Nas curvas do rio | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 30 de setembro de 1919

Querido Reinold!

Estamos enviando muitas e amáveis lembranças. Recebi a tua carta escrita a 13-09-19 no dia 24 de setembro. Aquela carta escrita no dia 29 de agosto não chegou e deve estar extraviada. Faz tempo que estávamos esperando cartas suas, pois a última tinha chegado 21 de agosto e a resposta desta mandei dia 4 de setembro. Gostaria de saber se você recebeu a minha carta que mandei dia 1 de agosto.

Eu teria bastante o que escrever, pois durante este mês aconteceram diversas coisas por ai. Neste momento estamos passando muito bem. Hoje está chovendo um típica chuva de verão com trovoadas e tudo. Faz poucas semanas que houve grandes enchentes, pois choveu vários dias sem parar. Mesmo aqui o nosso pequeno Rio Novo estava maior que o Rio Novo lá na ponte onde desemboca no Orleans em épocas normais. Então ida à cidade nem pensar, porque em muitos lugares nas curvas do rio a estrada estava debaixo d’água.

Com os trabalhos das roças estamos um tanto atrasados. Ano passado tínhamos plantado bem mais. As capoeiras estão derrubadas e logo que for possível vamos queimar. Plantamos 2.300 mudas de cana de açúcar e mais de 1.000 de cana para animais [cana sal]. Agora estamos capinando perto da ponte onde vamos plantar aipim, mandioca; na semana passada plantamos uma carga de cavalo de baraço de batata-doce, mais de 2.000 mudas de mandioca.

Mandioca este ano nós vamos plantar bastante, pois este ano não houve geadas e há bastante rama para preparar mudas. Agora a farinha de mandioca está barata, 5$000 o saco, mas já esteve a 12$000. Tudo o que a gente tem para vender está barato: o açúcar está a 5$000 a arroba, o toucinho a 13$000. O que a gente tem que comprar também está ficando mais barato: o petróleo está a $700 a garrafa e já é possível comprar em latas.

Agora vai fazer quase um mês que inesperadamente chegaram visitas na casa dos Leimann. Chegaram de Ijuy a Luzija Osch (Leimann) com o filho Walderim e a Mina Ukstin. Estiveram passando também um domingo conosco. O Willis Osch escreveu para a Luziha dizendo que a senhora Osch estava muito doente e ela não teve dúvidas, veio direto sem mesmo escrever ou avisar. E por isso ninguém estava esperando.

Quem ficou feliz foi a senhora Leimam com o neto Walderim, ele ainda não tem 3 anos mas é gordo e saudável e fala mais que um papagaio. A Maria ainda mora com os Leimann. A senhora Leimann tem uma auxiliar que melhor seria impossível. Semana passada as visitas foram embora. Também o Ermans Balod foi embora com a família para Porto Alegre.

Ainda alguém do Rio Novo te escreve? Quem te escreveu que na Igreja de Rio Novo aparecem aquelas divergências como antigamente? Eu sempre pensei que o único que te escreve é o Robert Klavin, e ele nunca escreveria o que não fosse verdade.

A verdade é que não existe aquela situação como antigamente, em que havia dois partidos. Existem aquelas briguinhas do Karklis e da mulher dele. Ele veio dar queixa dela na igreja. Também o Grünfeldt tem suas rusgas com o Bruver. O Butler desdenhou e não deu muita atenção porque o Grünfeldt sempre precisa ter alguém para brigar, e principalmente perturbar a vida da igreja e dos pastores.

Agora aqui está havendo uma campanha de coletas para a Convenção do Paraná/Santa Catarina para a compra de um barco a motor que, quando em condições, deverá ajudar um pastor a fazer um trabalho na baía de Paranaguá, para visitar as pequenas Igrejas e abrir novos trabalhos.

Do Rio Novo foram eleitos dois membros para a junta que decide sobre as prioridades dessa Convenção: o Robert e o Sebeergs. De agora em diante o dinheiro todo vai ser enviado para o tesoureiro geral, que é o Deter; ele reunirá o grupo para decidir sobre as prioridades e dividirá o dinheiro entre as diversas juntas missionárias.

