Um tiro no próprio pé | Robert Klavin a Reynaldo Purim

Antunes Braga, 29-07-17

Querido amigo Reinhold,

A tua longa carta recebi e por ela agradeço, foi muito interessante. Desta vez demorei a responder, devido a diversos obstáculos.

Estive trabalhando na construção do engenho, e no momento estamos construindo a roda d’água. O açude está pronto faz tempo, e se você quiser dar umas braçadas e nadar um pouco pode vir para cá. A primeira idéia era fazer com que a água passasse por baixo da roda, mas depois de uma série de avaliações chegamos à conclusão que um rendimento muito maior seria obtido fazendo com que a água passasse por cima da roda. Para isso tivermos fazer uma valeta profunda costeando o barranco do rio (mais funda que altura de um homem) e colocar uma calha passando por cima da estrada da entrada e da construção da fábrica. Se não houver nenhum atraso dentro de um mês deverá estar pronta.

Sobre a Igreja de Rio Novo sei muito pouco. Dizem que o Frischembruders está demandando com o Slegman devido ao uso de um caminho. O Bankovitch não está morando com o Slengmann; está morando com Juris e este último está pedindo meia colônia pra ele também. A senhora Stekert reclama que o marido não está dando de comer, que ela está passando necessidades e ele ignora que ela existe.

Tem rionovenses reclamando que a escola está sendo dirigida por um professor ateu [Nota: Provavelmente o famoso João/Janis de Riga], e que nas noites de apresentações já estão sendo apresentadas participações com conotação inteiramente pagã. Dizem que o Professor é um grande Homem e é “intocável”; que a tradicional caixinha de perguntas sumiu de todo; que o Jenzis Frischenbruder e o Augustin Felberg estão indo a Orleans para aprender a tocar instrumentos de sopro com o pessoal da banda e que por enquanto estão tocando hinos, mas a qualquer momento poderão estar tocando marchas, polcas, etc.

Contam ainda que o Artur Paegle deu um tiro no pé com uma pistola Browning, e ainda bem que não aconteceu um desastre maior. O acidente foi assim: um freguês da serra trouxe a pistola para fazer uma revisão; [o Artur] tirou o pente de balas e, esquecendo que poderia haver uma bala na agulha (havia), fez o primeiro teste direto no pé.

[Aqui uma parte ilegível que trata de dificuldades de locação de casas em Orleans e algo sobre a demanda entre o Slegman e o Match sobre uma indenização de um trecho de estrada em algum lugar]

Agora que já conheces bem a tua cidade e também a tua nova igreja, gostaria que contasse com detalhes a tua nova vida, e quais são as atividades nesta Igreja.

Concluindo, desejo que te vá bem e que Deus te ajude. Receba muitas lembranças de meus familiares e finalmente as minhas.

Roberts [Klavin]

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Um mar de fogo | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 26 de julho de 1917

Querido Reini,

A tua carta escrita em 10 de julho recebi ontem a noite, quando fomos ao culto lá na casa dos Leimann, e foi o Jurka quem me entregou. Muito obrigado. Você escreve que aguarda resposta de duas cartas. Há duas semanas mandei um rolo com as cartas e na semana passada, mandei escrevi outra aproveitando os dias livres, e como podes ver as cartas vão e vem muito devagar.

Nós estamos passando bem, estamos todos com saúde. O tempo está bom e quente e parece um ar de primavera. Ontem e hoje está soprando um vente quente, do lado da serra parece que está se aprontando para chuva: estão aparecendo nuvenzinhas planas e está ficando tudo enfumaçado, por que na serra a queima dos campos está medonha. Ontem a noite quando voltávamos dos Leimann [trajeto Rodeio do Assucar – Rio Carlota – Rio Novo] podíamos ver no alto da Serra um mar de fogo. Até o Limors quis ver como é linda uma queimada e pôs fogo na samambaia seca no lado de baixo da estrada; esta queimou com tanta violência que o assustou. Ele teve que gritar chamando os vizinhos para ajudar a apagar, pois estava queimando demais.

