligencia dos Letões que eram agricultores natos e ajudavam incansavelmente a natureza que retribuía este esforço com messes generosas.
Estava com 16 anos. Combinei com o meu patrão Arajs para trabalhar a metade do dia durante período de entre safra como empregado na lavoura mediante a retribuição da pensão completa, mas no período de cultivo me comprometi a trabalhar o dia todo mediante remuneração.
No sótão da Igrejinha Batista da Fazenda Velha havia uma sala que foi adaptada para a escola. De Nova Odessa a bicicleta pedalando 8 quilômetros vinha o Prof. Carlos Liepim, que foi bacharel formado pelo Ginásio Batista do Rio de janeiro, para ministrar as aulas. Com a sua ajuda recuperei todo aquele tempo perdido na penumbra do semi-analfabetismo e ele me ensinou tudo que sei, naturalmente aprimorado depois. Não fez por menos, preparou a mim e outros alunos diretamente para o admissão.
Depois ele foi convidado para ser professor de física e química num ginásio de Campinas, indo diariamente de trem para dar aulas, mas embora estivesse com seu tempo tomado, conseguiu uma vaguinha para orientar os meus estudos na sua residência à noite duas vezes por semana, quando eu pedalava a minha bicicleta para ir e voltar, por um caminho de terra iluminado por uma lanterna de carbureto.
Minha base religiosa Evangélica estava abalada. Mantinha uma rigorosa conduta de crente por que agir de outra forma seria burrice, mas intimamente duvidando daquilo que não fosse palpável, no entanto nunca deixei de ver a presença de Deus em todas aquelas maravilhas que ia descobrindo pelo estudo nos rudimentos da ciência, por que em tudo aquilo eu via a presença de Deus e sentia que ao aprender aquelas teorias de Lavoisier, de Pasteur, aquelas definições Newton a respeito da gravidade ele estava sendo lisonjeado.
Fui aceito como membro da Mocidade Batista que era constituída de jovens sadios, decididos, estudiosos e que me tratavam como se eu fosse igual a eles – embora fossem filhos de famílias abastadas.

CONTINUA

…gastar um bom meio dia para ler e contar os inúmeros erros | De Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1923 –

Rio Novo 25 de junho [de 1923]

Querido Irmãozinho!!

Saudações! A tua carta escrita no dia 30-4-23 recebi ontem à noite. Muito obrigado. Esta, porém foi daquelas que demoraram quase dois meses para chegar e também foi aberta e ainda bem que tudo estava dentro. Agora não chega nenhuma carta sem que o pessoal do correio de Orleans não a tenha aberto e lido. Se o encarregado dos correios vai com a cara do destinatário até que ele entrega, senão ele vende para os donos das vendas [casas de comércio] como papel de embrulho.  Aqui na colônia existem pessoas que assinam jornais de maior porte e passam semanas, meses sem que chegue nenhum e às vezes calha que eles vêem o pessoal das Vendas embrulhar café com os jornais com o nome deles e quando interpelados, eles dizem que foi o Alfredo Balod quem vendeu para eles.

Por ai você pode avaliar como a ordem reinante tem descambado na cidade. Os jornais da região têm denunciado até com caricaturas, mas nada tem adiantado porquê o Alfredo é genro do Intendente [Prefeito nomeado pelo governador ou eleito???] e por ai você pode ver que governo nós temos por ai, que tem por única preocupação destes homens é ganhar dinheiro a qualquer custo.

Por isso também os impostos foram aumentados, neste ano pela terra teremos que pagar 16$000 quando no ano passado foi 13$000, o imposto do fogo [Imposto do Fogão] era 5$000 e agora é 12$000 e eu não sei direito, mas há uma conversa que teremos pagar 12$000 pela estrada e ainda outras leis e impostos que ainda não foram efetivados quando serão cobrados pelas vacas, cavalos, carros e carroças. Por isso os colonos estão em guerra com o Governo.

