Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, conclusão

continuação da parte 6

7

Bendito seja o Senhor! Segunda-feira. Ao alvorecer do dia estamos despertos e com saúde. Preparamo-nos para a caminhada. Degustamos o café da manhã. Dirigimos nossas preces a Deus e com sinceros “adeus” nos apressamos pelo mesmo caminho de volta. Na noite do dia seguinte estávamos no meio dos nossos parentes.

Verifiquei que a Igreja Batista Leta trabalha com eficiência. Aos domingos pela manhã a mocidade, com os demais, inclusive as crianças, estão alegremente no culto. Cantam, aprendem, oram a Deus e, terminado o seu horário, ficam com toda a igreja para juntos ouvir do evangelho.

Alguns irmãos desenvolvem trabalho missionário junto ao povo brasileiro. Promovem cultos na cidade de Orleans e cantam em português. Aqui podemos dizer, como o Senhor disse: “Conheço as tuas obras, e o teu trabalho… sofreste e tens paciência e trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste.” Pelo estatuto interno da Igreja que julgue o Senhor, que observa, o reconhecimento a quem de direito.

Preparamo-nos para ir a Mãe Luzia. Lá serão celebradas as festividades de inauguração, dia 6 de setembro. A Igreja de Rio Novo recebeu um convite para comparecer e participar com mensageiros, octetos e solistas. O convite finaliza: venham como puderem.

Nestas condições tive vontade de visitar Mãe Luzia. A igreja me concedeu poderes de mensageiro, outros irão conforme suas condições. O octeto estava em condições de viajar para o evento.

Os meios de transportes eram diversificados: [alguns iam] com caminhões, a cavalo, outros de trem. Foi-me recomendado que fosse de trem: se chovesse poderia ficar no caminho. Acompanhei então o irmão Zeeberg, que viajou com sua esposa. Estes também foram amáveis companheiros, que tudo conheciam e sabiam mostrar e contar.

Viajamos até a cidade de Tubarão, onde desembarcamos e aguardamos seis horas enquanto chegava à outra composição, que nos levará ate Mãe Luzia. Agora nos sobra tempo para visitar o irmão Osch, ver a cidade e seus arredores. A cidade é bonita, plana e com terra fértil, junto à barranca do rio, com ruas calçadas e rico comércio.

Estamos novamente na estação ferroviária. A composição chega: encontramos o pastor Stroberg, vindo de Rio Branco, junto com uma jovem. É uma professora, convidada pela Igreja de Rio Novo para lecionar para as crianças [NOTA: Emília Zickmann].

Neste encontro nos alegramos uns pelos outros. Viajamos conversando até a cidade de Criciúma. Ao desembarcar encontramos os irmãos de Mãe Luzia que vieram ao nosso encontro. Eles levaram as nossas malas e nos conduziram até um caminhão: tínhamos pela frente mais 12 quilômetros de estrada de terra.

Chovia, estrada lisa, o caminhão derrapava de um lado para outro como que embriagado. Receio que haja algum acidente. O caminhão estaciona.

Graças a Deus chegamos. Desembarcamos alegremente. Os irmãos acomodam nossas malas e nos convidam a acompanhá-los. Andamos uns cem passos e chegamos à residência dos Andermann.

O casal de proprietários veio nos receber e cumprimentou a mim e ao Stroberg, depois indicou-nos um quarto com 2 camas. Lugar de repouso ja temos. É tarde da noite e a dona da casa põe a mesa do jantar. Servimo-nos e em seguida fizemos um culto noturno, colocando aos pés do Salvador a nossa gratidão pela sua misericórdia.

Novo dia chegou, o alvorecer penetra pelas janelas, o sono nos abandonou. Levanto e dou graças ao Pai Celeste pelo cuidado. Apresso-me a observar os arredores, ontem à noite a escuridão reinava e não podia se ver nada.

Sim, um céu límpido! Ontem à noite o céu estava coberto de densas nuvens negras e chorava lágrimas de bênção sobre a terra seca; agora trocou de roupagem e o sol, com seus raios luminosos, alegra a natureza. Observando a bela planície, o rio, os córregos, fiquei alegre e em silêncio louvei a Deus: Oh, Senhor, quão maravilhosas são tuas obras e tuas bênçãos! A terra cultivada durante trinta anos sem qualquer adubação e as colheitas, como sempre, fartas.

