Eu naquela vez não consegui escrever e assim ficou para outra semana …| de Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1927 –

Rio Novo 01 de setembro de 1927

Eu naquela vez não consegui escrever e assim ficou para outra semana e então ficou “até agora”.

Nós tínhamos que fazer a mudança aqui para o Rio Novo, então serviço tinha demais até trazer tudo para cá então agora ficou somente o milho lá no paiol e a mandioca nas roças que depois nós teremos que ir buscar, mas agora todos estão morando aqui e assim mesmo temos serviço demais. Já roçamos um pedaço do pasto que depois de queimar, vamos arar e depois plantar milho e grama. Então não fique tão admirado por que eu estou atrasada com a escrita de cartas por que durante o dia a gente tem que trabalhar na lavoura e a noite vem um sono tão forte então quando a gente cai na cama e pela manhã acorda ainda com sono e se tivesse alguém que comprasse o excesso de sono teria para vender.

Na noite de ontem eu fui a Igreja para o ensaio dos hinos para a Festa da Mocidade [O aniversário da União da Mocidade era no dia 16 de Outubro] então recebi uma carta a mim endereçada com a caligrafia totalmente desconhecida. Quando abri vi que era do Rio de uma moça ou dona quem escreveu. Eu não a conheço, mas ela diz que me conhece por fotografias. Ela quer saber quando é o teu aniversário e ela quer que escreva rápido o mês e o dia e é isso tudo que ela queria de mim. O nome dela é Aruclia de Oliveira – Rua Antonio Vargas 23 Estação de Cascadura – Rio- O que ela quer com o seu aniversário eu não sei. Se ela é de Pilares você deve conhecê-la. Eu não vou escrever a data do seu aniversário, mas vou dar o teu endereço para que ela peça direto para você. Ela também queria saber se eu sou mais nova que ela.

Você pergunta sobre a minha ida para escola. Estou sentindo que não vai dar. Eu tenho pensado e avaliado sob todos os aspectos. O pessoal de casa não quer que eu vá para a cidade grande. Se eu for quem, vai pagar os custos? Você promete pagar a metade. Será que eu poderia arranjar o dinheiro para pagar ou quem sabe nem dinheiro para poder voltar. Agora a Escola está muito cara 120$ por mês quem poderá pagar? Quando você foi embora nós ficamos trabalhando para mandar dinheiro para você pagar os seus estudos, mas agora não pode ser mais assim. O Paps e a Mamma estão ficando mais velhos e não conseguem o mesmo o que eles faziam naquele tempo. O Artur sozinho apesar de muito trabalhador não vai conseguir. A época que eu deveria ter ido está longe para traz. Quando aqui tinha aulas na escola eu não era autorizada a ir assistir as aulas por que tinha que ir para a roça plantar, colher, vender para mandar dinheiro para você e estes anos estão longe atrás.

Se alguma vez você trouxe com você o “gaspazu” [Un gadiuma ja tu atvedi sev gaspazu lidz….] então eu não ganhei nada. Aqui faz tempo que o povo fala que no Rio de Janeiro você não conseguiu nenhum e então por isso você teve que embarcar para a América. Você nada escreve nada sobre você mesmo e não é como nós que escrevemos e contamos tudo. [ Devido a dificuldade da tradução desta palavra “ gazpazu “ esta frase ficou completamente prejudicada. Palavra não foi encontrada nos meus dicionários]
O Arturs não diz nada, ele sempre está de acordo comigo e com o que eu faço, mas a Mamma não quer que eu vá para a Escola porque alguma tem morrido e que adianta ir para escola e depois morrer, mas eu não ligo para isso, mas o Paps disse que as moças é suficiente saber cozinhar sopa [Putru] eu sei que não é bem assim, é bom que saiba de tudo, mas quando não é possível então resta se contentar com que a gente sabe e tentar aprender o possível em casa. Ainda aquele caso com Eduardo [Namoro] não está terminado e quem sabe nem termine, pois o nosso pessoal aqui não tem nada contra e eu tenho começado a conhecê-lo melhor, ele é uma boa pessoa e todo pessoal dele é favorável e espera em paz que eu aceite e vá para lá. Ele prometeu te escrever, quando ele escrever então me escreva contando a tua opinião sobre ele, pois você sempre foi sabido e que conheces as pessoas até pela letra.
Por hoje chega outra vez eu escrevo mais.
Ainda mais lembranças de todos. Lúcia.
(Escrito na lateral)
O Romão Fernandes não mora mais aqui, ele faz tempo que mudou para Araranguá para morar lá. O Arturs mandou aquela carta, mas se ele recebeu eu não sei. Ainda muitas lembranças e saudações do Onofre Regis e esposa.

