O profeta Pedro Silman e a profetiza filha do Strauss | Robert Klavin a Reynaldo Purim

29 de fevereiro de 1920, Mãe Luzia

Querido amigo!

A tua carta do dia 15-2 recebi esta semana; como não foi possível responder para o Rio Novo, vou enviar esta para o Rio de Janeiro.

Na semana retrasada estive em Campinas [Araranguá] com o Professor e outros de Mãe Luzia, e também alguns do Rio Novo, como um Leepkaln e dois dos Maisin. Aqui de Mãe Luzia saímos no sábado antes do meio dia, e a noite estávamos em Campinas. Nosso trajeto era margeando o Rio Mãe Luzia no sentido da foz, isto é descendo o rio. As várzeas das margens são de uma terra excepcionalmente boa, e a vegetação e as plantações demonstram sobejamente. As barrancas do rio quase sempre são altas e as várzeas são úmidas, como um banhado. O arroz é muito bonito, está plantado inundado, mas poderiam ser feitas valetas e trabalhado no seco, e assim poderia se plantar de tudo.

Aqui de modo geral é tudo plano e em muito poucos lugares se encontram pequenas elevações ou alguns morrinhos. Morros grandes realmente não existem. Mesmo a vilazinha de Campinas se encontra num lugar muito lindo e também muito plano. O mar está há menos de duas horas de viagem, mas lá para baixo o rio fica mais largo e fundo e para atravessar: são necessárias balsas para passar, pois de outra maneira não seria possível. Em muitos lugares consegui ver as marcas e vestígios de até onde o rio na cheia tinha inundado. O rio atingira parte das culturas com tanta intensidade que chegara a cobrir completamente as plantas nas partes mais baixas, mas a vantagem é que sendo as águas muito tranquilas não fizera nenhum estrago ou prejuízo, e em baixando as águas tudo volta ao normal.

De Campinas saímos em viagem para a casa do Augusto Sanerip há 1 ½ horas de viagem, onde chegamos bem tarde. O Augusto tinha organizado uma festa de aniversário para ele próprio. Eu não fui atrás da festa e sim para conhecer aquelas redondezas, mas a pressão dos colegas para ficar na festa foi muito grande. Quando lá chegamos já tinham chegado os amigos dele e outros conhecidos, na maioria alemães, e naquela noite em dormir ninguém conseguiu pensar, com o som das músicas e cantorias que correram solto a noite inteira sem dó nem piedade. Todos os outros participaram da festa e eu não podia sair, mas fiquei conversando com outras pessoas e logo amanheceu e daí partimos para a casa do Joeff Herr. Ele é um batista, alemão e conhecido meu, que antes morava em Mãe Luzia.

Lá conseguimos dormir por mais ou menos duas horas. Logo depois do meio-dia saímos de volta para a casa do Augusto Sanerip, e lá pelas 4 horas da tarde saímos de volta para Mãe Luzia. Neste trajeto vim junto com dois dos filhos do Klava.

Logo o sono começou a apertar tanto que resolvemos dar uma cochilada na beira da estrada, mas os mosquitos e pernilongos não nos deixaram em paz. Resolvemos tirar os “palos” [capas de montaria para proteção da chuva e frio] para nos protegermos desses invasores incômodos, mas aí o calor se tornou nsuportável. Então resolvi com a mesma capa fazer uma espécie de barraca para proteger os braços e a cabeça, deixando um buraco para entrar ar, mas os bichos entravam por aí e picavam sem trégua. Por aí você pode deduzir que o tal cochilo não deu em nada.

Montamos e continuamos em frente chegando a Mãe Luzia quando a meia-noite já estava de longe passada.

No sábado passado houve aqui em Mãe Luzia e região uma chuva torrencial que gerou uma enchente tal que os moradores daqui não lembram de outra igual por aí. Os riozinhos que escoam para o Mãe Luzia se tornaram grandes rios. O Mãe Luzia, com uma largura descomunal, serpeava vagarosamente, fazendo o seu caminho em curvas suaves em direção do mar.

Os domingos aqui em Mãe Luzia são realmente muito quietos. Os cultos são realizados somente aos domingos pela manhã, e à noite não há nada mesmo. O clima também não tem se apresentado muito favorável. Agora parece que sentiram que alguma deve ser feita, então ontem à noite houve ensaio de hinos dirigido pelo Seeberg e na noite do domingo que vem também haverá.

O Rudolfo Andermann voltou com o seu partido [de pentecostais] e trouxe junto o profeta Pedro Silman e a profetiza filha do Strauss. Ela está voltando de Ijuy RS. Agora estão planejando outra viagem missionária: vão a Ijuy e depois ainda dali querem ir até o Paraná.

Eles continuam pulando nos cultos segundo e seguindo os seus costumes. Muitas pessoas vão para observar. Eles não querem que eu vá e mantém as portas trancadas; só deixam entrar quem eles querem.

Uma das noites pessoas forçaram a entrada do local da reunião e jogaram pimenta moída lá dentro. Dizem que foram letos que fizeram esta brincadeira. Eu não apoio nem entro para uma turma que faz estas coisas, mas ambém não tenho interesse de ver este espetáculo: o que eu vi naquela viagem na Linha Telegráfica foi suficiente. Mas têm pessoas que vão todas as noites.

Quanto a possibilidade de eu ir estudar, vamos ver como as coisas vão se desenrolar. Tudo isso está nas mãos de Deus. Eu sempre tenho pensado sobre isso, mas não consegui chegar a uma conclusão definitiva. Também sei que não seria fácil e tenho avaliado, se começar, das minhas possibilidades de ir até o fim. O grande e maior problema seria a subsistência, pois se tiver que trabalhar e enfrentar todas as matérias com a pouca base, seria muito temerário. Outro problema meu seria a saúde, pois ela não é estas coisas e já algumas vezes estive em situações bastante críticas. Agora não tenho estudado nada, mas quando voltar para o Rio Novo devo voltar a estudar, pois daqui em diante as noites vão ficando cada vez mais compridas.

Aqui quanto ao trabalho ainda não terminamos. Possivelmente lá pelo dia 20 estaremos terminando.

No que se refere a livros para os meus estudos, espero que você me mande, pois tenho certeza que você sabe o que eu mais necessito e aqueles que são realmente importantes. Depois me mande a conta para que eu possa pagar.

Neste momento, graças a Deus, estou bem e com saúde.

Muitas e sinceras lembranças de seu amigo,

Roberts Klavin

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