Tomamos café e fomos com Stroberg visitar o novo templo e depois a casa dos Klava, presidente da Igreja local. Encontramo-nos, cumprimentamos e passamos a falar sobre as festividades.

Mas uma circunstância infeliz: ambos, Stroberg e eu, fomos assaltados por uma febre inesperada. Ele começou a tremer como uma vara verde e não sobrou alternativa senão ir para a cama. Eu além da febre tinha vômitos, e não sabíamos a causa desta enfermidade súbita. Também eu fui obrigado a procurar a cama e buscar cobertores, todos insuficientes [NOTA: Possivelmente tratava-se de malária].

Pensei: e agora, que acontecerá? Quando deveríamos nos alegrar com as festividades, estamos a gemer! Imploro a Deus e digo a Ele da nossa situação. “Oh, Senhor, não estás satisfeito que nos alegremos com estes irmãos? Estenda a tua mão salvadora e nos toque, teus servos; que retorne a saúde, para que possamos ser portadores de alegria e testemunhas das tuas palavras de vida!”

Nosso anfitrião preparou uma sauna; conduziu primeiro meu companheiro e tratou-o da melhor maneira. Em seguida foi a minha vez. Fiquei pior ainda: perdi totalmente as forças, não podia sentar nem ficar de pé. Pensei: é o meu último dia.

Meu anfitrião me recomendou um banho quente e, no final, uma ducha fria. Veio uma pequena melhora. Voltei para a cama. Dormi a tarde toda e senti-me recuperado. Ouvi o convite à merenda, comi um pouco e as energias e a saúde estavam se renovando.

Na manhã seguinte estava recuperado, e meu companheiro também se recuperou totalmente. Louvamos e agradecemos ao Senhor.

Pela manhã dirigimo-nos ao culto. O companheiro diz que não tem condições de conduzir as festividades, a febre não permite. Sentou-se a parte e não participou do culto.

O irmão Klava deu início à festividade com o cântico do hino “Bendiga ao Senhor, o Rei da Glória”, leu o salmo 84, sobre “Quão amáveis são os teus tabernáculos”, e orou a Deus. Depois houve a apresentação de inúmeros corais e saudações dos visitantes e outras apresentações.

Uma saudação especial veio do pastor Abrão de Oliveira, homem de cor, que falou em português. O autor destas linhas falou sobre Colossenses 3.1-4.

O evento festivo teve inicio no domingo, continuou na segunda-feira e terminou na terça-feira. Nos dois últimos dias Stroberg conduziu as festividades; o Senhor lhe devolveu as forças e a saúde. Na segunda-feira falou sobre o amor, conduzindo seus ouvintes aos belos caminhos do amor.

Na terça-feira pela manhã despedimo-nos dos irmãos de Mãe Luzia com o hino “Até que nos encontremos na margem do Rio de Cristal”.

Rumamos a caminho da cidade de Tubarão. Passaremos a noite nessa cidade: a composição ferroviária que nos levará a Orleans passa pela manhã. Sobrou-nos bastante tempo para visitar o irmão Osch e nos ocuparmos com assuntos do Pai do Céu.

Chegamos a Orleans. Meu irmão nos mandou cavalos de montaria, muito úteis.

Na Igreja de Rio Novo estão programadas preleções sobre assuntos doutrinários. Domingo, 13 de setembro, houve culto. Segunda-feira, estudos sobre a Igreja, ministrados pelo Pastor Stroberg. Primeiro, no que consiste a igreja? Em que bases se sustenta? Quem é seu mantenedor? Quais as condições exigidas para ser membro? Quais atribuições dos membros da igreja? Quais atividades os membros devem exercer dentro e fora dela? Finalmente, qual o resultado quando uma igreja permanece no caminho prescrito nos evangelhos? Conclusão: guarde o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. Cada membro podia dar sua resposta às interrogações, que foram amplamente debatidas.

