Origens da colônia: O início no sul do Brasil

O INÍCIO NO SUL DO BRASIL

Devido a impossibilidade de se conseguir um pedaço de terra para o cultivo próprio, e ao processo de russificação ocorrido no final do século XIX, muitos lavradores da Letônia imigraram para o interior da Rússia, e até mesmo a gelada Sibéria, em busca de uma gleba para cultivar. Outros, do interior, deixaram as lavouras e mudaram para a capital, Riga, onde buscavam trabalho nas fábricas. Estes também enfrentaram muitas dificuldades até acostumarem-se ao tipo de trabalho e ao ar poluído.Seu sonho era transferir dois milhões de letos para o Brasil.

No ano de 1888 dois jovens, o pastor Karlis Balodis e o filósofo Peteris Salits, já pensando em planos de colonização e imigração, vieram ao Brasil – mais precisamente à cidade de Desterro, capital do Estado de Santa Catarina, mais tarde chamada de Florianopólis, – com a finalidade de conhecer este país, conhecido como “terras quentes”. Tendo retornado a Letônia, abriram em Riga um “bureau” a fim de incrementar a imigração em larga escala e tendo por meta a transferência de dois milhões de letos para o Brasil.

Em abril de 1890 vinte e cinco famílias deixaram o porto de Riga, conforme descreveu o pastor Janis Inkis em Varpa, no ano de 1947:

«O convés do navio está repleto de cidadãos muito bem vestidos, com suas famílias, e vejo também crianças. O navio tem por destino inicial o porto de Lübeck, na Alemanha, e de lá continuará a sua viagem para o Brasil. O ambiente é alegre e otimista. Durante a despedida os homens bebem ao sucesso da viagem e do empreendimento, e as garrafas vazias são jogadas no rio Daugava.»

O pastor Janis Inkis, naquela época ainda jovem, perguntava em seu coração: “que bênçãos poderão aguardar na nova terra?” (ver Kristiga Draugs de 1992, números 1 e 2).«As garrafas vazias são jogadas no rio Daugava.»

Neste grupo havia alguns batistas: Janis Arums, sua esposa, seu filho adotivo Adolfo, e a senhora Katrini Bitait. Ao todo, quatro batistas.

Logo após a chegada no Brasil, apesar da colônia Rio Novo não ficar tão longe da estação ferroviária em Orleans, surgiram os problemas: desinformação, reclamações e arrependimento. Janis Arums, no entanto, aprovou a colônia, e já no começo organizava e dirigia os cultos.

Aqueles que retornaram para a Letônia levaram muitas informações desairosas e prejudiciais sobre a terra, que foram publicadas no jornal Baltijas Vestnesis (O Mensageiro do Báltico). Porém a opinião de Janis Arums era outra, e através de cartas ele mostrava situação muito diversa aos batistas de Riga.

Mais uma vez o pastor Janis Inkis foi testemunha ocular da saída do novo grupo de imigrantes, cuja maioria era, ou melhor, consistia de quase a totalidade da Igreja Batista de Daugavagrivas (Foz do Rio Daugava) – inclusive o coro e seu dirigente, que com batuta na mão perguntava aos seus cantores: “Quem quer conosco ir a Sião?” Deus tinha desejado formar bases para a imigração de batistas letos ao Brasil.

A Igreja Batista Leta de Rio Novo foi organizada em 20 de março de 1892, com 75 membros. Foi a primeira Igreja Batista de Santa Catarina e do sul do Brasil.

Quando das visitas do pastor Janis Inkis à colônia de imigrantes letos em Nowgorod, na Rússia, ele hospedava-se na casa de seu pai pastor Jekabs Inkis, que era o líder daquela Igreja, e aproveitava para contar do grande movimento de imigração para o Brasil. Isso gerou muito interesse, e organizaram-se outros grupos de imigrantes para o sul do Brasil. A Colônia do Rio Novo mostrou-se muito pequena para tantos que chegavam, e os novos imigrantes, originários de Kurzeme, estabeleceram-se às margens do rio Oratório. Porém a terra, que era muito pedregosa, oferecia obstáculos para as culturas. Depois de contatar pessoas do vizinho estado do Rio Grande do Sul, da Colônia de Ijuí, este grupo transferiu-se para lá.

Os primeiros professores do Rio novo foram Wilis Butlers, pai da Dra. Helen Butler, e Alexandre Klavim, progenitor do falecido Dr. Alexandre Klavim e da professora Selma Klavim.

Os primeiros obreiros, que em 1903 foram estudar com o pastor Karl Roth, em lingua alemã, no seminário em Porto Alegre, foram Alexandre Klavim, Janis Nettembergs, Fritzis Leimanis e Richard Inkis – sendo que este último se tornaria mais tarde um expoente do ensino no Seminário Ba­tista do Sul do Brasil, no Rio de Janeiro. Mais tarde foram também a Porto Alegre Vilis Leimanis, Peteris Salits e outros.

O trabalho batista cresceu e alcançou Oratório, Ijuí, Mãe Luzia, Alto Guarani, Massaranduba, Rio Branco, Terra de Zimermann, Bruendertall, Linha Telegráfica e, por que não, a Primeira Igreja de Nova Odessa. Em 1934 chegou a Urubici. O crescimento do trabalho foi igual ao de um carvalho: lento, mas poderoso.

Destes trabalhos surgiram novos obreiros, talvez mais de 130. Nomes como Keidans, Inkis, Klava, Leimanis, Liberts, Andermanis, Saetz, Purins, Peterlevitz, Butlers, Araiums, Paegle, Frischembruders, Seebergs, Leepkalns, Strautmanis, e Strobergs são por demais conhecidos. Esses obreiros alcançaram o Brasil, Argentina, Estados Unidos e Canadá.

Em 22 e 23 de março de 1992 a Convenção Batista Catarinense organizou, no Acampamento Batista Catarinense, a primeira parte da comemoração do Jubileu do Centenário da Organização da Igreja Batista do Rio Novo e, conseqüentemente, do trabalho Batista Leto no Brasil. Para esta comemoração vieram caravanas de diversos pontos do país. A semente tinha caído em boa terra.

* * *

Coligido e apresentado pelo pastor Ilgonis Janait por ocasião do Jubileu do Centenário em Varpa, no dia 11 de Julho de 1992.
Traduzido da revista Kristiga Draugs Nº 4 de 1992, por V. A. Purim)

Breve Histórico dos Batistas da Letônia

Preâmbulo: as diferenças entre as religiões na Colônia Rio Novo

Nós que nascemos e vivemos boa parte de nossa vida nessa localidade percebíamos o impacto da falta de conhecimento por parte da maioria católica.

Essa falta de conhecimento não pode ser debitada somente à própria religião da maioria, mas também pela falta de comunicação eficiente por parte dos letos, na maioria seguidora da religião batista, mais centrada nas Escrituras Sagradas. Os batistas sabiam de suas origens, mas parece que pouco fizeram para esclarecer que não eram “russos”, apesar de que quando emigraram para o Brasil a Letônia era de fato uma província russa.

Ali no Rio Novo nossa igreja era chamada em tom pelorativo de “Igreja dos Russos” por essa gente que não tinha o um mínimo de conhecimento da História. Houve pessoas e até mesmo lideres do lado dominante católico que associavam a Igreja Batista Leta de Rio Novo ao regime comunista instalado na Rússia, o que não passava de uma total inverdade.

Portanto, estamos agora colocando no nosso blog um artigo que conta como a Igreja Batista conseguiu espaço entre o povo da Letônia, mesmo enfrentando a pressão da Religião Oficial, que na época que era a Igreja Luterana.

Apesar de tarde, não podemos deixar em branco.

V. A. Purim

 

BREVE HISTÓRICO DOS BATISTAS DA LETÔNIA [1992]

Coligido e apresentado pelo pastor Ilgonis Janaits no dia 11 de julho de 1992 em Varpa, por ocasião dos festejos do Jubileu do Centenário da organização do Trabalho Batista Leto no Brasil. Publicado na Revista “Kristiga Draugs” (O Amigo Cristão) número 03 de 1992. Traduzido por V. A. Purim.

(Fontes históricas do autor: Janis Riss, Adolfs Klaupics, Osvald Ronis, Andrejs Ceruks, Janis Inkis, Arvids Eichmanis, Janis Eisans, Karlis Grubers, Yolanda Krievin e outros)

A Letônia, os letos e suas crenças

A Letônia é um pequeno país situado entre a Estônia e a Lituânia, com uma área aproximada de 66 mil quilômetros quadrados. O clima é temperado frio e a temperatura média anual fica entre 6 e 11 graus centígrados positivos. A população atual é de cerca de três milhões de habitantes. Suas raízes históricas são encontradas na Idade da Pedra, isto é, mais ou menos 2 mil anos antes de Cristo, e pertencem ao tronco Indo-Europeu.

O termo “leto” ou “letoniano” vem de lett, que significa cavar a terra ou arar, deduzindo-se assim ser agricultor. Até o nome da moeda no passado era, e agora novamente se chama, latt. A língua leta é mais antiga que o latim ou o grego e suas bases não são encontradas nas línguas germânicas ou eslavas, mas sim no sânscrito.

Durante sua história o povo leto foi dominado por alemães, poloneses e russos.

