Estas pequenas cousas | A. B. Deter a Reynaldo Purim

[carta datilografada em português, apresentada na grafia original]

Curityba, 26 de novembro de 1919

Presado irmão Reinaldo:

Seu bilhete postal veio hontem, e sinto muito dizer que o dinheiro que pedi para os irmãos seminaristas para pagar as despesas de férias não veio. Não recusaram, porem somente não chegou. Acho que não devem esperar mais. Queria que chegassem até aqui para fazer os planos para os mezes de ferias, porem o dinheiro que temos não dá para nada este anno.

É possível que alguma cousa venha até o fim do mez porem duvido. Dr. Ray estava tão occupado que não podia atender estas pequenas cousas; a Grande Campanha está tomando o tempo de todos, e não tenho recebido respostas ás cartas como de costume.

Creio que os irmãos não devem esperar agora a minha resposta mais tarde porque não há tempo; devem acceitar qualquer serviço. No anno que vem teremos o trabalho organizado em melhor pé e poderemos dizer desde o principio o que é possível fazer.

Se nossa lancha estivesse prompto emprestaria dinheiro para os irmãos porem não ficará prompto até Fev.

Dá lembranças aos irmãos todos e especialmente ao irmão Frederico, e Penna.

Cordialmente,

A. B. Deter
[Arthur Beriah Deter, pastor batista, missionário norte-americano no Brasil. Mais sobre ele neste link]

Como fazíamos todos os domingos | Artur Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 9-11-19

Querido irmãozinho!

Recebi a tua carta de 17-10-19. Obrigado! Eu estou bem. Para a escola este mês não fui mais por falta de tempo e muito serviço. Neste mês de outubro chovia tanto que nas roças não era possível fazer nada; como agora estamos com muito serviço, agora irei para a escola outra vez só depois do ano novo.

Tu queres saber a minha altura, é simples: é só olhar para você. Estou calçando o número 42 e poderei emprestar os meus sapatos para você. Poderá vir chupar laranjas, pois ainda tem bastante. Logo acima de nossa casa tem doze laranjeiras e em cinco ainda tem frutas. A figueira [kuplais koks, no original em leto] está bem maior e bem mais alta, mas está um pouco abandonada. Ninguém fica subindo nela como antigamente fazíamos todos os domingos, para brincar e ver quem subia mais alto. Há pouco tempo veio o Augusto Klavim e nós subimos nela, mas nossa festa durou pouco porque vinha um temporal e tivemos que fugir para casa.

No nosso jardim temos muitas flores. As rosas, os lilases e os dois jasmins [gardênias] estão cheios de flores. As espirradeiras [oleandro] estão grandes árvores. Aquela mirtácea que você trouxe do mato também está alta; bem mais alta que você, e com certeza passa por cima de sua cabeça. Você mesmo poderá ver quando vier!

Agora temos 67 colméias, contando com as novas que apanhamos em enxames. Este ano têm saído muitos e grandes enxames. No sábado passado tiramos mel de oito colméias e renderam três latas. Ano passado de vinte colméias foi tirada só ½ lata. Este ano vamos tirar muito mel. Vamos ter que tirar de mais de 40 caixas, e se você vier poderá ajudar e comer muito mel, e também levar junto. Eu tenho medo de abelhas e nem chego nem perto. A Olga é que tem que ajudar o Pappa e levou tantas picadas que no sábado passado não podia nem caminhar.

Quando vier para casa, traga um novo Cantor [hinário] para a Luzija. Chega! Tenho que ir dormir. Com muitas lembranças,

Arturs [Otto Roberto Purim. Faltava um mês para que ele completasse 14 anos]

Desta vez controlaram os velhos | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 9 de novembro de 1919

Querido Reinold!!

Primeiramente mui amáveis lembranças!

Bem, desta vez terei muito o que escrever.

Fazia muito tempo que aguardávamos cartas suas. A última foi a que recebemos no 24 de setembro; depois disso passou o mês de outubro inteiro. No dia 24 de outubro a Luzija mandou um cartão postal e no dia 31 de outubro outro cartão, porque não tinha chegado nenhuma carta. Então, na quinta-feira passada a Luzija foi novamente para a cidade e… quando chegamos da roça no meio-dia havia a mesa cheia com cartas com muitas cartas: 5 cartas e ainda jornais. Uma de 12 de outubro, outra do dia 19 de outubro. E mais aquelas três: uma do dia 11 de março de 1918, onde dentro veio também aquela carta de nosso parente da Rússia. Outra de 8 de abril de 1918 e a terceira do dia 19 de maio de 1918. Estas três tinham sido abertas pela censura e, pelos carimbos, ficaram no Rio até 28 de outubro de 1919. Em duas aparece também o carimbo de quando foram colocadas no correio em 1918 e uma em 1919, e por aí você pode imaginar o tempo que demoraram.

