Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, conclusão

continuação da parte 6

7

Bendito seja o Senhor! Segunda-feira. Ao alvorecer do dia estamos despertos e com saúde. Preparamo-nos para a caminhada. Degustamos o café da manhã. Dirigimos nossas preces a Deus e com sinceros “adeus” nos apressamos pelo mesmo caminho de volta. Na noite do dia seguinte estávamos no meio dos nossos parentes.

Verifiquei que a Igreja Batista Leta trabalha com eficiência. Aos domingos pela manhã a mocidade, com os demais, inclusive as crianças, estão alegremente no culto. Cantam, aprendem, oram a Deus e, terminado o seu horário, ficam com toda a igreja para juntos ouvir do evangelho.

Alguns irmãos desenvolvem trabalho missionário junto ao povo brasileiro. Promovem cultos na cidade de Orleans e cantam em português. Aqui podemos dizer, como o Senhor disse: “Conheço as tuas obras, e o teu trabalho… sofreste e tens paciência e trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste.” Pelo estatuto interno da Igreja que julgue o Senhor, que observa, o reconhecimento a quem de direito.

Preparamo-nos para ir a Mãe Luzia. Lá serão celebradas as festividades de inauguração, dia 6 de setembro. A Igreja de Rio Novo recebeu um convite para comparecer e participar com mensageiros, octetos e solistas. O convite finaliza: venham como puderem.

Nestas condições tive vontade de visitar Mãe Luzia. A igreja me concedeu poderes de mensageiro, outros irão conforme suas condições. O octeto estava em condições de viajar para o evento.

Os meios de transportes eram diversificados: [alguns iam] com caminhões, a cavalo, outros de trem. Foi-me recomendado que fosse de trem: se chovesse poderia ficar no caminho. Acompanhei então o irmão Zeeberg, que viajou com sua esposa. Estes também foram amáveis companheiros, que tudo conheciam e sabiam mostrar e contar.

Viajamos até a cidade de Tubarão, onde desembarcamos e aguardamos seis horas enquanto chegava à outra composição, que nos levará ate Mãe Luzia. Agora nos sobra tempo para visitar o irmão Osch, ver a cidade e seus arredores. A cidade é bonita, plana e com terra fértil, junto à barranca do rio, com ruas calçadas e rico comércio.

Estamos novamente na estação ferroviária. A composição chega: encontramos o pastor Stroberg, vindo de Rio Branco, junto com uma jovem. É uma professora, convidada pela Igreja de Rio Novo para lecionar para as crianças [NOTA: Emília Zickmann].

Neste encontro nos alegramos uns pelos outros. Viajamos conversando até a cidade de Criciúma. Ao desembarcar encontramos os irmãos de Mãe Luzia que vieram ao nosso encontro. Eles levaram as nossas malas e nos conduziram até um caminhão: tínhamos pela frente mais 12 quilômetros de estrada de terra.

Chovia, estrada lisa, o caminhão derrapava de um lado para outro como que embriagado. Receio que haja algum acidente. O caminhão estaciona.

Graças a Deus chegamos. Desembarcamos alegremente. Os irmãos acomodam nossas malas e nos convidam a acompanhá-los. Andamos uns cem passos e chegamos à residência dos Andermann.

O casal de proprietários veio nos receber e cumprimentou a mim e ao Stroberg, depois indicou-nos um quarto com 2 camas. Lugar de repouso ja temos. É tarde da noite e a dona da casa põe a mesa do jantar. Servimo-nos e em seguida fizemos um culto noturno, colocando aos pés do Salvador a nossa gratidão pela sua misericórdia.

Novo dia chegou, o alvorecer penetra pelas janelas, o sono nos abandonou. Levanto e dou graças ao Pai Celeste pelo cuidado. Apresso-me a observar os arredores, ontem à noite a escuridão reinava e não podia se ver nada.

Sim, um céu límpido! Ontem à noite o céu estava coberto de densas nuvens negras e chorava lágrimas de bênção sobre a terra seca; agora trocou de roupagem e o sol, com seus raios luminosos, alegra a natureza. Observando a bela planície, o rio, os córregos, fiquei alegre e em silêncio louvei a Deus: Oh, Senhor, quão maravilhosas são tuas obras e tuas bênçãos! A terra cultivada durante trinta anos sem qualquer adubação e as colheitas, como sempre, fartas.

Tomamos café e fomos com Stroberg visitar o novo templo e depois a casa dos Klava, presidente da Igreja local. Encontramo-nos, cumprimentamos e passamos a falar sobre as festividades.

Mas uma circunstância infeliz: ambos, Stroberg e eu, fomos assaltados por uma febre inesperada. Ele começou a tremer como uma vara verde e não sobrou alternativa senão ir para a cama. Eu além da febre tinha vômitos, e não sabíamos a causa desta enfermidade súbita. Também eu fui obrigado a procurar a cama e buscar cobertores, todos insuficientes [NOTA: Possivelmente tratava-se de malária].