[Nesta carta quando traduzi me deparei com um termo em leto “gazpazu” e assim a frase não dava sentido algum.
Mas a minha sorte é ter amigos que entendem o idioma muito mais que eu que nunca tive uma aula desta língua e tudo que aprendi foi com a minha avó Lizete Rose Purim e este meu amigo João Gretzitz mandou a Pedra de Roseta e tudo ficou claro.
Este termo “gazpazu ” acentuado de modo diferente quer dizer esposa. A irmã da carta não viu a esposa, Se ele levou a esposa para a América.-Para deixar mais claro o assunto vou colar a mensagem do meu super amigo Gretzitz: “Novo comentário ao seu artigo “Eu naquela vez não consegui escrever e assim ficou para outra semana …| de Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1927 -”
Autor: João Gretzitz (IP: 189.46.167.207 , 189-46-167-207.dsl.telesp.net.br)
Email : gretzitz@gmail.com
URL : http://www.facebook.com/j.gretzitz
Whois : http://whois.arin.net/rest/ip/189.46.167.207
Comentário:
Prezado amigo, com relação ao texto onde aparece à frase: “…un gadiuma ja tu atvedi sev gaspazu lidz….” , peço desculpas para sugerir que, onde se lê “gaspazu” possa ser na verdade a palavra “gaspažu”, o mesmo que “kundze”, em português: “senhora”. Gosto muito de ler aquelas histórias relatadas na cartas publicadas e que tanto nos mostram da história de lutas e sacrifícios daquelas famílias, algo comum a todos os demais imigrantes letos que chegaram no Brasil, naquela época… Espero ter podido contribuir e deixo aqui meu muito obrigado e um grande abraço.

Pode visualizar todos os comentários a este artigo aqui:
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Por tudo muito obrigado
V.A.Purim
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Mas em vez de 600 homens apareceram 6 “manecos” pela estrada da Serra. De Artur Purim para Reynaldo Purim – 1927 –

Ano de 1927
Rodeio do Assucar 13-1-27.
Querido Irmão
Primeiramente envio lembranças e felicitações pelo seu aniversário, se bem que o seu aniversário já passou, mas não tem importância, mas sim que os cumprimentos cheguem ai.

Recebi a tua carta que fala de manteiga, leite e espigas de milho já antes do Natal. Por ela muito obrigado. Mas queria que passassem as Festas para que depois tivesse mais o que escrever e como as Festas já estão longe tenho que me agarrar e escrever enquanto não esqueço.
No Primeiro Natal [Primeiro dia de Natal era o dia 25 e o dia 26 eram as Oitavas ou o segundo Natal] teve Festa com pinheirinho iluminado e naquela noite o tempo estava maravilhoso e gente que raramente tanta foi vista por ai. Também veio um automóvel de Orleans que deixou profunda impressão. Agora através das estradas de Rio Novo frequentemente disparam vários automóveis. Ainda no domingo passado subiu um automóvel pelo Rio Novo e foi até o Barracão e mais tarde voltou. Agora em Orleans existem 3 automóveis.

O programa da festa não foi muito extenso, mas foi muito bonito e interessante. No segundo dia de Natal eu não fui à Igreja. Eu e o Roberto [Klavin] fomos à Grão Pará dirigir um culto lá. A mocidade da Igreja todos os últimos domingos do mês vão ajudar nos Cultos lá. Agora lá está morando o Avelino e a velha senhora do Caciano. O velho Caciano separou-se dela e ajuntou-se com outra e está morando em Palmeiras [Também distrito de Orleans e Estação da Estrada de Ferro D. Tereza Cristina e hoje Pindotiba].

O pessoal de Grão Pará manda muitas lembranças para você e pedem que quando você voltar não se esqueça de visitá-los. Lá em Grão Pará os primeiros cultos foram muito bem frequentados. E é muito natural que em qualquer lugar onde o Evangelho é anunciado lá também o mal não fica em paz. Por isso no princípio de dezembro apareceu um jesuíta nômade que quando soube que nós fomos lá pregar ele separou uma semana de missas onde a nós disparava torrentes de maldições e ainda incluindo a todos que foram ouvir estas pregações do diabo que eram as nossas. Mas como não notamos nenhuma diferença depois destes anátemas e nada sentimos então na próxima vez nós iremos com mais entusiasmo e também mais pessoas.

Agora que tu já sabes como nós passamos o Natal gostaríamos de saber como você passou o Natal? Tinha Árvore de Natal ou não?

Alguns dias depois das Festas começamos a ouvir rumores de revolução e que nas Serras estão bandos de anarquistas, mas que brevemente vão descer para Serra Abaixo. Estas notícias deixaram todo povo alvoroçado. O assombro de uma invasão iminente foi tão assustador que por dias não se via pessoa alguma nas estradas. Outros diziam que nas Minas [Lauro Müller] já tinham descido 600 homens e logo iriam continuar para Orleans e outros lugares. Mas em vez dos 600 homens apareceram 6 “manecos” pela estrada da Serra. Mas assim mesmo foram solicitadas ao governo tropas com fuzis e metralhadoras. Dizem que estes revoltosos são da Bahia. Que nas Serras ainda tem muitos revolucionários. Até o pessoal de nossa comunidade andava tão assustada que muitos iam dormir no mato. A senhora Paegle acompanhada pelo seu velhinho passava as noites embrulhados em cobertores no pasto encostados numa grande pedra etc.
Desta vez penso que chega de escrever, pois a Lucija também promete escrever e assim você terá muitas notícias de nossa parte. Você possivelmente não está entendendo por que desta vez eu estou escrevendo a lápis. Pois é porque as ratazanas derrubaram o tinteiro com toda tinta. Elas talvez sejam quase a “última praga em casa”. Em toda minha vida eu não tinha visto tantas ratazanas e guaiquicas como este ano aqui em casa..
Com muitas lembranças. APurim.