[a parte final da carta não foi encontrada]

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A música vale mais que a língua Hebraica | A. B. Deter a Reynaldo Purim

[carta datilografada em português, apresentada na grafia original]

Curityba, 29 de Set. de 1919

Presado irmão Reynaldo:

A sua boa carta veio há dias e fiquei contente com as noticias do irmão e outros jovens pregadores de que me fallou.

Estamos ainda tratando o negocio da lancha e não sei se estará prompto para o irmão e os outros nas feirais ou não. Se a lancha for prompta poderemos fazer uma campanha na beira mar na lancha andando de lugar em lugar abrindo novos campos para o anno que vem porem acho que a lancha não fica prompta. O motor não veio e o casco não pode estar muito tempo.

Estou estudando a questão dos irmão seminaristas do nosso campo. O irmão sabe que estamos com o mesmo dinheiro que que tivemos desde o principio e não dá para nada mas as egrejas estão contribuído bem e pode ser que a junta estadoal tenha dinheiro para ajudar aos irmãos estudantes durante dois meses. Tenho pedido dinheiro e se vier posso dar um auxilio financeiro nestes mezes. Sinto não poder dizer alguma coisa mais definida agora porem é impossível.

Como vai irmão Frederico Janoski? Dá lhe muitas lembranças minhas e diga que estou estudando a questão das ferias dos irmãos seminaristas do nosso Campo e em mais duas ou três semanas poderei dizer alguma cousa certa.

O Irmão e Frederico sabem bem cantar, e cantam bem juntos? Quero saber se qualquer dos dois sabe dirigir um coro. Não se esqueça de que eu disse na ultima visita ao Rio que a música vale mais que a língua Hebraica. Não que não deve estudar línguas mas não deve deixar qualquer coisa tomar o lugar da música.

Dá muitas lembranças ao irmão Portella e diga que estou muito obrigado pelo serviço esplêndido que fez nas caracturas do Malho. Elle é um verdadeiro artista e deve educar bem o seu dom.

Dá lembranças ao irmão Totó e ao irmão Penna.

Do seu amigo e irmão na fé:

A. B. Deter
[Arthur Beriah Deter, pastor batista, missionário norte-americano no Brasil. Mais sobre ele neste link]

Pode ser que agora estejam mais caros | Robert Klavin a Reynaldo Purim

Rio Novo, 15 de setembro 1919

Querido amigo!

Até este momento não tenho recebido notícias suas. Amanhã de manhã, se o tempo estiver bom, eu o velho Martinho saímos para trabalhar em construções na Linha Torre perto de Criciúma e lá devo ficar bastante tempo, e aí também longe de casa.

Agora o tempo está muito frio e chuvoso e é bem provável que nas serras esteja nevando; quando o tempo limpar a gente vai poder ver.

Agora esteve passeando aqui no Rio Novo a Lúcia, esposa do Willis Leimann, acompanhada pelo filho [NOTA de V. A. Purim: O primeiro nome desta criança era Viganth, e daí veio o meu nome] e trouxe junto uma mocinha. Não sei se ela veio conhecer o mundo ou se veio “pescar”, mas para a segunda opção era muito tímida, pois parecia até medrosa. O nome dela é Nina Ukstin. Esta semana deverão ir embora.

Preciso adquirir dois livros e os títulos são: Manual de Sciencia e Expressão do Rosto, por Luiz Khune – Br. 4$000, e A Nova Sciencia de Curar, por Luiz Khune, 1 vol. Broc. 3$000 enc. 8$000. O primeiro ensina a reconhecer as doenças e o segundo ensina a curar por meios naturais. O endereço é: Antônio F. De Morais, Rua de São João, 8 – São Paulo – Caixa Postal 1210. Pode ser que agora estejam mais caros porque o catálogo que eu tenho é de 1918. Eu estou passando bem e estou com saúde.

Receba muitas lembranças.

Roberts [Klavin]

Quatro letos | Artur Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 2-9-19

Querido Irmãozinho!

Ainda não recebi resposta da minha carta escrita no dia 15 de agosto. Não sei se sou que tenho escrito pouco ou se é você que escreve menos ainda.