A religião dos antigos letos era o panteísmo naturalista. Era mais crença e tradição do que propriamente adoração. Não tinham nenhum ídolo fabricado pela mão humana nem sacrifício de sangue. Viam nas forças da natureza algum mais forte poder. A mais alta divindade era o “Velho” Pai dos Céus, poderoso sobre todas as coisas e doador da vida, que sempre tinha um bom conselho, que ajudava o agricultor nas suas dificuldades e não se esquecia das viúvas e dos órfãos. Esta entidade era cantada em verso e prosa na figura de um homem curtido pela vida que estava em toda parte e em derredor, ora a pé, ora montado em seu cavalo branco ou ainda arando a terra…

Criam também estes na “Laima” que pode ser traduzida por felicidade ou sorte, e que trazia alegria e felicidade. Os seus deuses os antigos letos veneravam em plena natureza; algumas árvores tinham um caráter sagrado (o carvalho e a liepa [bétula: tília cordata]) e, segundo o historiador Janis Riss, a última destas teria sido derrubada em 1875.

As primeiras tentativas de levar o cristianismo ao povo leto foram feitas sob a ameaça da espada. Quando o monge católico alemão Meihard chegou à Letônia, obrigou os primeiros letos ao batismo pela força. Depois dele veio o Bispo Bertholds, com a bênção do Papa e um exército de legionários cruzados pagos pelos príncipes e pelo Papa, para obrigarem os letos se tornarem cristãos à força.

Na batalha contra os lívios, perto de Riga, o Bispo Bertholds foi morto, o que acentuou a ira dos cruzados, que passaram a obrigar com ainda maior zelo o povo a aceitar o batismo. Porém, uma vez que os cruzados foram embora, os letos foram “lavar” o batismo nas águas do rio Daugava. O período do catolicismo durou aproximadamente 300 anos, durante os quais os letos aos poucos foram perdendo as suas crenças e sua terra.

Com a chegada da Reforma de Lutero, pouca coisa mudou; as mudanças são mais evidentes na área política e econômica. Na área religiosa pouca coisa mudou: o que estava escrito nos livros de uma igreja foi copiado pela outra.

De 1562 até 1795 a igreja é luterana, mas sob domínio da católica Polônia. Em 1689 os letos ganham a Bíblia Sagrada em sua própria língua, traduzida por Ernesto Glück.

Durante o século XVIII, ainda que pudessem ser encontrados letos que nunca iam a igreja, zombavam do cristianismo e ainda cultivavam as crenças de seus antepassados, já podia ser considerada completa a “cristianização” da Letônia.

Sob o domínio da Rússia, os grandes proprietários de terras foram os barões alemães. Os letos tornaram-se uma categoria de “servos” — mais para escravos, pois os barões tinham poder sobre seu corpo e alma, podendo sobrecarregá-los de taxas, obrigações e muito mais. No âmbito pessoal, chegava-se ao cúmulo de que a primeira noite da noiva leta pertencia ao barão alemão; em outro caso, o barão podia obrigar o rapaz leto a casar com a empregada leta que o barão tinha engravidado.

O barão e o pastor estavam sempre de mãos dadas: do púlpito o pastor ensina obedecer o barão. Pouca era a influência do pastor leto. A principal recomendação dos opressores é: “Esqueça que em suas veias corre sangue leto. Esqueça seu povo, seus irmãos, comporte-se como estivesse entre estranhos e não como entre os seus amigos e em sua pátria”. E a recomendação em relação à igreja: “Esqueça que este é teu conterrâneo, não pense que ele veio à igreja para cultivar algum sentimento nacionalista, mas con­sidere-o um estranho que tem uma alma pela qual deves zelar. Teme-o e honre-o como a cada um de nós” (A. Klaupics-“Dzivibas Cels”/O Caminho da Vida).

As principais conquistas da época foram a Bíblia Sagrada em língua leta e a música coral, ainda até hoje muito em evidência.

Em 1729 vieram da Alemanha um grupo denominado “Congregação dos Irmãos” ou “Irmãos Morávios”, movimento pietista que pregava o arrependimento, a mudança de vida e o abandono das crendices familiares tão ao gosto do povo. Seus locais de encontro, também chamadas “Despensas de encontros”, chegam a ser mais de 140, e alcançam mais de 30 mil seguidores. Porém, já em 1743 todo este trabalho foi terminantemente proibido.

Desta época ficaram de muito importante o conjunto de hinos sacros (Garigas Dziesmas) ou “Hinos Espirituais”, sobressaindo-se os de autoria de Loskiel, que são cantados até o dia de hoje.

Os começos dos batistas na Letônia

Para muitos é completamente desconhecido como se deu o início do trabalho batista na Letônia, se bem que somos os seus descendentes. Por isso quero dar a conhecer.

Durante o século XIX foi dada muita importância para a abertura e o desenvolvimento de escolas nas propriedades dos barões. Em 1841 o Barão de Drächenfell fundou uma escola em sua propriedade e, para dirigi-la, convidou um professor chamado Hamburgers, que era pessoa muito culta e religiosa. Devido às distâncias entre a sede da escola e do local onde os alunos moravam, os mesmos compareciam à escola às segundas-feiras com o farnel, isto é, com a comida para a semana inteira, e retornavam para suas casas somente ao fim da semana.

O professor Hamburgers tinha por hábito, antes de dispensar as crianças no final dos períodos, ler textos das Sagradas Escrituras e orar de joelhos pelos alunos e pela escola. Nas segundas-feiras ele conversava com os pais das crianças. Assim, um e outro deixava da bebida e deixava de trabalhar aos domingos. Mais tarde o Barão dispensou este professor.

O movimento espiritual iniciado pelo professor Hamburgers foi continuado pelo seu ex- aluno, Ernests Eglites. Os interessados pela melhora de sua vida espiritual reuniam-se aos domingos. Liam a Bíblia, oravam e conversavam entre si sobre o melhor modo de livrarem-se de seus erros e pecados. A estes encontros comparecia Adams Gertners, que mais tarde seria o primeiro pastor batista leto.

Adams Gertners foi visitar o pastor luterano Grött e pedir esclarecimentos porque a igreja nem sempre seguia as Escrituras Sagradas, principalmente em relação ao pecado (Mateus 18:5). Então o pastor Grött, que até aquele momento tinha elogiado Adams Gertners, no domingo seguinte advertiu a igreja contra o “falso profeta” — chegando a dizer que o mesmo tinha perdido o juízo.

Em 1855 moravam na cidade de Liepaja [no sudoeste da Letônia] nove batistas, todos alemães, membros da Igreja Batista de Memmel, que naquela época pertencia à Prússia Oriental [Lituânia]. O pastor Nímecs, dessa igreja, visitava regularmente estes irmãos alemães na Letônia, até que o número deles chegou a 14. Entre eles havia um chamado Brandmanis, que na vida profissional era fabricante de cordas.

Durante esse período, ainda não conformado com a resposta do pastor Grött, Adams Gertners foi à procura de outros pastores [luteranos], os quais nada puderam ajudar na sua busca de respostas para a sua vida espiritual. Adams resolveu então passar os domingos lendo a Bíblia e orando. Aos poucos foram se chegando curiosos para conhecer o “falso profeta.” Esses encontros foram se transformando em conversas sobre assuntos espirituais e terminando em cultos.

Um dia Adams foi ao culto dos batistas alemães, onde foi recebido por Brandmanis e por Grobins. Após o trabalho da noite, uma conversa que durou até o amanhecer. Depois desta ficou claro o que ele devia fazer. Retornou para partilhar do culto com os irmãos alemães, agora acompanhado com Dravnieks e Jankovskis. Este foi o primeiro culto batista na Letônia do qual os irmãos letos participaram, mesmo ainda não sendo batistas.

Um dia Brandmanis, do grupo dos alemães, foi convidado a visitar a localidade de Uzav, onde moravam aqueles letos interessados, e ficou várias semanas. Durante o dia trabalhava na sua profissão, confeccionando cordas, e a noite realizava estudos e cultos. Convencidos na fé, os letos demonstraram vivo desejo de serem biblicamente batizados por imersão, e para tanto solicitaram que Brandmanis assim o fizesse. Brandmanis esclareceu que para tanto a pessoa teria que ter a plena autorização da igreja em Memmel-Klapeida, pois não havia nenhuma outra no Báltico. Começaram as correspondências e em seguida o convite para viajar à Prússia Oriental.

No outono de 1860 mais ou menos 10 homens de Uzav e de Zirah saíram em viagem. Primeiramente haviam pensado em conseguir autorização para a viagem em Ventspils, já que as localidades onde moravam faziam parte de sua jurisdição. Lá foram grosseiramente atendidos e a permissão para viagem negada, por não haver motivo convincente para irem ao estrangeiro. Chegaram a ameaçá-los com açoites.

Assim mesmo, em agosto desse mesmo ano saíram de Uzav com destino a Memmel: Janis Dravnieks, Andrejs Jankovskis, Krists Berzins, Jekabs Jeka, Andreis Kezis e Kaspars Zirnieks. Em Labrag juntaram-se a eles Adams Gertners e Anna Gertner. Em Liepaja aguardavam os viajantes o amigo Brandmanis e outros membros da Igreja de Memmel residentes nesta cidade. Ao grupo juntaram-se batistas alemães, entre os quais três candidatos ao batismo: Johanns Jansons e duas irmãs: Marija e Karoline Kronberg. Brandmanis era o guia.

