Ernesto Grüntall – Recordações de João Reinaldo Purin

Ernesto Grüntall, Valfredo Purim e Alberto Karp no Rio Novo. Década de 1940.

Ernesto Grüntall era uma “figura” solitária que morava ao norte de nossa propriedade na colônia dos letos de Rio Novo e adjacências.

Nossa casa ficava numa subida que era conhecida como “o morro dos Purim”. A estrada, ao chegar em cima, se dividia. O local era conhecido como “encruzo” ou “encruzilhada”: à direita ia-se para Rio Carlota e à esquerda ia-se para Brusque do Sul. Caminhando-se uns cem metros, pela estrada cheia de pedras ferro pontiagudas, era a entrada da casa do Ernesto Grüntall. Havia uma porteira e, mais para dentro, uma casa de tijolos à vista.

Era tudo muito simples, uma vez que ele não tinha a menor preocupação com coisa alguma: estava sempre lendo alguma revista ou jornal antigo. Mais aos fundos havia uma olaria que nunca vi funcionando. Mais adiante ainda ele fazia algumas plantações que não davam para a sua subsistência, apesar de serem terras planas e uma grande área para cultivo.

Passados alguns tempos apareceu em sua propriedade e mais tarde veio morar na mesma casa uma senhora conhecida como Maria Bombazara, que nós chamávamos de “Velha Marica”. Usava óculos redondos, cabelos oxigenados e crespos artificialmente — lembro ter visto pela primeira vez, perto do fogão, uma espécie de tesoura ou tenaz que era aquecido no fogo para aquela finalidade.

A “Velha Marica” era bem ranzinza. Criava problemas com todos os vizinhos, inclusive com meus pais, nunca soube o por quê. Parece também que mexia com algum tipo de magia.

Pois bem, o Ernesto Grüntall era de um físico frágil, como se pode ver na foto 289. Tinha um andar lépido. Freqüentemente aparecia em nossa casa para conversar com a vovó Lizette, com papai [Janis] e os demais. Conversava bastante com o Valfredo, que poderá também relatar outras recordações. Era pacífico e muito bom de conversa, sempre querendo saber das novidades. Não me lembro de tê-lo visto nervoso ou criando problemas com quem quer que seja.

Lembro-me de que nos tempos da 2ª Grande Guerra, ao receber uma carta (creio que tenha sido a última de sua namorada, que se chamava Toska, que morava na Alemanha) veio feliz nos mostrar e lia alguns trechos que falavam de uma tal de “schlakfeast”, que se referia ao carnear porco cevado.

Também trazia jornais da Alemanha com um suplemento infantil em alemão — KunterBunt — de que ficávamos vendo as figuras. Era grande admirador do Fuehrer Adolf Hitler.

Outra lembrança que tenho do Ernestinho, como era conhecido, foi quando, certa vez, ao voltar da cidade de Orleans, entrou em nossa casa e contou maravilhado que tinha visto uma “máquina de moer dinheiro”. Era naturalmente a máquina registradora, que quando se rodava a manivela, a gaveta se abria para dar o troco.

Outra vez, não sei como, a conversa girou em torno de dentes. Ele então disse que não queria ter mais dentes, pois assim toda comida ia direto para o estômago… Meu pai, como sempre, por tudo isso achava muito engraçado e ria muito. O Ernestinho sempre dava a tudo um ar filosófico.

Pouquíssimas vezes aparecia na Igreja Batista Leta de Rio Novo ou em outros eventos da comunidade leta, tais como piqueniques, etc. Como já foi dito, era asceta, ou niilista, ou ateu ou coisa que o valha.

Saí de Rio Novo em fevereiro de 1954. Passados alguns tempos, soube que o velho Ernestinho havia falecido e que tinha sido sepultado no cemitério da Igreja Batista de Rio Novo. Foi nosso pai quem dirigiu o serviço do funeral. Não sei o que ele teria dito nessa ocasião a respeito dele.

Realmente o Ernesto foi uma “figura” ímpar. Um bom vizinho.

* * *

João Reinaldo Purin é pastor batista, sobrinho-neto de Reinaldo Purim e irmão de V. A. Purim, curador deste blog.

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