Hoje o tempo está nublado e chuvoso, mas até 4 dias atrás estava limpo e muito frio, a estrada está uma lamaceira só e os atoleiros só não são maiores porque assim já não cabem na estrada. Lá também está chovendo agora?

No Domingo passado à noite foi à noite de apresentações da Mocidade. Faz umas duas semanas que o Auras [Osvaldo Auras] chegou em casa voltando de Ijuy e naquela noite aproveitou para contar as peripécias para chegar de volta a Rio Novo. Foi muito interessante ouvir contar tantas dificuldades que ele teve na viagem. Na ida ele pegou o navio e foi direto a Porto Alegre e daí para frente de trem. A chuva não falhou nenhum destes dias. Na volta também veio de trem. O combóio e todas estações estavam repletas de soldados. Até que enfim chegou até Porto Alegre. Mas o navio já tinha partido há tempo. Queria encontrar alguém que pudesse trazer por terra, mas ninguém queria viajar numa época de revolução. Mais tarde encontrou um judeu que trazia passageiros até Campinas [Araranguá], de automóvel pela beira do mar. No princípio até que a viagem era agradável e vinha bem rápido. Mais adiante encontraram grandes rios quais não eram possível passar, então ele atravessou numa balsa e continuou a viagem numa carroça puxada por cavalos e mais adiante ela também quebrou e daí neste próximo trecho ele veio num carro de bois e depois de carroça puxada por cavalos novamente, chegou a Criciúma. Daí de trem a Orleans via Tubarão chegando feliz em casa trazendo a sua sogra e o cunhado juntos.

Corre a conversa por aqui que o Villis Leimann não deverá vir para cá. –

Bem agora já chega. Agora que eu consegui começar escrever você terá que ter paciência e gastar um bom meio dia para ler e contar os inúmeros erros. Mas seria muito bom que você também escrevesse bastante.

A Olga também deve ter “imprimido” a sua carta de muitas léguas de comprimento e assim você vai ter muito o que ler. Escreva uma longa carta sobre tudo que acontece por ai. Perguntar eu não pergunto mais nada porque não vale a pena, você nunca responde as minhas indagações. Assim sendo continuo a aguardar uma longa carta sua, porquê está na hora de ir para cama.

Eu na realidade não estou com sono, mas as minhas mãos estão geladas e é por isso que a minha caligrafia está tão bonita. Muitas lembranças da Lúcia.

 

Escrito nas laterais.

Se tivessem chegado os jornais e os acordoamentos dos violinos então poderíamos ir tocar na sua grande festa. Mas os violinos estão sem as cordas e a guitarra está empoeirada. Vamos esperar pelo verão quando os dias estarão mais longos então teremos mais tempo para acertar e afinar tudo muito bem. Bem não esqueça de junto com o convite mande junto algum automóvel.——

Você nem pode imaginar como hoje rendeu a minha escrita. Não pense que é só para você que eu tenho que escrever, pois nós temos parentes no mundo inteiro. São 2 as cartas que escrevi hoje como atirar eu atirei e matei dois coelhos com um tiro só, apesar de agora já ter passado da meia noite.

 

 

 

 

 

 

 

…estamos quase todos sãos. | De Lucia e Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923 –

Rodeio do Assucar   8 de junho ( de 1923)

 

Querido irmãozinho!!

 

A tua carta escrita no dia 16 de maio recebi no dia 29. Por ela muito obrigada. Eu já poderia ter respondido mais rápido, mas na semana passada ninguém de nós foi para a cidade e assim eu não escrevi. Você escreve que nenhuma carta de casa tens recebido então é provável que a longa carta que escrevi e mandei no dia 24 de abril tenha se perdido. É uma pena porque era uma carta realmente longa, pois eu escrevi duas folhas cheias e a Olga também escreveu outras 2. Se realmente sumiu estão o prejuízo foi muito grande, pois não descrevemos sobre todos os pastores e outras pessoas que aqui vivem e despachamos outra carta no dia 8 de maio com 3 folhas dentro escritas por mim e pelo Arturs.