Na fronteira os alemães não tiveram nenhum problema — os letos sim. Quem resolveu foi o escrivão da Fazenda Perkons: cada leto pagou a importância de 50 kapeiks (15 para a Fazenda e 35 para o bolso dele), e as licenças foram expedidas em nome de pessoas da localidade. Os viajantes chegaram a Memmel num sábado à tarde. Naquela mesma noite foi convocada uma sessão da igreja. Os letos, através de intérprete, foram aceitos como membros da igreja.

Em 2 de setembro de 1860, domingo, foram realizados os primeiros batismos de letos batistas, e quem os realizou foi o co-pastor Albretchs. Após duas semanas, quando voltaram para suas casas, começaram os interrogatórios e a firme proibição de não voltarem a Memmel. Os primeiros a serem presos devido à realização de cultos e à nova fé foram Adams Gertners e Marija Krombergs. Assim mesmo as viagens para Memmel continuaram às escondidas, agora por via marítima. Para aqueles viajantes: julgamentos, prisões, castigos corporais e expulsão de casa. Diante de tantas dificuldades para viajar, a igreja em Memmel resolveu ordenar Adams Gertners ao santo ministério da Palavra, como pastor para a Província leta de Kurzeme.

Os primeiros batismos realizados na Letônia foram à noite, isto é, à uma hora da manhã da noite de 9 para 10 de setembro, no rio que corta Zirah. Adams Gertners, postado à margem, pregou um curto mas eloqüente sermão, após o qual foi cantado um hino do hinário luterano. Depois de uma oração de Adams ele mesmo desceu à água e batizou 72 pessoas. Logo em seguida, ainda na beira do rio, foi celebrado o memorial da Ceia do Senhor. Naquele mesmo ano, em 14 de outubro, foram realizados novos batismos, agora no Lago Klapar.

Adams Gertners – Nascido nos arredores de Kuldiga a 24 de junho de 1829. Após sua conversão e ordenação ao santo ministério da Palavra passou muito tempo preso. Faleceu a 23 de agosto de 1876 na localidade de Velda. Desde que foi proibida a vinda do pastor Nímecs de Memmel para visitar os crentes residentes na Letônia, o pastor Adams foi designado como líder e planejador do trabalho.

O historiador Janis Riss, diretor do Seminário da Associação das Igrejas Batistas Letas transcreve no seu livro “Latviesu Baptistu Drauzu Ieselsanas un vinu talaku atistiba” (O início das Igrejas Batistas Letas e seu desenvolvimento) trechos de duas atas de sessões das igrejas em Kurseme, sendo o primeiro de 24 de maio de 1870 (“Iniciando, o Bispo Adams Gertners da Igreja Batista de Kur­zeme…”) e o segundo em novembro de 1870 “Resoluções da Igreja Batista no dia 15 de novembro de 1870. Nesta sessão o Bispo A. Gertners, das igrejas batistas de Kurseme, Venstpilis e arredores, cumpre suas funções no dia determinado, orientando esta grande conferência, da qual participaram muitos dirigentes, auxiliares, bispos e escrivães… ” (Do Livro de Atas e Resoluções da Igreja de Zirah ).

Outro historia­dor que descreve e comprova as atividades do Bispo Adams é Adolfs Klaupiks, obreiro da Aliança Batista Mundial, em seu livro “Dzivibas Cels”: “Nas Igrejas era muito respeitado, e em todas atas das sessões das igrejas da época é mencionado como Bispo da Igreja de Kurzeme”.

Esses foram os começos. Veio a Primeira Guerra Mundial. Depois da Guerra nos anos 20 deu-se a grande imigração para o Brasil, quando os Batistas da Letônia perderam para o Brasil muitos membros de igreja, dirigentes e os melhores pastores. O trabalho na Letônia ressentiu. Veio a Segunda Guerra Mundial e, em seguida, o regime comunista com forte pressão, tentando durante 50 anos por todos meios e forças suprimir toda e qualquer demonstração de fé ou as igrejas…

No final de 1991 havia na Letônia 63 igrejas batistas, com 4669 membros ativos; 37 coros onde cantam 868 coristas; 37 Escolas Bíblicas Dominicais onde estavam matriculados 2026 alunos, orientados por 159 professores. Grupos de jovens eram 22, com 373 participantes.

A Deus toda glória pelos começos na Letônia!

Origens da colônia: João Arums

HISTÓRIA DE UM PIONEIRO

No ano de 1889 foram publicadas no diário letão Baltijas Vestnesis [Mensageiro do Báltico] as primeiras referências sobre o Brasil, terra anteriormente totalmente desconhecida aos letos.

Alguma coisa havia sido relatada antes disso por marinheiros que transportavam em veleiros, ao porto de Santos, o conhecido e apreciado ‘’Pinho de Riga’’. Suas lembranças do Brasil não eram nada favoráveis, dadas as condições de trabalho no porto: durante o ano todo um calor insuportável, as montanhas ao fundo impedindo os ventos, dias a fio suando por todos os poros, carregando montanhas de madeira para fora do veleiro. Naquele tempo ainda ameaçava a febre amarela, que não havia sido combatida. As poças de água estavam em toda a parte; nas proximidades plantações de bananeiras estendiam-se por toda parte, espalhando sua cor verde pela redondeza. Era essa a imagem que os marinheiros transmitiam. Os navios da Letônia que descarregaram o ‘’Pinho de Riga’’ no porto do Rio Grande [do Sul], onde o clima era mais ameno, tiveram deste porto imagem bem mais favorável.

As impressões dos marinheiros sobre o Brasil não tiveram muita repercussão, tendo permanecido entre suas estreitas relações familiares. Não encontramos registros de que algum leto tivesse estado ou residido no Brasil, ou escrito alguma coisa sobre esta terra, anterior ao testemunho do pastor J. Balod e de Pedro Zalit. As primeiras referências, como já dissemos, ocorreram no Baltijas Vestnesis, de hábil autoria dos dois citados personagens, que lançavam aos lavradores a idéia de fundarem colônias agrícolas em condições melhores do que as estabelecidas em Novogorod, Simbriska, Ufa e na Sibéria – todas na Rússia. As agruras desses agricultores J. Balodis conhecia, tendo sido pastor luterano durante muito tempo na longínqua Sibéria.J. Balod e de Pedro Zalit lançaram a idéia de colônias agrícolas em condições melhores do que as estabelecidas na Rússia.

Naquela época havia entre os letos um grande sonho pelo que chamavam de ‘’meu cantinho, meu pedacinho de terra’’, não importava onde fosse. Os autores, ambos de cultura esmerada, um teólogo, outro filósofo, ainda em sua juventude e por natureza idealistas e otimistas, divulgavam suas amplas esperanças de conduzir seus patrícios às ‘’terras quentes’’. Eram parâmetros ideais as grandes colônias alemãs em Joinvile e Blumenau: suas escolas, comércio e liberdade políticas na província de Santa Catarina, de clima ameno e terras férteis.

Balod e Zalit contataram as melhores condições de imigração junto às autoridades de imigração e a empresa de colonização Grão Pará com sede na capital, Rio de Janeiro. A Grão Pará franqueou aos colonos europeus uma enorme área de terras com mata ainda intocada na comarca de Tubarão, que se estende de não distante do oceano Atlântico até a cordilheira da Serra do Mar. O acordo oferecia terras baratas, pagamento em longo prazo, passagens gratuitas desde Lisboa até a nova morada e sustento durante o primeiro ano, a ser pago com a produção das lavouras.

Os primeiros a aceitarem essas propostas foram operários da indústria cimenteira de Riga. Eram em sua maioria trabalhadores rurais que haviam deixado a agricultura por falta de condições de subsistência. Procurando trabalho, muitos haviam se juntado às indústrias de madeira e de cimento.

A terra das palmeiras
Nas industria de cimento o trabalho o trabalho era insalubre e o ambiente poluído: só poeira e fumaça. O combustível utilizado produzia mau cheiro, e a fumaça expelida pélas chaminés, levada pelo vento, poluía toda a redondeza, prejudicando continuamente a saúde da população. Os homens lembravam sua mocidade no interior, ao ar livre, e desejavam voltar a suas origens: tornarem-se outra vez agricultores, viver em suas propriedades e em suas casas. Em sua terra natal isso não era mais possível.

Entre esses operários interessados na imigração estava também o nosso irmão batista João Arums, pessoa sincera, de postura e linguagem elegantes e educadas, otimista ao extremo, líder respeitado entre seus companheiros. Podemos concluir que tenha sido graças à sua liderança junto aos operários da fábrica de cimento que durante o período de inverno um grupo organizou-se para, na primavera de 1890, quando o degelo do rio Daugava permitisse, embarcar para a cidade de Lübeck (na Alemanha) e depois Lisboa, e de lá para o Brasil.

Havia também interessados entre os batistas de Riga, que não puderam acompanhar este primeiro grupo. Porém na primavera seguinte também eles deixaram as costas de Riga rumo ao Brasil.

Enquanto esse outro grupo se preparava para o longo curso começaram a circular notícias desagradáveis. Os jovens colonos [recém-chegados ao Brasil] estavam inquietos, sentiam-se desapontados. As mulheres, nascidas na cidade, choravam pelo futuro de seus filhos. Parte dos colonos, com mais recursos, foram para os Estados Unidos, que ultimamente conquistou a fama de país de mais futuro.