No dia seguinte houve a conclusão do curso, ocasião em que foram feitos esclarecimentos sobre temas controversos que haviam se estabelecido entre os membros da Igreja.

Com calorosos abraços e cumprimentos nós nos despedimos.
Stroberg voltou para Curitiba, ao seu local de trabalho e a seus familiares. Meu caminho me conduz a São Paulo e a meus familiares em Areias.

Bendito seja nosso querido Pai através de Jesus Cristo! Grande número de rostos de irmãos e amigos ficarão na minha memória.

FIM

Para ler do começo clique aqui
Pelas montanhas e vales do sul do Brasil
Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

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Numa encruzilhada | Fritz Jankowiski a Reynaldo Purim

[Cartão Postal]

Rio Branco [Guaramirim], 8 de junho 1920

Querido amigo Reinold, que a presença de Deus seja a tua força.

Após multicoloridos acontecimentos nesta viagem, enfim cheguei em casa no dia 4 de junho. Durante a minha ausência também o meu pai aproveitou para ir até Rio Negro, consultar um médico para tratar da doença das pernas, que chegou a uma situação assustadora. Ele voltou ontem a noite. A maior preocupação sobre esta doença está sob controle.

Eu estou numa encruzilhada. Na minha frente, dividem-se diversos caminhos. Qual devo tomar? Qual é o mais seguro, que vai levar-me ao meu destino e acertar o alvo? Apesar disso os obstáculos pressionam e diminuem as alternativas. Logo terei que dar o primeiro passo, enfrentando um desses caminhos.

Passo, grande parte das noites, horas sem sono, pensando, tentado desatar esses intrincados problemas, preocupado em estar afinado com a direção do Altíssimo — porque minha decisão vai mostrar se eu estarei subindo, se continuarei no mesmo nível ou se estarei descendo de volta.

Amigo, inclua-me nas suas orações, para que o Senhor me ilumine e me possibilite saber a sua soberana vontade.

F. Jankowiski

[Escrito na lateral]
Com muita ansiedade aguardo carta sua.

As pessoas de lá são como nós | Lucia Purim a Reynaldo Purim

[Sem data, mas deve ser 29 de abril de 1920]

Querido irmão!

Primeiramente envio muitas lembranças. Agora estamos passando bem. Esta noite está chovendo uma chuva miúda e está um pouco frio.

Estou com um problema no ouvido; não escuto bem, por isso não vou escrever uma carta muito longa. Tenho que estudar, se não na escola não vou passar bem. Estou começando a fazer divisões e a traduzir do alemão. Agora nos feriados nacionais, que serão no dia 1° e 3 de maio, não haverá aula [comemorava-se o descobrimento do Brasil].

No dia da Ascensão do Senhor haverá piquenique e já foram distribuídas as partes para decorar.

Você quer saber se o pessoal está preocupado e preparando-se para a Convenção [Batista do Paraná e Santa Catarina]. Na casa dos outros não sei, mas nós estamos engordando um peru, um galo e três galinhas; também foi feito um forno novo para os assados, limpamos o jardim, cuidamos das flores e as salas deverão ficar brilhando. Estamos nos aprontando como se fosse para uma guerra.

Foi designado que se vier alguém de Rio Branco esses virão para a nossa casa, pois as pessoas de lá são como nós. Ninguém quer hospedar as figuras importantes das cidades, e os mais espertos já escolheram os seus hóspedes. A maioria prefere ficar com os macacos de 5$000 aqui de Orleans e adjacências do que pegar uns de 50$000; a gente tem medo que tantas pessoas inteligentes juntas fiquem querendo arrancar uma o olho do outra.

Os Klavin e os Leiman também estão prontos para receber hóspedes, mas lá é muito longe e ninguém vai querer ir. A senhora Leiman disse que se a senhora Regis vier ficará lá na casa dela. O Deter e a esposa ficarão na casa do Sr. Frischembruder, e quantos na realidade virão eu não sei.

Bem desta vez chega. Amanhã vai haver matança de porcos, por isso temos que levantar cedo.

Com muita saudade,

Lusija

Desta vez controlaram os velhos | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 9 de novembro de 1919

Querido Reinold!!

Primeiramente mui amáveis lembranças!