Nós não tínhamos mais esperança, achando que as extraviadas estariam perdidas de vez. Agora esperamos que cheguem aquelas outras que vinham com aqueles desenhos que você diz ter mandado no ano passado, e pode ser que estejam paradas em algum lugar.

Também os Leimann receberam cartões de Páscoa e outras cartas escritas no começo do ano. Agora das recentes está faltando a que foi escrita em 28 de agosto, as outras todas chegaram.

Esta última remessa de dinheiro foi muito rápida e sem custo qualquer.

Tu pedes que escreva as novidades do Rio Novo. Neste momento não há nada importante. O último evento importante foi a Festa da Mocidade [Dia 16 de outubro, aniversário da União de Mocidade da Igreja Batista Leta de Rio Novo]. Esta foi realmente grandiosa. Começou as 10h30 da manhã e foi até ao escurecer. O tempo que antecedeu a festa estava muito chuvoso; quando ia chegando o dia parou de chover porém continuava nublado. Mas o dia da festa amanheceu com um tempo magnífico, sem a menor nuvenzinha mas não calor demais, e tudo enxuto como fazia tempo que não tinha sido assim.

Foi um domingo muito bonito. Já na segunda começou a chover novamente. Esta Festa da Mocidade foi feita em conjunto com a Festa da Banda de Música. Havia gente demais, uma verdadeira multidão. Não sobrou lugar pra ninguém. Tinha muita gente de Orleans, inclusive o pessoal das vendas.

O programa foi dirigido pelo Butler. Desta vez controlaram os velhos, pois eles falam demais, tomando muito tempo. O programa consistiu de hinos, poesias e música. O número de rapazes da União é 32 e moças 36. O número de músicos é 15. Fizeram um relatório de atividades, mas não me lembro de tudo. Às 12 horas teve um intervalo quando foi servido um lanche com café, pão, etc, e não foi cobrado nada de ninguém.

Houve uma coleta com a finalidade de ajudar aos refugiados da guerra no Báltico, que rendeu 132$000. O coro dos jovens cantou quatro hinos, inclusive dois em brasileiro. O coro da igreja cantou cinco hinos, e também cantaram dois quartetos.

Notável mesmo foi a mensagem proferida pelo Butler. Esta valeu a pena mesmo. Se todos seguissem os conselhos e ditames, tudo seria melhor. Mas será que todos entenderam?

Depois do programa ainda teve um Bazar da Banda de Música, onde tudo que foi oferecido e vendido será destinado para compra de novos instrumentos. Houve muita animação e foi até ao escurecer. O melhor músico de sopro é o Ilris do Augusto. Mas o Grünfeldt não gosta de música e acha uma bobagem gastar dinheiro e tempo com isso. Mas nós achamos que é muito melhor que os jovens fiquem ensaiando e aprendendo música aos domingos à tarde do que por falta do que fazer terminem procurando alguma bodega. Agora não existe aquela liberdade, e qualquer que começar a balançar é seguido e advertido.

A família Balod faz tempo que foi embora para Porto Alegre. O Hermans lá ficou um pouco melhor. Mas agora está louco outra vez e não sei se não está em algum hospício. Acho que ele tem culpa desta situação, pois quando os filhos deles eram menores ele permitia que fizessem o que quisessem, e agora não consegue mais controlá-los. Eles fazem artes e safadezas, uma em cima da outra, e agora ele fica reclamando dessa situação triste.

Então foi o Arthurs [Leiman] que te escreveu sobre aquelas brigas e disputas. As moças daqui brigavam por causa dele e ele tratou de dar o fora daqui. Parece que ninguém escreve pra ele, e ele não fica sabendo nem metade do que você sabe.