Nosso Arums, no entanto, tem outras perspectivas. Ele estima a ‘’terra das palmeiras’’ com sua imensidão territorial, suas leis liberais, o romantismo da mata virgem. Comunica-se por carta com seus irmãos de fé em Riga, dizendo que não aceitem os lamentos dos descontentes: esses não confiam em Deus, não têm paciência nas agruras da vida, não possuem clara visão do futuro, sentem falta dos prazeres mundanos e da tranqüilidade da vida material. Arums assevera que as condições oferecidas pela colônia são aceitáveis e o governo correto.Ao final de sua viagem desembarcaram na estação ferroviária de Orleans. Dentro das possibilidades é possível viver e prosperar, e os parâmetros para esta avaliação são as já estabelecidas colônias alemãs. As rotas de comunicação entre as novas colônias e os pequenos portos à margem do Atlântico, bem como a ferrovia de bitola estreita (construída com a intenção de explorar as minas de carvão mineral), asseguram a possibilidade de se manter a comunicação via postal e a troca de mercadorias.

As margens do Rio Novo
Os imigrantes do grupo de batistas de Riga estavam com firmes esperanças de que no próximo ano estariam a caminho do Brasil, [o que de fato aconteceu]. Ao final de sua viagem desembarcaram na estação ferroviária de Orleans, onde foram encaminhados ao barracão coletivo da empresa de colonização.

Os recém chegados eram os “cimenteiros”, e foram recepcionados pelas duas famílias remanescentes, os Arums e os Indrikson, essa a última de estonianos (mais tarde, após algum desentendimento com a empresa colonizadora, os acima citados pioneiros mudaram-se para outra colônia).

Sem demora os batistas mudaram-se para as áreas destinadas dentro da mata virgem, às margens do pequeno riacho que os agrimensores haviam denominado de Rio Novo, distante oito quilômetros da sede do município e da estação ferroviária. Ali se estabeleceram, uns próximos aos outros. Começaram as derrubadas e fizeram suas culturas: plantaram milho, arroz, feijão e raízes comestíveis como mandioca e batata doce.

Nos cultos o coral entoava hinos em quatro vozes. Isto foi em 1891.

Logo no primeiro ano fundaram também uma igreja batista com cultos regulares. Na falta de pastor, designaram entre seus membros homens dignos e responsáveis para a administração da igreja. Nos cultos o coral entoava hinos em quatro vozes. Isto foi no ano de 1891.

Cada acampamento, sua história
A estes seguiram-se novos grupos de imigrantes das igrejas batistas de Riga, de Além rio Daugava, da Foz do Daugava e também de Liepaja e de outros lugares; mais tarde ainda da colônia leta de Novogorod, na Rússia.

Nesse ritmo de expansão, começaram a faltar terras férteis a serem cultivadas na colônia do Rio Novo. Inconformados, os colonos começaram a buscar outras áreas para moradia e cultivo.

João Zarin, um dos pioneiros no Brasil e que foi designado como agrimensor, liderou um grupo até as margens do rio Mãe Luzia. Os oriundos de Liepaja mudaram-se para o Rio Grande do Sul e fixaram-se na grande colônia de Ijuí, próximos às colônias alemãs.

Cada acampamento, sua história. Um grupo de Novogorod dirigia-se para Rio Novo, mas diante de notícias a bordo de que em Blumenau havia terras e infra-estrutura em boas condições, desembarcaram no porto de Itajaí e por via fluvial dirigiram-se para Blumenau.

Jacu-Açú
Em Blumenau sentem-se à vontade com a forma de vida dos alemães. Buscam terras onde desbravar e morar, e encontram terras devolutas a 40 quilômetros de distância, numa colônia de poloneses, entre as montanhas de Guaraniassú. Com suas oito famílias ocupam toda a área de uma baixada onde há um córrego; os que chegaram mais tarde tiveram que se contentar com outras áreas mais distantes e montanhosas.

Anos mais tarde foram chegando mais parentes e conhecidos da região de Novogorod. Estes se fixaram nas margens da estrada, onde haviam terras devolutas, embora improdutivas, por isso não ocupadas. Eram os chamados ‘’beiradeiros’’.

Chegam mais imigrantes. Onde colocá-los? Um comerciante do local, polonês inteligente, amigo dos letos, conta que em uma de suas caçadas, além do rio Patanga, encontrara numa região ainda desabitada uma várzea com um riacho. Observou que, com as frutas silvestres e as árvores, devia ser uma área de terras produtivas.

Organizam uma pequena expedição ao local conduzida pelo amável polonês, senhor Eduardo, de sobrenome polonês impronunciável. O lugar é agradável; os proprietários determinam as medições, e verifica-se que está situado nas fronteiras de três municípios: Blumenau, Joinvile e Parati. O agrimensor imagina que o riacho pertença ao município de Blumenau.

São distribuídas aos novos colonos as áreas na localidade que ainda não tem qualquer denominação. O agrimensor abate a tiro, para seu almoço, uma ave que na língua tupi-guarani chama-se Jacú-Acú – e naquele momente entende que encontrara um nome o para a localidade: Jacuassú!

Aumentaram os pretendentes às terras. Nas proximidades encontraram outro riacho, este já com nome, Ponta Comprida, reduzido a simplesmente Comprida. Verificou-se mais tarde que a área colonizada pertencia ao município de Joinvile. Correram boatos de que as áreas ocupadas a mais de dez anos, onde moram sem qualquer pagamento, é de proprietário desconhecido, de procedência realmente obscura. Não demorou a ser esclarecido: a propriedade é dos descendentes do famoso Barão do Rio Branco. Após o esclarecimento a área passou a chamar-se Rio Branco.

Um pouco do céu azul
Notícias sobre Guarani e Jaguassú alcançam Rio Novo e Mãe Luzia. Surgem famílias em uma e outra parte que se mudam e chegam para morar aqui. O primeiro a transferir-se e chegar é o nosso amigo Arums. Ele prefere a mata romântica, inóspita e desconhecida, caminhos por abrir e mudança de condições de vida. Prefere novos empreendimentos, os primeiros passos do desbravamento da natureza ainda virgem. Arums ama o Brasil e nutre por ele verdadeiro entusiasmo; lamenta não ter chegado aqui nos seus anos de juventude.

A família de Arums é pequena, três pessoas: a esposa e um filho adotivo, adotado ainda em Riga. Vivem alguns anos na colônia de Guarani. Quando falece sua esposa, fiel companheira de vida e de fé e exemplar dona de casa, Arums liquida seus bens e visita a nova colônia [leta] de Nova Odessa [no estado de São Paulo].

Volta a sua terra junto a seu filho Adolfo, que adquire uma gleba de terras em Bananal, nas proximidades de Rio Branco. Nos cultos da igreja a atmosfera espiritual é das melhores.

Com boa vontade e prazer Arums participa com o filho nos trabalhos de derrubada de árvores, abrindo novos espaços para agricultura. Não há dúvida de que a derrubada produz experiências: são árvores milenares, que sendo cortadas começam a lentamente a declinar e com grande estrondo vão ao chão, quebrando seus próprios galhos e as arvores menores. O chão estremece aos pés e na mata verde, sempre na penumbra, onde o sol não penetra, um facho de luz ilumina e aparece um pouco do céu azul…

Inesperadamente, ao cair uma destas árvores, nosso Arums foi vítima fatal. Ele amava a mata e a mata o levou. Sem enfermidades, sem sofrimentos e sem a fraqueza da velhice chegou à sua verdadeira morada, onde as arvores da vida estão sempre verdes, florescem e produzem seus frutos ‘’no meio do paraíso de Deus’’.

Um silencioso companheiro
Nós o vemos sorridente no seu retrato, tirado em sua residência – como ele andava pela vida.

Em sua memória acrescentamos algumas citações da recordação de amigos. Num discurso entitulado Letos no Brasil, impresso no Kristiga Drauga [O Amigo Cristão] de janeiro de 1948, J. Inkis referiu-se a Arums com estas linhas:

Neste grupo de imigrantes de Riga encontrava-se um silencioso companheiro, um batista com sua pequena família. Era o irmão Arums, que mais tarde passei a conhecer melhor. Vivendo numa colônia após outra, transmitia seu entusiasmo pelo Brasil, pela liberdade aqui reinante em comparação à Rússia, pela fertilidade das terras e o clima ameno, onde recuperou sua saúde.

Nas ocasiões festivas ele usava da palavra e com seu sincero semblante e sua amável figura e palavra entusiasmava a igreja dos pioneiros. No meio da mata virgem ele clamava alegremente “onde outrora os macacos em seus galhos cantavam, agora os crentes cantam louvores a Deus!’’

Numa carta o evangelista F. J. Janoskis escreve sobre ele, entre outras coisas:

João Arums foi um verdadeiro cristão, de coração ardente, sempre disposto a colaborar em qualquer atividade. A ele cabia perfeitamente a expressão bíblica a Barnabé, “filho da alegria”. Sua alma continha uma alegria inesgotável que transbordava, derramando seu entusiasmo a todos os que com ele se comunicavam.