Se o verão for tão seco como agora vai queimar demais, pois a vegetação está toda morta por causa das geadas. Hoje começamos a cortar a cana de açúcar. As canas novas cresceram pouco e
têm poucas folhas novas; as canas velhas estão bem ressequidas e por isso não vão dar grande coisa. A arroba do açúcar está valendo 10$000 mil réis.

Sobre [a igreja d]o Rio Novo vai diferente e nem por isso muito bem. A mocidade tem uma apresentação mensal de temas livres, onde todos participam, e que é feita numa das noites. Fazem também uma caixinha de perguntas, mas dizem que são tantas as asneiras perguntadas que se se fizesse uma revisão pouca coisa restaria. Dizem que os grandes desta área são o Emils e o Blukis.

Até o Arnolds Klavin tem para lá corrido, para ouvir desta sabedoria. Pode ser que ele te escreva mais do que eu saiba.

Do Oscar nada foi anunciado do púlpito, porque ainda não foi tão longe. A senhora Frischembruder, depois de muita luta, conseguiu levar o Osvaldo, até a declaração oficial e pública. Por isso o Oscar foi para o Rio. A mãe dele queria afastá-lo da Lida; a intenção do coração dele não era esta, mas o menino não é tão bobo que possa esquecer tão rápido.

O Oscar conta que no Rio não tem nada de bom e que quando você não tem dinheiro ninguém te liga. Em relação aos estudos, não poderia ir em frente, pois todos os exames são comprados a dinheiro e se não o tiver você não passa; os professores não gostam de pobres e os bons lugares são só reservados para os ricos.Todos aguardam tuas cartas, mas nem todos têm facilidade para escrever. Que o dinheiro domina o mundo. Diz ele que se dará por feliz quando conseguiu sair fora deste pesadelo.

O Ludi [Ludvig] te escreve? Temos escrito várias cartas mas não obtemos dele nenhuma resposta. Nesta última mandei a fotografia do Fater e, como não tenho resposta, não sei se recebeu ou não. Pode ser que ele tenha escrito e a resposta tenha caído na mão dalguns rionovenses que você sabe…

Bem por hoje chega. Muitas lembranças de todos, todos aguardam tuas cartas, mas nem todos têm facilidade para escrever.

Viva com saúde.

Olga [Purens]

[Nas laterais da carta] Nesta carta coloquei um papelzinho verde. Fio de lã preta não temos mais, quanto nós tínhamos você levou; será que lá não tem para comprar? E os buracos maiores podes remendar com tecido.

O serviço não tem fim | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo 19-7-17

Querido irmão,

Recebemos domingo passado tua carta escrita no dia 28 de junho. Muito obrigada.

Desta vez minha carta não será longa como a sua, por que semana passada mandamos quatro folhas; então, na soma geral, será maior que a sua. Agora vai fazer três semanas que te mandei uma longa carta em resposta àquela que veio em nome da mamãe. E semana passada mandei a resposta àquela que veio em nome do Roberto – e nessa mandei as fotografias dos músicos lá da Igreja.

Na última vez não mandei envelope, mandei um rolinho. Comprei um bloco de cartas e dentro pus cinco envelopes. Num dos envelopes pus um papelzinho verde e no outro
10$000 em dinheiro. E mais as duas fotografias dos músicos, e mandei registrada.

Tu tens recebido todas? Agora consegui mais três fotografias dos músicos; no total tenho quatro em casa. Se tu queres mais me, escreva que eu te mando. Mas estas últimas não ficaram tão boas (escuras) quanto as primeiras e sim com um tom acinzentado. As que foram feitas depois não ficaram tão boas como as primeiras.

Aqui estamos passando bem, todos com saúde. O tempo hoje e ontem ficou encoberto, mas não choveu. Na outra vez que escrevi esta quente, mas já no dia seguinte deu uma forte cerração e soprava um vento muito frio. De terça-feira passada até a terça-feira desta semana o tempo tem sido bom, mas todos os dias amanhecem com uma geada forte. Principalmente na quarta e na quinta-feira, a geada foi pesada. Mesmo os nossos pastos aqui no alto estavam brancos, e lá embaixo perto da igreja todas árvores e capoeiras estavam cobertas de geada: mais pareciam cobertas de neve.