Você pode vir para casa e aí na volta vai ter companheiros de viagem. Tem gente que está se aprontando [para partir]: são o Janka Klawa e o Emilio Andermanis de Mãe Luzia — por aí você pode avaliar que tipo de heróis. O Janka é negociante de cavalos e vive com os brasileiros das serras, comprando e vendendo. O Emílio é um dos irmãos “espirituais”; não entendo que como esses pentescostais, que não querem nem saber de estudo ou de escola. vão mandar um deles para lá. Dinheiro para pagar a escola eles não têm, dinheiro só têm para as passagens. Como eles vão trabalhar, vocês podem “economizar” algum serviço para os jovens que vão chegar. Se continuar tudo de graça não sei quantos espertos não vão querer ir para lá.

Tenho mais coisas para escrever. Nós estamos bem, graças a Deus. Com saúde estaríamos se a Mamma não tivesse aqueles problemas nas pernas: iguais àqueles [que tinha antes], só que muito mais [intensos]. O Pappa também teve ficar de cama também devido a problemas das pernas, e reclama que doem muito. Calcule, com tanto trabalho nas roças e eles quase inválidos.

O tempo está bastante chuvoso, mas nas últimas duas semanas choveu menos. A nova coivara nós queimamos no dia 1 de novembro, Não estava muito seco, mas como estava ameaçando a chover resolvemos tocar fogo. O Augusto e o Hari nos vieram ajudar. O fogo pulou o aceiro e passou para o mato só em um lugar, mas nós prontamente apagamos com vassouras [feitas de galhos de plantas], em poucos instantes. À noite começou a chover. Na coivara plantamos quatro quartas de semente de milho. Ao todo já plantamos sete quartas. Também plantamos 10.000 de mandioca, 2.000 de aipins, mais batata inglesa, arroz, batata doce, amendoim, carás e melancias. Começamos a roçar a “voadeira” na coivara do ano passado e está indo rápido. Se o tempo melhorar, poderemos queimar.

Este ano tem muitos ratos e ratazanas atacando o milho guardado.

Então agora chega, esta é a última carta que escrevo, pois nas férias não sei onde você estará. Você pode vir para casa e trazer os seguintes remédios: Aconitum, Belladonna, Sulfur e, se conseguir achar, o tal Pain Expeller que dificilmente se consegue e quando aparece é muito caro.

Você tem se correspondido com o Ludis [Ludvig Rose] e sabe o que ele anda fazendo? Você poderia passar as férias com ele [em São Paulo]. Quem sabe ele poderia arranjar um trabalho temporário [pra você], porque na cidade sem trabalho sai muito caro. E [você poderia] aproveitar para ver se o seu priminho está crescido.

Lembranças de todos,

Olga

Ajudar a capinar | Lucia Purim a Reynaldo Purim

[Cartão Postal]

7-11-19 [Está escrito 7-12-19, mas os carimbos indicam que a data está errada]

Querido Reini,

Hoje recebi cinco cartas [suas]! Muito obrigada mesmo. Eram a que tinham sido escritas em 11 de março de 1918, outra em 19-05-18, outra de 8-4-18, mais outra 12-10-19 e a última de 19-10-19, e também muitos jornais. Faz tempo que estávamos esperando e nada. Onde tu vais passar as férias? Nós todos aqui estamos querendo que você venha para casa, então poderá ajudar a capinar as plantações. O tempo agora está bom. Já queimamos a coivara. As estradas agora estão secas. Se puder, venha para casa. Nós estamos mais ou menos bem. A Mamma está com dores nas pernas. Hoje chega.

Luzija

Alegria para a Mamma | Olga Purim a Reynaldo Purim

[Cartão Postal]

Orleans, 31-10-19

Querido Reini!! Saudações. Agora faz dias, semanas e até meses que não temos recebido nenhuma notícia sua. Por que não chega mais nada? Você não tem recebido nossas cartas e por isso não tens escrito? Na semana passada mandou um cartão postal. Você recebeu o dinheiro que nós enviamos através da Pinho? Agora estamos passando mais ou menos bem. O tempo está bom e é possível que dê para fazer as queimadas, isto é, se não voltar a chover outra vez. O que vais fazer nas férias? Eu já escrevi que venha para casa, isso se não puder ficar lá na escola. Se você vier vai dar muita alegria para a Mamma, pois agora ela está sofrendo mais das pernas do que antes.

Lembranças de todos. Olga

Faz tempo | Lucia Purim a Reynaldo Purim

[Cartão Postal]

Orleans, 24-10-19

Querido Reinis,

Primeiramente mando muitas lembranças. Por que tu não escreves mais para nós? Faz tempo que não temos recebido nenhuma notícia sua. A última foi aquela que conta que um colega seu tinha morrido na guerra… Depois dessa nenhuma mais. Você tem recebido o dinheiro? Escreva com urgência, pois toda semana estamos aguardando cartas suas. Aqui as estradas estão um puro lamaçal. Chove todo dia. Chega.