Ele compreendia muito bem os jovens e as crianças. A cada um distribuía seus conselhos e experiências. Conhecia todas as crianças da redondeza, carregava-as no colo, afagava seus cabelos e falava meigamente de Jesus.

Na sua vida cristã cavou profundos fundamentos. Nenhum vento de doutrina poderia abalar suas convicções: era, para os demais, um anteparo seguro. Reconhecia que o objetivo e dever de todo cristão é anunciar o evangelho. Constantemente estimulava os jovens a estudar o vernáculo para poderem anunciar com eficiência a bela mensagem do evangelho aos outros cidadãos, ainda no obscurantismo. Este seu grande desejo ele chegou a ver começando a ser implantado…

Um homem como ele, de qualidades apreciáveis, foi, perceba, o primeiro batista leto a desbravar as matas do Brasil – e isso embora não tenham faltado seguidores batizados com mesmo espírito de amor. “Bem-aventurado o homem cuja força esta em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados. Aquele que leva preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo seus molhos… Esses vão de força em força.”

* * * *

Autor: Um de seus seguidores (anônimo)

Extraído do BRAZILIJAS LATVIESU KALENDARS (Calendário Leto do Brasil), Ano 1952
Tradução: V. E. Purim
Revisão: V. A. Purim e Paulo Brabo

Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, última parte

continuação da segunda parte

Com preocupação também pelo bem-estar geral da comunidade, em relação à vida diária, foi organizada uma associação de moradores sob a orientação do pastor Inkis. Na realidade foram organizadas duas: o líder eleito para a associação do Rio Novo foi o J. Ochs, e para a do Rio Carlota o K. Seebergs. Como líder e dirigente das reuniões foi nomeado o F. Karps, e para secretário J. Frischembruder. Tudo foi feito com conhecimento e aquiescência do senhor Delegado de Policia de Orleans, Sr. Galdino Guedes.

A administração da associação de moradores tinha poderes para dirimir dúvidas e acertar pequenas desavenças entre os vizinhos — principalmente o que se relacionasse a cercas, porteiras, prejuízos causados pelo gado dos vizinhos em roças de outros, etc., — tendo inclusive autoridade para multar o culpado em Mlrs 5$000 (cinco mil réis), o que em moeda atual seria mais ou menos 20$000 réis. Precisamos anotar que essa multa nunca foi cobrada de ninguém.

A organização da associação de moradores aliviou o trabalho da igreja, pois toda e qualquer dúvida, queixa ou reclamação passou a ser tratada pelos responsáveis pela associação — pessoas vividas e com espírito cristão, que a partir desta postura tratavam todo e qualquer assunto. Nessas reuniões eram também discutidas novas idéias e o planejamento para melhorias na colônia.

A primeira e maior preocupação da comunidade era no sentido de se conseguir uma escola para a nova geração. Dirigiram-se então com uma petição à Empresa Colonizadora Grão-Pará, diretamente ao diretor Sr. Stawiarski, a fim conseguir um pedaço de terras para a comunidade — onde pudesse ser edificados a escola, o templo para a igreja e também o cemitério, — e terminaram conseguindo o terreno.

Em seguida a comunidade elegeu um comitê para a organização da escola, sendo Fritz Karps o dirigente e Juris Frischembruder secretário e tesoureiro. Os demais membros foram o compatriota e agrimensor J. Sarins, J. Ochs, M. Leepkalns, K. Matchs e K. Seebergs. Entusiasmados, os componentes da comunidade juntaram 411$000 réis para a viagem do futuro professor, que deveria vir da Letônia — mas que acabou demorando para vir.

Tendo em vista que a colônia de Rio Novo não tinha como crescer muito mais com a vinda de mais emigrantes da Letônia, já que todas as glebas das vizinhanças estavam tomadas, levando os letos que desejavam imigrar a procurar outras colônias (apesar de que nos vales vizinhos da colônia de Rio Novo ainda houvesse terras não desbravadas cobertas de matas virgens), o pastor Inkis organizou e também participou de expedições para busca e avaliação de novas áreas onde os letos pudessem ser assentados. Atravessaram o Rio Laranjeiras e o Rio Oratório, sobre cujas áreas não houve consenso quanto à viabilidade de aproveitamento. Na outra expedição, realizada nos fundos do Rio Carlota, nas proximidades da colônia italiana, foi encontrado um bom local, onde várias famílias letas se instalaram para morar, mantendo contato com Rio Novo.

Desenvolvendo o trabalho missionário, [o pastor Inkis] nos ensinava ainda hinos em língua alemã. Foram feitos vários cultos evangelísticos nesta língua, tanto em Rio Novo quanto em Orleans, resultando em conversões e filiação à igreja.

Foi também feita uma viagem festiva para a Colônia Leta de Mãe Luzia, que havia sido fundada na maioria por rionovenses. Desta viagem participaram mais ou menos vinte irmãos e irmãs dos coros, todos a cavalo, pois naquela época não havia outros recursos. A viagem durou dois dias e a noite foi passada ao relento, sob a luz das estrelas. Só noutro dia alcançou-se o objetivo da viagem, e também lá o trabalho missionário entre os alemães alcançou sucesso.

Quando a igreja de Rio Novo já se havia revigorado espiritualmente e o pequeno grupo que anteriormente se afastara já havia voltado, tendo sido recebido amorosamente pela igreja, pareceu ter chegado a hora de eleger biblicamente os seus servidores. Aos eleitos para o cargo de diáconos o pastor apresentou uma santa exortação:

— Agora vocês — disse ele — terão de se aproximar mais vezes da porta dos céus, em oração não só por vocês mesmos, mas pela igreja e pelas missões.

E com a imposição das mãos e com oração, num ambiente de reverência marcante, encaminhou-nos para o trabalho da igreja — o que me lembro como fosse agora.

Os sete servidores eleitos e ordenados pela igreja foram os irmãos Fritz Karps, Wilis Slengmanis, Jahnis Klawins, Evalds Feldbergs, Karlis Sebergs, Juris Frischembruders e Karlis Macths.

Os trabalhos da Igreja se desenvolviam muito bem, pois cada domingo que passava a igreja se revigorava e havia sinceros cultos de louvor e adoração. No aniversário de fundação da igreja (20/03) havia festas que duravam vários dias, seguidos com ricos e variados programas. Cantavam diversos coros, de senhoras, de visitantes; chegou-se a ter seis coros participantes.

A igreja, como reconhecimento e gratidão a seus obreiros, presenteou a todos eles com o desejado livro “A terra onde Jesus andara”. O pastos Inkis disse:

— Hoje não comemoramos o Natal, mas mesmo assim vamos distribuir presentes.

Os que receberam as lembranças foram o moderador da Igreja, irmão Fritz Karps; o dirigente do coro do Rio Novo, irmão Juris Frischembruder, que havia recentemente aposentado sua batuta; Karlis Matchs, que também tinha trabalhado como dirigente do coro do Rio Carlota (este era o mais idoso e por isso ganhou um Novo Testamento impresso em letras de tamanho grande); também foram lembrados os novos dirigentes dos coros, Wilis Leeknins e Gustavs Grikis, como estímulo para um diligente trabalho. A organização desta distribuição de lembranças com o intuito de reconhecimento foi organizada sigilosamente e desenrolou-se maravilhosamente, causando uma impressão inesquecível.

Na nossa memória estão guardadas muitas outras maravilhosas recordações, mas quando estamos a escrever devemos guardar limites.

Chegava o mês de abril de 1898; na Europa era início da primavera e aqui outono, época das colheitas. Faz agora quase um ano que o evangelista de Riga trabalha em nosso meio, e os nossos corações curtem os frutos de reconhecimento.

Em segredo absoluto a igreja organizou a festa dos balanços [?] no 14 de abril, que ainda estava em vigor segundo o antigo calendário da velha pátria (quarta-feira da semana santa). Ao redor da residência, junto à casa da família Grauzis onde [o pastor Inkis] se hospedava, foram se chegando na escuridão noturna, em passos silenciosos, grande parte dos habitantes da colônia.

Uma profunda paz noturna cobre toda paisagem. De repente luzes são acesas e um potente coral masculino irrompe com o hino: “Jeová, Jeová”, vibrando frente à porta da casa e ecoando pelo vale afora. Ao mesmo tempo mãos ágeis prendem e penduram arranjos florais e palmas nas portas e ao redor da residência do homenageado. Após este cântico ainda canta um coro misto. Então sai da sala aquele que foi acordado. Cumprimentos. Os cantores e os dirigentes da igreja entram na sala, enquanto os outros participantes silenciosamente se retiram para as suas casa para continuar o repouso. Na sala persiste um silêncio e uma expectativa, como que um estivesse esperando pelo outro ou que viria depois. O pastor Inkis tenta quebrar o silêncio contando um fato que acontecera em um culto “quaker” no qual reinava um silêncio como o daquele momento. Chegados e assentados aguardavam que surgisse uma palavra, mas ninguém parecia inspirado. Longo e interminável silêncio.

Então uma menina levanta-se, e na sua voz infantil teria dito:

— Pois eu acho que nós todos devíamos mais e mais amar o Senhor Jesus.

Foi como se tivessem sido abertas as comportas. Para muitos surgiram motivos para testemunhar do amor de Jesus, e também começou a desenrolar-se o nosso novelo com conversas e hinos. É aniversário, então também há presentes. F. Karps entrega ao obreiro, como presente, uma quantia em dinheiro. Após examinar ele diz:

— Realmente é um presente pesado.