[Saber com os historiadores que movimento revolucionário foi este]

…o relógio já bateu as 12 horas e eu preciso ir dormir. | De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

Rio Novo 5 de maio de 1926

Querido maninho!!

Saudações!

Envio para você muitas lembranças. Então hoje à noite eu tenho que escrever esta carta. A carta tua escrita no dia 16 de abril recebi no dia 30 e por ela muito obrigada, pois depois de uma longa espera enfim chegou. Hoje à noite quando fui a Igreja o Augusto Klavim me entregou em também para o Arthur uma pequena carta escrita no dia 24. Então veja você espera cartas nossas e nós, as suas. Então agora está confirmada que a minha carta escrita no dia 26 de fevereiro foi extraviada. Neste envelope seguiu uma fotografia nossa tirada por ocasião do ano Novo se bem que não ficou muito boa. O prejuízo maior foi à longa carta onde eu descrevi muitas coisas daqui e esperava que logo que ela chegasse lá. Então agora eu acho que eu, alguma coisa, vou ter que escrever outra vez. Acho que há um grande relaxamento nos correios e por isto que tantas cartas desaparecem. O nosso Agente dos Correios aqui em Orleans é muito bom para nós e para todos os letos daqui. Ele as nossas cartas ele não dá para os outros não autorizados a trazerem a correspondência para o Rio Novo. Pode ser que não seja perfeito, mas o problema acho que está nos correios de todo Brasil.

Nós aqui estamos mais ou menos bem de saúde. A Olga continua do mesmo jeito. Ela tomou aquelas injeções [“Eepoteeja” indica enxerto, vacina ou inoculação e não injeção, mas por falta melhores informações preferimos injeção] daqueles outros remédios, mas não melhorou nada e depois ela voltou ao médico e ele não mais dar aquelas injeções porque poderia até piorar e por isso deu outros remédios para tomar e disse que fosse para as “Minas” [Era como era chamada Lauro Müller, naquele tempo um distrito de Orleans] porque aquele médico que mora lá poderia acertar. Mas a Olga não quer aquele médico e levar a força não vale a pena. Porque prá ela é assim: se os remédios não fazem efeito logo de pronto estes, remédios não, servem ou não prestam. Agora a Mamma trouxe todos os livros de Medicina do Zeeberg [Karlos Seeberg era um prático na área da Medicina alternativa muito procurado na região que seguia o famoso monge alemão Kneipp, apóstolo da Hidroterapia e também usava Homeopatia e Fitoterapia] e ela vai procurar algo que sirva para ela.

Quando é que você vai para Ijui, pois aqui todas pessoas sabem através do “Kristiga Balss” [Kristiga Balss era um periódico batista leto editado na Letônia.], pois o Ukstin escreveu que já tinham convidado você para pastor e somente estavam aguardo o “sim”. Onde ficou o Kartinh? Será que já foi mandado embora? O teu colega, o Linkis, nada te conta sobre eles? Por que você não escreve nada sobre este assunto? As pessoas que estiveram lá e conhecem o pessoal de lá acham que você seria muito tolo de aceitar porque eles recebem muito bem, mas logo mandam embora e que muitas pessoas são mais difíceis que as daqui. Se por acaso fores para lá, poderás dar uma entrada até aqui no Rio Novo para descansar um bocado. É bem provável que ninguém vai tocar você embora somente avise quando você vai chegar senão a Lede poderá estralhaçar as tuas calças. O Arthur diz que você deveria vir aqui durante o Natal, pois também poderá estar aqui o Arthur Leimann para vender o terreno, pois o Fritzis escreveu que eles querem vender logo aquele terreno e pergunta se você não quer comprar. Assim você poderia ter mais terras.

As roças este ano estão mais ou menos bem. As plantas estão crescendo bem, somente o milho do tarde foi perdido com a seca. Mas conseguiremos sobreviver. Os porcos conseguimos engordar com o milho do ano passado. Agora começamos colher o milho da nova colheita. Cinco dos porcos muito gordos já vendemos conseguimos mais de 700 mil réis e ainda mais cinco prontos para serem vendidos. Também temos muitos outros para serem separados para engorda. Agora o preço do toucinho está baixando, estão pagando só 23$000 a @. A farinha de mandioca está valendo agora 8$ o saco, mas há pouco estava a 5$ e como sempre tudo que a gente tem para vender é barato e o que a gente tem para comprar está sempre caro.

Os nossos parentes têm escrito para você? Para nós faz tempo que não escrevem. Escrevemos duas cartas, mas não obtivemos respostas. Eles devem estar aborrecidos porque eles sempre insistiram para que fôssemos visitá-los e ninguém foi. Eu bem que queria ir, mas não deixaram. Você bem que poderia fazer uma visita, pois durante a semana você poderia ir e voltar em caso que não quiser passar o fim de semana lá.
Aqueles jornais e outros papéis eu recebi e por tudo muito obrigada. Aquele jornal poderia encadernar [“Costurar junto], mas falta o primeiro número. Este ano “O Crisol” não vai sair? Por que você não os tem mandado? Tens recebido o “Selhmallas Seedi” [Flores a beira do caminho]? Mande-os para mim.