Bem, desta vez terei muito o que escrever.

Fazia muito tempo que aguardávamos cartas suas. A última foi a que recebemos no 24 de setembro; depois disso passou o mês de outubro inteiro. No dia 24 de outubro a Luzija mandou um cartão postal e no dia 31 de outubro outro cartão, porque não tinha chegado nenhuma carta. Então, na quinta-feira passada a Luzija foi novamente para a cidade e… quando chegamos da roça no meio-dia havia a mesa cheia com cartas com muitas cartas: 5 cartas e ainda jornais. Uma de 12 de outubro, outra do dia 19 de outubro. E mais aquelas três: uma do dia 11 de março de 1918, onde dentro veio também aquela carta de nosso parente da Rússia. Outra de 8 de abril de 1918 e a terceira do dia 19 de maio de 1918. Estas três tinham sido abertas pela censura e, pelos carimbos, ficaram no Rio até 28 de outubro de 1919. Em duas aparece também o carimbo de quando foram colocadas no correio em 1918 e uma em 1919, e por aí você pode imaginar o tempo que demoraram.

Nós não tínhamos mais esperança, achando que as extraviadas estariam perdidas de vez. Agora esperamos que cheguem aquelas outras que vinham com aqueles desenhos que você diz ter mandado no ano passado, e pode ser que estejam paradas em algum lugar.

Também os Leimann receberam cartões de Páscoa e outras cartas escritas no começo do ano. Agora das recentes está faltando a que foi escrita em 28 de agosto, as outras todas chegaram.

Esta última remessa de dinheiro foi muito rápida e sem custo qualquer.

Tu pedes que escreva as novidades do Rio Novo. Neste momento não há nada importante. O último evento importante foi a Festa da Mocidade [Dia 16 de outubro, aniversário da União de Mocidade da Igreja Batista Leta de Rio Novo]. Esta foi realmente grandiosa. Começou as 10h30 da manhã e foi até ao escurecer. O tempo que antecedeu a festa estava muito chuvoso; quando ia chegando o dia parou de chover porém continuava nublado. Mas o dia da festa amanheceu com um tempo magnífico, sem a menor nuvenzinha mas não calor demais, e tudo enxuto como fazia tempo que não tinha sido assim.

Foi um domingo muito bonito. Já na segunda começou a chover novamente. Esta Festa da Mocidade foi feita em conjunto com a Festa da Banda de Música. Havia gente demais, uma verdadeira multidão. Não sobrou lugar pra ninguém. Tinha muita gente de Orleans, inclusive o pessoal das vendas.

O programa foi dirigido pelo Butler. Desta vez controlaram os velhos, pois eles falam demais, tomando muito tempo. O programa consistiu de hinos, poesias e música. O número de rapazes da União é 32 e moças 36. O número de músicos é 15. Fizeram um relatório de atividades, mas não me lembro de tudo. Às 12 horas teve um intervalo quando foi servido um lanche com café, pão, etc, e não foi cobrado nada de ninguém.

Houve uma coleta com a finalidade de ajudar aos refugiados da guerra no Báltico, que rendeu 132$000. O coro dos jovens cantou quatro hinos, inclusive dois em brasileiro. O coro da igreja cantou cinco hinos, e também cantaram dois quartetos.

Notável mesmo foi a mensagem proferida pelo Butler. Esta valeu a pena mesmo. Se todos seguissem os conselhos e ditames, tudo seria melhor. Mas será que todos entenderam?

Depois do programa ainda teve um Bazar da Banda de Música, onde tudo que foi oferecido e vendido será destinado para compra de novos instrumentos. Houve muita animação e foi até ao escurecer. O melhor músico de sopro é o Ilris do Augusto. Mas o Grünfeldt não gosta de música e acha uma bobagem gastar dinheiro e tempo com isso. Mas nós achamos que é muito melhor que os jovens fiquem ensaiando e aprendendo música aos domingos à tarde do que por falta do que fazer terminem procurando alguma bodega. Agora não existe aquela liberdade, e qualquer que começar a balançar é seguido e advertido.