Pensei: e agora, que acontecerá? Quando deveríamos nos alegrar com as festividades, estamos a gemer! Imploro a Deus e digo a Ele da nossa situação. “Oh, Senhor, não estás satisfeito que nos alegremos com estes irmãos? Estenda a tua mão salvadora e nos toque, teus servos; que retorne a saúde, para que possamos ser portadores de alegria e testemunhas das tuas palavras de vida!”

Nosso anfitrião preparou uma sauna; conduziu primeiro meu companheiro e tratou-o da melhor maneira. Em seguida foi a minha vez. Fiquei pior ainda: perdi totalmente as forças, não podia sentar nem ficar de pé. Pensei: é o meu último dia.

Meu anfitrião me recomendou um banho quente e, no final, uma ducha fria. Veio uma pequena melhora. Voltei para a cama. Dormi a tarde toda e senti-me recuperado. Ouvi o convite à merenda, comi um pouco e as energias e a saúde estavam se renovando.

Na manhã seguinte estava recuperado, e meu companheiro também se recuperou totalmente. Louvamos e agradecemos ao Senhor.

Pela manhã dirigimo-nos ao culto. O companheiro diz que não tem condições de conduzir as festividades, a febre não permite. Sentou-se a parte e não participou do culto.

O irmão Klava deu início à festividade com o cântico do hino “Bendiga ao Senhor, o Rei da Glória”, leu o salmo 84, sobre “Quão amáveis são os teus tabernáculos”, e orou a Deus. Depois houve a apresentação de inúmeros corais e saudações dos visitantes e outras apresentações.

Uma saudação especial veio do pastor Abrão de Oliveira, homem de cor, que falou em português. O autor destas linhas falou sobre Colossenses 3.1-4.

O evento festivo teve inicio no domingo, continuou na segunda-feira e terminou na terça-feira. Nos dois últimos dias Stroberg conduziu as festividades; o Senhor lhe devolveu as forças e a saúde. Na segunda-feira falou sobre o amor, conduzindo seus ouvintes aos belos caminhos do amor.

Na terça-feira pela manhã despedimo-nos dos irmãos de Mãe Luzia com o hino “Até que nos encontremos na margem do Rio de Cristal”.

Rumamos a caminho da cidade de Tubarão. Passaremos a noite nessa cidade: a composição ferroviária que nos levará a Orleans passa pela manhã. Sobrou-nos bastante tempo para visitar o irmão Osch e nos ocuparmos com assuntos do Pai do Céu.

Chegamos a Orleans. Meu irmão nos mandou cavalos de montaria, muito úteis.

Na Igreja de Rio Novo estão programadas preleções sobre assuntos doutrinários. Domingo, 13 de setembro, houve culto. Segunda-feira, estudos sobre a Igreja, ministrados pelo Pastor Stroberg. Primeiro, no que consiste a igreja? Em que bases se sustenta? Quem é seu mantenedor? Quais as condições exigidas para ser membro? Quais atribuições dos membros da igreja? Quais atividades os membros devem exercer dentro e fora dela? Finalmente, qual o resultado quando uma igreja permanece no caminho prescrito nos evangelhos? Conclusão: guarde o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. Cada membro podia dar sua resposta às interrogações, que foram amplamente debatidas.

No dia seguinte houve a conclusão do curso, ocasião em que foram feitos esclarecimentos sobre temas controversos que haviam se estabelecido entre os membros da Igreja.

Com calorosos abraços e cumprimentos nós nos despedimos.
Stroberg voltou para Curitiba, ao seu local de trabalho e a seus familiares. Meu caminho me conduz a São Paulo e a meus familiares em Areias.

Bendito seja nosso querido Pai através de Jesus Cristo! Grande número de rostos de irmãos e amigos ficarão na minha memória.

FIM

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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil
Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 6

continuação da parte 5

6

Havia chegado o sábado. Fui conhecer a cidade [de Urubici]. Vejo que a cidade foi construída na foz de dois rios; em um rio está o moinho do irmão Grikis. No outro lado, no rio maior, está uma fábrica, onde se faz comércio e beneficiamento de trigo.

Existe na cidade um bom comércio com as mais variadas ofertas, o edifício da escola, a prefeitura e uma igreja católica. Esta ainda inacabada, pequenas pousadas por toda parte. Ambos os rios convergem e se unem na cidade.

Saí da cidade, subi uma colina, sentei-me num tronco de madeira e pensei: amanhã terei que estar à frente dos filhos de Deus, então tenho que estar aos pés do Senhor antes para depois transmitir e ensinar aos outros.

Terminada a meditação sobre o preparo espiritual, tomei o caminho da residência do Irmão Grikis. O sol descambava para o poente, escondendo atrás das montanhas seu rosto resplandecente. Todos os trabalhadores se apressavam para as suas casas, o sino da igreja anunciava que os trabalhos terminaram, que cada um se prepare para o dia de repouso.

Também a senhora Grikis está com suas tarefas terminadas, assados e cozidos estão prontos. Convida:

— Por favor, venham para a mesa do jantar.