Ainda lembranças,

Luzija

Nas curvas do rio | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 30 de setembro de 1919

Querido Reinold!

Estamos enviando muitas e amáveis lembranças. Recebi a tua carta escrita a 13-09-19 no dia 24 de setembro. Aquela carta escrita no dia 29 de agosto não chegou e deve estar extraviada. Faz tempo que estávamos esperando cartas suas, pois a última tinha chegado 21 de agosto e a resposta desta mandei dia 4 de setembro. Gostaria de saber se você recebeu a minha carta que mandei dia 1 de agosto.

Eu teria bastante o que escrever, pois durante este mês aconteceram diversas coisas por ai. Neste momento estamos passando muito bem. Hoje está chovendo um típica chuva de verão com trovoadas e tudo. Faz poucas semanas que houve grandes enchentes, pois choveu vários dias sem parar. Mesmo aqui o nosso pequeno Rio Novo estava maior que o Rio Novo lá na ponte onde desemboca no Orleans em épocas normais. Então ida à cidade nem pensar, porque em muitos lugares nas curvas do rio a estrada estava debaixo d’água.

Com os trabalhos das roças estamos um tanto atrasados. Ano passado tínhamos plantado bem mais. As capoeiras estão derrubadas e logo que for possível vamos queimar. Plantamos 2.300 mudas de cana de açúcar e mais de 1.000 de cana para animais [cana sal]. Agora estamos capinando perto da ponte onde vamos plantar aipim, mandioca; na semana passada plantamos uma carga de cavalo de baraço de batata-doce, mais de 2.000 mudas de mandioca.

Mandioca este ano nós vamos plantar bastante, pois este ano não houve geadas e há bastante rama para preparar mudas. Agora a farinha de mandioca está barata, 5$000 o saco, mas já esteve a 12$000. Tudo o que a gente tem para vender está barato: o açúcar está a 5$000 a arroba, o toucinho a 13$000. O que a gente tem que comprar também está ficando mais barato: o petróleo está a $700 a garrafa e já é possível comprar em latas.

Agora vai fazer quase um mês que inesperadamente chegaram visitas na casa dos Leimann. Chegaram de Ijuy a Luzija Osch (Leimann) com o filho Walderim e a Mina Ukstin. Estiveram passando também um domingo conosco. O Willis Osch escreveu para a Luziha dizendo que a senhora Osch estava muito doente e ela não teve dúvidas, veio direto sem mesmo escrever ou avisar. E por isso ninguém estava esperando.

Quem ficou feliz foi a senhora Leimam com o neto Walderim, ele ainda não tem 3 anos mas é gordo e saudável e fala mais que um papagaio. A Maria ainda mora com os Leimann. A senhora Leimann tem uma auxiliar que melhor seria impossível. Semana passada as visitas foram embora. Também o Ermans Balod foi embora com a família para Porto Alegre.

Ainda alguém do Rio Novo te escreve? Quem te escreveu que na Igreja de Rio Novo aparecem aquelas divergências como antigamente? Eu sempre pensei que o único que te escreve é o Robert Klavin, e ele nunca escreveria o que não fosse verdade.

A verdade é que não existe aquela situação como antigamente, em que havia dois partidos. Existem aquelas briguinhas do Karklis e da mulher dele. Ele veio dar queixa dela na igreja. Também o Grünfeldt tem suas rusgas com o Bruver. O Butler desdenhou e não deu muita atenção porque o Grünfeldt sempre precisa ter alguém para brigar, e principalmente perturbar a vida da igreja e dos pastores.

Agora aqui está havendo uma campanha de coletas para a Convenção do Paraná/Santa Catarina para a compra de um barco a motor que, quando em condições, deverá ajudar um pastor a fazer um trabalho na baía de Paranaguá, para visitar as pequenas Igrejas e abrir novos trabalhos.

Do Rio Novo foram eleitos dois membros para a junta que decide sobre as prioridades dessa Convenção: o Robert e o Sebeergs. De agora em diante o dinheiro todo vai ser enviado para o tesoureiro geral, que é o Deter; ele reunirá o grupo para decidir sobre as prioridades e dividirá o dinheiro entre as diversas juntas missionárias.

[a parte final da carta não foi encontrada]