A família Balod faz tempo que foi embora para Porto Alegre. O Hermans lá ficou um pouco melhor. Mas agora está louco outra vez e não sei se não está em algum hospício. Acho que ele tem culpa desta situação, pois quando os filhos deles eram menores ele permitia que fizessem o que quisessem, e agora não consegue mais controlá-los. Eles fazem artes e safadezas, uma em cima da outra, e agora ele fica reclamando dessa situação triste.

Então foi o Arthurs [Leiman] que te escreveu sobre aquelas brigas e disputas. As moças daqui brigavam por causa dele e ele tratou de dar o fora daqui. Parece que ninguém escreve pra ele, e ele não fica sabendo nem metade do que você sabe.

Você pode vir para casa e aí na volta vai ter companheiros de viagem. Tem gente que está se aprontando [para partir]: são o Janka Klawa e o Emilio Andermanis de Mãe Luzia — por aí você pode avaliar que tipo de heróis. O Janka é negociante de cavalos e vive com os brasileiros das serras, comprando e vendendo. O Emílio é um dos irmãos “espirituais”; não entendo que como esses pentescostais, que não querem nem saber de estudo ou de escola. vão mandar um deles para lá. Dinheiro para pagar a escola eles não têm, dinheiro só têm para as passagens. Como eles vão trabalhar, vocês podem “economizar” algum serviço para os jovens que vão chegar. Se continuar tudo de graça não sei quantos espertos não vão querer ir para lá.

Tenho mais coisas para escrever. Nós estamos bem, graças a Deus. Com saúde estaríamos se a Mamma não tivesse aqueles problemas nas pernas: iguais àqueles [que tinha antes], só que muito mais [intensos]. O Pappa também teve ficar de cama também devido a problemas das pernas, e reclama que doem muito. Calcule, com tanto trabalho nas roças e eles quase inválidos.

O tempo está bastante chuvoso, mas nas últimas duas semanas choveu menos. A nova coivara nós queimamos no dia 1 de novembro, Não estava muito seco, mas como estava ameaçando a chover resolvemos tocar fogo. O Augusto e o Hari nos vieram ajudar. O fogo pulou o aceiro e passou para o mato só em um lugar, mas nós prontamente apagamos com vassouras [feitas de galhos de plantas], em poucos instantes. À noite começou a chover. Na coivara plantamos quatro quartas de semente de milho. Ao todo já plantamos sete quartas. Também plantamos 10.000 de mandioca, 2.000 de aipins, mais batata inglesa, arroz, batata doce, amendoim, carás e melancias. Começamos a roçar a “voadeira” na coivara do ano passado e está indo rápido. Se o tempo melhorar, poderemos queimar.

Este ano tem muitos ratos e ratazanas atacando o milho guardado.

Então agora chega, esta é a última carta que escrevo, pois nas férias não sei onde você estará. Você pode vir para casa e trazer os seguintes remédios: Aconitum, Belladonna, Sulfur e, se conseguir achar, o tal Pain Expeller que dificilmente se consegue e quando aparece é muito caro.

Você tem se correspondido com o Ludis [Ludvig Rose] e sabe o que ele anda fazendo? Você poderia passar as férias com ele [em São Paulo]. Quem sabe ele poderia arranjar um trabalho temporário [pra você], porque na cidade sem trabalho sai muito caro. E [você poderia] aproveitar para ver se o seu priminho está crescido.

Lembranças de todos,

Olga

Você é um ignorante | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 2 de setembro de 1919

Querido Reinold,

A tua carta escrita em 17 de agosto recebi no dia 21 de agosto. Obrigada! Precisava ter respondido mais rápido, mas como ninguém ia para a cidade para levar ao correio, foi ficando e demorei a escrever. Ainda estou esperando resposta de duas cartas: uma mandei no dia 1° de agosto e outra no dia 15 de agosto, as quais espero que tenhas recebido.

Fiquei muito alegre em saber que você está sempre passando bem e que estás com saúde. Nós também, agora estamos bem graças ao bom Deus, e todos com saúde. Mas semanas atrás estivemos todos com influenza; doía muito a cabeça e [tínhamos] moleza em todo corpo. O Pappa ficou vários dias de cama. Curityba é uma bela cidade, só que falta muita água.Nós, os demais, com tanto serviço não tínhamos tempo de ficar de cama.