Demos graças ao Pai do Céu e saboreamos os assados. Mais uns momentos de meditação e oração, e vamos ao repouso.

No dia seguinte fomos ao culto na casa dos velhinhos. Damos inicio louvando a Deus com o hino: “Como brilha a estrela da manhã”. Fundamentamos nossa mensagem na passagem de Colossenses 3:4 — “Quando Cristo que é a nossa vida se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em glória.” Em seguida foi distribuída a Santa Ceia, e [seguiu-se] agradável confraternização.

Estávamos todos felizes, porque o Senhor havia sido exaltado em nosso meio. A despedida foi demorada, mais um assunto, mais uma palavrinha. Neste momento terminou a minha visitação.

Os demais irmãos foram para suas moradas, fiquei com os velhinhos. A irmã pôs a mesa, servimo-nos os três juntos, e depois a oração final e a sincera despedida; provavelmente não nos veremos mais neste mundo. A irmã me estende uma bolsa com um farnel para a jornada e me conduzem até o portão. Mais apertos de mão — ficam com lágrimas nos olhos e nos acompanham com o olhar. Tiro o chapéu, e de longe aceno e sigo meu caminho.

Estou indo à casa dos Grikis; meu companheiro, com seu irmão Carlos, estão a minha espera. Mais uma vez as hospitaleiras irmãs põe a mesa, última vez nesta viagem. Refleti, será que haverá outra oportunidade de encontro neste mundo?

Desfrutamos mais da hospitalidade quando estamos na presença de Deus e rogamos para lá no céu nos encontrarmos na santa multidão, onde não haverá separação nem lágrimas.

Aqui também as irmãs tem preparado um farnel de viagem. Digo sincero “obrigado”: agora temos alimentação para mais de dois dias. Despedimo-nos e dirigimo-nos à casa onde pernoitamos na primeira noite; aqui temos que pernoitar também a última. Aqui ganhei fotografias: uma que retrata toda a cidade de Urubici, com seu belo vale, e outra em que apareço eu com um jornal na mão, meu companheiro Jacob Karkle com um casaco, e seu irmão Carlos, que nesta redondeza foi o primeiro leto a chegar.




Os irmãos Karklis, Carlos e Jacó, e Jacó Purim.

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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil
Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 5

continuação da parte 4

5

Estando exausto, adormeci logo. Durante a noite acordei e pensei, onde estou? Lembrei. Vieram-me à mente as necessidades do dia seguinte. Como poderei ser útil ao meu Senhor Jesus Cristo? De joelhos, implorei bênçãos e ajuda. Belo e santo momento aos Seus pés; sinto profunda paz em meu coração, como se uma amável voz estivesse dizendo: “Meu Filho, eu estarei contigo, durma em paz”.

Voltei a repousar até o alvorecer. Ouço o anfitrião na cozinha auxiliando a esposa; ambos conversam em surdina. Levanto-me e agradecendo a Deus cumprimentei os anfitriões.

Observei os arredores, que clima agradável! Próximo à sala de visitas vejo um pomar, onde vicejam macieiras, pereiras, ameixeiras, cerejeiras, pessegueiros, parreiras. Não há laranjeiras; para as laranjeiras é demasiado frio. Ao lado do pomar, um belo riacho, com boa queda d’água, que pode ser aproveitada para movimentar engenhos agrícolas.

No dia seguinte me mostraram onde reside o velho irmão Bruver. Fui visitá-lo. Chegando ao portão, bati palmas. Os velhinhos não ouvira: com a idade, os ouvidos ficaram acometidos de surdez. O irmão ainda ouve um pouco, vem ao meu encontro. Com voz forte, digo:

— Saúdo o irmão em nome de Jesus Cristo; a Paz de Deus esteja com vocês!

Responde:

— Obrigado!

Convida-me a entrar. A irmã idosa está na cozinha. Cheguei perto dela e falei em alta voz, no ouvido:

— Deus ajude, irmã! A paz de Jesus Cristo esteja contigo! Sou missionário, venho de Rio Novo; a Igreja saúda vocês e deseja a misericórdia de Deus!

Vejo lágrimas em seus olhos, sentimentos arrebatados pelas saudações dos irmãos distantes. Segura minhas mãos e diz:

— Obrigado, irmãozinho, obrigado! Alegro-me por estar ainda na memória dos irmãos. — e acrescenta: – Estou velha e os ouvidos ficaram surdos!

Respondo:

— Vim visitar e alegrá-los no nome do Senhor Jesus, e com vocês adorar a Deus e vos anunciar que o Reino de Deus está próximo. A volta de Jesus não tardará!

Seu rosto resplandece, o espírito renovado despertou do sono da solidão. Ela diz:

— Ninguém nos visitou, durante longos anos vivemos na solidão e sem participar da Ceia do Senhor.

Convidei os velhinhos para sentar junto a mim, tirei do bolso o Novo Testamento e em alta voz li um trecho significativo, depois ajoelhados adoramos a Deus. Ficamos renovados, com novas energias. Enquanto eu e o idoso irmão trocávamos idéias, a irmã preparava o almoço.