Eu estou passando bem. Espero que também estejas passando bem. As aulas voltaram no mês passado com o retorno do Dr. Butler, mas o grande doutor está com poucos alunos. No total são oito: quatro letos, um italiano e três alemães. Hoje vieram mais dois alemães, então agora são ao total 10 alunos. Poderia ter mais, mas tem crianças que não querem vir, e outros só mandariam se o professor surrasse se eles fizessem alguma arte. Ainda outros têm muito serviço e não podem vir.

Agora estou aprendendo língua brasileira, geografia, aritmética e gramática. Agora está proibido aos alunos ficarem olhando pelas janelas, como era permitido antes…

O tempo hoje está nublado. Agora estamos capinando; ontem plantamos pepinos, melancias, repolhos e milho. Você poderia vir para casa, pois vamos ter pepinos e melancias já crescidas, e você teria muita coisa nova para conhecer e plantar. Poderia me trazer um livro de aritmética em brasileiro e outros que talvez você não precise mais, e para o Papai um Livro de Hinos. Você usa algum lá?

O meu livro de ABC, como eu já aprendi, vendi para o professor João de Riga, que levou junto para Mãe Luzia.

Por hoje chega, noutra vez mais. Fico esperando longa carta sua.

Com amáveis lembranças,

Arturs [Purim]

Você é um ignorante | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 2 de setembro de 1919

Querido Reinold,

A tua carta escrita em 17 de agosto recebi no dia 21 de agosto. Obrigada! Precisava ter respondido mais rápido, mas como ninguém ia para a cidade para levar ao correio, foi ficando e demorei a escrever. Ainda estou esperando resposta de duas cartas: uma mandei no dia 1° de agosto e outra no dia 15 de agosto, as quais espero que tenhas recebido.

Fiquei muito alegre em saber que você está sempre passando bem e que estás com saúde. Nós também, agora estamos bem graças ao bom Deus, e todos com saúde. Mas semanas atrás estivemos todos com influenza; doía muito a cabeça e [tínhamos] moleza em todo corpo. O Pappa ficou vários dias de cama. Curityba é uma bela cidade, só que falta muita água.Nós, os demais, com tanto serviço não tínhamos tempo de ficar de cama.

O tempo está muito variado, ora quente ora frio. Houve dias tão quentes que parecia verão, e soprava um vento quente do lado da Serra [noroeste]. Depois, na semana passada, deu três dias de chuva e vento frio; hoje está meio nublado e é possível que volte a chover.

Agora as laranjeiras estão em plena floração e as árvores estão literalmente brancas. O milho terminamos de colher no dia 20 de agosto; uma plantação de 17 quartas de semente rendeu 135 cargas, que foram despejadas no paiol. Ano passado foi plantada uma área menor e rendeu 195 cargas. Era porque naquele ano as espigas eram grandes, e este ano são menores, tanto que podem quase diretamente ficar para as vacas.

[NOTA: Espigas de milho pequenas eram chamadas de “restolho” e as vacas podiam comer direto sem perigo de se engasgarem e se afogarem, o que acontece com frequência com o gado.]

Este ano não foi um ano bom para o milho; em Orleans o preço da saca já está 6$500. Comprar milho para o gasto está fora de qualquer cogitação. Se faltar milho, os porcos vão passar somente com inhame, pois este ano eles não pegaram geada e na Bukovina em toda baixada está correndo água (mesmo em lugares em que nunca havia nascentes), então vai dar para passar.

Agora estamos derrubando uma capoeira lá perto do monjolo, mas você é um ignorante, não sabe mais nada daqui, então vou dizer que é lá onde antigamente tínhamos uma horta — assim é possível que você se lembre. Agora, como um morador de cidade grande, caso vier para cá você seguramente vai se perder logo no primeiro dia.

Quanto ao Rio Novo, vai indo de modo variado [em leto, “eet raibi”]. Os mensageiros da Convenção enfim voltaram, chegaram dia 14 de agosto. Como tinham saído no dia 31 de junho, você pode calcular quanto tempo eles ficaram fora.

A viagem foi boa, a falta de sorte foi com os meios de condução (navios) em todas ocasiões. O Robert ainda não esteve aqui em casa para contar as peripécias da viagem. Pode ser que ele tenha escrito minuciosamente para você. O Butler aqui na Igreja contou uma coisa e outra, que de modo geral a viagem foi boa.