O tempo está muito variado, ora quente ora frio. Houve dias tão quentes que parecia verão, e soprava um vento quente do lado da Serra [noroeste]. Depois, na semana passada, deu três dias de chuva e vento frio; hoje está meio nublado e é possível que volte a chover.

Agora as laranjeiras estão em plena floração e as árvores estão literalmente brancas. O milho terminamos de colher no dia 20 de agosto; uma plantação de 17 quartas de semente rendeu 135 cargas, que foram despejadas no paiol. Ano passado foi plantada uma área menor e rendeu 195 cargas. Era porque naquele ano as espigas eram grandes, e este ano são menores, tanto que podem quase diretamente ficar para as vacas.

[NOTA: Espigas de milho pequenas eram chamadas de “restolho” e as vacas podiam comer direto sem perigo de se engasgarem e se afogarem, o que acontece com frequência com o gado.]

Este ano não foi um ano bom para o milho; em Orleans o preço da saca já está 6$500. Comprar milho para o gasto está fora de qualquer cogitação. Se faltar milho, os porcos vão passar somente com inhame, pois este ano eles não pegaram geada e na Bukovina em toda baixada está correndo água (mesmo em lugares em que nunca havia nascentes), então vai dar para passar.

Agora estamos derrubando uma capoeira lá perto do monjolo, mas você é um ignorante, não sabe mais nada daqui, então vou dizer que é lá onde antigamente tínhamos uma horta — assim é possível que você se lembre. Agora, como um morador de cidade grande, caso vier para cá você seguramente vai se perder logo no primeiro dia.

Quanto ao Rio Novo, vai indo de modo variado [em leto, “eet raibi”]. Os mensageiros da Convenção enfim voltaram, chegaram dia 14 de agosto. Como tinham saído no dia 31 de junho, você pode calcular quanto tempo eles ficaram fora.

A viagem foi boa, a falta de sorte foi com os meios de condução (navios) em todas ocasiões. O Robert ainda não esteve aqui em casa para contar as peripécias da viagem. Pode ser que ele tenha escrito minuciosamente para você. O Butler aqui na Igreja contou uma coisa e outra, que de modo geral a viagem foi boa.

Saíram na segunda-feira com informações de que haveria um navio em Laguna, mas lá chegando o navio já tinha levantado ferros e partido. Seguindo informações e palpites de que em Imbituba estaria um navio grande sendo carregado, no outro dia pegaram o trem e foram até lá, mas este também já tinha ido embora e para o outro lado, para o sul, Porto Alegre. Então voltaram: o Butler ficou em Tubarão, na casa do Ziguismundo Anderman, e o Robert e o Klava vieram até Pedras Grandes para visitar o Onofre.

Então na sexta-feira pegaram o “Max” da Karl Hoepke e foram até Desterro [Florianópolis], porque ele não segue mais longe. Mas ali souberam que havia um navio atracado na parte norte da ilha, e daí pegaram uma lancha a motor e conseguiram embarcar; mais dezenove horas e estavam em Paranaguá.

Resumindo, de Rio Novo até Paranaguá foi exatamente uma semana de viagem.

Sobre a Conferência não tenho muito que escrever, pois o Deter ainda não mandou as estatísticas e as atas [em leto, “protokulus”]. O Butler foi o presidente [dirigente] da Convenção e todos os dias havia três reuniões; os letos tiveram que cantar muito.

Os letos eram ao total quatro, porque veio também o Broks de Blumenau.

Depois das conferências ainda estiveram em Antonina e daí viajaram para Kuritiba pela mais bela estrada de ferro do Brasil. Ficaram então uma semana em Paranaguá e uma em Kuritiba. O Klava ainda viajou para São Paulo.

Curityba é uma bela cidade, só que falta muita água. Se de manhã você lava o rosto, à tarde não pode mais lavar porque não tem água.