Em seguida recebeu presentes de outras pessoas, depois mais hinos e palavras amáveis. Entre outras coisas, diz o pastor Inkis:

— Pois quando fui dormir ontem (era madrugada), estava sem sono e notei como os cães da colônia latiam mais do que em outras ocasiões. Agora entendo porque. Completei os 26 anos de idade e estou entrando para os 27, e o ano que tenho passado em Rio Novo posso contar entre os mais felizes da minha vida.

Já estava clareando o dia quando nos retiramos, os corações cheios de alegria.

Um belo dia o Sr. Staviarski, diretor da Empresa Colonizadora, enquanto atravessava a colônia de Rio Novo, parou em casa de colonos letos para descansar e tomar um café. Foi ali surpreendido por um grupo de crianças da colônia, orientadas pelo pastor Inkis, que o saudaram com um pequeno hino, “De todo nosso coração, nós saudamos tão caro hóspede, nossos olhos brilham, nossa alegria é real”, e em seguida “Ajuda-nos a cuidar dos pequenos.” Em seguida uma menina lhe entregou um livro de encadernação dourada — “A Terra em que Jesus andara”, em língua alemã, que ele conhecia perfeitamente. Seguiu-se a petição das crianças: que o senhor diretor tomasse as providências para doação de uma gleba de terra no meio da Colônia para que fosse possível ser construída uma escola para elas…

Durante este período houve diversos batismos, que foram festas de muita alegria tanto aqui na terra como no céu. O período de trabalho do pastor Inkis foi um santo tempo, pleno de alegria e crescimento espiritual. Não faltaram momentos de alegria e de descontração, mas também os de firmeza e determinação. Sempre ao lado da verdade e da justiça, ajudava os doentes com conselhos médicos e medicamentos, e sempre compartilhava com os sentimentos tantos os alegres como os de tristeza. Provocava um clima de boa vontade geral; por exemplo, a família Ochs veio ao encontro da necessidade da igreja hospedando o pastor por 6 meses e, em seguida, mais outros 6 meses foram passados na casa dos Grauzis nas mesmas condições.

Depois ter passado um ano em Rio Novo o pastor Inkis tomou o rumo do Rio Grande do Sul, a fim de visitar a colônia leta de Ijuí. No dia da despedida houve uma grande festa na casa dos Ochs, um verdadeiro banquete. O desenvolvimento espiritual, cultural e mesmo financeiro da colônia estava em seus e nossos futuros planos. Em vão ainda tentamos alcançar, mas foi inútil. Não haverá mais…

Depois que o pastor Inkis voltou a Riga nos visitaram em Rio Novo os irmãos missionários americanos do Rio de Janeiro, W.B. Bagby e o Dr. Donan, ambos pioneiros do trabalho batista naquela cidade [Nota de J. Inkis: De minha parte devo informar que as notícias sobre os batistas letos de Rio Novo e sua localização foram cedidos por mim a esses missionários americanos. Quando da minha volta para a Europa fiquei retido uma semana no Rio de Janeiro, capital da República. Ali consegui encontrar uma igreja batista, que em 1899 era ainda a única em toda cidade, e onde também encontrei o missionário que desta pequena igreja era o fundador e pastor. Como vimos, este não planejado atraso proporcionou um encontro que foi fundamental para despertar no missionário o desejo conhecer a igreja do Rio Novo].

O missionário Bagby pregava e cantava sinceramente e poderosamente. Donan falava mais devagar mas, como de profissão era médico, ajudava os doentes e necessitados. Ambos gostaram muito da colônia e adjacências e disseram que o pastor Inkis deveria voltar a este lugar e trabalhar no evangelismo [Nota de J. Inkis: Esta palavra amiga dos missionários se cumpre como profecia 20 anos depois em outra localidade e em outras circunstâncias. Não foi muita vantagem para a igreja de Rio Novo, a não ser o desenvolvimento da literatura evangélica em língua leta, agora mais abundante e de fácil aquisição por ser produzida aqui mesmo no país (Varpa, SP)].

Como inesperado hóspede numa manhã de domingo visitou a igreja de Rio Novo o pastor luterano e nos apresentou em língua alemã um sermão sobre o homem rico e o pobre Lázaro.

F I M

Juris Frischembruders

Texto de Juris Frischembruders com prefácio de Janis Inkis. Publicado na Revista “Kristigs Draugs” (O Amigo Cristão) números 09, 10 e 11 nos meses de setembro, outubro e novembro de 1940.

Leia também:
1. Breve História da Igreja Batista Leta do Rio Novo, primeira parte
2. Breve História da Igreja Batista Leta do Rio Novo, segunda parte

Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, segunda parte

continuação da primeira parte

A idéia central dos participantes convergia para a urgente necessidade de se conseguir um templo, mesmo que provisório, mais amplo para as reuniões. Para escolher o local foram escolhidos os nomes dos seguintes irmãos: J. Ochs, J. Neiland, J. Simpson, K. Match e J. Stekert.

O lugar foi encontrado, bem no meio da colônia, numa encosta do terreno pertencente ao irmão J. Simson. Todos pegaram firme no trabalho. Até as irmãs mais novas, adolescentes mesmo, ajudavam a amarrar os feixes de resistentes folhas de palmeira [guaricana] para a cobertura, isto é, a confecção do telhado. Também as paredes foram confeccionadas com este mesmo material.

Para a confecção dos bancos foram assentadas estacas no chão até uma altura conveniente e sobrepostas travessas para sustentação feitas de ripas retiradas dos troncos de palmito [jussara]. O resultado foi satisfatório e os bancos até que ficaram confortáveis. Todos juntos trabalhando, em três dias a obra ficou pronta.

No fundo da construção estavam os assentos para os coristas. Organizaram-se dois coros. No lado direito ficava o coro do Rio Novo e no lado esquerdo ficava o coro do Rio Carlota.

Aqui cabe um esclarecimento: nesta imigração do pessoal da igreja de Dinaminde veio o coral quase completo, incluindo o seu dirigente, e como as terras do vale do Rio Novo já tivessem sido todas tomadas pelos que tinham chegado antes, estes se instalaram ao longo do outro vale — que os agrimensores haviam denominado de Rio Carlota. Durante algum tempo os colonos foram distinguidos pelo nome dos pequenos rios ao longo dos quais moravam, mas com tempo a denominação de toda colônia passou a ser Rio Novo, talvez por ter sido onde ela realmente começou.

Durante os cultos os corais se revezavam. O coro de Rio Carlota, composto pelos de Dinaminde, era dirigido pelo irmão K. Match, enquanto o do Rio Novo, composto por oriundos de Riga, era dirigido pelo irmão Frischenbruder. O último hino do culto de cada domingo era cantado por ambos coros unidos e dirigido alternadamente por um ou outro dirigente.

Como líderes da igreja foram eleitos os seguintes irmãos: J. Bachul, J. Neiland, J. Stekert e M. Indrikson. Para servir a ceia do Senhor, o irmão J. Bachul. A direção dos estudos bíblicos foi confiada ao irmão J. Simsom e mais tarde ao irmão J. Stekert. Para a direção da Escola Dominical apresentaram-se voluntariamente J. Neilands, K. Matchs e Julia Balod.

O progresso da igreja era lento mas firme, sempre em frente. A vida do irmão Simson foi curta, pois neste mesmo ano de 1892 ele veio a falecer. No lugar dele foi eleito, como secretário-geral, o irmão K. Seeberg. Como tesoureiro foi eleito o M. Leepkaln e, como responsável pelo livro da tesouraria, o irmão J. Klavin.

Continuavam a chegar novos colonos seguindo os que vieram de Riga, bem como uma nova leva oriunda das colônias Letas de Nowgorod (Rússia) — onde muitos tinham se inte­ressado pela vida nas terras quentes. Os recém-chegados, tanto de Riga quanto da região de Nowgorod, eram batistas, e com isso a igreja crescia ainda mais.

O salão se tornava pequeno demais, e além disso os dentes do tempo tinham feito o seu estrago no templo improvisado. Estando situado em local alto e descampado, os fortes ventos haviam desfiado as folhas de palmeira. Por diversas vezes havia sido discutida a necessidade de se adquirir um terreno para a sede definitiva do templo da Igreja e da Escola, mas este assunto ia sendo adiado por que os pioneiros tinham tarefas inadiáveis para tratar, coisas como a construção de seu próprio abrigo, cercas e as plantações — e isso tomava todas as suas forças.

Ao mesmo tempo a igreja começou a aspirar a visita de algum líder espiritual da Letônia. Começaram as trocas de cartas. Surgiu a possibilidade da visita do notável líder e editor de literatura batista de Riga, porém a prioridade dele era visitar a “Terra onde Jesus andara” (que mais tarde descreveu em forma de livro), ficando Rio Novo para depois. Aguardou-se então Karlis Ruschevitz, mas como este foi convidado para ser pastor da igreja de Riga, essa viagem também não pode ser concretizada.

Foi então decidida a construção de uma nova casa de cultos, maior e melhor construída. O local foi escolhido a colina perto da casa dos Leepkaln, junto ao túmulo do irmão Simson, em terreno pertencente ao irmão Jahnis Klavin. Na sessão da Igreja do dia 1º de julho de 1894 foi eleito um comitê de construção composto de sete irmãos, porém na sessão seguinte dois desses irmãos solicitaram a sua retirada do comitê, por não concordarem com as responsabilidades a eles atribuídas.