Saíram na segunda-feira com informações de que haveria um navio em Laguna, mas lá chegando o navio já tinha levantado ferros e partido. Seguindo informações e palpites de que em Imbituba estaria um navio grande sendo carregado, no outro dia pegaram o trem e foram até lá, mas este também já tinha ido embora e para o outro lado, para o sul, Porto Alegre. Então voltaram: o Butler ficou em Tubarão, na casa do Ziguismundo Anderman, e o Robert e o Klava vieram até Pedras Grandes para visitar o Onofre.

Então na sexta-feira pegaram o “Max” da Karl Hoepke e foram até Desterro [Florianópolis], porque ele não segue mais longe. Mas ali souberam que havia um navio atracado na parte norte da ilha, e daí pegaram uma lancha a motor e conseguiram embarcar; mais dezenove horas e estavam em Paranaguá.

Resumindo, de Rio Novo até Paranaguá foi exatamente uma semana de viagem.

Sobre a Conferência não tenho muito que escrever, pois o Deter ainda não mandou as estatísticas e as atas [em leto, “protokulus”]. O Butler foi o presidente [dirigente] da Convenção e todos os dias havia três reuniões; os letos tiveram que cantar muito.

Os letos eram ao total quatro, porque veio também o Broks de Blumenau.

Depois das conferências ainda estiveram em Antonina e daí viajaram para Kuritiba pela mais bela estrada de ferro do Brasil. Ficaram então uma semana em Paranaguá e uma em Kuritiba. O Klava ainda viajou para São Paulo.

Curityba é uma bela cidade, só que falta muita água. Se de manhã você lava o rosto, à tarde não pode mais lavar porque não tem água.

Ainda estiveram em Blumenau: o Robert se acomodou na casa do Janausks e o Butler ficou com os Suti. Ambos moram perto da igreja. Mas eles não ficaram muito tempo por lá, porque foram também visitar a Linha Telegráfica, onde moram os Straus e outros pentecostais. Ali os cultos são “extraordinários”, pois de longe se pode escutar como gemem, correm de um lado para outro, andam de quatro, etc. Os nossos chegaram atrasados e assim não foi permitida a entrada; eles ficaram “apreciando” pelas janelas. O Butler disse que o comportamento deles nada tem com o movimento espiritual que ele conheceu nos Estados Unidos. Este mais parece certo povo que adora ídolos na Índia.

Neste mês vai haver a festa de aniversário da União de Mocidade. Estamos aprendendo a cantar todas as quartas-feiras à noite. O Oswaldo Auras é o dirigente que ensina. E nas noites dos últimos domingos de cada mês os jovens apresentam um programa livre, de partes práticas. Cada um pode apresentar o que quiser: poesias, partes musicais, opiniões, comentários, etc.

Durante as férias você bem que poderia viajar para casa. Falta pouco tempo para fazer três anos que estás longe de casa.

Você escreve que o Deter quer que você venha para o Paraná. Quanto isto vai custar? Sem 200$000 nem pensar, e de trem fica mais caro ainda. E porque ir para um lugar de pessoas estranhas? Nós pensamos que você poderia vir para casa ou então ficar na Escola como no ano passado. Mas ir para outros lugares nunca dissemos.

Agora os navios que vêm para Laguna tem a terceira classe, e esta não custa tanto quanto a dos grandes navios que aportam em Imbituba.

Nós o dinheiro vamos mandar, mas no correio de Orleans não tem aquele “vale postal” porque são muito poucas pessoas que mandam dinheiro daqui. Se existissem, seria muito prático e barato mandar por este sistema.

Você sabe se o Fritz Janausks vai viajar ou vai ficar aí mesmo? Hoje, 3 de outubro, enviei através do Pinho 100$000 e eles garantiram que desta vez vai chegar mais rápido do que na outra vez. Se demorar, podes perguntar lá se ainda e porque não chegou. Amanhã é dia da mala postal, pode ser que chegue alguma carta sua.

Se você não pode ficar aí, venha para casa. A Mamma não quer que você viaje para outro lugar.

Com lembranças,

Olga