Servidos, saímos para o depósito. Perguntei ao irmão:

— Como vai? Não tem necessidades? Ainda tem forças para trabalhar? E como estão de saúde?

Ele me conduziu para o armazém e mostrou:

— Veja irmão, lá estão dois enormes sacos de trigo em grão, aqui temos um estoque de carne e tenho um porco de 10 arrobas para abate, e mais outros alimentos. Agradeço a Deus que não nos permite sentir falta de nada e não permite a fome rondar a minha casa. Aqui vamos bem, este terreno o governo deu considerando e reconhecendo minha invalidez.

Andamos ao redor da propriedade, mais de meio alqueire de terra. Terra de primeira qualidade. Podemos ver tudo o que é produzido é produzido em um jardim.

— Minha dificuldade é a fraqueza — o idoso irmão comenta. — Não consigo trabalhar, arar e plantar; tenho que pagar e o quintal deveria ser capinado, porém não tenho mais forças.

Relata também outro problema:

— Queria trazer madeira para a casa: contratei um ajudante com uma carreta e cavalo. Em uma encosta estavam algumas toras de pinheiro, e tentamos colocá-las sobre a carreta. Estava eu no lado de baixo, tínhamos colocado sobre o eixo, algo se mexeu e a tora com a carreta rolaram em cima de mim. Não consegui impedir o desastre: me derrubou, rolou sobre mim, desmaiei. Expeli sangue pelos ouvidos, boca e nariz. Ele me levou para casa, me tratou. No dia seguinte voltei do desmaio. Depois desse acidente estou quase inválido. Não temos filhos nem parentes. Agradeço a Deus pelo que temos.

Pensei: como poderia ajudá-lo? Dinheiro não tenho para dar, tempo também não; talvez alguns dias de trabalho.

Volto ao meu Salvador: “Mostre, Senhor, como poderei ajudá-los.” Sinto um apelo ao meu coração que diz: “Vá recuperar o quintal dos teus irmãos velhinhos.”

Fiquei com eles até o dia seguinte e pela manhã, com a ferramenta adequada, comecei o trabalho. Até o meio dia o trabalho estava tudo pronto. Eu mesmo me senti feliz juntamente com o casal de velhinhos.

Ficamos amigos de fato. Mantivemos cultos domésticos, nas manhãs, ao meio dia e a noite; fiquei umas duas noites com os queridos velhinhos.

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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil
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Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 4

continuação da parte 3

4

Fui convidado a visitar as montanhas da serra, onde residem duas famílias de letos crentes e outros patrícios. Pensei, que fazer? Eles são filhos de Deus e tenho necessidade de visitá-los.

Dois dias de viagem a pé. Sou idoso, não estou seguro em encetar tal objetivo. Já passaram 67 anos, as pernas sentem fraqueza. Não sou o mesmo que, quando na Letônia, aos trinta anos, em plena força, em viagem de evangelização, podia andar de Jaunjelgava até Latgale, mais de 200 quilômetros.

Mas que bobagem pensar só em si! O que uma pessoa é se não uma flor, uma sombra, que desaparece. Está escrito: “Ele aos cansados dá forças, aos fatigados reanima”. Por isso coloquei-me de joelhos aos pés do Senhor, a quem todos os caminhos das missões pertencem. Falei com o meu pai, expondo as necessidades e rogando forças para todos os membros do corpo. Então me raiou o amor e a fé, que suplanta e vê sobre todas as montanhas de dificuldades e coisas humanamente impossíveis.

Uma voz no meu coração me dizia: “Levanta, filho, e vai, pois serei contigo.” Respondi: “Bendito és, meu querido Guia e Mestre, pela promessa. O que Tu dizes se realizará.”

Jacob Karkle me acompanhou como intérprete e condutor. Saímos segunda-feira, 11 de agosto de 1931. Andamos o dia inteiro, quando chegamos ao sopé de uma alta cadeia de montanhas.

No início, aos meus olhos, as montanhas pareciam estar a poucas horas – mas nada disso! Quanto mais andávamos, mais as montanhas fugiam de nós; porém a vitória ficou do nosso lado.

Encontramos um colono brasileiro. Conversamos. Ele perguntou para onde estávamos indo, respondemos que vamos até a cidade de Urubici, nas montanhas. Ele afirmou:

— Esta noite não podem prosseguir, venham comigo, fiquem aqui, amanhã poderão ir adiante.

Fomos com ele. No meu coração pensei: “Oh, Jesus, como Tu protege os teus!”

Entramos na residência do nosso benfeitor. Ele convidou que deixássemos as nossas coisas no seu melhor quarto, conduziu-nos até a cozinha, colocou bancos junto ao fogo, sentamos e nos aquecemo: era uma noite fria.

O proprietário teve a idéia de sugerir que cantássemos algum de nossos hinos. Lamentavelmente, não tínhamos nenhum hinário em português, então cantamos em leto.