Os trabalhos de construção foram dirigidos pelo construtor profissional Karlis Matchs. Todos os trabalhos foram executados por voluntários sem qualquer remuneração, e assim mesmo todos trabalhavam com muita vontade. Os trabalhadores eram muitos e o trabalho avançava com rapidez. Tanto o telhado quanto as paredes foram feitos de lâminas lascadas com plaina. [Nota de VAP: Havia uma plaina própria, acionada pela força de 3 homens, na qual eram colocados pedaços do tronco de madeira, que eram por sua vez cortados em lâminas de aproximadamente 25 x 12cm e 0,5 mm de espessura. A madeira preferida era o louro. Na Letônia esta técnica é ainda usada para restaurar edifícios antigos; veja esta página (em leto).] Este templo foi construído no mês de agosto de 1894 em quatorze dias corridos, perfazendo a soma de 437 dias-homem de trabalho.

Skaidas Basnitza - Segundo templo

O primeiro templo era chamado de Lapas Baznitza/Templo de folhas e o segundo passou a ser chamado de Skaidas Basnitza/Templo de lascas de madeira — com a firme esperança de que num futuro muito próximo pudesse ser construído um templo definitivo.

Também no novo templo ambos os coros cantavam em união durante os cultos, e os líderes tudo faziam para que o trabalho fosse executado o melhor possível. Porém, com o tempo surgiram na vida da igreja dificuldades de harmonização de opiniões e até mesmo divergências sérias.

A preocupação dos irmãos era evidente, principalmente por parte dos que conheciam pessoalmente o irmão [Janis Aleksandrs] Freijs. Estes começaram a se corresponder com ele na esperança de que com conselho ou mediação dele se pudesse conseguir um obreiro para o trabalho espiritual da igreja de Rio Novo, mesmo que fosse por um período [limitado] de tempo.

Janis Aleksandrs Freijs

Neste mesmo tempo haviam sido fundadas outras colônias letas no Brasil, como em Ijuí, no de Rio Grande do Sul e, aqui mesmo em Santa Catarina, as colônias de Mãe Luzia e Guarani — lugares cujos nomes não eram desconhecidos para o irmão Freijs, pois essas pessoas mantinham contato com sua editora de literatura cristã em Riga. Porém junto ao seu coração estavam principalmente os da igreja de Rio Novo, que tinham sido membros das igrejas de Riga e Dinaminde. Por ocasião das últimas imigrações o irmão Freijs era pastor da igreja de Dinaminde, e esses dirigiam-se a ele como se fosse ainda o seu pastor, pois ele realmente se preocupava com a situação da igreja em Rio Novo. Então, no início de 1897 Freijs informou-nos que saíra de viagem para o Brasil um colaborador da sua editora e agora zeloso evangelista, Jahnis Inkis.

A tão esperada visita chegou ao Rio Novo em plena festa de São João, isto é, no dia 24 de junho de 1897, após dois meses de viagem. Com muita sinceridade e entusiasmo a igreja o aguardava e, como antecipadamente havia sido deliberado em sessão, foi celebrada sua chegada com dois dias de festa na igreja.

No domingo seguinte, dia 27 de junho, nova da sessão da igreja, agora sob a liderança do irmão Jahnis Inkis, que propõe à igreja uma reunião de perdão e reconciliação entre os irmãos, e que no domingo seguinte se comemore o memorial da ceia do Senhor. Nova sessão da igreja no dia 4 de julho: irmãos perdoam-se entre si, alguns excluídos pedem a sua reconciliação; outros irmãos e irmãs, esquecendo o passado e perdoando uns aos outros, acertavam-se entre si.

O Irmão Fritz Karp foi eleito para continuar dirigindo as sessões da igreja, e os batismos foram marcados para o próximo domingo. Naquele dia, pregação da palavra pela manhã e em seguida uma solene caminhada até o local dos batismos, a poucos quilômetros dali, no próprio Rio Novo, entre as casas dos Irmãos Ochs e Frischembruder. Após os batismos nova caminhada, agora para a igreja, para a celebração do memorial da Ceia do Senhor.

Assim começou o trabalho do pastor evangelista Jahnis Inkis na igreja de Rio Novo. Inkis cuidava da vida da igreja tanto na parte interna quanto na externa, dando especial ênfase ao trabalho de missões, especialmente entre os vizinhos alemães e outros das colônias adjacentes.

Cada domingo repartia uma porção da Palavra de Deus, mas foram estabelecidas também outras atividades — cultos de oração, cultos de missões e reuniões de treinamento, nas quais eram lidos trabalhos diversos, proporcionando a todos a possibilidade de falar e de se apresentar em público — pois sempre, após a leitura de um trecho de alguma publicação religiosa, era dada oportunidade para que se acrescentasse um breve comentário, fazendo com que a pessoa ficasse cada vez mais segura.

Essas reuniões de treinamento, dirigidas pelo irmão Inkis, aconteciam duas vezes por semana: nas noites de terça-feira, na casa do irmão Ochs, numa das extremidades da colônia, e nas noites de quinta-feira na casa do irmão Grauze. Eram também lidos e feitos breves comentários dos livros da Bíblia (tais como os livros de Samuel e os livros de Reis), do livro de John Bunyan, “Luta Santa”, e de Adolf Sasir, “Cristo e as Sagradas Escrituras” — e nos intervalos cantava-se muito louvando a Deus e elevando-se a Deus fervorosas orações.

Os cultos missionários eram celebrados aos domingos. Os estudos bíblicos eram durante os dias da semana. O povo todo diligentemente colaborava em todos trabalhos. O pastor Inkis amava a Escola Dominical e dela participava. Organizou também o trabalho com os jovens, com a formação de uma união de moços e uma união de moças. Neste trabalho com os jovens ele se dedicou de todo o seu coração, promovendo novas atividades, inclusive culturais. Fundou um coral jovem sob a regência do irmão Gustavo Grikis, orientando na escolha das músicas e dos textos, e foi naquela época que sugiram as famosas festas da Mocidade.

conclui na terceira parte

Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, primeira parte

Autor: Juris Frischembruders
Prefácio: Janis Inkis Senior
Texto publicado na Revista Kristigs Draugs (O Amigo Cristão), números 09, 10 e 11, nos meses setembro, outubro e novembro de 1940
Traduzido para o português por V. A. Purim

PREFÁCIO

Li no Jornal Batista, publicação periódica da Convenção, que a Igreja Batista de Rio Novo, a mais velha das irmãs entre as Igrejas Batistas Letas do Brasil, estava se preparando para comemorar os seus 50 anos, isto é, o seu Jubileu de Ouro, e naquele momento me veio à mente que durante muitos anos tenho em mãos material referente à história desta igreja. Este material, desde há sete anos, foi coligido e cuidado com carinho pelo irmão Juris Frischenbruders.

O irmão Juris mandou-me este material esperando que eu o publicasse nas páginas da Revista “Kristiga Draugs” para que todos tivessem pleno conhecimento destes fatos. De boa vontade eu o teria feito, porém lendo este trabalho sobre o início da igreja, encontrei por diversas vezes o meu nome e elogios sobre a minha atuação e meu trabalho naqueles tempos. Decidi então, naquela época, que uma publicação dessa natureza não deveria vir à luz por minha iniciativa, pelo que este importante trabalho ficou um bom tempo engavetado.

Bem, agora que águas dos tempos já correram, que as enchentes já baixaram, que os seixos rolados da memória pelo tempo estão brancos; agora que a primeira geração de imigrantes já se foi para o descanso eterno e a terceira da geração do início da colônia e da fundação da igreja pouco sabe, sinto-me então constrangido a lidar com recordações tão personalíssimas como as do irmão Frischimbruders, que tirou a maior parte das informações de sua própria memória. Neste momento não vejo mais como alguém poderia antepor obstáculos ou levantar dúvidas sobre a nossa honesta participação nessa história. Entendo que nós dois, ele como o escritor da narrativa e eu como seu guardião, somos para a querida e inesquecível igreja de Rio Novo eternos devedores e, para tanto, neste Jubileu de Ouro, oferecemos a sua história. Esperamos que em nenhum momento isso seja entendido como algum elogio a nós próprios, mas a toda família leta no Brasil.

J. Inkis Sen, 1940

 

PREÂMBULO

Anos atrás a igreja [batista do Rio Novo] determinou ao professor Ans Elbert que escrevesse a história da vida da igreja; porém sendo a vida dele cheia de sofrimento e de dificuldades (após anos de doença ele veio a falecer), seu trabalho não teve solução de continuidade. Minha grande preocupação era que a história da igreja fosse colocada por escrito. Antes da comemoração do jubileu dos 40 anos de estabelecimento da igreja (a 28 de fevereiro de 1932), foi a mim designada esta importante responsabilidade. Para minhas debilitadas forças a tarefa pareceu realmente difícil, mas assim mesmo admitiram que eu escrevesse do melhor modo possível.