 

Agora estamos suficientemente bem e estamos quase todos sãos. Algumas semanas atrás o Paps e o Arthurs ficaram de cama e na semana passada a Olga ficou de cama com influenza, pois agora muita gente está com esta doença e é forte que a pessoa é obrigada ir para cama mesmo e a dor de cabeça é muito forte e muitos vômitos. Em Orleans muitas crianças têm morrido com esta doença. Eu ainda não caí na cama mesmo porquê eu não tenho tempo e sempre tem muito trabalho para ser feito, mas boa mesmo, eu não estou não porquê não tenho vontade de comer e sempre está faltando alguma coisa e ainda os meus pés estão sempre gelados. À noite eu calço dois pares de meias de lã para então poder trabalhar, senão eu fico gelada.

Esta semana o tempo está bom e muito frio, todas as manhãs amanhece branco de geadas. Nos lugares mais baixos as primeiras geadas aconteceram no dia 14 de maio. Nos dias que antecederam choveu muito forte e no dia 13 de maio começou a soprar um forte vento do lado das Serras e no outro dia já estava limpo e frio. Este inverno está sendo muito chuvoso e quando fica um, pouco nublado já começa chover.

A Lucija foi para a roça então eu  vou pegar esta carta e terminar.

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 A “Festa do verão” [Pentecostes] este ano foi tão diferente como acho que nunca houve. Começou a chover na Sexta feira e naquele Sábado o dia inteiro e ainda choveu forte aquele Domingo o dia inteiro e nas Oitavas [2ª feira] estava nublado e a tarde começou a limpar e era neste dia que a Mocidade tinha a Festa da Música ou a festa dos Hinos de Louvor. Nesta Festa não teve muita gente porque as estradas estavam realmente intransitáveis. O programa não foi longo. Quem dirigiu foi o Oskar [Oskar Karp – Pai do João Karp casado com a Ruth Karkle, da Marta casada com Oswaldo Paegle e de um outro filho dele que mora em São João da Boa Vista em S.P. que não lembro o nome.].

 Porquê o atual dirigente da mocidade não pôde participar de sua organização. Na festa da Ascensão do Senhor houve uma festa para as crianças, [Salmu Swehtki – Falta traduzir] e quem os dirigiu foi o Seeberg, àquele dia sim, o tempo estava bom.

Aqueles remédios que você pediu nós vamos mandar na próxima vez, apesar de nos termos bastante, o problema é que com este tempo não é possível secar o suficiente e o tempo agora está que não seca nada.[Anzerina]. Quando nós as mandarmos também vamos escrever o modo de preparar. Dizem que no alto das Serras esta planta viceja sem qualquer plantação ou cuidado.

Tens encontrado o Fredy Stekert? A Aldona Balod [Alda Balod mais tarde casou com o meu tio Otávio Fernandes] faz bastante tempo que já foi para o Rio de Janeiro e ela está morando com a Erna Grünfeldt. A Aldona escreveu para Natalim [Não foi possível identificar este personagem] que ela é a Erna de vez em quando encontra os jovens letos do Seminário. Aqui corre um boato que a esposa do Fredy fugiu. Quando o encontrares, pergunte se realmente era esposa dele. A Selminha [Selma Klavin] quando esteve aqui contou maldosamente que a grande maioria dos rapazes que estão fazendo o Seminário aproveitando os estudos mais em conta e depois casam e vão plantar batatas. Parece que só ela não conseguiu capturar nenhum deles. Ela diz que sempre eles dizem que tem muito trabalho, mas só na Primeira Igreja do Rio ficam sentados 10 a 12 pastores que não fazem nada em lugar nenhum, alguns tem alguma vontade e ainda saem para pregar, mas não são grande coisa.

A Lúcia está muito preocupada porque você não mandou a fotografia sua tirada na apresentação do seu Coro. É para mandar como lembrança do dia do nome dela, [O dia do nome para os letos é tão importante como o Aniversário da pessoa. Ex.João dia 24 de junho] ela promete que em troca vai escrever para o teu pessoal denunciando o dia teu aniversário. Ai não vai adiantar nem tomar remédio nem usar emplastros.