Agora da nossa Bukuvina dá pra se apreciar uma vista maravilhosa da serra. O céu está de um azul límpido. Mas ao anoitecer as serras aparecem um pouco enfumaçadas, porque os serranos estão começando queimar os campos. A chuva está ficando rara agora no inverno, e no verão vamos ver como vai ser.

Terminamos de colher o milho, e todo milho está no paiol. Deram 200 cargas. Nenhum outro ano tivemos tanto milho no paiol. Ano passado terminamos de colher o milho no dia 22 de agosto, e este ano um mês antes. O milho deste ano fui muito bom, com exceção do plantado mais no tarde, que não deu espigas muito grandes, porque o tempo esteve muito seco. Na semana que vem vamos começar a cortar cana. Aqui o serviço não tem fim: mal um termina e já tem outro aguardando.

Sobre os rionovenses nada vou escrever porquê tudo continua como sempre (velho). Havendo alguma novidade depois eu escrevo.

Amanhã tenho que ir a Orleans. Preciso ir dormir cedo porquê amanhã tenho levantar de madrugada. Escreva bastante. Lá onde você está você vai capinar alguma vez? As suas calças e camisas não estão por demais usadas? Você por acaso não está precisando de novas fronhas?

Muitas sinceras lembranças do Papai, Mamãe, Luzija, Arthurs

e da Olga

Outras pessoas que escrevem melhor | Theodors Klavin a Reynaldo Purim

Barro Vermelho, 15 de julho de 1917

Querido amigo Reinhold,

Devo pedir desculpas pelo longo tempo que não tenho escrito. Aqui agora sopram ventos, ora quentes, ora frios; pela manhã são frios, e lá pelo meio dia são quentes – e o tempo está muito seco.

Na noite das reuniões, antes de começar, agora é determinada a leitura em brasileiro e também um ditado. O professor é o Arturs [Leiman] e os alunos somos nós mesmos. A minha deficiência é que não sei escrever rápido, e para ficar pior, quem senta na carteira do meu lado é a M. M.

Um dia estávamos trabalhando na construção do engenho quando chegou o Match montado numa égua que veio acompanhada por um cavalinho. Logo que entrou pela porteira ele soltou a égua para sair pelo pasto e se alimentar, e foi para dentro conversar com o Sr. Leimann.

Aí nós, rapazes, quando vimos a égua com a cauda muito comprida, logo resolvemos aprontar. Apanhamos o machado, aparamos o excesso da cauda e guardei. Na primeira oportunidade entreguei, muito bem embrulhada e num bonito pacote, para a dona da égua – a M. M. – e ela levou embora. Mas depois da reunião de quinta-feira à noite, no caminho de casa, ela começou a me apertar perguntando por quê – ou melhor, qual era intenção ou significado desse esquisito presente. Respondi que era brincadeira e não pensava nada de mal, mas ela disse que eu tinha chamado de rabo, [querendo dizer] que vivia seguindo o tempo todo, e a irmã dela também – achava que era isso que eu queria dizer com a brincadeira. Consegui convencê-la de que eu tinha dado porque, como tínhamos feito errado em cortar a cauda da égua, o mínimo que podíamos fazer era devolver o material para a dona, que era ela. Parece que eu a convenci e ela ficou mais calma.

Depois da tua saída surgiram boatos dentre alguns de nossa comunidade, de que haveria grupos querendo aparecer e fomentando desentendimento – e se fosse para descrever daria para escrever um livro.

O que realmente estou sentindo é que a M. M. quer o A.L. debaixo dos tamancos dela; ela está muito mais exibida do que no teu tempo, e acho toda essa situação muito triste.

Agora em casa estamos derrubando capoeiras e colhendo milho. Arar a terra não dá por que a terra está muito seca, seca como eu nunca tinha visto antes.

Sobre as demais novidades você deverá ter sabido através de outras pessoas que te escrevem melhor do que eu.