Após a ceia fomos ao repouso. O proprietário nos mostrou um quarto com uma cama grande, onde os dois viajantes cansados puderam dormir confortavelmente.

Pela manhã, ao alvorecer levantamos, mas a dona da casa já estava com o café pronto. Refeitos, continuamos a jornada.

Agora era subir a grande montanha, que está a 2000 metros acima do nível do mar. Subimos durante uma hora e não estamos nem na metade. A montanha continua as nos desafiar. Subimos mais durante outra hora e ainda sobra montanha a vencer.

Duas horas e meia de subida e finalmente estamos no topo. O clima no topo da montanha é agradável; mais adiante encontramos um pequeno riacho com água cristalina e gelada. Sentamos e almoçamos: na subida a montanha a fome havia despertado.

Após o almoço e continuamos a andar. Agora na descida, mas a frente mais uma montanha. Subimos novamente. Minhas pernas começam a protestar pelas subidas e passagens pelos riachos. Daqui para frente continuamos com pés descalços, os calçados perdemos nas águas e na lama.

Meu companheiro, jovem, continua com as mesmas energias, obrigando-se a me esperar. Durante as subidas ele carrega minhas coisas sem dificuldade enquanto não consigo acompanhá-lo.

Neste alto da serra vejo enormes planícies e matas inteiramente cobertos de pinheiros, como também encostas e desfiladeiros. Para onde fossemos olhar eram somente pinheirais.

Não podemos demorar por aqui, temos longo caminho pela frente e o relógio marca 12 horas. Metade do dia já passou, sempre subindo. Agora lentamente, descendo.

O ar é límpido e leve, agradável. Os riachos correndo entre pedras que brotam da fonte aqui mesmo no sopé da montanha. Agora o caminho faz voltas junto à margem da montanha e temos que cruzar a pé os riachos. Por muitas vezes, mais de dez.

Finalmente as travessias terminaram e meu companheiro avisou que daqui para frente apenas alguns pequenos riachos estarão pelo caminho, e que são afluentes de um rio maior [NOTA: Não nos é possível afirmar qual dos caminhos da serra eles tenham usado. Pessoalmente só conheço o caminho da Serra do Grã-Pará ou Serra da Forcadinha, ou ainda a Serra do Morro do Engenheiro. O itinerário não bate em alguns itens. Pode ser que seja o caminho da Serra do Imaruí, mas ainda falta averiguar. Se for a primeira hipótese o rio maior em frente seria o Canoas.].

A planície se apresenta cada vez maior. As montanhas, mais distantes umas das outras, deixam que a linda planície mostre sua terra preta e fértil, a produzir riqueza útil. Vemos algumas colônias onde foram derrubados belos pinheiros e, em seu lugar foi semeado trigo. Sim, aqui é um mundo diferente: outro ar, outras árvores e outras safras.

Tínhamos passado por muitas residências e o sol descambava para o poente, e ainda não tínhamos nos alimentado.

Chamei meu companheiro e disse que minhas pernas não estavam obedecendo sem novo reforço alimentar. Ele compreendeu imediatamente. Estávamos outra vez junto ao curso da água que cruzamos tantas vezes, mas se tivesse que atravessá-lo novamente não haveria condições: estava largo, profundo e a correnteza forte.

Sentamos junto a corrente, servimo-nos de alimento e tomamos água diretamente da correnteza. Vinham a nossa frente algumas pessoas, e perguntamos se estava longe o nosso objetivo; responderam que mais 4 horas de caminhada.

Quase desmaiei, preocupado com minha canseira. Comecei em meu coração implorar a Deus por novas forças para a fadiga não me vencer. O companheiro me fez lembrar que nesta noite não haverá luar e que na trilha com lama (choveu durante a noite) será impossível caminhar com a escuridão. Suspirando por ajuda divina, segui meu companheiro. Horas antes tínhamos passado em frente a uma igreja, agora vejo outra [NOTA: Aqui eles já parecem estar descendo as margem do Canoas. Primeiro São Pedro, onde deveria haver uma igrejinha, e depois outra em Santa Teresa.]. Caminhando lembrei que este povo, que aqui vive, não é de selvagens; eles pensam em Deus. Seria necessário que alguém mostrasse a eles com certeza o caminho da salvação, para que eles se tornem em filhos de Deus e nossos irmãos.

O sol se escondia, nós nos apressamos, às vezes até as carreiras. No caminho escorregadio, caí umas três vezes, felizmente não sujei as roupas de lama. Agradeci a Deus pela proteção. Como eu pareceria sujo de lama?

Um bêbado?

Como alguém me receberia desse jeito em residência estranha?

O sol se pôs, despedindo-se com os últimos raios pelos cumes das montanhas. Despediu-se também de nós ainda a caminho. Refleti com que precisão, sem qualquer atraso, são cumpridas as leis estabelecidas pelo Criador. Está escurecendo e ainda não estamos no fim da viagem.