Você pede que nós escrevamos longas cartas descrevendo tudo minuciosamente, [Sikhi un smalki – Sikhi seria minuciosamente, tim tim por tim tim e Smalki seria modo mais elaborado – Não estou satisfeito com a tradução.], mas onde nos vamos buscar todas estas notícias e porquê mesmo os nossos dedos são grosseiros de tanto trabalho, então te contenta com a nossa letra e o nosso modo rude de escrever.

Lembranças de todos de casa. Olga

 

[PS. Esta carta foi começada pela Lúcia e terminada pela Olga]

Não foi sucesso por causa de um imenso temporal. | De Olga Purim para Reinaldo Purim – 1922

Rio Novo 7 de novembro de 1922

Caro Reini: Saudações!

Recebi a tua carta escrita no dia 19 de outubro no Domingo passando. Obrigado! Mas parece que ficou muito prosa com os teus trabalhos tão importantes.

Que tanto você vai a igreja todas as noites. Isto pode ser até demais. Não tem outras pessoas para ajudar fazer o trabalho. Ter que falar todas as noites e ainda se preparar para falar isto sem nenhum descanso.

Onde está o heróico Jahnis Klava? Sabe-se aqui que ele é merecedor de todas honras possíveis e já teria terminado a Escola Militar e feito ainda outras proezas.

Obrigado pelo convite para a festa, mas quando as festas são realizadas em Salões eu não acho vantagem. Outras por que, as festas, são sempre as noites? À noite nós sempre estamos com sono. Resumindo, não vai dar desta vez de ir; quem sabe na próxima.

Também você não veio na Festa da Mocidade no mês passado. Eles tinham aprontado tudo para ser uma boa festa e você nem assim não veio. Foi uma festa muito boa. O tempo estava muito bom e quem dirigiu foi o Emilio [Anderman]. Mensageiros de outras igrejas não vieram, mas muitas cartas e telegramas. Não vou escrever sobre a festa, pois os outros escrevedores vão escrever como tudo transcorreu.

Somente vou contar que a União das Jovens e dos Jovens foram reunidas em uma só, ficando como União de Mocidade da Igreja. Isto ocorreu no dia 8 de outubro. Os argumentos são que em outras localidades assim já funcionam melhor. Também estão prometendo reuniões semanais com outros temas facilitando os jovens a se desenvolverem etc. Vamos ver como vai ficar.

O Deter esteve aqui, mas somente um culto de Domingo à noite. Não foi aquele sucesso por causa de um imenso temporal. Logo em seguida ele foi a Tubarão onde foram grandes os cultos realizados. Até o Coro daqui da Igreja foi até lá para cantar.

Hoje a minha carta não está rendendo por causa do sono. Se você souber algum remédio para o sono… então, pode mandar. Ai eu escrevo mais. Este ano tudo, mundo anda bastante sonolento. Também os outros estão escrevendo então você terá bastante o que ler. –

Logo as tuas aulas vão terminar e ai você poderá viajar para casa, descansar bastante, engordar, pois na foto que você mandou ano passado estás magro demais e é possível que este ano estejas mais magro ainda.

Como é que os outros americanos tiram férias e vão para América então você muito bem pode vir passar as férias em casa. Ainda temos muitas laranjas e os pêssegos estão começando a madurar. Você vai gostar.

Para os nossos parentes na Letônia você mesmo poderá escrever. O endereço deles é: Europa Latvia Estação de Latgale Correio de Korjowka Kokorewa Mahlu kalnu majas Andrejis Purens [Mahlu kalnu mahjas traduzido é: Casas ou moradias da colina do barro]. Este endereço tão longo quanto uma légua você pode escrever em leito.[ O endereço está na ordem inversa] Como você já é professor vai ser fácil para entender.

Com saudações. Olga. –

(NT – Esta sonolência dela é sintoma de alguma moléstia)