Com sinceras saudações,

Theodors [Klavin]

Tinham vindo diversos brasileiros | Robert Klavin a Reinaldo Purim

A. Braga, 8 de julho de 1917

Querido amigo Reinhold,

A tua carta recebi, pela qual agradeço. No mês passado diversas pessoas foram visitar o Onofre Regis. Foram as seguintes pessoas: Arnolds, Arturs, Shenne e Koleggeene.

Desta vez “aqueles aqueles” estavam com grande coragem e disposição para viagem. Estando o tempo firme e as estradas boas, e sendo o último mês que o Arturs liderava o grupo, este conseguiu arrancar as pessoas como a Kolegeene de sua “vidinha querida e suave”; desta vez ela de boa vontade enfrentou as dificuldades de uma viagem.

No domingo seguinte elas fizeram a prometida viagem para o Rio Larangeiras: foram a Kolegeene e a Isolina. Eu também fui, mas não junto, pois as alcancei e na volta não pude voltar com elas. Saí bem depois, pois tive que conferir um trecho do ABC com a Margarida, ensinar os textos áureos das próximas lições da Escola Dominical e ler todas lições dos próximos domingos. Almocei e ainda conversei com diversos brasileiros amigos, e assim mesmo alcancei a Isolina e sua companheira.

Hoje entreguei as tuas lembranças e saudações ao pessoal de Rio Laranjeiras, pelas quais agradeceram e retribuíram – principalmente a Dominga de Medeiros e Maria da Silva, que estão também muito preocupadas com a Augusta, que se prepara para casar com aquele alemão logo que possível, apesar dos conselhos de todos. Essas coisas deixam todos muito preocupados. Nos últimos tempos tinha observado que a Augusta está um tanto diferente, mas achava que não seria nada. Diferente é a Margarida, que é diligente e aprende tudo com facilidade.

A congregação de Larangeiras está com uma freqüência menor do que naquele tempo. Alguns faltam, e também aparecem outros que a gente não conhecia.

Hoje à noite dirigi o culto aqui nos Leiman em leto e em brasileiro, pois tinham vindo diversos brasileiros.

Quanto ao Oscar tenho pouco a dizer, principalmente como ele vai, pois ele faz parte do grupo do Rio Novo. O que tenho ouvido dizer é que eles mesmos não conseguiram dividir as terras, então teriam levado à justiça para orientar a divisão.

O Arvids [Karp] está construindo a casa para o Salit e quando terminar ele vai embora. O Juris também vai escrever uma carta para você, sobre suas variadas experiências de sua vida, etc.

Que Deus te ajude e que te vá bem.

Muitas lembranças de meus familiares e finalmente também as minhas.

Roberts [Klavin]

Mas não morreu na hora | Arnolds Klavin a Reynaldo Purim

Rio Novo, 8 de julho de 1917

Querido amigo,

Alegro-me em saber que estás passando bem. A tua carta recebi recentemente. O tempo está firme, com exceção da semana passada que estava nublado e soturno, mas chovia muito pouco.

Espiritualmente temos alegrias e tristezas. No mês passado eu, o Artur e o filho do Match estivemos fazendo uma visita ao Onofre. Eu fui a pé, através o Braço do Norte e eles a cavalo. Levei 8 ½ horas. Eles chegaram bem estropiados.

Reinato e uma órfã chamada Rumilda querem se unir à Igreja. Pela história dela, é filha da irmã do Presidente Campos Salles. O Onofre a encontrou em Tubarão em situação nada invejável. Ela é uma entusiasta cantora dos hinos de louvor.

Na volta, já próximo a Orleans, o trem atropelou um surdo mudo, mas ele não morreu na hora.

Triste é a situação de muitos jovens crentes, que se unem com os incrédulos, mas nesta nossa Igreja não é proibido.

Um domingo eu acompanhei uma Escola Dominical diferente em Rio Laranjeiras. Eles tinham aprendido a lição a seu modo e com suas próprias forças.

Avelino não mora mais com os Leimann. O “Engenho” ainda não está pronto. O Juris prometeu escrever.

De que jeito aqueles alunos que não tinham dinheiro para pagar os estudos passaram de ano?

Envio sinceras saudações e espero que tenhas sucesso em teus empreendimentos.

Arnolds [Klavin]