O caminho está cada vez melhor e seco, não há perigo de quedas, caminhamos depressa e com segurança. Meu companheiro diz:

— Estou vendo uma residência conhecida — e aponta: — Veja, do lado direito, a luz na janela, esta é uma residência de letos. É a colônia do [Adolfo] Maisin, proprietário da terra. O próximo é um brasileiro, e depois é a propriedade do meu irmão Carlos Karkle com duas casas: uma na beira do caminho, à esquerda, e outra, mais velha, à direita, a uns cem passos do caminho. Pode ser que esteja residindo na morada nova.

Chegando mais perto vemos uma lareira num barraco. Batemos palmas. Veio ao encontro um brasileiro. Perguntamos:

— O proprietário mora aqui ou na casa velha?

Ele aponta para a casa velha. Voltamos pelo mesmo caminho para o lado oposto. A escuridão era total. Apalpamos o portão e começamos a bater palmas.

Fomos recebidos pelo irmão do meu companheiro, o Carlos Karkle. Chegando bem próximo e reconhecendo seu irmão exclamou:

— É, Jacó? Que bons ventos te trazem?

E, cumprimentando, conduziu-nos para adentrar a residência.

Meu companheiro me apresentou aos seus parentes, informando que sou irmão do João Purens, o qual é amplamente conhecido. Abrigando as malas e bengalas, sentamos.

A dona da casa é de origem alemã. Desde os cumprimentos na chegada podemos deduzir a língua alemã, embora fale muito bem a língua leta. Senhora amável e hospitaleira.

Indagavam sobre a viagem: foi difícil andar a noite tão longo trecho do caminho? Respondo que para um idoso como eu não foi tão fácil, as pernas estão exaustas.

Ela disse:

— É preciso fazer uma imersão demorada em salmoura quente — e em seguida, providenciou a salmoura.

Fiz a imersão e ajudou bastante, mas nas solas dos pés havia bolhas produzidas pela estrada pedregosa. Refleti como seria no meu querido Mestre, que andou pelas montanhas e vales buscando as ovelhas perdidas de Israel?

A dona da casa havia preparado o jantar e nos convidou a mesa. Agradecemos ao Pai do Céu e servimo-nos de saborosas ervilhas, cultivadas aqui na propriedade. Plantou apenas dois litros e colheu duas sacas, isto é, cem vezes mais.

Nosso anfitrião comentou que foi o primeiro leto a chegar à cidade de Urubici. As plantações são planas e devidamente cultivadas. Conversamos sobre alguns assuntos, e em seguida fizemos um culto noturno. Li no Novo Testamento um capítulo apropriado da Palavra de Deus e dobramos os joelhos em gratidão e adoração.

No inicio imaginei que Carlos, irmão de Jacó, fosse membro da igreja batista. Mais tarde entendi que não. Era, no entanto, querido amigo e benfeitor dos batistas, e sua esposa sabatista, ambos queridos amigos e amantes da Palavra de Deus. Que o Senhor os abençoe e os mantenha na sua misericórdia. Terminamos e repousamos até a manhã.

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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil
Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 3

continuação da parte 2

3

Segunda-feira, dia da chegada do casal de noivos. Já era noite quando os aguardados chegaram.

Agora outra alegria e cumprimentos. O Artur elegeu sua companheira [Vergínia Fernandes] entre o povo brasileiro; filha de pais crentes e ela também crente no Senhor Jesus, rosto amável, eficiente e ágil nas lidas domésticas.

A cerimônia das núpcias estava prevista para a sexta-feira daquela mesma semana. Até o dia do casamento havia um considerável movimento na cozinha com cozidos e assados; toda a casa exalava de agradáveis aromas do que a cozinha estava a produzir.

Sexta-feira de madrugada o novo casal e seus acompanhantes partiram a caminho da cidade de Grão-Pará, para o cartório do Registro Civil, a fim de cumprir os requisitos legais. Nós, os idosos, ficamos para aguardá-los.

Houve troca de opiniões sobre a parte religiosa do enlace matrimonial. A parte legal será cumprida, mas como será a outra? Pastor, na ocasião, não havia. Finalmente ficou decidido que caberá a mim esta incumbência; o povo crente não costuma ficar satisfeito sem que suas promessas e objetivos estejam selados com a palavra do trino Deus. Seus desejos são que este compromisso esteja confirmado com as orações, bênçãos e hinos, porque estes tesouros o Senhor tem dado em abundancia.

A noite chegou com a casa repleta de convidados. Vieram também os brasileiros, parentes da noiva. Após alguns momentos, acabavam de chegar o par de noivos e seus acompanhantes.

Agora a casa estava em ordem. Com hinos começamos, e o que acima afirmamos estava completo. Divino e santo momento.

Deu-se inicio aos amáveis cumprimentos ao novel casal. Todos externaram seus votos de felicitações e incentivo ao novo caminho.