Terei que terminar de escrever porque o relógio marca mais de 12 horas da noite e eu preciso ir dormir. Eu quase nunca consigo dormir cedo e ainda 3 noites por semana tenho que ir a Igreja aprender a cantar para as festas.
Se você também escrevesse cartas tão longas seria muito bom. Eu já mandei uma carta em abril. Esta já foi recebida?
O tempo agora está magnífico e bastante frio. Pode-se congelar quanto quiser, mas geadas ainda não tivemos e é possível que tão breve não as tenhamos. Venha no dia 16 de maio, eu vou fazer aniversário e vou fazer uma rosca especial [Kringelis – uma rosca especial feita como fosse com massa de pão, mas com muita manteiga e outros ingredientes. (ver a receita no capítulo “Pratos e comidas letas”] e você pode vir ajudar comê-la.

Ainda muitas e saudosas lembranças de todos de casa e vamos aguardar longa carta. Eu fico feliz quando você diz ir bem em seus trabalhos. Apesar de eu aqui nada possa te ajudar, mas peço a Deus em minhas orações todos os dias e mais do que isso nada posso fazer, mas o Senhor pode ajudar em qualquer lugar.

Desculpe por eu estar escrevendo tão rápido, mas certamente vais entender. – Lucija.

(Escrito a lápis no verso de uma das páginas)
Tinha esquecido de mencionar que na semana passada no dia 27 o Willis Slegmann viajou para ir servir o Exército. Foram juntos para despedida até Laguna o pai, a mãe e a noiva. Os demais letos não foram chamados ainda. Se algum será convocado, eu não sei. Existem informações circulando que mais reservistas serão convocados, mesmo os que estejam doentes ou que pagaram os 100$$. Alguns já foram embora daqui senão. [Sempre nestas convocações ou sorteios existia uma espécie de “terror” gerando boatos e insegurança nas famílias dos possíveis futuros reservistas]
Então agora estás recebendo uma longa carta e se me responderes pelo menos a metade desta será muito bom.
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O Pastor Karlos Anderman .Depoimento de Júlio Anderman um de seus filhos.

O PASTOR KARLOS ANDERMAN. | POR JULIO ANDERMAN, UM DE SEUS FILHOS. 5ª PARTE (última)

O PASTOR KARLOS ANDERMAN
5ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
]