Ainda estiveram em Blumenau: o Robert se acomodou na casa do Janausks e o Butler ficou com os Suti. Ambos moram perto da igreja. Mas eles não ficaram muito tempo por lá, porque foram também visitar a Linha Telegráfica, onde moram os Straus e outros pentecostais. Ali os cultos são “extraordinários”, pois de longe se pode escutar como gemem, correm de um lado para outro, andam de quatro, etc. Os nossos chegaram atrasados e assim não foi permitida a entrada; eles ficaram “apreciando” pelas janelas. O Butler disse que o comportamento deles nada tem com o movimento espiritual que ele conheceu nos Estados Unidos. Este mais parece certo povo que adora ídolos na Índia.

Neste mês vai haver a festa de aniversário da União de Mocidade. Estamos aprendendo a cantar todas as quartas-feiras à noite. O Oswaldo Auras é o dirigente que ensina. E nas noites dos últimos domingos de cada mês os jovens apresentam um programa livre, de partes práticas. Cada um pode apresentar o que quiser: poesias, partes musicais, opiniões, comentários, etc.

Durante as férias você bem que poderia viajar para casa. Falta pouco tempo para fazer três anos que estás longe de casa.

Você escreve que o Deter quer que você venha para o Paraná. Quanto isto vai custar? Sem 200$000 nem pensar, e de trem fica mais caro ainda. E porque ir para um lugar de pessoas estranhas? Nós pensamos que você poderia vir para casa ou então ficar na Escola como no ano passado. Mas ir para outros lugares nunca dissemos.

Agora os navios que vêm para Laguna tem a terceira classe, e esta não custa tanto quanto a dos grandes navios que aportam em Imbituba.

Nós o dinheiro vamos mandar, mas no correio de Orleans não tem aquele “vale postal” porque são muito poucas pessoas que mandam dinheiro daqui. Se existissem, seria muito prático e barato mandar por este sistema.

Você sabe se o Fritz Janausks vai viajar ou vai ficar aí mesmo? Hoje, 3 de outubro, enviei através do Pinho 100$000 e eles garantiram que desta vez vai chegar mais rápido do que na outra vez. Se demorar, podes perguntar lá se ainda e porque não chegou. Amanhã é dia da mala postal, pode ser que chegue alguma carta sua.

Se você não pode ficar aí, venha para casa. A Mamma não quer que você viaje para outro lugar.

Com lembranças,

Olga

O velho Zommer morreu no dia 20 | Olga Purim a Reynaldo Purim

[Cartão postal datado com o carimbo de Orleans: 12-02-1919]

Bem, agora tenho algumas novidades. O assunto é que o A. B. Deter logo virá para o Rio Novo. Essa novidade não era esperada, mas ele tem escrito para o Onofre que em breve gostaria de visitar a as igrejas batistas de Santa Catharina, sendo província vizinha, e ele morando em Curitiba. Essas igrejas precisariam ajudar a pagar parte das despesas de passagens e demais custos da viagem — a que nossa igreja [de Rodeio do Assucar] imediatamente e com alegria se prontificou. Ele também teria escrito para o Butler, da igreja do Rio Novo, mas não sabemos qual é a opinião dele sobre a vinda dele para cá. Também não consigo imaginar a opinião do Dr. Deter sobre a “maravilhosa mocidade” da igreja do Rio Novo, ou do restante do “grande” trabalho do Dr. Butler, nem do quanto é “importante” o lugar em que ele é pastor. No Rio Novo não é possível encontrar nenhum moço que não tenha uma guria debaixo do braço…

O Eduardo Karp [NOTA: Eduardo Karp se casaria mais tarde com Lucia Purim, irmã de Olga] voltou para casa antes das festas do Natal muito doente com um problema sério no estômago; segundo dizem está irreconhecível e continua de cama.

O velho Zommer morreu no dia 20 de dezembro na casa dos Grikis e o enterro foi no dia seguinte. Nos últimos tempos estava tão mal que não reconhecia ninguém e não conseguia se mexer.

O Jurgis Karklin, como já escrevi, está em casa, mas agora não se ouve a grande “prosa” contando aquelas grandezas, nem fala de ir embora. Parece que ele ultimamente não morava em Porto Alegre, mas sim em colônias próximas, simplesmente capinando batatas.