A diretoria da Igreja decidiu me convidar para dirigir os serviços religiosos aos domingos, durante o período da minha permanência junto ao meu irmão. Comprometi-me a fazê-lo e a também visitá-los em suas casas, com eles orar a Deus e ler a Sua palavra. Fazendo isto experimentei grandes bênçãos. Vejo e sei que tal trabalho tem grande significado – cuidar da Igreja e fortalecer na fé.

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Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
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Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 2

continuação da parte 1

2

Repousamos suavemente, até a aurora atingir as janelas. Despertamos alegremente e logo fui verificar o panorama ao redor. Vejo laranjeiras em grande quantidade; à margem do laranjal uma calha de madeira conduzindo água cristalina em abundância que é usada para todas as necessidades. Satisfeito e feliz, observando os arredores da residência, em silencio agradeci a Deus, pelo modo como proporcionou ao meu irmão um belo lugar e uma terra fértil.

Ouço o convite para o culto doméstico. Meu irmão, segundo o costume, lê a Bíblia conforme o programa da lição dominical. Após a leitura agradecemos a Deus e imploramos as bênçãos para os eventos do dia.

Tomamos café e nos dirigimos ao culto, verificando que alguns jovens se apressam para a Escola Bíblica Dominical. Após pequeno trecho pela estrada de terra, chegamos ao espaçoso templo da Igreja Batista de Rio Novo, em cujo jardim há diversas laranjeiras e flores. Ao redor do templo, uma macia relva verde. Junto à igreja jorra ainda uma bela, pequena e cristalina fonte de água, três degraus abaixo do nível [da relva]. A pequena fonte está situada de forma que facilmente podemos nos servir da água [NOTA: Nos dias de chuva crianças e adultos vinham descalços pela estrada de terra, trazendo o sapato nas mãos. Lavavam na fonte a lama dos pés, subiam descalços o caminho de pedra e vestiam meias e sapatos na sala da biblioteca. Só depois entravam no santuário.].

O edifício foi bem construído: na parte interior, boas acomodações e bancos confortáveis. Há também varias construções adjacentes para uso da igreja. Vendo tudo isto, digo a mim mesmo: “Senhor, aqui vejo tua Glória; como são belas as tuas moradas, oh Senhor Jeová, meu Rei e meu Deus”.

Assim adentrei ao templo para adorar meu querido Salvador Jesus Cristo.

A Escola Bíblica concluiu sua atividade dominical. [Como] para a irmandade rionovense eu era desconhecido, meu irmão me apresentou ao irmão W. Karklin, membro da diretoria, que preside todos os cultos e assembléias. Ele imediatamente me estendeu o convite para esta noite ajudá-lo. Respondi que se ele dirigir o culto e havendo oportunidade poderei ajudá-lo. Que me apresente à congregação; é só chamar-me que o que Deus me inspirar, isto falarei.

Neste domingo estava programado que se falasse e orasse sobre o trabalho missionário. Não demorou, fui convidado a falar sobre missões ou sobre minha viagem. Não achei interessante falar sobre mim, mesmo que fosse de interesse ou de utilidade. Dessa forma, comecei pedindo desculpas ao irmão Karklin e demais ouvintes.

Antes de tudo cumprimentei a igreja em nome da Igreja Batista de Areias, São Paulo, e em meu próprio, desejando a paz de Jesus a todos. Afirmei em seguida que no meu coração estava a mensagem de 2 Pedro 3, sobre o fim dos tempos e a vinda do Senhor, quando os elementos ardendo se desfarão, e que aguardamos um novo céu e uma nova terra onde habita a justiça.

Terceiro ponto: o seguinte ensinamento, que neste período de espera devemos nos manter e viver de modo a sermos achados dignos de herdar a nova terra, onde habita a justiça. Discorrendo sobre esse assunto me senti arrebatado e as palavras jorravam. Notei que os ouvintes estavam tocados pela palavra.

Após o culto houve inúmeros cumprimentos e convites para visitá-los, os quais infelizmente não consegui atender todos.

Voltamos à residência de meu irmão, pois havia grande volume de informações a ser repassado de um para outro, depois de quarenta anos de ausência. O tempo passa com pressa, sem que se perceba, e a noite já chegou. Temos que ir para a mesa do chá.

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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil
Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 1

Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

1

Durante longos anos cultivei em meu coração um desejo: antes de morrer quero rever meu irmão mais velho, que não vejo há quarenta anos, desde quando nos separamos em Jaunjelgava. Inúmeras vezes roguei a Deus com este objetivo, que me proporcionasse o caminho, que a Sua vontade me fosse favorável.

Alguns meses atrás este meu desejo se realizou, quando encontrei amáveis companheiros de jornada, que também me ajudaram quanto à língua portuguesa. Embora o caminho por terra não seja longo, por mar viajamos quatro dias, do porto de Santos até Imbituba, que é um pequeno porto no estado de Santa Catarina. Era sábado de manhã quando tomamos assento no trem de bitola estreita e partimos rumo Orleans. Oito quilômetros à frente nos aguarda a Colônia Rio Novo, composta de imigrantes letos.