Passei a trabalhar para a Família Kreplin, constituída dos pais e vários filhos. Eu dormia no mesmo aposento de um deles, o Ernesto.
Tive o privilégio de conviver dois anos no seio daquela família, um modelo de comportamento da Denominação Batista daquele lugar. Eram firmes nas suas convicções, honestos, tinham aptidão para gerir os seus negócios materiais com muito êxito e o seu lema era “ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto”, incluindo o meu.
Todo o dia de trabalho se iniciava às 4 horas da madrugada. Os pais acordavam primeiro para fazer o café da manhã. Isto feito os dois abriam o Cantor Cristão num hino e entoavam a melodia em duas vozes. Então vinha o Ernesto; em seguida o Roberto e as duas moças, engrossando este coro polifônico neste “toque de alvorada” que me acordava também, o mais jovem e lá vinha eu esfregando os olhos dos últimos vestígios do sono. A última estrofe nunca era cantada sem a minha presença; então era uma obrigação moral saltar logo da cama para não deixarem os outros repetirem.
Todos reunidos o Patriarca lia uma passagem da Bíblia para a meditação e designava alguém do grupo para fazer uma oração a Deus pedindo a benção para os afazeres daquele dia que ora se iniciava.
Tomava-se o café. Chamava os muares de tração para a sua refeição matinal e depois, junto com a filha Vitória íamos para o estábulo tirar o leite das vacas, bem uma dezena delas formando duas filas. Enquanto elas saboreavam a ração, nós espremíamos as tetas antes lavadas com água, com a mão, esguichando jatos de leite dos úberes intumescidos, para o balde.
Com detalhe me lembro de duas vacas temperamentais; uma delas somente consentia soltar o leite se estivesse comendo a batata doce; a outra, somente deixava ser ordenada por mulher, ela olhava primeiro e se fosse homem soltava um coice atirava longe o intruso.
Às vezes a Vitória de brincadeira colocava esta vaca na fila da minha ordenha. A luz bruxuleante pendurada no meio do estábulo não permitia distinguir qual era delas, pois todas eram castanhas e quando ela virava a cara já era tarde. Ela soltava o coice, enquanto a Vitória ria gostosamente.
Na ordem do dia então constava o segundo café que era reforçado por frutas e proteínas. Em seguida atrelava os muares que atendiam pelos nomes de Dourado e Galego que eram animais de tração de muita força e rebocavam os implementos agrícolas. Eram tão integrados no trabalho que faziam animados e repetiam as diversas fases como se tivessem uma inteligência imaginativa.
Doze horas, meio dia, era a hora do almoço. Desatrelava os animais e os conduzia para a manjedoura para comerem a sua ração, depois deles também eu ia almoçar junto com a família toda reunida por que os Letões tinham o costume de acolher os seus empregados na mesma mesa e assim como de manhã também agora a refeição era precedida por uma prece. Depois desta refeição na escala do dia constava o trabalho que consistia em cortar capim para triturar a ração, descascar milho, rachar lenha e outras funções consideradas repousantes. Às 15 horas a parelha alimentada e repousada junto com o seu condutor outra vez ia para o trabalho na lavoura.
Eram dirigidos por rédeas, mas os animais estavam tão habituados a rotina que, depois de virados no fim do rego, sabiam o rumo tanto na ida como na volta.
Entre o Dourado e o Faceiro havia uma diferença quando estourávamos acidentalmente uma cachopa de marimbondos, o primeiro ficava pulando no mesmo lugar enquanto o outro queria disparar, mas quem ficava mordido era eu.
Não era cansativo por que era só segurar nos manches do arado e acompanhar arrastado o sulco.
Havia ainda um lanche no interstício desta segunda jornada, que era trazido pelas mãos diligentes de alguém da família, antes do dia terminar com o aparecimento da estrela vespertina, por que as horas do ocaso eram mais frescas e por isto mais produtivas.
Os animais tinham um tratamento quase humano por que solidários com o homem enfrentavam o trabalho, comiam a última ração antes de serem soltos no pasto.
Depois de admitido na União de Mocidade, também comecei cantar no coro da Igreja um conjunto maravilhoso que se apresentava na estação de rádio de Campinas e uma vez veio cantar na primeira Igreja Batista do Rio de janeiro.
Era aprendiz por isto não tinha nenhum destaque. Os ensaios eram acompanhados por violino, voz a voz por que o harmônio, que tinha a afinação temperada, não oferecia a perfeição desejada. O coro cantava a capela todos àqueles hinos que Lakshevics depois traduziu para o português, mas as silabas anazaladas do nosso idioma português tiravam deles aquele brilho por que as consoantes é que dão o ritmo e destacam a pronúncia fazendo o texto compreensível. Os ensaios realizavam-se duas vezes por semana, as quartas-feiras e na véspera dos domingos.
Em algumas ocasiões o grupo da mocidade alugava um caminhão com bancos de tabuas atravessando a carroceria que era lotada para passeios no Carioba, então cantávamos a quatro vozes:
Se nos cega o sol ardente.
Quando visto em seu fulgor.
Quem contemplará aquele.
Que do sol é Criador.
Mas para mim o ponto alto da minha mocidade de efeito inesquecível foi à festa do aniversário que me proporcionaram. Eu estava dormindo, mas às duas horas da madrugada toda a mocidade da Igreja reunida no pátio da casa dos Kreeplin, de surpresa começou a cantar uma serenata acordando-me. Custei a me convencer que a festa era em minha homenagem. Quando desci fui abraçado, cumprimentado e fui distinguido com um lanche constituído de refrescos, guloseimas e ainda mais, o tradicional bolo de aniversário acompanhado de “Parabéns prá você”; tudo aquilo preparado pelas mãos diligentes daquela boa gente.
Como presente de aniversário ofereceram-me uma Bíblia com uma dedicatória autografada por todos os presentes. Esta Bíblia me acompanhou durante muitos anos. Levei ela comigo para a 2ª Grande Guerra na Itália no saco “B”, sim, por que tínhamos duas bagagens, a “A” que continha as coisas de uso diário e acompanhava o soldado na linha de frente e o outro que ficou na retaguarda. Nunca mais consegui reaver o saco “B”. Depois comentaram que o navio bagageiro que transportava este material fora afundado por um submarino alemão.
No entanto estava escrito que eu não ficaria na Fazenda Velha; os meus caminhos se abriram e a convite do meu irmão Emilio viajei para tentar a vida no Rio.
Tempos difíceis àqueles nos quais um jovem habituado a soltar as rédeas do pensamento em devaneios enquanto andava atrás da semeadura, agora era obrigado a concentrar-se em detalhes do trabalho mental.
A experiência adquirida no exercício da lavoura me ajudou muito e deu destaque a minha atuação até hoje, por que o próprio fluxograma de preparar a terra, plantar, cultivar, colher, predispõe para o planejamento com previsão para um resultado em longo prazo que é muito mais produtivo do que a especulação momentânea cujo lucro se esvai com a mesma facilidade com que veio. Em conclusão deste item posso dizer que tudo aquilo que eu fiz foi realizado com êxito, graças a Deus.
No Rio comecei a freqüentar a Primeira Igreja Batista de Catumbi na qual participei do coro e ingressei na União da Mocidade. O Pastor Antonio Neves Mesquita percebeu logo que havia algum problema com a minha vida espiritual. Ele me convidou para ser membro da Igreja, fiquei de pensar sobre o assunto e em conseqüência me abri com ele sobre todos aqueles acontecimentos havidos com o Pentecostalismo e a minha descoberta da mentira.