Bem, por hoje chega. Vou aguardar longa carta sua. Você deve ter agora bastante tempo livre, então aproveite: quero saber bastante de você e da tua vida. Com muitas lembranças,

Olga

Pelas ruas catando cadáveres | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 18 de dezembro de 1918

Querido Reinold!!

Recebi no dia 14 de dezembro a tua carta escrita no dia 28 de novembro; muito obrigado por ela. Fazia já bastante tempo que não tínhamos notícias suas, e por isso não sabíamos onde tinhas ficado nas férias. A carta de 18 de novembro foi extraviada, bem como a de 7 de outubro. Naquelas pode ser que tinhas informado onde estavas durante as férias, mas elas não chegaram. Ainda bem que agora já sabemos.

Eu não escrevi nenhuma carta, só mandei um cartão postal no dia 13 de novembro. O cartão postal que você mandou no dia 5 de novembro também recebemos. As cartas provavelmente se perdem, pois diversos navios não foram autorizados a entrar no porto de Laguna por causa de muitos passageiros com a “doença” [gripe espanhola]. Então, não admira que tantas cartas ficaram extraviadas.

Nós estamos todos com saúde. Ninguém de nós pegou essa doença. Aqui no Rio Novo alguns pegaram a gripe e em Orleans alguns já morreram, mas entre os nossos ninguém. Alguns tem tanto medo não saem da sua propriedade para não pegar a doença, mas eu vou freqüentemente a Orleans e não peguei nada.

Semanas atrás os Grikis estavam doentes, mas nada sério. O velho Sommers está muito doente, mas não com a gripe. Então a Luzija mandou papai fazer o caixão. Papai ficou lá nos Grikis o dia inteiro e a gente ficou preocupada pela possibilidade de ele ter pego a doença, mas nada. Bem que haveria de novo.

O Jurgis Karklim voltou para casa na semana passada, mas a grande máquina não foi vista correndo pelo Rio Novo; também luz elétrica não foi vista por aqui.

Ele contou que em Porto Alegre morre gente como moscas e que viaturas andam pelas ruas catando cadáveres — mais de mil por dia, o que impossibilita enterrar todos. Em São Paulo e no Rio também é igual; ele se salvou porque carregava um vidro de creolina junto ao nariz por todo tempo. Mas ele é muito papudo, muito prosa.

Bem, desta vez não tem nada de novo. Agora você poderá escrever bastante porque está de férias. Quanto a nós, não sei quando vamos chegar aos nossos “dias livres”.

Bem, onde você, mora e o que fazes? Quem te faz comida? O Inkis está lá? Este ano ele não foi para Nova Odessa? Em Nova Odessa este ano vai haver uma grandiosa festa de Natal com a inauguração do novo templo da igreja e a nossa igreja também foi convidada para as festas.

E o Jurka, não te escreve? Dizem que ele arrendou uma parte do terreno do Leeknim para plantar algodão. Dizem que o pessoal de Nova Odessa está muito feliz com a guerra porque o algodão está caro, mas eles que não se alegrem demais, pois com o fim vai baixar de novo. Então será como disse o Ernesto Sleengmann: quando baixar e não houver mercado, onde eles vão enfiar todo este algodão? Só se for para tecerem cordas para se enforcarem…

Negociantes de Orleans estão avisando que com os acordos definitivos do fim da guerra, tudo vai ficar mais barato. E os alemães realmente perderam a esta guerra. O que vai fazer o Grünfeldt. que dizem emprestou 100$000 Réis para a Alemanha ganhar a gerra? Pode esperar…

Você pergunta se estamos lendo os jornais. Eu e a Mamãe estamos lendo sim. Você deve renovar a assinatura para o ano que vem e pode mandar direto para o Rio Novo; se continuar assim, você redespachando, então poderia escrever recados pelas beiradas.

Você continua se correspondendo com o Ludi? Você sabe o que o grande “alemão” está fazendo agora?

Bem, agora chega. Vou aguardar uma longa carta. A censura devia parar de abrir as cartas pois a guerra já acabou.

Desejamos uma alegre Festa do Nascimento de Cristo e um Feliz Ano Novo.

Com sinceras saudações,

Olga [Purim]