Procurei ficar bem no centro do caminho da verdade. As notícias e datas tirava do livro de atas da igreja, mas grande parte do conteúdo tirava diretamente da memória. Esforcei-me para anotar todos quantos labutaram na igreja: pastores, professores, pregadores itinerantes — até mesmo os guardas das portas (introdutores). Pensei: do mesmo modo que foi importante atribuir essas tarefas a eles, também é importante mencioná-los na minha narrativa. Cristo disse: “Aquele que oferecer um copo de água fresca não ficará sem o seu galardão”. Assim também aqueles que, mesmo numa função humilde, desempenharam com boa vontade e com coração dedicado ao bem estar dos irmãos e da igreja, certamente terão também o seu reconhecimento.

Tomei por certo que a igreja me havia autorizado escrever a história de modo geral e abrangente. Assim mesmo, em assuntos polêmicos, tomei cuidado, sendo prudente e deixando tudo nas mãos de Deus. Nestes casos, escrever só o necessário, e sempre com espírito pacificador.

Como moto para o seu trabalho o autor escolheu um verso do poeta Bilnisch:

Tu não podes parar e sonhar
Tu tens que amarrar os feixes colhidos
Ou és um navio a fazer água,
Que está prestes a afundar…
Tu tens que terminar alguns trabalhos
Mesmo com o seu coração cansado,
Mesmo que ao derredor uive o vento cortante,
E o temor da morte se faça presente.

E ainda um verso do poeta Ciruls:

Se surgisse dos nossos
Antepassados pais, o espírito
Então para o trabalho e saber
Ganhariam novo alento…

Juris Frischembruders, 1933

 

A IGREJA BATISTA DO RIO NOVO NO PERÍODO DE 40 ANOS — 1892-1932

Os colonizadores letos do Rio Novo foram sem dúvida os primeiros desta nacionalidade a imigrar para viver no Brasil. Com as providências de cultos e ilustrados conterrâneos como o Balod, o Salit e o Lübek, e sob a sua liderança, em plena primavera (deles) de 1890 saíram de Riga os primeiros colonizadores em busca da distante e desconhecida Terra das Palmeiras. Tinham escolhido para a próxima etapa da vida um local no estado de Santa Catarina em que uma companhia de colonização havia sido aberta e onde vendia, com facilidades para os imigrantes, terrenos em plena mata virgem, não longe da estação de estrada de ferro de bitola estreita de um local chamado Orleans do Sul.

Os primeiros imigrantes eram luteranos, mas entre eles havia três membros das igrejas batistas de Riga: Janis Arums, sua esposa e Katrine Bitait.

Um ano depois, em 1891, cerca de cinco famílias de batistas letos de Riga seguiram as trilhas recentemente abertas até a recém-inaugurada Colônia de Rio Novo/Jaunupe. Esse nome tinha sido dado a um pequeno rio em cujas margens, de um lado e de outro, os letos se instalavam. Entre esses estavam este que agora escreve (Juris Frischenbruder) e sua família, Janis Ochs, Aleksandis Grinfelds, Janis Baschulis e Fritz Malves com suas respectivas famílias.

Após dois longos meses de viagem, no dia 13 de julho, chegamos à estação da estrada de ferro em Orleans do Sul. A direção da Colonizadora providenciou para que as nossas coisas fossem arranjadas no lombo de mulas e levadas para a nova colônia, onde fomos alojados num alojamento comum, construído para o abrigo inicial dos imigrantes que chegassem. Nosso irmão Janis Arums e outros letos nos ajudaram a chegar a este acampamento em plena mata virgem. Esses oito quilômetros de caminhada por dentro da mata, através de trilhas escorregadias, lamacentas, subindo e descendo morros, só foram vencidos com grandes e desconhecidas dificuldades.

Quando cada um dos recém-chegados já havia recebido sua terra e se instalado nela, e dessa forma dado início à sua vida de legítimos pioneiros, a preocupação de nós, batistas, voltou-se para nos organizarmos a fim podermos realizar os cultos a Deus.

Os cultos de oração eram dirigidos alternadamente por nós e a ceia do Senhor era servida pelo irmão Janis Baschulis, enquanto o coro quem dirigia era eu, Juris Frischimbruders. Éramos muito alegres e cantávamos com tanto entusiasmo que a própria selva respondia com eco.

Neste mesmo ano de 1891, no mês de novembro, quando lá na Letônia era outono e aqui primavera, surpreendeu-nos numa manhã de domingo a chegada de mais letos que nos haviam seguido de Riga. Eram esses Jahnis Neilands e Jahnis Simsons. Foi um feliz encontro e grande a confraternização; agora o nosso pequeno coro havia sido reforçado com duas realmente potentes vozes masculinas.

Um mês depois, em dezembro, chegou uma leva realmente grande de imigrantes, cerca de 25 famílias de Riga, membros das igrejas [batistas] de Angelskalna e Dinamindes (Daugavgrivas/Foz do Daugava).

Como naquela época quem tinha dentre os colonos a maior sala em sua casa era o J. Ochs, os cultos eram realizados lá na casa dele. Os primeiros desta leva entraram na colônia durante os festejos do Natal de Cristo; participaram ativamente do nosso culto a Deus os irmãos Fritz Karps e J. Klavins, da Igreja de Dinaminde, e o irmão Bankovitz de Riga.

Demorou um bom tempo até que todos os companheiros de viagem ocupassem os seus lotes na colônia. Alguns estavam muito satisfeitos [com sua nova vida], porém outros se sentiam enganados. Com amargo ressentimento esses inquiriam em especial o autor das cartas (Arums), que teria pintado um cenário mais pitoresco e colorido do que a dura realidade da vida de pioneiros, e indicado uma visão de futuro promissor que eles não conseguiam antever.

A verdade é que os recém-chegados não tinham escolhido uma época propícia para emigrar. A melhor época teria sido quando aqui é outono, nos meses de abril e maio, pois durante o inverno poderiam ter sido derrubadas as matas e aprontadas as coivaras para as plantações da primavera, de agosto em diante. O clima do final de ano pareceu excessivamente quente aos recém-chegados. Diante das primeiras impressões, meu sogro [Juris Bankovitch] disse: “Melhor teria sido trabalhar em pedreiras, carregando pedra sobre pedra na Letônia, do que ter vindo ao Brasil”. Mais tarde, devidamente acomodado, ele mostrou-se feliz por ter optado em vir morar no Brasil.

Quando todos tinham entrado para a colônia e já estavam alojados no acampamento comum, mais gente procurava lugar nos nossos cultos. Mais tarde, quando cada um já tinha construído para si o seu teto, sua casa em sua própria terra, e já havia se restabelecido das dificuldades da mudança, ficou evidente que o local de cultos tinha ficado pequeno demais — e que era também, para alguns, longe demais do local em que moravam. Surgiu então uma idéia e sobre ela todos falavam uns com os outros: a necessidade de organizar uma igreja e construir para ela um templo.

Era uma bela tarde de domingo, 20 de março de 1892, quando se reuniram os irmãos e irmãs na casa de Jahnis Ochs para uma deliberação. O culto foi aberto pelo Irmão Fritz Karps; por unanimidade e aclamação ele mesmo foi eleito para dirigir esta e as próximas sessões, e o irmão J. Simsons apontado como secretário.

Após a inscrição, a relação de todos membros da nova igreja era a seguinte:

Jahnis Balodis
Katrina Grausis
Katrina Bitait
Gederts Feldmanis
Lavise Feldman
Made Bankovitz
Ans Grinfelds
Auguste Grinfeld
Auguste Grinfeld
Juris Frischembruder
Anna Frischembruder
Anna Feldmann
Jahnis Arums
Karlote Arums
Jahnis Ochs
Katrina Ochs
Júris Bankovitz
Sofija Vanag
Ilse Dobit
Jahnis Baschulis
Marija Baschul
Elizabete Grinfeld
Katrina Grinfeld
Katrina Grinfeld
Jahnis Neilands
Johana Neiland
J.Simsons
Martinch Leepkaln
Darta Leepkaln
Jekabs Rose
Jekabs Karklis
Lavise Karklis
Lavise Rose
Lisete Rose
Evalds Martinsons
Lihsa Balod
Krischjahnis Akmenhgrauzis
Anna Akmenhgrauzis
Karlis Match
Katrina Match
Getrude Grintal
Ieva Indrikson
Anna Engel
Fritz Karps
Fritz Malwes
Anna Malwes
Olga Malwes
Julija Balod
Auguste Balod
Jahnis Fridembergs
Ieva Fridenbergs
Amalija Fridemberg
Wilis Grintals
Gederts Netembergs
Nitenbergs
Ans Witinchs
Ilse Witinh
Matilde Witinh
Emília Witinh
Woldemars Stekerts
Hedwigs Stekert
Jahnis Stekert
Karlote Stekert
Jahnis Binemans
Dore Bineman
Lihse Bineman
Anna Bineman
Lavise Bineman
Lihsa Akmenhgrauzis
Martins Indrikson
Davids Grunskis
Jahnis Klavins

— totalizando 74 membros.

[Nota de VAP: Nesta relação existem algumas irregularidades. Nela são encontrados vários nomes e sobrenomes semelhantes sem que se mencione, por exemplo, se se tratavam de mãe ou filha, e há ainda sobrenomes sem o nome próprio, pelo que fica difícil determinar quem desta ou daquela família era realmente membro-fundador da igreja. Não sabemos se o autor da história não conseguiu ou não achou relevante preencher estas lacunas.]

continua na segunda parte