Fui franco, disse: “e tem mais, para resumir, como poderia ter Cristo subido aos céus com o seu corpo físico ressurreto se hoje sabemos que depois da estratosfera o corpo se desfaz”.
Depois conversamos sobre a imortalidade da alma, sobre a eternidade, a respeito do céu e do inferno e outros assuntos que a seqüência fria das palavras não conseguia explicar a luz dos conhecimentos modernos.
Então o que ficou resumido no meu cérebro, até hoje, foi à explicação que tudo era uma questão do “estado da alma”. De acordo com o meu procedimento eu poderia me sentir no céu ou no inferno. Que esta questão de eternidade perante Deus não tinha nenhuma significação por que cada momento se eterniza.
Conclui assim que havia uma eternidade horizontal que se traduzia em séculos e uma outra vertical que traduzia o momento vivido e por fim, de que a eternidade secular nada mais era do que a soma dos momentos vividos e que de acordo com as Escrituras, perante Deus um dia vale mil anos e mil anos são como se um dia fosse.
Sentir-se salvo por Jesus Cristo neste momento e nos momentos seguintes justapostos constituem a eternidade, incompreensível para a mente humana e sentir-se salvo na hora da morte também se tornava um sentimento infinito, eterno, como também a angustia provocada pelos pecados na hora final se perpetuava.
Batizado tornei-me membro da Igreja Batista e foi para valer, pois até hoje não tive dúvida sobre a salvação da minha alma. Cheguei a conclusão de que a religião era como se fosse um fio de ouro que acompanha o crente durante toda a linha da vida. Conclui que a religião não é para ser cultuada, mas para ser vivida intensamente.
Em Jesus adquiri um amigo que me guiava e acompanhava os meus passos mesmo materialmente e que não podia deixar ele do lado de fora esperando enquanto eu estivesse praticando num cômodo vizinho, um ato indigno.
Não era infalível, mas nas transgressões valia o arrependimento e o pedido de desculpas.
Mas afinal o que é o pecado? São atos repetidos que primeiro aniquilam o corpo orgânico e depois destroem o espírito. Antes da descoberta da cirrose do fígado provocado pela ingestão da bebida alcoólica, do enfisema conseqüência do fumo, da aids provocada pelas drogas injetadas e o heterosexualismo que um sinônimo de prostituição, os Batistas consideravam a conversão do crente como prova do abandono destes vícios e outros como apagados de uma nova vida pelo batismo.
Naquela mesma ocasião li o Discurso do Método de René Descartes que muito me influenciou. Este livro nada mais ensina do que a procura da verdade. Jesus resumiu este assunto quando disse: “vossa palavra seja sim, sim; não, não o que passa disto é do maligno”. Então na minha concepção firmou-se a convicção de que somente havia uma maneira de discernir uma questão; a certa ou errada, não existia meio termo. Aquele filósofo concluiu que a verdade era clara como o sol, ela não poderia ser destruída nem pelos amigos, nem pelos inimigos e tinha de resistir à prova de causa e efeito. Assim uma tese ateísta reforçou a minha fé evangélica.
Por exemplo, ao analisar o Pai Nosso descobri que neste texto havia ensinamentos de ordem prática. A frase “e livrai-nos das tentações” para mim passou a ter uma significação ativa e passiva. Então se eu, um crente, por negligência, descuido ou omissão permitisse que alguém “caísse em tentação”, eu tinha parte da responsabilidade pela falta que o outro praticou. Ela encerrava também um dos princípios da administração que é a vigilância constante para desencorajar a tentação de quem quiser dilapidar o patrimônio.
A outra citação: “pão nosso de cada dia nos dá hoje” não podia ser interpretada de uma maneira tão simplista de que Deus apanhasse uma côdea de pão na sua dispensa celeste e a colocasse sobre a mesa do peticionário num piscar dos olhos. Primeiro Deus fazia plantar a semente, depois cultivar, mandar para o moleiro triturar os grãos em farinha, ser manuseada pelo padeiro, assado no forno aquecido e por fim adquirido na padaria e somente depois a colocação do alimento sobre a mesa e o agradecimento a Deus por esta dádiva que passou por tantas mãos que instintivamente agiam como se a ele representassem.
Isto tudo foi citado resumidamente, por que somente o ato da semeadura ocupou bastante espaço quando analisado por Nosso Senhor naquela parábola do semeador.
É duro dizer isto, mas numa análise Cartesiana, somente poderiam existir dois tipos de espírito; o Santo que vem de Deus, pela primeira vez mencionado em Gênesis: “e o Espírito de Deus repousava sobre as águas” e que depois, materialmente realizou toda a obra da criação do mundo e o Espírito das trevas tantas vezes mencionado na Bíblia.
Quando nos Atos dos Apóstolos houve uma manifestação do Espírito Santo que induziu o uso de línguas estranhas, parece o efeito da causa por que todos entendiam no próprio idioma o que eles estavam dizendo, ficando assim estabelecido o principio de causa e efeito que rege a ciência.
Assim se um seminarista aprende um novo idioma durante o curso de Teologia para como missionário em terra estranha pregar o evangelho, ele cumpre o efeito embora a causa seja outra.
Então podemos propor um desafio para aqueles crentes que se dizem poliglotas por obra do Espírito Santo; é mandá-los pregar da mesma forma sem a memorização e depois verificar se o efeito foi o mesmo; se alguém entendeu alguma coisa do que disseram.
Destes profetas Pentecostalistas Letões que não sabiam a nossa língua, nunca ouvi dizer que algum deles depois de inflamado tivesse o dom de pregar em português para converter os brasileiros. Os pastores que o fizeram, aprenderam o idioma a duras penas; esta sim foi uma inspiração do Espírito Santo e entre eles também incluo o meu pai.
Por outro lado tudo que aconteceu nos primórdios do Cristianismo ficou escrito para análise e meditação, como foi aquele milagre quando o poder de Deus mandou o seu anjo para soltar o Apóstolo Pedro da prisão, mas destas línguas estranhas que se ouvem balbuciar hoje nas reuniões de Pentecostalistas e que pressupostamente deveriam conter mensagens preciosas para a meditação; nenhuma mensagem foi gravada, traduzida ou transcrita, apesar das facilidades dos meios de comunicação modernos. Isto mesmo pode-se dizer das visões, profecias, milagres que deveriam ser registrados para comprovar a sua veracidade pelo principio de causa e efeito.
Comparando, então podemos dizer que o Espírito de Deus que pairava sobre as águas disse: “haja luz”, quando aconteceu aquela explosão indescritível da criação de todo Universo e que atualmente os astrônomos chamam de ‘Big-bang “; assim ele fez todas aquelas coisas mencionadas na Bíblia, que naquela ocasião não poderiam ser narradas de outra forma por que o pensamento humano ainda não havia aprendido bastante para entender – e agora, em contraste aparecem alguns grupos que tem a ousadia de dizer que estão evocando este mesmo Espírito Santo de Deus para animar reuniões de saltimbancos, e que, no mínimo, pode ser considerado chacota e desrespeito”.
Finalmente, se você já passou, ou quando passar por uma desilusão igual a que eu passei e por isto tornou-se incrédulo então pense: “Quem criou o Universo e o sustenta?” Se você não quer chamá-lo de Deus, então lhe invente outro nome ou aproveite dos muitos que já existem – Bog em russo, Gott em alemão, Allah em árabe ou Adonai em hebraico, por que Ele é tudo aquilo que o cérebro deduz e que todos igualmente imaginam que Ele seja e que a cada nova descoberta cientifica é exaltado. Se além de tudo tiver duvidas, na hora de conciliar o sono, à noite, consulte o seu coração e ele lhe dirá muitas coisas que o cérebro não soube deduzir.