A viagem [de trem mostrou-se] deveras interessante: temos que atravessar um braço de mar [NOTA: Lagoa do Imaruí, ponte de Cabeçudas], e a ponte ultrapassa um quilomêtro de extensão. Em Orleans chegamos às 4 horas da tarde. Saindo da composição ferroviária, meus companheiros de viagem, conhecendo a cidadezinha, dirigiram-se à residência da família Stekert, para lá deixar as malas e em seguida, aliviados do peso, seguir a pé para Rio Novo.

A irmã Stekert não permitiu que saíssemos sem demonstrar sua hospitalidade. A mesa estava posta com um gostoso café e pão com manteiga. Agradecemos a Deus, servimo-nos e apressamos rumo ao Rio Novo.

O sol se pôs e continuamos com o luar. Caminhamos conversando e fazendo conjecturas, tendo em vista que estaremos surpreendendo os parentes, aos quais de propósito não demos qualquer notícia. Veremos: será que me reconhecerão?

Os companheiros mostram e contam: aqueles montes pertencem ao irmão tal, aquelas planícies pertencem ao irmão fulano; aquela é a residência do irmão Slengman, aquela outra do irmão Frischembruder. Está vendo aquele monte com uma mata? Sim, vejo. Veja, aquela terra é do seu irmão.

Andando mais um trecho vemos na beira do caminho uma construção feita com esmero. Meus companheiros perguntam se posso adivinhar que construção é esta. Como poderia saber? Eles dizem: é o templo da Igreja Batista Leta de Rio Novo, onde amanhã estaremos orando a Deus e ouvindo o evangelho.

Caminhando mais um trecho vemos mais uma casa. Os companheiros informam:

— Olhe, esta é a residência do seu irmão.

Meu coração começou a disparar. Como será o reencontro? As janelas todas escuras, todos dormindo. Meus companheiros me conduziram até a casa, me deram uma lamparina para eu bater palmas sozinho e acordá-los. Os companheiros permaneceram ocultos na escuridão aguardando os acontecimentos.

Vejo, abre-se uma janela. Uma voz pergunta:

— Quem é o senhor?

— Sou um viajante e procuro pousada.

— Mas o senhor é desconhecido… Diga quem é?

— Diga ao proprietário que venha me reconhecer — respondo. — Ele já me viu muitas vezes, pode ser que possa me reconhecer.

Chega o irmão à janela, olha e diz:

— Eu também não conheço o senhor.

— Então, por favor, venha para fora e me veja de perto.

Dirijo a luz da lamparina para meu rosto para que ele veja melhor e digo:

— O senhor certamente me viu centenas de vezes; não consegue lembrar?

Meu irmão meneia a cabeça e afirma que não me conhece mesmo. Minha cunhada, sendo lépida e ágil, diz:

— O senhor será o Purens?

— Sim, sou eu mesmo! — respondo, e começamos as alegrias do reencontro, os cumprimentos, a surpresa e os convites: entre, entre! Entre!

Meus companheiros de viagem são Guilherme Klavin e sua irmã Marta, que estão aqui porque foram convidados para o casamento de seu irmão mais velho, Roberto, que será na semana seguinte em Mãe Luzia, onde a noiva reside. Até a residência dos pais deles são mais sete quilômetros; com o auxilio da lamparina, despediram-se e seguiram adiante.

Começamos então a conversar com meu irmão, e logo nos aprofundamos em interrogações e troca de informações e experiências.

Enquanto conversávamos a ágil dona da casa estava na cozinha. Não tínhamos terminado a primeira etapa da conversa quando a mesa já estava posta e uma amável voz chamava:

— Por favor, viajante, venha ao jantar!

Agradecemos a Deus e comi com satisfação, pois tínhamos caminhado por longo trecho. Fomos conduzidos à sala de visitas, [e pudemos] louvar a Deus e agradecer-lhe pela Sua Misericórdia e proteção aos Seus filhos, por como Ele ouve nossas preces e mostra Sua Benignidade em todas as ocasiões. Acima de tudo, meu coração se alegrava e louvava a Deus porque encontrei meu irmão e seus familiares amando a Deus, lendo a Bíblia, orando todos os dias. O espírito cristão introduziu raízes profundas na vida desta família. Que o eterno Deus dos profetas e apóstolos os mantenha em permanente crescimento até o fim, quando Cristo voltar em sua plenitude.

Começo a perguntar:

— Onde está o Artur [Otto], seu filho?

Respondem que viajou para Mãe Luzia, foi buscar a noiva, trazê-la para cá e realizar o casamento [NOTA: Artur Purim era o meu pai, e o casamento dele com minha mãe, Verginia Fernandes, realizou-se no dia 25 de setembro de 1931]. Que surpreendente e feliz oportunidade! Assim, sem saber, cheguei exatamente na ocasião das bodas!

Conversamos mais alguns assuntos e o cansaço nos venceu, sendo que o relógio marcava mais de meia–noite. Mamãe soneira nos convida ao seu regaço e diz: durmam, para que o bondoso Deus vos conceda novas energias.

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