F I M

Primeiramente desejo muitas felicidades pela passagem de seu Aniversário. | De Luzija Purim para Reinaldo Purim – 1925 –

Rio Novo 4-1-25
Saudações!

Querido Irmãozinho!!

A tua carta escrita no dia 8 de dezembro e por ela muito obrigada.

Primeiramente desejo muitas felicidades pela passagem do teu aniversário. Se você tivesse mandado alguma lembrancinha no meu aniversário, também eu teria mandado para você, Mas agora deixa como está.

Nós graças a Deus estamos passando suficientemente bem, ontem o tempo foi muito quente. Vieram nuvens e nos costões da serra roncava trovoada. Mas aqui caíram somente algumas gotas. Em outros lugares deu uma boa chuva. Hoje novamente amanheceu quente e logo depois do meio dia começou a ficar nublado e começou roncar trovoada, mas não chegou até aqui. À noite nós fomos a Igreja para um culto de Oração então sim, começou a chover forte.

Semana que vem novamente vamos ter separação e despedidas, pois a Marta Slegmann com o seu irmão Edvard e mais o pastor Stroberg irão para Varpa. O Stroberg, este, vai voltar no próximo mês. Ele está indo para Varpa porque lá ele ainda tem partes da mudança e das suas coisas. Também tem uma gleba de terra. Vai primeiro regularizar tudo para depois voltar. Vai trazer junto uma tia dele que está ainda lá. Também no mês que vem o Strobergs vai para Kuritiba estudar. A igreja aqui recebeu uma carta de Kuritiba, na qual convida para que a Igreja aqui envie um estudante para lá para estudar com a vantagem de obter uma mensalidade reduzida. Como agora o preço e 90 mil réis para ele vão fazer somente 60 m. por mês. Diante desta oferta a igreja resolveu mandar o Stroberg, para que ele possa aprender a língua portuguesa, para possibilitar a pregação também para outras pessoas, porquê os Rio-novenses são suficientemente ricos e todos tem dinheiro para pagar os seus estudos e quando recebem os Graus de “Doutor” [Alguma vaga referência ao Sr. Reynold Purim] eles não querem voltar mais para cá e a Igreja fica novamente sem pastor.

Nós vamos sentir a falta do Stroberg como dirigente da Escola Dominical, pois ele sabia bem dominar as crianças e também a nossa classe vai ficar sem professor, pois até agora era ele quem dirigia, pois a senhora Beker, faz bastante tempo deixou desta função. Também o Gustav Grikis logo vai mudar para as Serras [Urubicí] para morar lá e hoje já declinou do cargo de regente do coro da Igreja. Por ai você pode ver que nós temos os momentos alegres, mas também temos os momentos tristes, mas neste mundo é assim mesmo.

Bem desta vez vou ter que terminar, porquê já é tarde e você sempre manda cartas de somente uma página. Eu me alegro porquê está passando bem e já terminastes o curso na Escola e não está mais amarrado à carteira ou a classe e assim podes respirar mais livremente. Eu sempre oro por você para que com você vá tudo bem. Eu também tenho um forte desejo de aprender mais. Mas onde eu irei conseguir, Estou tentando aprender alguma coisa em brasileiro, bem, mas como eu vou conseguir, pois trabalho na roça o dia inteiro. Em casa tenho que fazer tudo e as forças não são lá tantas assim, para dar conta do recado e ainda achar tempo para estudar alguma coisa.

Ah! Quase ia esquecendo; Hoje recebemos uma carta do Tio Ludwig. Quando aquele senhor Isernhagen esteve de passeio aqui em casa, nós comentamos porque ele não escreve. Então ele levou uma bronca do amigo dele, então rapidamente ele nos escreveu. Ele está muito bem, mas a tia [Helena Rose ] não esta nem doente nem sã, mas falta alguma coisa. Ele mesmo diz que engordou. Ele também convida para que eu vá até lá vai precisar um cavalo muito forte para trazer para cima, [Não está claro, parece que ela pensou que ambos iriam montar o mesmo animal ], pois só ele pesa mais ou menos 100 quilos, eles estão morando naquele mesmo lugar, mas também comprou um pequeno pedaço de terra próximo à cidade por 6 contos e logo está construindo a sua nova casa própria. Então nós todos devemos ir passear na nova casa dele.

Ainda muitas lembranças de todos de casa e que você esteja passando muito bem. Luzija

…e por que não ficou mais tempo aqui. | De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1924

Rio Novo 25-3-24
Querido irmãozinho!! Saudações!
Recebemos a carta escrita em 1-III-24 e também aquela escrita em Imbituba. Muito obrigado por elas. Eu já no dia 29 de fevereiro escrevi uma carta para você. Você já a recebeu?

Nós graças a Deus estamos suficientemente bem.

O que está um tanto irregular é o tempo. Agora está muito seco. Ontem foi muito quente e formaram-se nuvens e ficamos aguardando a esperada chuva e só caíram algumas gotas. A ventania que veio junto empurrou as nuvens embora deixando no rastro muito milho derrubado daquele que tinha sobrevivido a seca. Hoje está novamente um tempo bom e até bem fresco e até parece um dia de outono.
No dia 6 de março prá lá de Orleans, principalmente em Palmeiras[Pindotiba] deu uma grande chuva de granizo. As pedras de gelo eram do tamanho de ovos de galinha e até maiores. Destruiu telhados e vidraças das casas, pessoas, animais, as lavouras. A tempestade durou uns 15 minutos. Naquele dia nós não tivemos nada além de poucas gotas de chuva. Noutro dia choveu, mas muito pouco para as nossas necessidades. Este ano é bastante interessante em alguns lugares chove até demais e outros como aqui está seco demais.

Você quer saber como vai o trabalho em Orleans, Nada de novo não tem acontecido. Parece que não há muitas pessoas muito interessadas naqueles cultos.
Alguém outro, dia, perguntou por que você ficou tão pouco tempo e porque não ficou mais tempo aqui. Eles pensam que você vai mandar alguém outro para ajudar no trabalho aqui.
Aqui no Rio Novo as coisas estão variadas. Na outra vez eu escrevi que o K.Stroberg estaria chegando em Imbituba no dia 12 para trabalhar aqui, mas não chegou. Ele somente mandou uma carta para a Igreja que ele estaria disposto vir para ser pastor da Igreja, mas não evangelista. Diversas pessoas se manifestaram em contrário, pois se ele não pode vir como pastor, de evangelistas há tanta necessidade. Seria muito difícil uma pessoa que não sabe falar em língua brasileira fazer qualquer trabalho evangelístico. Nós precisamos uma pessoa que possa trabalhar para fora, pois muitas portas estão abertas para o trabalho. Assim mesmo a maioria venceu e então estão mandando um telegrama para que ele venha para cá, mas existem muitas dúvidas é o resultado disso tudo só Deus sabe, pois os desencontros de opiniões são demais.
Na quinta feira [Dia 20 de março era o aniversário da Igreja Batista de Rio Novo ] passada foi a festa de aniversário da Igreja. Foi um dia lindo. O que mais tinham eram hinos, músicas e diversas poesias. Saudações de outras Igrejas Batistas Letas sob forma de cartas e por telegrama da Igreja de Ijuy. O que você pensa da Igreja de Nova Odessa veio um mensageiro especial: o próprio Pastor Karlis Kraul e ainda hoje está dirigindo um culto em Orleans. Aqui ele falou na Festa, no culto especial na Sexta feira a noite, no Domingo pela manhã e no culto a noite e ainda mais em um culto especial na Terça feira a noite. A pregação dele muito se assemelha a do Stroberg. Ele também fala sem nenhuma preparação. Ele é um grande orador, mas do texto lido, ele sai embora para longe. Ele é de estatura bastante alta, mas a face bem queimada, parecendo mesmo um brasileiro. Teria muito o que escrever sobre suas mensagens, mas quem consegue descrever tudo.
Há pouco tempo recebemos uma carta da Lilija. Ela brigou comigo porque eu seria igual a você, que fica reclamando do muito trabalho. Ela também escreve que não vai escrever mais para você enquanto você não responder a carta dela. Você bem que poderia mandar uma cartinha, para que a paz volte imediatamente e tudo estará bem.
Como foi a tua viagem no navio? Você foi de primeira ou segunda classe? Quanto custou a passagem? Em Paranáguá você desceu para conversar com o Karlis Leiman ou ele subiu a bordo?
O Link também viajou para o Rio? Como ele passou lá na terra dele? Que trabalho você faz na Escola? Como vai tudo de modo geral?

Bem desta vez deve ser suficiente e o que vou escrever na outra vez e é possível que não tenhas nem tempo para ler. Também recebemos “O Crisol” só que achamos tão vazio. [Crisol é um cadinho para fundir e purificar o ouro. Não se sabe se refere a publicação ou mais no sentido de não ter vindo algum ouro no crisol ]

Aqueles remédios para Mal da Terra [Ancilostomíase] e aqueles livros você já mandou?

Se você escrever tanto quanto eu escrevi será muito bom.
Muitas lembranças de todos de casa e também da Luzija.